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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

SAGITÁRIO (4)

                                                        

SAGITÁRIO ,
TEXTO DE CÍCERO ARATUS , SÉCULO XI
Dentro do capítulo da cinegética (do grego kinegetikê, arte de caçar com a ajuda de cães), temos que citar obrigatoriamente a história de Acteon na medida em que ela ilustra um dos principais problemas de alguns tipos sagitarianos que não sabem escolher a sua “caça”. Desta categoria fazem parte principalmente os tipos extrovertidos do signo, muito tentados pelas aventuras, de temperamento nômade, atlético ou explorador, sempre em busca de novos horizontes.  Esta falta de discernimento pode ser atribuída certamente à ausência de um mental superior, nunca trabalhado, que os orientasse nas “caçadas”.  Do seu entusiasmo não faz  parte o conhecimento, a cultura nem qualquer ideal de sabedoria.


ACTEON ,  ÁRTEMIS  E  NINFAS ( HENDRICK VAN BALEN , 1575 - 1636

Filho de Aristeu, apaixonado pela cinegética, Acteon foi educado por Kiron, mas, como a sua história nos deixa patente, não aproveitou ele as lições do Centauro-mestre. De temperamento inquieto, ávido de sensações, muito curioso, a história nos conta que durante uma caçada
ÁRTEMIS
noturna ele teve a sua atenção despertada por ruídos que vinham de uma fonte próxima, chamada Parthenios. Atraído pelo forte esplendor luminoso que se irradiava do local, logo entendeu que era uma divindade, a deusa Ártemis, que ali se banhava. Aproximou-se mais, tentando surpreendê-la, ver de perto o corpo da deusa. Irritada pela insolência do jovem caçador, Ártemis não o perdoou. Jogando-lhe água no rosto, transformou-o num veado, excitando e enfurecendo contra ele os cães que o acompanhavam. Os animais o destroçaram rapidamente.



MORTE   DE   ACTEON  ( PALÁCIO  REAL  DE  CASERTA , ITÁLIA )

Acteon, nos diz o mito, embora hábil caçador, cultivava a arte venatória de modo muito indiscriminado. Lançava suas setas na direção de alvos mal selecionados, descuidado quanto às suas escolhas, fazendo da vida um jogo oportunista, que o levava sempre a mais uma aventura. Despreocupado e inconsequente, preso à exploração de sua natureza sensual, desviava-se do caminho das buscas superiores. O fogo lhe dava o desejo e também o exagero na sua auto-expressão. Cheio de hybris, confundindo limites, invadiu o campo do sagrado para a satisfação do seu lado animal.

O tema da hybris, a desmedida, a falta de limites como transgressão, liga-se especialmente, como se sabe, aos elementos fogo e ar. O mito de Acteon bem ilustra, sagitarianamente o pecado do jovem caçador contra a
JAMES  STEWART ( A JANELA  INDISCRETA,
FILME  DE  ALFRED  HITCHCOCK , 1954 )
cinegética. Esta história, à luz da astrologia, nos põe também diante do primeiro voyeur da mitologia, diante de um personagem que dá revestimento ao arquétipo do voyeurisme, prática através da qual um espectador é atiçado por uma curiosidade mórbida. Voyeur é a pessoa que procura ver, para a sua satisfação e sem ser visto, cenas íntimas ou eróticas. Acteon é um exemplo clássico da pessoa que é tomada pela chamada pulsão escópica, a que têm por finalidade “olhar” ou “se mostrar” (exibicionismo).

Pà  E   CROTOS
Um mito grego que na antiguidade foi associado também ao signo de Sagitário é o de Crotos, um filho do deus Pã e de Eufeme, a famosa ama das Musas. Ele era muito parecido com o pai e habitava o monte Helicon, em companhia das filhas de Mnemósina. Era excelente caçador, rápido na perseguição das presas e também muito versado em artes. Sua vida era tão feliz que para agradar as suas companheiras, recompensando-as pelo que delas recebia, inventou o aplauso (bater palmas em sinal de aprovação) como manifestação de apoio, louvor e elogio. Quando Crotos morreu, as Musas pediram a Zeus que ele fosse colocado nos céus como uma constelação, revestido de suas principais características: uma figura que lembrasse um sátiro a cavalgar, a caçar, sempre pronto a disparar as suas flechas. Numa outra versão, Crotus teria formado a constelação do Centauro (2º Libra-28º Escorpião) e não a de Sagitário. Os gregos têm ainda uma outra versão para a origem de Sagitário, uma versão bastante “pobre”, aliás,  já que um dos nomes gregos do signo, Touzeutes, seria uma homenagem a uma planta que ao brotar suas folhas tomam a forma de flechas. 

Ainda que possamos descrever uma tipologia sagitariana mais ou menos variada, não devemos esquecer que há um traço no temperamento de todos os do signo que os une, uma necessidade de ultrapassagem de certos limites, uma ideia permanente de expansão. Esta ultrapassagem pode ser encontrada tanto nos tipos extrovertidos ou introvertidos, prevaleça neles o lado animal, humano ou espiritual. Há sempre um além para qualquer sagitariano, a expectativa de que algo poderá acontecer ou ser obtido mais adiante. Podemos falar que com Sagitário há sempre um eu em constante expansão, uma aspiração de superação de limites.

Não é por outra razão, por exemplo, que faz parte da vida de muitos sagitarianos o vício do jogo, tido muitas vezes como um transtorno psicológico de natureza compulsiva que os
DOSTOIEVSKI, 1968
( ILYA  GLAZUNOV )
leva a jogar e a apostar, algo que os domina de tal modo que ficam deixados de lado todos os seus deveres e obrigações sociais, profissionais, familiares e materiais. Um exemplo que bem ilustra o que aqui se expõe é o caso de Dostoievski, que, em 1866, publicou uma novela autobiográfica, O Jogador, na qual nos revela as dificuldades de um jogador patológico com relação às dívidas que contraía.



TOULOUSE- LAUTREC
Também não é por acaso que na vida de muitos sagitarianos encontramos referências a cavalos. Dentre dois casos notáveis podemos mencionar o de Toulouse-Lautrec (Sol, Júpiter e Mercúrio em Sagitário), que devido a dois acidentes, em anos sucessivos, na adolescência, quebrou o fêmur (região sagitariana no corpo) de ambas as pernas. Os traumatismos, operações mal feitas e doença óssea congênita fizeram dele quase um anão. Além de grande pintor e desenhista, foi artista gráfico excepcional, deixando-nos uma obra publicitária famosa, na qual se incluem cartazes sobre as corridas de cavalos no Jockey Club de Paris. Esta grande ligação com cavalos, aliás, era algo que lhe vinha da adolescência, uma paixão, diga-se, que o fazia, ainda bem jovem, cobrir folhas e folhas de vários cadernos de estudo com desenhos desses animais galopando, saltando ou sendo atrelados.

NIETZSCHE
Quando Nietzsche nos fala do super-homem, não há como se deixar de notar, a alimentar todas as suas formulações sobre este importante tópico de sua filosofia, aquilo que encontramos nos traços escórpio-sagitarianos de sua personalidade. Nietzsche encarna de modo exemplar, com essa combinação, o sagitariano revoltado e crítico com relação ao meio em que vive. Ao propor a libertação das rotinas e das tradições, aponta para horizontes em que o homem poderia se abrir para valores morais e espirituais mais elevados. Diz ele: Ir para além do homem é ir para além da forma homem pregada pelos humanismos que existem por aí, ultrapassar as ideias fechadas, os conceitos que mais parecem prisões. O que pode o homem? Mais nada, o melhor a fazer é ultrapassá-lo.

Uma das mais interessantes abordagens da relação Nietzsche-Sagitário-cavalo foi, sem dúvida, a de um dos maiores nomes do cinema contemporâneo, o húngaro Bela Tarr, com o seu intrigante filme O Cavalo de Turim (2011), no qual temos, presentes, além de outras implicações, o tema do “eterno retorno”, como o filósofo o desenvolveu em sua obra. Num trecho de A Gaia Ciência encontramos essa ideia explicitada: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e cada suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar; e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez e tu com ela, poeirinha da poeira. Este tema é apresentado e enfatizado no filme pela rotina diária do camponês, de sua filha e do cavalo.  Outro tema, que o primeiro acima referido deixa subentendido, é o do esforço da moral nietzscheana para que o homem possa sair do seu pessimismo mais profundo, indo além dele. Uma saída que deve se dar pelo reconhecimento de todas as suas experiências negativas, as “infelicidades” que a vida pode lhe reservar, e fazer com o seu desespero mais profundo a esperança mais invencível.


