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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ÁRIES (1)

       
  
          

O signo de Áries ou do Carneiro tomou lugar como ponto de partida do Zodíaco no de 1.662 aC, sendo chamado desde então de Princeps Signorum Coelestium, a constelação que surgia com o Sol no primeiro dia da primavera, símbolo da ressurreição. Ela está situada a oriente de Pegasus, o cavalo alado, gerado por Poseidon e pela Medusa. Três estrelas formam o seu chifre e focinho, um triângulo, a ocidente das Plêiades. A parte superior do carneiro se liga à traseira da constelação do Touro. Nas gravuras, desde a antiguidade, Áries é representado de modo a que observe tanto a constelação que lhe segue, Touro, como todas as demais. Outras gravuras mostram o Carneiro com a sua cabeça voltada para o planeta Marte, ambos fortemente associados.

Os mesopotâmicos consideravam Áries como o signo-chefe do
ÁRIES
Zodíaco, chamando-o de Iku (herói, líder militar), nome retirado de sua principal estrela, Hamal, equivalente ao nome Rubu (príncipe). Os astrônomos do país também chamavam esta constelação de Gam, A Cimitarra, a espada de lâmina curva. Áries foi adotado pelos babilônicos quando assumiu a condição de ponto de partida do equinócio vernal, ocupando uma posição, como se disse, entre Pisces e Pegasus. 







TAMMUZ - RELEVO 1500 AC
Os povos que viviam entre os rios Tigre e Eufrates associavam ao signo de Áries o mito de Tammuz,  O Filho da Vida, aquele que retorna sempre trazendo a primavera. Contam os mitos que na juventude a deusa Ishtar amou Tammuz, o deus da energia vital que voltava a cada ano com a vegetação.  Segundo o poema de Gilgamés, este amor causou a morte do jovem deus. Tomada por imensa dor, apesar de suas lamentações, elaborou a deusa um audacioso plano para libertar seu amor da morte. Os gregos, como sabemos, retomariam esta história através do mito de Adônis, transferido da Fenícia para a mitologia grega.

Na sua origem mesopotâmica, a mito nos conta que, morto
ISHTAR
Tammuz, Ishtar resolveu descer aos infernos, “o lugar de onde não se volta”, para resgatá-lo. Conseguiu ela abrir os portões infernais e ultrapassar os seus sete patamares descendentes, deixando em cada um deles, à medida que descia, uma peça de sua roupa ou uma joia que usava: primeiro a sua grande coroa, depois seus brincos, seu colar, suas vestes, seu cinturão guarnecido de brilhantes, os braceletes e os cordões de pedras preciosas dos seus tornozelos. Por fim, na última etapa, se despiu inteiramente, como diz o mito, deixando no chão as “vestes do pudor de seu maravilhoso corpo”. 

ERESHKIGAL
Chegou então diante de Ereshkigal, a Senhora dos Infernos, atirando-se sobre ela. Chamando seu assessor, Namtaru, a rainha do mundo infernal deu-lhe ordens para prender a deusa, fechando-a num palácio, e mandando que liberasse para atacá-la os demônios das doenças. Aprisionada a deusa, logo a desolação se espalhou por toda a Terra e pelo Céu, tudo tomado por uma imensa tristeza. Os deuses, apavorados, se reuniram para decidir. Ea, uma espécie de Poseidon mesopotâmico, criou então Asushunamir, o efeminado, deu-lhe instruções mágicas e o mandou libertar Ishtar.
ASTARTE

Magia contra magia, a de Ea era a mais forte. A deusa e Tammuz foram libertados. A fertilidade voltou à Terra. Ishtar é, entre os assírios e babilônicos, a soberana inconteste das artes do amor. Popularíssima na Ásia Menor, tomou o nome de Astarte na Fenícia e forneceu muitos dos seus traços para a Afrodite grega. 

Tammuz (Mesopotâmia), Dummuzi (Suméria), Átis (Anatólia) e Adônis (Fenícia-Grécia) representam o mesmo modelo,  o de uma divindade ligada ao ciclo da vida vegetal, deus morto e ressuscitado anualmente, o mundo vegetal que renasce a cada ano na primavera. São todos deuses que, em várias religiões e culturas, representam o ciclo anual da vegetação; desaparecem no fim do verão, indo para o
CIBELE
mundo subterrâneo, de onde voltam, ressurgindo periodicamente. Dummuzi é o amante da deusa Inana, depois Ishtar. Átis é um deus anatólio da vegetação, companheiro, servidor e amante da deusa Cibele, Grande-Mãe da Ásia Menor, cujo culto chegou a se alastrar por quase todo o  mundo mediterrâneo, alcançando inclusive Roma. Os ritos de Cibele-Atis tinham caráter orgiástico, eram dominados por paixões violentas e estranhas, deles fazendo parte cerimônias de castração e sacrifícios sangrentos (taurobolium), que simbolizavam a fecundidade pela morte. 
 

Tammuz, como se disse, é o “Filho da Vida” e seu culto, oriundo primeiramente da Mesopotâmia e depois da Fenícia,  aparece na Grécia, onde o deus toma o nome de Adônis (adon quer dizer senhor).  Grande amor de Afrodite, Adônis, foi assassinado pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um monstruoso javali. Narram os mitos gregos que tudo começou quando Teias, rei da Síria, teve uma filha de nome Smyrna ou Smine (Esmirna), antigo nome da cidade de Éfeso, derivado por sua vez, segundo o mito, do nome de uma amazona que havia conquistado a região. 

