Mostrando postagens com marcador ÍCARO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ÍCARO. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de novembro de 2018

AQUÁRIO (3)


AQUÁRIO
(JOHFRA BOSSCHART, 1919-1998 
Os aquarianos de todos os matizes precisam saber que o arquétipo do demiurgo tem origem no mundo aquariano, tanto como o encontramos mais ou menos definido no léxico do homem comum, na filosofia ou na religião. A palavra demiurgo, como se sabe, é grega, formada por dem, demos, povo, e por ergon, trabalho. Ou seja, demiurgo é o que trabalha para o povo, um benfeitor, se quisermos, servindo o termo na antiga Grécia para designar não só o artesão, o médico, o inventor como o criador de qualquer obra de importância ou grandiosa que poderia ser usada por muita gente. 


PLATÃO
Foi Platão, no Timeu, quem pôs em circulação a palavra demiurgo na filosofia, para designar o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através das imitação de modelos eternos e perfeitos (os chamados eide, de eidos, forma). Posteriormente, nas seitas cristãs de inspiração platônica e no gnosticismo, demiurgo será o intermediário de Deus na criação do universo, responsável pelo mal que há nele e que à divindade não poderá ser atribuído.

Não podemos, por isso, deixar de trazer para a nossa consideração o mito grego que melhor ilustra o que está acima, o de Dédalo e de seu filho Ícaro. É neste mito que encontramos os aspectos fundamentais que definem a dupla característica criadora do signo de Aquário, o impulso que pode salvar e o impulso que pode trazer a perdição. 

Dédalo foi um artesão ateniense, famoso como arquiteto, escultor, inventor  consumado, podendo ser considerado, dentre outras coisas, como um precursor da robótica. Seu nome significa engenho, obra-de-arte. Era filho de Eupalamos, nome que quer dizer aquele que é hábil com as mãos. Consta que, por ciúme, numa crise tipicamente leonina, matou um sobrinho, dotado de enorme capacidade criadora, sendo obrigado, por isso, a buscar o exílio em Creta.

SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE CNOSSOS


Acolhido por Minos, rei de Creta, tornou-se Dédalo o arquiteto oficial do reino, sendo responsável pela construção do Labirinto em Cnossos, gigantesco palácio constituído por um emaranhado de salas, corredores e subterrâneos. Foi nele que Minos mandou encerrar o Minotauro, monstro que sua mulher gerara incestuosamente ao se unir a um touro divino. Este animal fora enviado pelo deus Poseidon a pedido de Minos, um sinal divino que o confirmaria como único imperador de Creta, afastadas assim as pretensões de dois irmãos que com ele disputavam o trono. O animal foi enviado por Poseidon com a recomendação de que deveria ser sacrificado tão logo se mostrasse, resolvendo-se assim a  pendência. Minos, como sabemos, levou ao sacrifício um animal muito inferior, conservando o touro divino como reprodutor com o objetivo de fazer crescer ainda mais o seu grande rebanho e a sua incomensurável fortuna. 


LABIRINTO 

PASÍFAE  E  O  MINOTAURO
Os deuses puniram Minos, fazendo com que Pasífae, a rainha, concebesse uma paixão erótica irresistível pelo animal. Para consumar o seu intento, ela pediu a Dédalo que construísse um simulacro feminino do touro divino para que, entrando nele, pudesse se satisfazer sexualmente. Assim aconteceu, nascendo desse estranho conluio o Minotauro, monstro com corpo humano e cabeça de touro, que foi escondido nos subterrâneos do palácio. Minos, por sua vez, puniu Dédalo, que, sem consultá-lo, atendera ao que Pasífae lhe pedira, mandando-o para a prisão, juntamente com o filho Ícaro (etimologicamente, aquele se balança no ar), nascido de uma relação que mantivera, sem nenhum preconceito de classe, muito aquarianamente portanto, com uma escrava. 


ARIADNE, TESEU, MINOS
Outro ato lamentável de Dédalo com relação a Minos foi o auxílio que prestou à princesa Ariadne sem o seu conhecimento, fornecendo-lhe o famoso novelo de lã que seu amado, o herói ateniense Teseu, usou para se salvar do Labirinto, depois de matar o Minotauro. 

Deter um aquariano como Dédalo foi, sem dúvida, uma ingenuidade do rei, que subestimou a sua capacidade inventiva. Embora prisioneiro, Dédalo conseguiu fabricar, com penas de pássaros, entretela e cera, asas para si mesmo e para o filho, que presas às costas e acionadas pelos braços lhes permitiriam escapar da prisão. Ao filho fez a famosa recomendação: Não te aproximes demais do Sol; desconfia do teu entusiasmo ao voar, já que te sentirás tão livre e feliz nos céus como um pássaro que poderás correr o risco de chegar muito perto do Sol, fazendo com a cera de tuas asas derreta. Desconfia também do nevoeiro e da chuva fina se não quiseres que as penas de tuas asas, molhadas, se tornem muito pesadas e não mais sirvam para te transportar. Ícaro ouviu atentamente o pai, largou-se pelos ares, mas logo, vitimado pela conhecida embriaguez das alturas, aproximou-se perigosamente do Sol. As asas se despregaram de suas costas, caindo o jovem no mar, perecendo afogado. Em sua homenagem, o mar, na região de sua queda, passou a ser chamado de mar de Ícaro. 


ÍCARO  ( PETER PAUL RUBENS , 1636 )

Uma outra versão, porém, nos conta que, auxiliados por Pasífae, Dédalo e Ícaro conseguiram fugir de Creta, depois de ela ter se reconciliado Minos. Sabe-se por esta versão que pai e filho, cada um num barco, conseguiram sair da ilha em dias diferentes. Os barcos (modelos até então inexistentes) foram construídos por Dédalo, que para eles inventou uma vela especial. Ícaro, todavia, não conseguiu conduzir adequadamente a sua embarcação, que naufragou, morrendo afogado. Dédalo, por seu turno, perito na arte de navegar, conseguiu chegar a uma ilha desconhecida, nunca registrada antes em qualquer carta náutica. Em homenagem ao filho falecido, Dédalo a denominou Icária.

Dédalo refugiou-se a seguir na corte de Cócalos, rei da Sicília. Tomando conhecimento do local onde estava o genial inventor, Minos foi pessoalmente pressionar Cócalos para que Dédalo lhe fosse entregue. Mas o rei da Sicília a essa altura já havia sido conquistado pelo talentoso arquiteto, que construíra para ele uma cidadela inexpugnável na ilha, além de ter criado para divertimento de suas filhas soberbos autômatos, grandes bonecas que agiam como seres humanos. Diplomaticamente bem recebido por Cócalos, Minos hospedou-se no palácio. Convidado para um banho, o marido de Pasífae ao entrar na banheira real, mais uma pequena piscina, foi surpreendido por repentina mudança da água,que descia pela tubulação,em pez fervente, mais uma diabólica invenção do genial Dédalo. Outras versões, porém, muito malévolas, nos informam que foram as jovens e belas filhas do rei Cócalos que mataram Minos, pois não queriam, em hipótese alguma, abrir mão dos talentos do genial inventor que tanto as divertia com os seus mecanismos eróticos. Armaram uma festa, embebedaram Minos, e o afogaram na piscina. Um triste fim, sem dúvida, para um tão poderoso rei...


