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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (3)



O   RAPTO   DE   HELENA ( FRANCESCO PRIMATICCIO , 1504 - 1570 )
                                          
Como antecedentes do poema, o mais notável fato é o rapto de Helena, rainha de Esparta, mulher de Menelau, por Páris, príncipe troiano, filho de Príamo, rei de Troia, e de Hécuba, sua mulher. São irmãos de Páris, dentre outros, Heitor, casado com Andrômaca, e Cassandra, vidente, gêmea de Heleno. A fim de reparar essa afronta, os gregos, sob o comando de Agamemnon, rei de Micenas, casado com Clitemnestra, irmão de Menelau, organizam uma expedição para resgatar Helena, que era irmã de Clitemnestra. Os gregos têm na sua expedição, como figuras principais, famosos guerreiros, Ajax, Diomedes, Ulisses, Nestor, Pátroclo e Aquiles, este o mais destemido de todos, filho de Peleu e de Tétis, divindade marinha.


GUERRA  DE  TROIA
( J.G.TRAUTMANN, 1713 - 1769 )
O poema relata apenas um curto período da guerra de Troia, então no seu décimo ano. Os ouvintes de Homero estariam no entanto familiarizados com os acontecimentos anteriores, aos quais o poeta ia se referindo no decurso da história cantada, acompanhada pelo phorminx, ou simplesmente narrada.

Nesse sentido, a história começa em tempos muito
LAOMEDONTE
( G.TROPPA , 1637 - 1733 )
recuados, quando da construção das muralhas da cidade, protegida por Zeus, rei dos deuses. Governava-a, ao tempo da construção, Laomedonte, que tivera a ideia de cercá-la, tornando-a inexpugnável. Como a cidade prosperava rapidamente, ele não descansou enquanto não viu erguida uma grande e protetora muralha à sua volta.  

Para construir a proteção idealizada, Laomedonte invocou e obteve a ajuda divina. Poseidon, irmão de Zeus, grande divindade dos oceanos e dos mares, ofereceu-se para ajudar os troianos mediante algumas recompensas. Todavia, terminada a construção da impenetrável muralha, os troianos se recusaram a cumprir o trato feito. Poseidon retirou a sua proteção de Troia, tornando-a vulnerável a ataques, apesar das suas poderosas muralhas


PARIS
Troia, por ocasião da guerra, era governada pelo rei Príamo, filho de Laomedonte, casado com Hécuba, princesa da Frígia, que, de acordo com algumas versões, lhe deu catorze filhos, citando-se, dentre eles, que nos interessam mais de perto, o nobre Heitor, a profetisa Cassandra, o vidente Heleno e o belo Páris. Quando estava grávida de Páris, Hécuba sonhou que este filho seria a causa da destruição total da cidade, sonho confirmado por um oráculo. Para o bem de Troia, entretanto, Hécuba decidiu abandonar o filho à morte, expondo-o no monte Ida. Mas Páris foi salvo por pastores e cresceu como um deles, ignorando a sua origem real. 

Bem antes do início da guerra, Zeus decidira que Tétis, uma nereida, se casaria com Peleu, um mortal, rei de Ftia. Desta união nasceria Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos. Toda a sociedade olímpica foi convidada para a festa, com exceção, por razões óbvias, de Éris, a deusa da discórdia. Vingando-se da afronta, Éris lançou ao salão onde se realizava a festa um pomo de ouro, com  a inscrição “à mais bela”. Tanto Hera, a esposa de Zeus, como Palas Athena, deusa virgem, e Afrodite, deusa do amor, reclamaram o pomo dourado, pedindo que Zeus arbitrasse a disputa, o que ele sabiamente recusou, fazendo-se substituir, por uma escolha feita ao acaso, por Páris, que vivia como um pastor perto de Troia.  


O  JULGAMENTO  DE  PARIS  ( P.P.RUBENS , 1577 - 1640 )

As deusas, interessadíssimas na disputa, foram então a Páris e tentaram suborná-lo, prometendo-lhe, cada uma delas, o que julgaram ser o melhor para ele. A deusa Hera ofereceu-lhe o continente asiático com todas as suas riquezas; Palas Athena, a poderosa filha de Zeus, ofereceu-lhe a sabedoria e a vitória em todas as batalhas; Afrodite ofereceu-lhe o amor na pessoa da mais bela mulher do mundo, a espetacular Helena, casada com Menelau. Páris optou pela oferta de Afrodite. As duas deusas preteridas tornaram-se de imediato grandes inimigas da deusa do amor, inimigas implacáveis, e, como tal, dispostas a causar a destruição de Troia. 

HELENA   E   PARIS  , 1788  ( J. L. DAVID )

Pronto para a conquista de Helena, Páris dirigiu-se antes ao palácio real de Troia, onde foi reconhecido por Cassandra e aceito por Príamo como seu filho legítimo. Rumou em seguida para Esparta, sendo recebido na corte de Menelau, que dela se ausentara momentaneamente por questões de família. Ajudado por Afrodite, conquistou rapidamente Helena e a levou para Troia. Quando voltou a Esparta e soube do motivo da partida da mulher, Menelau convocou um grande número de chefes gregos para irem com ele, com os seus exércitos, atacar Troia e trazer Helena de volta. É de se lembrar que em tempos idos estes chefes gregos, convocados por Menelau, tinham também cortejado Helena e firmado um acordo: ajudar aquele que conseguisse o amor dela e vingar qualquer desonra que sobre o futuro marido viesse a recair por sua causa. Foi assim que Páris pôs em andamento a concretização da profecia oracular que causaria a destruição de Troia.

Muitos dos chefes gregos, além disso, desejavam há tempos saquear a rica cidade asiática. Sabiam, entretanto, por sentença oracular, do destino que os esperava se partissem sem que uma condição, muito importante, fosse observada: Aquiles deveria obrigatoriamente participar do empreendimento. Ulisses, grande chefe grego, por outro lado, fora avisado também de que a sua participação na guerra o levaria a uma ausência de vinte anos do seu reino. Simulou então o rei de Ítaca uma espécie de loucura para não participar da expedição a Troia. Desmascarado, acabou por decidir-se a ir. 

AQUILES  MERGULHADO  NO  RIO  ESTIGE ( A.BOREL , 1743 - 1810 )

Aquiles, como combatente, era praticamente invulnerável porque ao nascer a mãe o havia mergulhado nas águas do Estige, rio infernal, tornando-o imortal, excetuada esta condição por um ponto, o calcanhar, por onde a mãe o segurara. Mais tarde, como narra o poema, uma flecha, guiada pelo deus Apolo, atingirá este ponto, matando nosso herói. Aquiles também estava ciente de que, se fosse à guerra, morreria jovem. Para livrar o filho de uma morte prematura, Tétis disfarçou-o com roupas de mulher, escondendo-o. O astucioso Ulisses descobriu o ardil, o que forçou Aquiles a se envolver na luta.

