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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VIRGEM (3)


CATEDRAL   DE   CHARTES
Dentro deste universo simbólico não nos surpreende o rito praticado, em tempos muito remotos, por sacerdotes gregos e romanos, que costumavam lançar grãos de trigo sobre as vítimas humanas imoladas para se garantir o renascimento dos vegetais, as próximas colheitas. Tal rito era, em suma,   uma prática que lembrava a imortalidade, a ressurreição. Além disso, explicava-se por esse rito também a razão  de se trazer espigas de
ESPIGAS   DE   TRIGO
trigo para o interior das casas com o objetivo de proteger tanto o edifício como os que nele viviam.  Presas à viga mestra das casas, quando de sua construção, as espigas de Deméter asseguravam não só solidez à construção como paz e prosperidade para os seus moradores.

É de se lembrar, quanto ao uso de espigas no interior das casas, como está acima, que os gregos antigos usavam também, com a mesma finalidade, mas na parte externa da construção, um elemento a que davam o nome de acrotério (de acro, ponta). Situados no mais elevado do frontão das construções, dentre os elementos mais usados como acrotérios (vasos, estatueta, bolas, imagens de animais etc.), encontramos a pinha, um símbolo do deus Dioniso. 

PINHA
A pinha, como se sabe, enquanto dionisíaca, é um  símbolo da vida sob a sua forma imperecível. Consagrada a várias divindades, mas principalmente a Dioniso, a pinha representa a permanência da vida vegetativa, a alternância das estações e a ressurreição da natureza. O longo bastão de Dioniso, o chamado tirso, atributo do deus e de suas sacerdotisas, era rodeado de hera, de flores da vinha e de cachos de uva. No topo, para a sua empunhadura, uma pinha encimava-o.  

Ao se apoderar da história de Deméter, a psicologia profunda vê no arquétipo por ela descrito um comportamento neurótico. As neuroses, como sabemos, constituem um conjunto de problemas de origem psíquica que, dentre outras características, costumam se manifestar por um comportamento compulsivo, de caráter obsessivo. Diferentemente da psicose (transtorno mental caracterizado por desintegração da personalidade, conflito com a realidade, alucinações, ilusões etc.) a neurose conserva uma referência à realidade, liga-se a situações circunscritas e gera intensas perturbações sensoriais, motoras, emocionais e ou vegetativas. 

O arquétipo materno liga-se, inconscientemente, no ser humano, aos elementos passivos, negativos, à água e à terra, entendidas estas como as matrizes que deram origem à vida. A primeira sempre foi divinizada por todas civilizações como o princípio de todas as coisas. A noção de águas primordiais existe em todas as culturas, simbolizando origem, purificação e regeneração. A terra é a
KNUM
substância universal, prima matéria, separada das águas, e é dela que sairá o homem. Este é o significado da argila como matéria que será utilizada, por exemplo, pelo deus Knum, entre os egípcios, para fabricar o homem. Ou, como está no Gênese, quando Elohim modelou uma estátua de argila vermelha, à sua semelhança, e nela insuflou uma alma. As palavras hebraicas adamah (terra) e adom (vermelho) têm relação com o primeiro homem criado, Adão, segundo esta tradição. 

Deméter tem a ver com as estações, com os trabalhos agrícolas, com a semeadura, com o crescimento das sementes, com os campos trabalhados, com as colheitas e com os celeiros. Sua função materna é importante, mas limitada, pois sofre uma violência, o rapto de sua filha, Koré. Esta violência é a causa da sua neurose, acima referida. Um detalhe muito importante desta história é que essa perda é apoiada e até incentivada pela própria Geia, avó de Koré, a Grande Mãe Universal, como está no hino homérico a Deméter. 


RAPTO   DE   KORÉ  ( ALESSANDRO  ALLORI , 1533 - 1607 )

Lembremos que Deméter é particularmente honrada na Sicília, pois é considerada como a sua divindade protetora. A deusa, na Sicília, representa um caso notável de associação de antigas crenças. Não só os antigos colonos gregos da ilha a ligaram a uma antiga deusa local da fertilidade como lá reconstruíram o mito. A jovem Koré estava em companhia de algumas ninfas oceânidas quando, ao colher narcisos, foi raptada por Hades, o Senhor dos Infernos, que estava à procura de alguém, uma deusa, que com ele pudesse compartilhar o poder sobre o seu reino.

Deus temido, soberano de um mundo invisível, lugar sem saída (salvo para os que acreditavam na reencarnação), mergulhado eternamente no frio e nas trevas, povoado de monstros, de
KORÉ    E    A   ROMÃ
espectros e de fantasmas, com os seus rios, antros e cavernas nos quais perambulavam as almas dos danados, Hades resolveu seu problema pelo sequestro. Sob o protesto de Ciane, uma das companheiras de Koré, transformada numa fonte por isso, arrastou a jovem para o seu reino, colocou nas suas mãos sementes de romã, símbolo da fidelidade conjugal, e fez com que ela as engolisse. Koré as experimentou e parece ter gostado.  Com isso, ficou “presa” definitivamente ao Hades. 


TRAPANI
Na versão siciliana do mito, consta que durante nove dias Deméter errou pelas terras da ilha à procura da filha desaparecida. Na sua passagem, ela foi deixando marcas por onde andou. Há um promontório foiciforme perto de Trapani que os sicilianos dizem ter sido originado pela perda de uma foice que Deméter, como deusa das colheitas, usava. Contam ainda que por causa de Deméter os tremoços, antes adocicados, amaldiçoados pela deusa, tornaram-se amargos e tóxicos. A deusa os amaldiçoou porque, ao perambular pela ilha à procura de Koré, interpretou como gozações, chacotas, os ruídos que as plantas da leguminosa emitiam quando de sua passagem. 

No seu desespero, não encontrando a filha, Deméter provocou uma seca terrível em todo o mundo. Homens e bestas começaram a morrer. Os deuses deixaram de receber sacrifícios. Zeus intercedeu e obrigou Hades a devolver Koré à mãe. Mas a jovem já havia experimentado as “sementes de romã”. Assim, ligara-se ao Senhor dos Infernos. Um acordo, então, é celebrado. Ela passaria uma
MINTHE
parte do ano com ele e outro tanto com a sua mãe. Uma prova de que Koré, já transformada em Perséfone, se afeiçoara bastante ao Senhor do Hades está na tenaz perseguição que ela moveu contra uma ninfa que mantinha relações com ele. Enciumada, Perséfone pôs-se a maltratá-la. Hades, contudo, não desejando perder a amante, a levou para as montanhas e a transformou numa planta, a hortelã perfumada e refrescante, com o nome de Minthe. 

