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sexta-feira, 7 de julho de 2017

LEÃO (3)


TYCHE
Lembremos que Fortuna, entre os romanos, era uma “tradução” da deusa Tyche, dos gregos, a deusa da Sorte, do Acaso. Costuma Fortuna  aparecer associada ao signo do Leão, ou melhor, aos leoninos vitoriosos. Na origem, Fortuna, ligada às mulheres e a alguns oráculos, era considerada como um símbolo da sorte efêmera, sempre representada de pé, alada, sobre uma roda, com uma cornucópia nas mãos, empurrada ao acaso pelos ventos de um lugar para outro. Com o correr do tempo, a partir do fim da república romana, Fortuna foi aparecendo cada vez mais associada a certas figuras políticas.


O culto a Tyche, entre os gregos, do verbo tynkhanein, conseguir por sorte, obter por acaso, ter êxito, apareceu num período de decadência política e social (final do período clássico e por todo o helenístico, da história grega) quando os conceitos que Ananke representava foram sendo "esquecidos" pela sociedade grega. Ananke significava, sobretudo, entre os gregos antigos, a causalidade que operava no universo com um fim, governando todas as coisas de um modo providencial. Ananke é conceito que lembra muito a doutrina do karma (lei de causa e efeito) dos hindus. Tyche, nesse sentido, é o efeito que não se liga à causa, contrapondo-se a Ananke. Em suma, com um pouco de sorte, com o auxílio de Thyche, podemos escapar. A lei de causa e efeito deixava de funcionar. Tyche atua no sentido contrário de deusas que agem em nome de Ananke. 


ANANKE   E   AS   MOIRAS
      
Ananke é nome que lembra coação, violência e ao mesmo tempo relação de parentesco, isto é, de causa e efeito. Em torno desse conceito reúnem-se várias divindades femininas que, de modo providencial, têm por finalidade a reposição de limites por parte daquele que se excede. Nêmesis, as Moiras, as Erínias, Dike, as Keres e Ate, são divindades desse mundo. Há sempre algo de mecânico na ação dessas deusas, de inexorável. É o próprio agir do ser humano que determina qual delas virá para constrangê-lo, para obrigá-lo a voltar de onde não deveria ter saído, com sofrimento, maior ou menor, de algum modo. Com Tyche, o que prevalece então a ideia de acaso, de pura contingência, algo que poderia ter acontecido ou não.


JÚLIO   CÉSAR
Dentre importantes figuras políticas leoninas que aparecem associadas à Fortuna podemos citar Júlio Cesar e Otávio. O primeiro nunca perdeu uma batalha. Quanto ao segundo, depois de vencer Antônio e Cleópatra na famosa batalha do Actium (31 aC), tornou-se o imperador de Roma, adotando o nome de Augusto e tendo por símbolos o Sol e o leão. Sua autoridade foi colocada  sob  a  tutela  de  Apolo e, como  tal, ele  se  tornou o supremo  chefe religioso de todo o seu imenso império, recebendo o título de Pontifex Maximus. Com  isso ,  instaurou-se  o  culto de 
OTÁVIO   AUGUSTO

Genius Augusti, da força divina encarnada no imperador. O período em que reinou (27 aC-14 dC) passou à história com o nome de O Século de Augusto. Sob o ponto de vista artístico, seu grande incentivo à cultura e sua grande proteção aos artistas levou os historiadores a darem o nome de Idade de Ouro ao período em que governou.


SHIVA

Na Índia, um dos avatares (descida do divino ao mundo dos humanos) de Vishnu, a segunda pessoa da trindade hinduísta, tem o nome de Nara-Simha. Foi sob esta forma, de homem-leão, que Vishnu desceu ao mundo na Satya-Yuga (1ª idade) para libertar o universo da tirania de Hiranyakasipu, um demônio que, favorecido por Brahma, havia se tornado invulnerável. Nara-simha, forte e corajoso, é o destruidor do mal e da ignorância. 


HIRANIAKASIPU

O culto do homem-leão na Índia é muito antigo, nele se venerando principalmente a coragem e a força como aspectos da divindade. O culto fica restrito de um modo geral aos membros da segunda casta (kshatryas), reis e guerreiros. Os membros da primeira casta (brâmanes) dele participam na medida  em  que  são os destruidores
COLUNA  DE  ASHOKA
da ignorância. Os cultores da Nara-Simha são orgulhosos, como o leão, o rei dos animais, o mais forte e o melhor, a personificação da coragem. Encarnando na Índia o poder e a majestade reais, ao leão é, como ao tigre, é sempre votada uma grande consideração. Não é por acaso que nos brasões de armas da Índia, desde os tempos do imperador Ashoka, encontramos quatro leões unidos. 