O   CAVALO  DE  TURIM


No que diz respeito a Nietzsche, o filme trabalha com um episódio da vida do filósofo nele não apresentado, mas conhecido por depoimentos de pessoas que o presenciaram, por elas narrado. Tudo, ao que consta, se passou em 3 de janeiro de 1899. Nietzsche, então vivendo na Itália, em Turim, saindo de casa, presenciou na rua o espancamento de um cavalo velho e miserável que se recusava a puxar uma pequena carroça. Um camponês, tão envelhecido e alquebrado como o cavalo, o chicoteava furiosamente. Nietzsche se colocou entre o velho e a carroça, de modo a impedir que a brutalidade continuasse, recebendo no seu próprio corpo as chicotadas. Perdendo os sentidos, foi levado para casa. A partir desse acontecimento, conforme registra a história do filósofo, Nietzsche nunca mais falou nem recobrou a razão. Morreu dez anos depois, a 25 de agosto de 1900, atendido principalmente pela irmã que sempre procurou associar os seus textos à doutrina nazista.


CRIME  E  CASTIGO
É de se lembrar também que alguns anos antes desse acontecimento com Nietzsche, Dostoievski, em Crime e Castigo, havia feito Raskolnikov, principal personagem do seu romance, passar por algo semelhante. Na sua infância, Raskolnikov teria visto uma égua sendo brutalizada por um bando de bêbados; em prantos, abraçou-se ao pobre animal, tentando protegê-lo. Leitor e admirador de Dostoievski, teria Nietzsche revivido o doloroso episódio inconscientemente? Ou mais uma influência sagitariana dentre as inúmeras que encontramos quando aproximamos Dostoievski e Nietzsche?

A melhor maneira de se estudar esta questão, além, naturalmente, do que nos oferecem os biógrafos do filósofo e a história da filosofia é, sem dúvida, a que nos proporciona a astrologia através das posições e das relações que o planeta Júpiter, regente do signo, ocupa e estabelece numa carta astrológica. Numa analogia com a condição humana, podemos descrever a fase jupiteriana na vida de alguém como a da aprendizagem do controle das pulsões instintivas e das ilusões do ego em proveito de uma contínua série de aquisições e benefícios diversos voltados para a humanidade. Se bem posicionado e relacionado, Júpiter sempre significa uma espécie de enriquecimento vital, que pode, contudo, se revelar muitas vezes de modo contraditório, tanto como confiança, generosidade, altruísmo e plenitude, como uma inexplicável rendição às pressões instintivas do lado animal do signo, do qual fazem parte apetites desmedidos, gourmandise, exageros, totalitarismo, prepotência e ostentação.

A Iátrica, outra arte ensinada por Kiron, é palavra grega que quer dizer prática médica (med é radical que indica dispensar cuidados, ocupar-se de). É a arte clínica, onde esta última palavra tem o significado de inclinar-se o médico sobre o doente, ao lado do leito. A Iátrica de Kiron procurava fazer com que os seus discípulos fossem os seus próprios médicos além, é claro, de agirem em função dos outros.  A arte da Iátrica que Kiron passava a seus discípulos tinha por base a klinikê, técnica médica que o iatra (médico) exercia junto do leito (kline).

ASCLÉPIO,  KIRON,  APOLO
( AFRESCO  DE  POMPEIA )
Desde os tempos míticos, a medicina praticada entre os antigos gregos, como Apolo, Kiron e Asclépio a representaram e Homero dela nos descreveu alguma coisa, tomou um sentido bastante concreto. No mundo homérico, os ferimentos eram pensados com bálsamos e algumas práticas mágicas eram utilizadas. Nesse cenário, não há como negar, porém, que influências xamânicas faziam parte dos processo de cura. Embora os estudos acadêmicos sobre a Grécia antiga sempre tenham evitado aplicar a expressão de Claude Lévi-Strauss, pensée sauvage, a manifestações terapêuticas como as aqui descritas, quanto ao mundo que abordavam, não há dúvida que a Grécia antiga, sempre considerada como a terra da filosofia e mãe da civilização ocidental, era em grande parte bárbara e foi muito mais oriental e "selvagem” do que se supunha por ter incorporado às suas tradições muitas influências orientais (anatolykas) e egípcias, de povos que não falavam línguas helênicas.

A Iátrica ensinada por Kiron estava muito presente nos templos de Asclépio (asclepieions). Além isso, é preciso considerar que grande parte do conhecimento médico do mundo mítico foi sempre transmitido dentro dos genos, abertos inclusive para o  que vinha do exterior (Egito e Ásia Menor). Em pouco tempo, grandes centros médicos (muitos rivalizando entre si) se desenvolveram em Crotona, Cyrene, Rodes, Cnido e, sobretudo, Kós, cuja influência se estendeu até muito depois do chamado período helenístico da história grega.


MAPA   DA   GRÉCIA  ANTIGA



RUÍNAS   DE   KÓS
Oriundo de Kós, a figura histórica mais conhecida da medicina grega, é Hipócrates, que com a sua prática difundiu o que o mito registrara com relação às suas divindades médicas. Hipócrates, por exemplo, nos falou da ciência dos temperamentos a partir das relações entre os elementos universais (fogo, terra, ar e água) e das qualidades primitivas e dos humores. Para ele, como para a Iátrica de Kiron, o ponto de partida das suas doutrinas médicas centrava-se na ideia apolínea de que a doença provém sempre de um desequilíbrio homem-mundo. Por isso, sua medicina foi, a um só tempo, biológica, psicológica, geográfica, histórica e astronômico-astrológica. 


AGONES  ( CERÂMICA  GREGA )

A terceira arte ensinada por Kiron foi a agonística. Agon, em grego, para o homem comum na Grécia antiga era concurso, jogos públicos, que ocupavam grande lugar na vida das cidades gregas. Revestiam.se esses jogos de um caráter solene, em homenagem a uma divindade, a um herói, a um imperador, a um morto ilustre. Os concursos podiam ser musicais, poéticos, hípicos, esportivos, atléticos etc. Literalmente, agon é luta, como temos em agonia, luta contra a morte

A agonística de Kiron era a arte pela qual o discípulo aprendia a lutar para superar os obstáculos que encontrava na vida, sempre presente uma ideia de transcendência. Contudo, os maiores obstáculos e dificuldades, conforme a agonística de Kiron dava a entender claramente, não estavam fora, mas, sim, dentro do discípulo, na situação conflitual do seu psiquismo, no combate que devia travar contra as suas tendências regressivas, contra os seus monstros interiores. É neste sentido que a agonística de Kiron procurava fazer com que o discípulo se identificasse muito mais com as potências do espírito (fogo espiritual, Sagitário) do que com as potências do mental (fogo racional, Leão) e do físico (fogo das paixões, Áries), ressaltando que a primeira vitória que o discípulo tinha que obter era a interior, sobre si mesmo.

A agonística , como fácil é constatar, punha em circulação muitas ideias que fariam parte da filosofia grega e que depois se integrariam  no pensamento greco-alexandrino (Hermetismo), em alguns de seus princípios como os da vibração, da polaridade, do ritmo e do gênero. Na prática os agones tinham grande importância na vida pública dos gregos. Esses princípios se revelavam sobretudo pela oposição mais evidente, a do homem e do mundo. É nesse sentido que toda doutrina humanista é dualista na medida em que através dela se afirma a liberdade do homem e a
AGONES ( AFRESCO GREGO ) 
impossibilidade de se reduzi-la às leis da natureza (determinismo absoluto), de absorvê-lo nos mecanismos sociais, num totalitarismo de Estado, por exemplo. Na prática, os agones eram dominados por concursos públicos musicais, hípicos, atléticos, esportivos de danças, literários, teatrais, poéticos, esportivos etc. Os mais famosos agones eram, naturalmente, os pan-helênicos, dos quais participavam as grandes cidades gregas, tornando-se os artistas e atletas vencedores verdadeiros heróis nacionais.      

A base filosófica da mântica, outra arte que Kiron ensinava, era a sympatheia: afinidade entre corpos, elementos e humores; relação corpo e mente, um afetando o outro; solidarização com algo ou alguém, especialmente com o estado mental de outra pessoa, sem que para isso o indivíduo se colocasse no lugar do outro; relação entre micro e macroscosmo. O entendimento do que eram sympatheia cósmica e dynamis (doutrina das potências), associadas à teoria dos elementos e às suas qualidades primitivas. Tudo isto em Kiron e depois na medicina de Asclépio, seu discípulo, tinha relação com uma arte que mais tarde tomaria o nome de Semiologia (semeion, sinal distintivo) médica, meio e modo de se examinar um doente, especialmente o de se verificar os sinais e os sintomas (sintomatologia) apresentados.