Há uma outra versão sobre o caso acima. Como Koré, já como Perséfone, se afeiçoara bastante com o Senhor do Inferno, Deméter resolveu intervir a favor da filha, condenando a planta (hortelã pimenta, mentha piperita) a não gerar frutos, advindo daí a dupla reputação que a menta tem para os povos mediterrâneos: um caráter funesto, considerada como uma planta que ao mesmo tempo que causa a esterilidade tem um caráter afrodisíaco. 

Hipócrates, Aristóteles e Plínio, o Velho, acreditavam que a menta atuava como anticoncepcional. Grande parte desta aura que cerca a menta pode ser atribuída a uma lenda cristã. Consta que quando o menino Jesus e sua mãe fugiam de Herodes a menta os denunciou (felizmente em sottovoce e não foi ouvida), razão pela qual Maria a amaldiçoou: Tu és menta e tu mentirás sempre; florirás, mas não darás frutos.

Do ponto de vista de Geia, a Grande-Mãe, os elementos e acontecimentos desta história, sedução, rapto, “ingestão” de sementes de romã por Koré, a presença de Minthe, a ninfa do Hades, a indiscrição de Ascálafo eram irrelevantes. Não tinham a grande importância que lhes foi dada por Deméter e, a princípio por
LAGO   DE   PERGUSA
Koré. A “perdição” da jovem, como ficou claro em Homero, foi apoiada pela própria Geia que, inclusive, dela participou indiretamente ao cultivar as flores que ajudaram Hades a raptar a jovem. O rapto, segundo a tradição mais confiável, ocorreu na Sicília, perto do lago de Pergusa, sob os protestos das companheiras, em especial de Ciano, transformada por Hades numa fonte. 

Para Geia, o rapto de Koré e a sua sedução eram fatos naturais, tão naturais como o nascimento e a morte, que ela sempre enfrentara com tranquilidade e resignação. Suas experiências com Urano, neste particular, ainda que violentas, ela bem o sabia, faziam parte da ordem natural do mundo, na qual as violações apareciam como necessárias, inevitáveis. 

Num primeiro momento, Deméter simboliza uma fase muito importante na história da humanidade na medida em que ela, na
ELÊUSIS  -  GRÉCIA
linha sucessória das Mães ligadas à terra, vindo depois de Geia e de Reia, representa o aparecimento da agricultura com o consequente processo de sedentarização, isto é, o abandono da vida selvagem, nômade, coletora pela vida social mais organizada. Num outro plano, a mensagem mais importante deusa, através de Elêusis, é a da imortalidade da alma e a da sua eterna ressurreição depois da morte. 

Como se não bastassem essas possibilidades significativas, lembremos que Deméter ensinou aos homens a arte de plantar e de colher, atividades que dependem sempre de uma elevada capacidade discriminatória. O agricultor tem que ter, numa ponta, para plantar, a clara noção do lugar em que o fará, do tipo de solo, da estação, das condições climáticas, da qualidade das sementes e dos demais cuidados necessários. Noutra ponta, clara noção do momento oportuno da colheita, dos meios disponíveis para tanto, do que e onde o colhido deverá ser armazenado e do fim a lhe ser dado. Entre as duas pontas, os cuidados permanentes para que tudo o que foi plantado venha à luz da melhor maneira possível. 


A   COLHEITA  ( BRUEGEL , 1521 - 1569 )

A capacidade discriminatória de Deméter, numa visão mais apressada, parece dizer apenas ao que ocorre na “superfície”, à percepção das diferenças nele constatáveis, visíveis. Entretanto,
PERSÉFONE   E   HADES 
lembremos que o “outro lado” de Deméter é  Perséfone, e que elas, no fundo, são a mesma coisa. Assim, enquanto uma atua em cima, a outra atua em baixo. Por isso, a percepção de Deméter deverá implicar  também, sempre, a percepção do que ocorre no mundo inferior, o mundo do “não-visto”, do invisível. Ou seja, notar as diferenças no mundo de cima e ter, ao mesmo tempo, uma percepção do que é  invisível, que está no mundo inferior. 

O que acontece, porém, com relação a Deméter, como o mito desenha o arquétipo, é que ela não tem esta percepção “inferior”.
HÉCATE
Quando perde a filha, ela se torna depressiva.  Decreta a seca universal, nega o futuro. É a velha máxima da psicologia: se não posso ter o que desejo, destruo tudo e/ou me autodestruo. Sob o disfarce de um animal (tema já abordado acima) e de uma velha, Deméter perambulou pela terra, desesperada; deixou de tomar banho, não se alimentou, até encontrar Hécate, a deusa lunar triforme que lhe disse também ter ouvido os gritos da jovem, mas que não lhe fora possível reconhecer o raptor. Sugere Hécate que ela vá ao deus Hélios, que tudo via, já experiente nessas questões (a revelação do affaire Ares-Afrodite). Assim foi feito, cientificando-se então Deméter das circunstâncias do rapto de Koré e de seu autor. 

O comportamento de Deméter é reconhecidamente neurótico, como se disse. Desespero e depressão quando perdida a filha. Contentamento, pulos, “esquecimento” do drama vivido, quando a recuperou. A história de Deméter nos revela também, por essa linha de raciocínio, que, acima de tudo, a vida adquire um significado em função do que sentimos. São eles, os sentimentos, os doadores da vida. De bem com a vida, Deméter é benevolente, dadivosa. Mal com a vida, quando tem que lidar com o “lado ruim da vida”, é depressiva, agressiva, negativa, destruidora. Esse jogo normalidade/anormalidade nos introduz numa questão importante dos arquétipos, a de que todos têm também a sua patologia. Ou seja, num único e mesmo arquétipo podemos ter a sua patologia e a sua terapia.  


DEMÉTER
Quando recebemos os dons de Deméter, precisamos ficar cientes das dificuldades que eles nos oferecem, das suas implicações inconscientes, na maioria das vezes. A única maneira de percebê-las será ir em direção do Hades. Uma  das formas que usamos para representar as nossas perdas é o luto, tanto uma autopunição como uma punição com relação àqueles que fazem parte do mundo em que vivemos.

O “luto” de Deméter é representado pela cor negra, que caracteriza, numa “leitura” apressada e superficial, as trevas, a tristeza, a morte, a negação absoluta, o silêncio sem vir a ser. Os gregos e os romanos faziam da cor negra um símbolo do luto, cor das penas e das angústias da alma. No simbolismo ocidental e cristão, principalmente, o negro sempre foi usado como cor funerária, o “luto sem esperança.” A tradição ocidental atribui ao negro uma significação nefasta conforme o atestam expressões como “ideias negras”, “humor negro”, “besta negra”, “filme noir” etc. O negro designa o sombrio, o triste, o que se opõe ao claro, ao alegre, ao luminoso. 


