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sábado, 4 de março de 2017

GÊMEOS (1)





Os gêmeos, em todas as culturas, simbolizam a dualidade ou as contradições internas do ser humano. Todos os heróis gêmeos na mitologia indo-europeia são, no geral, protetores, curadores e salvadores. Representam oposições que, ao final, podem também se complementar em sínteses, vida-morte, aurora-poente, vertical-horizontal, montanha-vale etc. Os mais famosos gêmeos são os nascidos de uma divindade, um pai imortal, e de uma mãe mortal, virgem, uniões que constituem assim os que os antigos gregos chamavam de hierogamia. Os gêmeos, nos mitos, costumam também ter poderes especiais que lhes dão uma numinosa personalidade sempre inspiradora de temor.


CATEDRAL  DE  AMIENS
Podem os gêmeos atuar no sentido do bem ou do mal, conforme o caso. Em muitas culturas, o nascimento de gêmeos é um mau sinal, sendo, por isso, um deles sacrificado. Em muitas regiões da África negra ou do Nilo, por exemplo, a mãe que tem filhos gêmeos pode ser repudiada por seu marido. Por outro lado, entre os índios norte-americanos, os gêmeos eram encaminhados para a feitiçaria.

De um modo geral, independentemente do modo pelo qual apareçam, perfeitamente simétricos ou assimétricos (um obscuro, outro luminoso; um espiritualizado, outro materialista; um voltado para o céu, outro para a terra), os gêmeos representam não só aspectos da dualidade das forças que atuam no cosmos, forças que raramente se unificam, mas, sobretudo, a ambivalência dessas forças, o seu jogo, sempre em constante movimento, ora se equilibrando, ora se dispersando, uma contradição que não se resolve nunca.  Daí os gêmeos aparecerem associados às encruzilhadas.

HÉRCULES  E  ÍFICLES
Os mitos que nos falam de gêmeos, especialmente os gregos, costumam acentuar bastante o que os distingue, a começar pelo pai. Como no caso de Hércules e Íficles, nascidos da mesma mãe, Alcmena, ao mesmo tempo, mas o primeiro
GILGAMÉS E ENKIDU
sendo filho de Zeus e outro filho de Anfitrion, pai mortal, marido de Alcmena. Os mitos também podem tornar gêmeos os que nasceram separados, de mães e pais diferentes. É o caso de Gilgamés e de Enkidu que se tornaram gêmeos quando, em combate singular, descobriram, um no outro, o que faltava a cada um. 

Os gêmeos simbolizam também um grande desejo de unidade. Por isso, o número dois, que os descreve, é o mais ambivalente dos números, representando o princípio binário. Pode sugerir tanto a síntese como a divisão, a atração como a repulsão, o equilíbrio como o conflito. No simbolismo chinês, por exemplo, o dois é um número aziago (yin), fraco, desprovido de um centro. Divindades duplas representam amiúde princípios opostos ou aspectos contrários de uma só realidade. Como número associado à divisão da unidade primordial (Geia-Urano, Terra-Céu, por exemplo), o dois está ligado ao princípio feminino, à união, ao amor, à fertilidade, ao crescimento, à dinâmica da criação e  à sua destruição (já a passagem do dois ao três significa a multiplicidade).

Entre os mesopotâmicos, foram os assírios que nos deixaram, em

tempos muito remotos, uma bem elaborada ilustração celeste e portanto astrológica do mundo geminiano. A atividade intelectual entre os assírios e babilônicos estava colocada sob a égide do deus Nabu, filho de Marduk, o campeão dos deuses, vencedor de Tiamat, o Caos. O prestígio do pai sempre bafejou Nabu favoravelmente. Marduk era uma divindade de características agrárias, tendo por atributo a enxada. Era a maior das divindades, pois foi o único a enfrentar e vencer Tiamat. Nabu chegou mesmo a assumir algumas prerrogativas paternas. Uma de suas funções era a de gravar sobre as tabuinhas divinas os decretos divinos. Sua função, entretanto não era a de um simples escriba. Ele podia, a seu critério, aumentar ou diminuir o número de dias que cabia a cada um dos mortais viver. 


A irmã gêmea de Nabu, sua esposa também, chamava-se Tasmit. Era ela quem “iluminava os ouvidos” de modo a fazer com que as palavras pudessem ser mais facilmente ouvidas e compreendidas. Nabu havia inventado a escrita cuneiforme e a arte literária, principalmente o maior dos gêneros, o poético, sendo considerado como aquele que “iluminava os olhos”.


MAHABHARATA
Entre os hindus, a presença dos gêmeos é marcante. No Mahabharata, um antigo poema épico, fala-se da existência de dois celebrados irmãos gêmeos chamados Sunda e Upusunda. Segundo a história, viviam juntos e não podiam ser mortos por ninguém, a não que se matassem mutuamente. Regiam os mesmos domínios, viviam na mesma casa, dormiam no mesmo leito, sentavam-se juntos, comiam no mesmo prato. Por terem exatamente a mesma aparência e a mesma disposição e hábitos, pareciam um único ser dividido em duas partes. 