Possuída por imensa hybris, julgou-se Smyrna mais bela que a deusa do amor. Foi punida terrivelmente por Afrodite, que a fez perde-se por incontrolável paixão carnal pelo próprio pai. Conseguiu a princesa se relacionar com Teias, insinuando-se no seu leito, sem que ele percebesse. Depois de certo tempo, o pai, contudo, tomou conhecimento de que a filha o enganava e tentou matá-la. Pedindo a proteção dos deuses, a princesa foi transformada numa árvore a que se deu nome Mirra. Meses depois, na casca da árvore desenvolveu-se um feto que, vindo a termo, foi recolhido
MIRRA
por Afrodite e confiado secretamente a Perséfone, rainha do Hades, para que dele cuidasse. A mirra, lembre-se, é o nome de um vegetal cuja casca exsuda uma resina aromática, rara e valiosa, muito usada na antiguidade pelos povos do Mediterrâneo na perfumaria, como incenso, e para fins medicinais. Entre os egípcios, a mirra era um componente muito importante, além de usada nas práticas da mumificação e nos cultos de Osíris, daquilo que os gregos chamavam de kyphi, o perfume dos deuses. 

AFRODITE  E  ADÔNIS
Tempos depois, indo buscar a criança, já um formoso jovem, Afrodite não conseguiu fazer com que Perséfone o devolvesse. A disputa foi arbitrada por Zeus. Ao final, ficou decidido que o jovem passaria uma parte do ano com Perséfone no reino dos infernos (quatro meses), no mundo subterrâneo, e o restante do ano com Afrodite, na superfície. 

Tudo corria bem até que num certo dia o lindíssimo jovem resolveu ir à caça, não conseguindo Afrodite demovê-lo de tão perigoso intento. Adônis foi atacado e ferido mortalmente pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um enorme javali, que não suportou vê-la com novo amor. Ao tentar socorrê-lo, a deusa pisou num espinho. De seus divinos pés caíram gotas de sangue que tingiram de vermelho uma branca e perfumada flor, que a partir de então passou a simbolizar o amor, a rosa vermelha. 


ADÔNIS  E  AFRODITE   ( CORNELIS  PIETERS  HOLSTEIJN )

A pedido de Afrodite, Adônis foi transformado por Zeus numa flor primaveril, a anêmona (palavra que significa vento, em grego) delicada e frágil, que fenece rapidamente. Esta história se liga
ANÊMONA
(ADÔNIS AESTIVALIS)
obviamente ao ciclo das estações, ilustrando a luta entre Afrodite e Perséfone o nascimento (primavera) e a morte (outono) do mundo vegetal. A morte desse deus oriental da vegetação era solenemente celebrada na Ásia Menor através dos famosos Jardins de Adônis, com grandes procissões e lamentações rituais (para maiores informações sobre o mito Afrodite-Adônis e os famosos jardins aqui mencionados, veja, neste blog, Mitologias do Céu - Vênus 3). 

Astrologicamente, a história de Afrodite-Adônis é uma ilustração do que acontece anualmente na natureza, através do eixo equinocial, quando a energia universal, sempre considerado o hemisfério norte, inicia em março a sua caminhada expansiva ao transitar o Sol pelo signo de Áries (início da primavera) e, seis meses depois, em setembro, esta energia  ao passar o Sol pelo signo de Libra (início do outono) começa a morrer.  

Entre os judeus, na antiguidade, Nissan é o nome do signo de Áries,
criado através da letra Heh. Dentre os atributos deste signo, entre os antigos judeus, está o do poder da palavra, do som primordial. No Talmud, estabelece-se que a letra Heh caracteriza o divino primeiro ato da criação, que corresponde ao elemento fogo. O signo de
PESSAC
Nissan, no corpo humano, relaciona-se com a cabeça, que deve controlar o corpo como o rei controla seu reino. O elemento fogo encontra expressão no sacrifício do cordeiro nas festas do Pessach. Era Nissan o signo que marcava o início do ano oficial, coroando-se nesse período os reis. 

O mês de Nissan sempre foi considerado como o mês que marca o início da formação da nação judaica. Este processo principiou na véspera do êxodo do Egito, culminando ele com o recebimento, no terceiro mês (Sivan – Gêmeos), da Torá (Ensinamento) na forma de
MOISÉS
mandamentos, no monte Sinai. Os judeus consideravam que a formação nacional judaica ocorrera nos três signos que constituem o primeiro quadrante zodiacal. Áries, o carneiro, simbolizava a unidade e a coletividade, considerando-se, além disso,  que num rebanho de carneiros cada um dos animais é (deve ser) idêntico ao outro. Assim como um rebanho de carneiros segue seu pastor, o povo judeu deve aceitar a autoridade de Moisés, o pastor. O segundo mês, Iyar (Touro) simboliza a individualidade; a ideia aqui é a de que, assim como o boi, que vive isolado, cada um dos judeus deve procurar voltar-se para o seu interior (introspecção), buscando auto-desenvolvimento, como uma preparação para o recebimento das leis.

Foi durante o mês de Nissan que o povo judaico se integrou numa comunidade, como os carneiros se integram num rebanho. Entretanto, foi também no mês seguinte que os judeus expressaram também a sua rebeldia, quando no deserto do Sinai se rebelaram contra Moisés e Aharon. As leis só foram dadas ao povo judeu no terceiro mês, Gêmeos, mês de um signo humano, pois os anteriores são signos animais. Para a Torá, Nissan é o mês da primavera (aviv), nele se encontrando ideias de desenvolvimento e de maturação. 

Para os antigos judeus, Nissan era também o signo que descrevia a nação egípcia, a mais poderosa de então. Na sua expressão negativa, o signo apontava, segundo os judeus, para tendências ditatoriais e atitudes agressivas, características, segundo eles, do faraó e dos egípcios em geral, que acreditavam só em si mesmos, egoístas e prepotentes. 