Buda é conhecido como o Leão da tribo dos Sakya, na qualidade de mestre do Dharma. No Budismo, a consciência iluminada, no incessante jogo da vida, sempre tendo que tomar decisões de momento a momento, sempre tendo que tomar posse ou renunciar a algo, sempre afirmando ou negando, é representada pela figura de um bodhisattva (aquele que tem a iluminação no seu  âmago). É por isto que Buda vem sentado sobre um leão. Esta representação tem por origem as pregações de Buda, quando nas assembleias, ensinava o dharma. Em tais pregações fazias-se uma analogia entre o seu ensinamento e o rugido do leão, o poder que ele tinha de sacudir e de despertar as pessoas. 


BUDA

No cristianismo, Cristo é chamado de o Leão de Judá, como encarnação de poder, sabedoria e justiça e por sua família descender do patriarca que tem este nome. O leão é muitas vezes utilizado para representar o aspecto manifestado da divindade, assinalando o seu entendimento como terrível. Neste sentido, ele é o atributo das forças furiosas da justiça divina. Na Índia, ele vem com Durga (shakti de Shiva), aquela que vence as forças do mal. Às vezes, vem como símbolo do aspecto temível de Maya, a ilusão da separatividade. 


DURGA

Negativamente, o leão aparece como representação de uma cega impetuosidade, de um apetite insaciável, de uma avidez violenta e irascível, manifestando-se por uma vontade imperiosa, servida por uma descontrolada força.  É neste sentido que o leão na Índia, como o encontramos em várias imagens, é sempre subjugado por Shiva, o destruidor das formas. Nas Escrituras cristãs, lembremos, o leão é um dos símbolos do Anticristo, personagem misteriosa que, segundo o Apocalipse, deverá aparecer algum tempo antes do fim do mundo, enchendo a terra de crimes e impiedade, para depois, ao final, ser vencido por Cristo. Com a sua cega avidez, a sua descontrolada ferocidade, o seu enorme despotismo, o leão, com a sua bocarra aberta, é, em várias tradições uma representação das potências infernais. Além disso, é o leão também uma das preferidas montarias de Satan.

As imagens e esculturas de leões são encontradas em todas as tradições à entrada de túmulos, de templos, de habitações, de cidades, em portas e portões (aldrabas) para lembrar vigilância, proteção, mesmo em latitudes em que a fauna local não o conheceu. No oriente, como protetor, ele atua contra as forças maléficas, mencionando-se, por exemplo, no Japão, as danças do leão (Shishimai), celebradas no dia primeiro do ano e em outras festas. 


SHISHIMAI

Entre os judeus, o leão é símbolo da tribo de Judá e dos reis davídicos daquela tribo. Leões ornavam o trono de Salomão. Acreditava-se, nos tempos antigos, entre os judeus, que os leões, a não ser quando famintos, não atacavam nem matavam os seres humanos. Assim, se o marido de uma mulher tivesse caído numa cova de leões tal fato não poderia ser considerado como uma prova suficiente de sua morte para que a mulher voltasse a casar. O leão era um dos motivos artísticos favoritos na decoração de uma sinagoga. Nas suas pregações, os antigos rabinos advertiam os judeus de que era melhor ser uma cauda de leão que uma cabeça de raposa. Tal expressão significava que era melhor uma associação com pessoas eminentes, mesmo numa condição de subordinação, do que liderar gente de baixo nível social. 

Na Bíblia, lembremos, no novo testamento, o leão é mencionado (Apocalipse, capítulo 5º, 5). Ali se fala da tribo de Judá que abriu o
SÉTIMO   SELO
livro e os seus sete selos. Esta passagem apresenta, subtendida, uma referência ao signo de Leão: somente alguém, revestido de autoridade divina, solar, que está na posse de seu ego, poderá abrir o Livro do Destino, fechado por sete selos (vide o filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman), O selo é aqui emblema de poder, de autoridade, de soberania, Ele protege, lacra, fecha, preserva, um símbolo de algo secreto. Só podem romper os selos e abrir o Livro aqueles que encontraram a suprema razão de viver, os que chegaram à luz, os devidamente habilitados, aqueles que, sob o ponto de vista astrológico, conquistaram a quinta casa.