ASHVINS
Desde a antiga astrologia hindu (Jyotish), o signo de Gêmeos tem o nome de Mithuna. “Vivem” neste signo os Ashvins, divindades cujo nome vem de uma raiz sânscrita que significa “encher”, “ocupar o espaço.”, pois têm a ver com a multiplicação. A razão desta denominação se prende ao fato de que os Ashvins se estendem por todas as partes, estão em todos os lados, um dos gêmeos representando a luz e outro  a umidade. Alquimicamente, lembremos, o elemento ar, relacionado com o pensamento, a vida intelectual, é formado por duas  qualidades primitivas, o quente e o úmido. Como a astrologia nos explica, o signo de Gêmeos é do elemento ar, formado pelo quente e pelo úmido, com uma participação maior do primeiro, uma pequena contribuição do seco. Isto nos permite entender a natureza expansiva do signo, sobre a qual o seco pode exercer algum tipo de controle. 

Alguns comentaristas, entretanto, nos dizem que os Ashvins têm este nome porque vêm montados em cavalos. Outros, ainda, nos falam de uma dualidade sempre presente neles, o dia e a noite, o
BODHADRUMA
céu e a terra, o alto e o baixo e assim por diante. Não é por acaso, aliás, que, no budismo, essa árvore iluminação chama-se, em sânscrito, ashvatta ou pippala, árvore sob a qual os cavalos se aquietam. Outro nome sânscrito da árvore é bodhadruma, que significa a árvore da perfeita sabedoria. Os ocidentais dão a ela o nome de ficus religiosa, a mesma que aparece no mito de Prometeu e, segundo muitos, na Bíblia.   

Os cavalos em quase todas as tradições são símbolos do psiquismo inconsciente, da impetuosidade dos desejos, de um lado irracional no homem, animais associados ao mundo subconsciente, infernal, ctônico, que lembra as trevas, a escuridão. As palavras pesadelo, em francês e inglês, cauchemar e nightmare, respectivamente, guardam esta relação, significando a primeira "opressão do cavalo" e a segunda "besta noturna". 

SIDARTA   GAUTAMA
Na flora indiana, a mais antiga referência que temos sobre a pippala nos diz que a sua madeira é excelente para a produção do fogo, símbolo da consciência iluminada. No budisno, a árvore tem grande destaque. Sentado em baixo dela, foi numa noite de Lua cheia, no mês de maio, em Bodhi Gaya,
HUEN  TSANG
ao norte da Índia, que o príncipe Sidarta Gautama, se iluminou, ou seja, aprendeu a controlar o seu turbilhão mental e emocional. Histórias sobre essa árvore, chamada popularmente de bo tree no inglês dos indianos, chegaram até nós por causa de um historiador e viajante chinês daqueles tempos, chamado Huen Tsang.   

USHAS
Dentre todas as divindades védicas, os gêmeos hindus, os Ashvins, ocupam uma posição muito diferenciada. São eles que trazem a primeira claridade para o céu ainda escuro, a alva, que antecede a aurora. Preparam o caminho para que Ushas, a deusa da aurora, traga, por sua vez, a claridade para que o Sol possa surgir. Representam, pois, a transição entre a noite e a manhã, isto é, fazem com que a noite que passe a ser dia. Com eles, numa outra leitura, a mente humana se ilumina, saindo, como diz a alquimia, da nigredo, das trevas, da indeterminação, do negro, da vida subconsciente, para iniciar (ou não) a sua caminhada em direção da consciência plenamente iluminada, rubedo, representada pelo vermelho. Antes de chegar a esta última etapa, temos mais duas, a albedo, representada pelo branco, e a citrinitas, representada pelo amarelo. Estas quatro etapas, como se pode ver, simbolizam o caminho do Sol desde que sai da noite e chega ao meio-dia, consciência plena, como se disse, Sol vertical, ausentes as sombras. 


ASHVINS
Eram os Ashvins também médicos, informando-nos a sua história que podiam devolver a visão ao cego, a saúde ao coxo e ao caquético. Eram os protetores especiais do lento e do torpe e leais amigos das solteiras em idade avançada. Tinham a ver com o amor e o matrimônio enquanto providenciavam a união ou o reencontro dos se amavam. Por numerosos registros ficamos conhecendo que estas divindades eram capazes de curar os enfermos, de restituir a juventude e o vigor ao ancião e ao decrépito. Podiam salvar um homem de morrer afogado, levando-o são e salvo para a sua casa. 

Num dos mais famosos episódios de sua crônica, conta-se que a perna de Vispala, que havia sido cortada numa batalha, foi substituída por eles por uma de ferro. Devolviam a vista e a capacidade de andar ligeiro a cegos e a estropiados fisicamente. Como resultado destas e de outras narrações, os Ashvins eram invocados por quem queria obter descendência, riqueza, vitória, destruição dos inimigos, proteção de sua casa e de seu rebanho.

Uma outra história nos revela que os Ashvins foram inicialmente considerados impuros (é por isso que nenhum brâmane podia ser médico, pois a profissão o desacreditava para a função sacerdotal). Como, porém, ninguém podia passar sem médicos, foram eles purificados, sendo-lhes então permitida a convivência com os outros deuses. Lembremos que eles são filhos de Surya, o Sol, a primeira das divindades médicas. O mito dos Ashvins, como se pode ver, pertence tanto à esfera do divino ou cósmico como do humano ou histórico. Estas duas vertentes acabaram se fundindo. O vínculo que os une está certamente num grande mistério da natureza: a associação entre os efeitos da luz e da arte curativa em tempos muitos remotos. 