A saída do Egito é celebrada pelos judeus pela festa do Pessach
CALENDÁRIO  LUNAR  JUDAICO
(uma das etimologias desta palavra é “passar sobre”), relacionada com a liberdade e apontando para a redenção do mundo na idade do Messias. É também esta festa a da colheita da cevada e o fim da estação das chuvas. Lembre-se: sempre que necessário, o calendário lunar judaico deve ser ajustado com o acréscimo de um mês extra, para que o Pessach caia sempre na primavera. 


Durante toda esta festa não se come o pão levedado. Um dia antes do início da festa, a casa deve ser limpa de todo levedo, após uma busca de todas as migalhas que possam estar escondidas em qualquer canto ou fenda. A festa tem a duração de sete dias e começa no anoitecer da véspera de quinze de Nissan, a noite do Êxodo, com a refeição ritual da família. Nessa refeição se relata a historio do Êxodo; há tipos especiais de comida e bebida (vinho, pão ázimo, ervas amargas). A festa termina simbolicamente com o cruzamento do mar Vermelho pelos judeus, lendo-se então o Cântico dos Cânticos.


CÂNTICOS   DOS   CÂNTICOS   ( MARC  CHAGALL )

Durante o Pessach, os judeus proíbem, como dissemos, o consumo de qualquer comida que contenha fermento, pois este produto
MATSÁ
simboliza o orgulho. É durante este período que os judeus devem comer o matsá, pão não levedado ou pão ázimo, feito só de farinha e água. Este pão é chamado de “pão da aflição” porque foi comido por judeus, na condição de pobres e escravos, alimento também consumido durante todo o Êxodo. O matsá simboliza humildade e pureza, livrando do egoísmo e da agressividade.

Dentre as doze tribos de Israel, aquela que se associa à de Nissan é a de Yehuda (Judá), de David. Rei de Israel e descendente de Rute, a moabita, convertida ao judaísmo, David começou como pastor em
BETSABÁ  ( REMBRANDT )
Belém (a casa do pão) e o desvelo que demonstrava ao cuidar dos rebanhos de carneiros mostrou a Deus que ele poderia assumir o trono de Israel. David foi um rei guerreiro que ampliou as fronteiras do reino que herdou. A esposa favorita de David foi Betsabá, que lhe deu um filho, Salomão, seu sucessor. Na Cabala se explica que a principal característica de um rei deve ser a humildade, conceito que está implícito no nome de David. Etimologicamente, este nome significa o “Bem-Amado” e anuncia a vinda do Messias, que se dará pela linhagem de David.

David sempre apareceu ligado ao carneiro, cujas tripas ele utilizou para delas fazer as cordas de sua harpa. O nome David tem dentro
REI  DAVI  TOCA  HARPA
( GERARD VAN HONTHORST )
dele raízes indo-europeias que significam conduzir (vadh, ved) e dizer (wod). Para o judaísmo, aquele que comanda é aquele que fala, que brilha e arde. As consoantes dv geram um “calor doloroso”. Segundo a Nomancia, que faz a criptoanálise de nomes, David é nome que sugere força de trabalho colocada a serviço de projetos ambiciosos, aspirações elevadas, som a possibilidade de risco de perda do poder criador em projetos pouco significativos ou rotineiros. Há no nome David iniciativa e autoridade, grande necessidade de movimento, de encontros e de mudanças. É um nome contrário à obediência e à passividade, podendo por isso trazer infelicidade, caprichos e extravagância. Há que se ter, com o nome, cuidado com escolhas demasiadamente materialistas ou egoístas.

O carneiro à frente do rebanho é considerado pelos judeus como símbolo daquele que comanda. Esse carneiro, enquanto caminha, vai balindo e se ouve mehh, um som onomatopaico, que os hebreus traduzem pela expressão “quem somos nós?” É por essa razão que a tribo de Judá foi a primeira a iniciar a caminhada através do deserto quando do Êxodo. Coube às outras tribos segui-la, segundo a ordem zodiacal. Outro, aliás, não é o significado do Pessach (Peh+Sach), a boca fala, segundo a Cabala. O poder da palavra aparece aqui associado ao que comanda, ao chefe, o que tem voz e que está à cabeça. Antes porém do chefe proferir a palavra, a ordem, é preciso o julgamento, que está no signo oposto.


Segundo o Sefer Yetzirah, O Livro da Criação, o limite do corpo humano está associado ao signo de Nissan, sendo esse limite representado pela perna direita. A perna favorece contactos, suprime distâncias, tendo, por isso, importância social. É com a perna direita que devemos dar o primeiro passo (começar algo com a perna esquerda é ruim), sendo ela considerada por muitas tradições como o agente formador das sociedades. É a perna direita “obreira do social”, a que cria os laços sociais, sendo o pé, com todo o seu simbolismo, o “senhor da chave”. A cabeça, de Áries, deve trabalhar com o pé (símbolo do último signo zodiacal), sendo, nesse sentido, opostos e complementares. A perna e o pé tanto significam o início de alguma coisa como o seu fim. Partida e chegada.


Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como símbolo astrológico-religioso. O chofar, pequena trompa feita com chifre de carneiro, já era empregado em rituais religiosos e ainda é usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur (dia do perdão), antes e durante o Rosh ha-Shana (ano novo). 

