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segunda-feira, 23 de abril de 2012

DAS FLORES - II


O  ASFÓDELO




A presença de árvores, arbustos, flores e ervas nos mitos comprova, desde a mais remota antiguidade, a importância da ligação entre os seres humanos e o mundo vegetal. Os exemplos, inúmeros, podem ser colhidos em todas as tradições. Uma das mais belas ilustrações dessa ligação, por exemplo, pode ser constatada num baixo-relevo retirado de Farsala (a antiga Phtia homérica, capital do reino dos Mirmidões), hoje no Louvre, no qual Deméter e Perséfone trocam flores amorosamente, pondo-nos diante de temas como morte e renascimento.


DEMÉTER E PERSÉFONE

Os antigos poetas gregos, desde Homero, sempre entenderam que algumas flores tinham um claro sentido funerário, servindo de comunicação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. Neste cenário, destacava-se, mais que todas, o asfódelo. Qualquer grego que encontrasse essa flor não só no Keramikos (cemitério de Atenas, na antiguidade) , no Likavitos, o monte dos lobos (de onde se descortina a mais bela visão de Atenas) ou num jardim, num terreno baldio, ao longo de algum caminho, “sentia” ali, de alguma maneira, a presença da morte.


KERAMIKOS
LIKAVITOS

 Com raízes profundas, o ciclo vital dessa flor coincide com o da própria natureza, falando não só da morte, mas, também, de renascimento. Embora não citados no mito, dois tipos de asfódelo podem ser notados hoje, crescendo na paisagem grega naturalmente, dando dois tipos de flores Asphodeline lutea e Asphodeline luburnica, muito usadas na Europa central como flores ornamentais.


HASTULA REGIA
ASPHODELINE LUTEA
                                
Considerada a rainha das flores infernais, o asfódelo, perdendo a sua beleza no outono, dava à paisagem um aspecto meio sombrio, lembrando solidão e tristeza. Conta-nos a mitologia grega que as almas dos mortos que desciam ao Hades, conduzidas por Hermes na sua função de deus psicopompo, depois de atravessar o rio Aqueronte e julgadas, ficavam perambulando por um certo tempo antes de tomar o caminho para um destino final, eterno (Tártaro) ou provisório (Érebo ou Campos Elíseos), num prado coberto de asfódelos.


RIO AQUERONTE

Muitos que se referiram a esta flor aproximaram  etimologicamente seu nome da palavra latina cetro. A origem dessa ligação asfódelo-cetro, parece-me, está numa observação que Plínio, o grande naturalista romano, nos deixou, ao salientar que pela grande importância que a flor tem na mitologia do Hades ela só poderia ter sido criada por uma potência detentora de um cetro, divina. Hastula regia foi a expressão que usou. Em latim, hastula é palavra que designa o machado real, símbolo de poder, que alguns usam para designar também a flor.

O asfódelo faz parte da família das liliáceas. As flores desta família são geralmente bulbosas, contêm alcaloides, com rizomas ricos em fécula, cultivadas como ornamentais e usadas também para a alimentação e a elaboração de medicamentos. Há perto de vinte diferentes tipos de asfódelos, que se distribuem por toda a bacia do Mediterrâneo, sendo também encontradas da Ásia Menor à China.

HOMERO
Homero, na Odisseia, a chamou simplesmente de asfódelo do campo, ligando-a ao rapto de Kore por Hades, deus infernal. Ao aparecer nas margens de muitos rios gregos, foi utilizada poeticamente para representar as almas dos heróis mortos na guerra de Troia. As suas hastes nuas eram usadas para representar os exércitos que lutaram nas guerras e agora vagueavam sem destino às margens do rio Aqueronte, no Hades.

Aparecendo em tufos, com um odor desagradável, sombreada por traços violáceos, pintalgada, o asfódelo, pelo destino que lhe deram os humanos, reforçava essa associação infernal. As suas raízes, assadas, misturadas com figos, eram usadas na antiguidade como refeição servida quando do falecimento de alguém nos banquetes fúnebres. O costume, aliás, ainda é hoje notado em algumas regiões do interior do país.