HERMES
Dédalo aparece no mito, acima de tudo, como um símbolo da engenhosidade e, como tal, é uma encarnação de certos aspectos do deus Hermes, o grande arquétipo no qual se concentram todas as características daquilo que chamamos de engenho, a capacidade de criar, produzir com arte e  habilidade alguma coisa, na qual podem entrar, nas expressões menores, o artifício, o estratagema, a astúcia, o provisório e mesmo o engodo. Lembremos em abono do que aqui que se coloca neste parágrafo que astrologicamente Mercúrio se exalta em Aquário, sendo inclusive regente do terceiro decanato do signo.

Há que se destacar, porém, como um traço importante da personalidade de Dédalo, com as implicações do arquétipo hermesiano, que ele, ao construir o Labirinto, deu simbolicamente forma a uma parte do psiquismo humano, àquilo que a psicologia chamaria mais de tarde de subconsciente. Segundo este enfoque, o labirinto teria relação com o fenômeno da vida psíquica que a psicanálise chamou mais tarde de recalque, mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ela ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

FIO DE ARIADNE
A palavra labirinto, todavia, faz parte de um campo semântico bem mais vasto. Numa leitura religiosa, serviria o labirinto para alegorizar o mundo como descaminho, como queda e perdição do espírito na dispersão e na perplexidade diante da vida fenomênica. A redenção só seria possível se fosse encontrado um meio de se sair dele (o fio de Ariadne). O labirinto pode servir também como a ilustração do mundo do erro, uma representação daqueles que vivem vegetativamente. Quando nascemos, entramos nele e nele permaneceremos, desorientados e aflitos, até que nos tornemos pessoas “cosméticas”, que nos voltemos para a luz, buscando uma posição na ordem cósmica. 


LABIRINTO  DE  CHARTRES
Em muitas tradições, a entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Mais: o labirinto pode representar o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Em catedrais europeias, como a de Chartres, encontramos labirintos esculpidos na pedra do seu chão para representar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos, nas catedrais, eram chamados de “caminhos de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e a arte rococó, em muitos parques públicos e privados (castelos), principalmente na França, transformaram os labirintos, de esquemas relativamente simples, em verdadeiros dédalos (sinônimo de labirinto muito complicado para os franceses) de vegetação alta e espessa com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

Miticamente, Dédalo é um dos mais ilustres representantes do signo de Aquário; de um lado, superlativamente, ele é o modelo mais bem acabado do inventor, do construtor, do artífice consumado; de outro, na sua expressão inferior, ele é o homem da bricolagem, palavra herdada do francês, que significa a montagem ou a instalação de qualquer coisa feita por pessoa não especializada, não habilitada. Bricoleur é aquele que, embora não especializado, executa trabalhos e reparos, muitas vezes caseiros, que podem acabar dando certo ou não. No geral, bricolagem, é
THOMAS  EDISON
também uma arte de natureza aquariana voltada para a montagem ou combinação de elementos diversos. Quando pensamos em Dédalo lembramo-nos, por exemplo, de aquarianos como Thomas Edison. Como sabemos, ele, muito jovem e inculto, com mínima escolaridade, deixou ao morrer um currículo onde estão relacionadas mais de mil invenções. Aspecto interessante da personalidade desse aquariano era a sua famosa insônia, problema muito comum nos do signo, no qual o planeta Urano tem seu domicílio.


É creditado a Dédalo um grande número de construções, descobertas e invenções. Ele teria concebido o templo de Apolo em Cumes, decorando-o com afrescos que, dizia-se, ilustravam as várias etapas de sua existência. Na Sicília, teria construído uma barragem no rio Alabas para represar água quente, de origem vulcânica, destinada a um balneário, também por ele construído. Em Agrigento, teria dirigido a construção de uma grande fortaleza, o terraço do templo de Afrodite em Eryx.

Além de grande construtor, interessou-se Dédalo pela arte da navegação, tendo construído muitos barcos e inventado velas especiais. Diz-se que o machado cretense foi criado por ele, o que o
MACHADO CRETENSE
torna autor do símbolo do império minoano, o labrys, dois machados cruzados (labrys é machado em grego), encontrados em bandeiras, estandartes, velas de barcos e, como marca comercial, nos produtos que eram fabricados na ilha, tecidos, cerâmica etc. Devemos ainda a Dédalo, segundo o mito, a invenção da broca, da verruma, do fio de prumo e de uma cadeira flexível, dobrável, encontrada no templo de Palas Atena Polyade. Não podemos esquecer ainda os famosos servomecanismos (autômatos) que construiu e espalhou pelos lugares por onde passou, sendo, nesse sentido, o grande precursor da robótica, como se disse. Os mais exagerados atribuíram a Dédalo a autoria dos projetos de construção das pirâmides egípcias e do templo do deus Ptah em Menfis. 


DÉDALO
(ÍCARO CANOVA, 1757-1822
Se à história de Dédalo e de Ícaro juntamos a de algumas personagens da mitologia grega, como a de Prometeu, por exemplo, o famoso titã, o filantropíssimo, um dos grandes traços da personalidade aquariana ficará bastante evidenciado. Referimo-nos a uma forma de hybris (orgulho, desmedida), muito comum em alguns representantes do signo, a de tentar sempre a superação de certos limites; a mania de bater recordes, de serem únicos, um reflexo leonino, signo oposto, sem dúvida. Esta hybris, em muitos heróis gregos, se caracteriza pela pretensão que apresentam no sentido de se igualar ou mesmo de superar os deuses. 

Um antiquíssimo sonho dos homens, como o encontramos em muitas literaturas, é o de não só se igualar à divindade como o de ultrapassá-la nos seus aspectos criativos através de inventos que deem aos homens formas de elevação (arranha-céus, torres, asas, balões, foguetes, naves espaciais, asa delta etc.), levando-os a tomar posse dos céus. Mas Ícaro, recordemos, conheceu a queda, esquecido de suas limitações. Pretendeu atingir o Sol, símbolo da vida espiritual, por meios técnicos, meios completamente inadequados para esse fim, como a humanidade vem constatando, aliás, tristemente, mas sem entender a lição.

A história de Ícaro, “aquele que conheceu a queda”, ilustra o velho ditado de “o aprendiz de feiticeiro”, ou seja, daquele que perde o controle dos elementos que libera e que julgava ingenuamente poder controlá-los. As descobertas técnicas patrocinadas pelo impulso aquariano já presentes neste final da era de Peixes, as invenções, o fabuloso avanço da ciência, da tecnologia, da medicina, da informática, por causa da contradição apontada, vêm trazendo grandes riscos, que os homens costumam  ignorar. 

Recordemos que a correta visão astrológica sempre nos disse que em Aquário há uma desconcertante mistura de ingenuidade, de genialidade, de ânsia libertária e dispersiva, tudo típico do elemento ar. No fundo, talvez, mais uma tentação de jogar com as ideias do que procurar concretizá-las (a falta do elemento terra). Isto não quer dizer que o aquariano não possa ser objetivo e bem organizado. Raros, porém, os aquarianos originais e que são capazes de reforçar os traços superiores do signo com relacionamentos positivos e com uma disposição mental voltada efetivamente para o futuro. Muitos são excêntricos só por amor à excentricidade, operando num nível bastante inferior deste que é conhecido como “o signo do homem.”