É a partir do ingresso na quinta casa astrológica que podemos partir, simbolicamente, para a criação de um eu superior, a caminhada em direção das casas que se abrem depois desta. É por esta razão que a estrela de cinco pontas ou pentagrama, a chamada estrela flamejante dos hermetistas, corresponde, simbolicamente para o homem, aos seus quatro membros e à sua cabeça. Ou seja: os quatro membros executam o que a cabeça comanda. O pentagrama passa a ser entendido assim como o símbolo da vontade soberana à qual nada pode resistir, sob a condição de que esta vontade seja inquebrantável, judiciosa e desinteressada, características que só podem ser obtidas por uma longa prática relacionada com os assuntos da casa seguinte, a sexta, do signo de Virgem.


É por esta razão que o signo de Virgem é representado pela estrela de seis pontas, resultante do entrecruzamento de dois triângulos. Esta estrela sempre foi considerada como um emblema da sabedoria, uma representação da força em movimento, uma das expressões da pedra filosofal dos alquimistas, objetivo da Grande Obra, graças à qual o microcosmos humano entra em relação com o macrocosmo universal. É no nível da sexta casa, diante do ego que nasceu na casa anterior, que a opção é feita, regredir à animalidade, à vida instintiva, puramente egoica (a ponta do triângulo que aponta para baixo) ou caminhar em direção do social, do coletivo, da humanidade, com propostas de abertura para uma vida orientada espiritualmente. Visualizada com a ponta voltada para baixo, a estrela de seis pontas adquire conotações satânicas, aparecendo sempre associada ao príncipe das trevas. Priorizado o vértice inferior, essa estrela simboliza os instintos grosseiros, os ardores lúbricos que subjuga o racional humano.


BASÍLICA   DE   SÃO   MARCOS  -  VENEZA

No que diz respeito a outras possíveis associações do leão com figuras lendárias ou históricas, lembremos ainda que ele, numa forma alada,é o emblema de S. Marcos. O evangelista Marcos, que acompanhou S. Pedro a Roma, morreu no ano de 57, na prisão, quando Nero governava o império romano. No ano de 468, segundo Ambrósio, o corpo de Marcos foi transportado para Veneza e lá sepultado numa igreja que mercadores ricos levantaram, sendo o santo representado desde então por um leão alado. As asas, como sabemos, ligadas a certas figuras como o leão, simbolizam no caso a transcendência, a sublimação, a espiritualização do poder. A basílica que tem o nome do santo em Veneza, com cinco cúpulas desiguais, foi levantada no séc.XI, para guardar as suas relíquias. 

Na Alquimia, em muitas imagens (gravuras, desenhos etc.) que servem para ilustrar as suas operações, o leão aparece sempre ligado à figura do rei, simbolizando este o princípio condutor da personalidade, a consciência iluminada, que deve controlar a vida instintiva. Algumas gravuras nos mostram uma figura real jazendo por terra e um lobo devorando-lhe as entranhas. O significado é claro: a morte do rei (regicídio), muito representada, significa sempre uma regressão, uma perda da vida consciente. Quem ataca o rei é o lobo, símbolo, como sabemos, da vida instintiva, dos desejos incontroláveis. 

LEÃO   VERDE
O leão selvagem, psicanaliticamente, costuma aparecer como um símbolo de paixões latentes, caracterizando o perigo do inconsciente devorador. Esse quadro era representado na Alquimia pelo chamado leão verde, devorador do Sol. O leão verde impede a manifestação do leão vermelho, devora-o. Estas imagens alquímicas são vividas como experiências de esmagamento da consciência quando desejos intensos, violentos, são frustrados, mascarados muitas vezes por estados depressivos. O leão verde é, no laboratório do alquimista, uma representação do vitríolo verde, um ácido sulfuroso fortemente corrosivo

O entendimento do que significa o leão verde fica muito facilitado se lançamos a luz astrológica para iluminar o quadro. Antes, porém, é bom lembrar que Saturno é o astro que se opõe aos dois luminares, o Sol e a Lua. Os aspectos dissonantes de Saturno, como sabemos, têm muito a ver com depressões, situações em que a pessoa por elas vitimadas se sente pressionada para baixo. A energia “desce”, falamos de desânimo, de peso, de apatia, de chumbo. Esta depressão é fortemente marcada por desejos frustrados e revela porque depois de experiências amorosas, financeiras etc. malsucedidas ela costuma ocorrer. Houve uma “frustração do leão”. Muitas vezes, esta “frustração do leão” vem da infância, crianças muito contidas, “educadas”, que sempre gostariam de “comer” os mais velhos que as limitam. Como não podem ser os “maiores” em tudo, entregam-se ao “leão verde”. Pessoas muito criativas, com um Sol muito poderoso sob o ponto de vista astrológico, costumam enfrentar problemas como o acima descrito. Magoadas, amargas, reprimidas, conforme o caso, retiram-se cada vez mais, sem o perceber, para a sua interioridade. É nesse momento que o leão verde avança. 