A   FESTA   DE   AFRODITE  ( P.P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os conflitos entre os cultos de Deméter e de Afrodite encontram aqui a sua explicação. Koré, lembremos, foi raptada quando colhia flores, que, no mito, “pertencem” a Afrodite, a deusa das forças incontidas da fecundidade enquanto símbolos do desejo apaixonado. Afrodite é o prazer dos sentidos, da sexualidade que independe da procriação. É a alegria de viver, a atração voluptuosa, a sensualidade, a sedução, a celebração das trocas, a comunhão afetiva, o encanto, a beleza, a graça. O seu poder fala de ternura, de
PAPOULA
carícias, de doçura, de tudo que signifique prazer e beleza. É por essa razão que nos cultos de Deméter as flores estavam proibidas (oposição Touro-Escorpião). Apenas uma flor era admitida nos cultos de Deméter, a papoula, pois a deusa, quando desesperada, por sugestão divina, para se acalmar, tomara uma infusão preparada com as pétalas da flor (mekhon) que, representava em Elêusis, o sono, o esquecimento, inclusive o sono que se apoderava dos humanos depois que morriam até um eventual renascimento. Certas correntes míticas vêem a papoula como um personagem, por ela amado, metamorfoseado em flor.


NIX  ,  THANATOS  E  HIPNOS

O efeitos narcóticos da papoula são conhecidos pelos gregos desde a mais remota antiguidade, um atributo, no mito, pertencente aos deuses Hipnos, Thanatos e Nix, todos usando coroas feitas com a flor. Por seu caráter alucinógeno (extrai-se ópio da papoula), a papoula era uma flor sagrada, pois permitia viagens  extracorporais, viagens que sem uma orientação adequada podiam levar a viagens sem volta. 

A história de Deméter ganha outra dimensão se lembrarmos que ela “nega” com todas as suas forças o mundo “inferior” (Hades) ao se apegar neuroticamente (destrutivamente) ao mundo “superior”. Sua visão é  completamente diferente da de Geia, que “sabia” que os dois mundos são uma coisa só". Deméter perde a sua escala de valores (o que vale é só o mundo de cima), não há discernimento, discriminação, só desdém. As coisas para ela só valem pelo seu aspecto “de superfície”. Daí, a sua mágoa, a sua violência, quando a privam delas. Uma visão unilateral do signo de Virgem?  


PIETÀ  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

A mensagem astrológica do que estamos colocando poderá ser melhor apreendida se lembrarmos que o signo de Virgem, ao “receber” o ego nascido em Leão, quinta casa, não deverá apenas se fixar nos seus aspectos de “superfície”. Deverá cuidar do “outro lado”, preparando-o para a jornada subterrânea que se inicia neste período do ciclo anual. Uma das grandes imagens desta passagem está, por exemplo, numa das mais belas obras da escultura de todos os tempos, a Pietá, de Michelangelo. Com efeito, o signo de Virgem trata das transformações de nossa personalidade que partem de estados infanto-juvenis para a conquista de uma individualidade mais sábia, mais madura, representada pela fruição da colheita. É a partir de Virgem que começa a nossa reorientação (mal nascido o ego) para interesses mais universais, que, numa primeira etapa, devem passar obrigatoriamente pela vida representada pelo signo de Libra e pela sétima casa astrológica. 

Em Virgem acaba a aventura individual do ser humano. As forças do dia ainda predominam, mas começam a perder o seu poder. Por ser um signo de terra, Virgem nos fala, efetivamente, de coisas práticas (o “prato cheio” de Deméter), mas não há que se perder de vista que o caminho para o universal se abre aqui.  

Deméter, ao decretar a seca, procura eliminar o úmido do universo. Nega as possibilidades de contacto, presa de uma “ira vã e
HOMERO  ( MUSEU  DO  LOUVRE )
insaciável”, como está em Homero. A deusa, ao assim agir, nega o futuro. O quadro, como disse, é depressivo, neurótico, parecendo retirado da psiquiatria moderna: ela não se banha, deixa de comer, realiza tarefas que estão claramente muito abaixo de suas habilidades, anula a sua beleza, disfarçando-se, nega a sua própria sensualidade, foge do seu ambiente natural, o campo, procura a polis. 

ÍRIS ( L.GIORDANO )
Segundo o mito, sabemos que Zeus despachou a deusa Íris para acalmar Deméter, que não se recusou a ouvi-la. Depois, vieram outros deuses. A mesma resposta: ela jamais poria os pés no Olimpo e não permitiria que nada mais brotasse na superfície da terra enquanto a filha não lhe fosse devolvida.  Zeus, então, enviou seu embaixador plenipotenciário, Hermes, para discutir com Hades a questão e resolvê-la, de modo que a jovem retornasse ao seio materno. Hermes explicou a Hades que se Koré não fosse devolvida à mãe, a “débil raça humana seria aniquilada” e, com isto, os deuses não mais seriam honrados. Explicou mais Hermes que como os deuses “vivem” dos cultos que lhes são prestados e de sacrifícios recebidos, a extinção da raça humana significaria também a extinção dos deuses. Nada mais lógico.

Não houve necessidade de maiores detalhes para que Hades logo se convencesse, sendo-lhe prometido que a jovem passaria uns tempos com a mãe na superfície e outro tanto com ele no mundo ctônico. Consentiu que a jovem retornasse, fazendo-a, porém, ingerir mais
HADES
sementes de romã, o que lhe bastou para deixá-lo tranquilo quanto à certeza de sua volta. Feito isto, Hades mandou atrelar os seus cavalos e a levou no se divino carro até Elêusis. À vista de sua filha, Deméter não conteve a sua alegria. Sua primeira pergunta foi a de que se no Hades havia comido alguma coisa. Conformada com o ocorrido, Deméter e a filha passaram muito tempo trocando afago e demonstrações de afeto. Consta que a deusa infernal Hécate, tia da jovem, participou efusivamente do encontro e que Zeus enviou sua mãe, Reia, (e de Deméter também) com a missão de confirmar tudo o que se estabelecera. 

Deméter, como Mater Dolorosa, e sua filha sempre suscitaram nos gregos uma forte religiosidade. O mito grego segue de perto o modelo egípcio, de caráter osiriano, alterando-o, porém, no sentido
SACERDOTISA E INICIADO
de sua “persefonização”. O iniciado nos Mistérios era chamado também de Demetrios, sendo a filha uma forma regenerada, rejuvenescida, da mãe, quando de seu regresso do Hades. Os Mistérios falavam, pois, de um novo nascimento. A passagem de Koré, jovem rapariga núbil, a Perséfone, deusa dos Infernos, significa uma mudança de estado. Durante muito tempo, lembremos, desde tempos muito remotos, o rapto sempre foi considerado como um ritual matrimonial, um equivalente do estupro, um sequestro da alma. Temos o rapto da jovem pelo seu tio paterno e materno, o consentimento do pai (Zeus), a colaboração de Gaia, a grande ancestral, cujas entranhas se abriram para receber a bisneta. A testemunha de tudo isto é Euboleus (Bom Conselheiro), um porcariço que guardava os animais de Hades na Sicília, no local da cena. No momento em que a terra se abriu, alguns porcos desceram, caíram com Koré no Hades, razão pela qual se instituiu um rito de sacrifício de porcos quando das Tesmofórias, grandes festas anuais que se realizavam em homenagem a Deméter. Nessas festas, de caráter exclusivamente feminino, o mito de Deméter era inteiramente dramatizado, fechando-se o ciclo entre a semeadura e a colheita. 



