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quarta-feira, 13 de abril de 2016

URANO (4)



HERÓDOTO


Os antigos persas conheciam também um deus celeste supremo. Segundo Heródoto, esta divindade era honrada no alto das montanhas. Seu nome se perdeu. Na sua reforma religiosa, Zaratustra a reabilitou, dando-lhe o nome, no Avesta, de Ahura-Mazda, Senhor da sabedoria e onisciente.







ZARATUSTRA
Zaratustra (Zoroastro, para os gregos) foi um reformador religioso e profeta que viveu um pouco antes da época aquemênida, sexto século aC. Vivia no que é hoje o Azerbaijão, mas teve que se exilar no Afeganistão, onde encontrou proteção. Sua reforma promoveu uma conciliação entre a religião dos antigos Magos e a dos reis. Os Magos formavam uma corporação sacerdotal de tribos medas que se dedicavam à preservação de antigos cultos arianos. Esta conciliação foi muito difícil e só teve algum sucesso depois de alguns séculos. 

A vida de Zaratustra é muito semelhante à de Buda. Diz-se que ele nasceu rindo. Aos vinte anos deixou a casa paterna à procura da verdade. Passou sete anos no fundo de uma caverna, no alto de uma montanha (Sinai). Aos trinta anos recebeu de emissários celestes (arcanjos) várias revelações. Foi tentado por um demônio, que lhe ofereceu um reino temporal. Armado de exorcismos, Zaratustra o afastou. 

A doutrina do profeta, além do seu aspecto ritual, continha conhecimentos do mundo físico, das estrelas, das pedras e do mundo vegetal, sabendo ele curar com as plantas. A proposta moral de Zaratustra consistia na busca da perfeição através de pensamentos, palavras e atos. O profeta falava do julgamento da alma depois da morte, quando os bons e os maus seriam separados.


As crenças primitivas dos persas consistiam na adoração dos elementos e dos astros, de modo especial do Sol e da Lua. Zaratustra deu ao seu povo o chamado Livro da Verdade, o Zend-Avesta, que ele dizia ter recebido por revelação, base do Mazdeísmo sistematizado e da sua doutrina, sustentado por uma visão dualista do universo.


O ser eterno, supremo, sem princípio nem fim, anterior a toda
ZERVAN  AKARENA
criação, origem de todas as coisas, foi chamado de Zervan Akarena (seu primitivo nome se perdeu). Mazda, como deus da realeza persa (aquemênidas) ofuscou todas as demais. Mazda se transformou no deus dos deuses, senhor dos céus, de todos os seus fenômenos e criador de todos os seres. Mazda era nos céus, guardadas as devidas proporções, um reflexo do que era na terra o imperador, rei dos reis, senhor de todos os povos.

A etimologia do nome Mazda é discutível. Alguns o associam à palavra sânscrita medha, sabedoria. Outros optam por mada, embriaguez, ou mastim, iluminação. O que se sabe é que ele era um deus dispensador de poderes transcendentes, levando o crente por ele beneficiado a ir além da sua personalidade, algo semelhante ao que Urano produz astrologicamente quando dignificado. 

AHURA   MAZDA
Ao nome Mazda foi incorporada a palavra ahura, passando o deus a ser conhecido como o Senhor (Ahura) da Sabedoria (Mazda). A reforma de Zaratustra purificou-o de influências naturistas. Desde então ele passou a ser conhecido como o correspondente do Varuna védico no mundo persa. Ele tem por vestimenta a abóbada celeste. É ele quem envia as chuvas fecundantes e também as tempestades para a terra. Ahura Mazda era considerado como aquele que vê longe, que espiona, que tudo conhece e aquele que não se engana. É infalível, pois sua inteligência apreende tudo. Sempre desperto, nenhum narcótico pode abatê-lo. Nenhum segredo escapa ao seu brilhante olhar. Ele garante, na sua ação comunitária, a inviolabilidade dos contratos e o respeito à palavra dada.



