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quinta-feira, 20 de abril de 2017

CÂNCER (3)

 
SIGNO  DE  CÂNCER , CATEDRAL  DE  CANTUÁRIA , INGLATERRA
                                      

Associadas ao signo de Câncer, algumas importantes divindades da mitologia grega  merecem referência especial. Em primeiro lugar, é preciso destacar as Moiras, conhecidas como Fiandeiras, na medida em que eram a personificação do destino individual, do "pedaço" de vida que cabia a cada ser humano que entrava na existência. A palavra moira quer dizer, lote, quinhão, parte, um quantum de felicidade ou de desventuras, representado por um fio que Cloto (etimologicamente, fiar) ia tecendo até que Láquesis (etimologicamente, sortear), por insondáveis razões, determinasse
THANATOS
que a ação de Cloto fosse interrompida, cabendo então a Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás), o corte do fio. Sempre presente nesse momento estava o deus Thanatos. O nome desse deus lembra dissipação, extinção, tornar-se sombra. Podia Thanatos aparecer no momento em que Átropos cortava o fio de vida diversas formas.  A mais comum era como uma nuvem escura, uma bruma que envolvia a cabeça e perturbava totalmente a visão do moribundo. Muitos o consideram um inimigo do gênero humano. É importante observar que o signo de Câncer tem analogia com os assuntos da casa IV dos mapas astrais, onde tradicionalmente os astrólogos, desde a antiguidade, colhem, dentre outras, informações  sobre a infância e a velhice, sobre o começo (graus iniciais) e o fim (graus finais) da existência.



AS   FIANDEIRAS ( 1657 , DIEGO  VELÁSQUES )

Além das Moiras, participam miticamente do contexto canceriano três divindades que representam a Lua. A mais antiga é Selene, a Lua considerada fisicamente. O nome sugere, em grego, ideias de
SELENE
brilho, clarão.  Em antigos textos Selene é também chamada de Mene. Tal nome era aplicado a ela quando, nos céus, percorria uma constelação zodiacal. O tempo que levava para essa travessia deu origem à palavra mensis, mês, para os latinos. Selene é a luz noturna, ligada a referências maléficas, perigosas. Os antigos gregos tinham o verbo seleniadzein para designar todos aqueles que Selene feria, tornando-os perturbados mentalmente, encantados, lunáticos, epilépticos ou mesmo feiticeiros e videntes. O radical indo-europeu que está embutido na palavra mene é me, que traduz uma ideia de medida. A Lua, nesse sentido, foi o astro que, com as suas fases, ensinou o homem a medir o tempo. Desse radical provêm palavras como mês, medida, imenso, mesura, menstruação, catamênio, metro etc. 



SELENE  EM  SEU  CARRO
  
Era Selene filha de Hiperíon (o que contempla do alto) e de Teia (a divina), da raça dos titãs, filhos de Urano e de Geia. Belíssima, percorria os céus à noite num carro de prata. Simbolizava a
SELENE   E   ENDIMION
( 1770 , UBALDO  GANDOLFINI )
fertilidade. Era famosa por seus inúmeros amores. De Zeus teve uma filha, Pandia, a totalmente divina. Foi amante do deus Pã. Seu grande amor parece ter sido o jovem Endimion, pastor do Peloponeso, formosíssimo, a quem Zeus, a seu pedido, deu o sono eterno, o maior desejo do jovem, para que assim pudesse preservar a sua juventude. Belo, tranquilo, adormecido na encosta de um monte, Endimion recebia as visitas noturnas de Selene. Consta que Hipnos, o deus do sono, também apaixonado pelo jovem, deu-lhe o dom de dormir de olhos abertos para que quando o visitasse pudesse olhá-lo nos olhos. 

O culto de Selene espalhou-se por todos os povos da Antiguidade. As bruxas da Tessália, por exemplo, gabavam-se de, pela sua feitiçaria, terem-na livrado do dragão que a queria devorar
BAKUNAWA

(eclipses) ou mesmo fazê-la descer à Terra. 

O tema de dragões atacando a Lua é  muito comum em várias tradições míticas, como na Índia. Ao lado, à direita, na mitologia filipina,  a imagem do dragão Bakunawa  devorando a Lua. A segunda-feira era consagrada à Lua, (Lunes dias, lundi, lunedi), relacionando-se todo o seu simbolismo com o do Sol. Os dois traços distintivos mais característicos da Lua são a privação de luz própria e as suas diferentes fases, a sua contínua mudança de forma. Daí porque representa a Lua o princípio feminino, a periodicidade, a renovação, sempre lembrando transformações, crescimento, desaparecimento e renascimento. É, por isso, usada para representar o tempo circularmente, o tempo que passa medido em fases sucessivas e regulares, lembrando sempre um eterno retorno.

ÁRTEMIS   E   APOLO
A segunda divindade do complexo lunar é Ártemis. Esse nome está relacionado tanto com artos (urso) quanto com artamos (sanguinária) ou artemes (são e salvo). Ártemis é a protetora, por excelência. Nasceu antes do irmão gêmeo, Apolo, o Sol, ajudando a mãe, Leto, no parto dele. Horrorizada com os sofrimento maternos quando do parto do irmão, obteve de seu pai Zeus o privilégio da virgindade. 