TESMOFORIANTES  ( FRANCIS  DAVIS  MILLET ,  1848 - 1912 )

Numa outra perspectiva (psicológica), o mito nos fala de um animus infernal (Hades), irmão do animus olímpico (Zeus) que encontra a sua anima (Koré), seu complemento. Hades, ao liberar Koré para voltar a Deméter, profere, segundo o poeta, as seguintes palavras: Vai, Perséfone, volta à tua mãe velada de negro; mas guarda em teu peito um humor e um coração serenos. Não te desesperes. É inútil e em vão. O esposo que terás em mim não é indigno de ti entre os imortais; sou o próprio irmão de Zeus Pai. Quando estiveres aqui, reinarás sobre todos os seres que aqui vivem e se movem; terás os maiores privilégios entre os imortais, e serão castigados todos aqueles que te injuriarem no sentido de não se conciliarem com o teu coração através de piedosos sacrifícios e das oferendas que te cabem.” 


DEMÉTER  E  PERSÉFONE
Esta história de Deméter-Koré-Perséfone-Hades é também, numa outra leitura, uma ilustração que os gregos elaboraram, pela via mítica, para nos falar sobre o aparecimento dessa imagem interior no mundo masculino, a personificação feminina do seu inconsciente a que a psicologia profunda dá o nome de anima. Na anima se reúnem todas as tendência psicológicas femininas do psiquismo masculino, os sentimentos vagos, os estados de humor oscilantes, as suspeitas, as inferências, as emoções, a intuição, a sensibilidade para o mundo natural, tudo aquilo enfim que não pode ser objeto de quantificações,  de medições, de valorização objetiva. Neste sentido, Perséfone é, em suma, tudo aquilo que é irracional e ilógico. É neste sentido um poder invisível, distinto da nossa parte consciente. 

Ao se manifestar, esse lado feminino pode tomar diversas formas. Muito comuns as expressões deprimidas, violentas, irritadas, inseguras da anima, quando tomam então um caráter acabrunhante, opressivo, demoníaco, uma ilusão destrutiva muitas vezes. Estas formas sempre  fizeram parte dos mitos, das lendas, da literatura em geral, de contos folclóricos e populares; hoje, estão nos meios de comunicação, em filmes, na ópera, em canções populares, na publicidade, sendo matéria privilegiada de muitos estudos no campo da psicologia. A anima pode tomar aspectos positivos ou negativos. As Sereias da mitologia grega são exemplo da anima  funcionando destrutivamente ao atrair os homens para a perdição ou para a morte. 

EMILY   BRÖNTE
(BRANWELL BRÖNTE)
Esta mesma ideia está presente na mulher com relação ao seu animus, detentor do seu modelo masculino, do seu “homem interior”. O animus é, assim, a personificação masculina no inconsciente da mulher, podendo apresentar aspectos positivos ou negativos, como ocorre com a anima do homem. A influência básica do animus numa mulher tem muito a ver com a figura paterna, uma influência que inclusive pode se chocar a sua própria realidade pessoal. Um exemplo do que aqui se coloca está na figura de Heathcliff, personagem central da

novela de Emily Brönte, Morro dos Ventos Uivantes, transformada num excepcional filme, em 1.939, dirigido por William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon nos principais papéis. Heathcliff é uma figura torturada, demoníaca do animus da autora, espelhada nas figuras do irmão ou do próprio pai.

terça-feira, 24 de junho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO TRABALHO



 
EURISTEU,  CÉRBERO  E  HÉRCULES  
                    
Capturar o cão infernal Cérbero - Filho dos monstruosos Tifon e de Équidna, Cérbero, o cão tricéfalo, cauda de dragão, cheio de serpentes pelo corpo, guardava as portas de entrada do Tártaro, no Hades, onde Plutão e Perséfone viviam no seu palácio.  Cérbero jamais permitia a saída dos que para o Tártaro fossem enviados. A tarefa de Hércules era muito difícil, já que só as almas podiam descer ao reino infernal. Nosso herói, para o cumprimento dessa missão, recebeu, por ordem de Zeus, o auxílio de Hermes, o deus psicopompo. Hermes era a divindade encarregada de transportar as almas para o Hades, reino subterrâneo, para onde elas iam obrigatoriamente, quando do desaparecimento do corpo físico.


O   HADES  

Antes, por sugestão da deusa Palas Athena, Hércules procurou informações sobre o que seria uma catábase infernal, visitando, para tanto, o Santuário de Eleusis. Lá tomou conhecimento de que o Hades era um lugar onde as almas eram julgadas conforme o que tivessem feito os seus donos na sua vida terrena. Um julgamento desfavorável poderia significar a danação eterna para os grandes criminosos e pecadores, como Sísifo e Tântalo, que foram enviados para o Tártaro, o “inferno dos maus”, a região mais profunda do mundo infernal. Ou então poderia significar, se os crimes cometidos não tivessem sido tão graves assim, uma permanência demorada, sofrida, mas provisória, num lugar chamado Érebo. Um julgamento favorável significaria a permanência provisória, isenta de qualquer sofrimento, nos Campos Elíseos, outra região infernal. Nos casos de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elíseos, as almas, depois de beber das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento, poderiam reencarnar.

Sabe-se por Eurípedes e por Isócrates que a iniciação de Hércules
ARISTÓFANES
nos Mistérios de Eleusis era necessária para que ele pudesse cumprir a tarefa que lhe fora determinada, pois os que deles participavam aprendiam a lidar com a morte, aceitando-a como algo natural e não aterrorizante. É de se lembrar que Aristófanes, o comediógrafo, com sua peça As Rãs, usou este episódio da descida de Hércules ao Hades para nos dar um grande trabalho crítico sobre o teatro grego, a tragédia, em especial.

Como Hércules era um estrangeiro (era natural do Peloponeso) e Eleusis ficava perto de Atenas, na Ática, nosso herói teve que ser adotado antes por um ateniense (estrangeiros não podiam participar dos Mistérios), o que de fato ocorreu, e passar por uma purificação por causa da morte dos centauros (sétimo trabalho). Depois dessas providências, sabe-se que a proibição acabou sendo revogada, transformando-se Eleusis num santuário pan-helênico, o que possibilitou que qualquer grego ou mesmo estrangeiros dele pudessem participar. 




