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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (2)

                                                  

KIRON  E  A  MÚSICA
O mito que melhor explica o signo de Sagitário para a cultura ocidental é o do centauro Kiron,  como os antigos gregos o elaboraram, com base certamente nas influências recebidas dos mesopotâmicos. Antes, porém, é preciso entender que Kiron, como tantos outros monstros, faz parte da galeria de estranhos seres bicorpóreos produzidos pela imaginação humana,  que encontramos em todas as culturas. Monstros são sempre símbolos das dificuldades e dos obstáculos que o homem deve vencer para ter acesso a certos bens e/ou a níveis superiores de vida, seja material ou espiritualmente. Sempre
MONSTROS , ILUMINURA   MEDIEVAL ,  SÉCULO XIV
associados à vida primordial na Terra, os monstros míticos são seres de um mundo que antecedeu a organização do cosmos, um tempo em que a ordem ainda não se impusera aos seus elementos constitutivos, um tempo anterior ao da História. Nesse sentido é que os monstros, onde aparecem, lembram sempre regressão, indiferenciação, indeterminação, confusão,  como agentes do caos. Significam sempre uma perturbação, uma perversão, uma resistência à ordem, um desejo de voltar a um estado que antecedia o mundo conhecido como obra dos deuses e dos homens. 

O SONHO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS
( FRANCISCO  DE  GOYA , 1746 - 1828 )
Produzidos pelos excessos e descontroles da imaginação criadora dos homens, a faculdade que que eles têm de representar seres ou coisas ausentes, os monstros “vivem” no psiquismo dos homens, invadem a sua consciência, anulando ou distorcendo o que se entende por vida racional. Seja pela memória, pelo hábito, pelos sonhos, por  desejos recalcados ou por complexos, essas entidades vêm, ao longo de  milênios, dando provas de seu poder, da sua ineludível presença na vida dos seres humanos.

Todas as sociedades humanas sempre procuraram estabelecer o que devia ser entendido por seus membros como essencial para a sua sobrevivência, principalmente sob o ponto de vista moral, das suas relações, do seu convívio, em termos de sentimentos, ação e razão. Conceitos como humano, humanidade, humanismo, vida comunitária, por exemplo, pedem limites  bem definidos. Comportamentos que afrontam ou que contrariam esses conceitos, baseados em práticas e valores diferentes, devem ser desestimulados, condenados, proibidos. 

Na história da humanidade, um dos meios mais eficazes para falar de comportamentos socialmente nefastos, condenáveis, que atentem contra a ordem estabelecida, foi o de compará-los com exemplos retirados do reino animal, considerados totalmente contrários àqueles que são esperados de um ser humano normal. Daí se caracterizar, de uma maneira no geral muito simplista  até, como animal, bestial, esses comportamentos, como se houvesse uma fronteira perfeitamente definida entre a vida instintiva e a vida racional.


CAPITEL  ROMÂNICO  FRANCÊS
IGREJA  DE  ST. PATRICE, NIÈVRE
O comportamento animal diz respeito ao que se denomina vida instintiva. Instinto é impulso para agir que independe da razão. No animal, tem caráter compulsivo e nele costumamos distinguir três características: é inato, uniforme e específico a cada espécie. Já quanto ao ser humano, a vida instintiva apresenta bem maior complexidade: depende do temperamento de cada um, da sua inteligência, do seu nível de consciência, e da maior ou menor pressão por ele sentida com relação às regras sociais.

É preciso lembrar que nenhuma outra fonte iconográfica proporcionou ao homem tantas possibilidades para ele estabelecer o seu universo simbólico como o animal. Poucas são as qualidades e peculiaridades humanas que não podem ser representadas pelo mundo animal. Os mitos, as religiões e mais perto de nós a psicologia sempre procuraram representar o simbolismo da vida instintiva, do inconsciente, da libido e das emoções valendo-se sobretudo de exemplos colhidos no mundo animal. 


MONSTROS   DE   BESTIÁRIO   MEDIEVAL


CENTAURO
Na mitologia grega, os centauros fazem parte de um grupo de monstros bicorpóreos, formados por uma parte humana e por uma parte animal. Representam assim a permanente ameaça da vida instintiva à vida racional. Na sua parte superior, pelo ser humano, possuem cabeça, tronco e dois braços; na parte inferior, pelo cavalo, possuem a genitália animal, quatro pernas e patas.  Concupiscentes, lúbricos, os centauros mais conhecidos, viviam em bandos, alimentavam-se de carne crua, eram barulhentos e gostavam do vinho, embriagando-se facilmente, entregues sempre às mais baixas paixões.


POSEIDON   E   ANFITRITE 
O cavalo, na mitologia grega, foi “inventado” pelo deus Poseidon quando disputou com Palas Athena a tutela da polis ateniense. Conta o mito que o povo da cidade optou pela “invenção” que a deusa lhe ofereceu, a oliveira, rejeitando a oferta do deus dos oceanos. Dentre as várias possibilidades significativas que o cavalo adquiriu, uma das mais importantes foi a de se considerá-lo como um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas, a sexual sobretudo, paixões que se não controladas podem levar o homem à destruição. É com este sentido, por exemplo, que ele aparece nos bestiários medievais como um ser da impulsividade, da impetuosidade dos desejos, das pulsões instintivas que acometem o homem. Esta associação do cavalo com as forças obscuras que atuam no psiquismo do ser humano, visualiza-o sempre como uma encarnação da libido negativa que se opõe a qualquer tentativa de controle. 

É de se lembrar que algumas línguas, como a francesa e a inglesa, encerraram  na designação que deram a sonhos angustiantes, os pesadelos, essa relação entre o cavalo e as forças obscuras do inconsciente. O pesadelo, como se sabe, é um sonho  aflitivo que nos oprime, como se algo (a pata de um cavalo) pressionasse o nosso peito, podendo afetar a nossa respiração, causando inclusive perturbações respiratórias, dispneia. Em francês, pesadelo é cauchemar, palavra formada pelo verbo cauchier (calcar, oprimir; calcare, em latim) e por mare, palavra oriunda de antigas línguas europeias nas quais tinha tanto o sentido de besta, animal, cavalo como de fantasma noturno). Para os ingleses, a mesma coisa: pesadelo é nightmare, que podemos traduzir como a opressão noturna do cavalo. 


PÉGASO  ( JAN  BOECKHORST , 1604 - 1668 )

Apesar desta visão negativa do cavalo aparecer com muito ênfase nas tradições mítico-religiosas e artísticas, não podemos esquecer que foram os próprios gregos que também viram o animal positivamente. Esta versão positiva do animal, que recebeu o nome de Pégaso (nome que lembra fonte, em grego), tem na sua origem uma história na qual aparece o  próprio deus Poseidon, que o gerou ao se unir à Medusa. Aparecendo como um animal em tudo diferente dos centauros, Pégaso é, no mito, tanto montaria de heróis como um símbolo de elevação, da imaginação criadora e fonte da inspiração poética. 