O signo de Leão tem muito a ver (ou tem tudo a ver) com aquilo que a psicologia chama de ego consciente, adquirido ao longo da vida tanto por um diálogo entre o fator somático da personalidade e o meio ambiente (que começa pela casa IV) e depois por encontros ou colisões com o mundo exterior e o mundo interior. O ego, é bom lembrar, nunca chega a ser mais que uma imagem incompleta da personalidade consciente porque há muitos aspectos que ficam fora dela. A imagem completa teria que incluir estes aspectos, o que não acontece. Podemos dizer, aliás, que aquilo que mais afeta a personalidade de alguém é inconsciente, percebido apenas pelos outros ou com uma ajuda externa.  Isto quer dizer que a personalidade total de alguém jamais coincide com o ego. 

Por outro lado, grande parte da vida dos seres humanos é vivida só através de uma máscara, a chamada persona visível (o ascendente, na Astrologia), muito usada para nos diversos embates da vida. Este problema começa na infância, quando, por exemplo, a criança é pressionada pela família. Comportar-se como os pais querem para receber a sua aprovação. Essa é a primeira experiência vivida através de relações entre o ego e a persona. A maioria das pessoas perde a consciência com relação a estes dois elementos, persona e ego, passando a viver só em função do primeiro, procurando usar a máscara social da maneira mais vantajosa possível. A persona recebe então o nome de pseudo-ego. Ou, de outro modo, a individualidade se confunde com o papel social. As pessoas que assim agem não são mais que o papel que representam, um doutor, uma mãe zelosa, um professor, um guardião da lei, um pai provedor etc. É difícil que as pessoas que investem muito na “máscara” tenham consciência dela


SANSÃO  MATA  O  LEÃO
( CATEDRAL  DE  ELY , 672 aD , CAMBRIDGESHIRE )

Entre os judeus, Sansão, já mencionado, é outra referência ao signo do Leão. Ele é um líder israelita do período bíblico dos juízes (séc. XII aC). Seu destino, anunciado por um anjo, foi o de libertar Israel da opressão dos filisteus. Dotado de força sobre-humana e vítima de grandes paixões sexuais, Sansão acabou sendo traído por Dalila. Preso, cegaram-no. Mesmo na prisão continuou na sua carreira de
JUNG
atleta sexual; as mulheres faziam fila para manter relações sexuais com ele na esperança de conceberem filhos tão fortes e belos como ele. Reunindo todas as suas forças, Sansão conseguiu afinal fazer desmoronar as colunas do templo, ele e os filisteus. Seu suicídio é considerado como um martírio pelos judeus. Jung, possivelmente inspirado pela história do herói judeus, e leonino também, fala do mês do leão como o do calor violento da libido, da concupiscência. 

Entre os judeus, Av é o mês do Leão, sendo o fogo o seu elemento, a audição o seu sentido e sua tribo a de Shimon. O mal uso do sentido da audição está na origem de muitas atribulações que os judeus tiveram que enfrentar. Foi numa noite do mês de Av  que os espiões enviados por Moisés voltaram com a falsa notícia sobre a terra prometida. Foi também no mês de Av que o primeiro e o segundo templos foram destruídos, pelos babilônicos e pelos romanos, respectivamente. O nome Av é, para os judeus, um acrônimo dos nome das duas nações que destruíram os templos: Babilônia e Roma. 

O astro que governa Av é o Sol, base do calendário de muitas nações. O primeiro dia da semana é também governado pelo Sol. O aspecto negativo de Av é representado pela transgressão dos espiões, o pecado do orgulho, que tem origem no elemento fogo. Tais ideias estavam presentes nas atitudes dos espiões, que

desejavam manter as suas posições como príncipes do deserto, não desejando que o povo de Israel se fixasse na terra prometida. Além do mais, as características do orgulho e de uma irracional auto-suficiência estão presentes no caráter do patriarca da tribo, Shimon. Foi nas planícies de Moab que Zimri, príncipe da tribo de Shimon, rebelou-se abertamente contra a autoridade de  Moisés e dos princípios da Tora, devido à incisiva instigação de Kozbi, filha de um dos príncipes. 