Depois dessa iniciação, Hércules em companhia de Hermes, dirigiu-se ao cabo Tênero, na Lacônia, uma das mais conhecidas entradas do Hades na Grécia. Começaram a descer, indo em direção do rio Estige, um dos cinco rios infernais. Estige, etimologicamente o que causa horror, é um rio infernal de águas geladas, sendo enviados para as suas margens as almas dos que haviam cometido principalmente crimes de perjúrio. É de se lembrar que quando da vitória dos deuses olímpicos contra os Gigantes, Zeus, devido à grande colaboração que recebeu de Estige, então a mais velha das oceânidas, lhe concedeu, quando transformada em rio infernal, o privilégio do horkos, ou seja, era em seu nome que os deuses faziam os seus mais solenes juramentos; se os desrespeitassem seriam expulsos do Olímpo, com a ameaça de exílio ou mesmo de uma permanência no Hades. 

HERMES  PSICOPOMPO
As almas que se encontravam às margens do Estige fugiram assustadas, diante da insólita presença de nosso herói. Dali, Hermes conduziu Hércules até o rio Aqueronte, o principal rio infernal, aquele que verdadeiramente dava acesso ao Outro Lado. Tão espantado ficou o barqueiro Caronte que se esqueceu até de pedir o óbolo de praxe, que as almas deviam lhe entregar para poder ter acesso ao palácio dos reis do Inferno. Por causa dessa falta profissional, sabe-se que Caronte passou um ano encarcerado, preso a ferros.

Na ocorrência da morte, a alma (psykhe), desprendendo-se do corpo  físico   (soma),   tomava   a   forma   de   um   eidolon,   uma
NEKYIA
representação que lembrava vagamente o corpo físico. Chamada também de opsis (aparência) ou de skia (sombra), a alma como eidolon conservava de modo latente uma espécie de inteligência que podia ser ativada se os  familiares e amigos do morto procurassem manter a lembrança dele através de determinada cerimônia, regularmente realizada, chamada nekyia, da qual faziam parte sacrifícios e invocações para que fosse possível mantido o devido contacto. Energizadas pelos sacrifícios e invocações, as almas poderiam então falar, geralmente para se queixar e invariavelmente manifestando muito rancor com relação ao mundo dos vivos. 


MAPA   DO   HADES

O rio Aqueronte (etimologicamente, tanto pantanoso, lamacento, como o das dores) era o mais importante do Hades. A ele se juntavam os rios Piriflegetonte (o de chamas sulfurosas) e o Cocito (o dos gritos, uivos). A travessia do Aqueronte era feita por um barco conduzido Caronte, o barqueiro infernal, um dos agentes do Hades, que ia no leme; os remadores eram as próprias almas. Feio, magérrimo, de barba hirsuta, sempre com as vestes sujas, manchadas pelo limo esverdeado das águas do rio, Caronte era uma figura sinistra, muito temida e odiada. 


CARONTE
  
Hércules, ao sair da barca, percebeu duas figuras próximas, a Medusa e Meléagro. Ao tentar golpear a primeira com a sua espada, Hermes o dissuadiu, aquela figura era apenas uma sombra (skia), uma sombra, porém, muito importante pois ela era dona de uma ilha, a chamada Ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte. Nessa ilha ficavam as almas daqueles que não haviam tido sua morte ritualizada, exigência indispensável para que pudessem realmente ingressar no mundo infernal.


ILHA   DOS   MORTOS   ( BÖCKLIN )

MELÉAGRO
Quanto ao outro, disposto também a atacá-lo, Hércules ouviu-o por um momento. Meléagro começou então a contar a sua história ao nosso herói, narrando-lhe os últimos momentos em que passara na terra. Hércules se comoveu tanto que lhe prometeu, quando de seu retorno, desposar Dejanira, sua irmã.  O que mais tocou Hércules foi Meléagro ter-lhe dito que sua irmã, a de nuca delicada, ficara só em casa e que era ignorante das coisas do amor, nada sabia das artes da Afrodite dourada, como enfatizou. 

Prosseguindo na sua caminhada pelo Hades, Hércules encontrou Teseu e Piritoo, o Lápita, aprisionados por Plutão nas famosas "cadeiras do esquecimento", de onde nunca mais deveriam se libertar, pois haviam tentado raptar Perséfone. Hércules, contudo, grande amigo do famoso herói ateniense, o libertou, arrancando-o tão violentamente da cadeira-prisão que pedaços das nádegas de Teseu nela ficam presos. Piritoo, filho de Ixion, o pai dos centauros, foi esquecido e lá permanecerá certamente até o final dos tempos.

O que se conhece desta passagem, como está em Racine, que quem
PERSÉFONE   E   ASCÁLAFO
alimentava esperanças de fazer sexo com Perséfone, a rainha do Hades, era Piritoo e não Teseu.  Mais à frente, Hércules encontrou Ascálafo, filho de uma ninfa do rio Estige e do deus-rio Aqueronte, e também resolveu libertá-lo. Este personagem presenciara o momento em que Plutão-Hades pusera nas mãos de Kore as famosas sementes vermelhas de uma romã, tornando-a fértil. Indiscreto, Ascálafo divulgara o acontecimento, narrando-o de um modo tão debochado que denegrira a pureza da jovem. Deméter o puniu, colocando-o sob um imenso rochedo. Libertado por Hércules, Ascálafo não conseguiu contudo viver sob a sua antiga forma. Deméter imediatamente o transformou numa coruja, substituindo um castigo por outro.

Em seguida, muito sensibilizado pelas multidões de almas que encontrou vagando às margens dos rios infernais, Hércules tentou fazer alguns sacrifícios sangrentos com animais do grande rebanho do deus dos infernos com o objetivo de energizá-las um pouco, dando-lhes alguma vida. Menetes, funcionário do Hades, que cuidava dos animais, ao tentar impedir a ação do nosso herói, foi ameaçado de morte por ele. Foi nesse momento que Perséfone, aparecendo e reconhecendo Hércules como seu irmão (eram ambos filhos de Zeus), o informou que seu marido estava pronto para recebê-lo.

HÉRCULES   E   CÉRBERO
Exposta a razão do trabalho, Plutão consentiu que Hércules levasse Cérbero à presença de Euristeu, desde que conseguisse vencê-lo numa luta em que não usasse armas metálicas, inclusive escudos de qualquer natureza. Para se proteger, Hércules pôs sobre os seus ombros e cabeça a pele do leão que costumava usar e muniu-se de algumas pedras pontudas. Atracando-se com o monstro, depois de terrível luta, conseguiu subjugá-lo, amarrando-o com grossas cordas que levara consigo. Afastando-se rapidamente do mundo infernal com a sua presa às costas, Hércules, com enorme esforço, guiado por Hermes, conseguiu chegar finalmente a Micenas. Vendo o monstruoso animal, Euristeu se assustou tanto que imediatamente ordenou ao nosso herói que o levasse até uma das muitas entradas do Hades e que o libertasse para que o monstro pudesse voltar a seu amo.