KIRON ( EDESSA, SÉCULO V )
A mântica de Kiron tem grande relação com a filosofia grega pré-socrática na medida em que ela aparece, principalmente através da medicina que era praticada em Epidauro, esvaziada do maravilhoso, do sobrenatural e do mediúnico. A proposta de Kiron era, no fundo, a de que seus discípulos se tornassem mestres na arte do diagnóstico, a arte de ver através dos sinais, não só sob o ponto de vista médico, mas mestres com a  faculdade de discernir, de conhecer, todas as mensagens que a vida lhes trouxesse. A palavra mantike é traduzida geralmente como adivinhação, uma possibilidade de comunicação com acontecimentos futuros, no geral concedida pelos deuses aos homens. A mantike grega admitia dois tipos diferentes. O primeiro era a comunicação direta através de um medium humano, o prophetes, processo divino, cujo melhor exemplo é o da mântica apolínea como a encontramos no oráculo de Delfos. Uma variante deste processo era o do aparição de um deus a um indivíduo num sonho (oneiros). O segundo tipo podia ser aprendido, ao invés da concessão divina, por inspiração. Consistia na leitura de vários fenômenos naturais como os hábitos dos pássaros (augúrio) e as entranhas de animais (haruspícia, hepatoscopia), na leitura do corpo humano e de suas partes (dactilomancia, quiromancia, glossomancia, craniomancia etc.

TEATRO  DE  EPIDAURO
As informações mitológicas que temos sobre Kiron põem também em evidência, com muito destaque, o seu papel como curandeiro, cujos métodos se baseavam sobretudo em tratamentos de natureza holísitica, com muita importância dada às dietas. A medicina posta em prática por seu discípulo Asclépio, em Epidauro, usava os mesmos processos, ampliando-os, porém, com o uso de técnicas psicoterápicas (metanoia, nooterapia). A medicina de Kiron se concentrava também na cirurgia e na quiropática, ambas relacionadas com o uso das mãos (kheir). Para astrólogos:  lembremos que no início da década de 1.970 Júpiter transitou por Sagitário. Foi a partir desse período, ao que parece, que a medicina holística começou a ser mais praticada, entrando em moda no ocidente, de modo mais intenso, inclusive as técnicas a ela ligadas como a acupuntura, o do-in, a massoterapia, a fitoterapia, a naturopatia e outras. Kiron, como nos revela o mito, teve uma longa existência e era considerado como um modelo da velhice robusta.






domingo, 24 de setembro de 2017

LIBRA (3)

                                           
AS  CÁRITES ( SANDRO BOTTICELLI , 1445 - 1510 )

Integram-se também à constelação de Libra as Cárites, as Graças, divindades inicialmente ligadas ao mundo vegetal e depois aparecendo sempre associadas à convivência harmoniosa entre os humanos. Kharis, em grego, significa graça exterior, beleza, encanto, boas maneiras, disposição para a convivência alegre, harmoniosa, divertimento saudável. Todas estas características encontradas tanto no mundo natural como no mundo dos humanos era delas. Nesta condição, eram as Cárites reverenciadas desde os primeiros momentos do dia. Em várias tradições mediterrâneas são registrados os seus cultos, destacando-se especialmente, por sua antiguidade, os de Creta, os jogos (agones) celebrados em sua honra, desde tempos do rei Minos. Seu mais antigo santuário estava em Orcômenos, antiga cidade da Beócia.


ORCÔMENOS  ,  ANTIGA  BEÓCIA

A beleza da variedade do mundo natural deve-se a elas, que, assim, agiam em comum com as Horas nesta área. Tinham responsabilidade direta pela suavidade primaveril, atenuando o que esta estação trazia de quente e áspero. Os poetas logo se apoderaram desta imagem, fazendo das Cárites as amigas e protetoras de tudo o que aparecia como suave, gracioso e belo. É o caso de Píndaro, gênio da poesia grega, que as considerou sempre como fonte do decoro, da pureza, da felicidade da vida diária e da boa vontade. Lembremos que palavras gregas eukharistia (ação de graças) e eukharistos (agradecido, obrigado) têm relação com as Cárites. O verbo é kharizomai, agradar, dar gosto, mais o prefixo eu, bem, bom.

Eram representadas por três jovens, nuas ou seminuas, sempre dançando, rodopiando, cantando, perto de fontes, usando uma decoração corporal e ambiental muito florida, com especial destaque para as rosas, as flores de Afrodite. Passavam grande parte do seu tempo com as Musas, perto do Olimpo. Na maior parte das versões, as Cárites passam por filhas de Zeus e de Eurínome, uma oceânida, que casada com Ofion administrava o cume nevoso do Olimpo.

CÁRITES
( C. VAN LOO , 1705-1765 ) 
As Cárites eram três: Aglaia (Brilhante, Esplêndida), Talia (Festa) e Eufrosina (Alegria da Alma). Em Atenas eram apenas duas, Kleta (a que causa impressão profunda, emitindo sons) e Phaenna (a que lampeja, a tremulante). Aglaia uniu-se a Hefesto, sendo a responsável, conforme atestado por muitas tradições, pelo elevado padrão estético das obras e peças que saíam das oficinas e forjas do deus. Palas Athena, muito desajeitada nas questões de beleza, recorreu várias vezes às Graças para suavizar o utilitarismo das suas ações e dos produtos que inspirava. O deus Hermes, muito pragmático, se valeu do conselho das Graças para aumentar a capacidade de penetração dos seus discursos.  No mais, as Cárites tanto influenciavam positivamente os trabalhos artísticos e as atividades intelectuais como participavam alegremente dos cortejos de Afrodite, Eros e Dioniso.

Na Grécia, numerosos templos e santuários mantinham com destaque as imagens dessas três divindades. Havia um festival anual que as honrava, chamado Charistesia, do qual faziam parte jogos teatrais, canto e dança. Eram também muito invocadas nos
SYRINX
banquetes e nos simpósios, sendo o primeiro brinde feito sempre em sua homenagem. Tinham como atributo a rosa, o mirtilo e os dados, como símbolos do alegre divertimento. Maçãs, vasos floridos, papoulas, espigas de trigo e instrumentos musicais (lira, flauta e syrinx) faziam parte da decoração dos ambientes em que pontificavam.     

AFRODITE   PANDÊMIA
( CHARLES  GLEYRE, 1806 - 1874 )
Entre os gregos, astrologicamente, o signo de Libra foi entregue à deusa Afrodite, aquela que veio para controlar o deus Eros, ou seja, para colocar as relações divinas e humanas numa perspectiva de reciprocidade, integrando numa justa proporção o amor sob a sua forma física, bem como o desejo e o prazer dos sentidos. O mundo grego enquadrou a deusa Afrodite em vários tipos, sendo os mais conhecidos
AFRODITE  URÂNIA , 1878
( CHRISTIAN GRIEPENKERL ) 
o “popular”, o da chamada Afrodite Pandêmia, e o “elevado”, “celeste”, o da chamada Afrodite Urânia, ou seja, a deusa como símbolo dos amores e das uniões onde podem prevalecer, respectivamente, o aspecto terrestre ou celeste da deusa. O cristianismo, lembremos, procurou construir a imagem da Virgem Maria sob a inspiração de influências egípcias e gregas, isto é, de Ísis, quanto às primeiras,  e da Afrodite Urânia e das Cárites quanto às outras.

Por fazer parte do eixo equinocial, marcando o início do outono, ao signo de Libra sempre foi atribuída grande importância. É nessa condição que ele é a porta de entrada do terceiro quadrante zodiacal, o da vida social, sucedendo o segundo quadrante, o da vida familiar, e preparando para o do coletivo, da humanidade, o quarto e último quadrante. Os hindus sempre associaram está área do Zodíaco, o terceiro quadrante, ao conceito de dharma, palavra que traduz ideias de lei, obrigação, dever e responsabilidade.


Os antigos gregos só muito tardiamente reconheceram o signo da Balança, dando-lhe a forma que tem hoje. Tal aconteceu ao tempo dos grandes astrônomos-astrólogos, Hiparco, Eratóstenes e Ptolomeu, quando, como se disse, as Pinças ou Garras de Escorpião ganharam autonomia. A elas se deu o nome grego de Zygon (Parelha), de onde saiu a palavra zigoto, usada na biologia para indicar o estágio do embrião em que os gametas masculino e feminino (esperma e óvulo) se encontram pela primeira vez no útero materno, ocorrendo então, verdadeiramente, a concepção.