ANJO   DE   ESAÚ   FERE   JACÓ  ( GUSTAVE  DORÉ )  

Como dia aziago, o nono dia de Av está associado a marés muito destrutivas. O dia também se associa ao vazio da coxa onde corre o nervo ciático, o lugar em que o anjo de Esaú feriu Jacó. Esaú, para os judeus, tornou-se símbolo do império romano e, depois, do mundo cristão da Idade Média, com sua postura sempre oposta aos descendentes de Jacó. Entre os místicos judeus, Esaú representa o Sitra Achra (o lado do mal nos assuntos humanos) e só será finalmente destruído na era do Messias. O ferimento de Jacó se deve à luta noturna que ele travou com o anjo protetor de Esaú. Jacó ficou manco. Para lembrar esse acontecimento, os judeus não comem o tendão da coxa de animais. O anjo disse a Jacó que ele teria um novo nome, Israel, significando este nome a vitória que ele sempre conquistaria nos embates que viesse a travar com seres divinos ou humanos. Etimologicamente, Jacó quer dizer suceder, suplantar. 

O signo de Av está relacionado com o número nove através da letra Teth. Essa letra, segundo o Talmud, tem a ver com destruição e morte. Ao longo da história judaica, muitos acontecimentos negativos, além da destruição dos templos (inquisição espanhola, exílio, perseguições durante a primeira guerra mundial), ocorreram nesse dia. Os primeiros grupos judaicos, durante a segunda guerra mundial, foram levados para as câmaras de gás nesse dia. O mês que, no inverno, corresponde a Av é Shevat (Aquário). O princípio que os une está no décimo quinto dia de ambos, dia de celebração, de regozijo. Entre os judeus, o mês de Av aparece sempre ligado ao nascimento de grandes líderes, inclusive do futuro Messias. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ARGO NAVIS





ARGO NAVIS é uma constelação que participa do simbolismo da barca e pode ser explicada por este nome, cuja origem está num radical egípcio (barc) que no grego deu baris, idos (embarcação) e passou ao latim vulgar como barica e, depois, ao latim tardio como barca. O nome é genérico e se aplica, em todas as culturas, aos mais variados meios de transporte marítimo ou fluvial. O campo
BARCA   DO   SOL
semântico é vasto. Falamos de barcas que, no lugar de carros, transportam corpos celestes (Barca do Sol) e também de barcas que podem levar as almas para o Outro Lado. Os deuses egípcios tinham barcas para navegar pelo Nilo. Encontramos em muitos túmulos megalíticos, já no período final da nossa pré-história, desenhos de barcas que descreviam a viagem à Ilha dos Bem-aventurados.

LIVRO   DOS   MORTOS
O Livro dos Mortos egípcios, por exemplo, descreve a travessia das regiões do mundo inferior que defuntos deviam fazer para chegar ao Duat (Outro Lado), enfrentando vários perigos, demônios, serpentes etc. Já os hindus adeptos do Yoga comparam o corpo humano a uma embarcação que serve de veículo ao homem para chegar à outra margem do do oceano da existência. É por esta e por outras razões que, em muitas tradições, a barca, simbolicamente, aparece associada à figura materna, representando a segurança na viagem cheia de perigos que é a vida humana.


SANTO   AGOSTINHO  ( SANDRO  BOTTICELLI )

No geral, a barca simboliza não só a viagem que o ser humano faz do nascimento à morte, a travessia da vida, mas a que ele pode fazer depois da morte. A vida neste mundo é como um mar
BARCA   EGÍPCIA
tumultuoso que é preciso atravessar para levar nossa barca a um bom porto. Se conseguirmos resistir às tentações, ela nos conduzirá à vida eterna, diz Santo Agostinho. Para os povos do hemisfério norte, as terras do sul eram misteriosas, cheias de encantamentos, de magia. Para chegar a elas, só com boas embarcações. A geografia mítica, em todas as tradições, está repleta de nomes sugestivos Atlântida (Grécia-Platão), Dilmun (mito de Gilgamés); a Insulae Fortunatae (latinos); a Ilha dos Imortais (China); Aztlan, ilha-montanha primordial dos astecas; Eldorado (América do Sul); Shangrilá (Tibet) etc.

CARONTE  ( G. DORÉ )
O meio privilegiado de transporte de que se valiam às almas para chegar ao Hades, por imposição divina, era a embarcação de Caronte, o famoso barqueiro. De olhar tenebroso, mal humorado, as almas quando entravam  na sua embarcação deviam lhe entregar um óbolo,  pois, se não o fizessem, nunca chegariam ao Outro Lado. Isto significaria para elas, evidentemente, a impossibilidade de reencarnar, desde que, é, claro, o julgamento infernal a que seriam submetidas lhes fosse favorável. 