HIPOCRENE ( JOOS  DE  MOMPER , O JOVEM , 1564 - 1635 )

Branco e alado, rápido como o vento, só poderia ser montado por heróis. Ao escoicear o flanco do monte Helicon, fez brotar a fonte de Hipocrene (Fonte do Cavalo), de cuja água podiam se beneficiar os artistas para a sua inspiração. Para que isto acontecesse, porém, os artistas, como os heróis, deveriam ter o domínio completo da sua montaria, isto é, ser donos de uma tekhne (técnica) perfeita. Sem esta, Pégaso lançava ao solo tanto cavaleiros como artistas despreparados. 


LA  DAME  À  LA  LICORNE, 1484 -1538
Em muitas tradições, depois, lembre-se, na esteira da grega, temos o registro da transformação do cavalo num símbolo positivo, como, por exemplo, o encontramos na famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne. No início da Idade Média, o cavalo adquiriu um status de nobreza, uma aura solar. Apesar de continuar trabalhando nos campos e de simbolizar a impetuosidade dos desejos, associado à vida inconsciente, sua imagem consagrada neste período é a que o considera como a montaria do guerreiro, do cavaleiro, do caçador, sempre valorizado positivamente pelas ordens de cavalaria que se fundam em vários países da Europa.      

Agrupam-se os centauros na mitologia grega em duas famílias. Uma delas está relacionada com a história de Ixion, filho do deus Ares, rei dos lápitas, um povo da Tessália. Insolente e falastrão, para se casar com a bela Dia, Ixion prometeu ao pai da jovem, Dioneu, que o cumularia de presentes, uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, nada de presentes, porém. Ao reclamá-los ao genro, Dioneu foi assassinado por ele, que lançou o corpo do sogro num poço cheio de carvões em brasa. Ocultando o acontecido, falso e hipócrita, Ixion passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram rudes criadores de cavalos e mercenários. Violentos e cruéis, viviam nos maciços montanhosos ao norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos de seus personagens, do deus-rio Pneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), de Mopso e de muitos outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.


O assassinato de Dioneu acabou sendo descoberto e levou os lápitas a investigar outros crimes cometidos por seu rei, todos desvendados. Ixion foi afastado do trono e expulso do seu reino.Tornou-se um ser errante, um nômade, por todos amaldiçoado. Zeus, que do alto tudo via, compadeceu-se inexplicavelmente de seu neto, chamando-o para viver no Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por imensa hybris, ousou Ixion cometer um crime muito mais grave do que aqueles que cometera em sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor. 

ZEUS  E  HERA ( PETER - PAUL RUBENS , 1577 - 1640 )

Cientificado do fato por Hera, Zeus mandou confeccionar com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, chamando Nephele (nuvem, em grego). Ixion caiu no engodo. Unindo-se sexualmente com o simulacro da deusa, tornou-se pai de uma grande ninhada de centauros, machos e fêmeas, despachados para viver na Terra, chamados desde então de ixiônidas. Para castigar o insolente Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois o mandou para o Tártaro, o mais profundo do mundo infernal, para que, até o final dos tempos, ficasse amarrado com serpentes a uma roda incandescente ali a girar. Alguns poucos mortais que visitaram o Hades, contam que Ixion, preso à roda, grita dia e noite: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão. 

KRONOS    E   FILIRA
( PARMIGIANINO , 1503 - 1540 )
O outro grupo familiar onde encontramos centauros é o que tem por origem a relação que Kronos manteve com uma jovem e belíssima oceânida, que passou à história com o nome de Filira (nome grego da tília, árvore-símbolo da amizade). Kronos uniu-se à jovem sob a forma de esplêndido garanhão, já que ela, para fugir dele, tomara a forma de uma égua. Dessa união, nasceram vários centauros, totalmente diferentes dos ixiônidas. Gentis, pacíficos, eram amigos dos deuses e dos humanos. Dentre todos, porém, destacava-se um, inteligentíssimo, ao qual foi dado o nome de Kiron (do grego, kheir, mão), “o que trabalha com as mãos”.

Além dos dois grupos familiares mencionados acima, temos que fazer referência também a um outro centauro, pela sua participação indireta na morte de Kiron. De nome Folo, filho único de um sileno e de uma ninfa melíade, este ser, nascido como centauro, era
NINFAS   E   SÁTIRO
pacífico. Silenos participam do mito como companheiros envelhecidos do deus Dioniso, fazendo parte de seu séquito. As melíades, nascidas do sangue derramado de Urano, quando de sua castração por Kronos, são ninfas dos freixos, árvores que fornecem uma madeira especial pela qual os heróis gregos têm especial predileção para a confecção dos cabos de suas lanças. Vivendo na Arcádia,  Folo recebeu Hércules quando nosso herói para lá se dirigiu para dar cumprimento ao seu sétimo trabalho, a captura do javali de Erimanto. 

Certa vez, quando em visita à Terra, o deus Dioniso, hospedado por Folo, deu-lhe uma botija de precioso vinho, recomenando que só a abrisse quando Hércules passasse pela região. Lembrando-se da recomendação do deus, mas, ao mesmo tempo, sabendo que se abrisse a botija os centauros ixiônidas que por ali viviam  invadiriam a sua gruta, relutava em fazê-lo. Precipitando-se, Hércules rompeu o lacre da botija; imediatamente, os ixiônidas, com grande algazarra, invadiram a gruta, tentando arrancá-la das mãos do nosso herói. Reagindo, Hércules matou alguns, pondo-se a perseguir outros que fugiram. Ao retornar, Hércules encontrou Folo agonizante. Ao sepultar diligentemente os centauros que nosso herói matara, uma das flechas, que eram envenenadas, acidentalmente desprendeu-se e o atingiu na perna. Hércules esperou que Folo morresse, preparando-lhe um funeral magnífico.

Pesarosa, diante dos monstruosos filhos que tivera, a jovem oceânida rejeitou-os e pediu aos deuses que a metamorfoseassem, sendo ela então transforma
POTNIA   THERON
da numa tília. Kronos, por seu lado, entregou Kiron a Ártemis e a Apolo, os deuses da Lua e do Sol, respectivamente, para que eles se encarregassem de sua educação. Como preceptora do infante Kiron, Ártemis assumiu diante dele o seu aspecto “oriental”, o de Potnia Theron, a Senhora das Feras, divindade protetora de todas as crias, filhotes e rebentos do mundo animal, protetora de tudo o que entrava na vida, mas que devia aprender que vida pede desapegos, como um passar, um fluir, um devenir constante.


ÁRTEMIS
Embora a corça seja o seu animal predileto, que está sempre ao seu lado, Ártemis nos lembra que em razão de seus imutáveis condicionamentos instintivos, a corça não “sabe passar”, não sabe adaptar-se a situações novas que tem de enfrentar. É, nesse sentido, instinto puro e, como tal, tem que ser sacrificada. Não é preciso se fazer muito esforço para perceber o quanto dessa educação pode ser aplicável aos seres humanos que não sabem construir uma personalidade autônoma nem nela integrar hábitos, atavismos e os comportamentos herdados, de modo a transformá-los  em algo seu. É por isso que a Lua, como se sabe, sob o ponto de vista aqui expresso,  encarna astrologicamente a anima, o princípio feminino, maternal, passivo, as trevas do inconsciente. Rege, por isso, os temperamentos linfáticos, digestivos, receptivos, marcados por forte instinto de conservação, sempre voltados para a calma, para vida protegida, a ser vivida dentro de fronteiras seguras.