Os romanos chamaram esta constelação de Jugum, palavra que traduz a ideia de algo que conecta, que enlaça, que junge, que atrela, designando ela  também uma espécie de cabresto com o qual desfilavam os prisioneiros. Outros nomes romanos da constelação eram, como se disse, Chelae (Pinças), Libra e muito raramente Noctipares. Este último era a palavra que os romanos usavam para designar pesos ou medidas de um modo geral. Alguns astrólogos gregos, lembremos, com formação mitológica, chegaram a ver na constelação de Libra o carro que levou Koré ao Hades, fazendo-se assim a ligação entre o signo de Virgem e o de Escorpião. Nas tabuinhas caldaicas, esta constelação era chamada de Zibanitu, palavra que parece significar algo como “chifres do escorpião”.

MARCUS   MANILIUS
Há uma tradição greco-romana que coloca a constelação de Libra sob a tutela de Hefesto (Vulcano), que passa por ter sido a divindade que a forjou. O defensor desta tradição é Marcus Manilius, poeta latino do primeiro século da nossa era, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, famoso autor de Astronomica, poema em cinco livros. Esta história de Hefesto como regente de Libra tem alguma justificativa mitológica se lembrarmos que Palas Atena chegou a ser considerada por muitos astrólogos gregos como a divindade regente do signo de Áries.

É no mito de Erictônio (o que provoca ruínas, o que despedaça) que encontramos a ligação entre as duas divindades acima referidas. Erictônio tem o seu nascimento ligado a um violento e incontrolável desejo de Hefesto por Palas Atena. Consta que a deusa certo dia procurou o deus metalúrgico para que ele fabricasse algumas armas de que necessitava. Ainda mal refeito do affaire Ares-Afrodite, Hefesto se inflamou quando viu a deusa virgem, tomado por um violento furor erótico. Tentou por todos meios possui-la e, embora coxo, a alcançou na corrida. Atena se defendeu bravamente, repelindo-o. No calor da refrega, entretanto, gotas do sêmen de Hefesto caíram sobre as coxas da deusa. Conseguindo se safar, depois, mais calma, segura de que não voltaria a ser atacada, Atena, horrorizada, com um floco de lã, limpou todo o esperma das suas belas pernas, jogando-o longe, no chão. No lugar em que a lã tocou a terra, uma criança dela brotou, um menino, recolhido de imediato pela deusa, que o chamou de Erictônio, o filho da terra.


GAIA   APRESENTA   ERICTÔNIO   A   PALAS   ATHENA

Sem que ninguém soubesse, nem os deuses, Palas Athena encerrou a criança numa arca, confiando a sua guarda às filhas de Cécrops, antigo fundador e rei mítico de Atenas. Apesar da recomendação de que jamais abrissem a arca, as jovens o fizeram; logo, porém, fugiram apavoradas diante da visão que tiveram: a criança era monstruosa, uma serpente da cintura para baixo. Punidas pela deusa com a loucura, as jovens princesas morreram ao se atirar da acrópole. Educado pela “mãe”, Erictônio, ao chegar à maioridade, recebeu o poder de Cécrops. A ele se deve, como rei de Atenas, a invenção da quadriga, a introdução do dinheiro na Ática e a organização das Panateneias em honra da mãe.   

HEFESTO
O mito de Erictônio une estreitamente Hefesto e Palas Atena na Ática, mais exatamente em Atenas. Homero, como sabemos, sempre exaltou Hefesto por causa de sua grande habilidade como construtor, criador, associando-o a Atena. Não é por outra razão que Platão (Critias) coloca as duas divindades compartilhando a tutela de Atenas, encontrando nelas uma conjugação de duas qualidades; de um lado, por Atena, a

philosophia (a razão guiando a força), e, de outro, por Hefesto, a philotekhnia (o amigo de todas as técnicas e artes). Ambos têm em comum também um grande pendor para tudo o que signifique artesanato, sendo divindades muito honradas pelos artesãos, que viviam no bairro do Cerâmico, onde anualmente se realizava uma grande festa (Khalkheia) em homenagem às duas divindades.

SURYA
Se pensarmos (astrologicamente) no fato de o fogo ariano ser atenuado ou controlado por Libra, talvez seja possível entender melhor esta relação entre Hefesto e Palas Athena e a de ser atribuída ao primeiro a regência do signo. Os mitos que cercam as origens de Hefesto têm, sem dúvida, suas raízes fixadas no mundo das tribos arianas. Lembremos que os primitivos povos árias reverenciavam o fogo através de três divindades.
AGNI
O fogo celeste era representado por Surya, o Sol; as suas emanações radiantes, ou seja, o fogo como intermediário entre o Sol e a Terra, tinha Indra por patrono; o fogo terrestre, o da vida doméstica, dos sacrifícios, das lareiras e das cremações, era de Agni; este último tipo de fogo podia ser preparado ou gerado pelos próprios seres humanos.  Era deste modo que no Rig Veda se faziam referências a Agni:
Tu que és o deus mais próximo de nós, vem nos socorrer, tu o nosso mais doce amigo.

Agni, na terra, podia tomar formas benéficas ou maléficas, como o fogo sacrificial no primeiro caso, promovendo a união terra-céu, ou como fogo dos incêndios, descontrolado, terrível, no segundo caso, quando destrutivamente rugia como um touro bravio ou como as ondas revoltas dos mares. Na língua sânscrita, Yavishtha, um superlativo de yuvan, jovem (juvenis, junior, em latim), é juveníssimo, ou seja, o eternamente jovem, aquele que sempre se renova, que não perde jamais a sua força, uma epiclese do deus Agni.

Chamado pelos gregos de Aphaistos (aph, água, e aistos, acender, produzir fogo), Hefesto, é o fogo celeste nascido das águas. O Hefesto grego adquire o status de artista dos deuses, atividade muito semelhante à de Agni na Índia védica, chamado, nesta condição, de Tvasthar, palavra que quer dizer artífice, o mais operoso dos deuses, criador não só de coisas inanimadas como de animais e homens. No mundo védico, havia um colégio sacerdotal que administrava os cultos relativos ao fogo como Agni, principalmente nos seus aspectos práticos, exercendo seu poder sobre o elemento ígneo como criador de riquezas, produtor de alimentos e gerador de bens temporais.

HEFESTO   E   TÉTIS
Hefesto, como sabemos, segundo uma versão mais aceita, nasceu da união legítima de Zeus e de Hera, mas, segundo Homero, uma união sem amor. Noutra versão, Hera teria gerado Hefesto sozinha em represália ao nascimento de Palas Atena, fruto de um famoso “parto cerebral” de Zeus, tipicamente ariano. Para o defeito físico de Hefesto há também duas versões. A primeira (Ilíada) nos diz que Hera, ao ver o filho coxo e
ZEUS   E   HERA
deformado, o lançou do alto do Olimpo em direção da terra. Caindo no mar, Hefesto foi recolhido por Tétis e Eurínome, divindades marinhas, que o protegeram, levando-o para uma gruta, onde fez a sua longa aprendizagem no trabalho do ferro, do bronze, dos metais e pedras preciosas. Numa outra versão, Hefesto teria nascido hígido. A causa estaria numa discussão entre Zeus e Hera a propósito de Hércules. Ao tomar o partido da mãe, Zeus, irritado, o lançou no espaço, caindo ele na ilha de Lemnos. Devido ao tombo, teria ficado manco, com os pés voltados para trás.   

Mais tarde, admitido no Olimpo, assumiu a condição de mestre do elemento ígneo e patrono de todos os que o utilizam para a produção de bens e utensílios. Para os deuses, fabricou maravilhas, armas terríveis. Temível, violento, atormentado e arrebatado, as indicações que temos nas antigas tabuinhas mesopotâmicas se ajustam porém a nosso ver, muito mais, a alguém nascido sob a influência das Pinças de Escorpião, que iriam mais tarde constituir o signo de Libra.

PALAS   ATHENA
( 1898  ,  KLIMT )
Quanto a Palas Atena, lembremos que Marcus Manilius, ao narrar a sua história, destaca os traços arianos que na deusa encontramos, desde o seu nascimento, da cabeça do pai. Zeus a “concebe” só. O momento do parto é anunciado por uma grande dor de cabeça. Hefesto é o “parteiro”. Abre a cabeça de Zeus e dali arranca a deusa, nascida adulta e armada, soltando gritos de guerra. Mal nascida, a jovem deusa guerreira pôs-se a lutar ao lado do pai e de outros deuses olímpicos no episódio da Gigantomaquia. Tanto as armas que usou como os seus sábios conselhos foram decisivos para a vitória dos olímpicos.