O sonho coletivo das grandes distâncias, das grandes viagens, dos maravilhosos reinos, ilhas e montanhas, sempre foi, por outro lado, uma constante na história da imaginação do ser humano. A
TRANSPORTE   DE   MÚMIAS
literatura que existe sobre o tema é vastíssima. Os egípcios viram na constelação Argo a barca que os deuses Osíris e Isis usaram depois de um grande dilúvio que cobriu a Terra. Filho de Geb, considerado “o pai dos deuses”, o equivalente egípcio do Cronos grego, e de Nut, a deusa celeste da noite, identificada pelos gregos como uma espécie de Reia, Osíris, quando recebeu o poder do pai, teve que enfrentar com a sua irmã, Ísis, um dilúvio, apesar de ter sido aclamado como “mestre universal.”

Outra versão egípcia, entretanto, nos revela que a constelação representava a barca solar que Osíris usara para descer ao mundo infernal depois que sua irmã e esposa, Ísis, reconstituíra o seu
OSÍRIS , HÓRUS , ÍSIS
corpo, despedaçado por seu irmão Seth. Graças aos seus sortilégios, e ajudada por Thot, por Anúbis e por Hórus, Ísis conseguiu ressuscitar Osíris que, assim, adquiriu a imortalidade eterna. Ao invés de retomar o seu trono, preferiu se retirar da Terra e assumir a condição de deus do mundo subterrâneo, deus dos mortos e da psicostasia (pesagem das almas). Deus solar em sua viagem noturna,   Osíris descia ao mundo subterrâneo por meio da barca do Sol. Os faraós, quando morriam, faziam a mesma viagem que Osíris. Há que se mencionar ainda que no Egito as múmias eram colocadas numa barca funerária puxada por um pequeno carro em direção do túmulo.Aliás, a própria Terra era considerada pelos egípcios como uma barca que navegava nas águas primordiais. Havia duas barcas para Osíris: a do entardecer, crepuscular, para a sua viagem noturna, e a matinal, para a sua ressurreição.


MATSYA
Entre os hindus, esta constelação que chamamos de Argo Navis está relacionada com Matsya, o Peixe, o primeiro avatar do deus Vishnu. O objetivo desta encarnação do deus foi o de salvar Manu, progenitor da raça humana, homem mítico, ameaçado de morte pelo dilúvio. Adquirindo a forma humana, o avatar o salvou, fazendo-o subir numa barca (Argo, a constelação), juntamente com os Rishis (profetas), levando as sementes de todas as coisas que existiam sobre a Terra. 

O dilúvio ocorreu numa das noites de Brahma, durante o período em que ele, como a primeira pessoa da trindade hinduísta, estava
VEDAS
repousando no intervalo de duas criações sucessivas. Tudo submergiu então. Quando as águas baixaram, o Peixe passou instruções aos Rishis para que a verdade dos Vedas (escrituras sagradas) não se perdesse. O avatar ordenou a Manu que descesse da embarcação. Sentindo-se só, diante de tanta desolação, Manu fez sacrifícios aos deuses. Apareceu-lhe então uma mulher, que declarou ser sua filha. Unindo-se a ela, como dizem os textos, celebraram e praticaram árduos ritos religiosos, dando-se início assim ao repovoamento da Terra.  

Astrólogos cristãos, na Idade Média, viram nesta constelação a arca de Noé, embarcação por ele construída por ordem de Deus para salvar do dilúvio a si próprio, sua família e um par de cada espécie
ARCA DE NOÉ NO MONTE ARARAT
 ( SIMON  DE  MYLE )
animal. A arca tinha três andares; o de cima para os humanos, o do meio para os animais e o último para o lixo. Na cobertura da arca havia uma claraboia feita de uma pedra luminosa, já que os céus estavam obscurecidos por pesadas nuvens de chuva. Além da mulher, de seus três filhos e noras, dos animais, a arca conduziu também o gigante Og, rei de Bashan, que se manteve durante todo o dilúvio na parte externa da arca. Após a catástrofe, a arca pousou no monte Ararat. 

A versão sobre a origem desta constelação, incorporada pela
   ARGO
Astrologia, foi a que os gregos nos passaram através de sua Mitologia. A história tem como figuras centrais os argonautas, heroicos parceiros de Jasão que foram à Cólquida (Ásia Menor) em busca do Velocino de Ouro (mito a ser estudado no capítulo das constelações zodiacais – Áries). A nau Argo (branco cintilante, em grego) foi construída por Argos, filho de Frixo, num porto da Tessália, com a orientação de Palas Athena, a guia dos heróis.  