A Ártemis de que falamos aqui nada tem a ver com aquela que os creto-micênicos veneraram como deusa da fertilidade do solo e da fecundidade humana. Esta deusa que aqui relacionamos com Kiron é chamada de Elafieia, a que massacrava corças e veados, no festival de Elafebolion, realizado anualmente em março, no qual, em alguns lugares da Grécia, se praticavam os ritos do diasparagmos (despedaçamento das vítimas ainda vivas) e da omophagia (consumo da carne e do sangue do animal sacrificado).


APOLO , KIRON , ASCLÉPIO

Quanto a Apolo, como deus da luz e da harmonia, transmitiu ele a Kiron que um ideal de sabedoria que só poderia se realizar pelo controle das pulsões, dos desejos humanos, pela via racional, e por sua progressiva orientação a caminho, sempre, de uma crescente espiritualidade. Faziam parte desse ideal apolíneo também os ensinamentos complementares referentes à ética, à mântica profética, à medicina, à leitura do céu e às artes em geral, com destaque especial para a música,  

Apolo explicou a Kiron, sob o conceito de inteligência, todo um conjunto de funções (sensação, associação, memória, imaginação, entendimento, razão e consciência) que lhe permitiram racionalmente compreender todas as relações entre os seres e as
KIRON , TAPEÇARIA  MEDIEVAL
coisas do mundo. Assim o fazendo, incutiu-lhe Apolo todo um ideal de sabedoria que, no homem, se realizaria por sua caminhada em direção de uma espiritualização progressiva pelo alargamento cada vez maior do campo da sua consciência. Um ideal de sabedoria no qual a vida instintiva e a razão, aquela devidamente iluminada por esta, se ajustariam para que ambas, cada uma no seu nível, se tornassem servidoras da vida espiritual, uma concepção ternária que o próprio Kiron emblematizava com o seu corpo híbrido e com o arco e a flecha que Apolo lhe pusera nas mãos. 

Aqueles que não sabiam “passar, que continuavam apegados às influências das suas origens, inteiramente presos à vida instintiva, não sabendo integrá-las a um eu novo que teriam que construir na sua caminhada,  Ártemis os “matava” impiedosamente. Era nesta condição que a deusa aparecia como cruel, sanguinária, bárbara, em vários cultos como o do Elaphebolion. 


APOLO   E   MUSAS

Como aconteceu também com relação à dupla personalidade de Ártemis, a personalidade apolínea que se relacionou com Kiron foi a do deus como venerada na Ática, a de uma magnífica figura, representada pelo Sol e pela luz civilizadora, sendo neste papel conhecido ele pelo nome de Apolo Musagetes (condutor das Musas), divindade tutelar de todas as artes. Não foi como uma divindade dórica, ligada à vida castrense e às aventuras colonialistas, honrado nos acampamentos militares, o violento, vingativo e temível Toxoforo (Arqueiro), que Apolo assumiu a educação de Kiron. Foi como um deus ático, ateniense, que ele transmitiu a Kiron um conhecimento que refletia um ideal de beleza e de progresso, representado pelo arco e pela flecha, por ele oferecido ao centauro, um símbolo complexo, do qual fazem parte, na perspectiva apolínea, ideais de separação e de libertação por um domínio em que se harmonizassem, uma servindo à outra, a vida instintiva, a vida racional e a vida espiritual. 

Kiron, do grego kheir, mão,  o que trabalha com as mãos, com os ensinamentos recebeidos de Ártemis e de Apolo, tornou-se um ser muito diferente dos seus congêneres ixiônidas. Sábio e prudente, amigo dos deuses e benfeitor dos humanos, era muito conhecido como médico, cirurgião, herborista e terapeuta, além de profundo conhecedor de todas as artes. Logo se tornou o tutor de um grande número de filhos de deuses e de futuros heróis. Vivendo num gruta do monte Pelion, casado com Cáriclo (a de grande beleza e renomada, etimologicente), oceânida, foi pai de três filhas, Hipe, Endeis e Ocírroe,  e de um filho, Caristo.

Passaram pela gruta de Kiron, como seus discípulos, além de  outros, os Discuros (Castor e Polideuces); Aquiles, o fremente; Hércules, cuja amizade lhe seria fatal; Jasão, o chefe da expedição dos argonautas; Ulisses, o polimetis; Meleagro; Acteon; Amphiaraos, o duplamente maldito; Diomedes. Dentre seus discípulos, merece referência especial Asclépio, filho de Apolo, que se tornaria a maior divindade médica da Grécia no grande santuário de Epidauro.


PELEU , AQUILES  E KIRON
Foi Kiron, por exemplo, quem deu sábios conselhos a Peleu para que ele cortejasse e se unisse a Tétis,para que dessa união nascesse Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. Foi Kiron quem preparou o calendário de que se serviram os argonautas para a sua viagem à Cólquida, além de orientá-los com relação à posição dos astros no céu. Consta que Kiron, com os acordes de sua lira, curava muitas doenças e que pelo conhecimento da influência dos corpos celestes prevenia os homens quanto às suas influências nefastas. Muito se poderia dizer sobre a vida de Kiron e do quanto ajudou mortais, heróis e deuses. As informações mais detalhadas que temos sobre ele estão registradas em Apolodoro (Biblioteca Mitológica) e Apolônio de Rodes (Argonáutica).

A morte de Kiron se deve a uma fatalidade, ligada diretamente à  morte do centauro Folo, acima relatada. Hércules,  ao perseguir  os brutais e selvagens centauros que fugiram da gruta de Folo, disparou uma flecha que, trespassando o coração de um deles, de nome Elato, atingiu acidentalmente Kiron na coxa. O sangue dos centauros, como se sabe, é um veneno contra o qual não havia antídotos. A flecha envenenada não matou Kiron, pois tinha em seu corpo um lado imortal, como filho de Kronos. Isto não impediu entretanto que as dores o atingissem, causando-lhe  muito sofrimento ao seu lado mortal. Diante dessa aflitiva situação, Hércules propôs um acordo a seu pai divino, Zeus: que Kiron cedesse o seu lado imortal ao titã Prometeu, condenado a padecer eternamente por ter roubado o fogo dos céus e tê-lo entregue aos humanos. 

Acorrentado nas montanhas do Cáucaso por ordem de Zeus, um abutre gigantesco destruía diariamente o fígado do titã, que se recompunha à noite quando a monstruosa ave se afastava. Zeus afirmara que só o libertaria se um imortal cedesse a sua imortalidade a ele e fosse para o Hades, o reino dos mortos. Aceita a proposta, Kiron foi liberado de seu sofrimento e pode assim morrer tranquilamente. Para homenagear o desprendimento de Kiron e para que o seu exemplo jamais fosse esquecido pela humanidade, Zeus colocou o centauro-mestre nos céus, com o arco e a flecha nas mãos, como a constelação de Sagitário, a nona do círculo zodiacal.


CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO

Desde então a constelação de Sagitário é representada pela mítica imagem do centauro, com um arco e uma flecha a ser disparada nas mãos. Muitas vezes, porém, ao invés da imagem do centauro, em algumas tradições astrológicas, já na antiguidade, a constelação era representada apenas por uma flecha, disposta de modo a formar um ângulo de 45º com a base da figura, o melhor ângulo para se atingir a máxima distância.  

quarta-feira, 30 de abril de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (6)

POSEIDON

O temperamento instável de Poseidon levava-o a entrar em disputas com várias divindades. O seu conflito com Palas Athena, no qual esteve em jogo a tutela de Atenas, ficou célebre. Despeitado, Poseidon inundou totalmente a Ática, região grega onde ficava a polis. Seu relacionamento com Hera, sua irmã e cunhada, também não era bom. Numa disputa sobre o território da Argólida, planície do litoral do Peloponeso, arbitrada pelo rio Ínaco, que teve como assistentes os rios Cefiso e Asterion, a decisão foi favorável a Hera, o que lhe trouxe sérios problemas. Muito irritado com Ínaco, Poseidon não só o amaldiçoou como secou-lhe o leito, só permitindo que ele recebesse alguma água quando do período das chuvas, o que evidentemente levou a região a enfrentar contínuos períodos de seca.


HÉLIO

Outra disputa de Poseidon aconteceu quando ele e o deus Hélio resolveram assumir a tutela de Corinto, mais exatamente do istmo que une a Grécia continental ao Peloponeso. O hecatônquiro Briareu foi escolhido como juiz e sua decisão foi além do discutido. Ele declarou que  Acrocorinto ficaria com Hélio e que a parte restante da cidade, inclusive o istmo, ficaria com Poseidon. Tal decisão está na origem do culto que no istmo passou a ser prestado ao deus dos oceanos e que tinha como principal manifestação os Jogos Ístmicos.


TEMPLO DE POSEIDON

Ainda com relação às tentativas de Poseidon conquistar espaços terrestres, não podemos deixar de mencionar as suas disputas, sem sucesso, com Zeus e com Dioniso. Quanto ao primeiro, o motivo foi a tutela da ilha Egina, que antes se chamava Enone. Egina era uma filha do deus-rio Asopo, raptada por Zeus. Sísifo, que tudo presenciara, revelou ao deus-rio o nome do raptor mediante um acordo: Asopo faria brotar em Corinto, reino de Sísifo, uma fonte, que recebeu o nome de Pirene. Zeus fulminou Asopo e levou a amante para a ilha Enone, depois, como se disse, denominada Egina. Quanto a Dioniso, a questão envolveu a ilha de Naxos, onde o deus do vinho e a princesa cretense Ariadne, abandonada por Teseu, se uniram. Quanto à região onde ficava o oráculo de Delfos, cuja posse ele dividia com Geia, Poseidon a perdeu para Apolo. No episódio da conquista, Apolo matou o dragão Ladon, filho das divindades marinhas Forcis e Ceto.

Quanto aos oceanos e mares, o domínio de Poseidon sobre eles sempre foi indiscutível. Hábil construtor, ele havia estabelecido a sua morada num enorme palácio dourado, magnífico, brilhante,
feito para durar eternamente nas profundezas do mar Egeu. Ao visitar o seu reino, Poseidon costumava dar às suas saídas um cunho espetacular; usava um carro puxado por cavalos rapidíssimos, suas criaturas, com cascos de bronze e crinas douradas; protegia seu grande peitoral com uma vistosa armadura de ouro; e estalando o seu chicote para açular os animais, sempre teatral, lançava-se com nas imensas planícies líquidas do seu reino. À sua volta, acompanhando-o e rendendo-lhe homenagem, vários monstros marinhos saídos das profundezas abissais. Os mares, sorridentes, se abriam diante da sua passagem. Muitas vezes, porém, Poseidon optava por aparições tempestuosas, agitando os mares, produzindo vagas enormes, sempre uma manifestação de suas inexplicáveis  cóleras.

Essas manifestações de Poseidon, como se pode depreender astrologicamente, representaram sempre, para os que sabem
aproximar a mitologia da astrologia, impulsos inconscientes, ilógicos, irracionais, envolvendo conceitos que não podem ser explicados de um modo lógico e racional. É por essa razão que Netuno, na astrologia, sempre nos remete a ideias do que não é concreto, do que é fluido, do que é cambiante, do que é incerto. Poseidon-Netuno sempre nos diz que nossa mente racional não está preparada para lidar com as coisas de seu reino, já que os significados que deles podemos extrair tanto podem dizer respeito só a um indivíduo em particular como se relacionar com o que é coletivo, universal.

Nós somos preparados desde o nosso nascimento para viver trocando palavras, procurando tornar as nossas mensagens perfeitamente inteligíveis. É com palavras, formuladas através de
GOYA
nosso processo mental, que damos forma às nossas experiências do mundo. A nossa mente inconsciente, todavia, invade o campo da nossa consciência com a sua matéria onírica, seus sonhos, suas fantasias, suas cores e formas, que não encontram correspondência no mundo real. Nessa invasão uma coisa parece certa: os símbolos da nossa vida inconsciente são recursos que, sem que o saibamos, o nosso instinto de sobrevivência, alimentado por sentimentos e emoções profundos, se vale para nos falar de coisas importantes. Cabe à nossa mente consciente avaliar esse produto netuniano, dando-lhe o destino adequado e procurando usar o meio mais apropriado para veiculá-lo.


Sabemos o quanto é difícil dar forma aos sonhos netunianos para
CINEMA - ARTE NETUNIANA
apresentá-los ao nosso meio físico. Isto porque Poseidon-Netuno não opera com a linearidade, com a lógica, com as técnicas que o nosso mundo aprecia cada vez mais. Entender os significados essenciais de Poseidon-Netuno será certamente o primeiro passo para procurar entende-lo, por mais extravagantes que possam ser as formulações que ele nos trouxer.  



ANFITRITE E POSEIDON

Anfitrite, etimologicamente, “a que circunda”, era a personificação feminina dos oceanos e mares. Uns a dão como filha de Nereu e outros, como filha de Oceano. Poseidon a notou quando ela, em companhia das suas irmãs, estava perto das praias da ilha de Naxos. Poseidon se aproximou, propondo-lhe casamento. Anfitrite fugiu, indo se refugiar perto do titã Atlas. Poseidon, perdendo-a de vista, mandou que os delfins a procurassem. Encontrando-a, eles conseguiram trazê-la, entregando-a ao seu mestre.

Por esta missão tão fielmente cumprida, Poseidon resolveu homenagear  os  delfins, dando o nome deles   a   uma   constelação
situada numa zona do céu chamada de A Água, nas proximidades da constelação da Águia. A constelação do Delfim é boreal e estende-se de 8º a 18º de Aquário. Sua estrela alfa chama-se Sualocin, encontrando-se hoje a l6º41´ de Aquário. Não suficientemente estudada, esta estrela, embora não muito “poderosa”, parece conferir um certo talento ou domínio da ação nos assuntos do quadrante em que se encontra. Se estiver em aspecto com algum planeta ou, principalmente, na cúspide de uma das casas angulares, pode proporcionar mente ativa, curiosa, dando um reforço às características do planeta ou aos assuntos da casa. Sua melhor expressão é encontrada quando em aspecto com Mercúrio.