Outra característica ariana de Palas Atena estava no seu grande empenho em participar de competições e concursos. Citemos, dentre eles, a disputa pelo título de “a mais bela”, que teve por cenário o casamento de Peleu e de Tétis, e a disputa que travou com Poseidon, pela tutela da polis ateniense. Sua enorme vocação para ultrapassar a tudo e a todos, levou-a, por exemplo, a assumir a proteção dos lugares elevados, como a deusa das acrópoles. Se numa perspectiva idealizada é a deusa da inteligência, da prudência e da força guiada pela razão, na prática, na realidade, sua história está repleta de passagens em que se mostra rancorosa, impulsiva, violenta, amante das batalhas, das competições, traços que aproximam bastante do mundo ariano.

MARCUS   MANILIUS
Ainda segundo Marcus Manilius, em seu poema, as características do carneiro não devem ser perdidas de vista quando procuramos descrever os tipos do signo, pois o carneiro, cujo rico velo produz lã tão útil, espera renová-lo a cada vez que dela é despojado; situado sempre entre uma fortuna brilhante e uma ruína instantânea, não enriquecerá senão para perder tudo, sendo sua felicidade o prenúncio de sua queda. Nem a própria Palas Atena desdenhou trabalhar com a lã e considerou glorioso e digno o triunfo que obteve sobre Aracné.

Libra é o sétimo signo, oposto polar de Áries, e constitui, como sabemos, no zodíaco, o lugar mais distante do eu. Em qualquer circunstância ou momento em que, como indivíduos, tivermos que
VÊNUS
( BOTTICELLI , 1445 - 1510 )
iniciar um relacionamento  com outras pessoas o simbolismo do equinócio de outono e o de Libra é invocado. Há que se considerar, todavia, que o simbolismo de Libra deixa muito a desejar quando pensamos em amor. A Vênus libriana realmente não empolga; é bela, pode ter padrões estéticos refinados, é diplomática, socialmente agradável, companheira, mas falta-lhe aquilo que a Vênus taurina tem, o lado carnal, terreno, o prazer sensual, onde o erotismo sempre pode entrar, glorificado de algum modo.

Embora eu não seja um defensor da defenestração de Vênus da regência de Libra, julgo que a corregência do signo deva ser compartilhada de um modo mais definido entre ela, Vênus, Palas Atena e Hera, deusas-asteróides que começaram a ocupar o seu espaço no signo e nos assuntos da sétima casa pelo que ambas, com muita propriedade, têm a dizer. Hera, na mitologia grega, era a deusa das justas núpcias e da fidelidade conjugal, a legítima (legal) esposa do Senhor do Olimpo. É, como tal, a protetora das uniões oficiais, estendendo-se o seu domínio por isso aos partos e à educação dos filhos.  Por outro lado, Palas Atena é, sem dúvida, o lado lutador da sétima casa, o seu lado aguerrido  que, às vezes, aparece como a coação da lei, a  espada da justiça. É neste caso, que a balança e a espada se tornam inseparáveis. A primeira como símbolo do julgamento, da medida, da prudência e da medida. A outra, a espada, na sua dupla função, como destruidora da injustiça e restauradora da ordem. 


PALAS , VÊNUS , HERA (HANS VON AACHEN, 1552 - 1615)

Se pensarmos na questão da estética, Hera sempre foi vista como uma mulher de beleza majestosa, embora às vezes irascível e altiva, elegantemente vestida, cabelos impecáveis, classe na gesticulação, corpo rijo, uma presença que impunha respeito e, quem sabe, desejos eróticos mudos naqueles que a viam espetacularmente se movimentando nas reuniões olímpicas. Sendo esposa de Zeus, detinha Hera naturalmente certos atributos de soberania que lhe eram pessoais e intransferíveis, que a distinguiam muito das outras deusas. Exercia inclusive, para reforçar a soberania de sua posição, uma poderosa ação sobre alguns fenômenos atmosféricos. Era reverenciada sobretudo nas alturas celestes, lugar onde se amontoavam as nuvens, de onde vinham as chuvas benéficas, mas de onde também provinham violentas tempestades. As más línguas olímpicas diziam que as querelas entre Zeus e Hera, típicas da sétima casa, eram uma alegoria, representando as perturbações atmosféricas naturais das alturas celestes. Hera seria assim, também, a imagem da atmosfera tantas vezes carregada, agitada, escura, ameaçadora. Quanto a Zeus, se personificava o éter puro, a serenidade do firmamento, podia, muitas vezes, se manifestar através de seus três terríveis atributos, o trovão, o relâmpago e o raio.

ZEUS  E  HERA
O casamento entre Zeus e Hera foi um acontecimento que decorreu sobretudo de acordos e arranjos políticos, econômicos e sociais; uma história de poder e de lutas, como ocorre ainda hoje com muitas uniões no mundo das elites, algo bem distante de uma associação motivada por amor. A aproximação entre o amor e o casamento, na civilização ocidental, só foi feita muito tardiamente, como se sabe.  Nas classes superiores, os casamentos, como sabemos, ainda hoje, são arranjados. Por isso, embora associemos Vênus ao amor, não há dúvida de que ela se relaciona muito mais com o casamento-instituição, como aliás aconteceu com Afrodite, quando do seu casamento com Hefesto. Por uma questão de justiça, seria por isso muito mais apropriado talvez dar um poder maior a Hera sobre as questões de Libra e da sétima casa. Razão maior para isto a encontraremos se pensarmos o quanto as relações de Zeus e Hera tipificam mais adequadamente as relações “normais” da instituição chamada casamento, relações cheia de crises, arrufos, brigas, histórias de infidelidade, acessos de ciúme e vinganças.

A corregência de Palas Atena em Libra, como já foi possível deduzir do que sobre ela se falou acima, encontra a sua justificação principalmente no caso de librianos que tenham em suas cartas uma dominante fogo ou ar, isto é, mais ativos, “legalistas”, “justiceiros” (a espada a serviço da Justiça), ou que, devido ao componente aéreo, sejam mais frios, mais lógicos, menos propensos a se envolver nas confusões afetivas que o signo tradicionalmente costuma apresentar.

HÉCUBA  E  PRÍAMO  
Não podemos esquecer que os gregos sempre aproximaram do signo de Libra uma das figuras mais contraditórias de sua mitologia. Referimo-nos ao príncipe troiano Páris, também chamado Alexandre (o que repele), filho de Príamo e de Hécuba. Antes do seu nascimento, os adivinhos, consultados, anunciaram que a criança causaria um dia a destruição de Troia através do fogo. Por causa dessa predição, Príamo determinou que a criança fosse exposta, abandonada. Hécuba, porém, entregou o menino a uns pastores do monte Ida.

PÁRIS ( 1628 , VAN DYCK )
Se nos primeiros anos de sua juventude e vida adulta Páris demonstrou virtudes afirmativas que o levaram de volta ao palácio do pai, seu comportamento, depois, com a ninfa Enone foi lamentável. Com relação a Helena, então, Páris, outrora arrojado pastor, teve um comportamento pusilânime e só não morreu nas mãos de Menelau por causa da intervenção de Afrodite a seu favor. Ele, como sabemos, terminará a sua vida lamentavelmente na condição de um anti-herói, encarnando as expressões inferiores de Libra, apesar de ter sido o autor indireto da morte de Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. 





sábado, 17 de junho de 2017

LEÃO (2)

                              
SIBILA  ( LEONARDO  DA  VINCI - 1452 - 1519 )

Apolo substituiu, como se disse, a mântica por incubação pela profética, de inspiração direta. Nesta condição, a sacerdotisa, chamada de sibila ou pitonisa, tomada por uma espécie de furor, um delírio sagrado, era possuída pelo deus, entrando num estado de loucura. Platão dava a este estado o nome de mania. As sacerdotisas, divinamente inspiradas, tornavam-se entheos, possuídas pelo deus. Era um estado não-racional a que se dava também o nome de enthousiasmos.
  