Símbolo do conhecimento ou da revelação, a luz vem sempre depois das trevas, sucedendo-a, uma verdade cósmica, mítica,
DIVINOS  CAVALEIROS
astrológica e psicológica (post tenebras lux), que podemos encontrar quando pensamos na nossa iluminação interior. A luz como vida, saúde e felicidade é tema encontrado em todas as tradições esotéricas ou não. É por essa razão que dois dos cinco Pandavas (personagens do poema épico Mahabharata, que representam o Bem), os irmãos Nakula e Sahadeva, são símbolos dos irmãos divinos cavaleiros (arquétipos). 


Na hierarquia celeste do mundo védico, os Ashvins representam a terceira função, a terceira casta, a dos agricultores-comerciantes, a dos Vaishyas. São eles que trazem a saúde, a juventude e a fecundidade. Conhecendo o segredo das plantas, são, como disse, os médicos celestes. Foram eles que, com o auxílio do sábio-mágico Angirasa, que descobriram o Soma, a bebida da imortalidade. Sempre cercados por uma atmosfera maravilhosa, eles salvaram o Prazer (Bhujyu), que se afogava, e o Apetite (Atri), que um demônio havia jogado num caldeirão fervente.


CHYAVANA
Diz o mito que Indra insistia em não lhes reconhecer a divindade nem o direito ao consumo do Soma, pois eram divindades menos importantes (3ª classe) e impuros ritualmente, como está acima. Mas o sábio Chyavana (Atividade), que havia recebido deles novamente a juventude, conseguiu fazer com que Indra os aceitasse entre os deuses. Conta o Rig Veda, que Chyavana estava decrépito, velho, bastante alquebrado, e que os Ashvins cuidaram dele, revitalizando-o, rejuvenescendo-o, tornando-o, de novo, "aceitável" para a sua mulher. 

Chamados de Os Inseparáveis (Nasatyas), os Ashvins têm uma tez dourada, são jovens, ágeis e rápidos, podendo tomar as formas que desejarem. Têm uma só mulher em comum, chamada Surya, que tem o mesmo nome do pai deles. Raramente são chamados individualmente pelos seus nomes. Um se chama Nasatya (O Sem-mentira) e o outro Dasra (O Milagroso). Os adjetivos que são acrescentados ao seu nome indicam sempre juventude, beleza, esplendor, velocidade, vivacidade e sua arte de curar. Filhos de Surya, atravessam o espaço num carro dourado, no qual trazem Ushas, a Aurora, ou vêm algumas vezes a cavalo, trazendo-a na garupa. Como vanguarda da luz, são os gêmeos parentes de Pushan (O Progresso).

O nome de Pushan lembra providência, aquele que, no caso, alimenta, nutre, com a sua luz, trazendo também a cura. Pushan é o protetor e o multiplicador das posses humanas e dos rebanhos, atuando também como guia dos que vão para o Outro Lado. 

Uma das mais interessantes genealogias dos Ashvins nós a encontramos no Mahabharata. Lá se conta que Samjña (O
SURYA
Conhecimento intuitivo), filha de Tvashiri (A Indústria), desposou Dharma (A Lei da Perfeição), que é Vivasvat (A Lei Ancestral), cujo símbolo visível é Surya, o Sol. Incapaz de suportar o brilho de seu esposo, Samjña deixou ao lado de Surya sua sombra e, tomando a forma de uma jumenta (Ashvini), entregou-se a uma vida ascética. Dharma, por sua vez, tomando a forma de um cavalo, foi à sua procura. Quando a encontrou e a ela se uniu, dois filhos gêmeos nasceram. Pela razão de sua mãe ter a forma de uma jumenta, os gêmeos receberam o nome de Ashvini-Kumaras (Os Filhos de Jumenta). A jumenta, ou asna, é, como se sabe, em muitas tradições, símbolo da paz, da humildade, da pobreza, da paciência e da coragem. 


ASHVAMEDHA
Um dos mais famosos rituais védicos ligava os Ashvins ao sacrifício dos cavalos (Ashvamedha). Este sacrifício tinha relação óbvia com o cavalo como símbolo da impetuosidade dos desejos, da juventude sobretudo no que ela tinha de ardor, de fecundidade e de disponibilidade. Era um sacrifício ligado socialmente à segunda casta, a dos Kshatryas, a dos guerreiros. Nestes rituais, a imagem do cavalo era associada também a ideias de água corrente e de fogo, isto é, de força, de poder, de emoções que levam à ação. 

Conforme antigos textos védicos nos revelam, um hindu poderia procurar deus através de qualquer uma das formas pelas quais ele
ISHVARA
se manifesta. Para os hindus, o divino se apresenta continuamente sob uma infinita multiplicidade de aspectos diferentes e renováveis. Assim, cada hindu pode ter a sua visão pessoal do divino, a que chamam de Ishvara, um conceito de deus estritamente pessoal, de acordo com a sua possibilidade de apreendê-lo, segundo seu nível de consciência, a sua informação, a sua cultura etc. Esta visão, ao longo de sua vida, pode mudar, se o seu nível de consciência muda. Não é preciso dizer que tal concepção, para as religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, é absurda, escandalosa.