O delfim é um mamífero marinho muito inteligente, tendo, sobretudo por essa característica, chamado a atenção dos povos mediterrâneos. Há inúmeras lendas sobre ele. Uma delas, muito divulgada, foi a de que teria salvo o aedo Arion num naufrágio, levando-o à praia. Arion foi um poeta lírico e músico grego do séc. VII aC. Consta que teria sido o inventor do ditirambo. A história dele é narrada por Heródoto: quando de seu retorno a Corinto, depois de uma viagem à Sicília, foi despojado dos seus bens e jogado no mar pela tripulação da embarcação em que viajava. Mas os delfins, que conheciam a sua música e o seu canto o salvaram.

A história de Arion, o poeta e cantor, é contada por Plutarco e dela os cristãos, desde a alta Idade Média, extraíram uma interpretação que, parece-me, tem tudo a ver com o sentido soteriológico do Netuno astrológico. Graças à intervenção dos delfins, Arion passa de um mundo violento, agressivo e cheio de males, à salvação. Nada a estranhar que Jesus Cristo tenha sido, por isso, representado inúmeras vezes pelo delfim.

Na arte etrusca, o delfim é bastante encontrado como psicopompo. Ele  aparece  conduzindo  as  almas  dos  mortos  para  a  Ilha  dos
Afortunados. Na heráldica, o delfim pode ser visto no desenho das armas do Delfinado. Sua figura era notada nas armaduras dos herdeiros do trono da França, chamados então de delfins. A expressão ad usum delphini, impressa nos livros destinados ao uso dos herdeiros do trono francês, significava que se tratava de obras “puras como a juventude”, expurgadas de todo o mal e imoralidade.


Segundo o mito, o delfim era também um atributo de Apolo. Consta que o deus, na forma de um delfim, conduziu os habitantes de Creta que foram a Delfos construir um templo em sua homenagem. Desde
ORÁCULO DE DELFOS
então o deus é conhecido pelo nome de Apolo Delphinius, utilizando-se os habitantes de Creta do peixe como símbolo do deus. O nome Delfos, como se sabe, vem do nome do peixe, associando-se a essa etimologia o nome delphys, vagina útero, pelo fato de as pitonisas do deus proferirem as suas sentenças oraculares num antro escuro parecido com o órgão feminino. Quem deu o nome ao local, depois uma cidade da Fócida, foi um herói chamado Delfos, que passava por filho do deus Poseidon. Unindo-se a Melanto, uma filha de Deucalião, o Noé grego, Delfos foi pai de Pites, que governou o local, sendo Pito, em sua homenagem, também um dos nomes da cidade .


O cavalo e o delfim, como símbolos de Poseidon, aparecem associados pelos cretenses nos hipódromos da ilha, representando o
peixe simbolicamente o número de voltas dadas em cada corrida. É de se lembrar ainda que a deusa Afrodite, por causa de seu nascimento marinho, era muito representada em companhia de delfins. Por essa razão ao peixe foram atribuídos “valores” afrodisíacos. É o delfim chamado no Brasil de golfinho ou boto, derivando-se este último nome de buttis, em latim, odre de vinho, devido à sua forma.

O séquito do casal Poseidon-Anfitrite é formado por todas as entidades marinhas, Proteu, Nereu, ninfas, oceânidas, nereidas, tritões, delfins, hipocampos. Desde que Anfitrite partilhou com Poseidon o reino dos oceanos e dos mares, podemos vê-la em muitas representações ao lado do marido, embora sua autoridade tenha sido considerada sempre como muito limitada. Seu culto era  inexpressivo; o mesmo se poderá dizer das suas representações na antiga arte greco-romana. A antiguidade da deusa é apontada no hino homérico a Apolo no qual se relata que, quando do nascimento do deus, estavam presentes várias divindades, inclusive Anfitrite.

Da união dela com Poseidon nasceu um filho, Tritão, e duas filhas, Rodo e Benthesicymé. Tritão é nome que lembra em grego fluir, escorrer, corrente, sendo considerado como uma divindade que tem
TRITÃO
uma importância menor em relação aos oceanos e mares. Humano da cintura para cima e peixe da cintura para baixo, Tritão vive soprando uma trompa feita de conchas marinhas, aterrorizando os navegantes. No fundo, porém, ele aparece mais como “o filho de um pai importante”, afirmação que me permito fazer diante das suas “travessuras” conforme algumas histórias de sua crônica. Tritão parece ter “aprontado” muito mais do que foi conservado dele, razão pela qual, em relatos tardios, lhe tivesse sido atribuída unicamente a tutela do lago Tritonis, na Líbia (uma espécie de confinamento). O principal motivo para este “rebaixamento” foi, ao que parece, duas de suas aventuras. Ele se engraçou com Palas, a amada companheira de divertimentos da deusa Athena, e com a lindíssima Triteia, que passa por sua filha, um dos amores do deus Ares.


No mito dos Argonautas, Tritão aparece sob a forma de Eurípilo, também filho de Poseidon, que reinou em Cirene, na Líbia. Quando os companheiros de Jasão chegaram a um lago (futuro Tritonis), ele ofereceu a Eufemo hospitalidade e lhes deu um talismã que lhes permitiu encontrar o caminho para o Mediterrâneo. Eufemo, lembre-se, era também filho de Poseidon e um dos Argonautas. Sua mãe era Europa, filha do gigante Títio. Eufemo, o de bons presságios, tinha o dom de caminhar sobre as águas. No episódio das Simplégades, foi ele quem soltou as pombas.


DIONISO

O comportamento de Tritão trouxe-lhe problemas com o deus Dioniso. Numa festa em honra ao deus, na Beócia, o filho de Poseidon tentou atacar sexualmente as mênades, as sacerdotisas do deus, que por elas foi chamado aos gritos. Intervindo, Dioniso, pôs Tritão para correr. Outra aventura: Tritão, certa vez, levou uns pastores ao desespero quando começou a roubar os animais que pascentavam. Os pastores conseguiram então embriagá-lo e, segundo uma versão dionisíaca, o mataram, o que pode ser considerado como uma possível superação do culto de Tritão   pelo de Dioniso no norte da África.


RODES

Rodo ou Rode (rodhon, rosa, em grego), filha de Poseidon e de Anfitrite, uniu-se ao deus Hélio. É do seu nome que vem Rodes, a chamada ilha das rosas. A outra filha, Benthesicyme (benthos, profundezas, e kyma, ondas, ou seja, a deusa das ondas que vêm das profundezas) era mulher de Enalos (o do mar), uma divindade marinha da Líbia.

Complacente demais, Anfitrite suportou as inúmeras infidelidades de Poseidon. Ao que parece, numa única vez ela teria manifestado seu ciúme, quando Poseidon teve uma aventura com Cila, primitivamente uma divindade marinha de rara beleza, filha de Forcis. Poseidon teria se apaixonado por ela; consta que Anfitrite pediu a Circe, a maga, que a transformasse numa figura monstruosa e devoradora. Circe deu a Anfitrite umas ervas mágicas que, lançadas às águas onde a jovem se encontrava, a teriam transformado em monstro.