LETO  E  SEUS  FILHOS
Leto é filha do titã Ceos e de sua irmã Febe. Tinha Leto por irmãs Astreia (nome dado à constelação da Virgem na Idade de Ouro) e Ortígia. Grávida de Zeus, sentindo a hora do parto, Leto percorreu o mundo inteiro à procura de um lugar para dar a luz aos gêmeos. Hera, enciumada, proibira a Terra de acolher Leto. A ilha flutuante e estéril chamada Ortígia, por não estar fixada em lugar algum, a recebeu. Agradecido, Apolo a fixará mais tarde como centro do mundo, mudando-lhe o nome para Delos, a brilhante, a luminosa. Foi em Delos, abraçada a uma palmeira, que Leto deu a luz aos gêmeos. Hera, ainda assim, tentou impedir o nascimento deles, enviando sua filha Ilícia, a deusa dos partos, para “fechar o caminho” dos nascituros. Demovida de sua intenção por Palas Athena, Hera acabou consentindo no nascimento de Ártemis e de Apolo. Para escapar das perseguições da esposa de Zeus, Leto se transformou numa loba, o que explica um dos apelidos de Apolo, o Licógenes, o nascido da loba.

ÁRTEMIS
Ártemis é representada por uma jovem com vestes curtas, pregueadas, joelhos descobertos, à maneira espartana. Carrega, como o irmão, o arco e as flechas. Rebelde, não aceita Afrodite. Dentre as suas vítimas destacamos o gigante Oríon, o imprudente caçador Acteon, Oto, um dos Alóadas, a ninfa Calisto. Puniu Agamemnon, protegeu Hipólito, filho de Teseu. Seu cortejo era, como o de Dioniso, acompanhado por ninfas muito buliçosas e alegres, das quais exigia castidade absoluta. Percorria sempre os bosques e as florestas, com cães muito excitados. Era conhecida como  a Senhora das Feras, o que lhe deu um caráter de grande deusa oriental, muito ligada, por isso, à vida animal e vegetal. Suas festas se celebravam em Atenas no mês Elafebólion (março). Seu animal predileto era a corça, mas a ela se ligavam também todos os animais que se agitam demais, inquietos. Nas suas festas mais antigas era comum o ritual do diasparagmos, o despedaçamento das vítimas.


CORTEJO   DE   ÁRTEMIS  ( ELIHU  VEDDER , 1836 - 1923 )

Ártemis tem dois aspectos: o asiático, seu lado mais cruel, mais sanguinário (sacrifício de animais vivos, consumo da carne de animais) e o cretense, ocidental, ligado à fertilidade do solo, à fecundidade humana. É neste sentido que a deusa é protetora de tudo o que entra na vida (crias, ervas novas, brotos, rebentos etc.), das nascentes, dos córregos, dos riachos, de tudo o que aparece e que tem de fluir. 


FASES   DA   LUA
A deusa estava neste sentido intimamente ligada a Selene e a Hécate, as três expressões de um mesmo arquétipo. A primeira, como vimos, é personificação do astro lunar, cujo culto a filha de Leto suplantou, enquanto Apolo suplantava Hélios. O que se destaca neste relacionamento é o caráter da Lua como o astro das variações periódicas (O Sol não muda, não tem fases). Neste sentido, a Lua deu ao homem a primeira noção de morte ao desaparecer (Lua nova). Daí a Lua ser vista como símbolo do que passa e retorna. 


Outro aspecto é que a Lua representa sempre uma forma de conhecimento indireto, isto é, ela é um reflexo do Sol. Um dos melhores exemplos do que aqui exponho é o famoso mito da caverna, narrado por Platão. A Lua é passiva, receptiva, fecunda; representa a noite, a umidade, o psiquismo, a imaginação, o sonho, a fantasia, o transitório, o influenciável. Ela representa também aquilo que herdamos, os nossos atavismos, as forças que em nós atuam regressivamente; ela fala do passado, de memórias, da nossa alma onde domina a vida infantil, pré-egoica, vegetativa, modelo de uma sensibilidade profunda. 

A Antropologia chama de participação mística esse traço de comportamento que Ártemis representa: esse envolvimento com os substratos mais profundos da nossa vida arcaica, relações com mares, campos, florestas, animais. É por essa participação que a deusa se liga às formas que entram na existência (brotos, crias, ervas novas, etc.), como protetora de tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta. 


HÉCATE
Tão antiga quanto Selene no mito é Hécate, outra representação lunar. Descendente dos titãs, o nome dessa divindade parece vir de um verbo que significa ferir, arremessar com o intuito de atingir, agredir de longe. Deusa lunar muito misteriosa tanto por suas funções quanto por seus atributos, Hesíodo a dá como descendente de Asteria e do titã Perses, o devastador. Neste sentido, Hécate é independente das divindades olímpicas, conservando-lhe Zeus, todavia, na ordem olímpica, não só os seus privilégios mas acrescentando-lhes outros. 

Tornou-se Hécate divindade muito benéfica na medida em que, devidamente honrada, passou a conceder aos mortais prosperidade material, o dom da eloquência nas assembleias, vitórias nas batalhas e nos jogos, abundância de peixes aos pescadores, podendo também aumentar os rebanhos. É invocada como dea nutrice, estendendo-se os seus poderes a tudo o que deve crescer e prosperar. Neste sentido, como Ártemis e Apolo, deve ser honrada pela juventude. 

Aos poucos, seus atributos se ampliaram, especialmente na direção da magia e dos encantamentos, assumindo uma posição importante no mundo ctônico. Ligada aos feiticeiros e aos bruxos, aparece sempre, vinda do Mundo das Sombras, com uma tocha na mão, chegando mesmo a se apresentar zoomorficamente (cadela, loba, égua). Dona de todas as formas da magia, com ela se envolveram, cultuando-a, personagens importantes desse mundo como Eetes, Circe e Medeia.