No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa, comemorativa da ressurreição de Cristo. O concílio de Niceia (325) a fixou no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia seguinte
EASTRE
ao equinóxio da primavera. Esta festa sempre foi celebrada por todas as tradições, não só judaicas ou católicas. Entre os saxões, por exemplo, foi Eastre, deusa da primavera e do renascimento da natureza, que deu origem à palavra easter, páscoa, em inglês. Esta deusa tinha o coelho por atributo. As fogueiras da Páscoa simbolizam a vitória da luz sobre as trevas (o retorno do Sol). Os antigos germânicos acendiam suas fogueiras em homenagem a Thor, que lhes trazia de volta a primavera. Extintas as fogueiras, as cinzas eram recolhidas e lançadas sobre os campos, a fim de se torná-los férteis. Esta ideia de fertilidade se associa também ao costume da distribuição de ovos na Páscoa, símbolo do renascimento periódico da natureza.

Na Inglaterra, corre a crença, se a véspera do dia em que a festa da Páscoa coincide com o dia da Anunciação (25 de março), uma
NOSTRADAMUS
grande catástrofe se abaterá sobre o país. Aliás, segundo uma previsão de Nostradamus, quando o dia da Páscoa coincidir com o dia de São Marcos (25 de abril) e, por consequência, a Sexta-Feira Santa coincidir com o dia de São Jorge (23 de abril) e a festa de Corpus-Christi coincidir com o dia de São João Batista (24 de junho), teremos o fim do mundo. Estas datas coincidiram nos anos de 1.666 (ano do grande incêndio de Londres), em 1.734, em 1.886 e 1.943, anos de catástrofes.  

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( LASTMAN  PIETER , 1583 - 1633 )

Relacionada com o carneiro temos, entre os judeus, a história de Isaac, o filho primogênito do patriarca Abraão e de Sara, este submetido ao teste da obediência (akedá), também chamado de “amarração”. Tal teste consistiu numa ordem dada por Deus ao patriarca para que ele oferecesse seu filho em sacrifício no monte Moirá. Nos momentos finais da cerimônia, quando Isaac estava para ser morto, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão, colocando no seu lugar um carneiro. Após a traumática experiência da akedá, Isaac retirou-se da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu e visto Deus enquanto estava amarrado no altar de sacrifício. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte quando da cerimônia. 




quarta-feira, 4 de junho de 2014

HÉRCULES - SÉTIMO TRABALHO


HÉRCULES

O JAVALI  DE  ERIMANTO - Erimanto era uma região desolada, montanhosa, da Arcádia. Nela vivia um javali gigantesco, que aterrorizava os habitantes da região, destruindo ou matando tudo o que encontrasse pela frente. A missão de Hércules era a de capturá-lo e de levá-lo vivo para Argos. Antes de se dirigir ao local, nosso herói procurou aconselhar-se com o deus Apolo quanto à melhor maneira de dar cumprimento ao que lhe determinara Euristeu. O deus lhe falou que o animal era do deus Ares, sendo também muito caro à sua irmã, a deusa Ártemis. Disse-lhe Apolo que a melhor maneira de enfrentar o monstro e de vencê-lo era a de lutar sem lutar. Hércules se impacientou com as palavras de Apolo, não as compreendeu, e resolveu que decidiria o que fazer quando se visse frente a frente com a fera.



Chegando a Erimanto, nome que lembra não só a cor vermelha como traduz uma ideia de violência e de excitação, Hércules entrou em contacto com o centauro Folo, um centauro pacífico, muito diferente dos demais. Ele havia recebido do deus Dioniso, segundo
DIONISO
Diodoro Sículo, há muito, uma botija de vinho com a recomendação de que só a abrisse quando procurado pelo filho de Alcmena, que viria lhe pedir hospitalidade. Assim aconteceu: aberta espontaneamente pelo centauro a botija de vinho, conforme recomendação de Dioniso, uma grande surpresa; inúmeros centauros que viviam por perto, atraídos pelo odor do vinho, invadiram a gruta na qual Folo e Hércules se encontravam, trocando brindes.

Outra versão, a de Apollodoro, nos revela que, embora preferindo carne crua, como era costume entre os centauros, Folo ofereceu a nosso herói carne assada, como a consumiam os humanos, reclamando nosso herói a falta de vinho para acompanhar a refeição. Folo mostrou-se muito temeroso, pois se servisse vinho, os centauros que viviam por perto seriam fatalmente atraídos pelo odor da bebida, o que certamente lhes causaria muitos problemas. Lembrou Folo que não era  recomendável aproximar o vinho tanto de cíclopes como de centauros, pois, ainda que consumindo doses mínimas, eles se tornavam sempre muito violentos, descontrolados. Hércules não deu ouvidos ao centauro e tomou a iniciativa de abrir o recipiente de vinho guardado. Em pouco tempo, atraídos pelo buquê do precioso líquido, os centauros invadiram a gruta de Folo, armados de pedras e de porretes.

Antes de prosseguir, será importante nos fixarmos um pouco na figura dos centauros já que eles têm um papel importante não só neste trabalho como na história de nosso herói como se verá. Muitos mitógrafos, aliás, quando abordaram este sétimo trabalho, destacaram muito mais a luta que Hércules travou contra os centauros do que a sua vitória sobre o javali. Justificavam este entendimento por alguns fatores: primeiro, porque o javali de Erimanto não fora enviado pelos deuses, sendo apenas um desvio da energia animal presente no universo. Segundo, não era ele propriamente um ser da família dos monstros, pois estes, como sua própria designação indica, são sempre enviados pelos deuses.
TOURO   DE   CRETA
Etimologicamente,  monstro é objeto ou ser de caráter sobrenatural que anuncia a vontade divina. O javali do sétimo trabalho, embora tenha uma conformação anormal, por excesso, ele não tem a marca do divino como outros monstros que Hércules enfrentou, a saber, o touro enlouquecido de Creta, a corça Cerinita, o caranguejo enviado por Hera, Cérbero, o cão tricéfalo e outros. A título de esclarecer melhor esta questão, lembre-se que  a palavra monstro está relacionada com o verbo monere, que em latim significa fazer pensar, fazer lembrar, advertir. É desse verbo, por exemplo, que sai a palavra monumento.