HÉRCULES E ANTEU

Dentre os principais amores de Poseidon, cumpre destacar Geia, nascendo dessa união o temível Anteu, etimologicamente, aquele que se opõe, o hostil. Enorme, fortíssimo, desequilibrado como todos os filhos de Poseidon, Anteu matava os que se aventuravam pelos desertos líbios. Hércules, quando do seu terceiro trabalho, o enfrentou e venceu quando percebeu que, retirando-o do chão, sua energia declinava. Assim o fez, conseguindo estrangulá-lo.


HÉRCULES E GERIÃO

Foi sob a forma de um cavalo que Poseidon se uniu à Medusa, num templo da deusa Palas Athena. Foi por causa desta profanação que os cabelos da Medusa foram transformados em serpentes. Quando Perseu decepou a cabeça da Górgona, do sangue que escapou do corte nasceram o gigante Crisaor e o cavalo-alado Pégaso. O primeiro, desde o nascimento, carregava uma espada de ouro, significado de seu nome. Unido a Calírroe, uma oceânida, Crisaor foi pai de Gerião, gigante de três cabeças, e de Équidna, mulher de Tifon, o maior dos monstros, vencido por Zeus.

Quanto a Pégaso, sua história começa quando, tão logo nascido, e depois de ter prestado relevantes serviços a Perseu, ele voou para o Olimpo, colocando-se a serviço de Zeus. Foi enviado para auxiliar Belerofonte, permitindo-lhe realizar duas importantes façanhas: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Morrendo o herói, vitimado pela sua própria hybris (tentou escalar o Olimpo), Pégaso, mais uma vez, voltou à montanha divina.

Pégaso (etimologicamente, fonte), quando de suas andanças terrestres, por ordem de Poseidon, atingiu violentamente o monte
FONTE DE HIPOCRENE
Helicon com um coice, a fim de que ele deixasse de se envaidecer tanto por ter sediado uma disputa entre as Musas e as Piérides. No lugar do coice, brotou imediatamente uma fonte, a que deram o nome de Hipocrene, a Fonte do Cavalo, desde logo famosa porque suas águas, uma vez consumidas, ativavam a imaginação criadora dos poetas e músicos. Por essa razão também, o Pégaso foi considerado um símbolo da fecundidade e da elevação.


Pégaso é um dos grandes símbolos da inspiração poética e, como tal, pertence ao mundo da água. A água, em todas as tradições, sempre foi considerada como o ponto de partida de todas as formas, revelando-se como um infinito de possibilidades, como proposta de desenvolvimento. É ela, nos mitos e religiões, fonte de vida associada no ser humano ao seu psiquismo inconsciente, que precisa ser controlado, levando-o a assumir o papel de herói, cavaleiro. É a isto que se dá o nome de espiritualização do combate, que significa tanto o envolvimento em causas superiores (Júpiter, como regente de Sagitário e Peixes), de natureza transcendente, como a escolha de meios adequados e da necessária técnica para o domínio dos “cavalos” interiores, que tentam sempre escapar do controle a eles imposto (vide o primeiro trabalho de Hércules: a captura das éguas de Diomedes).


PEGASUS NO CÉU


Simbolicamente, aliam-se nele a velocidade, a vitalidade, o impulso ascendente e a independência dos pássaros. O seu poder de superar as forças que prendem à terra é que permite considerá-lo como o grande símbolo da inspiração superior de todos os artistas. Todavia, para montá-lo, é preciso perícia, qualidades de mente e de corpo e, acima de tudo, longa preparação espiritual para que sejam atingidos os elevados planos da criação artística. Quem o montar sem a devida preparação será imediatamente lançado ao chão e escoiceado por ele até a morte.  

Os antigos deram o nome de Pegasus a um grupo de estrelas situado perto da constelação de Andrômeda, emergindo do pescoço da princesa libertada por Perseu. Alguns astrônomos da antiguidade, entretanto, têm a opinião que essa constelação, antes de ser uma homenagem ao filho de Poseidon é um reconhecimento aos serviços prestados por esse animal que se colocou, na história da humanidade, num nível superior ao da espécie bovina (passagem da era de Touro para a era de Áries). Não se esqueça que os bovídeos selvagens, antes, e, depois, os cavalos foram os animais mais frequentemente reproduzidos nas pinturas rupestres da época glacial.

A domesticação do cavalo, como se sabe, só apareceu bem mais tarde do período em que o touro, o bisonte e outros animais semelhantes representaram o poder feminino, ligado à adoração das Grandes-Mães. Essa domesticação ocorreu antes no leste europeu e nos países da Ásia central. O valor do cavalo, inicialmente, era funéreo, associado ele ao reino dos mortos aos quais ele era sacrificado, desempenhando uma função de psicopompo (guia das almas).

Esta significação do cavalo como animal psicopompo, que permaneceu viva até hoje em muitos cultos pré-históricos remanescentes, pode ser notada em algumas práticas xamânicas do norte-nordeste asiático e vuduístas africanas. Os xamãs (o que sobrou deles) utilizam tambores revestidos com pele de cavalos para “penetrar” no mundo dos espíritos, montados num cajado, tornando-se possuídos pelas forças do Outro-Lado.

O cavalo, como símbolo do Outro-Lado, é encontrado, por exemplo, em expressões como “cavalo de São Miguel”, dos antigos
SÃO MIGUEL
franceses, para designar a padiola que transportava os defuntos. Lembremos que Miguel, entre os judeus, é arcanjo cavaleiro da mais alta hierarquia, chamado pelo nome de Príncipe da Água e Anjo de Prata. Miguel é Príncipe de Israel e atua como advogado do povo judeu diante de Deus.


Pegasus forma um quadrado no céu e se estende de 27º de Aquário a 10º de Áries. Os gregos o ligavam também à “hybris” de Belerofonte, considerando as suas influências perigosas, predispondo a julgamentos errados, vaidade, orgulho, caprichos, negativamente, e a intuição e entusiasmo, positivamente. A estrela mais brilhante de Pegasus é Markab, hoje a 22º 47´ de Peixes. Esta estrela dá aos que a possuem em evidência, por posição ou aspecto, a capacidade de manter o controle e a estabilidade do curso indicado pelo planeta com o qual se faz o aspecto. Ela lembra a necessidade de se diminuir o ímpeto, a hybris, no caso. Outra estrela relativamente importante de Pegasus é Scheat, hoje a 28º 41’ de Peixes, de natureza júpiter-mercuriana (hoje netuno-mercuriana), pois suas influências dizem respeito não só à valorização intelectual como à possibilidade de se escapar do pensamento lógico. Esta estrela compreende dois aspectos importantes do mito de Pegasus: inspiração criativa, diminuição dos modelos e formas racionais, e obtenção de meios técnicos (tekhné, educação) para se chegar à construção artística superior.

Poseidon teve relações com Alcyone, uma das Plêiades, tendo com ela os filhos Híperes, Antas e Hirieu. Observação importante para astrólogos, considerando-se que Netuno se exalta em Leão: Apolo e Poseidon tiveram muitos “casos” com as mesmas parceiras. As Plêiades, como se sabe, têm relação com o verbo navegar (plein, em grego), uma vez que, surgindo como estrelas nos céus, para onde foram levadas afim de fugir da sanha erótica do gigante Orion, indicam o período favorável para a navegação (fins de abril a novembro).