GOLEM, COMO  ELE  VEIO  AO  MUNDO
FILME  DE  PAUL  WEGENER, 1920

É do mundo judaico que nos vem um dos maiores exemplos das características aquarianas negativas. Refiro-me ao tema do Golem, a história de um ser mítico que simboliza a matéria animada artificialmente e que  se constituiu num grande perigo para o seu criador. A palavra golem significa incriado, informe. Trata-se de um ser semelhante a um autômato, criado artificialmente pela magia cabalística, isto é, pela palavra. Na língua ídiche, a palavra golem tem conotação insultuosa. Alguns, lembremos, tentam associar, erradamente, a figura do golem à do zumbi. Esta última, saliento, vem de nzumbi, que em quimbundo, língua africana, quer dizer espírito atormentado, alma que vagueia às horas mortas. Popularmente, a palavra zumbi se integrou ao nosso léxico, sendo usada para designar aquele que só está ativo ou só sai à noite. O Golem foi criado, segundo a tradição hebraica, por meios artificiais para concorrer com a criação de Adão por Deus. A sua criação é uma imitação do ato criador divino e com ele conflita. O Golem é mudo, seus criadores não conseguiram lhe dar o dom da palavra. 


FRANKENSTEIN
Uma certa semelhança pode ser estabelecida entre o Golem e o conde Frankenstein, idealizado por Mary Shelley. Esta romancista britânica, nascida Godwin (1797-1851), era a segunda esposa do poeta Percy B.Shelley, amigo de Keats e de Byron. Mary Shelley não tinha vinte anos quando escreveu Frankenstein ou O Prometeu Moderno, em 1817, novela pseudo-científica que evoca a criação artificial de um ser humano e o drama de seu demiurgo. 

O nome Golem tem também o sentido de “matéria informe”, representando uma espécie de Adão antes de lhe ter sido insuflada uma alma. Segundo a tradição cabalística, os grandes mestres da doutrina esotérica judaica conheciam a arte de, através de um apropriado uso da palavra criadora, infundir uma espécie de vida em um ser construído com argila. Um rabino era particularmente citado quando se mencionava este poder, Jehuda Elijah Low ben Bezalel, que viveu em Praga ao tempo do kaiser Rodolfo II. O reinado de Rodolfo II (astrologicamente, um fascinante tipo saturnino), de meados ao fim do séc. XVI, coincide com uma das épocas mais fecundas da Europa sob o ponto de vista intelectual.

Dizia-se que Bezalel havia criado o Golem e o escravizara. Trazia este monstro inscrita na sua testa a palavra emeth (verdade), palavra que lhe conferia a vida. Cheio de temor, devido ao estranho comportamento de sua criatura, o rabino resolveu apagar da sua testa a palavra que lhe dava a vida. Conseguiu, entretanto, apagar só a primeira letra, ficando meth, morte. O Golem entrou então em decomposição, formando-se uma massa de argila que acabou por sufocar o seu criador. A história deixa claro a conclusão: uma advertência contra o uso impróprio de forças mágicas, criadoras, que escapam do controle daqueles que as usam e que se tornam perigosas, destrutivas. 

SANTO ALBERTO MAGNO
Numa interpretação religiosa, como nos conta o cabalista Hal ben Scherira, por volta do ano 1.000, a história do Golem pode ser aplicada àqueles que absorvidos em práticas místicas de meditação descontroladas, são oprimidos e quase levados à morte pelo novo ser que “criaram”. Esta história, como alguns registram, pode ser vista também como uma paráfrase judaica de uma lenda cristã segundo a qual Santo Alberto Magno, o Doutor Universal, teria fabricado artificialmente um servo, destruído depois por seu aluno Tomás de Aquino. 


SEFER IETSIRÁ
O Golem dos judeus deveria ser fabricado com terra de solo virgem, dando-se-lhe uma forma humana, enquanto se dançava à sua volta e se entoavam os nomes de Deus ou combinações das letras do Sefer Ietsirá (O Livro da Criação). A vida lhe era dada ao se inscrever o Tetragrama (o nome de Deus com quatro letras) num pedaço de papel e colocando-o sob a sua língua ou gravando-se uma palavra hebraica em sua testa. Muitos cabalistas e alquimistas dedicaram-se à arte da criação do Golem, havendo muita literatura sobre ela, principalmente na Idade Média.

Uma lenda judaica atribui ao Maharal de Praga, acima citado, a criação de um Golem na forma de um autômato de argila que teria ajudado os judeus a escapar de complôs anti-semitas. Este Golem
O  GOLEM
foi destruído porque se rebelou contra o seu criador, guardados os seus restos em algum lugar da velha sinagoga de Praga. O Romantismo do século XIX voltará a explorar a figura do Golem conforme explica G.G.Scholem. Gustav Meyrink, em 1915, escreverá um romance fantástico sobre a criatura. No cinema, temos O Golem, filme alemão de 1920. Neste filme, o monstro, fabricado para fins pacíficos, se transforma num demônio sanguinário. O sorriso de uma menina, entretanto, encherá seu coração de ternura. Em 1936, Julien Duvivier, na França, fará um remake do filme, no qual o Golem assume o papel de um mediador de povos oprimidos. 



DE KUBRICK  E  CLARKE
O que fica, porém, da imagem do Golem é que ela tem sido usada sob um ponto de vista religioso para simbolizar a pretensão que o homem tem de imitar a Deus. Nesta perspectiva, o ser criado não seria mais que um ente desprovido de liberdade, inclinado para o mal, escravo de suas paixões. Outras interpretações, com as quais nos identificamos melhor astrologicamente, fazem do Golem a imagem da criação tecnológica que ultrapassa o seu criador e que pode destruí-lo, esmagá-lo. Uma das melhores ilustrações desta interpretação pode ser encontrada, sem dúvida, no filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick, com base numa história de Arthur C.Clarke. Refiro-me ao principal “ator” do filme (Hal 9000), um computador algorítmico programado heuristicamente. Seu nome de batismo viria das letras com que se iniciam as palavras que acabei de citar. Para alguns, porém, o nome teria mais a ver com a palavra inglesa Hell, inferno, já que é “puxando” para a pronúncia desta palavra que os astronautas a ele se referem no filme.

Hal mata um membro da tripulação, arremessando-o ao espaço, quando ele saiu para trocar uma peça da nave espacial. Dave, principal personagem humano do filme, percebe horrorizado que outros tripulantes também haviam sido mortos por Hal enquanto dormiam. Hal, no filme, é um computador que tem “sentimentos” e que parece enlouquecer, podendo matar seres humanos por causa de uma iníqua sub-programação secreta. Hal, na aparência, era como qualquer outro computador. Estava preparado para resolver problemas lógicos. Mas a grande diferença com relação aos outros computadores é que ele era capaz de resolver problemas quando não havia uma solução algorítmica, isto é, decorrente da lógica matemática. Ele podia, por isso, não só aprender com a experiência como inventar (heurística, do verbo grego heurisko, encontrar) soluções com base nos seus feelings.

Essa ideia de se ombrear com o divino, criando seres artificialmente, como as experiências transgênicas, mudando espécies, ou fabricando objetos, utensílios ou instrumentos através dos quais venham adquirir poderes “divinos”, como o dom da ubiquidade e vida eterna, por exemplo, sempre tentou os homens em todas as épocas. Estas ideias, contudo, apesar de toda a sua
DE RIDLEY  SCOTT
sedução, serão sempre um atentado contra a ordem cósmica. Ou seja, não cabe a este último signo, a seus representantes, a criação, prerrogativa leonina, mas, ao contrário, a doação do que foi criado, do mais importante, a do próprio ego, no sentido do altruísmo, do devotamento social. Ao chegar a Aquário, na ordem zodiacal, temos que pensar em libertação, desapego das coisas materiais, busca de uma espiritualidade (que nada tem a ver com religião) mais elevada, transcendência que deverá ser vivenciada no signo seguinte, Peixes. Lembro de um filme no qual estas questões foram abordadas, muito útil para discuti-las, nestes tempos de “espanto” tecnológico. Refiro-me a Blade Runner – O Caçador de Androides, de 1982, refeito em final cut, na versão do diretor, em 2007.