Os gregos sempre consideraram o acônito, planta venenosa, como infernal, nascida da baba de Cérbero, segundo uma versão. A deusa triforme Hécate, como contado por vários mitógrafos, possuía em seu jardim, no Hades, uma grande plantação desse vegetal, usado na feitiçaria e na magia negra. Muito tóxico, o acônito, extraído da planta, era chamado entre os romanos de “Carro de Vênus” ou de
ACÔNITO
“Capacete de Júpiter” porque, suas flores, invertidas, no primeiro caso, pareciam com um carro puxado por duas pombas ou, no segundo caso, como uma espécie de protetor da cabeça. Era muito usado, desde a mais remota antiguidade, para afastar vampiros e lobisomens, sendo, segundo a tradição, remédio infalível para curar a licantropia. Desde esses antigos tempos, o acônito sempre foi usado para combater a ansiedade, o cansaço, a fadiga, quando apresentam aspectos depressivos.



CAPRICÓRNIO

O décimo trabalho de Hércules tem a ver com Capricórnio, o décimo signo na ordem zodiacal. Este signo, como se sabe, é cardinal e do elemento terra. Astrologicamente, Capricórnio lembra ascensão, conquistas materiais, elevação. Ideias que representam a possibilidade máxima das conquistas materiais. Como tal, é um signo ligado ao zênite mundano. Os capricornianos positivos estão bem qualificados para assumir responsabilidades em empreendimentos de natureza prática, tanto os relacionados com a vida privada ou com a vida pública. Conceitos de ambição, de aspiração, de realização são comuns nos do signo, aliando-se a eles grande persistência, obstinação. Os capricornianos não são imediatistas e, de um modo geral, preferem trabalhar com metas de médio para longo prazo e procuram dar consistência e solidez ao que produzem.




As três cabeças de Cérbero simbolizam astrologicamente o triângulo formado pelos três signos zodiacais do elemento terra, Touro, Virgem e Capricórnio. O elemento terra representa o concreto, o sólido, o tangível e, por extensão, a vida material. Ou seja: ocupado com as pressões do ter, do possuir (Touro) e de, através das conquistas materiais, chegar ao topo da montanha (Capricórnio), muitos homens organizam as suas vidas nesse  sentido, montando uma agenda voltada exclusivamente para esse fim (Virgem).

Este foco na ascensão material costuma eliminar tudo o mais, família, filhos, divertimentos, amigos. Se aberto um espaço para eles, serão para a “conquista da montanha”. Uma festa familiar, por exemplo, será organizada com essa finalidade: convidar pessoas que poderão ser úteis, abrir algumas portas, favorecer de algum modo tal objetivo. A vida social, clubes, academias de ginástica etc.,tudo caminhará também nessa direção: frequentá-los para estabelecer relações “certas”, que possam facilitar a "subida da montanha".  

Esta terceira cabeça, relacionada com o signo de Virgem, costuma representar também tudo aquilo que deveria ter sido feito e que não foi para que a vida fosse orientada numa outra direção: nela estão as mudanças que não aconteceram, os hábitos que se instalaram tiranicamente, as purificações e depurações que não foram feitas, o cuidado corporal protelado, os espaços que não foram abertos no dia-a-dia para divertimentos saudáveis, para uma melhor convivência familiar etc. No lugar, como atitude dominante, sempre uma absurda ênfase em justificativas que falam de “dever cumprido”, o apego às tarefas difíceis, trabalhosas, ingratas ou penosas, a pretensão de satisfazê-las, a prioridade absoluta para tudo que signifique segurança material e, com ela, o reconhecimento social pelos resultados obtidos, a conquista do topo da montanha.

Uma das grandes debilidades de Capricórnio está, com frequência, numa natureza exageradamente séria e taciturna. Tal atitude
SATURNO
costuma gerar muita desconfiança, o que leva muitos que têm que conviver com capricornianos a achá-los, ainda que não o sejam, controladores, manipuladores, frios, calculistas. O planeta de Capricórnio é Saturno, que governa o princípio da cristalização. Este planeta tanto pode fazer dos capricornianos seres disciplinados, obstinados, metódicos e persistentes, como pode lhes proporcionar uma natureza excessivamente contida, tradicionalista, apegada aos valores do passado.

Vários temas se destacam neste trabalho. O tema da descida, da catábase, é o da morte simbólica, já prefigurada na passagem dos Mistérios de Eleusis. Ir ao Hades, lugar onde só entramos sem o corpo físico. Ou seja, aprender a nos livrarmos da forma, das prisões materiais, representadas pelas três cabeças do monstro. Não mais colocar a nossa consciência no material, nos desejos, no corpo físico. Usá-lo, mas a ele não nos prendermos. O centro (a cabeça central, Capricórnio) tem que estar mais acima, num plano que esteja acima da forma. Descer ao Hades é, pois, o início da subida da montanha.  

É neste sentido que Capricórnio deve representar um tipo de
SIGNO   DE   CAPRICÓRNIO
iniciação superior através da qual começamos o ciclo das realizações impessoais (Hércules se sensibilizando com os seres abúlicos que encontrou, com as almas penadas que perambulavam perdidas pelo Hades, muitas "vivendo" na ilha dos Mortos. A ideia de serviço, de consciência grupal "nasce" aqui, se se considerar que o signo de Capricórnio abre o último quadrante  zodiacal, que corresponde ao coletivo, à humanidade como um todo, com relação aos anteriores: o primeiro representa o individual, o segundo o familiar e o terceiro o social, um nos preparando para aceder ao outro. A partir de Capricórnio temos simbolicamente que aprender a nos “desmaterializar”. É por esta razão, por exemplos, que os hindus dão o nome de moksha a esta última etapa, palavra que tem o sentido de desatar nós, romper ligações.  

Três virtudes são requeridas quando pensamos em Capricórnio, conscientemente: silêncio, solidão e trabalho. Neste sentido, Capricórnio   é   um   signo   triste,   de  desapego,  de vida superior,
impessoal. Por isso, desapego de tudo o que é pessoal, pela expansão do pessoal (minha casa, minha família, meus bens, minha posição mundana etc) em direção de outros níveis, que podemos chamar de espirituais. Ao contrário, usar tudo isto, todos os valores materiais como um meio de saída, tornar-se mais leve, de modo a entender que o centro está mais acima. É neste sentido que em todas as tradições as montanhas são sacralizadas, o alto das montanhas, as acrópoles, como símbolos de saída para níveis de vida superior. Em Capricórnio termina o social e começa o coletivo, surge a noção de humanidade

Basicamente,  três  são  os  tipos  capricornianos:  o  defensivo,  o
aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo Crocodilo, pela Cabra e pelo Licorne. Animal de enorme bocarra, o crocodilo é usado para representar o período do ano em que o Sol é engolido pelas trevas, o inverno. Jamais ousando, prisioneiro do poder dos mais velhos, o capricorniano deste primeiro nível vive neste cenário: obediente, precavido em demasia, exageradamente metódico, tradicionalista, respeitador, não consegue empreender nada. É, como tal, um servidor, tornando-se geralmente vítima dos complexos de Cronos ou de Isaac. Pode ser representado também pelo chumbo, o ponto mais baixo a que se pode descer simbolicamente no processo de materialização. O chumbo, como sabemos, inibe qualquer tipo de mudança. Os hindus, com razão, dão o nome de Makara ao signo de Capricórnio, o primeiro mês do inverno, quando a luz solar é “engolida” pelas trevas hibernais, simbolizadas pela imensa bocarra desse animal.