 DELFOS , GRÉCIA
Python era o antigo nome de Delfos, situada na montanha, no maciço do Parnaso, nome também do dragão que guardava o lugar. Historicamente foi, ao que aparece, ao fim do período miceniano da história grega que o deus Apolo venceu as antigas divindades femininas, Geia e
AGONES
Têmis, donas do oráculo. Registros míticos nos informam que por este “crime” Zeus fez seu filho Apolo viver no exílio por oito anos. Para celebrar a vitória apolínea, os gregos celebravam anualmente cerimônias, jogos, os chamados agones, a que davam o nome de Píticos.


Dos agones,  jogos públicos, no mundo mítico, faziam parte concursos musicais, hípicos e esportivos. Tinham um caráter espetacular e eram muito apreciados, conforma nos conta Homero, na Odisseia, como aqueles organizados pelos feácios. No período histórico, os agones tinham sobretudo um caráter fúnebre ou religioso. Uns eram realizados em algumas cidades apenas. Outros, porém, congregavam várias das principais cidades, tomando, neste caso, o nome de pan-helênicos. Nesta categoria se inscreviam os jogos Píticos, os grandes concursos de Delfos, os mais importantes depois dos jogos Olímpicos. 


JOGOS   PÍTICOS  -  CERÂMICA


AULODIA
Instituídos por Apolo, conforme narram os mitos, para comemorar a vitória sobre o dragão, a cada quatro anos, acabaram por incorporar provas musicais e físicas (ginástica, pedestrianismo e pancrácio, isto é,  luta-livre e pugilato), terminando por uma corrida de carros. A parte musical era muito importante. Dela faziam parte a composição de um hino a Apolo, provas de aulética (solo de flauta), de aulodia (canto acompanhado de flauta) e de cítara. Nesta mesma parte, tínhamos concursos poéticos e dramáticos, inclusive de pintura. Tudo realizado muito solenemente, sendo coroados os seus vencedores com coroas de louro, árvore-símbolo do deus.   


JOGOS   OLÍMPICOS   

Sob a tutela de Apolo, a sibila (sibilar é falar sibilando, isto é, emitir sons agudos, contínuos, silvos, como as cobras e serpentes; acentuar as consoantes sibilantes ao falar), sentava-se sobre o banco forrado com a pele do dragão, o pequeno trono profético, a trípode, na condição de entheos. Com as pernas abertas, recolhendo as emanações que vinham das profundezas, que deslizavam e acariciavam os seus órgãos genitais, tomada pelo delírio divino, desatava os seus cabelos, e de sua boca brotavam palavras enigmáticas que depois eram interpretadas pelo colégio sacerdotal do santuário. Apolo substituiu a mântica ctônica, a incubatio de Geia e de Têmis, pela mântica por inspiração.


MÂNTICA

RAMOS   DE   LOUREIRO
A primeira, incubatio, tinha relação com a palavra delphys, útero em grego, lembrando via subconsciente. A mântica apolínea equivalia a uma penetração, que gerava, como em Dioniso, o êxtase e o entusiasmo. A pítia era escolhida entre as virgens locais e ficava servindo no santuário até poder assumir a condição de pitonisa, o que ocorria quando chegava aos
CAMPO   DE   CEVADA
50 anos de idade. A sessão profética começava quando a pitonisa ingeria a água da fonte Cassotis, que dava o dom da profecia; a seguir, ela se dirigia para a cripta do templo do deus, invadido pelos vapores, perfumados pela combustão de ramos e folhas de loureiro e de farinha de cevada. Mascando folhas de louro, ela se instalava então sobre o banco, conforme acima descrito. 

PLATÃO ( DA  VINCI ,  452 - 1519 )
Lembremos que o deus, símbolo de um mundo masculino, aristocrático, usava o elemento feminino, mediúnico, a pitonisa, para poder se expressar. Em virtude dos problemas interpretativos que as sentenças oraculares ocasionavam, Apolo foi chamado, na condição de deus da mântica profética, de Loxias, um epíteto que quer dizer obscuro ou melhor, oblíquo. Lembremos que ao longo dos séculos muitas investigações foram feitas em Delfos para se tentar analisar se o pneuma délfico existiu realmente. A conclusão foi a de que havia na região de Delfos um khasma gês, uma brecha no solo que se comunicava com profundezas subterrâneas insondáveis. O pneuma, as emanações, era uma manifestação da invisível presença do deus. Estas exalações, segundo depoimentos da época, quando envolvia o corpo da Pitonisa, infundiam nas suas almas um temperamento insólito e estranho, uma dilatação e uma expansão que podia levá-las a captar impressões do futuro. Lembre-se, como foi dito, que Platão (Timeo) apresentava a faculdade divinatória como um modo de percepção do futuro que afasta qualquer tipo de raciocínio. 

Desde tempo pré-helênicos, o santuário de Delfos recebeu visitantes não só do mundo grego como de inúmeros países mediterrâneos e asiáticos, da Espanha à Ásia Menor. Enriquecido pelas oferendas, pelas doações e sobretudo pelas elevadas taxas cobradas quando das consultas, além das guerras e dos tremores de terra que o alcançaram, o santuário de Delfos foi pilhado por imperadores romanos como Sylla e Nero. Ainda ao tempo do imperador Adriano (séc.II dC), o oráculo estava em pleno funcionamento. Quando o último imperador pagão, Juliano, o Apóstata (331-363) mandou interrogar a Pítia ela proferiu o último oráculo do santuário, uma sentença que, àquela altura, para o mundo romano tinha um sentido de epitáfio: Ide dizer ao rei que o belo edifício jaz por terra, Apolo não tem mais o seu tugúrio nem o seu loureiro profético, a fonte secou e a água que falava se calou.

APOLO  E  DAPHNE
( G.L. BERNINI , 1598 - 1680 )
O loureiro é consagrado a Apolo. Perseguida pelo deus, que contra ela investia sexualmente, uma ninfa foi transformada pelos deuses nesse vegetal, recebendo o nome de Daphne. Arrependido do seu ato, Apolo lhe concedeu a imortalidade e o usou, como vegetal, para simbolizar a vitória, tanto pelas armas como pelo espírito. No mito, é considerada também uma planta que lembra expiação. Um loureiro nasceu no lugar em que Orestes matou seu pai, Agamemnon, do mesmo modo que Apolo o havia escolhido para expiações depois da morte do dragão que guardava o oráculo de Delfos. A pítia e os sacerdotes de Apolo usavam coroas de louro não só porque elas tinham um perfume muito agradável mas também porque elas lhes permitiam se comunicar com os “espíritos da profecia”, com a luz e com o entusiasmo poético. 


AS   MUSAS  ( BALDASSARI  PERUZZI , 1481 - 1536 )

As Musas faziam parte do cortejo de Apolo como deusas das artes, da música e da poesia. Fazia parte do mundo délfico um grupo de adivinhos chamados Daphnefagos, que ornavam a sua fronte  com ramos da planta e que comiam as suas folhas. Eles praticavam a daphnomancia, a adivinhação pelo loureiro: jogavam-se ramos ou folhas do loureiro no fogo e se eles estalassem o sinal era de bom agouro. A ausência de ruídos significava sempre maus presságios. O loureiro era um equivalente da oliveira enquanto símbolo da vitória e da paz. 

Como emblema da vitória, o louro passou a ser usado por várias tradições, servindo para coroar heróis, poetas e artistas. O costume se estendeu à Idade Média, usando-se o louro para coroar inclusive
ASCLÉPIO
os sábios e os novos diplomados pelas universidades, originando-se dessa prática a outorga do grau de bacharel aos que se formavam. O bacharelado era o nome do grau recebido, vindo a palavra do latim, bacca laurea (baga, fruto do loureiro). O loureiro era muito usado na medicina grega não só como purificador, mas como protetor de maus espíritos e de doenças. No centro médico de Epidauro era um símbolo do deus Asclépio, filho de Apolo.  

CIRCE  ( WATERHOUSE , 1891 )
Quanto à cevada, também usada, símbolo da riqueza e da abundância, lembremos que este vegetal, no mito, entrou na composição do filtro mágico usado pela maga Circe para transformar os marinheiros de Ulisses em porcos. A farinha de cevada era usada em fumigações, tendo a mesma função que o incenso como um instrumento de comunicação com o divino. A adivinhação com a cevada, praticada em Delfos, tinha o nome de alphitomancia Foi inclusive muito empregada na Idade Média para se descobrir o que um homem “tinha no coração” ou reconhecer entre muitos suspeitos o culpado. Em alguns ritos de natureza xamanística praticados em Delfos a cevada era muito usada, para curas, dores corporais etc.