sábado, 8 de julho de 2017

LEÃO (4)



SISTEMA   SOLAR

Lembremos que Netuno, no século XX, entrou em Leão no mês de junho de 1.916 e nele permaneceu até 1.929. O mundo dos investimentos (ações, financiamentos, hipotecas, commodities, empréstimos para a aquisição de bens suntuários) é leonino e foi construído nesse período com base nas ilusões e nas fantasias netunianas de riqueza e poder, em várias formas de ganhos repentinos (ganância). Netuno em Leão trouxe muito talento musical e artístico, mas, por outro lado, através do cinema (governado por Netuno) criou-se o star system e a chamada Usina de Sonhos, nome pelo qual Hollywood passou a ser conhecida como produtora de expressões artísticas inferiores relacionadas
GRANDE   DEPRESSÃO
com um romantismo exagerado, um idealismo carregado de sentimentalismo, de superficialidade, de fantasias sobre o poder, tudo saturado de extravagâncias, luxo e prazer de gosto profundamente discutível. Na economia, tivemos desastres, implosão, começo daquilo que tomou o nome de a “Grande Depressão” (o crack de 1.929). Quando Netuno transitou por Leão tivemos também o primeiro concurso feminino de beleza em trajes de banho, o rádio se firmou como meio de comunicação ligado à massificação (alienação, divertimento). Durante esse período, denominado pela expressão Roaring Twenties, em cima de descontrolada especulação, se alimentou a fantasia de uma riqueza ilimitada. 

Mais: lembremos que durante da década de 20, Urano transitou por Peixes, de 1.920 a 1.927, e que hoje ele (séc. XXI) voltou a transitar por esse signo (2.003-2011). Netuno entrou em Aquário em 1.999, juntando-se catastroficamente nos céus tendências humanitárias, salvadoras (Netuno) com tecnologia (Urano), ficando o homem desde então aprisionando pelo complexo de Ícaro, tomando o nome de globalização, através da sigla WWW, o sonho da fraternidade universal.


A   QUEDA   DE   ÍCARO  ( P.P. RUBENS , 1636 )

Ícaro era filho de Dédalo, o famoso inventor. Ele e o pai estavam presos no palácio de Minos, em Creta. Dédalo fabricou para o filho um par de asas, que foram  presas aos ombros do jovem com uma cera especial por ele inventada, com a  recomendação de que ele, evadindo-se da prisão, não se aproxime demais do Sol, que procurasse manter uma altura média entre o astro solar e a Terra. Nada lhe aconteceria se observasse o metron recomendado. Apesar de todos os conselhos de prudência, o jovem afoitamente lançou-se nos céus, elevando-se cada vez mais. A cera foi se derretendo, as asas se soltaram. Resultado: queda, catástrofe e morte. 

Ícaro desde então deu nome ás ingênuas aspirações humanas de se atingir a vida espiritual, o Sol, no exemplo, através de meios técnicos. O complexo se configurou: ambição desmedida, exaltação vaidosa e megalomania. Uma dupla perversão, pois, em Ícaro: julgamento errado e coragem idiota. As asas de cera de Ícaro tornaram-se o símbolo da tecnologia moderna. A conclusão se impõe: não é com elas que chegaremos a uma vida espiritualmente orientada. 


A tradição astrológica que incorpora aproximações com o Tarot costuma associar o arcano 11, A Força, ao signo do Leão. Afirma essa tradição, a meu ver erradamente, que a figura da lâmina traduz uma ideia de controle das forças instintivas pelo lado feminino da personalidade masculina, a chamada anima. A vida instintiva domada pelo eu solar. Alguns atribuem este controle a uma sabedoria, representada pelo chapéu que a figura feminina leva sobre a cabeça, a que chamam de lemniscata.

A figura feminina do arcano 11 tem tudo a ver com a das grandes-mães, figuras típicas do mundo matriarcal, poderoso símbolo que, mesmo depois da vitória do mundo patriarcal, continua presente na vida masculina. A figura me lembra mais a ilustração de uma relação mãe-filho em que ela, invadindo o território da quinta casa astrológica (o da conquista de um eu autônomo), continua a exercer a sua função tutelar. A suavidade da figura feminina, sugerindo compreensão e benevolência, é desmentida pelo seu gesto. Ela força o leão a abrir a sua mandíbula. A mandíbula, lembre-se, é o maxilar inferior, o único osso móvel da cabeça, em forma de ferradura e que se articula com o osso temporal de cada lado do crânio. A boca, dos humanos ou dos

animais, é antes a abertura inicial do tubo digestivo. Entretanto, ela é mais que um orifício por onde passa o alimento, ela permite o ato de falar e é por ela que passa também o sopro vital. A boca, sob muitos aspectos, tem também relação com o seio materno. O que a figura evidencia não é a força do ego. Ao contrário, o que ela demonstra claramente é o poder da grande-mãe, das figuras como Cibele, Ishtar, Isis, Durga e outras. 

Quanto ao chapéu, ele é sempre um símbolo de poder, de soberania e também de uma função, de uma posição social ou de uma atividade. O chapéu que está na cabeça da figura feminina em questão faz parte, ao que parece, de indumentárias femininas
LEMNISCUS
europeias do séc.XVII/XVIII. A palavra lemniscata usada como símbolo da sabedoria me parece despropositada. Lemniscus, em latim, é faixa, fita, galão, atadura. A palavra é um cultismo que entrou em circulação a partir do séc.XIX, designando formas feitas com fitas,  arrumadas na forma de um oito. As fitas, como se sabe, participam normalmente do simbolismo dos nós, prendem, atam, submetem de algum modo. 

Lembremos ainda que o número 11 é um símbolo da desmedida, de excessos, de incontinência, de violência, na medida em que aparece depois do 10, que simboliza um ciclo fechado, completo. Santo Agostinho, por exemplo, o associa ao pecado pela razão apontada (excesso), ligando-o ao perigo, ao conflito e à rebelião. Em antigas tradições, era conhecido como a “dúzia do Diabo”. O número aparece na expressão “ser salvo na undécima hora” (eleventh hour, em inglês), uma alusão à parábola de Cristo sobre os trabalhadores que recebiam salário diário mesmo que tivessem sido contratados à última hora do dia de trabalho. 


SANTO   AGOSTINHO ( PHILIPPE  DE  CHAMPAGNE , 1650 )

Às vezes, o número adquire o significado de início de um novo ciclo, uma renovação, como ruptura do número 10. Algumas tradições judaicas falam em daath, a undécima sephirot, a do conhecimento. Analogicamente, o 11 tem a ver com o 2, mas considerada a experiência da trajetória indicada pelos números precedentes. São muito conhecidos os ciclos de atividade magnética do Sol, num período de 11 anos, que dão origem às manchas solares e cuja influência sócio-psicossomática foi comprovada (em 2.006 um novo ciclo começou).    



Muito mais apropriado ver no arcano 18, o Sol, através das duas figuras infantis, a caminhada do ego que acaba de nascer na quinta casa astrológica. Elas indicam um começo, algo ainda “a ser”, como em Áries, mas, agora, já presentes os dois lados a integrar nessa caminhada, o lado masculino e o feminino da personalidade humana. As imagens das duas crianças são diferentes, uma é mais esguia, a outra é um pouco mais cheia de corpo, tem, levemente, formas um pouco mais arredondadas. É verão, elas pisam a terra, lugar da trajetória humana.