NAKULA   E   SAHADEVA
Muitos desses deuses pessoais podem descer à Terra e se misturar com os humanos, aparecendo sob inúmeras formas e com os seus mais variados atributos. Assim, por exemplo, Indra, Agni e outros tomaram uma forma real (rei Nala) para se unir a uma princesa. Qualquer que seja a forma que tomem os deuses, muitos a tomam a forma humana para, dentre outras coisas, gerar filhos com mortais. Madri, uma das irmãs do rei de Madras, casada com Pandu, gerou dois filhos, gêmeos, Nakula e Sahadeva, quando" visitada" pelos Ashvins.


BATALHA   ENTRE  PANDAVAS   E   KURUS

Nakula é o quarto dos príncipes Pandavas. Seu pai mortal era Pandu, o divino, os Ashvins. Este príncipe foi especialmente treinado para se tornar um grande mestre da arte hípica. Sahadeva especializou-se na leitura dos astros, que estudou com Drona, brâmane, mestre dos Pandavas e também dos Kurus, personagens centrais do Mahabharata. 

Na astrologia, desde os tempos védicos, o signo de Gêmeos tem o nome de Mithuna, nome que em sânscrito que dizer a formação de um par. Esse nome também é dado tanto a pequenas estátuas que se encontram na entrada de qualquer templo como à manteiga (ghee) clarificada, muito usada na cozinha hindu e em muitos rituais védicos como ingrediente fundamental. 


PREPARANDO   O   GHEE

Clarificar é tornar mais claro, limpar de impurezas, purificar, resolver ambiguidades, ganhar concisão, tornar homogêneo, eliminar a escuridão, afastar o nebuloso. Assim, a visita a templos tinha (tem?)  por objetivo a clarificação (iluminação) da mente. Na cozinha, clarificar é operação através da qual algo turvo, escuro, um caldo, por exemplo, se estabiliza num aspecto mais claro. A manteiga clarificada é considerada na medicina tradicional hindu um rasayana (etimologicamente, veículo da essência), um alimento que tanto favorece a longevidade como o rejuvenescimento. Rasa é suco, nectar, essência, gosto. Na mitologia, é o fluxo divino personificado como uma deusa. 

A operação da clarificação (da mente) é obtida tanto através de uma visita a templos como encontrada na culinária indiana, na medicina
GANDHI
ayurvédica e em antigos métodos educativos (limpar a mente), tudo explicado pelo signo de Mithuna.  Lembre-se que este método aqui referido, equivalente à clarificação da manteira (ghee) foi desenvolvido, num passado já para nós muito distante, através de uma pedagogia chamada Segaon, nome de uma pequena cidade do Maharashtra, depois chamada Sevagram, onde viveu Gandhi.   

  

sábado, 9 de abril de 2016

URANO (3)

              
                                      

De um modo geral, as divindades celestes de natureza uraniana mostram a sua cólera através de trovões, relâmpagos ou raios. Oniscientes, onipotentes, sábias, essas divindades são sempre as
ÁFRICA   OCIDENTAL
primeiras legisladoras dos grupos humanos na sua vida nômade (guerreiros, coletores, predadores) antes de assumirem uma vida sedentária. Um dos melhores exemplos de uma divindade dessa natureza é Olorum (literalmente, proprietário do céu); nós a encontramos entre Yorubás africanos, povo da África ocidental, ao sul do Benin e a sudoeste da Nigéria. Olorum, depois de ter iniciado a criação do mundo, delegou a divindades inferiores o trabalho de acabá-la e de governar o mundo criado. Retirou-se dos assuntos celestes e terrestres, não se encontrando mais colégios sacerdotais que cuidassem da sua imagem, de seu culto e de seus ritos. É, entretanto, sempre invocado, como último recurso, quando as grandes calamidades se abatem. Olorun reinava sobre os céus com o nome de Olofin Orum, Senhor do Céu, enquanto, abaixo, Olokun, princípio feminino, reinava sobre as águas.  

Os homens só se lembram dos céus em casos excepcionais, quando perigos vindos dessas regiões, os ameaçam diretamente. Na maior parte do tempo, a religiosidade humana se dispersa, volta-se para inúmeras outras solicitações de natureza cotidiana, terrestre, mais prementes. Com relativa certeza, porém, parece ser possível afirmar que a devoção às divindades uranianas foi a primeira forma que tomou a religiosidade dos homens primitivos,  fortemente marcada por sentimentos, pela afetividade. 

Se do céu, isto é, das divindades que se manifestavam através de fenômenos atmosféricos vinham coisas boas, favoráveis, tempo bom, chuva e Sol na medida certa, era preciso agradecer. Se, pelo contrário, os deuses se manifestassem com violência, isto é, se do céu só viessem tempestades, frio intenso ou calor abrasador, geradores de várias catástrofes, enchentes, seca, desmoronamentos etc., era preciso fazer sacrifícios para que tais tendências fossem revertidas.  



DYAUS
    
Quando nos voltamos para a Índia, por exemplo, encontramos algo semelhante. É opinião geral que as duas mais antigas divindades dos povos árias que invadiram a Índia no início da era de Áries (2.000 aC) eram Dyaus, o Céu, e Prithivi, a Terra. Nos hinos do Rig-Veda se faz menção a eles como sendo os pais dos demais deuses. Eles são sempre descritos como grandes, vigorosos e sábios, como aqueles que promovem a virtude e prodigalizam favores aos que os honram. Deles se fala também que geraram todas as criaturas e que são bondosos.