Desde o período arcaico da história grega sabia-se da crença segundo a qual as almas dos mortos se alimentavam das raízes dos asfódelos, razão pela qual foram eles muito plantados nos cemitérios. Homero chamou de “desertos de asfódelos” a região habitada pelos mortos. Uma explicação para a proliferação dessas flores na paisagem grega era a de que as ovelhas e cabras costumavam evitá-las por causa de uma certa aspereza. Por isso, onde entrassem a vegetação original degenerava. Na vida do homem grego antigo, o asfódelo, apesar de sua beleza e do seu valor simbólico, era uma planta “ruim”. Florescendo entre abril e agosto, permanecia no outono ressequida, áspera, perdido todo o seu antigo esplendor. Na planície, porque crescia em desordem, os espaços por elas cobertos, depois de agosto, se reduziam a uma grande quantidade de hastes retorcidas, secas, a sugerir o mundo infernal. Entre a beleza e a desolação, lembravam, num primeiro momento, o esplendor de Kore que fora raptada na Sicília, num prado coberto de asphodelus albus, e, noutro, a terrível Senhora do Hades.

DIONISO


Segundo Teócrito (etimologicamente, o que julga as deusas), que viveu entre 315-250 aC, inspirador de Virgílio, o asfódelo tinha relação com o deus Dioniso, dos Mistérios de Elêusis. Nos antigos afrescos do santuário, apareciam coroados com a flor Deméter, Perséfone e o próprio Dioniso. Dentre outras referências míticas sobre  ela, há a que nos informa que no jardim que a deusa Hécate mantinha no Hades, para as suas ervas usadas na feitiçaria, os asfódelos ocupavam grande espaço.

                                                                                                                                                                                     
ASPHODELUS FISTULOSOS

Dentre seus vários tipos que aparecem na paisagem infernal, um dos mais citados é o asphodelus fistulosos, com pétalas elegantemente dispostas, estreitas, valorizadas por seu aspecto decorativo. Faziam parte da vegetação dos Campos Elíseos, lugar, como se sabe, onde as almas ficavam sem nenhum sofrimento aguardando o seu retorno à vida.

EPIMÊNIDES

Um dos mais curiosos registros sobre as virtudes da flor é o que nos dá a conhecer que Epimênides, considerado por muitos como um dos sete sábios gregos, usava-a juntamente com a malva para saciar a sua fome e a sua sede. Quem nos fala disso é Plutarco no seu Banquete dos Sete Sábios. Diógenes de Laércio, por outro lado, afirmava que por ter Epimênides só se alimentado com ervas e raízes teria vivido mais de 150 anos. Nascido em Cnossos, capital do reino de Creta, Epimênides vidente e poeta, é personagem cuja vida transcorre entre o mito e a história, sendo considerado por alguns como um dos fundadores do orfismo, juntamente com Onomácrito.


ILHA DOS MORTOS
Ainda no Hades, o asfódelo era encontrado também na ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte, rio que separava o mundo dos vivos do mundo dos mortos, e que devia ser atravessado pelas almas (eidola). Todavia, aqueles, cuja morte não se revestira de todos os ritos necessários à sua passagem para o Outro Lado, ficavam na ilha, governada pela Medusa. Isto colocava essas almas numa espécie de limbo, um estado entre a vida e a morte do qual jamais conseguiriam sair.

Outra ilha, Ogígia, citada por Homero na Odisseia, onde vivia a ninfa Calipso, é também famosa pelos asfódelos nela encontrados, num bosque sagrado, em meio à sua vegetação. Calipso, nome que etimologicamente lembra ocultação, desaparecimento (kalyptein, cobrir, ocultar, esconder), era aquela que ocultava, que fazia desaparecer, que tirava do convívio humano, uma metáfora do Hades, mais exatamente dos Campos Elíseos.

Apaixonada por Ulisses, tentando fazê-lo esquecer Ítaca, a bela Calipso desejava retê-lo, dando-lhe em troca a imortalidade. Na tradição mítica, muitas ilhas, como se sabe, eram habitadas por

ULISSES E CALIPSO
mulheres que possuíam poderes temíveis, associados aos mistérios e à magia. Separadas do todo, as ilhas eram, ao mesmo tempo, promessa de vida paradisíaca e vida infernal.