Segundo versões dignas de todo crédito, da progênie de Ixion fazia
TESEU
parte também Piritoo, filho que tivera com Dia, figura sinistra, muito ligado a Teseu, famoso rei de Atenas. Herói lápita da Tessália, Piritoo e suas as histórias  acabaram, com o tempo, por se integrar ao mito de Teseu, de quem ele se tornou escravo, fascinado pelo seu majestoso porte e por suas inúmeras façanhas. Como se explicará no décimo trabalho de Hércules, a descida ao Hades para lutar contra Cérbero, Piritoo, até o final dos tempos, permanecerá prisioneiro no Tártaro. 
   
Para Diodoro, além de pedras e porretes, os centauros costumavam carregar também machados próprios para matar bois. Ainda que fossem filhos de Nephele, um simulacro criado por Zeus, não se pode considerar a mãe dos centauros como divindade. O que temos então é que os centauros, pelo seu duplo corpo, nada têm de divino, pois são constituídos apenas por uma parte animal e por uma parte humana, esta sobreposta aquela.


KIRON   E   AQUILES

Os centauros, no mito, com exceção de Kiron (filho de Cronos e de Filira) e de Folo (filho de Sileno e de uma ninfa Melíade), se distinguiam de todos os outros, o primeiro por sua grande sabedoria e o segundo por sua grande bondade. Os demais eram todos filhos de Ixion e de Nephele, a Nuvem. Ixion, por seu lado, era filho do deus Ares e seu reino ficava na Tessália.  Tentando fazer da belíssima jovem Dia sua esposa, fez Ixion ao seu futuro sogro, Dioneu, várias promessas. Quando este, depois das núpcias, foi
IXION   
reclamar o cumprimento do prometido, Ixion o matou, lançando-o traiçoeiramente num poço cheio de brasas. Além de eliminar o sogro, tornando-se um assassino, Ixion cometeu o crime do perjúrio, ao não aceitar, como havia prometido, as divindades da família da sua esposa. Ademais, como se tudo isto não bastasse, como rei dos lápitas, ele tinha uma história de inúmeros crimes. Tantos foram os seus desatinos que acabou expulso da cidade que governava pelos seus próprios súditos. Não tendo para onde ir, pôs-se a perambular pelas estradas, transformando-se num pedinte, amaldiçoado por todos.

Zeus, que das alturas tudo via, acabou se condoendo dos sofrimentos de seu neto e resolveu oferecer a ele uma oportunidade de regeneração, acolhendo-o no Olimpo. Mal chegado à mansão dos deuses, porém, Ixion, tomado por incontrolável desvario, que os gregos chamam de hybris, tentou violentar sexualmente Hera, a Senhora do Olimpo. Avisado por ela, Zeus confeccionou uma nuvem (nephele, em grego), dando-lhe uma forma em tudo igual a Hera. Ixion, sem nada perceber,  relacionando-se com ela, tornou-se pai dos famigerados centauros. Castigando-o, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o assim imortal, e o lançou no Tártaro, a prisão dos maus, onde ele, amarrado por serpentes, preso a uma roda de fogo, a girar eternamente, ali ficará até o final dos tempos. Aqueles que lá o viram, como Ulisses, por exemplo, dizem que no seu grande tormento, Ixion profere em altos gritos, na sua sofrida solidão, a frase: honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão

Etimologicamente, a palavra centauro parece ter relação com um verbo grego, kenteo, que tem o sentido de picar, aguilhoar, lembrando esta ação o aguilhão do instinto. Com efeito, o centauro, metade-animal (cavalo), metade-homem, por seus costumes brutais, por andar sempre em grupos, barulhentos e avessos a qualquer disciplina, por sua paixão imoderada pelo vinho, pela carne crua e pela sua sexualidade descontrolada, sempre foi considerado, com relação ao ser humano, como um símbolo das ameaçadas da vida instintiva à vida racional. 


SÁTIRO   ( RUBENS )

É neste sentido que os centauros se assemelham aos sátiros, aos faunos, aos silenos e a outros seres da mitologia, fortemente marcados por características animais, caprinas, no caso. Percorrendo sem cessar os campos e as montanhas a fim de satisfazer seus apetites, são considerados como verdadeiros demônios da natureza. Luxuriosos, insolentes e violentos, ambos, centauros e sátiros, representam, negativamente, sob o ponto de vista social, as constantes ameaças das forças da barbárie à civilização  e da desordem à lei.  

  Hércules foi um justiceiro que sempre procurou combater, além dos monstros e bandidos, os ímpios, os maus e os perjuros. Durante toda a sua vida, lutou sobretudo contra os centauros, uma luta contra si mesmo, no fundo. Símbolo da força, da energia e do heroísmo, grande consumidor de álcool, glutão insaciável, com uma sexualidade inesgotável, salvador de homens e fundador de cidades, Hércules, ainda que venerado como um semideus, jamais conseguiu, contudo, controlar as pressões instintivas que o assaltaram a vida inteira. 


NEPHELE   ( RUBENS )

Pondo para correr os centauros que invadiram a gruta de Folo, Hércules os perseguiu, no que foi atrapalhado por Nephele que, segundo Diodoro, enviou uma chuva torrencial  sobre a região. Em terrenos enlameados, como se sabe, os bípedes encontram muito mais dificuldade para correr do que os quadrúpedes. Hércules, contudo, superou esse obstáculo e, alcançando-os, travou com eles violenta luta, matando muitos deles.