As duas figuras devem ser entendidas, evidentemente, em planos que não o biológico. São crianças (no Tarot de Marselha), ainda não totalmente desenvolvidas, espontâneas, sendo o jogo uma das maneiras privilegiadas  destas formas ainda embrionárias se desenvolverem. Há que se vê-las, sobretudo, animicamente, pensando-se numa combinação dos dois princípios que atuam em todos os seres humanos e também segundo o entendimento que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. Todo símbolo masculino ou feminino participa do seu oposto. Como a figura sugere, em Leão ainda estamos na “infância” do ego. Há um muro atrás das duas crianças. Muros, de um lado, indicam proteção, segurança, defesa, mas podem significar também, de outro, prisão, fechamento. O valor simbólico desse obstáculo deve ficar subordinado à sua altura. Transpô-lo não será difícil, é baixo. A opção de permanecer ou de ultrapassá-lo terá também a ver, conforme entendo, com os dois pequenos pães, um ao lado de cada uma das crianças, produtos das origens, símbolos do mundo familiar, que deverão ser “ingeridos” antes da partida. O pequeno tamanho dos pães indica, numa leitura astrológica, a proporção e de que modo a quarta casa deve participar na caminhada. Sempre, porém, uma ideia de se incorporá-la, fazer dela algo integrado ao ser que vai buscar o seu caminho. 

O número 19 é também um número solar, tendo a ver com o ciclo dos saros, período compreendido entre a repetição dos eclipses do Sol e da Lua, que totaliza 18 anos, 11 dias e 8 horas. A palavra saros nos veio da Babilônia e lá  queria dizer repetição. Esse ciclo é também conhecido como ciclo metônico. Quem deu nome a ele foi um astrônomo ateniense, Meton (séc.V aC). Ele, certamente com base em informações recebidas dos babilônicos, inventou uma regra de sete intercalações de um mês em dezenove anos no calendário lunar. Esse ciclo tem por base o fato de que dezenove anos lunares, aos quais são acrescidos sete meses, correspondem a dezenove anos solares. Na prática, astrológica isto quer dizer: registrar os contactos das Luas novas a cada mês no mapa, tendo em vista que cada contacto se repetirá dezenove anos mais tarde. Estas Luas novas medirão as oportunidades para se empreender algo de novo no que diz respeito ao ponto que no mapa é tocado. Cada empreendimento deverá se relacionar com o contacto similar dezenove anos antes e será condicionado pelo que nesse período se tenha realizado. Esses contactos de eclipse poderão se constituir em momentos particularmente importantes no ciclo geral da Lua nova com relação ao mapa natal.  



A constelação do Leão estende-se hoje entre 12º de Leão e 22º de Virgem. Ptolomeu atribuiu às duas estrelas da cabeça influências como as de Saturno e Marte, esta parcial. As três estrelas do pescoço atuam como Saturno, com discreta participação de Mercúrio. As que estão no lombo lembram influências de Saturno e Vênus. As das coxas atuam como Vênus e, menos, como Mercúrio. 


CONSTELAÇÃO   DE   LEÃO

A estrela alfa de Leão é Regulus, de 1ª magnitude, hoje a 29º08´, conhecida como Cor Leonis, atuando como Marte e Júpiter. Esta estrela, como já foi dito, era uma das quatro estrelas reais dos
AHRIMAN
persas. Eles a consideravam como a “guardiã do Norte”, ligada ao todo-poderoso rei mítico Feridum. 


A história deste rei merece que nos detenhamos nela um pouco mais porque ela é arquetípica. Na eterna luta entre o Bem (Ahura Mazda) e o Mal (Ahriman), este último conseguiu se apoderar, através da magia, da personalidade de Zohak, príncipe do deserto, que, com isso, obteve muitas vitórias. Uma noite, Zohak teve um sonho: um jovem príncipe o derrotava. Interpretado o acontecimento pelos sábios, Zohak ficou sabendo que esse futuro príncipe de nome Feridum, acabara de nascer e que herdaria o seu trono. Zohak mandou então assassinar todas as crianças recém-nascidas do seu reino. 


AHURA   MAZDA

A mãe de Feridum, uma jovem e sábia mulher, conseguiu contudo salvá-lo. Ela o confiou a um jardineiro que cuidava de um terreno ajardinado onde vivia uma vaca maravilhosa, que alimentou a criança. Jovem, Feridum foi levado.as escondidas, pela mãe, às montanhas do Hindustão, onde passou a viver sob a tutela de piedoso mestre. Tornando-se adulto, Feridum soube pela mãe dos desmandos e crimes do rei Zohak. Depois de muitas peripécias, inclusive participação de seres angelicais, Feridum acabou vencendo Zohak, ajudado por um pequeno grupo de descontentes. Instalando-se no poder, Faridum reinou por muito e muitos anos, sempre proporcionando muita felicidade aos seus súditos. Morrendo muito velho, deixou, forçado, a coroa para seus descendentes, que disputarão desastradamente entre si o reino.

Desde de tempos muito remotos, Regulus sempre apareceu associada a sucesso em posições de mando, honras militares, altos postos em comando, podendo, contundo, atrair agressões e complôs. Regulus, em latim, é diminutivo de Rex, rei, isto é, rei ainda criança ou muito jovem. Às vezes, a palavra toma o sentido de chefe de pouca importância (reinos da África), mas de temperamento tirânico. Em Ptolomeu, Regulus é o equivalente de
CLAUDE   DEBUSSY
( H. DE GROUX, 1909 )
Basilikos


Na Índia, a estrela tem o nome de Magha, a Poderosa, dona da 8ª mansão lunar. Entre os árabes é Malikiy. Entre os romanos, é Basilica Stela. No ascendente a estrela reveste a personalidade de realeza, empurra para o sucesso, para o brilho, mas pode trazer problemas, uma grande (hiper)sensibilidade quando esta realeza não é reverenciada, reconhecida. Um mapa para estudo de Regulus é, por exemplo, o do compositor francês Claude Debussy.

A estrela beta de Leão é Denebola, situada na cauda da figura celeste, hoje a 20º 55´ de Virgem. O nome vem do árabe, Dhanab al Asad. Costuma ser chamada de Deneb. Para Ptolomeu, apresenta características de Saturno e Vênus. Esta estrela tem um forte componente aquariano, podendo levar a pessoa a viver fora dos padrões sociais, afrontando-os, um traço não conformista. Pode colocar por isso a pessoa adiante do seu tempo. 

A estrela gama de Leão é Algeiba, “escondida” na juba, não usada astrologicamente. A estrela delta é Zosma (a cinta ou a cintura, em grego), perto do cauda, hoje a 10º 37´ de Virgem. É uma estrela
JOHN   KENNEDY
( E. DE KOONING, 1963 )
potencialmente perigosa, podendo, conforme o caso, tornar a pessoa vítima de alguma coisa, algo injusto, mas de caráter inexorável, muitas vezes. Na casa em que está, indica possibilidade de abuso, de algum ataque, de alguma violência. Segundo a tradição mitológica, Zosma foi o ponto do corpo do Leão de Nemeia atacado por Hércules. O mapa do presidente americano John F. Kennedy é um bom exemplo para o estudo de Zosma.  

Uma curiosidade que se liga à constelação do Leão é uma chuva de meteoros, denominados Leônidas, que ocorre a cada ano, entre 9 e 17 de novembro, proveniente da região da cabeça da figura. Tal fenômeno se verifica de modo particularmente espetacular a cada 33 anos, tendo ocorrido o último no ano de 1.999. Há notícias dos Leônidas desde a antiguidade. 