AGAMEMNON
Agamemnon, irmão de Menelau, foi eleito comandante de todos os exércitos gregos. Cerca de mil navios foram preparados para levar as tropas gregas às costas troianas, através do mar Egeu. Os ventos, contudo, quando da partida dos gregos, cessaram completamente, impedindo a partida do porto de Aulis. Consultado um oráculo através de Calcas, o adivinho da expedição, descobriu-se que Agamemnon tinha morto, numa caçada, uma corça consagrada
IFIGÊNIA  , 1788  ( J.L.DAVID )
a Ártemis, a deusa lunar. Nada faria a deusa perdoar a ofensa senão o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamemnon. Em meio a grandes tormentos e angústias, Agamemnon mandou chamar a filha sob o enganoso pretexto de a casar com Aquiles. Clitemnestra, a rainha, mãe de Ifigênia, todavia, descobriu a trama mentirosa. No momento em que a jovem estava para ser sacrificada, acalmou-se a deusa, que desistiu da exigência que impusera, voltando os ventos a soprar, o que possibilitou a partida da frota grega para Troia. 

Depois de desembarcarem num lugar errado, os gregos acabaram chegando a Troia, cercando-a; numa das extremidades do território que ocuparam, ficou o valente Aquiles com os seus homens; na
ILÍADA 
outra, o famoso Ajax. Durante nove anos tentaram atravessar as invulneráveis muralhas. Enquanto não o conseguiam, assaltavam e pilhavam cidades e localidades próximas. Ao final do nono ano, um acontecimento precipitou, porém, os acontecimentos: capturaram os aqueus duas belas mulheres, Criseida, troféu destinado a Agamemnon, e Briseida, destinada a Aquiles. Assim começou realmente a Ilíada...

Aquiles é sem dúvida a figura mais importante do poema homérico. Tétis, a nereida, sua mãe, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por todos os deuses. Uma sentença oracular declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram da bela nereida e procuram alguém para se tornar o seu esposo. Dentre muitos candidatos, apareceu Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela Tétis, apesar de suas sucessivas metamorfoses e disfarces. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, como se disse, jogou no salão em que se realizava a festa o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia...


KIRON  E  AQUILES  ( AFRESCO )
Depois de seis filhos consumidos pelo fogo, na ânsia de torná-los imortais, Tétis resolveu mergulhar o último nas águas do rio Estige, que tinham o poder de tornar invulnerável tudo o que fosse banhado por elas. Essa criança era Aquiles, cujo calcanhar, porém, não foi banhado pelas águas, pois por ali a mãe o segurara. Para os cuidados de sua educação,  Aquiles foi enviado à gruta do centauro Kiron. Consta que o centauro-mestre, ainda que não tivesse resolvido o problema da invulnerabilidade total de Aquiles, mas para aumentar o seu desempenho físico, operou o calcanhar do nosso herói, nele implantando um osso do gigante Dâmiso, o maior corredor que já existira, jamais vencido. 

O jovem foi muito bem tratado também pela mãe do centauro, Fílira, e por sua esposa, a ninfa Cáriclo. A partir dos doze anos, foi adestrado na caça, na equitação, na medicina e em outras artes; o centauro passou-lhe o respeito pelos mais velhos, e ensinamentos claros quanto à necessidade do que eram a defesa da honra pessoal (timé) e o amor à verdade. O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javalis, da moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força e vigor. Do mel, recebia doçura, afabilidade. Ao chegar à gruta do centauro, o filho de Tétis chamava-se Líguiron (agudo, sibilante, gasguito).

Calcas, o adivinho, profetizou que a cidade de Troia só seria conquistada com a participação de Aquiles e que a guerra duraria cerca de dez anos. Tétis veio do fundo do mar e escondeu o filho, vestindo-o de mulher e passando a chamá-lo de Pirra. Assim, educado como uma jovem passou Aquiles muito tempo. Chegando a profecia ao conhecimento dos chefes militares aqueus, foram eles buscá-lo, sendo-lhes difícil reconhecer no meio das moças aquele que seria o maior guerreiro de todos os tempos. Acabaram por fim encontrando-o, resolvendo Ulisses o problema. Engajado, Aquiles partiu com um amigo, Pátroclo. Tétis sabia que o filho, se fosse a Troia, teria uma glória eterna, mas sua vida seria breve. Se não fosse, viveria muito, mas sem nenhuma glória. Aquiles, conhecendo o dilema, optou pelo morrer jovem.

Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram  uma séria desavença. Este último teve que devolver, por imposição do deus Apolo,  ao pai, a sua escrava-amante. Irritado, para substituí-la, mandou buscar a escrava-amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, porém, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e prometeu dar a Aquiles vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe conceder,  como esposa,  uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível na sua negativa.

PÁTROCLO   FERIDO
Nesse ínterim, Pátroclo, grande amigo de Aquiles, seu companheiro de tenda, numa ação individual, partiu em socorro dos gregos, desmoralizados por sucessivas derrotas. Aquiles consentiu que o amigo partisse, emprestando-lhe sua armadura. Pátroclo, numa escaramuça, acabou sucumbindo, golpeado por Heitor, herói troiano. Tomado por imensa dor, Aquiles se reconciliou com Agamemnon, voltando à luta, apesar de seu cavalo, Xanto, que tinha o dom da profecia, lhe ter anunciado sua morte próxima. Desprezando o aviso, avançou Aquiles contra os troianos. Heitor tentou atingi-lo. O deus Poseidon interveio, livrando-os do choque mortal. Depois de vários encontros, Aquiles e Heitor voltaram a se enfrentar. Zeus se decidiu pela morte do troiano. Ao morrer, Heitor falou a Aquiles sobre a hora de sua morte, que estava bem próxima. Aquiles, tomado pelo ódio, mutilou o corpo de Heitor, nunca esquecendo que ele matara Pátroclo. 



HEITOR   MORTO  ( LOUVRE )


Nesse ínterim, as Amazonas entraram na luta, em socorro de Troia. Aquiles, com requintes de selvageria, matou Pentesileia, a rainha das mulheres guerreiras. As lutas prosseguiam, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco, filho de Nestor (depois de Pátroclo era o amigo mais estimado por Aquiles),
AQUILES   FERIDO
foi enorme. Preparava-se o filho de Tétis para o assalto final às muralhas de Troia. Teria tomado a cidade certamente se o deus Apolo não o intimasse a parar a luta. Não sendo atendido, Apolo guiou uma flecha disparada por Páris para que ela atingisse o único lugar vulnerável do corpo de Aquiles, o calcanhar. Em meio a estertores, lançando gritos de cólera e dor, Aquiles tombou finalmente morto. A disputa pelo seu corpo foi grande, conseguindo Ulisses e Ajax recuperá-lo. Os funerais foram celebrados por Tétis, pelas Ninfas e pelas Musas. Athena passou ambrosia no corpo de Aquiles para que ele não entrasse em putrefação. Todos lhe prestaram homenagens até que o fogo acabou por consumi-lo totalmente. 

Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles, depois de morto, passou a "viver" nessa ilha, que fica na foz do rio Danúbio. Os navegantes narram, desde então, que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, por quem sentiu grande amor, uma filha de Príamo, rei de Troia. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a  cerimônia de invocação das almas (nekyia), ouviu do eídolon do herói, arrependido, uma triste confissão, vinda do fundo de seu coração,  a de que teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês.


DIÁLOGO  DE  AQUILES  E  ULISSES  

Está hoje, devidamente assentado, por estudos históricos, arqueológicos, etnográficos, etnológicos, epigráficos, linguísticos (filologia histórica) e outros, que, por trás da Ilíada temos alguns fatos históricos bem determinados, ainda que o maravilhoso mítico poético a permeie do começo ao fim. Ninguém poderá negar que os aqueus, fundando Argos e Micenas, para sobreviver nos territórios em que se instalaram, só encontraram uma alternativa, a de buscar o mar. Pode-se inclusive admitir que se os personagens que tomaram parte na Ilíada, conforme Homero nos conta, eram fictícios, figuras do mito, a destruição de Ilion, como a de Creta, foram, ao contrário, acontecimentos bem concretos, reais, historicamente comprovados. 

Abrindo um parêntesis: este mesmo entendimento terá que ser levado também para  a abordagem da Odisseia. Em que pesem as diferenças entre os dois poemas homéricos, não podemos deixar de lado os fatos históricos nos quais a história de Ulisses encontra as suas melhores explicações e justificativas. Aborde-se a Odisseia pelo viés que se quiser, literário, mítico, linguístico etc., não há como se negar: a  Odisseia tem como base histórica principal a busca do estanho, metal inexistente no território grego.

Sabe-se que desde o período minoico, bem antes de 2.000 aC, o comércio marítimo cretense dominava o Egeu oriental. A utilização industrial do bronze era um fato que levava os cretenses a buscar no ocidente o estanho, metal que, embora em proporção não muito elevada, entrava obrigatoriamente na fabricação do bronze. Dirigiram-se assim os cretenses à Sicília, ao Adriático e a outros lugares para esse fim.




Quando os micênicos conseguiram penetrar em Cnossos, muitos séculos depois, saqueando e destruindo a cidade, Micenas se converteu na herdeira do comércio cretense, estabelecendo transações comerciais mais amplas com o ocidente, alcançando não só a Itália meridional e a Sicília como a Sardenha e a Espanha. Sabe-se, por exemplo, que no princípio do segundo milênio aC os povos que viviam na península ibérica já haviam começado a utilizar o bronze por influência dos navegadores egeus que  os visitavam. 

Enquanto historicamente a discussão das datas e fatos com relação à Ilíada apresenta poucas controvérsias, a referente à Odisseia alimenta um debate que vem se estendendo até os nossos dias, firmando-se cada vez mais, com relação a esta última, a chamada tese atlântica e, por isso, ficando bastante enfraquecida a posição dos defensores da tese mediterrânea. Ou seja, Ulisses teria ultrapassado as colunas de Hércules e navegado até o Atlântico norte, tendo chegado, quem sabe, à Islândia. Por um estudo mais acurado do texto homérico e com as contribuições a que acima nos referimos, é possível estabelecer hoje que é no canto V da Odisseia que começa o relato da navegação atlântica de Ulisses, que, como tudo indica, se baseava em descrições fenícias, conforme se descobriu posteriormente. 

Acrescente-se que os gregos micênicos, tendo adquirido um profundo conhecimento das técnicas de navegação, se guiavam muito bem pelas estrelas e, como observadores argutos, sabiam também se valer de outros fenômenos celestes. Nas suas observações, iam muito além do que sabiam os sacerdotes do santuário de Delfos, organizadores do imperialismo grego, que viviam fechados nos seus templos. 





Desde os micênicos que os gregos tinham como norma autorizar empreendimentos marítimos e viagens só entre março e outubro. Registre-se que o início anual da temporada marítima era determinado pelo aparecimento das Plêiades, grupo de estrelas situado no final da constelação de Touro. A etimologia do nome, Plêiades, nos remete ao verbo plein, navegar, em grego. Pela limpidez de sua visualização, a partir de maio, esse grupo, as Plêiades, ligava-se com muito destaque aos calendários agrícola e marítimo.

Os marinheiros gregos observaram, por exemplo, que no curso de suas aventuras marítimas em direção do sul a estrela Polar ia se acercando cada vez mais do horizonte. A medida de sua altitude, medida angular, lhes permitia avaliar a distância que percorriam. Os gregos se aproveitaram tanto das descobertas babilônicas como egípcias com relação aos céus, valendo-se delas inclusive com relação à construção de seus barcos. O trirreme grego, para navegação oceânica, com cerca de 40 m. de comprimento, como se comprovou, descendente direto dos barcos egípcios, era impulsionado por remos manejados com grande firmeza, por cento e quarenta e quatro remadores, podendo atingir uma velocidade de 22 km/hora. 


TRIRREME   GREGO 

De outro lado, muito próximos de cretenses e micênicos, por sua civilização e poder marítimo, os troianos constituíam-se num sério obstáculo para a expansão dos dois primeiros citados no Mediterrâneo. Era preciso, pois, destruir a talassocracia troiana para
RUÍNAS  DE  TROIA
não só dominar o Egeu oriental como penetrar na Ásia Menor (Anatólia). A invasão de Troia pelos micênicos se deu provavelmente entre 1.193 e 1.184 aC., como as mais recentes pesquisas históricas propõem.

Uma leitura atenta da Ilíada nos faz “sentir” que estamos diante de um texto que descreve uma guerra de conquista e que seus personagens parecem ter uma existência “real”. Ao lado dos aspectos político, social e religioso que a Ilíada apresenta, não há dúvida de que o poeta nos descreve com aceitável veracidade que o mundo micênico era constituído por um conjunto de grandes e pequenos reinos, bastante entrelaçados por razões de fidelidade ou vassalagem, dominado por uma voraz aristocracia guerreira.

As principais características do mundo grego de então foram bem destacadas por Homero, evidenciando-se dentre elas a riqueza de Micenas (riquíssima em ouro), a inexistência do cobre e do ferro, a
FUNERAL   GRÉCIA   ANTIGA
arquitetura dos palácios, a figura do anax (palavra que designa o rei, o senhor, que possui um poder que o situa acima do basileu, o simplesmente rei), o fausto dos funerais (Pátroclo), o megaron (grande sala, típica dos palácios micênicos), o costume de designar os aristocratas e mesmo os inferiores por meio de muitos epítetos, associados ao seu nome de família. 