Ainda segundo descrições de Apollodoro, os poucos centauros que escaparam do massacre promovido por Hércules foram se refugiar junto de Kiron. Nosso herói, entretanto, continuou a atacá-los, disparando várias flechas envenenadas. Uma delas atingiu a perna de Kiron, acidentalmente, na altura do seu joelho, ferindo-o mortalmente. De nada adiantou a medicação aplicada por Hércules, fornecida pelo próprio Kiron. A ferida era incurável. O mestre centauro se retirou então para a sua gruta, para morrer, embora sabendo que isto seria impossível, pois uma parte de seu corpo era divina, como filho de Cronos que era. Foi preciso que Prometeu, consoante proposta que fez a Zeus e aceita, cedesse a Kiron o seu lado mortal para que o centauro mestre pudesse morrer e que este cedesse a Prometeu o seu lado imortal, o que possibilitaria a sua libertação. Os detalhes desta troca nos são narrados, além de Ovídio, principalmente por Ésquilo na sua famosa tragédia Prometeu Acorrentado. Kiron, a seguir, foi colocado por Zeus nos céus como a constelação de Sagitário, entre Escorpião e Capricórnio.


PROMETEU  ( CERÂMICA   GREGA )

Ao retornar, Hércules encontrou Folo a abrir sepulturas na terra para enterrar alguns centauros mortos. Contudo, uma das flechas que se contaminara com o sangue de um deles atingira acidentalmente uma das patas de Folo, ferindo-o gravemente. O sangue dos centauros filhos de Ixion e de Nephele era veneno mortal contra o qual não havia antídoto (Hércules, lembremos, também será vitimado mais tarde da mesma maneira). Folo sucumbiu em pouco tempo nada conseguindo nosso herói fazer para aliviar o seu sofrimento. Não lhe restou outra alternativa senão a de organizar um magnífico funeral para honrar o seu hospedeiro. Depois destes acontecimentos, os centauros, como grupo, desapareceram. Viverão, os poucos que escaparam, isoladamente. Embora perigosos, não mais se atreveram a incomodar os humanos como o faziam. Por intervenção de Poseidon, passarão os remanescentes a viver no interior da terra, ctonicamente.


POSEIDON

Hércules dirigiu-se então à montanha, encaminhando-se para o seu pico. Aos gritos, subiu, mas adotando aquilo que lhe pareceu a melhor estratégia, subir de costas. O javali, atraído pelos gritos do nosso herói, pôs-se a persegui-lo; voltado para ele, foi recuando e subindo ao mesmo tempo. À medida que subiam, o terreno montanhoso tornava-se cada vez mais íngreme, principalmente devido à neve, acumulada no topo, sempre mais espessa. Num determinado ponto, o javali deteve-se subitamente, parecendo perplexo. Cansado, imobilizado, estava atolado, não conseguindo dar mais um passo. Hércules, então, deu uma volta, pegou-o pelas patas traseiras, descendo assim com ele a montanha, entre risos e aplausos da multidão que se juntara para presenciar a cena. Desta maneira, Hércules conseguiu levar o animal até Argos, entregando-o ao apavorado Euristeu, que chamou seus soldados para que dessem fim ao animal. 


HÉRCULES  SENTADO  SOBRE  O  JAVALI  ( LOUVRE )

O javali é um dos grandes símbolos do mundo indo-europeu, fazendo parte da chamada tradição hiperbórea. Os hiperbóreos, na mitologia grega,  constituíam um grupo racial que vivia além do vento norte, o Bóreas, portanto, numa região que seria o extremo norte para os gregos. A região dos hiperbóreos era considerada como uma espécie de paraíso nostálgico, de difícil localização. Talvez o país dos sonhos, da imaginação, da idade de ouro da utopia, de todas as tradições míticas. 

O caráter hiperbóreo do javali pode ser notado na medida em que ele representa o elã primordial, associado nesse contexto à simbologia do fogo nas mais diversas culturas. É neste sentido uma imagem primordial da força, do ataque intrépido e da coragem resoluta, sobretudo na Europa setentrional e no mundo celta, onde representava a autoridade espiritual. A sua carne era comida só ritualmente. A ferocidade do animal provocava tanto horror como
XENOFONTE
respeito. Associações entre o javali e o comportamento destrutivo dos guerreiros que o usavam como emblema fizeram com que ele, no cristianismo, se tornasse um símbolo da tirania, das paixões e da luxúria. Seu apelido era, por isso, o  O Cão do Diabo. Xenofonte, no seu tratado Da Caça, nos diz que quando um javali morre os pelos de seu focinho se crispam tanto que podem causar queimaduras a quem os tocar.  

   Consagrado aos deuses da guerra no mundo grego (Ares) e  romano (Marte), o javali sempre apareceu associado à primavera e 
à juventude. Nos países onde não temos a tradição cristã, o javali é um símbolo da coragem e da temeridade, como no Japão. Em outras tradições, o animal é visto como símbolo da autoridade espiritual, opondo-se ao urso, que representa o poder temporal. Ligado a Zeus no mundo grego, associa-se à águia, ao carvalho, ao raio e à trufa. Caçar o javali é atacar o poder espiritual. Na Índia, o javali é um dos avatares de Vishnu, com o nome de Varaha. Na mitologia hinduísta, é através dele que a terra é trazida à superfície das águas primordiais, fixando-se na coluna de fogo (lingam). No mundo celta, é o próprio druida, o sacerdote, enquanto este vive solitariamente nas florestas. 