HÉCATE  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Acima, na superfície da Terra, divide Hécate com Hermes o poder sobre as encruzilhadas, lugar de aparições e de sortilégios. No mundo infernal, ctônico, tem relação não com os mortos, que são de Perséfone, mas com os espectros e fantasmas que sobem, porque não tiveram morte ritual. Hécate vem das profundezas ctônicas nas
HERMES   ITIFÁLICO
noites de Lua Nova, aparecendo nas encruzilhadas onde eram encontradas as suas representações (imagens) como a dea trivia  (as três fases visíveis da Lua). Lembremos que nesses locais também eram encontradas imagens itifálicas do deus Hermes, a indicar fecundação, fertilidade, ideias sempre ligadas às mudanças que podem ser feitas nas encruzilhadas. Assim, Hécate é a deusa dos terrores noturnos, dos monstros apavorantes, que se mostram àqueles que param e permanecem nas encruzilhadas, lugar de mudança de destinos.

O tema da encruzilhada é encontrado em todas as tradições e culturas. Ela se torna uma espécie de centro do mundo, a interseção de planos, lugar que tem como matriz a cruz. São lugares habitados por gênios, feiticeiras e demônios, seres perigosos com os quais
LARES   COMPITALES
deve procurar se conciliar o peregrino, o viajante, o que se aventurou pelos caminhos à procura de um outro modo de ser. Lugar edipiano por excelência, de parada e de reflexão, de decisões heroicas ou de imobilismo, nele são também comuns os crimes, as emboscadas, as traições. Por isso, nas encruzilhadas encontramos obeliscos, hermas, pedras, pequenos altares, capelas, inscrições, oferendas etc. Os romanos, por exemplo, honravam nas encruzilhadas os Lares Compitales, as almas dos antepassados que atuavam como divindades protetoras. Lugares "religiosos" de muito movimento, os mendigos e pedintes na antiga Roma os escolhiam muito bem para aumentar a sua arrecadação.

DESPACHO
É na encruzilhada também que podemos, protegidos pelo anonimato, geralmente à noite, nos livrar de forças negativas, residuais, perigosas, com o auxílio de Hécate, de Hermes e dos seres que nela vivem. Na tradição afro-brasileira, este trabalho (despacho) é feito, para o bem ou para o mal, através de um dos orixás mais importantes do Candomblé, Exu, o chamado "homem das encruzilhadas". Na Umbanda e na Quimbanda, atua também nesta área a chamada Pombajira, guardiã das passagens, uma espécie de Exu-fêmea. 


AFRODITE   TRÍVIA
A encruzilhada é ainda entre os gregos um lugar onde Afrodite costuma aparecer, na sua forma trívia, a Afrodite dos amores passageiros, triviais, lúbricos, amores impuros, vulgares, e não como a Afrodite Urânia, a dos amores espiritualizados. Por isso, na encruzilhada, em muitas tradições, encontramos também símbolos que significam, conforme o caso, um desejo de esconjuração, de sacrifício expiatório, de exorcismo, de afastamento, enfim, das energias e presenças maléficas. Oratórios, imagens de santos, de entidades protetoras, ex-votos, flores,  círios e velas que jamais deixam de brilhar. Neste sentido, a encruzilhada pode ser também um lugar em que podemos encontrar a luz, um lugar de renascimento, onde aparecem os bons gênios e as fadas protetoras que nos auxiliarão na virada do nosso destino, inspirando-nos a tomar a decisão mais acertada.   

Em Hécate, a grande deusa lunar, sintetizam-se os três aspectos da nossa vida psíquica, o infernal, o telúrico e o celeste. Porque ela
LUA   NOVA
aparece nas noites de Lua nova, acompanhada por animais "noturnos", cadelas, lobas, éguas, que lembram fertilidade, a deusa tem a ver, consideradas estas duas ideias,  com a dimensão inconsciente de nossa existência, lugar onde se agitam monstros, fantasmas, espectros que podem subir à superfície. Cultuada e reverenciada nas encruzilhadas, Hécate indica para nós que as decisões humanas não se inscrevem só no plano horizontal, nas quatro direções dos pontos cardeais, as direções que recebemos quando entramos na vida, mas, acima de tudo, revela-nos a deusa que cabe a nós, pelas escolhas que fizermos, acrescentar às quatro direções mencionadas mais duas, que estão no plano vertical, a da subida ou a da descida. 

Ao considerarmos o signo de Câncer como matriz, lugar de nascimento, em todas as tradições as grutas e cavernas sempre a ele apareceram associadas. Encontradas em lugares sombrios e

profundos,  sejam subterrâneas, em encostas escarpadas ou encravadas em montanhas, as grutas são arquétipos matriciais. Nesse sentido, tanto fazem parte de mitos de origem como dos ritos de iniciação como lugares de renascimento. Morada dos humanos desde tempo pré-históricos, as grutas são consideradas como verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na nossa interioridade, perturbando a nossa vida consciente.

Tanto antigos lugares de culto da humanidade, ornadas de pinturas e gravuras, como, nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas  aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos, os astecas, por exemplo, relacionavam num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.