LEÔNIDAS


quarta-feira, 2 de julho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO PRIMEIRO TRABALHO



A LIMPEZA DOS ESTÁBULOS DE AUGIAS - Augias, rei da Élida, no Peloponeso, era filho do deus Hélio, o Sol, e participara da expedição dos argonautas. Herdara um imenso rebanho do pai, milhares e milhares de bovinos, que viviam em enormes estábulos. Tais estábulos não eram limpos desde que Augias recebera a herança, cerca de trinta anos atrás. A incumbência de Hércules era justamente a de limpá-los, conforme determinação de Euristeu. O lugar era famoso por ser pestilento,  malcheiroso e insalubre ao extremo. Como nenhuma vegetação crescia à sua volta, a alimentação dos animais tinha que vir de longe. Tomando conhecimento da chegada de Hércules, Augias o chamou à sua presença. Nosso herói lhe revelou o objetivo de sua visita. Augias não acreditou que ele pudesse remover aquelas montanhas de estrume e de sujeira num único dia, conforme exigência de Euristeu. 

Augias  e  Hércules  entraram  num  acordo,   depois  de  debater   a
ANIMAIS DE AUGIAS
questão. Hércules não só se comprometeu a fazer o serviço da maneira exigida, como também a espalhar todo o esterco pelas terras vizinhas de modo a prepará-las para novas semeaduras a fim de que outros, futuramente, auferissem benefícios, já que os terrenos se tornariam muito férteis. Como pagamento por esse serviço extra, Hércules pediu um "por fora", a décima parte de todo o rebanho. Na expectativa de grandes lucros, Augias concordou. Este episódio se tornou muito comentado porque foi introduzida pelo mito, arquetipicamente, a instituição da propina, a gratificação extra por serviço normal prestado a alguém, misturando-se doravante, por isso, ideais e dinheiro. Para testemunhar o acordo que fez com Augias, Hércules chamou o jovem príncipe Fileu. É de se lembrar que o pagamento de propinas era muito comum no mundo greco-romano. A etimologia de propina indica que a palavra vem do substantivo taverna, lugar onde se servem bebidas alcoólicas. Assim a propina era uma importância extra que se dava a alguém por um certo serviço para que bebesse (é o que os franceses chamam até hoje de pourboire). Com o tempo, a propina transformou-se numa quantia oferecida ou dada a alguém para levá-lo a praticar atos ilícitos, suborno.


LIMPEZA DOS ESTÁBULOS
A segurança com que Hércules assumiu a realização do trabalho e, além disso, propôs algo que ia além do que lhe fora determinado, devia-se ao fato de ter o nosso herói  percebido que nas vizinhanças dos estábulos havia dois rios de natureza torrencial que poderiam ser usados, embora separados por uma montanha (Erimanto). Um dos rios chamava-se Alfeu e o outro Pneu. Pondo-
HÉRCULES   DESVIANDO   OS   RIOS
se em ação, ao raiar do dia acertado, Hércules abriu fendas nos muros que cercavam os estábulos e, com inaudita sofreguidão, escavou furiosamente novos leitos para os rios, desviando-os dos seus cursos, de modo a fazer com que as águas, atingissem os estábulos, limpando-os. Lá pelo meio da tarde do mesmo dia, a segunda parte da tarefa começou a ser executada. As montanhas de estrume foram espalhadas devidamente, tudo feito com espantoso vigor. Quando, no dia seguinte, o Sol raiou, tudo estava terminado.





Augias, contudo, negou-se a cumprir o acordo. Hércules abandonou a Élida, muito contrariado, prometendo um acerto de contas futuramente. Tempos depois, com efeito, reuniu nosso herói um exército de voluntários e marchou em direção do reino de Augias. Duas investidas foram feitas. Na segunda, Hércules derrotou e matou Augias, entregando o poder a Fileu, que inclusive
PÍNDARO
testemunhara contra o pai quando discutida a questão nos meios judiciais competentes. Foi após essa campanha vitoriosa contra a Élida que Hércules instituiu os Jogos Olímpicos, conforme narra o poeta Píndaro. Estes Jogos (jogo é agon, luta, no plural, jogos, agones, adquirindo depois a palavra o sentido de reunião, assembleia) são, como Hércules os instituiu, modalidades de culto do impulso heroico (veja neste blog matéria sobre Hércules e os Jogos Olímpicos).

Alfeu (branco) e Pneu (sopro) eram rios do Peloponeso. Desde o
DAFNE  E  APOLO
tempo em que Hércules andou por lá, executou a limpeza dos estábulos e preparou a terra, a região banhada pelos rios se transformou numa área produtora de cereais e de vinho. Pneu é famoso por suas margens sombrias e frescas, onde havia muitos loureiros. Nos tempos míticos, era o rio procurado por deuses, ninfas e sátiros. Foi aí que Dafne se transformou num loureiro, consagrado ao deus Apolo, como símbolo de seu amor frustrado pela ninfa. Desde então a região vem sendo muito visitada por artistas, especialmente poetas, que gostam de pôr em versos a história da desditosa jovem.


Com o décimo primeiro trabalho, chegamos à constelação zodiacal de Aquário, cujo símbolo lembra os dois rios acima descritos. O signo é muitas vezes representado por um velho sábio que leva nas
mãos uma ou duas ânforas que, inclinada(s), vertem um fluxo líquido. A peculiaridade deste fluxo é que ele é aéreo, etéreo, de caráter expansivo. Imagens como estas trazem ideias de ondas. Aquário é um signo de ar, fixo, com grandes ressonâncias aquáticas, um oceano aéreo onde nos banhamos. O ar como substância nutritiva destinada mais à alma que ao corpo. Em Gêmeos, temos a comunicação mental; em Libra, temos o diálogo, a percepção do outro; em Aquário, temos as afinidades por ideais.

O “líquido” que hoje circula nos meios aquarianos nada tem a ver com aquele a que o mito se refere. O “verdadeiro” líquido aquariano significava então aproximação, contacto, união, presença, que não anulava as individualidades, mas que levava a uma participação comunitária. A energia aquariana, no seu mais alto grau de eficiência, circula hoje, como sabemos, na Internet, uma rede mundial de computadores interconectados (WWW-World Web Wilde), que parece unir os que a usam, todos “linkados”, mas que, no fundo, os separa cada vez mais (outra contradição aquariana), vivendo todos numa “realidade” fragmentada de informações, sem nenhuma possibilidade de controle do todo.  

 
ANJO  ( GUSTAVE  DORÉ )


Saturno, lembremos, apesar de Urano ter assumido a posição de primeiro regente do signo, continua "mandando" nele, ao nos lembrar que a elevação aquariana passa antes pela libertação da vida instintiva e pela "desmaterialização". Do contrário, não há a transcendência uraniana, simbolizada pelo Anjo, outra imagem do signo, não teremos as suas qualidades, a expansão, a leveza, a volatilidade, o seu caráter angelical, mozartiano, que traduzimos concretamente como altruísmo, devotamento social, trabalho desinteressado, o melhor lado de Aquário. Nem haverá, se nos voltarmos para o lado técnico do signo, a sempre perigosa e genial atitude prometeica, traduzida por propostas de vanguarda, emancipação, inovação, de paixão indiscriminada pelo novo. 


CONSTELAÇÃO   DE   LEÃO

Desde Leão, como se pode notar, observa-se uma proposta evolutiva de conscientização, ainda que não muito claramente entendida pelo nosso herói.  Em Aquário, signo oposto ao de Leão, a proposta é a de que o rei (o ego) deve servir, tornando-se um prestador de serviços. Hércules começa aqui a compreender melhor, ainda que de modo muito nebuloso, aquilo que havia apenas mal vislumbrado no trabalho anterior (a ação impessoal); ao ver as almas sofredoras no Hades, sentiu pena delas. Agora, a percepção dos outros tomava um sentido mais abrangente; nosso herói começava a entender que o centro da sua personalidade não deveria se fixar no ego, mas na alma, na faísca da energia universal que está contida não só em todos os seres humanos como em tudo o que toma forma no universo. 


CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO

Entendida a "desmaterialização" em Capricórnio, havia que se buscar agora uma percepção mais clara do impulso anímico através do qual se torna possível entrar em contacto com planos maiores, transcendentes ao pessoal, até a dissolução no grande Todo, segundo as leis do eterno retorno. Antes, porém, necessário o aprendizado do que seja o serviço desinteressado, do que seja a convivência com o grupo e do que seja o sacrifício do eu pessoal pelo eu grupal. Em Aquário não podemos mais estar fixados no ego (Leão) nem na matéria.  A luz leonina conquistada deve ser canalizada para o Todo, isto é, para a humanidade, para os outros, não mais vistos agora como parceiros ou sócios (Libra), mas como irmãos. Ideais de fraternidade, de igualdade, de camaradagem, de comunidade são de Aquário.


PREPARANDO  O  TERRENO  PARA  O  FUTURO

Hércules, do alto da montanha, desceu agora neste trabalho à sujeira, ao deletério, a aspectos muito impuros da materialidade, uma lição de humildade a ser aprendida, uma clara indicação de que ideias de orgulho, de vitória, de conquistas materiais, representadas pelos picos das montanhas devem dar lugar a outras, de interesse coletivo, humanitário. O vencedor de Cérbero, grande monstro infernal, envolvia-se agora com a sujeira e a imundície. A lição tinha dois aspectos:  trabalhar não só no interesse próprio, mas trabalhar também em função dos outros, das gerações futuras, pessoas que nunca seriam encontradas, “preparar a terra para elas”. Deixar-lhes um mundo melhor. 

A grande alegoria da sujeira dos estábulos não exige grande esforço interpretativo: limpá-los é jogar fora toda a porcaria material e mental que acumulamos, por anos e anos, e que nos impede de ver o outro como nosso irmão, de que nos aproximemos dele amistosamente e não o considerando como um inimigo em potencial. Todos os ingredientes deste décimo primeiro trabalho são do signo de Aquário, inclusive o percentual que nosso herói pede. Seu idealismo, preparar o terreno para as gerações futuras é, sem dúvida, muito sublime, digamos. Mas, como seu lado “animal”, humano, vá lá, era muito poderoso, nenhum mal, no seu entender, em pedir os dez por cento para Augias. Quanto a este particular, lembre-se que na chamada astrologia mundial Aquário é o signo da política, tendo a ver com o poder legislativo (congressos, assembleias, câmaras e seus personagens.


A   LIBERDADE   GUIANDO   O   POVO,  1830   ( DELACROIX ) 

Trabalhar em grupo e para grupos é muito difícil. Falamos em ideais comuns, criamos formas associativas, levantamos a bandeira do altruísmo, da ação desinteressada, do devotamento social e o que vemos? A rondar sempre as fraternidades e as comunidades o ciúme, o orgulho, a vaidade, o desejo de brilhar, a ostentação, o exibicionismo, o apego ao poder, ou seja, o "velho" ego leonino, que julgávamos dominado, vivo e muito vivo, ganancioso, voraz como sempre.  Difícil esquecer o eu em benefício dos outros. De repente, lutas por posições, carreirismo, a vontade do poder escondida no discurso "democrático".

Em Aquário, ultrapassamos a materialidade para ter que colaborar com a "limpeza" do mundo. Muralhas rompidas, não mais
CORAÇÃO  -  CIRCULAÇÃO
centralizar a vida no sucesso material, com a ajuda da espantosa tecnologia aquariana, mas, sim, centralizá-la no espiritual, no Todo. Ao invés de matéria e mente, vida e amor.  Viver o desapego, perdermo-nos em algo fora de nós, para que o individual se torne universal. É em Aquário que o homem separado se torna humanidade, sem perder a sua identidade. Não será mais, então, o ser autocentrado e isolado na busca desesperada por posições mundanas. Em Leão temos o tempo e os esforços a serviço do próprio ser e dos interesses pessoais. Em Aquário, temos a descentralização, a distribuição da energia pelo todo. É a dialética coração-circulação da qual nos falam as características do signo sob o ponto de vista físico, biológico.

Por anos e anos acumulamos muito "esterco" dentro de nós e levantamos barreiras protetoras à nossa volta, construindo uma personalidade totalmente inautêntica para receber a consideração dos outros. Uma máscara que nos justifique.  Em Aquário, temos que deixar de nos considerar exclusivos, pois, do contrário, não
haverá vida digna, a vida em comum. A proposta é a do rompimento das fronteiras, das barreiras. Uma internacionalização diferente da que temos hoje, de caráter consumista, fascista. Nada de patriotadas cegas, alimentadas pelo dinheiro e pela religião, sempre fontes de ódio. Ao contrário, cooperação, compreensão, inteligência, universalismo (ver, a propósito do que aqui se expõe, o filme A Grande Ilusão, de Jean Renoir).  


Tudo o que libera o homem, elevando-o do solo ou levando-o a
ÍCARO
percorrer  horizontalmente toda a superfície terrestre, rompendo fronteiras e limites,  se liga de algum modo a Aquário. Nestes casos, porém, há sempre o perigo do aquariano inflar demasiadamente o seu ego (leonino), sonhando alto demais, ou de não dominar adequadamente os meios técnicos que emprega para a sua ascensão (complexo de Ícaro). São estas configurações que costumam dar origem a duas grandes distorções em tipos do signo, gerando o aprendiz de feiticeiro e o delirante

O primeiro, como se sabe, costuma precipitar tragédias, como no
caso da criação do Golem, pela busca de metas “impossíveis” ou pela inabilidade ou desconhecimento quanto ao uso das técnicas disponíveis tendo em vista o fim colimado. Já o segundo tipifica o aquariano que sofre do chamado delírio sistematizado, sistema logicamente organizado de ideias delirantes, que se instala sem sinal claro de demência, no qual grande número de funções perceptivas e cognitivas pode permanecer intacto, mas ativado em níveis que parecem querer (ou querem mesmo?) ultrapassar os limites do humano. Por isso, Aquário é o signo das utopias. 

As manifestações deste segundo tipo podem ser detectadas em várias expressões aquarianas, mais ou menos logradas, expressões
que elegem símbolos de caráter ascensional, a águia, por exemplo. A união da águia com a proposta visionária aquariana, com o objetivo de antecipar de algum modo o futuro, traço aquariano notável, nós a encontramos na atividade dos áugures do mundo greco-latino que traduziam o voo e o canto da águia em profecias. O delírio poético que tem no chamado condoreirismo (uma distorção do Romantismo, movimento artístico tipicamente aquariano) uma de suas mais pomposas e banais elaborações é também um bom exemplo. 

Como traço de personalidade, o delírio aquariano tem um dos seus exemplos mais interessantes na tendência que muitos do signo apresentam no sentido de compensar a sua “fraqueza” solar (o Sol se exila em Aquário), uma fraqueza que os faz sentirem-se inferiorizados por alguma razão (sentimentos sempre geradores de
medo e ressentimentos reprimidos), por uma supercompensação, na linguagem psicanalítica. É isto que leva muitos aquarianos enquadrados neste exemplo para o outro polo. Vão de um disfarçado complexo de inferioridade (o de não serem “bons” em alguma coisa, uma limitação física, um problema de relacionamento, um mental não à altura de suas pretensões) para um complexo de superioridade. Procuram ser os melhores em alguma atividade (baterem recordes, se tornarem “únicos”, paradigmas, excêntricos etc.), superarem alguma marca, limite, no fundo sempre uma defesa contra o complexo oposto. É isto que aproxima tão perigosamente o sábio solitário (aquariano superior) do louco, igualmente solitário, perdido nos seus delírios paranoicos. 