Nesse mundo, circulava uma poesia transmitida oralmente, de geração em geração, de natureza áulica (do grego, aulé, palácio, e do latim aula, corte, sala do palácio), palaciana, com muitas fórmulas religiosas e militares. Tal poesia se renovava continuamente à medida que ia sendo cantada, sabendo-se, contudo, que os poetas (aedos ou rapsodos) guardavam na sua memória a totalidade dos versos, a maior parte deles constituída de frases feitas, constantemente repetidas. É de se notar que os epítetos abundantemente encontrados nos poemas homéricos, milhares de vezes repetidos, ganham destaque maior quando nos voltamos para os personagens mais importantes e para as grandes divindades, que chegam a ter em média uma dezena de apelidos, que pouco variam.

Tudo indica que Homero fazia-se entender perfeitamente pela aristocracia micênica, gente voltada para as armas e para o mar. Deixava essa poesia claro para eles que o presente era o passado constantemente renovado por aedos e rapsodos. Nesse discurso poético, toda a ênfase se concentrava sobretudo, na vida dos heróis, na qual se projetava a vida dos deuses, em conceitos que tanto enalteciam ou não verdades do espírito e do corpo. Por isso, em Homero, na Ilíada, principalmente, o destaque vai para palavras como kalon (belo), agathon (bom), kleos (fama, renome), timé (honra), areté (virtude, excelência), kakon (mal), É do mundo homérico que nos vêm palavras como xenos e barbaros. A primeira designa o grego que vivia no exterior, vindo de uma outra cidade grega, de uma colônia. Já o bárbaro não era grego, falava uma língua incompreensível. A palavra barbaro era uma onomatopeia evocativa de uma algaravia. Quanto à projeção do divino no humano, observe-se, por exemplo, o modo como Agamemnon exerce a sua autoridade, de modo muito semelhante ao despótico comportamento de Zeus no Olimpo, com relação aos seus pares divinos.

Qualquer que seja o viés adotado para nos aproximarmos dos poemas homéricos, o que fica claro ao final é que eles difundiram o “mundo dos gregos”, democratizando-o, fazendo-nos compreender o elevado conceito que eles tinham da sua própria cultura diante dos bárbaros. Ainda que reconhecendo o que deviam aos egípcios, cretenses, mesopotâmicos e a outros povos, eles sempre tiveram consciência de que levaram a eles, inclusive através de suas aventuras imperialistas, valores novos, por esses povos  ignorados, ou apenas conservados por eles num estado embrionário. 

A história do nascimento, da infância e da juventude e da vida adulta dos personagens heroicos  de Homero costuma se revestir de traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. A Grécia clássica procurou transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses heróis. Na realidade, entretanto, não era bem assim. Os heróis gregos, como já se observou,  são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis ou quase, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade teriomorfos, andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino (Aquiles foi chamado de Pirra, a Vermelha), têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes, era também chegado ao travestismo), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo). Com muita facilidade são tomados por monstros e demônios, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), no que acompanham as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual aberrante, cometem estupros, atacam os próprios deuses,  têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam de um modo que beira a anarquia as normas de convivência e regras de civilidade. 


GIGANTOMAQUIA  ( P. P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os excessos heroicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax agride Cassandra em recinto sagrado), são hetero e homossexuais (Hércules, Aquiles), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Certamente, o traço mais característico e específico do herói grego era a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, ajudá-los (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, os heróis gregos, pelo seu comportamento, lembram a fluidez dos tempos primordiais, quando os elementos constitutivos do cosmos ainda não haviam se assentado. Um período onde as irregularidades e os abusos eram comuns, período do cosmos ainda em formação. Com o "mundo dos homens", onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos físicos e emocionais devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras extravagantes. Com eles, encerra-se o chamado período heroico da mitologia grega, definido por Hesíodo. 

Os heróis gregos enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos revelam também a situação de conflito do psiquismo humano, pelos combates, em última instância, que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas (monstros, malfeitores, gigantes), de tendências regressivas, uma espécie de Fatum a persegui-los. Sempre a vida como luta (agonística), como criação de novas formas de relacionamento com o mundo, a partir das lutas internas, as conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização constantes. Pressões internas, projeções imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas. De outro lado, o mundo com seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores. Ao lado dos ingredientes da vida heroica, da excepcionalidade no seu agir (areté) e da honorabilidade pessoal (timé), que estão na base das vitórias interiores, sempre, por outro lado, as ameaças de origens inconscientes, a vaidade, o renome através da consideração pública.


 HERÓIS   GREGOS   

Os heróis de Homero “viveram” entre um período histórico que vai do Heládico recente ao início do Arcaico. Na escala dos metais, faziam parte da chamada idade do bronze, um período da civilização que veio depois do chamado período calcolítico. Todo o período do bronze é conhecido pelo desenvolvimento da tecnologia desse metal, o bronze, essencial para a civilização grega desse período, período situado entre o fim do neolítico e o começo do arcaico, dominado pelo ferro.

Os guerreiros que participaram da guerra de Troia eram responsáveis pela confecção de suas próprias armas, sendo muito usados na Ilíada o substantivo khalkos  (bronze), e o adjetivo khalkeion (brônzeo) embora Homero, que viveu na idade do ferro, se traísse, usando vez ou outra o substantivo sideros (ferro), como na passagem (Ilíada, IV) em que faz a descrição da flecha de Pândaro, com ponta de ferro, que fere Menelau.

Ficamos espantados até hoje quando tomamos conhecimento das características das armas ofensivas e defensivas usadas na Ilíada, designadas indistintamente pelo vocábulo teukhos (equipamento, utensílio). Chama nossa atenção, por exemplo, quanto às armas ofensivas, as lanças, os dois tipos, um chamado dory e outro enkhos. O primeiro tipo era pontiagudo e brilhante, bem menor diante do outra. Idomeneu, porque gostava de usar essa lança,  era conhecido pelo apelido de douriklytos (o famoso pela lança dory). A outra lança chamava a atenção pelo seu tamanho, pois “projetava a sua sombra longe”. A lança de Heitor, por exemplo, tinha onze
TEXTO  DA  ILÍADA
côvados, o que equivale  a mais ou menos sete metros de comprimento. A lança de Aquiles, pelo seu peso, não podia ser manejada por ninguém a não ser ele. Quando Pátroclo, que era fortíssimo, tentou usá-la, não conseguiu, faltou-lhe braço para tanto. Esta grande lança do Pelida fora um presente de Kiron a Peleu, pai do nosso herói.  Muitos heróis da Ilíada gostavam de usar junto de sua espada (xiphos), na cintura, uma espécie de facão, de grande punhal (makhaira), que tanto servia para fazer cirurgias como sacrifícios. 