No simbolismo dos sonhos, por exemplo, um caminho a ser percorrido,  no  qual  se tenha  que  passar  por  grutas pode ser visto
como uma busca de um novo sentido para a vida. Sob o ponto de vista psicanalítico, tal percurso representa sempre uma descida às profundas camadas da vida subconsciente relacionadas com o inconsciente materno. Este percurso também poderá ser entendido, quem sabe,  como uma regressão a uma situação pré-natal, intra-uterina, um desejo de retorno à indeterminação, volta a um mundo obscuro e morno, onde não há escolhas nem decisões, onde tudo é recebido de graça.   

O mito da caverna, como sabemos, tem um papel importante na filosofia de Platão. As pessoas que vivem em cavernas, jamais ultrapassando a sua entrada, sempre receosas de ir além, não podem
conhecer o mundo. Só podem perceber dele senão sombras, conhecer apenas reflexos da realidade exterior, maior, mais vasta. Para conhecer esta realidade que está fora, além, para conhecer a verdade que a luz do Sol permite captar, é preciso sair da gruta. É por essa razão que se afirma que o conhecimento lunar, obtido só através de uma vida protegida pela gruta,  é  indireto, herdado, atávico.

PAN
Se num primeiro momento a gruta é proteção, agasalho, nutrição, segurança, noutro ela poderá se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo lugar mortal. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o modo pelo qual a abordemos. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos dos quais o mito cuida que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan, palavra (radical grego) que traduz uma ideia de totalidade. Pan quer dizer o todo, tudo.

DIONISO E PAN
No mito, Pan é filho do deus Hermes e da ninfa Dríope. Consta que por ser muito feio, peludo, teriomorfo, com orelhas pontiagudas, patas como as de bode no lugar de pés, foi rejeitado pela mãe. Hermes o levou para o Olimpo. Saltitante, alegre, desde logo deu demonstrações de ter nascido com um intenso furor erótico. Deram-lhe os deuses o nome de Pan. O deus Dioniso se encantou com o jovem deus, obtendo a permissão de Hermes para, de vez em quando, integrá-lo ao seu séquito, sempre ruidoso e barulhento, com as sua mênades. 

Pan passou a viver na Arcádia, região de pastores e poetas, sendo-lhe atribuída, de comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o
PAN
conhecido ao desconhecido, lugares que levavam ao Grande Mundo, ao Todo. Pan passava os seus dias perambulando pelos campos, ser um lugar fixo, ora dormindo em grutas, banhando-se nos rios, sempre com muitos companheiros, tocando flauta (syrinx), perseguindo as ninfas e assustando os viajantes que se aventurassem pelos caminhos, pelas florestas e pelas montanhas. 

Antes, porém, uma palavra sobre o oikos. Na Idade do Bronze, antes do período arcaico da história grega, no fim do qual as cidades começara a se formar, o oikos era a unidade básica da família, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem na sua origem as palavras oikos (família)  e nomos (lei), a lei da família, a lei da casa.

PARA   ONDE   EU   VOU ?
O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento de solidão e desamparo, continuando, começou a ser considerado, não sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propalar, por um som terrível, entre o humano e o animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos. 


DIANA   E   SUAS   NINFAS   SURPREENDIDAS   PELOS   FAUNOS
( PETER  PAUL  RUBENS , 1577 - 1640

Os companheiros de Pan eram os sátiros, os centauros, os silenos, as ninfas (oréadas,  dríadas, potâmidas, creneias e muitas outras), as retraídas ninfas, mas sempre muito atraídas por eles. Da história de Pan consta que ele prestou serviços aos deuses quando da titanomaquia, que, juntamente com seu pai, salvou Zeus (seu avô), quando do ataque de Tiphon, o maior dos monstros da mitologia grega. Quando de seu périplo asiático, para divulgação de seu culto, Dioniso fez questão de levá-lo. 


TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEM , 1562 - 1638 


PAN  ( PICASSO , 1881 - 1973 )
Um dos nomes de Pan era Hylaeos, como divindade das florestas. Da Grécia seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores de rebanhos e da fertilidade), aos egipans (pans, como pequenos homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipans com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio. Em Roma, estes seres eram chamados de silvanos (protetores do verde da Natureza), conhecidos também pelo nome de paniscus. 


PRÍAPO
Muito semelhante a Pan era Príapo, um filho espúrio de Dioniso e de Afrodite, protetor das colheitas e da fecundidade em geral, dono de uma magia simpática (apotropaica) infalível. Grande divindade asiática, Príapo pontificava na cidade de Lampsaco, na Misia, nas margens do Helesponto. Tinha uma ereção desmedida, persistente. Deu nome ao priapismo, uma patologia sexual. Diferente da satiríase, também uma patologia sexual, é caracterizada por uma grande e mórbida excitação, nela não entrando nenhum desejo sexual, o que acaba levando à impotência, à esterilidade.

Todas estas divindades campestres se ligavam a Pan, presentes na fertilidade animal e vegetal. Delas, por exemplo, sai a designação sátiro que usamos para qualificar o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos. Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso. Híbridos, eram humanos, com acentuados traços que lembravam sobretudo os bodes: orelhas pontudas, pequenos chifres na testa, peludos, cascos ao invés de pés. É dos sátiros que vem o nome satiríase, caracterizada por uma super-excitação mórbida, com ejaculação constante e ininterrupta que pode levar à morte.


CORTEJO   DE   DIONISO

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), lembre-se, costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabia controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 


OS   AMORES   DOS   CENTAUROS  ( 1635 , P.P. RUBENS )

Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita. 