A princípio, como divindade do mundo patriarcal, Apolo apresenta características  solares muito impregnadas de instintividade, de violência, de vingança, de belicosidade, como o atesta o seu primeiro apelido, o Licogenes, o nascido da loba. Matador de dragões, subjugador do mundo matriarcal, sua crônica inicial é cheia de agressividade e de orgulho. Aos poucos, contudo, Apolo vai se tornando uma personalidade cada vez mais complexa, reunindo várias tendências contraditórias, para se tornar, com o tempo, um ideal de sabedoria, de harmonia, a própria encarnação do esplendor grego. Nessa forma idealizada superior, como deus da aristocracia ateniense, Apolo representa a busca de uma ascese, que coloque as pulsões eróticas do ser humano a serviço do eu racional, tudo orientado no sentido de uma espiritualização progressiva. 


APOLO   E   AS   NINFAS  ( FRANÇOIS GIRARDON , 1675 )

Todavia, nem sempre Apolo assumiu esse papel no mundo grego. Operado politicamente pela aristocracia, foi utilizado como um patrono do colonialismo grego, inspirador de aventuras militares e econômicas que acabaram por levar a polis grega à derrocada. Além do mais, os valores apolíneos acabaram por se banalizar através de formas pomposas, solenes e vazias. Ao invés de uma divindade que encarnasse o poder soberano, a força nobre, o calor, o poder irradiante da luz, Apolo, nos momentos de decadência do mundo grego, não era mais que uma figura aloirada, de cabelos encaracolados, apenas esplêndida fisicamente, que servia de modelo de uma beleza masculina, ou melhor, de uma masculinidade algo efeminada, não muito convincente, devido às ameaças inconscientes narcísicas e homossexuais e à sua forte atração pelos espelhos. É desta imagem que sai o adjetivo apolíneo (e o nome próprio Apolinário), aplicado a jovens belíssimos, mas
NIETZSCHE
vazios de mente e espírito. Nietzsche usará o adjetivo para designar estados interiores em que há contemplação da beleza e da harmonia, geradores tais estados de sentimentos oníricos e de fantasias que podem afastar todo o sofrimento humano. Ou seja, a contemplação do belo, apenas sob o ponto de vista físico, que levava a um êxtase que transfigurava o ser humano, aproximando-o do divino. Um sentimento diferente, oposto até, um sentimento muitas vezes de horror e sofrimento que a presença de Dioniso causava como um agente da destruição de formas.

CULTO  A  DIONISO ( MOSAICO )
Na cultura do período helenístico, o apolíneo, sob a influência dos filósofos do estoicismo, provavelmente, será considerado na escultura como uma imagem da serenidade, do controle das paixões. É neste sentido que os cultos apolíneos e dionisíacos se confrontarão, temas que a catequese cristã usará para a sua maior penetração, considerando ambos, Apolo e Dioniso, como figuras do sofrimento.

Uma inevitável aproximação que temos de fazer ao signo de Leão é a do mito de Narciso. Este nome, como a etimologia indica, vem de narke, entorpecimento, embriaguez, uma origem que encontra explicações no fato de a flor produzir um efeito calmante. A história de Narciso tem várias versões. A mais aceita nos fala de um jovem, ainda sem nome, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. O simbolismo dos rios, como sabemos, está sempre ligado a uma ideia de fluência, de mudança de formas, de transformações constantes, através das quais se aponta para a renovação e, ao final, para uma ideia de retorno à indiferenciação, representada pela imensidão oceânica. Na mitologia grega, os rios eram filhos do deus Oceano e objeto de grande culto, a eles se oferecendo sacrifícios que simbolizam a fertilidade, como cavalos e touros. Fecundantes, podiam, no entanto, os rios, de benéficos, fertilizantes, em destrutivos, ao inundar e matar.


NARCISO  ( CARAVAGGIO , 1571 - 1610 )
A criança que nasceu da relação entre a ninfa e o deus-rio, relação não desejada por aquela, era belíssima, uma beleza jamais vista. Por isso, um excesso, uma hybris, uma desproporção que atemorizava e assustava, já que, se não bem controlada tal beleza chamaria inevitavelmente a ação divina. O menino cresceu chamando a atenção de todos, sendo visto, amado, mas jamais amando. A ninfa Eco, que havia sido privada por Hera da linguagem e do pensamento, caiu de amores pelo jovem, mas impotente para chamar a sua atenção. Foi por isso que, em meio a muito sofrimento, acabou, encostada a um rochedo, por se fundir com ele, transformando-se numa voz desencarnada que não podia senão repetir os últimos sons ou palavras que dos outros lhes chegassem. 

NARCISO  E  ECO
A insensibilidade do jovem provocou a ira de outras ninfas que pediram a intervenção de Nêmesis, a divindade que repunha limites, que combatia os excessos, que curvava os orgulhosos. A deusa condenou o jovem a amar um amor impossível. Um dia, à beira de um lago, ele percebeu a sua imagem nele refletida. Era a primeira vez que isto acontecia. Deslumbrou-se. Nunca se havia visto assim, tão belo. Imediatamente, perdeu-se de incontida paixão pela sua imagem refletida na superfície das águas. Ficou ali por um dia, dois, muitos o viram assim, ali sentado. No terceiro dia, não mais o vendo, alguns se atreveram a se aproximar do lago. Ninguém, as margens estavam vazias, o jovem desaparecera. Procuraram-no. Chegaram mais próximos do lugar onde ele estivera sentado. No lugar, apenas, simplesmente, uma flor, a que deram, desde então o nome de narciso. O jovem havia descido à profundeza das águas do lago. 


ECO   E   NARCISO  ( J.W. WATERHOUSE , 1849 - 1017 )

De início, lembremos que esta mesma ideia de perdição pelo perfume de determinadas flores aparece no mito que descreve o rapto de Kore por Hades. Foi atraída por um campo de narcisos,
NARCISOS
pelo perfume embriagador das flores, criação de Geia, que a jovem se viu atacada por Hades e raptada, indo para as profundezas do mundo ctônico, para a sua “temporada infernal”. Lembremos também que os narcisos eram flores muito usadas na Grécia para coroar a cabeça dos mortos, usadas também pelas Erínias, Moiras e pelo próprio Hades. O narciso era uma flor fúnebre, símbolo da morte. As crianças, na
RAPTO  DE  KORE ( LUCA  GIORDANO , 1634 - 1705 )
antiguidade grega, quando morriam eram enterradas com muitos narcisos à sua volta. Muitas vezes considerado como maléfico em sonhos, o perfume da flor era sempre um sinal de mau augúrio. Seu perfume era perturbador, produzia dores de cabeça, enxaquecas, sendo considerado soporífero, sopitava, fazia dormir, debilitava, tornava dormente, amodorrado, tirando a força e a intensidade. Era, por isso, o narciso muito usada na confecção de filtros mágicos.


RAPTO  DE  KORE  ( SÉCULO  IV  AC )

Entretanto, na medida em que cresce na primavera e em lugares úmidos, o narciso se liga ao simbolismo das águas e dos ritmos das estações, isto é, da fecundidade, advindo daí a sua ambivalência: sono-morte-renascimento. O narciso, com o qual se fabricam poções e xaropes, tinha, para os antigos gregos, o poder de favorecer a fecundidade das mulheres. Dormir num quarto onde houvesse um narciso “era muito bom” para facilitar a concepção. Na Ásia, o narciso, na linguagem das flores, sempre simbolizou a sociabilidade, a cortesia e a amizade, que podem ser atraídas pelo seu uso,  seco, junto ao corpo, encostado na pele. 

No mito de Narciso temos, pois, a ideia central de um desespero amoroso. Incapaz de se destacar da sua imagem refletida, o jovem se tornou escravo do seu próprio encantamento. A psicanálise se
ESTÁGIO  DO  ESPELHO
apoderou do tema para descrever o estágio de desenvolvimento psíquico no qual uma pessoa se apega a si mesma e em cima desse apego constrói uma imagem idealizada de sua personalidade. Os lacanianos chamam esta fase na vida de alguém de o “estágio do espelho”, sempre um momento decisivo para a construção de uma personalidade. 

Para Freud, o narcisismo representa uma etapa no desenvolvimento subjetivo de uma pessoa como o seu próprio resultado. A evolução de uma criança, de um jovem, o levará não só a descobrir o seu corpo como, também, e sobretudo, a tentar se apropriar dele, a descobrir que ele lhe pertence. Isto significa que as pulsões deste ser, em particular as sexuais, tomam o seu corpo como um objeto amoroso. A partir desse momento, há um investimento permanente do sujeito sobre si mesmo, ocorrendo uma espécie de retro-alimentação. 