Os combates da Ilíada privilegiam a luta corpo-a-corpo. Há bem menos referências a lutas travadas a distância. Entre os aqueus, por exemplo, Teucro, irmão bastardo de Ajax Telamônio, embora sobrinho de Príamo e tendo participado ao lado do irmão junto dos gregos, era um exímio arqueiro. Na Ilíada, entre os arqueiros, sempre considerados negativamente,  indignos,  sem ardor, podemos citar Pândaro e Páris.  

Famosas na Íliada eram as couraças (thorakes) como armas defensivas, feitas de bronze (khalkeothorekon). A mais famosa era a de Aquiles, fabricada por Hefesto, “mais brilhante que os raios de fogo”. Outra couraça famosa foi a que Agamemnon ganhou de Ciniras, rei de Chipre, profusamente decorada. Os gregos davam o nome de mitra a um cinturão largo. Quando em combate, davam preferência a um tipo especial chamado zoster, que cobria a parte inferior da couraça. 


AQUILES  ,  O   HERÓI

Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro. 

Além da proteção da cabeça, do peito e dos braços, os heróis homéricos usavam uma proteção para as pernas, as chamadas grevas (knemides), uma armadura de metal, composta de placas, que iam do joelho até os pés. As belas grevas de Aquiles, fabricadas por Hefesto, eram feitas de estanho, com fivelas de prata. Para a proteção da cabeça, os heróis usavam o elmo (korys), um capacete feito geralmente de bronze, enfeitados com penachos de crina de cavalos. O penacho do capacete de Aquiles era dourado. 

Depois da morte de Aquiles, as suas armas  deveriam ter sido entregues ao melhor dos guerreiros aqueus depois dele. As armas seriam, então, de Ajax Telamônio, o melhor, excetuando-se Aquiles. Todavia, as armas foram entregues a Ulisses, o que provocou a ira do Telamônio. A competição entre Ulisses e Ajax pelas armas do Pelida foi vencida pelo primeiro, mais por causa da sua eloquência do que pelos seus méritos bélicos. Os chefes gregos que as destinaram ao rei do Ítaca levaram mais em consideração mais o discurso de Ulisses do que as suas virtudes (areté), as suas habilidades no campo de batalha. A prevalecer estas últimas, as armas deveriam certamente ter ido para as mãos do Telamônio. Desta areté, lembre-se, faziam parte, para o herói homérico, não só a vitória, ou seja, a morte do inimigo como o ação de despojá-lo de suas armas, belíssimas no geral, e de ultrajar o seu cadáver. 

A fim de se ter uma ideia de conjunto da Ilíada, para estudo, acho interessante fazer um resumo dos cantos, antes de se explicá-los, com a expectativa de que esta seja a primeira camada de uma leitura que ao correr dos anos vá se estratificando de modo a que novas camadas possam não só ir se depositando sobre a anterior, mas completando-a, alargando-a, consolidando-a e jogando-nos noutras direções. Acredito que já tenha sido possível perceber que a leitura (o estudo, melhor dizendo) dos poemas homéricos é algo que demanda vontade, tempo e persistência.  O estudo dos temas e sub-temas que dele fazem parte se constitui certamente num projeto que se inscreve naquilo que os antigos chamavam de erudição e que lembra também o que entendemos por esotérico. A erudição nos lembra algo que vai se formando, se construindo, e, como tal, é algo que não se realiza nunca. Já o esoterismo aponta para o que é reservado ao interior, a poucos; por isso, por oposição ao exotérico, o que, do primeiro, pode ser difundido no exterior, sempre bem menos do que naquele se contém, se aprofunda e exige. Por isso, o exotérico é acessível a um público bem maior, no geral apenas curioso e diletante. 

ODISSEIA , EDIÇÃO  DE  1815
Cabe ainda lembrar que um bom número dos antigos estudiosos gregos das duas epopeias dividiram-se em dois grupos, os unitários e os separatistas. Os primeiros sempre achando que os dois poemas haviam sido escritos por um mesmo poeta (ou por um mesmo grupo). Os outros eram partidários daqueles que atribuíam uma autoria diferente aos poemas. Para estes, A Ilíada seria efetivamente um poema histórico, épico, ou seja, homérico, enquanto a Odisseia seria mais um romance (o primeiro romance escrito), mais fantasioso, “romanesco”. Unitários ou separatistas, cada grupo, ao longo dos séculos, sempre defendeu o seu ponto de vista com muita garra, recheando-o de muitos argumentos, dados e citações. Já ao tempo dos antigos gregos, observe-se, dava-se o nome de corizontes aos defensores do ponto de vista separatista, do verbo grego chorizein (separar).  


                                                   






terça-feira, 8 de janeiro de 2019

AQUÁRIO (4)

                         
CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO
           
Entre os gregos, a origem do signo de Aquário aparecia ligada principalmente ao mito de Ganimedes. Este nome, em grego, é composto de ganos, líquido brilhante, como o jorro do vinho escapando dos tonéis, e medesthai, verbo que traduz uma ideia de ocupação, de atividade. Ganimedes, “o amado dos deuses”, era o que se ocupava da distribuição do néctar (nektar, em grego, bebida dos deuses), distribuindo-o nos banquetes olímpicos.Transposta essa ideia para os planos terrestres, o vinho tomou o lugar do néctar, palavra que passou a significar qualquer bebida deliciosa. É por essa razão que praticamente em todas as tradições religiosas mediterrâneas em especial e europeias e ásio-menores, em geral, há sempre uma bebida de caráter enteógeno, mais à base do vinho, que transforma o mortal comum num ser religioso.


RAPTO  DE  GANIMEDES, PORTO, PORTUGAL
 (FERNANDES SÁ, 1874 - 1959)

Ao proporcionar a embriaguez divina, o vinho, como os cultos dionisíacos nos mostram, oferece aos que o consomem uma existência sobre-humana e atesta neles a presença real da
EUCARISTIA
divindade. É ainda nesse sentido, quando a história de  Cristo, que viveu uma paixão e uma ressurreição,  que o mito de Dioniso pode ser evocado, quando o deus grego declarou que era a cepa. As imagens se unem então no cristianismo: a seiva como a Luz do Espírito, o fruto como a eucaristia e o vinho como o sangue de Cristo.

Na epístola aos coríntios, por exemplo, S.Paulo, um aquariano, ao discorrer sobre o significado da ceia ritual judaica à qual Jesus imprimira um novo sentido, a Santa Ceia, fala que o cálice da bênção e que o pão partido eram, respectivamente, solidariedade com o sangue e com o corpo de Cristo. Ambos eram solidariedade com o corpo de Cristo, porque os que do banquete participavam transformavam-se num só corpo. Quem participava do banquete sacrificial tornava-se solidário com todos. Todas estas ideias nos apontam para um fundo comum mítico, astrológico (aquariano) e religioso ao qual cada cultura deu um tratamento particular, específico.