PLÊIADES

Alcyone se encontra hoje a 29º 18´ de Touro. Como faz parte de um cluster, sempre foi considerada através dele e, como tal, ligada a sua influência a problemas de visão. Estes problemas, desde a antiguidade, segundo astrólogos que estudaram a estrela, a relacionam com a visão interior, desejo de aprofundar o conhecimento da interioridade, achando alguns, mesmo, que ela teria ligação com o chamado “terceiro olho”.  Sigmund Freud, por exemplo, tinha as Plêiades (Alcyone, em especial) culminando, juntamente com Mercúrio.

Ligada a um planeta, Alcyone pede cuidado na sua avaliação, pois pode nos tornar “cegos” para o óbvio, causando confusão entre o que real e imaginário. Se, por um lado, ela oferece a possibilidade de insights profundos, pode ocasionar também julgamentos confusos quando se tratar de materia mystica.

Dos filhos que Poseidon teve com Alcyone, destaque apenas para Hirieu, que reinou na Beócia, e por ação divina se tornou pai do gigante Orion. A história de Hirieu é a seguinte: velho lavrador,
CONSTELAÇÃO DE ORION
pobre, hospedou com a mulher em sua pobre choupana Zeus, Poseidon e Hermes sem o saber, disfarçados, então em visita à Terra. Revelando-se os deuses, o velho Hirieu lhes pediu a graça de ter um filho, mais tarde o gigante Orion. Com a Harpia Celeno, Poseidon teve dois filhos: Lycos, que reinou na Ilha dos Afortunados, e Euripilo, que se destacou no cerco de Troia e tomou parte na expedição dos Argonautas. Um outro Euripilo, que reinou na ilha de Cós e foi morto por Hércules, nasceu , além do argonauta Anceu, de Poseidon e de Astypale, irmã de Europa.


Quione, filha do deus Bóreas, seduzida por Poseidon, teve dele o filho Eumolpo. Para não deixar que ninguém soubesse, ela lançou o filho ao mar; Poseidon, entretanto, o salvou, levando-o para a Etiópia, confiando-o sua filha Benthesicyne, acima mencionada, da qual Eumolpo se tornou genro mais tarde.

Uma das mais famosas relações de Poseidon, peculiaríssima, foi com Etra (etimologicamente, céu limpo, luminoso), filha de Piteu, rei de Trezana. Etra se casou com Egeu, rei de Atenas; este, embriagado por Piteu que o hospedava, foi introduzido no leito da filha. A jovem princesa, entretanto, no dia anterior tinha tido um sonho no qual a deusa Palas Athena lhe aparecera e ordenara que ela se dirigisse a uma ilha próxima do reino do pai. Sempre em sonho ela foi ao local indicado e lá lhe apareceu o deus Poseidon, que a engravidou.

Etra ficou grávida de Teseu, futuro rei de Atenas. Egeu sempre acreditou que a criança que nascera era produto da sua noite de amor com a jovem, quando embriagado dormiu com ela. O que se sabe é que Teseu permaneceu em Trezena, sob os cuidados de Etra e de Piteu, pois Egeu temia pela sorte da criança, devido às constantes crises políticas que ocorriam em Atenas. Só mais tarde, Teseu, como um jovem herói, chegou incógnito ao reino de Egeu, que a essa altura vivia com a maga Medeia.


JASÃO E O VELOCINO

Por causa de sua grande beleza, Teophane era procurada por inúmeros pretendentes. Para afastá-la dos que a cercavam, Poseidon transportou a jovem para uma ilha e lá se uniu a ela. Os pretendentes, todavia, para lá se dirigiram. O deus a transformou numa ovelha e para amá-la tranquilamente assumiu a forma de um carneiro. Fecundada pelo deus, a jovem tornou-se mãe do carneiro que transportou os jovens Frixo e Hele para a Cólquida e que mais tarde centralizaria o mito dos argonautas; sua pele daria origem ao famoso velocino de ouro.

Não será difícil entender que a história acima tem origem astrológica, ilustrando para muitos a busca de sabedoria, da espiritualidade, porque tem todos os ingredientes que lhe são comuns: viagem difícil, heróis, tesouro, dragão etc. Todavia, ao invés do velocino de ouro simbolizar um tesouro espiritual, tenho para mim que esse mito representa muito mais o imperialismo grego e a sua grande vocação colonizadora, eis que, como se sabe, a Cólquida, para onde voou o carneiro divino, era uma região riquíssima em minas de ouro.


TESEU E CERCION

Álope era filha de um bandido que assumira o trono de Elêusis. Notada por Poseidon, o deus a engravida sem que o pai o saiba. Nascida a criança, ela é exposta, como costume na época. Aleitada por uma égua, um dos animais-símbolo do deus, foi encontrada por pastores e, por causa do seu rico enxoval, acabou sendo levada a Cercion, pai da jovem. A égua que aleitava a criança conseguiu se aproximar do palácio real e, percebida a história pelo avô do menino, esta continuou a aleitá-lo. Por isso, o menino passou a ser chamado de Hipotoon, o rápido como um cavalo. Mais tarde, Teseu mataria Cercion e entregaria o reino ao jovem.

Por ter pilhado um bosque consagrado a Deméter, Erisicton (etimologicamente, o que salva a sua terra), rei da Tessália, foi punido, passando a experimentar uma fome insaciável. A fim de mitigá-la e com o intuito de obter mais dinheiro para comprar alimentos, pôs, além de muitos bens, a sua filha Mestra (matriz, útero, etimologicamente) à venda. Poseidon que nutria grande interesse pela jovem, deu-lhe o dom da metamorfose para que, transformando-se, pudesse escapar dos seus possíveis compradores. Isto é, vendida, ela se metamorfoseava e escapava deles. Mas quem se aproveitou do dom foi o pai da moça que a vendeu várias vezes. Um dia, porém, tudo foi descoberto. Não restou outra alternativa a Erisicton senão a de se devorar a si mesmo.

Dentre outros casos amorosos de Poseidon, podemos mencionar o que teve com Amimone, filha de Danao, que saíra à procura de água, devido a uma grande seca que assolava a Argólida, provocada
pelo próprio deus. Pondo em fuga um sátiro que perseguia a bela jovem, Poseidon obteve dela muitos favores amorosos. Para recompensá-la, o deus, com um golpe de tridente, fez brotar dos rochedos próximos uma fonte que recebeu o nome de Lerna. Amimone, como fruto das relações mantidas com Poseidon, teve um filho, chamado Nauplios, que deu nome à cidade de Nauplia. Essa fonte deu origem ao pântano de onde sairia a monstruosa Hidra, que Hércules enfrentaria no seu oitavo trabalho. Foi aí, lembre-se, que as cinquenta filhas de Danao jogaram as cabeças de seus maridos.  


PIRENE

A origem de uma outra fonte que se encontra em Corinto, chamada Pirene, também é atribuída a Poseidon. O deus tinha tido de Pirene, filha do deus-rio Aqueloo, dois filhos que haviam morrido miseravelmente. A mãe, inconsolável, não parava de chorar. Poseidon fez com que as lágrimas de Pirene se transformassem na mencionada fonte.