PÂNICO
A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, se readapte diante de situações existenciais que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações novas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão e, também, é claro, de uma Lua mal posicionada e  aspectada num mapa astrológico. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

CORVUS, CRATER






OVÍDIO
CORVUS – Esta constelação sempre apareceu associada à da Hydra e à de Crater, tudo conforme a mitologia grega e segundo encontramos também na literatura latina, em Ovídio, nos seus Fasti Lembremos, porém, que aves negras, na antiguidade, eram, de um modo geral, classificadas genericamente como corvos, encontradas em todos os continentes, com exceção da América do Sul. 

KORAX
Entre os gregos o corvo era chamado de Korax, ave do deus Apolo, participando de mitos relacionados com Cronos e com Asclépio. Este último, como se sabe, é filho de Apolo a da princesa Coronis, mortal, filha de Flégias, rei dos lápitas. Temendo Coronis que o deus, por ser eternamente jovem, a abandonasse na velhice, uniu-se ela secretamente a Ísquis, um lápita, antes do nascimento de Asclépio. Avisado por sua ave predileta do ocorrido, o corvo, Apolo vingou-se, matando Ísquis, enquanto sua irmã gêmea, Ártemis, se encarregou de dar fim a Coronis. 



Entre os latinos, o corvo era chamado de Phoebe Sacer Ales, ave sagrada de Phoebus, O Brilhante, o Apolo dos romanos. Em ambas as tradições, participava assim a ave da mântica profética, que tinha como titular o deus Apolo. Foram os corvos que determinaram a localização exata do oráculo de Delfos. Embora o corvo sempre apareça ligado a Apolo, como ave companheira, lembremos que nem sempre as relações entre ambos foram satisfatórias. 

CORVO   CORONE
Conforme a crônica de Apolo, a plumagem do corvo, que era inicialmente branca; tornou-se negra quando o deus o amaldiçoou para castigá-lo por ser muito indiscreto, sempre ansioso para divulgar más notícias (o caso de Coronis, por exemplo). Consta, aliás, do mito de Palas Athena que a deusa o privou do título de sua ave predileta por esse mesmo motivo, substituindo-o pela coruja. É devido a esta passagem, a tagarelice do corvo, que os latinos deram à constelação o nome de Garrulus Proditor (O Mexeriqueiro Sussurrante). 

Outra história nos informa que certa vez Apolo determinou que o corvo cumprisse determinada missão (encontrar um lugar onde houvesse água). Chegando ao local, ao ver  um cadáver boiando, esqueceu o que tinha ido fazer, pondo-se a devorá-lo avidamente. Ao retornar, cheio de desculpas, foi punido: suas penas, que eram brancas, tornaram-se negras. Esse episódio é responsável pela fama que cerca o corvo como uma ave necrófaga que tem predileção especial por cadáveres de pessoas que foram enforcadas. 


Outra história grega nos revela que, encarregado por Apolo de cumprir certa missão,  muito tempo se passou até a sua volta. Não cumpriu a missão, mas  trouxe, para justificar o seu atraso, uma serpente aquática, presa às suas garras. Consta que o deus ficou tão irritado com ele que resolveu colocá-lo entre as estrelas, sendo esta a origem da constelação de Corvus. No céu, ao lado, a Hydra o impede de beber na cratera (Crater), constelação vizinha.

ORÁCULO SIBILINO
De um modo geral, o corvo sempre apareceu consagrado a Apolo e desempenhando funções proféticas. Esta certamente a razão pela qual ele aparece citado nos chamados Oráculos Sibilinos. Muito difundidos nos meios judaico-cristãos, antes do cristianismo se tornar a religião oficial do império romano, os Oráculos Sibilinos fazem parte das chamadas Escrituras Apócrifas. 


OMPHALOS (MÁRMORE , II AC)
A mais recuada história que temos sobre as sibilas no ocidente é encontrada entre os gregos, em Delfos. Apolo transformou o oráculo, antes sob a tutela de divindades femininas, em centro do mundo (omphalos, umbigo). A partir dali, desbarbarizou antigas tradições matriarcais, propondo sempre o meio-termo, o equilíbrio e a moderação como forma de vida aos que lá iam consultá-lo. Contudo, embora Apolo signifique a substituição da mântica (adivinhação, profecia) feminina, que era por incubação, pela mântica masculina, por inspiração, os cultos do deus, nitidamente masculinos, sempre mantiveram  relação com o mundo feminino, considerado  "de baixo". Em seu Oráculo, Apolo dependeu sempre do feminino para que suas sentenças (mântica profética) fossem ouvidas, pois a mediunidade é dominada  sempre pelo feminino.
SIBILA  DÉLFICA ( MICHELANGELO )
Enquanto o masculino "dá", "insufla", o feminino "recebe", "acolhe" é a lei universal. Em transe, "recebendo" o deus, as mediuns, as sibilas ou pitonisas, revelavam as suas mensagens. Difícil, porém, interpretá-las, pois elas as sibilavam ao verbalizá-las. Sibilar é produzir sons agudos, acentuar as consoantes sibilantes, falar entre os dentes, silvar como as serpentes (símbolo da vida inconsciente). Quem interpretava as mensagens das sibilas eram os sacerdotes do deus, que administravam o Santuário de Delfos, "traduzindo-as" para os consulentes.
   
Divinamente inspiradas, as sibilas revelavam o futuro. Em tempos remotos, anteriores, à cristianização, muitas sentenças oraculares foram guardadas, exercendo sempre muita influência na pública e privada dos povos mediterrâneos. Grupos judaicos, aproveitando-se certamente da grande influência das sentenças oraculares na vida
NOSTRADAMUS
dos povos da época, se valeram da prática para fins de propagação religiosa, o que deu origem às chamadas Sibilinas Judaicas, fortemente marcadas por traços de profetismo. Com o tempo, muito do que foi produzido por grupos cristãos e judaicos acabou se fundindo, integrando-se ao cristianismo e depois ao catolicismo vitorioso, sendo citados por muitos autores cristãos ou não, como Santo Agostinho, Nostradamus e outros.