Freud chamou inicialmente o narcisismo de auto-erotismo. Desdobrando-se, este fenômeno pode também levar o sujeito a investir em objetos externos, somando-se este investimento àqueles feitos no nível egoico. Aos poucos, é possível o surgimento de uma outra forma de narcisismo, quando o sujeito deixa de voltar a sua libido exclusivamente sobre si mesmo, levando-a a se concentrar
MELANCOLIA
em objetos exteriores, nos quais vai buscar o seu prazer. O equilíbrio dos narcisistas é sempre frágil, vê-se constantemente ameaçado, pois a sua construção se baseia sobretudo na ideia de um eu ideal. Freud chegou a apontar certas “doenças” que podem atacar os narcísicos. Uma delas é a melancolia. Outra, muito em moda hoje, é a depressão, não apontada por Freud, mas muito presente, já que uma das grandes molas propulsoras do narcisismo é a mania, a excitação, quadro que faz parte, astrologicamente, do eixo Leão-Aquário. Freud, contudo, deu o nome de narcisismo primário ao modelo que investia acima de tudo no auto-erotismo. À segunda forma, o narcisismo que se dirige para objetos exteriores, ele deu o nome de secundário.

Para Freud, a melancolia é uma afecção profunda do desejo, uma psiconeurose caracterizada por uma perda subjetiva específica do próprio eu. Já a depressão leva o próprio eu a uma auto-depreciação e a um auto- desinvestimento radicais. Sob o ponto de vista astrológico, a excitação, de natureza aquariana, que sempre atua no sentido de criar um hiper-eu leonino (somando-se as fantasias netunianas), por razões diversas (distúrbios da vontade, falta de capacidade mental, física, pressões externas, centradas especialmente nos eixos Asc-VII e IV-MC), sempre de caráter limitador, não pode ser atendida, O início deste processo começa normalmente por uma modificação mais ou menos profunda do humor, do mau humor, melhor, no sentido da tristeza e do sofrimento, que pode acabar em quadros clínicos lamentáveis.


HÉRCULES
Um dos personagens da mitologia grega que melhor nos permite entender o signo de Leão é, sem dúvida, Hércules, herói solar que encarnou as melhores virtudes e os piores defeitos do gênio grego. O mais célebre herói da mitologia clássica, suas histórias, muito populares, nunca deixaram de evoluir e interessar, desde a época pré-helênica até o mundo romano, de Homero a Virgílio. Matador de monstros, vencedor de gigantes, salvador de deuses e de princesas, viajante empedernido, fundador de cidades, guerreiro invencível, herói civilizador, generoso, vingativo, crápula, capaz de ações sublimes e de baixezas inomináveis, suicida, símbolo da virilidade e, por isso mesmo, vítima de ataques “femininos” (disfarces femininos, travestismo, e aptidão para lidar com teares). Hércules é arquétipo do herói (grego) por excelência. 

Filho das forças celestes (Zeus) e das forças terrestres (Alcmena), Hércules é por isso chamado de semi-divino, a imagem do impulso evolutivo de natureza espiritualizante e das suas dificuldades. Vivendo em permanente estado agônico, contraditório, pressionado pela sua desmedida interior (hybris) e pelas suas paixões, procurou sempre conciliar tudo isto de algum modo com suas relações mundanas; representa, por isso, sob o ponto de vista psicanalítico, o conflito permanente do psiquismo humano com as forças da dispersão e da regressão. 


Desde a antiguidade, a figura de Hércules, além presente nas lendas e contos que circulavam entre as camadas populares de vários povos, despertou sempre grande interesse em escritores, filósofos, sábios, artistas, poetas, religiosos. Em Homero, ele é o aristos andron. Sófocles, em As Traquínias, nos deixa os momentos finais da vida do herói, a história da sua morte causada por sua mulher, Djanira, segundo as traquínias (mulheres solteiras de Trakhys, confidentes dela), “a ave sem companheiro”. É nessa tragédia que temos a descrição do suicídio apoteótico do nosso herói. Os pitagóricos, os órficos e os sofistas se apoderarão da figura de Hércules para ilustrar as suas doutrinas. Os dois primeiros grupos vendo-o como um exemplo daquele que precisa “sofrer para compreender”. Os sofistas, numa história de Pródico (séc. V aC), muito interessante, colocarão Hércules numa situação
EURÍPEDES
hamletiana, um ser dividido entre o bem (arete) e o mal (kakia), segundo um texto que tem por título Hercules in Buio (Hércules na encruzilhada). Eurípedes, com o seu teatro das paixões e fazendo inversões cronológicas na vida do herói, usou-o  como tema de sua tragédia Herakles Mainomenos (Hércules furioso). Tendo descido ao Hades (décimo trabalho: captura de Cérbero, o cão infernal), Hércules voltou para encontrar a sua família ameaçada de morte por Lykos, tirano de Tebas. Matou Lykos, mas possuído por Lyssa, a deusa da Raiva, exterminou a mulher e os filhos. Será salvo do desespero por Teseu. Seu sanguinário delírio assassino foi o preço que ele teve de pagar por ter ousado enfrentar as potências infernais. Movido por intensos sentimentos nacionalistas durante os primeiros anos da guerra entre Atenas e Esparta, Eurípedes escreveu Heraclidas, ou Os Filhos de Hércules. Visitou um terreno temático que não era seu. A tragédia, tanto pelas omissões do texto, que nos chegou algo estropiado, como pela falta de propósito artístico é uma das mais fracas do cânone do famoso autor trágico.

HIPÓCRATES  E  GALENO
Hércules sempre se apresentou como um herói paradoxal. De um lado, um campeão do bem, generoso, piedoso, de outro, um ser sempre ameaçado pela loucura, aético muitas vezes, com taras e miasmas inexplicáveis, pois nele tudo é superlativo, grandioso. Hipócrates e Galeno, médico grego o primeiro e o segundo de Pérgamo, da Sicília romana, diante do seu comportamento extravagante, diagnosticaram a epilepsia como o seu principal problema, moléstia que, segundo eles, atacava o corpo e a alma ao mesmo tempo. Outros consideram que o comportamento do herói tem como causa uma forma do paludismo (malária) mediterrâneo. Evidentemente, a corrente médica que defende o diagnóstico da epilepsia é a mais acatada, pois os gregos a consideravam como uma doença sagrada. 

Patrono dos esportes (sua prática favorita era a luta, modalidade olímpica), fundador dos jogos olímpicos e dos jogos nemeanos, deve-se a Hércules a escolha das coroas para premiação dos vencedores, oliveira e aipo, respectivamente. O aipo era usado também nos jogos Ístmicos, lembre-se. Planta aromática, os gregos a usavam o aipo para simbolizar a juventude alegre e triunfante. Nas cerimônias fúnebres, prometia um estado de juventude eterna,
COROA   DE   OLIVEIRA
ao qual o morto devia ter acesso. Já a oliveira, como símbolo, reúne ideias de vitória, força, inteligência, paz, purificação, recompensa, eternidade, consagrada também na Grécia a vários deuses. Passa por ter sido “inventada” por Palas Athena, que, por isso, conquistou o direito de divindade tutelar de Atenas. A oliveira era também de Apolo, na sua condição de deus da Luz. Em algumas versões sobre a sua origem, a oliveira, até então inexistente, teria surgido quando o porrete que Hércules usava (sua arma predileta) foi enterrado, depois de sua morte. 

HÉRCULES  E  LEÃO  DE  CITERON
O leão aparece na história de Hércules em dois momentos. Primeiramente, ele está presente quando da efebia do nosso herói, Aos dezoito anos ele matou o leão de Citeron. Depois de esfolar o animal, Hércules passou a usar a sua pele como proteção, constituindo-se ela, desde então, no  principal signo distintivo de sua iconografia. A cabeça do animal ele a usará como um elmo. O animal aparece também no seu quinto trabalho, cujo cumprimento o levou a enfrentar e matar o famoso leão de Nemeia (Bosque da Lei), que tudo destruía. Por esta razão, para glorificar o seu filho, Zeus colocará o leão entre as constelações do Zodíaco.


HÉRCULES
O ciclo de Hércules se estendeu por toda a Grécia e a leste e a oeste (Ásia e ocidente europeu), seguindo as rotas de expansão do colonialismo e do comércio gregos. Além das significações religiosas, filosóficas, políticas, Hércules, como personagem, é sempre uma figura viva, humana e contraditória moralmente, características que sempre lhe asseguraram uma grande popularidade ao longo dos séculos.