SANTA  CEIA ( PHILIPPE  CHAMPAIGNE , 1602 - 1674 )

A figura de Ganimedes sempre apareceu associada a banquetes, refeições aparatosas e com muitos participantes. Os banquetes, na antiguidade greco-romana, lembremos, significavam a participação num rito, num projeto ou numa festa que caracterizava o lugar de sua realização como um espaço de trocas onde a distinção de classe ou de raça podia ser superada (outro tema caro a Aquário), compartilhando-se não só a comida. Os primeiros cristãos adotaram o nome grego ágape (banquete) para designar o rito eucarístico, a comunhão, através do qual partilhavam a mesma graça e a mesma vida. Às refeições comuns também era dado o nome de ágape, adquirindo também o termo o sentido de caridade.

Ganimedes, no mito grego, era um belíssimo jovem, que exercia a função de pastor, tomando conta dos rebanhos do pai, Trós, numa versão, e de Laomedonte noutra. O primeiro, conforme Homero (Íliada), era o ancestral epônimo da raça troiana, casado com a mãe do jovem, Calírroe, uma filha do deus-rio Escamandro. Laomedonte era um rei da antiga Troia (Troada e Dardânia), casado com várias mulheres. Laomedonte teve inúmeros filhos, destacando-se dentre eles Podarces (futuro rei de Troia, com o nome de Príamo), Hesíona e Ganimedes. 

Na versão em que Laomedonte é tido como pai de Ganimedes, consta que ele recebeu, como presente de Zeus, para se consolar pela perda do filho, através de Hermes, dois cavalos maravilhosos, nascidos do sêmen do vento Zéfiro e de uma das Harpias, cavalos que, devido à sua espantosa velocidade, podiam galopar sobre as águas. Prometeu mais ao pai do jovem que o imortalizaria, o que fez, colocando-o nos céus entre as constelações do Zodíaco.
GANIMEDES  SERVE  VINHO  A  ZEUS / ÁGUIA
Qualquer que seja a versão sobre a paternidade do jovem, o que fica do mito é que, notado pelo Senhor do Olimpo, deslumbrado pelo seu esplendor físico, Ganimedes foi raptado por ele na forma de uma águia, perto de Ílion, e levado para a mansão olímpica. Conforme já exposto quando tratamos das constelações boreais, Aquila tem a ver com a forma alada tomada por Zeus para raptar o jovem Ganimedes. Essa constelação estende-se de 12º Capricórnio a 15º Aquário, sendo sua principal estrela Altair, de 1ª magnitude, atualmente sensibilizando o grau 1º04´ desta última.



A  ÁGUIA  E  GANIMEDES

Ganimedes tornou-se, assim, o escanção (servidor de bebidas) dos deuses e também escravo erótico de Zeus, substituindo Hebe (filha de Zeus e de Hera) na primeira função. Para celebrar o acontecimento, Zeus, instaurando no mito uma das práticas mais vezeiras nas relações homossexuais (presentes dados pelo erasta ao pupilo), ofereceu ao jovem um aro (anel), símbolo da união; um galo, ave que espanta as trevas noturnas ao anunciar a aurora; e um par de asas, símbolo de elevação. O galo, como se sabe, por suas características solares, é também um poderosos amuleto contra pesadelos. Foi nesta condição, de um ser alado, celeste, que Ganimedes passou a desempenhar as suas funções de escanção nas reuniões olímpicas. É nesta representação algo andrógina,angelical,que o jovem troiano, imortalizado por Zeus, seria colocado depois, como se disse, no Zodíaco entre os signos de Capricórnio e de Peixes.

Toda a história de Ganimedes, como se pode constatar sem muito esforço, é um relato sobre muitos temas que fazem parte do universo aquariano. A palavra escanção, como sabemos, não é de origem grega. Foi introduzida no nosso léxico a partir do gótico, skanja, do céltico, escanzaria, do alemão, schenk, ou do baixo francês pelo latim medieval, skankjo, segundo as várias hipóteses sobre a sua origem.O banquete, entre os gregos antigos, era realizado em muitas ocasiões, como sabemos, nas festas de casamento, nas cerimônias fúnebres e nas reuniões sociais e culturais. Nestas últimas, de modo especial, o banquete se integrou à filosofia como uma reunião durante a qual os convidados bebiam vinho e sobretudo conversavam sobre temas variados, filosóficos. Este banquete era chamado de symposion (posis, em grego, é ação de beber, gole de bebida), sendo presidido, dirigido, por um “symposiarkhes (simposiarca), encarregado de manter as conversas “acesas”, dosando, para isso, o teor alcoólico do vinho distribuído entre os convivas. Em Portugal, usa-se a palavra escanção para designar o profissional dos vinhos em restaurantes, incluída a
SOMMELIER
responsabilidade pela cave. No Brasil e no resto do mundo, a palavra usada para o desempenho dessa função é sommelier. Esta palavra, etimologicamente, quer dizer “encarregado das bestas de carga”. Depois, o nome foi aplicado àqueles que exerciam a função de supervisionar a mesa, os víveres e as bebidas numa comunidade. Na figura do escanção unem-se duas ideias caras a Aquário, banquete, participação comunitária, e circulação de energia (vinho) que a todos una. 

O vinho enquanto “sangue” da vinha nos remete a uma ideia de princípio vital considerado sob o ponto de vista espiritual, isto é, da totalidade. Assim como o sangue através da circulação arterial energiza os órgãos do corpo, fazendo-os funcionar corretamente em
DIONISO ( CARAVAGGIO , 1571 - 1610 )
benefício do todo, assim o vinho, bebida da imortalidade leva à transcendência do individual em direção do coletivo, da humanidade, do todo. Astrologicamente não nos esqueçamos que Urano, regente de Aquário, se exalta em Escorpião, signo no qual “vive” o deus Dioniso, o “inventor” do vinho. Aliás, o vinho em todas as tradições sempre teve também um valor cultural superior, favorecendo, àqueles que sabem consumi-lo, uma forma de convívio inteligente, culta. 

SYMPOSION
É nesta perspectiva que se coloca a obra (diálogo) de Platão, de modo especial o seu Symposion, O Banquete, em português (péssima tradução), que tem por cenário uma reunião patrocinada pelo poeta Agathon, da qual participam os seus amigos. Nessa reunião são abordados os temas do amor à ciência e ao belo. Cada um dos convivas faz um elogio ao amor, tomando Sócrates depois a palavra para fazer um elogio à beleza e uma reflexão sobre o amor aos belos corpos e às belas almas, depois às belas obras humanas, às belas-artes, à ciência e, por fim, à vida espiritual superior.