Além do mais, Calipso era uma fiandeira, como as Moiras; passava os seus dias a fiar, em companhia de várias ninfas, que cantarolavam docemente. O canto, no mito, é um dos grandes artifícios da sedução. Lembre-seque as Sereias eram chamadas de as “crueis cantoras” porque causam a perdição de todos os navegadores. A vida e a morte estão intimamente ligadas à ideia de fiar, de tecer. Não é por acaso que falamos em tecidos do corpo. Vida tanto é tecido como trama.

Homero nos deixou claro que o maior bem dos heróis da Idade do Bronze era o prazer de sua timé, da consideração pública. Não lhe interessava uma consciência tranquila, mas, sim, acima de tudo, o reconhecimento e o respeito da opinião pública, baseada na sua arete, habilidade guerreira. No caso de Ulisses, algo mais, a sua grande astúcia e prudência, polymetis. Ficar em Ogígia, para Ulisses, era morrer, virar uma sombra, skia, como os mortos do Hades.
 
CALÍMACO
VICTOR   HUGO
Dentre os poetas gregos, além de Homero, atraídos pelo asfódelo, não podemos esquecer um dos melhores, Calímaco (315-240 aC), que, em Alexandria, pontificou na corte dos Ptolomeus. Mais perto de nós, dentre outros, no século XVIII, citemos André Chénier (filho de mãe grega); no séc. XIX, Edgar Alan Poe, Charles Baudelaire, Victor Hugo, Leconte de Lisle e Gabriel Dannunzio; no séc. XX, o grego Georges Séféris (muito influenciado pelo simbolismo francês; Jorge Luiz Borges, William Carlos Williams e Allen Ginsberg.
Todos, de uma forma ou de outra, foram      atacados pela mesma doença que vitimou
VIRGINIA  WOOLF
GEORGES   SÉFÉRIS
Virginia Woolf a maior vítima e seu andrógino personagem Orlando, como ela o descreve na sua novela de mesmo nome, doença provocada, segundo o texto, “por um germe que se dizia nutrido do pólen do asfódelo, soprado da Grécia ou da Itália, e de natureza tão fatal que fazia tremer a mão pronta a ferir, nublava o olhar que procurava a presa e tolhia a língua que declarava amor. Era da fatal natureza dessa moléstia substituir a realidade por um fantasma, de modo que Orlando, a quem a fortuna concedera todos os dons – prataria, lençaria, casas, criados, tapetes, leitos em profusão – com o simples abrir de um livro, ficava com toda essa vasta acumulação reduzida a nevoeiro (Orlando, trad. de Cecília Meireles).”
 


ROBERT ALTMAN
Por fim, não podemos esquecer de uma    das maiores vítimas do “germe do pólen do asfódelo”, o cineasta americano Robert Altman,
ASPHODEL
que com seu derradeiro filme, A Última Noite, obra-prima de sensibilidade e inteligência, nos deixou uma das melhores “leituras” do Hades grego e da famosa flor. A crítica cinematográfica oficial, no geral muito desinformada, não alcançou, digamos, o ângulo mítico do filme e o sentido do personagem Asphodel, o Anjo da Morte, representado por Virginia Madsen. A critíca americana viu no personagem apenas uma “dangerous woman”, no que foi seguida pela crítica brasileira. Dois meses depois de terminado o filme, Robert Altman faleceu (20/11/2006).


 

sexta-feira, 18 de março de 2011

O EROS FRIO

OS LIBERTINOS


Nascido do Caos, juntamente com Geia, Nix, Érebo e o Tártaro, conforme Hesíodo nos descreve em sua Teogonia, Eros (Cupido ou Amor para os romanos) é a força primordial que vai promover a união das quatro primeiras entidades para que o Cosmos se estabeleça. Eros quer dizer estar inflamado, arder, abrasar. No entender de mitólogos, poetas, filósofos e artistas, Eros é uma força fundamental que provoca não só a constituição do Cosmos como garante a sua continuidade. É pulsão que incita a busca do outro como libido, impelindo à ação, atualizando as virtualidades do ser.