INDRA
Numa outra passagem do Rig Veda, temos informações que nos revelam que o Céu e a Terra foram criados por Indra, que os transcendia em grandeza. Às vezes, se menciona que o Céu e a Terra foram criados por Soma, o deus que vive na planta de mesmo nome, uma das divindades mais citadas no Rig-Veda. Como entender tudo isto? A opinião mais aceitável é a de que Indra ocupou aos poucos, gradualmente, o lugar de Dyaus. Indra, como se sabe, faz parte da principal trindade da religião védica, ligada ao elemento ígneo, que se completa com com Surya, o Sol, e Agni, o fogo terrestre.   

Dyaus-pitri (Deus Pai ou Pai do Céu) era nome mais comum pelo qual Dyaus era invocado. Quando o Céu e a Terra eram invocados juntamente usava-se a expressão Dyava-prithivi. Dyaus personificava a abóbada celeste, o firmamento supremo. Todos os deuses, o Sol, a Lua, o Vento, a Chuva, o Relâmpago, a Aurora são filhos dele. Ele tem o poder de abrir a Terra e de fertilizá-la com o seu sêmen, a chuva. A palavra Dyaus (do radical indo-europeu div, depois deiwo, brilhante, celeste), no antigo mundo védico, representava o lugar onde brilhavam os deuses. O Akasha, Éter, era uma manifestação física sua.  

Os principais nomes de Dyaus são: Abhram ou Maghaveshma (O Lugar das Nuvens), Ambara (Véu), Ananga (Indivisível), Vyoma (O que Recobre), Maha-vela (Grande Véu), Pushkara (Reservatório das Águas), Trivishtapa (Morada dos Três Mundos), Antaroksha (Espaço), Murudvatma (Caminho dos Ventos), Viyat (Separador), Vihayah (Caminhos dos Pássaros), Gagana (Móvil).



NAKASHATRA

Nas concepções védicas, a existência possui oito esferas: 1) Prithivi, onde reside (2) Agni, o Fogo; 3) Antariksha, o Espaço, onde reside (4) Vayu, o Vento, princípio da Vida; 5) Dyaus, o Céu, onde reside (6) Surya, o Sol, princípio do intelecto superior; 7) Nakshatra, as Constelações, onde reside (8) Soma (a Lua), princípio da imortalidade. As esferas da existência e as potências que nela residem são os princípios a partir dos quais o mundo físico dos elementos (adhibhautika) se desenvolveu. Eles são para o ser humano o aspecto mais imediato do divino, os deuses mais imediatamente perceptíveis. Enquanto primeiro grau do aparecimento das coisas, eles representam a juventude do mundo. 

Oposta a Dyaus, a primeira das oito esferas é a Terra, suporte (Dhara) de todas as criaturas, como a Geia dos gregos, nutriz de qualquer forma vital. Ela é mãe de todos os seres viventes, a substância de tudo. Narram os mitos que Prithu, o primeiro rei, inventor da agricultura, obrigou a Terra, contra a sua vontade, a abrir os seus tesouros e a alimentar os homens. Daí o primeiro nome da Terra, Prithivi, o domínio de Prithu.

Nas mais antigas invocações, a Terra era identificada pelo nome de Aditi, a Ampla, A Infinita, a extensão primordial, a primeira das deusas e mãe dos deuses.  Todos os aspectos da natureza e da vida eram formas suas. As montanhas, as árvores, os rios, os animais, tudo era dela. 

A primeira das esferas da existência é Prithivi, a Terra, suporte (dhara) de todas as criaturas, a que nutre todas as formas de existência. Prithivi é representada como uma deusa ou como uma vaca que alimenta com o seu leite todos os seres. Ela é também a substância universal, prima materia, separada das águas. Dela foi feito o homem, sendo ao mesmo tempo mãe e mulher, oposta simbolicamente ao céu, entendidos ambos como o princípio ativo, o primeiro, e princípio passivo a segunda. Prithivi é a virgem penetrada pela enxada ou pela charrua, fecundada pela chuva.



DYAUS   PRITHIVI


Unida ao Céu, a Terra forma, pois, com ele o primeiro casal divino, Dyaus-Prithivi, muito semelhante ao par que na mitologia grega forma a primeira dinastia divina, Urano-Geia. Nas invocações, Prithivi é identificada geralmente como Aditi, inesgotável fonte de abundância.

Em Prithivi reside Agni, o fogo capturado e do qual os homens se apropriaram para utilizá-lo como instrumento de poder e progresso. Qualquer forma do fogo é venerada como um ser divino. A  sua mais honrada forma é a sagrada, nascida da fricção de dois pedaços de madeira, em cerimônias religiosas, nas quais são pronunciadas fórmulas rituais. 

Agni, o fogo doméstico, é a principal divindade dos Vedas, a ele sendo dedicados o maior número de hinos. Ele é o mediador entre a Terra e o Céu, o protetor dos homens e de suas moradas, testemunho de suas ações, sempre invocado em todas as ocasiões solenes. Ele preside todos os sacrifícios e todos os acontecimentos da vida humana.  


AGNI
Antes de os brâmanes terem assumido a posição mais elevada no sistema de castas da Índia, a casta guerreira já possuía divindades que, embora ainda não bem organizadas num panteão, atendiam às suas necessidades, as de uma aristocracia conquistadora. Eram as divindades chamadas de reais, e velavam sobre a ordem social, bem diferentes de divindades como Agni, muito reverenciada ritualisticamente pelos brâmanes, a classe sacerdotal.