O tipo aspirativo é representado pela cabra montanhesa, animal que procura  viver  nas  alturas.   Sem  os  exageros  do  primeiro tipo, disciplinado, perfeitamente centrado na caminhada aspirativa, muitos capricornianos do tipo “cabra montanhesa” podem se tornar grandes realizadores, até grandes construtores de impérios materiais. Stalin, Adenauer, Mao-Tse-Tung, Amador Aguiar
RICHARD   NIXON
(fundador de um império bancário no Brasil) são bons exemplos. Um exemplo bastante malogrado deste segundo tipo é o presidente Richard Nixon. Foi para o topo da montanha, mas, por não calcular bem os seus “pulos”, levou um tombo mortal.

O capricorniano de terceiro nível, representado pelo Licorne (o Leão de Chifre) é aquele que entende que em Capricórnio o poder de se criar materialmente termina. Como tal, para este tipo, Capricórnio será um signo de saída para o coletivo, para o transpessoal (Aquário). É aqui que ocorre a chamada transfiguração (transformação, metamorfose, mudança na maneira de pensar, de sentir, de proceder, do material para o espiritual). Se não ocorrer essa transfiguração, teremos a crucificação, a prisão na materialidade, o eu (Sol) inteiramente engolido pela vida material, pelas as três cabeças de Cérbero. Lembremos que na Alquimia a crucificação (crucifixio) e a mortificação (mortificatio) são praticamente equivalentes. 

Em todos estes exemplos, a montanha, uma das grandes imagens do signo, sempre apareceu simbolicamente como proposta de elevação, participando de ideais de transcendência enquanto lugar de teofanias, de hierofanias. É o lugar onde a terra e o céu se aproximam mais, lugar onde o divino é reverenciado e, ao mesmo, nele temos o fim das possibilidades aspirativas do ser humano.

A origem deste animal mítico, o Licorne, tem relação com a penetração da matéria pelo divino, que o chifre representa. É o tema do leão (lyon) de chifre (cornu),  sendo o chifre entendido como abundância espiritual e não material, ou seja, a espiritualização da matéria.  Não esquecer que o número de Leão é cinco e o de Capricórnio é dez, um duplo leão, portanto. O eu racional (Leão) se transforma em eu espiritual (Licorne) a partir de Capricórnio.


Uma explicação sobre o licorne: no século XII, ocorreu no ocidente uma transformação dos cavaleiros europeus, de guerreiros andantes em aristocratas rurais. O leão, que sempre aparecera simbolicamente associado ao poder, desde a antiguidade, sendo usado para representar deuses, reis, heróis e chefes militares, sofreu uma espécie de capitis diminutio. Sua imagem foi suavizada, espiritualizada. Surge o licorne, palavra que se decompõe em lyon e cornu, o leão de chifre. O simbolismo do chifre, ao mesmo tempo que encerra um sentido de poder, traz consigo ideias  de elevação, de eminência, de espiritualização (veja neste blog, no e-book, Exercícios de Leitura, a matéria “Os Chifres”, pag. 92, para melhores explicações).  

Historicamente, como sabemos, foi na virada do séc. XII para o séc. XIII, período em que alguns situam o primeiro Renascimento, que o amor se torna cortês e que a coleção de contos tendo como personagens o rei Artur e os Cavaleiros da Távora Redonda representou a expressão maior da cavalaria romântica e espiritualizada (busca do Santo Graal). Foi por essa época também que o românico deu lugar ao gótico e que os cultos marianos passaram a receber grande impulso, redefinindo-se os papéis da mulher na sociedade medieval.

NOTRE  DAME  DE  PARIS
A catedral de Notre Dame, em Paris, é um exemplo do que está acima: ela era não só uma invocação à Virgem, mas uma exaltação que se lhe fazia com a sua ornamentação. Maria foi retratada não só como Mãe de Deus, mas como Rainha do Céu e Advogada dos pecadores, tornando-se o próprio símbolo da Igreja. Um dos mais belos monumentos artísticos à glorificação do feminino é, nesse sentido, a catedral de Chartres, na qual a importância de Maria equivale à de Jesus.



NOTRE   DAME  -  CHARTRES

Foi em algum ponto na virada dos mencionados séculos que, por influência da Igreja Católica, certamente, a palavra  licorne começou a ser usada (indevidamente) para designar um símbolo do poder feminino que vinha de longe, encontrado em várias tradições, um pequeno cavalo unicornudo, que uma virgem acariciava, como imagem da pureza e da sublimação da vida carnal. Uma das mais conhecidas alegorias medievais do que estas figuras representam, com várias possibilidades interpretativas, é o conjunto de seis tapeçarias, do séc. XVI, La Dame à la Licorne (em português, A Dama e o Unicórnio), exposto no Museu de Cluny, em Paris. Numa das peças, vemos o leão (sem chifre) e o unicórnio, como imagem da união do princípio masculino (o leão, o noivo) e o princípio feminino (o unicórnio, a noiva) sob a tutela da Santa Madre Igreja (a Virgem).     


LA   DAME   À   LA   LICORNE  -  TAPEÇARIA

Em Capricórnio temos a desmaterialização daquilo que começou
VESTIMENTA   SUFI
em Câncer. Libertação da matéria, o poder da Lua, mãe das formas, termina. Daí as grandes virtude do signo, frugalidade, ascetismo, concentração. O emblema desta destas virtudes na vida ascética é o cilício, tecido feito com lã de cabra que os Sufis usam. Na Homeopatia, é a Calcárea carbônica, remédio das crianças "velhas", que se dá para o raquitismo, para os que têm falta de confiança, para os que custam a andar, para os debilitados, deprimidos.

Lutar, pois, contra a matéria que nos "prende", desmaterializarmo-
MORTIFICÁCIO : CINTO   DE  CILÍCIO
nos como disse. Penitência, mortificações, se necessário, para libertar a alma. A cabra, como símbolo aspirativo, pode chegar às alturas. Mas as alturas da cabra, como exemplificado,, são sempre perigosas, a rondá-las sempre uma ideia de imprevisibilidade, de capricho (palavra que vem de capris, cabra), tanto em razão de um salto mal calculado (o tombo é quase sempre mortal) como devido à própria imprevisibilidade do clima nas alturas. 