Em várias tradições, encontramos muitas histórias sobre o corvo. Na Mesopotâmia, ele participava do mito de Gilgamés, aparecendo também ligado ao deus Mithra, antiga divindade persa de natureza solar. Na Bíblia,  encontramos o corvo relacionado com o profeta Isaías e como emissário de Noé para, num voo de reconhecimento, informá-lo sobre as águas do dilúvio e sobre terras visíveis. Um dos nomes desta constelação entre os judeus vem exatamente deste episódio, O Corvo de Noé. Entre os árabes, Corvus era chamada ora de Al Ajmal (O Camelo), ora de Al Hiba (A Tenda). 


MARDUK   E   TIAMAT
Um mito mesopotâmico, projetava nos céus a associação das constelações de Corvus e da Hydra. Enquanto esta representava o monstro Tiamat, aquela era um corvo gerado por este, nascido de uma grande ninhada, chamado pelos mesopotâmicos de O Grande Pássaro da tempestade. Tiamat, como sabemos, é a personificação do elemento líquido, o grande oceano, que dá origem à vida, Simboliza as forças cegas do caos primitivo contra as quais os deuses inteligentes e organizadores, chefia por Marduk, entraram em luta. 

ODIN

No mundo celta, o corvo faz parte do mundo da profecia. Segundo a tradição, teriam sidos os corvos os responsáveis pela indicação do melhor lugar para a fundação de Lugdunum (Lyon), cidade do deus Lug, o de Longo Braço,  uma colina, chamada desde então de A Colina do Corvo. No mundo escandinavo-germânico, não podemos esquecer dos dois corvos que acompanham dia e noite o deus Odin. Um tem o nome de Hugin, a inteligência, e Munin, a memória, e lhe passam as informações de tudo o que acontece no universo.

SÃO  BENTO  DA  NÓRCIA
No mundo cristão, o corvo tem participação nas histórias de muitos santos, tanto eremitas como provedores, Bento, Bonifácio, Vicente e outros. As representações de São Bento da Nórcia no-lo mostram com o livro da Regra monástica por ele fundada, com cálice quebrado e com um corvo carregando um pão em seu bico. Três símbolos de grande importância em sua vida. Nas imagens do santo, o corvo lembra um episódio de sua vida em que monges invejosos de sua obra tentaram envenená-lo com um pão que um corvo levou para longe.

De um modo geral, porém, o mundo cristão, apesar da participação acima apontada,  sempre considerou o corvo muito negativamente como um agente propagador de contágios, de corrupção e de destruição. Inimigo da Igreja, contava-se que na Idade Média o Diabo se expressava através da onomatopeia do crocitar do corvo, cras, cras, cras, que significava amanhã, amanhã, amanhã, para instigar os pecadores a que deixasse para outro dia o arrependimento dos seus crimes e pecados. 


TÚMULO   DE   POE
Não foi outra razão, aliás, aproveitando o gancho acima, que Edgar Allan Poe, uma das principais figuras do movimento romântico, ultrarromântico, se quisermos, também chamado de Romantismo das Trevas, elegeu o corvo como um dos seus principais símbolos. A par das suas grandes virtudes narrativas, dos seus recursos estilísticos, de rimas e jogos fonéticos, o poema The Raven (O Corvo) é certamente o mais contundente exemplo da carga tanática que a geração romântica, toda ela, em maior ou menor proporção, vítima do chamado mal du siècle, pôs em circulação na literatura ocidental.    


Astrólogos da Idade Média juntaram Corvus e Crater, passando a chamar as estrelas assim agrupadas de A Arca da Aliança, naturalmente inspirados por uma leitura libriana (Libra, o signo dos acordos e da paz), já que ambas as constelação cobrem praticamente todo o signo da Balança. Em hebraico, aliança é berit e designa o relacionamento especial entre Deus e o homem. Este pacto remonta ao acordo feito entre Deus e Abraão e renovada no monte Sinai por Moisés. É por essa razão que os israelitas são conhecidos como os “filhos da Aliança”, obrigando-se a cumprir os mandamentos da Torá divina. A Arca é um símbolo dessa aliança. É de madeira, revestida de ouro, guardada no deserto e depois no templo, em Jerusalém. No interior da Arca ficavam as tábuas do decálogo.


ARCA   DA   ALIANÇA  ( JUAN  MONTERO  ROJAS )


PRAJPATI
Os hindus, por sua vez, associaram Corvus a Virgo, Libra e Bootes para formar nos céus uma figura a que deram o nome de Prajapati, distribuindo as partes do seu corpo entre as principais estrelas das mencionadas constelações. Prajpati quer dizer Senhor das Criaturas. Nos Vedas, o nome é aplicado a várias divindades, Indra, Savitri, Soma etc. A designação se fixa depois na figura de Brahma, a primeira pessoa (aspecto criador) da trimurti do Hinduísmo. 