O Eros se confunde com o desejo e é nesta perspectiva que Platão, numa alegoria, como está num de seus diálogos (Simpósio), o vê como filho de Penia (Carência, Pobreza) e de Poros (Artifício, Expediente). Ou seja, uma falta causadora de sofrimento, que, através de um meio, procura satisfação. Representado por um adolescente, sempre inquieto, inconsequente, com arco e flechas, símbolo de seu poder que tudo invade, promove a união de todos os seres, inclusive dos que jamais deveriam ter se unido. Dispara as suas flechas, muitas vezes, com uma venda nos olhos, a esmo, pois o “amor é cego”. Confunde-se Eros com o próprio desejo. Seu objetivo maior é a conquista, a posse, tendo em vista uma plenitude que se esgota no próprio momento em que acontece.

Apressado, inconstante, insatisfeito sempre, uma de suas características mais notáveis é a de procurar presentificar tudo. Para ele, o futuro é o presente, o instante, não sabendo nunca esperar. Seu elemento, como se percebe, é o fogo, que sempre lembra expansão, uma exteriorização dinâmica, incessante. A significação sexual do fogo sempre foi destacada em todas as culturas, não se podendo esquecer que a primeira técnica que o ser humano criou para gerá-lo foi a fricção, um vai-e-vem que é a imagem do próprio ato sexual.

Ao longo dos séculos, por razões sociais, políticas e econômicas, o homem, ao se organizar em sociedades cada vez mais complexas, precisou controlar essa energia, discipliná-la de algum modo, pois, do contrário a vida em sociedade se tornaria impossível. Relações humanas pedem reciprocidade, acordo, atenuação das individualidades. Pessoas em cuja personalidade prepondera o elemento fogo, como se sabe, tendem a se impor naturalmente às demais. É delas serem mais impulsivas, agressivas, terem mais iniciativa. Sem nenhuma contenção, regras, leis, a prevalecer só o Eros, isto é, os desejos unilateralmente, não teremos vida social.

A criação de um padrão de comportamento que colocasse o Eros numa perspectiva de reciprocidade foi então criado. Refiro-me a Afrodite, deusa que, como arquétipo, ligado ao elemento água, tem por função a sublimação das formas eróticas de união, retirando-as de um nível instintivo, para colocá-las numa dimensão especificamente humana. Com Afrodite, a deusa do amor, não mais o desejo unilateral.

Difícil, porém, o controle de Eros por Afrodite. Eros é o desejo que não sabe se esconder, sempre procurando chegar ao seu objetivo, valendo-se de todos os artifícios para tanto. Apesar da vigilância da deusa, incontáveis as ocasiões em que Eros dela escapa. Ao longo da história da humanidade, o diálogo Eros-Afrodite ganhou inúmeras expressões na Arte, na Filosofia, na Política, na Psicologia, conforme as épocas.

No século XVII, na França essencialmente cristã, sob a dinastia dos Bourbon, uma corrente filosófica de livres-pensadores, cuja ideologia fincava as suas raízes no naturalismo pagão da Renascença, assume socialmente o partido de Eros, levando suas propostas éticas e morais às últimas consequências. Audaciosos, eram chamados de libertinos. De início, reprimidos, encontraram logo, por um certo enfraquecimento do poder central do país, ocasião para que as suas idéias viessem à luz.

É entre os chamados “mundanos”, aristocratas cultos e viajados, que esta moda se manifesta inicialmente. Famosa era, ao tempo, Ninon de Lanclos, que pontificava nos salões, por sua declaração pública de que era um “ser sem alma”. Ninon (1616-1707) era bela, culta, amante de poderosas figuras do país. A nobreza e a elite do dinheiro, em grande parte, ridicularizavam as cerimônias cristãs, os “bons costumes”. Espirituosos, lidos, cultos, sofisticados, os grandes senhores e senhoras eram livres tanto intelectualmente quanto com relação às suas atitudes e comportamento. Um exemplo disto esta na descrição que Sganarello, personagem de D.Juan, peça de um dos maiores gênios do teatro de todos os tempos, Molière, faz de seu mestre.