VARAHA


O nome Erimanto, como vimos, nos remete a uma ideia de vermelho, ardor, a cor do deus Eros, do deus Ares grego e do deus Marte romano. O verbo grego para designar disputas, querelas, é eridzo. Se não dominamos o nosso "javali" interior, destruiremos os campos, as plantações, os vinhedos, poderemos matar pessoas,  não criaremos possibilidades para fazer de nossa vida social algo produtivo, útil, a nós e aos outros. Dominar o javali é transformar a energia vital impulsiva,  em vida espiritual, compreensão que sempre começa pela percepção do "outro", simbolicamente pela nossa "morte" consciente (outono).        Ou seja, transformar o fogo

instintivo  (signo de Áries), sob  a  orientação  do  racional  (signo de Leão),  em  espiritual  (signo de Sagitário), o que nos levará  a um afastamento da nossa condição animal, brutal,  instintiva. Todas estas considerações nos dizem também que não podemos matar o javali, temos que mantê-lo vivo, utilizando a sua energia racionalmente, ajustando-nos assim à vida social, sempre uma preparação para a vida espiritual, onde aparecem os conceitos de coletividade, humanitarismo, fraternidade etc.

Sem esse controle não haverá acordo, união, consenso, vida moral. Eros é força vital descompromissada, desejo em estado puro, força
EROS
cega, carência que se satisfaz unilateralmente. Eros (javali, um de seus símbolos) é pulsão fundamental do ser, libido, força que atualiza as nossas virtualidades. É essa força que cria o possível. Esta criação, contudo, só se dá pelo contacto com os outros, por uma série de trocas materiais, sensíveis, e depois, num plano superior, espirituais. Interações, choques, disputas, acordos, atenuações conscientes. É no signo de Libra, a sétima constelação zodiacal, que aprendemos a superar os antagonismos, a assimilar o diferente, a integrá-lo, a controlar o nosso javali, em suma.

Depois da purificação de Virgo, temos que buscar o equilíbrio (equinócio, dias e noites iguais), a união com o oposto, com o outro. Ideias de Justiça, cujo símbolo é a balança aparecem então. O signo de Libra é regido pelo planeta Vênus, que tem a ver com uniões, matrimônios, acordos, contratos, a dualidade que se faz una, um perder e um ganhar constantemente renovado. O planeta Saturno também tem a ver com este signo. Saturno (Cronos) é em Libra o tempo. Todo contrato terá que ser realizado no tempo. Surgirão então sentimentos de equidade, de harmonia (Harmonia é filha de Ares e de Afrodite). Raramente um libriano superior se imporá a alguém ou tentará confiscar algo do outro em proveito próprio. As virtudes superiores do signo, encanto, polidez, educação, diplomacia e mesmo a sedução podem muitas vezes levar ao objetivo, à vitória, se quisermos, sem necessidade de luta. O belo, a estética, os matizes, as nuances, o romantismo, a elegância são de Libra. Esse elemento de beleza e de elegância se encontra, por exemplo, em pintores do signo, como Watteau e Bonnard, e em músicos como Gabriel Fauré.


GILLES ,  LE   PIERROT   ( WATEAU )

Negativamente, Libra pode ser o signo da vacilação, da divisão, do amaneirado, do dúbio, do desejo de agradar de qualquer modo, da protelação, do adiamento, da enorme dependência do outro, da impessoalidade (veja o mito de Eco), da falta de combatividade, do desejo de buscar só o agradável, de evitar o trabalhoso ou o sujo. Mulheres de Libra podem se tornar rainhas da elegância. Figuras librianas podem ser citadas, cada uma seu modo: Oscar Wilde, John Lennon, Brigitte Bardot, Luis XIII, Lamartine, Gandhi, Erasmo de Roterdam (exemplo de um libriano saturnizado) etc.



O libriano pode ser classificado como outonal ou sentimental. No primeiro, prevalece a influência saturnina, tem menos vida, menos elã, pondera mais, legisla, procura a forma, é mais escuro. Já o outro tem invariavelmente um grande desejo de agradar, é mais fraco, sem vontade, resiste pouco às pressões externas, dobra-se, é adaptável, sendo mais “claro”, sociável, fazendo-lhe muita falta as festas e as reuniões.

Neste sétimo trabalho, as lições mais importantes tornam-se evidentes:  recuar é subir, atenuar é aumentar, dividir é somar. É o primeiro trabalho em que não há luta. Hércules, contudo não o entende bem. O episódio onde entra Folo é um desvio libriano (prazer, jovialidade, adiamento, é o famoso "dar um tempo" dos do signo). A solução de Hércules é prática, deu-lhe a vitória sobre o javali, mas ele não percebeu conscientemente o significado transcendente do trabalho. O abrandamento da nossa personalidade, a atenuação da nossa luz, o controle do nosso "javali" tem que ser consciente. O javali é símbolo aqui de tendências obscuras, egoístas, ignorantes. Em algumas culturas, há interdições, por isso, quanto ao consumo da carne do javali (porco). 

Eros (a libido, muitas vezes representada pelo javali) deve se submeter a Afrodite, a deusa que propõe relações por consenso. Na natureza, a luz, em Libra, começa o seu lento retorno à unidade. Dosar a atenuação, nunca transformá-la em morte. Por isso, a Balança quer dizer equilíbrio, lugar onde as oposições devem se
resolver continuamente. A comunicação é de Gêmeos; uma boa comunicação leva a acordos (Libra) e bons acordos levam a amigos (Aquário), os três signos de ar do zodíaco. No fundo, entendimento de que tudo o que se manifesta como vida está sujeito à dualidade e à oposição. O primeiro ato que temos de praticar para participar socialmente de algo é o da atenuação do nosso eu. 