O “líquido” que hoje circula nos meios aquarianos nada tem a ver com aquele a que o mito se refere. O “verdadeiro” líquido aquariano significava então aproximação, contacto, união, presença, que não anulava as individualidades, mas que levava a uma participação comunitária. A energia aquariana, no seu mais
WORLD  WEB  WILDE
alto grau de eficiência, circula hoje, como sabemos, na Internet, formando uma rede mundial de computadores interconectados (WWW-World Web Wilde), que parece unir os que a usam, todos “linkados”, mas que, no fundo, os separa cada vez mais (outra contradição aquariana), vivendo todos numa “realidade” fragmentada de informações, sem nenhuma possibilidade de controle do todo. 

A relação entre a futura era de Aquário e a homossexualidade é um dos temas mais explorados pela cultura moderna, tanto a erudita como a de massa, como todos podemos constatar, principalmente com relação a esta última. Teatro, música, cinema, artes plásticas, desfiles, paradas, espetáculos, tudo foi permeado. Muito do que se produziu nessas áreas, inclusive na cultura erudita, acadêmica, tem como ideia básica a proclamada “homossexualidade dos antigos gregos”. Temos, contudo, que ter muito cuidado quando nos aproximamos dessa “unanimidade” que veio dos gregos. Até que ponto a antiga sociedade grega era realmente permissiva com relação à prática homossexual?

É claro que encontramos diversas demonstrações dessa forma de desejo, presentes não só na mitologia, na arte, na filosofia, na poesia, no teatro, na cerâmica e nos grafites gregos. É o caso de que
AQUILES   E   PÁTROCLO
ora tratamos, o rapto de Ganimedes por Zeus, transformado por ele em seu escravo erótico no Olimpo. Se nos voltamos para Homero, lá temos Aquiles e Pátroclo, heróis da Ilíada, vivendo uma comovente e delicada relação homoerótica. Sócrates (ou Platão?), já sexagenário, transforma a pederastia em pedagogia, iniciando o belo Alcebíades nos prazeres da carne e do espírito. Platão, Aristóteles, Alexandre Magno, Aristófanes, Epaminondas, Sófocles e outras importantes figuras históricas do mundo grego foram praticantes do amor unissexual conhecido também ao longo dos séculos como “amor grego”, “amor dórico” ou “amor socrático.”

Além disso, quando falamos da Grécia devemos lembrar que sua história se estende por cerca de 2300 anos, desde a chegada das tribos indo-europeias ao seu território até o denominado período romano. O que temos de mais consistente e sério sobre a homossexualidade grega nos vem da produção de uma elite cultural, os chamados helenistas, que se voltou sobretudo sobre o período clássico da história grega, cerca de 150 anos, dentro da qual está o período em em Péricles governou, entre os séculos V e IV aC., quando Atenas era por excelência a polis grega. 

No mais, quanto ao homem comum, ao longo de todos os demais séculos, a homossexualidade parece não ter sido unanimemente aceita. Havia em muitas cidades gregas legislação que punia até pesadamente a prostituição de um modo geral, inclusive a masculina. Não podemos esquecer por outro lado que a maioria dos scholars (os ingleses do período vitoriano, principalmente (segunda metade do séc. XIX e princípio do séc. XX) que se voltou para o estudo da homossexualidade grega era homossexual e procurou “dourar” de algum modo a sua abordagem, muito erudita sempre, revestindo-a às vezes até de grande charme, com farta riqueza de informações.


AQUÁRIO, ILUMINURA MEDIEVAL
As asas de Ganimedes explicam que o fluxo de Aquário não é líquido, mas aéreo, etéreo, lembrando as suas “águas” o oceano fluído que envolve o planeta Terra, com os seus variados tipos de ondas eletromagnéticas, regiões, níveis e frequências. Aquário, por isso, se liga ao fluído, ao volátil, à elevação, à emancipação, ao afastamento dos planos terrestres. Ganimedes, por sua vez, implica ideias de distribuir, de fazer circular o “líquido” da imortalidade (o vinho, recomendado por cardiologistas), para que sejam estabelecidas formas superiores de vida, fraternidade, altruísmo e igualdade. No corpo humano, lembramos, esta função cabe aos vasos sanguíneos, sendo os mais importantes as artérias, fortes e flexíveis, que transportam o sangue oxigenado no coração, distribuindo-o pelo corpo. Dentre as artérias, a principal, como sabemos, é a aorta, que no nasce no ventrículo esquerdo do coração. Astrologicamente, como se sabe, o coração é do signo de Leão, sendo as artérias governadas pelo signo de Aquário, oposto àquele.

Se astrologicamente a história de Ganimedes tem relação como o elemento ar, alquimicamente ela se relaciona com a sublimatio, palavra que indica elevação, movimento ascendente, como, aliás, a figura alada, o anjo, que representa o signo, sugere. É neste sentido que o anjo é uma das melhores representações do aquariano espiritualizado. 

Em todas as tradições, no antigo e no novo testamento, nas teorias religiosas egípcias, persas, indianas ou chinesas, por exemplo, encontramos a crença em seres espirituais superiores à natureza humana. A criação, segundo essas teorias, é concebida numa gradação em que o topo, imediatamente abaixo dos deuses, é ocupado por esses seres de substância incorpórea, espíritos puros, enquanto os humanos, duplos, são formados por matéria e espírito, corpo e alma, vivendo presos à Terra.

As características de leveza, souplesse, facilidade para se deslocar através de impulsos para diante e para cima a partir de um movimento peculiar dos tornozelos, faz com que o andar de muitos aquarianos (principalmente os que têm o ascendente no signo) lembre às vezes uma vitória sobre as forças da gravidade. Os tornozelos, segmentos ósseos em cada um dos membros inferiores, situados entre a perna e o pé, são conhecidos desde a antiguidade como o “segundo coração”, já que por eles é possível avaliar em que condições está a circulação arterial de alguém.


Particularmente importante no tornozelo é um ligamento (correia de transmissão do sistema locomotor) chamado tendão de Aquiles, que realiza a inserção dos músculos posteriores da perna sobre o calcâneo. O poder de impulso está nele, do qual dependem os saltos, sendo um símbolo da ascensão, da elevação. Aquiles, o maior dos guerreiros da mitologia grega, invencível, modelo do infante, o que combate a pé), um dos mais acabados tipos astrológicos arianos, como se sabe, tinha como ponto vulnerável no seu corpo este ligamento, o mais forte do corpo. Os gregos e os romanos antigos viam uma analogia entre asas e tornozelos. Ambos lembram desmaterialização, ultrapassagem, liberação, transcendência. O deus Hermes tinha pequenas asas nos tornozelos, razão pela qual superava qualquer obstáculo que encontrasse, transpondo-o. Astrologicamente, as asas de Hermes nos tornozelos significam não só a capacidade de deslocamentos rápidos mas força de elevação (exaltação de Mercúrio em Aquário). 