Na Filosofia, esse movimento, chamado “Incredulidade” ou “Libertinagem”, se manifestou menos abertamente, menos escandalosamente. Era mais intelectual, ficava no campo das idéias, no fundo, porém, tão ou mais destrutivo para os padrões do tempo que a sua forma mais aberta, aristocrática. Os pensadores do movimento propunham que se submetessem ao livre exame as verdades reveladas pela religião e tudo aquilo que delas decorresse socialmente. Incrédulos, céticos, formavam o grupo dos “libertinos eruditos”. Faziam parte do grupo, dentre outros, Gassendi, Théophile de Viau e Saint-Évremond. Montaigne, Bayle e Fontenelle também poderiam ser nele incluídos no grupo.

MOLIÈRE
O D.Juan de Molière é apresentado normalmente como um dos modelos do libertino. No séc. XVIII, a Libertinagem desenvolverá uma estética com base numa filosofia naturalista e imoralista, cujos melhores exemplos são o Marquês de Sade e Pierre Choderlos de Laclos. Filosoficamente, à época, a palavra libertino designava um ser livre e que fazia disso o seu modo de ser. Posteriormente, logo, num ambiente mais “popular”, tomaria o sentido de conduta desregrada, desavergonhada, depravada.

No séc. XVII, a divisa desses seres libertos era Vivre comme des dieux. Blasfemadores, agressivos, muitos entregavam-se a um epicurismo de baixo nível. Sua meta era de fazer do mundo um paraíso onde tudo fosse possível. Para os seus inimigos, os bien pensants, de idéias conformistas e tradicionais, eram uns insubmissos, uns criminosos. O que os libertinos mais buscavam eram comportamentos que contrariassem as regras morais e políticas. Todos os recursos poderiam ser usados para tanto, esperteza, trapaça, uso de máscaras e, quando conviesse, conforme as circunstâncias, parecer uma coisa e ser outra, sempre tendo em vista o prazer final. É numa sociedade controlada, como a francesa, que esse modo de ser aparece no séc. XVII e vai se desenvolver no séc. XVIII. Deboche, insensibilidade, insubmissão.

No séc. XVII, libertino é o que está pronto a se bater, a acabar até na prisão, a ser atirado até às fogueiras, para afirmar a sua liberdade de pensar. Pensar contra o poder dominante, a religião católica monoteísta que legisla, dirige e condena. Depois, como se verá, a Libertinagem se estenderá à vida cotidiana, às relações sociais, aos costumes, chegando-se logo à licenciosidade e desta à licença sexual. Sempre, uma maneira de pensar e agir contra o pensamento e a ordem dominantes.

Um dos aspectos que a Libertinagem toma é o Preciosismo, um fenômeno tanto social como moral e artístico (literário), já presente na primeira metade do séc. XVII. Este fenômeno se revela através de uma atividade mundana incessante nos salões aristocráticos, em meio a recepções, festas, grandes acontecimentos. Conversação elegante, quase sempre superficial, galanteria. O Preciosismo como movimento é uma reação social contra o mundo anterior, grosseiro, quase que todo voltado, entre as elites mais conservadoras, para prazeres esportivos, caçadas, cavalos.


O movimento se opõe à natureza bruta, à vulgaridade do instinto. Para tanto, colocará em moda um vocabulário de palavras afetadas, uma polidez complicada, perfumes esquisitos, ritualismo. A grande ocupação era o amor, superior, onde os sentidos não entravam muito. Era, no fundo, mais o desejo de distinção aristocrática pela linguagem. Afastar as palavras e expressões populares, os termos vulgares, empregar eufemismos, perífrases, o pensamento mais sutil.

Na literatura, de modo especial na poesia, procurar sempre a perfeição da forma. Como gêneros, o epigrama, o madrigal, o soneto, o rondó e uma intensa troca de correspondência epistolar. Usar antíteses, jogo de palavras, metáforas ricas, alusões, símiles, assonâncias. Tudo muito recherché (rococó), abstrato, nada que machucasse o ouvido. Sempre, por outro lado, a ameaça do exagero, da afetação, do artificial, do pedante. Todo esse movimento se volta também contra as expressões artísticas inspiradas pelo catolicismo.