Capricórnio é assim um signo de conclusão. Não podemos ir além dele, impossível o progresso sob o ponto de vista formal. Temos que escolher os nossos meios de elevação. Primeiro, evitar distrações, trabalhar com seriedade, lucidez, inteligência, realismo, sem pieguices. Depois, concentração no mais significativo, sacrifício do supérfluo, silêncio. A misantropia e a misoginia  são perigos  do signo.  Lugares solitários, retiros e vida austera são muitas vezes procurados. No mais, ideias de firmar bases sólidas, de pedras assentadas, não afetadas pelo tempo. 

Dominadas as cabeças de Cérbero, surgirão outros valores, o altruísmo no signo seguinte (Aquário) e a doação desinteressada no último deles (Peixes). Desprendimento e desapego. Nada de futilidades, de leviandade, de irresponsabilidade. Linha dura, autocensura, humildade, "ajoelhar-se" para subir a montanha. Nada de descontroles emocionais, de caprichos, de den guices (Lua exilada), nada de descomedimentos, nem se acomodar à tentação de herdar posições por “razões de sangue” (Júpiter em queda). Observar Vênus, invariavelmente mal em Capricórnio: cuidado para não unir amor e alpinismo social ou ter medo de amar para não dividir; conflitos entre ambição, poder, cálculo e vida afetiva. Cuidados com a diminuição dos interesses afetivos, com a distância da vida instintiva (Marte), já que há a propensão de amortecimento de impulsos vitais importantes em nome de um sistema de segurança que procura organizar e consolidar posições. Fleugma, indiferença e insensibilidade podem aparecer. O que se perde em calor, elã vital, pode ser compensado (?) pela calma, pelo autodomínio, pela constância. Nem sempre contudo será possível manter o mundo à distância. 

De outro ângulo, podemos vislumbrar dois tipos básicos em Capricórnio, o material e o imaterial. O primeiro lembra muitas dificuldades afetivas. Não podendo amar o mundo, procura dominá-lo, colocando-o a seu serviço. Busca de elevação, posições eminentes; cálculo, frieza, caráter determinado, senso político, visão de futuro, calculista. Regras, regulamentos, controle, obediência, proeminência. Nos inferiores, cinismo, insensibilidade, manipulação, desconfiança, aspereza, castração. Bom administrador, assume tudo, inclusive a vida dos outros. São os solitários nas alturas montanhosas.. O segundo tipo é despojado, procura a renuncia ao material, nada de realizações mundanas (Saint Simon); serenidade, frugalidade (Proudhon, opção pela pobreza), desprezo pela ambição temporal, a vida como protesto contra os bens do mundo. Alguns costumam separar-se, isolando-se, buscando "picos" mais altos. Nos inferiores, desprezo, isolamento, melancolia, anulação da vida instintiva, pele e osso, predomínio total das virtudes frias.

Fisicamente, em Capricórnio, temos o corpo resistente, rugas precoces (Saturno é pele e osso), problemas cutâneos, cabelos precocemente embranquecidos, reumatismos, problemas nas articulações, joelhos, artrite, osteoporose, males do frio, lesões ósseas, deformações, luxações, anciloses, paralisias, problemas com o regime do cálcio, ossos em geral, dentes, unhas (paratireoide), dermatoses etc.

Fazem parte da galeria capricorniana, pelo Sol ou pelo Ascendente,dentre outros: Cézanne, Rodin, Adenauer, Bach, Tolstoi, Gavino Leda (veja o filme Pai, Patrão),  Savanarola,  Simone Weil, André Malraux, Montesquieu,  Pablo Casals, Johann Keppler,  Simone de Beauvoir,  Richard Nixon, Schopenhauer, Molière, Anton Tchekov, Edgar Allan Poe...

Quanto à origem da constelação de Capricórnio, temos que  ir ao mito do deus Pan. Ele era filho do deus Hermes e da mortal Dríope. Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, teriomorfo, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial o deus Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois nele viram que um filho de Hermes, deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada. 

Seu corpo era peludo, possuindo ele no lugar de pés cascos e chifres como os de bode e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, sempre à procura de ninfas para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Primitivamente, foi reverenciado como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nele se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc. 

 A aparição de Pan provocava o pânico, um  terror  inexplicável,
PAN
paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na sua ira; eram por ele atacados, inspirando-lhe o deus o pânico. Consta que na batalha de Maratona, atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene, a Lua, e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimento mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era Tifon um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, os deuses gregos fugiram espavoridos, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que Pan ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, pai e filho, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina. Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a
MONTE   ETNA
se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, a batalha foi terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Pelos seus múltiplos aspectos, é de Pã, no mundo grego, que parte a ideia que vai invadir a filosofia, ideia que acabou por constituir a doutrina que tomou o nome de panteísmo. Esta doutrina, como sabemos, na filosofia grega, é de inspiração da corrente estoica, para a qual a força vital imanente ao mundo se confunde com a própria divindade. Spinoza a retomará, sintetizando-a na frase Deus sive Natura, o mesmo fazendo Hegel, que descreve a realização divina não só através da história humana como através do que
NOVALIS
chama de “dialética da natureza.” Lembremos que todo o romantismo filosófico do final do séc. XVIII e início do XIX na Alemanha (Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling) foi profundamente afetado por estas ideias. A teologia cristã moderna (veja inclusive a condenação de Spinoza pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. O panteísmo evoca a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, ideia que encontra a sua melhor formulação no Brahman dos hindus.


Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o
QUADRANTES   ASTROLÓGICOS
meio-do-céu, o setor astrológico que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo material. Esta influência, para a maioria, só tomará o caminho da vida material (cabra montanhesa), para outros, uma significativa minoria, ela unirá o material e o espiritual (licorne). Para chegar a esse ponto da montanha, temos que ter vivido conscientemente os quadrantes anteriores, desde o primeiro e o segundo, onde temos os nossos talentos individuais e a contribuição familiar, passando pelo terceiro, no qual encontramos aqueles com quem nos associamos e deles recebemos ou não colaboração e recursos. A partir de Capricórnio é que o Todo, isto é, Pan, poderá se abrir para nós. No quarto quadrante, que termina pelo signo da sabedoria, Peixes, é que, conforme o aprendizado do terceiro, sobretudo, conquistaremos efetivamente a nossa liberdade, cuja característica mais marcante nesta última etapa está na liberdade de assumir deveres e responsabilidades que independem de retribuição ou reconhecimento. È no último quadrante zodiacal que podemos trabalhar com conceitos de altruísmo, fraternidade, humanitarismo.

A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que o racional, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente quando pensamos em vida digna. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo que se transformam em servidores da humanidade. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que além dos poderes superiores, representado pelo pico das montanhas, há uma autoridade mais alta,  uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido.

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muitos conhecidos pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.