CARVALHO
Uma curiosidade quanto a Argo é que a madeira necessária à sua construção foi tirada de um bosque do monte Pelion, onde vivia o centauro Kiron. A madeira da proa, um carvalho, entretanto, foi trazida por Palas Athena de um bosque  sagrado de Dodona. Essa madeira era falante, tinha o dom da palavra, inclusive o da mântica, o que, com as informações que transmitia, auxiliava o piloto (kubernetes) a manter o curso da nau perfeito e seguro. 

ARGO   NAVIS
Devido ao seu tamanho (nos céus, vai de 10º de Câncer a 20º de Libra – l5º a 65º Sul),  Argo Navis foi dividida em quatro partes, mais asterismos que constelações: Carina, Puppis, Vela e Pyxis, ou seja, respectivamente, A Quilha, A Popa, A Vela e o Mastro, esta última parte também chamada de A Bússola ou O Compasso. Situada inteiramente no sul, a direção das estrelas desta constelação, como um todo, apontava para o hemisfério norte, para uma viagem na direção das terras do desconhecido.

Argo Navis, como símbolo, deve ser associada ao tema das viagens, ao rompimento de limites e à ampliação de horizontes. No fundo, tanto um grande desejo de mudança interior, de experiências novas, como insatisfação interior, recusa do que se é e/ou do lugar em que se está. Esta constelação sempre apareceu, em muitas
SONDA   ESPACIAL
tradições e culturas, associada à história de grandes de viajantes, nas mais variadas épocas, mítica ou historicamente: Hércules, Ulisses, os Vikings, Vasco da Gama, Colombo,  Richard Burton etc. Por causa do seu brilho e da sua posição, a principal estrela de Argo Navis, Canopus, foi utilizada pelas sondas espaciais americanas para fins de navegação. Essas sondas usam câmeras especiais conhecidas pelo nome de Canopus Star Treker. É de se lembrar ainda que Canopus está na bandeira brasileira como símbolo do estado de Goiás.  


PTOLOMEU  ( JOOS  VAN  GENT )
Para Ptolomeu, Argo Navis, através de sua principal estrela, alfa, de 1ª magnitude, Canopus, situada na Quilha,  a 14º 16´ de Câncer, e das demais, bem menos importantes astrologicamente, Miaplacidus, também na proa, Muhnithain, e Al Suhail, ambas na Vela, tinham características de Saturno e de Júpiter, sugerindo viagens longas, prosperidade, conhecimento. Os gregos deram o nome de Canopus à estrela que está na proa de Argo Navis para prestar homenagem ao piloto da nau capitânea da armada grega que, sob o comando de Menelau, partiu para atacar Troia. Canopus morreu quando retornava à Grécia, depois de terminada a guerra. 

RUÍNAS  TEMPLO  DE  CANOPUS
A morte de Canopus ou Canopo se deu quando o barco por ele pilotado fez uma parada na embocadura do rio Nilo, perto de Alexandria. Era ele quem trazia de volta à Grécia os reis de Esparta, Menelau e sua mulher, Helena, que fora raptada por Páris, príncipe troiano. Belíssimo, Canopus foi amado pela filha de Proteu, rei egípcio à época. Não tendo correspondido ao amor da jovem princesa foi amaldiçoado. Certo dia, quando se preparava
ÍNULA
para retomar a viagem de volta, foi picado por uma serpente, morrendo no ato. Menelau mandou levantar um suntuoso túmulo numa ilha da foz do Nilo, que tomou o nome de Canopus. O mito nos conta que Helena chorou tanto a morte do jovem piloto que de suas lágrimas nasceu uma planta até então desconhecida, a que deram o nome de helenion, depois chamada de ínula (inuma helenion), usada tanto na culinária (condimento) e na medicina (tônico aromático).



A estrela Canopus foi registrada por várias tradições. Os egípcios, bem antes dos gregos, já a haviam associado ao piloto do barco que fazia o transporte das almas para o Outro Mundo. A estrela de Canopus entre os egípcios e persas foi chamada por nomes que destacavam o seu brilho, a sua luminosidade, sempre no sentido da sabedoria. Canopus tinha para eles, ao lado de Sothis (Sirius), grande importância, alinhando-se a construção de muitos templos egípcios na sua direção quando do seu nascimento heliacal.  