É certo que São Francisco de Sales e que São Vicente de Paula, já no séc.XVI, haviam tentado uma reforma da Igreja Católica, de suas ordens monásticas, como haviam procurado melhorar o sacerdócio como instituição, promovendo a educação dos padres, incentivando o seu aperfeiçoamento moral, pedindo uma caridade mais ativa. Mas isto foi muito pouco, quase nada. O que havia no séc. XVII, por parte do mundo cristão, era tradicionalismo, conservadorismo, visão estreita dos problemas sociais do tempo.

Além do mais, não podemos esquecer que apesar das tentativas de reforma ou de remodelação da vida social e dos costumes, os aristocratas, principalmente os seus representantes masculinos, na sua grande maioria, permaneciam fixados no seu egoísmo, agressivos, indiferentes, voltados para as suas prerrogativas de machos, apoiados pela Igreja. Os jovens da nobreza passavam algum tempo nos salões, mas grande parte do ano ficavam presos à vida militar, tendo como diversão lutas de espada e cavalos. O Preciosismo era uma espécie de ângulo feminino desse mundo em ação. Molière, em A Escola de Mulheres falará disso.

É neste mundo que a corrente livre-pensadora ganha força do séc. XVII para o XVIII, atualizando o paganismo renascentista e anunciando o movimento filosófico da Enciclopédia. Embora a audácia dos libertinos no começo do séc.XVII tenha sido reprimida até com mortes, o movimento tomou corpo, firmando-se. Um dos lemas do movimento era “A possibilidade de ensinar os homens a serem felizes.”

Charles Sorel, romancista e polígrafo do século, diz “encontrei um meio de os fazer viver como deuses, se seguirem o meu conselho.” Para isto era preciso fazer tábula rasa das crenças comuns e não ter por valor moral senão a generosidade da alma. Ou seja, amar os prazeres do amor, viver uma experiência de voluptuosidade dentro das relações de amizade.


O movimento se reúne em torno de centros como aquele idealizado por Rabelais no seu Gargantua, a “Abadia de Thélème”, uma comunidade que tinha por divisa Fay ce que voudras (fazei o que quiserdes).


Os libertinos do século passaram então a se reunir em torno de um centro que recebeu o nome de “Académie Putéane”. No plano da afetividade, evocar a felicidade, que significará viver num mundo que não conheça a posse do outro nem a ambição. Um verdadeiro libertino não poderia tolerar que os dogmas se sobrepusessem à experiência nem que as paixões à razão. As paixões transformavam o prazer em tormento.

O séc.XVIII é de agitação social, de perturbações políticas, de crises na economia. Como sempre, nesses períodos, os salões aristocráticos resplandecem, a sociedade se torna mais mundana, brilhante. A conquista amorosa tem agora um novo código. As relações amorosas viram um jogo dramático. É a libertinagem como proposta total de vida. Nesse sentido, dois escritores se destacarão no século, ambos ligados à vida militar. Um é Donatien Alphonse François, conhecido como o Marquês de Sade (1740-1814), dono de uma biografia repleta de escândalos. Radicalmente subversivo, contesta todo o sistema baseado no princípio da autoridade em nome de uma vontade de poder que se exerce pela violência em todos os sentidos, inclusive sexual.



A libertinagem de Sade, vivida inicialmente como privilégio aristocrático, recrudesceu a partir de 1768. Depois de uma série de escândalos e de condenações, Sade foi encarcerado e condenado à morte. Fugiu da prisão e novos escândalos o obrigaram a fugir para a Itália. Retornando à França por causa da mãe, moribunda, foi preso. Escreveu vários textos, como o Diálogo entre um Padre e um Moribundo, Os Infortúnios da Virtude, Justine, Cento e Vinte e Oito Dias de Sodoma, A Nova Justine, História Secreta de Isabel da Baviera e outros. Num certo sentido, a obra de Sade poderia ser ligada à Filosofia, pois ele se destaca, dentre os escritores libertinos, por colocar questões e teses sobre a subversão social muito mais pela violência do que pela via sexual.