ASHVINS
As divindades reais, como o seu próprio nome indica, veneradas por conquistadores, pela elite dirigente, não eram populares. O ariano guerreiro tinha os seus olhos voltados para Indra, para Mitra, Varuna, para os Nasatyas ou Ashvins e para os Ribhus, poderosas divindades que apontavam para uma soberania universal.

O ariano que invadiu o norte da Índia, submetendo as populações de pele escura, os dravdas, venerava Indra, um deus que possuía as mesmas qualidades e defeitos que um kshatrya (casta dos guerreiros). Um destes deuses dos invasores era Varuna, que aparece geralmente muito associado ao deus Urano dos gregos.

VARUNA
Mitra e Varuna formam uma díade e são tidos como Adityas, filhos de Aditi. Como rajas, reis, são detentores daquilo que os védicos chamavam de kachatram, soberania, a essência da casta guerreira. Assim como os asuras (aqui no sentido de seres espirituais), eles têm um poder mágico, maya, uma eficácia misteriosa, um grande poder de encantamento, que, nos demônios, se volta para os malefícios. 

Os princípios soberanos atribuídos aos Adityas são personificações dos princípios intelectuais, morais e das virtudes sociais que regulam o funcionamento harmônico do universo e da sociedade humana. Esses princípios residem nos céus, nas esferas mais altas, dominando a vida e os seus elementos constitutivos. 

Do ponto de vista humano, estes princípios se referem aos aspectos principais de sua existência, orientando as relações dos homens entre si e deles com as forças naturais em operação no cosmos. Os pensadores védicos separaram estes princípios soberanos em dois grupos: uns referindo-se ao mundo dos humanos e outros à ordem cósmica.

Os princípios soberanos do mundo dos humanos são: 1) Mitra (Amizade) – representa a solidariedade, o respeito à palavra dada, as ligações dos homens entre si; 2) Aryaman (Honra) – representa os princípios cavalheirescos, a magnanimidade, as regras da sociedade; 3)Bhaga (Partilha) – representa os bens do clã como propriedade legítima e também o tributo devido como participação no bem coletivo.

Os princípios soberanos do mundo divino (ordem cósmica) são: 1) Varuna (o que tudo cobre ou liga) – representa o destino, as leis misteriosas que guiam os humanos em direção do desconhecido, do inesperado; 2) Daksha (Habilidade) – representa a arte dos rituais, as regras do sacrifício e a capacidade de cumpri-las sem falta; 3) Amsha (Partícula) – representa a parte da essência supramundana que  cabe a cada um dos humanos, sem que isto a diminua; é vivida como acaso, sorte, dom divino, tesouro encontrado, a exigir sempre um “imposto” maior de quem recebe mais. 

MITHRA
Mitra e Varuna são mantenedores da ordem universal, rita. Não a instituíram, mas a mantêm. Rita é o caminhar universal, o eterno fluir de tudo. Esse conceito equivale ao Panta Rei de Heráclito, que nos afirma que tudo é móvel, transitório e passageiro. Mitra governa a amizade, cuida da solidariedade, sanciona os contratos, Varuna garante os juramentos, pune os inadimplentes.  

Os antigos povos védicos representavam através de mitra, palavra que como substantivo quer dizer amigo, o mais importante princípio do mundo dos árias como seres humanos. Mitra, como vimos, quer dizer também solidariedade, respeito à palavra dada, aos tratados, revestindo de sacralidade tudo o que liga o homem a outro homem. A importância de Mitra, porém, com o tempo, foi diminuindo; quando do registro dos hinos védicos, os valores da magia, da manipulação política, já prevaleciam sobre a moral social, sobre as regras que comandavam as uniões.

O principal papel de Mitra era o de forçar os homens a manter as suas promessas. Mitra sempre lhes mostrou os benefícios da camaradagem, da sinceridade, da comensalidade na constituição das associações humanas, das tribos, das nações. Inimigo das disputas e da violência, Mitra tinha como companheira Revati (Prosperidade), que lhe deu três filhos: Dom (Utsarga), Felicidade (Arishta) e Prazer (Pingala).

A esta altura, parece-me oportuno aproximar o Mitra védico, da
AVESTA
Índia, daquilo que na antiga Pérsia tomou o nome de mitraísmo. Na origem, o Mithra dos antigos persas tem muito em comum com o das tribos que invadiram a Índia. Na língua persa da época, Mithra adquiriu características solares (mihr, Sol). No Avesta, conjunto de textos sagrados, escrito em língua avéstica, havia uma díade muito semelhante à da Índia, Mithra e Ahura, fazendo o primeiro um papel de divindade conciliadora. 



TAUROBOLIUM

A estatuária helenística tornou muito conhecida a imagem de Mithra, fazendo-o usar um barrete frígio na cabeça, sacrificando um touro (final da era de Touro), numa gruta, onde se reuniam os iniciados. Era o taurobolium. O rito era de fecundação da natureza, associado a um novo nascimento, tendo portanto relação com o equinócio da primavera. O adepto que se submetia ao batismo pelo sangue do touro tornava-se um renatus in aeternum

Este culto foi introduzido na Itália com o nome de mitraísmo no
CIBELE
segundo século da era cristã, enriquecido com contribuições do culto de Cibele, Grande-Mãe da Ásia menor, pelas legiões romanas. Este culto foi trazido para a Itália pelas legiões romanas quando andaram no Oriente à conquista de terras e fundando colônias, dando elas a Mithra o nome de Deus Salvador, Deus Vencedor, invencível. Segundo o mito, Mithra teria nascido num rochedo, a 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começam a aumentar. Nessa data se celebrava o renascimento do Sol, data a que os romanos deram o nome de Natalis Solis e que os cristãos utilizaram para fixar a sua festa do Natal. 