Muitas culturas viram Canopus como a Estrela Polar do sul, o ponto onde terminava a linha que unia os polos, um ponto que se movia também conforme a precessão dos equinócios. Assim como o polo norte celestial completa um círculo a cada 26.000 anos aproximadamente, o mesmo acontecia com Canopus, no polo sul celestial. Os gregos associavam a estrela Canopus a Cronos, o maior dos titãs, (segunda dinastia), derrotado pelos olímpicos chefiados por Zeus (terceira dinastia). Lançado no espaço, Cronos caiu exatamente onde estava Canopus, decorrendo desse fato a identificação de Cronos como o Senhor do Tempo, o limite da duração, o Cronocrator, aquele que fixa os ritmos do universo. A direção sul, o lado que está à esquerda do Sol, é o caminho por onde vão as almas, conduzidas por Canopus, o piloto. É neste sentido que a estrela Canopus simboliza também os limites das possibilidades humanas, definindo o momento de transição entre a matéria, forma (Cronos-Saturno), e a alma que, como energia, faz o seu caminho de volta ao grande Todo.


SENHOR   DO   TEMPO

ANANKE
Canopus encontra-se atualmente a 14º 16´ de Câncer. Depois de Sirius, é a estrela mais  brilhante do céu. Sua influência, de natureza saturnina e jupiteriana, aponta para  ideias  de forma, limites (Saturno) e de expansão (Júpiter). Nos mapas, Canopus fala de novos caminhos, habilidade para conduzir, atitude cibernética (arte de pilotar, de conduzir bem uma ação), mas pede cuidado e controle para evitar a ação da Ananke. 




Ao lado das quatro grandes estrelas reais, conforme os persas as definiram (Aldebaran, Antares, Fomalhaut e Regulus), Canopus, juntamente com Sirius e Spica, ocupa uma posição muito importante nos céus, na medida em que todas elas apontam, com as devidas reservas, para benefícios e expansão. Canopus se situa no leme de Carina, trazendo augúrios de boa caminhada. O conceito grego que está por trás desta caminhada é o de patos, do verbo patein, andar. Patos é o caminho a ser seguido por cada ser humano, não o mais importante, idealizado, mas o pessoal, acabando por significar o próprio curso da vida de cada um de nós, um caminho que tanto pode ser seguido na terra, nas água ou no ar. Canopus nos leva à figura do que a língua inglesa denomina de pathfinder (path, caminho, mais finder, aquele que encontra; ou seja, aquele que sabe se conduzir, que encontra o seu caminho na selva, na imensidão dos mares, nas longas distâncias, ou através da arte, da ciência, da religião, da filosofia (9ª casa astrológica). 


SANTA   CATARINA
( CARAVAGGIO )
Os astrólogos da Índia identificaram Canopus como Agastya, um de seus Rishis (profetas). Etimologicamente, Agastya quer dizer o removedor de montanhas ou do imutável, representando como figura histórica o poder do ensinamento. Sua atividade era jupiteriana: foi mestre da gramática, da medicina e de outras ciências. 


Já os cristãos, desde os primeiros tempos deram o nome de estrela de Santa Catarina de Alexandria a Canopus. Esta estrela aparecia para os peregrinos gregos e russos que se dirigiam ao Sinai, naqueles antigos tempos, a um convento e a um santuário ortodoxo, erigidos para honrá-la. Catarina foi decapitada, tendo sido seu corpo, segundo a lenda, transportado por anjos até o alto do referido monte. 

Relacionada com sucesso, Canopus pede cuidado com relação a Ananke, conceito grego que significa coação, fatalidade. Na filosofia grega, ananke aponta para uma ação providencial que a própria vida cósmica deflagra (lei de causa e efeito) para 
ERÍNIAS  ( G. DORÉ )
restabelecer limites, o equilíbrio rompido, a desproporção. É um conceito feminino, atuando através dele várias divindades que combatem os excessos, as desmedidas, a hybris, o orgulho, a desmedida, a arrogância, a vaidade, a insolência. A figura maior da Ananke é Nêmesis, filha de Nyx, a deusa da Noite,  e que simboliza a revolta contra qualquer a injustiça cometida. Seus atributos são, por isso, a régua graduada, o esquadro, o compasso, o chicote e a espada. Ela cuida no sentido de fazer com que os que desejam fazer a experiência da felicidade a façam meritoriamente, sem perder o senso da realidade, sem invadir o espaço dos outros, sem prejudicá-los, respeitando limites.
CLAUDE   MONET
Por isso, ela curva os orgulhosos, ela pune todos aqueles que teimam em ultrapassar o seu métron. Quando a justiça deixa de ser equânime, Nêmesis (como as Erínias, por exemplo), em nome da Ananke, intervém porque todo descomedimento põe em perigo a estabilidade do cosmos, a ordem do mundo. Canopus pode ser estudada, por exemplo, dentre outros,  em mapas como os de Mao Tse-Tung e de Claude Monet. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).