Como podemos perceber, Poseidon é, dentre outras coisas, um deus criador de fontes, cuja simbologia se liga à água em movimento, ao seu jorro, razão pela qual elas, as fontes, têm relação com um perpétuo devenir, que pode, conforme o caso, favorecer a inspiração, a criatividade, a longevidade, a purificação, a regeneração e o saber. Além do mais, as fontes, por sua origem e ligação com a água, lembram também a simbologia do matricial, do vital. Enquanto a água aparece como a essência do poder passivo ou feminino, a água jorrante analogicamente se associa à seiva, ao seminal, ao sangue, ao líquido vital, ao vinho dionisíaco. Como tal, a água jorrante lembra a compaixão ativa e  se opõe ao subconsciente, à água gelada, às águas paradas, estagnantes, à morte da alma.  

Um capítulo importante na crônica de Poseidon é a sua descendência. Dentre os mais importantes, destacamos o já mencionado Eufemo. Repetindo e definindo melhor algumas informações sobre ele prestadas, esclareço que era filho de Europa, filha de Titio, este gigantesco filho de Zeus, de quem Hera se serviu para perseguir a infeliz Leto, mãe dos Luminares. Foi fulminado por Zeus e até hoje está no Tártaro. Seu fígado, que sempre renasce, como o de Prometeu, é destruído diariamente por duas águias. Eufemo recebeu do pai, como se disse, o dom de andar sobre a superfície das águas. O deus Tritão lhe deu um torrão de terra mágica que, lançado por ele ao mar, deu origem à ilha de Tera.

Halirrótio (o estrepitoso, o barulhento), filho de Poseidon com uma ninfa, tentou violentar Alcipe, filha do deus Ares, que o matou. Levado a um tribunal divino por Poseidon, Ares, para espanto de todos, se defendeu tão bem que foi absolvido por unanimidade. O local onde se realizou o julgamento, uma colina de Atenas, recebeu, desde então, o nome de Areópago, colina de Ares.


AREÓPAGO

Famosos eram os Alóadas, filhos de Poseidon e de Ifimedia. Esta, embora casada com Aloeus, perdeu-se de amores pelo seu sogro. Os gigantes chamavam-se Oto (mocho, ave noturna) e Elfiates (íncubo, pesadelo). Ifimedia demonstrava seu grande amor pelo sogro indo diariamente banhar-se no oceano. Sensibilizado por essa demonstração de amor, Poseidon se uniu a ela. Os gêmeos eram tão imensos e fortes que ousaram emular-se com os deuses, tentando conquistar Hera, o segundo, e Ártemis, o primeiro, além de constantes ameaças que faziam no sentido de assaltar o Olimpo. Zeus, cansado de tanta insolência, os fulminou.


POLICEMO

Além destes e de muitos outros não podemos esquecer de Polifemo, o cíclope, gigante que Ulisses enfrentou e cegou, quando de sua passagem por região próxima de Nápoles, como está na Odisseia, de Homero. Por essa façanha, o rei de Ítaca foi perseguido por Poseidon, que quase chegou a matá-lo.

O que devemos reter quando nos aproximamos da descendência de Poseidon é que toda ela é monstruosa, disforme, destrambelhada, imensa. Não havia regras ou limites para ela, eram todos antissociais, infensos a qualquer forma de convívio social. Talvez possamos considerá-los como uma ilustração da impressão de terror que causavam aos primeiros seres humanos do Egeu as cóleras dos mares tempestuosos. A única exceção, quanto ao que aqui se coloca, talvez tivesse sido Teseu. Mesmo assim, porém, o rei de Atenas era uma figura que estava longe de se enquadrar em padrões de normalidade.

Ainda mais: Poseidon foi formidável gerador de monstros que ele enviava para destruir os seus inimigos ou punir aqueles que se
MURALHA DE TROIA
excediam de algum modo. Lembre-se, por exemplo, neste particular, do monstro que ele enviou para destruir Troia quando, terminada a construção da muralha da cidade, na qual ele e Apolo haviam trabalhado, o rei Laomedonte recusou-se a lhes pagar o salário combinado.


 Foi Poseidon também quem enviou um pavoroso monstro marinho para dizimar a Etiópia, a fim de punir a hybris descomunal de sua rainha, Cassiopeia, mãe de Andrômeda, que se julgava mais bela que a deusa Hera. Foi também Poseidon quem enviou o dragão que causou a morte de Hipólito, filho de Teseu. Poseidon tinha ainda o costume de presentear com cavalos alados, como aconteceu com Xanto e Bálio, animais “inteligentes” oferecidos a Peleu.  


MORTE DE HIPÓLITO

Deus dos tremores de terra e deus do elemento líquido, Poseidon é incontestavelmente a grande divindade dos oceanos e mares em toda a sua imensidão e poder selvagem. Seu domínio estende-se, como se viu, não só às águas salgadas, mas também às águas doces, das quais depende a fertilidade dos campos, sendo por isso considerado como uma divindade agrária.

Ao lado de Poseidon, é de se registrar, atuavam no elemento líquido de modo independente outras divindades, não ligadas à sua
GLAUCO
linhagem, nem lhe sendo tributárias. Uma delas é Glauco, nome que lembra o azul sombrio, a cor que toma o mar quando o vento começa a soprar. Há muitas histórias sobre esse personagem. A que parece mais aceitável nos revela que ele era, na origem, um humilde pescador chamado Anthedon, que, morando em Delfos, recebera de Apolo dons divinatórios. Uma vez por ano, ele percorria o mar Egeu fazendo profecias. O dom, como nos conta o poeta Virgílio, ele o transmitiu a uma filha, Deífobe, que se transformaria na famosa Sibila de Cumes, na Itália.


Um dia, voltando da pesca, o pescador-profeta depositou os peixes que pescara, já mortos, num tufo de ervas perto de onde se sentara, junto de um rio. Espantadíssimo, viu que os peixes recuperavam a vida e se lançaram no rio, desaparecendo. Teve uma ideia: experimentou a erva e se viu transformado num tritão, tendo sido admitido, doravante, entre as outras divindades.

Glauco era uma divindade triste, todos concordavam, muito infeliz nos seus amores. A única exceção foi Syme, raptada por ele, que a homenageou, dando seu nome a uma ilha que fica entre Rodes e a península de Cnido. Quando Ariadne estava abandonada na ilha de Naxos, Glauco tentou seduzi-la, nada conseguindo, porém.


INO E MELICERTES RECEBIDOS POR DEUSES DO MAR

Glauco era muitas vezes confundido com um personagem de origem humana e que fazia parte do grupo das divindades marinhas. Seu nome era Melicertes, filho de Atamas de Ino, esta irmã de Sêmele, a  mãe de Dioniso. Odiada por Hera, por ter se encarregado de criar o menino-deus na ausência da mãe em virtude de sua morte, Hera perturbou a mente de Atamas, que matou um de seus filhos. Para evitar que o mesmo acontecesse com o outro filho, Melicertes, Ino se lançou com ele no mar, sendo acolhida pelas nereidas. Ino começou a ser chamada então de Leucoteia, tornando-se uma divindade protetora dos navegadores (Ulisses) e Melicertes se transformou num garboso delfim.