Aquário é signo humano, de ideais e de simpatias, de interação. Transcender Leão (culminação do ego), supressão de privilégios, mostrar competência e não títulos e insígnias, esquecer o ego. Se pensamos numa tendência, Aquário é independência por ideais corporativos; em funções, Aquário é pesquisa, inovação, técnica, reforma, ensino, experimentalismo; em objetivos, Aquário é sociedade, grupos, comunidades, política; em deveres, Aquário é ajuda, colaboração, orientação, aperfeiçoamento. No fundo, o tipo superior aquariano é sempre um inquieto pelo ser e não pelo ter. Como tal, é um cidadão do mundo para quem a hereditariedade e os privilégios de sangue (Lua e Júpiter, Câncer), os apegos materiais e emocionais (Vênus e Lua, Touro) e as fixações ciumentas e possessivas (Plutão e Marte, Escorpião) devem contar muito pouco. No mais, um ideal de servir lúcido, livremente assumido, sem a ideia de martírio (Peixes).

Em Capricórnio chegamos ao topo da montanha. Saturno, o planeta de Capricórnio, é o tempo. O planeta de Aquário é Urano, o espaço. Depois de haver dominado a si mesmo, longe de se salvar só, ou de encerrar-se na ideia de eternidade ou de paraíso, Aquário volta-se para o todo, para a humanidade, por mais inferior que seja a criatura.  Estes estados superiores de Aquário são simbolizados pelo anjo, seres espirituais, dotados de corpo etéreo, mensageiro, guardião, condutor, protetor (ver os filmes de Win Wenders).


O   CINEMA   DE   WIN   WENDERS

Mitologicamente, a constelação de Aquário é Ganimedes, o amado de Zeus, dos deuses, escanção divino, que nos céus tem ao lado a constelação da Águia (Zeus). Scandere, de onde sai escanção, é elevar, subir; escançar é partilhar, participação que faz subir. Ou seja, graça superior que permite a elevação que leva à participação de um conhecimento superior. Esta participação era feita em
reuniões comunitárias de amigos que compartilhavam os mesmos ideais e segredos através do vinho (exaltação de Urano em Escorpião). O Banquete, do aquariano Soren Kierkgaard (In Vino Veritas), traduz esta ideia. O grande lema aquariano é Ad augusta per angusta" (a resultados sublimes por caminhos estreitos). No Tarô, Aquário é a lâmina XIV, a Temperança, dissolução das formas, rompimento do que nos prende. Nela, o personagem andrógino alado derrama o fluido de um cântaro a outro. Ideia de equilíbrio dinâmico. 

Inúmeros perigos se apresentam a Aquário. O tema do desligamento da terra, o rompimento da gravidade (Urano é o primeiro planeta transaturnino) pode ser vivido como mania de verticalidade (torres,
arranha-céus, foguetes, satélites, voos espaciais, esportes radicais nas alturas). O melhor de Urano (o planeta do despertar) aparece quando há algo espiritual. O pior é o lado técnico, hoje nas mãos dos economistas de todos os matizes. Utopias políticas substituídas por utopias materiais. Muitos aquarianos tentaram construir paraísos na terra. No fundo, devido à grande ênfase no material (terra), tais paraísos acabaram se corrompendo, transformando-se em verdadeiros infernos. A história está repleta de exemplos.


ROCK

 A saída pela ciência e pela técnica passou a ser a outra grande tentação do aquariano malogrado. Daí, os ambientes eletrizantes (Urano governa a eletricidade), os grandes abusos do sistema nervoso, nada de freios, excitação diante da possibilidade de ocupar todo o espaço e consequentemente a falta de tempo constante, crônica. Com a predominância desse enfoque tecnicista, chegamos logo aos fenômenos de massa, ao turismo corrompido em escapismo e evasão, à promiscuidade, à vulgaridade, ao coast  to coast, à planetarização fascista criada pelos meios de comunicação, aos "bandejões" de cinco a nenhuma estrela, aos espetáculos que institucionalizam a baixaria, à excentricidade, à lei do frenesi, à troca da individualidade pelo individualismo agressivo e boçal, cujo melhor exemplo está nas nossas TVs, à rebeldia sem causa, aos contrastes fabricados pelo consumismo, às ambições prometeicas idiotas (mania de recordes), à desordem, ao desrespeito, à anarquia.

Enquanto Leão é coração, Aquário é circulação. No corpo físico, problemas, pois, de insuficiência circulatória (Sol em exílio), sobrecarga de resíduos, oxigenação insuficiente, hiperacidez. Escleroses, flebites, varizes, úlceras, parestesias; enfermidades bruscas e violentas, oscilações. Movimentos físicos involuntários, desde fibrilações e câimbras a disritmias e epilepsias; espasmos, tremores (grande parte da coreografia do rock moderno se inscreve aqui). Os transtornos circulatórios e cardiovasculares, menos frequentes antes nas mulheres, hoje vão se tornando muito comuns, na medida em que a vida feminina se aproxima da masculina. Como causas, preocupações financeiras, fumo, álcool, drogas, anticoncepcionais, sexualidade sem amor. Ateromasias (athera, papa, massa, e oma, tumor), depósito lipídico no interior das paredes das artérias, diminuindo o diâmetro do vaso; ulcerando-se, a placa favorece a formação de coágulos. Artéria coronária (Sol-Urano), artéria cerebral (Marte-Urano), artérias das pernas (Urano-
Júpiter), artéria abdominal (Urano-Lua). Problemas nas pernas do joelho para baixo, até os tornozelos, estes muito vulneráveis. Lembrar que Áries e Aquário são os signos mais propensos a acidentes. Problemas na coluna por Leão (ação reflexa). A hipófise ou a pituitária é do signo; é a glândula mestra que controla todas as mensagens hormonais do corpo. A glândula pituitária equivale ao cérebro entre as glândulas, governando simbolicamente o nosso ajuste ou não a planos superiores de existência. 

Urano é o astro responsável pelo sistema cibernético do corpo, dividindo-o com Mercúrio. A radicalização no sentir, a grande agitação (fixar-se num querer e mudar, incompreensivelmente), a falta de realismo são inimigos no signo. Aceitação difícil de tratamentos, constantes mudanças de terapias, sedução pelas inovações e modismos terapêuticos até que o tédio baixe ou uma novidade apareça. Difícil a observância de rotinas. Aquário governa a neuromentalidade (as neuroses, as ansiedades paroxísticas ou depressivas, a psicose maníaco-depressiva são de Urano e de Saturno, basicamente) devendo o sistema nervoso, como um todo, merecer grande atenção.


MOZART

A galeria dos aquarianos pelo Sol ou pelo Ascendente: Robespierre, Karl Marx, Virginia Woolf, James Dean, Mozart, James Joyce, a Beat Generation como um todo, George Gordon Byron, Stendhal, Bela Bartok, Tom Jobim, Manet, H.G.Wells, J.J.Rousseau, Rossini, Simone Weil, W.B. Yeats, Schubert, C.G.Jung, André Maurois, Federico Fellini, Roosevelt, Thomas Edison, Beaumarchais, Lewis Carroll, Auguste Comte, Montesquieu, Mendelssonn, Charles Lindberg, Almeida Garrett, Chopin, Darwin, Voltaire, Bertold Brecht, Lincoln, Júlio Verne, Copérnico...