De um modo geral, a visão que os mitos têm do corvo na tradição ocidental é negativa, uma ave agourenta que anuncia infelicidade,
ALQUIMIA
doenças, corrupção e morte. Na Alquimia simbólica, a nigredo, a primeira fase da Opus, é chamada de corvus, fase que dá início a um caminho evolutivo, a uma busca de transcendência, quando pensamos naquele que nela se inicia. A nigredo corresponde à fase das trevas e da putrefação pela qual é preciso passar, seja na Opus considerada materialmente ou psicologicamente, antes de se atingir a albedo, a segunda fase, que é do branco, para se passar à terceira, citrinitas, do amarelo, e chegar finalmente à quarta, a rubedo, do vermelho. Estas quatro fases representam simbolicamente as quatro etapas do caminho solar, da escuridão à luz plena, da meia-noite ao meio-dia. Este simbolismo, como fica fácil constatar, tanto pode ser aproximado da busca que o homem pode fazer em termos psíquicos como espirituais.  

    
NASCIMENTO   DE   ASCLÉPIO

Uma associação que não se pode deixar de fazer aqui é a relação entre Asclépio, deus médico (veja a constelação de Ophiucus), o corvo e o princípio da cura a partir da cor negra. A medicina do deus, praticada no santuário de Epidauro, a metanoia, associava a escuridão, o negro (a nigredo, a primeira das quatro fases da Alquimia) à vida inconsciente, como o ponto de partida para o renascimento, para a busca de formas evolutivas de vida. 



A constelação do Corvo estende-se de 5º a 15º Libra. Segundo Ptolomeu, sua influência é da natureza de Marte e de Saturno, proporcionando inveja, ingenuidade, maledicência, passionalidade, egoísmo, paciência, e, sobretudo, tendência a envolvimento com assuntos “sujos” e agressividade. Suas principais estrelas são Al Chiba, Gienah e Algorab. Nenhuma delas mereceu atenção sob o ponto de vista astrológico. 



BAUDELAIRE  ( GUSTAVE  COURBET )
É se se lembrar, contudo, que em alguns temas astrológicos de escritores ligados ao simbolismo do corvo, temas como o do próprio Poe, de Fernando Pessoa (tradutor do poema para o português) e de Baudelaire (editor de Poe na França), a constelação aparece de  de modo ascendente ou culminante.
   




CRATER – Como se disse, Corvus, Crater e Hydra, antes unidas, formando uma só constelação, foram separadas. Crater ou a Taça, como símbolo, representa em inúmeras tradições o modelo de recipientes sagrados, vasos, jarras, caldeirões etc., mencionados nos mitos e nas religiões. Neste sentido, é um símbolo feminino já que implica ideias de conter, receber, guardar. Associa-se assim a centros vitais, a temas que lembram vitalidade, fertilidade, crescimento. Tem o símbolo, sob o ponto de vista físico, muita relação com cerimônias para combater a seca, a desertificação, a preparação de sementeiras. Num outro sentido, mais amplo, fala do recebimento de influências celestes. Além do mais, ao lembrar recipientes que contêm (arcas, sarcófagos, urnas etc.) adquire ele um significado maternal, terrestre. 


CRATERA   GREGA
Cratera é uma espécie de jarro, semelhante a uma ânfora, usada pelos gregos para levar vinho e água à mesa. Várias lendas fizeram de uma taça a que se deu o nome de graal, na literatura medieval europeia, o símbolo de um tesouro a ser conquistado. A sua posse conferia plenitude, abundância, iluminação, espiritualidade. É uma espécie de talismã maravilhoso que, por seu simbolismo, se aproxima da cornucópia. A busca do graal (Santo Graal) é, no fundo uma aventura espiritual, que exige, antes de conquistas externas, vitórias interiores, pedindo transformações radicais de coração e espírito. 

Na mitologia de egípcios e babilônicos, esta constelação estava ligada a ideias de crescimento, de desenvolvimento. Antigos textos
ISHTAR
egípcios nos falam que quando a constelação de Crater aparecia de modo bem visível nos céus a cheia do Nilo atingia a sua maior altura. Os babilônicos davam à deusa Ishtar o poder sobre Crater. Esta deusa, como sabemos, é um dos modelos da Afrodite grega, cabendo-lhe a distribuição do princípio da fertilidade, da fermentação, sobre os reinos vegetal, animal e humano. Esta fermentação tem dois momentos, um ligado primeiramente à decomposição, à perda da forma, à ação da umidade, e outro relacionado com o aparecimento de formas novas. Estes conceitos estão na Alquimia e nos falam de transmutação, de transformação. 

PITONISA  COM  GOBELET
Para os gregos, a constelação da Taça tanto era o recipiente que Icário usou quando foi instruído por Dioniso na arte de fabricar o vinho (veja a constelação de Bootes) como podia ser o gobelet do deus Apolo, usado na sua mântica profética. O primitivo nome deste recipiente no culto apolíneo era kantaros. Passou a ser chamado de krater, latinizado o nome por Cícero como Cratera. Astrólogos latinos chamavam também a constelação de Gratus Iaccho Crater, Urna, Calix, Scyphus ou Poculum 