O maior expoente da Libertinagem no século é, entretanto, Pierre Choderlos de Laclos (1741-1823). Oficial do exército, estrategista, questionou toda autoridade em proveito do prazer. Sua obra mais conhecida, As Ligações Perigosas, é um verdadeiro tratado do Mal. Seus personagens são inesquecíveis, Valmont, Mme. de Merteuil, Mme. de Tourvel... Sempre, nele, os tormentos da paixão de um lado, e, de outro, a vida racional, o “Eros frio”.

Para Laclos, a principal regra no jogo da Libertinagem, na síntese feita por Roger Vailland (Laclos par lui-même) é a observância da sua máxima e estrita virtude: “Sempre em ação, sempre seduzindo, nunca seduzido.” A seguir, as regras: 1) a escolha deve ser sempre meritória; 2) a sedução-ação, como na caça com cães, deve dar todas as chances à mulher a ser perseguida; 3) quanto à queda, executar esta etapa com muita clareza e sem muitas fioritúre, floreios, variações; 4) na ruptura, o mérito está no éclatant (brilhante). Ou seja, romper em grande estilo. Esta etapa é sempre um grande desafio para o libertino, nada de ternuras, romper de tal modo que a vítima deva procurar a morte, real ou simbólica.

Como corolários, a Libertinagem: 1) deve ser o contrário do amor-paixão. O contrário, por exemplo, de La Princesse de Clèves ou de Manon Lescaut. No entender do libertino, o amante apaixonado não escolhe. O deus Eros lança a sua flecha e ele capitula. Esse coup de foudre para um verdadeiro libertino é sempre muito vulgar. 2) O libertino não deve ser um coureur, isto é, não deve viver de um lado para outro, excitando-se por qualquer mulher. O “alvo” deve ter valor, sua conquista deve ser meritória (mulheres que são monumentos de virtude). Por isso, o alvo deve ser escolhido livremente, com muita calma, com a devida apreciação e avaliação. 3) A Libertinagem caminha no sentido contrário do amor erótico. Sexo é termo da biologia (não foi por acaso que uma sociedade tão imatura e primária como a norte-americana inventou essa idiota palavra, sexy, algo impensável para o libertino). O libertino jamais usa a palavra sexo. 4) A Libertinagem exige longa formação, exercício permanente, aperfeiçoamento constante. 5) A execução deve ser magistral, nada de pedantismo, orgulho, ufanismo. A arte pode admitir a cumplicidade, a mais terna das ligações para um verdadeiro libertino.

A Marquesa de Merteuil explica, na sua carta 81, com autoridade marcial, que a educação libertina procura dar à pessoa o controle do seu ego. Para ser um libertino, devemos aprender a dominar as nossas emoções, tornarmo-nos mestres dos nossos sentimentos. A paixão sempre é um elemento perturbador do jogo libertino. A agitação é também inimiga da volúpia. O sonho de muitos libertinos: permanecer em liberdade, apenas algumas amizades escolhidas, não se dispersar. Procurar então a “honesta” volúpia, de modo a esperar serenamente a morte. O libertino não vê nenhum proveito na mortificação dos sentidos. Por isso, sente grande felicidade ao usar formas variadas de prazer. Uma citação muito difundida: “O sábio dos estoicos é um virtuoso insensível; o dos epicuristas, um voluptuoso imóvel.” Para o libertino, o primeiro está na dor sem dor; o outro saboreia a volúpia sem volúpia. E, arrematando: “Todo solitário é sempre uma figura sinistra.”

Nada, por isso, de enfeitar, alongar muito o jogo. Tudo rápido, eficaz. O libertino lembra que uma palavra pode assegurar uma reputação ou levar à ruína. A paixão subjuga, escraviza. Coloca quem a sente num estado de sofrimento. Todo apaixonado é um abatido. Escolher, pois, livremente o objeto da chama. Por isso, sempre sujeito, nunca objeto. Autodomínio completo. Buscar a aquisição de novas técnicas, usar muita criatividade, lucidez acima de tudo. Enfim, nada de ilusões ou vaidade com relação às vitórias.