 
AQUILES  FERIDO .  ESTÁTUA  NOS  JARDINS  DO  ACHILLEION

Segundo o ensinamento da Angeologia, os anjos foram criados em um estado de graça, de felicidade e com a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Alguns, como temos no cristianismo, por exemplo, pecaram por orgulho e foram condenados a um suplício eterno; transformaram-se em demônios, seres que empurram os humanos na direção do mal. Cada ser humano é ajudado na via do bem por um anjo da guarda, chamado também de custódio, símbolo da consciência superior. Simbolicamente, os anjos são potências
LUDWIG KNAUS
1829-1910
invisíveis e correspondem na escala dos valores humanos aos mais altos, à mais elevada espiritualidade, pois podem frequentar a região etérica, onde vivem os deuses. Num nível muito abaixo, nessa escala de valores, mergulhados no mundo da matéria, que a Lua separa da região etérica, sem liberdade alguma, portanto, sujeitos às pressões dos seus corpos mental, emocional e físico, encontramos o resto da humanidade. A iconografia representa os seres que estão no topo da referida escala com asas, testemunhando sua essência imaterial, geralmente com vestes brancas, talares. Os demônios, lembremos, sob o ponto de vista psicológico, representam no ser humano as suas funções inferiores, agindo na sombra do inconsciente.

SUBLIMATIO
A sublimação alquímica, sempre vivida simbolicamente, é experimentada por muitos aquarianos através de imagens ascensionais, segundo a posição que ele ocupe na escala de valores do signo a que estamos nos referindo. Quanto mais espiritualizado o aquariano, mais o “angelical” o domina, menor o poder da matéria, passando ele a viver num plano de abstrações, deixando, como dizia Schopenhauer, de lutar, sofrer e morrer como um animal. Esta ascensão permitirá que ele se situe acima das coisas mundanas, adquirindo assim a habilidade de dissociar, de discriminar. Nem sempre, porém, esta sublimação “angelical” é atingida. Daí encontrarmos muitos aquarianos, conforme o nível que ocupem na referida escala, repetimos, “vivendo” os seus símbolos através de atividades que impliquem alguma forma de elevação, trabalhando no mundo da aeronáutica (militares da força aérea, empregados em empresas de aviação, maníacos por naves espaciais, aviões, zepelins, foguetes, balões, planadores, filmes, ficção científica, literatura etc.) Nas expressões inferiores do lado “angelical” comum a tendência aparecer através de colecionadores de anjinhos, de modelos de aviões, de foguetes etc. 

Tudo o que libera o homem, elevando-o do solo ou levando-o a percorrer horizontalmente toda superfície terrestre, rompendo fronteiras e limites, indiferenciando-o, individualizando-o ao máximo, se liga de algum modo a Aquário. Nestes casos, porém, há sempre o perigo do aquariano inflar demasiadamente o seu ego (leonino), sonhando alto demais, ou de não dominar adequadamente os meios técnicos que emprega para a sua ascensão. São estas duas configurações que costumam dar origem a duas grandes distorções em tipos do signo, gerando o aprendiz de feiticeiro e o delirante.


O  GOLEM  COMO  VEIO  AO  MUNDO
FILME  DE  PAUL  WEGENER , 1920

O primeiro, como se sabe, costuma precipitar tragédias, como no caso já descrito do Golem, pela busca de metas “impossíveis” ou pela inabilidade ou desconhecimento quanto ao uso das técnicas disponíveis tendo em vista o fim colimado. Já o segundo tipifica o aquariano que sofre do chamado delírio sistematizado, sistema logicamente organizado de ideias delirantes, que se instala sem sinal claro de demência, no qual grande número de funções perceptivas e cognitivas pode permanece intacto, mas ativados em níveis que parecem querer (ou querem mesmo?) ultrapassar os limites do humano. As manifestações deste segundo tipo podem ser detectadas em várias expressões aquarianas, mais ou menos logradas, expressões que elegem símbolos de caráter ascensional,como o da águia, por exemplo. 

A união da águia com a proposta visionária aquariana, com o objetivo de antecipar de algum modo o futuro, traço aquariano notável, nós a encontramos na atividade dos áugures do mundo greco-latino que traduziam o voo e o canto da águia em profecias. O delírio poético que tem no chamado condoreirismo (uma distorção do Romantismo, movimento artístico tipicamente aquariano) uma de suas mais pomposas, grandiloquentes, bombásticas e banais elaborações é também um bom exemplo.

Como traço de personalidade, o delírio aquariano tem um dos seus exemplos mais interessantes na tendência que muitos do signo apresentam no sentido de compensar a sua “fraqueza” solar (o Sol se exila em Aquário), que os faz sentirem-se inferiorizados por alguma razão (sentimentos sempre geradores de medo e ressentimentos reprimidos), por uma supercompensação, na linguagem psicanalítica. É isto que leva muitos aquarianos enquadrados neste exemplo para o outro polo. Vão de um disfarçado complexo de inferioridade (o de não serem “bons” em alguma coisa, uma limitação física, um problema de relacionamento, um mental não à altura de suas pretensões) para um complexo de superioridade. Procuram ser os melhores em alguma atividade (baterem recordes, se tornarem “únicos”, 
URANO

paradigmas, excêntricos etc.), superarem alguma marca, limite, no fundo sempre uma defesa contra o complexo oposto. É isto que aproxima tão perigosamente o sábio solitário (aquariano superior) do louco, igualmente solitário, perdido nos seus delírios paranoicos (lembremos que o símbolo de Urano é construído com duas Luas). 

Partindo destas considerações é que podemos ver Diógenes, o Cínico (413-327),como um dos  mais perfeitos tipos aquarianos da história da filosofia. A tradição nos fala de seu espírito cáustico, de seu desprezo pelas honras, pelas riquezas e por todas as convenções sociais, e da sua busca por uma vida sóbria e natural. Pés nus e envolvido por uma túnica, sua única vestimenta, vivia dentro de um grande tonel, símbolo evocador de abundância, de espontaneidade, sempre associado à palavra grega ganos, jorro do vinho. Tendo visto um menino beber na concha que fazia com uma das mãos, quebrou Diógenes a única tigela que possuía, alegando que o garoto lhe dera uma grande lição sobre o que era supérfluo na vida. 

A Alexandre Magno, que, curioso, o procurara em Corinto, perguntando-lhe o que ele desejava na vida, que ele tudo lhe daria, pediu apenas ao imperador que se afastasse um pouco de sua frente
 DIÓGENES
(ANTÔNIO ZANCHI, 1631-1722)
para que pudesse, sentado como estava, continuar a receber a luz do Sol. Famosos eram os seus passeios por Atenas quando, à luz do dia, com uma lanterna mão, saía, segundo dizia, para procurar “um homem.” Os cínicos, como se sabe, usavam de forma polêmica a vida canina (kyon, kynis, cão, em grego) como um modelo prático de virtudes, descaso pela vida social e moral vigente, espontaneidade, desfaçatez, despudor.