Uma das constelações associadas ao signo de Libra é a de Lupus (Lobo). Mais um símbolo evidente, equivalente ao javali: em Libra temos que sacrificar o nosso "lobo", nossa vida instintiva (como o javali, o lobo é sinônimo de agressividade, de astúcia, de voracidade, de selvageria). O poder do lobo diminui na medida em que nos equilibramos melhor, isto é, na medida em que a alma não mais se deixa devorar pela matéria. Com Libra, entramos no hemisfério superior, sendo sete o seu número, que é o das totalizações provisórias a indicar um semiciclo que se fecha e um outro que se abre. Saímos em Libra da vida subconsciente para entrar na vida supraconsciente

TÊMIS
No signo de Libra vivem várias divindades. Têmis (limite), etimologicamente, estabelecer como norma ela é a deusa dos princípios superiores, por oposição ao nomos que é a lei humana, que é consuetudo, o costume, o hábito, o  usual. Têmis tem a ver com leis imprescritíveis; aparece como dona dos oráculos e dos ritos. Titânida honrada e respeitada pelos olímpicos, era a titular do oráculo de Delfos com sua mãe, Geia, tendo ensinado a mântica a Apolo. Têmis era também a mãe das Horas, divindades do tempo (Eunomia, Dikê e Irene), que asseguravam o equilíbrio da vida vegetal e da vida social, distribuindo a umidade corretamente, amadurecendo tanto os frutos como as ações humanas. Eram as divindades que velavam pela educação das crianças, que deviam aparecer, florescer e frutificar no tempo certo, sem pressa, com ritmo.


AS   GRAÇAS   ( BOTTICELLI )

Em Libra vivem também as Cárites (etimologicamente, graça, encanto), também divindades da vegetação e responsáveis pela alegria e pelo contentamento que devem morar no coração dos deuses e dos humanos. Eram chamadas as Graças, Aglaia (Cintilante), Talia (Festa) e Eufrósina (Alegria do Coração). Viviam em companhia das Musas e, como tal, tinham grande influência sobre as obras de arte. Um exemplo disto está, por exemplo, no antigo conceito latino Vita Brevis, que Lamartine usa, como ninguém, no seu famoso poema Le Lac, talvez o mais belo hino libriano já escrito.

Grande parte dos males librianos estão centrados na aparência (pele), tendo por motivação, invariavelmente, sentimentos refreados, frustrações afetivas, decepções no amor etc. A icterícia
ICTERÍCIA
(ictero, verde), por exemplo, infiltração de bile nos tecidos, é o fel: doença dos que remoem, não liberada a força de Marte (Eros). Eczemas, Psoríase e outros males que se projetam na pele são comuns em Libra. Sentimentos de não aceitação, de injustiça. O retido (amor, afeto, Vênus) não tem outra saída senão pela pele (Saturno). No libriano inferior, a dinâmica do psiquismo está sempre voltada para o agradar; fraco, sem vontade (Sol em queda), ele faz todas as "médias", sofre do chamado complexo do avestruz (fazer de conta que não vê) decorrendo dessa acomodação muitos de seus problemas físicos e psíquicos. Problemas renais são também comuns nos do signo, além de dores de cabeça (ação reflexa por Áries, signo oposto). Uma grande tendência dos librianos inferiores é a de transferir sentimentos de culpa para os outros, pois, procuram sempre passar uma imagem de bem intencionados e de compreensivos. 


Astrologicamente, recordemos que na Índia, Thula (Libra) é o signo através do qual é entendido o conceito de Dharma, a lei moral, considerada não como castigo, mas como reajuste, recomposição do equilíbrio rompido. Neste sentido, é que na antiga astrologia védica (Jyotish) o Sol e Marte são vistos como agentes do karma e Vênus e Saturno como agentes do Dharma

A diminuição do material a partir de Libra tem que ser conquistada, produto de uma conquista consciente. É só nesta perspectiva que diminuir significa aumentar. É neste signo, como já se percebeu, que, sob o ponto de vista cósmico, começa visivelmente o retorno à unidade, a reintegração da matéria. Declínio do mundo orgânico, a substância retorna à sua origem. Libra é assim um ponto médio entre o que foi construído e as forças que começam a provocar a sua desintegração. É por essa razão que o outono tem o nome de Fall (Queda) nas línguas anglo-saxônicas. Entre nós, é neste signo que encontramos conceitos como de poente (com relação ao dia), de outono (com relação ao ciclo das estações), de ocidente, lugar de queda, etimologicamente (com relação às direções do espaço).

Em Libra a vida se recolhe, devemos começar a aprender o que na prática significam conceitos como os de despojamento, renúncia, involução física e evolução espiritual. Em Libra tudo o que nasceu, cresceu e se desenvolveu chega ao seu ponto mais elevado e é obrigatoriamente em Libra que tudo começa a descer, declinar, desaparecer. 


ADONIS   E   AFRODITE

Um dos mitos gregos, herança mesopotâmica e fenícia, que melhor expressa o que aqui se expõe é o de Afrodite e de Adonis, seu grande amor. Atacado por um javali (o deus Ares), Adonis (Tamuz para os povos semíticos) era um deus da vegetação que, em muitas tradições religiosas orientais, morre anualmente, uma representação do ciclo vegetal. Morto, Adonis, tem que abandonar Afrodite, para descer ao mundo subterrâneo, para lá passar uma temporada com a
ANÊMONA
deusa Perséfone, rainha do mundo infernal. Do sangue do deus, nascerão as anêmonas (etimologicamente, vento), que representam o efêmero. Flor solitária, de beleza simples, a anêmona tornou-se ao mesmo tempo símbolo da riqueza, da precariedade e da beleza da vida. É a anêmona a flor, mais do que qualquer outra, que evoca o amor submetido às flutuações das paixões e dos caprichos dos ventos.