A ação maior de Mithra foi a degola do touro, símbolo do sacrifício da matéria, apesar de todas as tentativas contrárias da serpente e do escorpião que queriam impedi-lo. Desde então, esta cena, muito representada por imagens e esculturas, passou a simbolizar a luta das potências do bem contra as potências do mal. 



SÍMBOLOS   DO   MITRAÍSMO    ( OSTIA  ANTIGA ,  ITÁLIA )

O mitraísmo manteve com a antiga religião da Pérsia duas ligações importantes: a ideia de um zelo ardente pela pureza moral, obtida e mantida graças a uma atitude belicosa, tornando-se o seu adepto um soldado da fé. Decorre desse entendimento o grande sucesso que o mitraísmo teve entre os exércitos romanos. A segunda ligação é a veneração pela luz, o único princípio realmente invencível, absoluto para os adeptos da religião. A vida religiosa para os mitraístas era ascética, disciplinada e muito árdua, daí o seu sucesso entre as legiões romanas.

O mitraísmo, que só desapareceu de Roma por volta do séc. V dC, propunha sete graus de iniciação, cada um deles sob a proteção de um planeta: Perses (Persa), sob a tutela da Lua; Corvus (Corvo), sob a tutela de Mercúrio; Nymphus (Noivo), protegido por Vênus; Miles (Soldado), protegido por Marte; Leo (Leão), sob a tutela de Júpiter; Pater (Pai), sob a proteção de Saturno; e Heliodromus (Mensageiro do Sol), tutelado pelo Sol. O progresso de grau em grau correspondia à ascensão da alma através das esferas planetárias.

Sobre Varuna é preciso mencionar antes que, como outros deuses de caráter uraniano, ele possuía a soberania e a onisciência,
VARUNA
atribuições que eram de Dyaus e que ele foi assumindo. Este processo ocorreu dentro do próprio mundo védico, talvez por volta do início do segundo milênio aC. Varuna, “o que tudo abarca”, “o que tudo envolve”, chamado então de Uruvana, conforme inscrições do séc. XIV aC, foi absorvendo também as manifestações de caráter misterioso, lunar, pluviosas, além de se tornar uma divindade oceânica (dominando as duas últimas regiões do zodíaco).

Como divindade onisciente e infalível, era por sua iniciativa que desciam dos céus vários emissários seus que, com os seus milhares de olhos, vinham espionar a Terra. Varuna era a divindade que via tudo, que conhecia tudo, todos os segredos, todas as intenções. Jamais fechando os olhos, ele e Mitra tinham seus espiões no mundo vegetal, dentro das casas, nas praças e nas ruas. Aliás, um dos apelidos de Varuna era Sahasraksha (O de Mil Olhos). 

Como soberano universal, Varuna era o guardião das normas e da ordem cósmica. Como ele via tudo, como nenhum pecado lhe escapava, por mais escondido que estivesse, os fiéis se prostravam diante dele numa posição de grande humildade. Ao garantir os contratos, ao se posicionar como deus dos juramentos, Varuna era a divindade que ligava, que unia, razão pela qual a imagem das malhas de uma rede era um de seus grandes símbolos. Os homens, diziam os textos sagrados, temem a rede de Varuna, pois ela pode paralisá-los, exauri-los. Esta faculdade que Varuna tinha de ligar punha em evidência o caráter mágico de sua soberania. Por isso, Varuna era considerado o mestre da maya, do jogo fenomênico que encantava e prendia. Os atributos de Varuna eram dabda e pasha (bastão e rede). Pelo que se pode ver, Varuna não era uma divindade exclusivamente uraniana. Suas epifanias não se
WORLD   WIDE   WEB
limitavam apenas aos fenômenos atmosféricos. Sem muito esforço, fica fácil perceber que a rede de Varuna é hoje representada pela sigla WWW (Rede de Alcance Mundial – World Wide Web), conhecida simplesmente como Web, um sistema de documentos em hipermídia, interligados e executado na Internet. O caráter aquático dessa rede pode ser constatado pelos termos que usamos para seguir as ligações, navegar ou surfar na Web. 

A rede, como se sabe, em inúmeras tradições mitológicas, é considerada um objeto sagrado. Ela imobiliza o adversário. Ela serve também para, como símbolo religioso, capturar a força espiritual, como a empregaram os místicos iranianos, por exemplo. Como atributo de divindades supremas, a rede serve para submeter os homens ao divino. O cristianismo a usou neste sentido, como
CRISTO   PESCADOR   DE   HOMENS
símbolo da ação divina: Cristo era um pescador de homens. É por esta razão também que a rede foi parar na análise psicológica. Na psicanálise, por exemplo, esta ideia aparece ligada à livre associação, método terapêutico que consiste em se exprimir todos os pensamentos que vêm à mente, a partir de um elemento dado (palavra, fragmento de sonhos etc.) ou espontaneamente. O terapeuta, lançando a sua “rede”, colherá no “cardume” de palavras, imagens afloradas do inconsciente do analisando, segundo a sua técnica, o que julgar mais importante.  