SANTO   GRAAL
( GABRIEL   ROSSETTI )
Entre os celtas Crater era o caldeirão do deus Bran, divindade infernal. Na Idade Média cristã, Crater toma a forma do Santo Graal, cujo modelo parece ser uma síntese de três tipos de caldeirão que aparecem como atributos de deuses celtas (abundância, ressurreição e sacrifício). Entre os árabes, Crater chamou-se primitivamente, segundo a Astronomia do deserto, de Al Malaf, A Tenda. Depois, por influência dos gregos, recebeu o nome de Al Batiyah, uma espécie de taça para vinhos. Na Índia, esta constelação era chamada de Chashaka Soma, ou seja, a taça que o deus Soma usava para distribuir o precioso néctar. Outras divindades também usavam a referida taça, deuses como Kubera, Kusmmanda Durga, Varuni. Para o homem comum, chashaka era simplesmente a taça que ele usava para para consumir vinho, tendo, nesta função, relação com rituais tântricos. A bebida dos deuses na Índia, conforme está nos Vedas e noutros textos, chamava-se soma. Entre os persas, era haoma. Ela produzia a embriaguez sagrada que levava à imortalidade. Equivalia à ambrósia dos gregos, todas com função enteógena. A religião védica elevou soma, uma bebida, à categoria de divindade. Na mitologia purânica, é dado o nome de Soma à Lua. Lembremos que na Astrologia hindu (Jyotish) é a posição e a força da Lua (chamada de Chandra ou de Soma) na carta natal que determina o quanto uma pessoa receberá do seu néctar. O bem estar-estar dessa uma pessoa dependerá da situação da Lua em seu tema.  

EMBRIAGUEZ   DE   NOÉ

Na tradição religiosa ocidental, judaica e cristã, Crater recebe o nome, quanto à primeira, de A Taça de Vinho de Noé e, quanto à outra, de A Copa da Paixão de Cristo. Noé, como sabemos, salvou-se do dilúvio juntamente com sua família numa arca, uma grande embarcação. Terminada a catástrofe, ele desembarcou no monte Ararat. Recomeçando a vida, plantou algumas videiras obtendo delas muito vinho. Provou dele, gostou e se embriagou, sendo repreendido por seus filhos, conforme consta da sua história. A constelação de Crater representa a taça que Noé usou para se embriagar.


CRISTO   NA   CRUZ
( ANÔNIMO , XVII )
Já a versão cristã, aproxima a constelação de Crater da história de José de Arimateia, um discípulo de Cristo que, após a crucificação, pediu a Pilatos o seu corpo e o colocou num novo sepulcro. Nada se sabe da vida deste homem além do que consta nos Evangelhos. No século IV, começaram a aparecer várias lendas a seu respeito que não chegaram a ganhar corpo. No século XIII, entretanto, o tema foi retomado com muita intensidade. A história que se espalhou pela Europa cristã a esse tempo conta que José de Arimateia teria colhido o sangue de um ferimento de Cristo antes de ser ele enterrado, valendo-se para tanto uma copa usada na última ceia. Consta que Arimateia teria vindo para a Bretanha com o precioso recipiente, que se perdeu, depois de muitas aventuras em que se metera e de sua prisão. 

Nesta história, a copa (Crater) toma o nome de graal,  do latim gradalis, passando para a langue d´oïl  e a langue d´oc como griau, gruau etc., sempre com o sentido de um recipiente de larga abertura. O graal, como vaso maravilhoso, alimentava o corpo, a alma e o espírito. Para a alma medieval, atormentada pelo problema do Mal, o graal era um sinal de esperança, de acesso a um tipo de vida superior, da irrupção do divino no âmbito do humano. Reunindo contribuições orientais, célticas e cristãs, o tema do graal corresponde também a um anseio que tomou conta do mundo medieval, fixado em muitas histórias e lendas: a busca de talismãs que dariam a quem os encontrasse poderes sobre-humanos, muito comuns na Astrologia da antiguidade, chamados pelos latinos de sigila planetarum.



 A constelação de Crater estende-se de 13º de Virgem a 3º de Libra, tendo suas estrelas influências da natureza de Vênus e, em menor grau, de Mercúrio, segundo Ptolomeu. As propostas são de generosidade, natureza hospitaleira, receptividade, habilidade mental com alguma apreensão e indecisão. Reversões,  tendências negativas podem ser esperadas, acontecimentos imprevisíveis. A única estrela  desta constelação registrada pela Astrologia é Alkes (alfa), 23º Virgo, de pouca expressão devido à sua magnitude (abaixo da terceira). Alkes é nome que vem do grego, com o sentido de vigor, força ou poder que se opõe a alguma coisa, sugerindo ideia  de proteção, socorro e defesa. Os latinos a chamaram de Fundus Vasis devido à sua posição na base da constelação. Em alguma tradições, no lugar de Alkes, aparece o nome de Labrum,  também chamada de Santo Graal, palavra latina usada para designar vasos (em terra, pedra ou metal), de larga abertura, podendo servir inclusive de bacia para banho. Idealismo, favorecimento, poderes psíquicos, purificação e salvação estão entre as influências proporcionadas. Espiritualidade, misticismo e natureza profética podem eventualmente aparecer como influências.

Alkes marca no signo de Virgem um ponto onde podem se tornar mais claras, evidentes, principalmente se no grau indicado tivermos algum planeta ou a cúspide de alguma casa, tendências evolutivas ou involutivas para o ego que nasceu teoricamente em Leão (5ª casa). No caso das primeiras, temos a preparação para o acesso a Libra (3º quadrante, o do social). Estas tendências, positivas, de natureza espiritualizante, levarão a Sagitário (3º nível do elemento fogo) e deste para o 4º quadrante, o do coletivo, da humanidade. Negativamente, podemos a partir deste ponto ter a fixação do ego que nasceu nas tendências leoninas negativas (poder, glória, orgulho, prepotência etc.) ou a sua regressão a formas instintivas. 


Temas como os do Papa João Paulo II, de Van Gogh e de Gandhi podem ser utilizados para estudo do que aqui acabamos de apresentar.