Além do mais, lembre-se que Varuna, ao presidir as relações dos homens com os deuses, tem uma conduta imprevisível, seus favores súbitos, sua inexplicável crueldade, nada pode ser previsto, no que lembra muito o Urano da aAtrologia. Ele possui um poder mágico (Maya) com a ajuda do qual cria todas as formas do mundo visível. Por isso, parece muitas vezes um déspota, um mestre poderoso e insensível. É neste sentido que ele representa a realidade interior das coisas, a verdade absoluta (rita) e a ordem que transcende a compreensão humana. Seu grande poder é noturno, misterioso, enquanto o de Mitra é diurno, ligado à luz, à claridade.

O nome de Varuna vem provavelmente da raiz var, que quer dizer envolver, cobrir e, deste modo, tem relação com tudo o que é misterioso, críptico, secreto. É incontestavelmente também o senhor das águas superiores que rodeiam o mundo. Esta ideia é muito interessante para a Astrologia ocidental se levarmos em conta que a constelação de Aquário, governada por Urano, por volta de 4000 aC sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno. Essa constelação era visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, derramando água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanis, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas mais ou menos com o elemento líquido. Não é por outra razão que os babilônicos davam o nome de “Assento das Águas Moventes” às estrelas da constelação de Aquário, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam formado o dilúvio que se abateu sobre a Terra. 



CALENDÁRIO   HEVELIUS


Não é por acaso também que o símbolo da constelação de Aquário produz duas vezes o hieróglifo egípcio da água, duas linhas sinuosas em forma de onda que seguem paralelamente. Isto explica ainda o caráter imaterial do signo, uma espécie de oceano aéreo primordial que banha toda a Terra. É por essa razão ainda que o signo tem relação com as afinidades eletivas que devem dar origem à humanidade através da fraternidade universal. Os védicos propunham, segundo essa ideia, uma outra etimologia para Varuna: var,   raiz que significa ligar, unir; Varuna une todas as coisas, fazendo do múltiplo o uno (vari+unam).

MAKARA
Com o tempo, Varuna se transformou no mais importante dos Adityas e assumiu características que muito o aproximaram também do Poseidon grego. Nessa forma, ele se tornou senhor também dos mares e dos rios, tendo como montaria (vahana) o crocodilo (Saturno) Makara, animal monstruoso que tem a cabeça e as patas de um antílope e o corpo e a cauda de um peixe. 

Embora Varuna tenha muita semelhança com o Urano grego, as diferenças entre eles são bastante significativas como se pode perceber. Não há, por exemplo, na mitologia védica, uma relação matrimonial entre Varuna (Céu) e Prithivi (Terra) como há, na grega, entre Urano e Geia, nem Urano assumiu, como Varuna, qualquer poder sobre o elemento líquido. Alguma relação sempre poderia ser estabelecida, contudo, se pensarmos nas grandes influências aquarianas que nestes últimos séculos da era de Peixes, a terminar matematicamente em 2658, já se fazem sentir. 

Varuna é descrito como uma divindade sorridente; sua cor é a da neve, do lótus ou da Lua; aparece sempre munido de todos os seus
GANGA
ornamentos e atributos. Na mão direita leva uma rede. Postura ereta, rodeado por um halo luminoso; tem como residência favorita a Montanha Florida (Pushpa-giri). Seu palácio é de ouro e fica no lugar mais bonito do universo, chamado Noite Estrelada (Vibhavari). Ao seu lado, senta-se a rainha Varuni, em um trono de diamantes. Samudra (Mar), Ganga (Ganges), além de divindades de diversos rios, lagos e mananciais sentam-se também ao seu lado. 

Dentre os apelidos de Varuna, destacam-se: Sábio (Vidvan), Inteligente (Dhira), Discriminador (Pracetas), Sutil (Gritsa), Hábil (Sukratuh), Inspirado (Vipra), Poeta (Kavi), Grande (Mahan), Vasto (Brihat), Poderoso (Bhuri). Depois que assumiu o poder sobre as águas, recebeu nomes como Senhor das Águas (Apampati), Senhor dos Animais Aquáticos (Yadasampati), Senhor dos Rios (Nadipati), Senhor do que Flui (Sarvasam-saritam-pati).

Varuna é assim a imensidão do universo, o mestre da rita, energia que mantém a ordem universal, a realidade profunda sem a qual nada pode existir. A palavra rita, lembre-se, significa também o conjunto de sacrifícios indispensáveis à boa marcha do universo, no que lembra o conceito de maat entre os antigos egípcios. Varuna vela por tudo, inclusive pelo consumo de soma, produto lunar, a bebida dos deuses. Nos céus, as estrelas estão a seu serviço, espionando o que acontece na Terra e contando-lhe tudo. Ele reina sobre o ritmo das esferas celestes, cujo movimento regula. Varuna é o lado “negro” do Sol quando este faz a sua viagem em direção do oeste. É complementar a Mitra, que representa o Sol matinal. Nada a estranhar que os védicos tenham feito de soma uma divindade, dando-lhe inclusive o nome de Amrita, imortal.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.