MITHRA

Entre os persas, na reforma de Zaratustra, foi Ahura Mazda quem criou Mithra, deus dos contratos (mithra quer dizer contrato). Aquele que os rompe atrai infelicidade para si mesmo e para tudo que está à sua volta. Além destes atributos e funções, Ahura Mazda detém a soberania, razão pela qual ele guarda as leis e pune todos os culpados. No panteão estabelecido por Zaratustra, Ahura Mazda além de “pai” de várias entidades benéficas, gerou também os gêmeos Spenta Mainyu (espírito benfeitor) e Angra Mainyu (espírito destrutivo). O que se depreende dessa concepção é que Ahura Mazda transcende todas as contradições, se situa acima do bem e do mal, que provêm dele, tornando-se o homem, conforme as circunstâncias, segundo a sua escolha, santo ou demônio, pecador ou justo quanto às suas ações. 



ANGRA   MAINYU


AHRIMAN
O onisciente Ahura Mazda teve os seus dois nomes fundidos, tornando-se Ormazd, na literatura pálavi. De outro lado, opondo-se a ele, temos Ahriman, o Pensamento Angustiado ou Negativo. Marcam eles os dois polos da existência: o primeiro significa a vida, o outro, a morte. O primeiro é a luz e a verdade, o outro significa as trevas e a mentira. Eles se definem por seu eterno e constante antagonismo. Tudo é luta entre os princípios que representam.

No mazdeísmo, Zervam Akarena, ser supremo e eterno, anterior a todos, foi assim o criador dos dois princípios antagônicos, Ahura-Mazda e Ahriman, também denominado Ayra-Lanya. O primeiro, bom e sapientíssimo, de quem procede toda a luz; o outro é a fonte de toda a maldade e corrupção. São chefes das falanges sobrenaturais que sustentam entre si constante luta em ciclos de doze mil anos. Ao final de cada um destes ciclos, o mundo físico e moral resplandecerá em pura luz e a luta entre os dois princípios terminará com a vitória do bem.

ORMAZD
Obra de Ormazd, o criador, são o céu, a luz, o fogo, os astros, os metais, a humanidade, os reinos animal e vegetal, a água. Além disso, ele é também conservador e sustentador. Às suas ordens, tem os seis Amesha Spenta, chamados Irmãos Benfeitores, que velam das alturas por toda a criação. Assemelham-se e serviram de inspiração para, no mundo judaico-cristão, se constituírem em modelos dos arcanjos bíblicos e de entidades védico-bramânicas. São gênios benéficos que formam o grupo mais chegado a Ormazd, assim descritos: 1) Bahman (Bom Propósito), divindade do firmamento, da luz e da ordem, supremamente bom e pacífico; acompanha as almas dos justos à região da bem-aventurança; 2) Ardibehechet (Retidão), nume do fogo, da pureza, da saúde e da vida em geral; 3) Shariver, preside a prosperidade e a riqueza; 4) Spendarmad (Devoção), gênio da agricultura; 5) Kordad (Saúde), rege as águas e o tempo; 6) Amurdad (Imortalidade), gênio ligado ao mundo vegetal. Abaixo dos Irmãos Imortais, fica o grupo dos Izeds, vinte e oito espíritos benfeitores e amigos do ser humano, mediadores entre este e as divindades principais que governam, em sua esfera inferior de atuação, os elementos e os dias e meses do ano. 



TEMPLO   DE   AHURA  -  MAZDA


Ahura-Mazda (Ormazd) revelou a Zaratustra que ele tinha criado o universo onde nada existia. Em oposição a este, que é a própria vida, Angra Mainyu (Ahriman) criou um outro, onde tudo é morte e no qual só há duas estações: dois meses de verão e dez meses de inverno. Tudo é tão gelado que mesmo os meses de verão são muito frios. Esta a razão porque o frio no mazdeísmo é o princípio de todo o mal, na medida em que sempre simbolizou o silêncio, a morte, a falta de amor. Lembre-se que no Inferno de Dante as grandes punições têm relação com o frio.


AHURA - MAZDA

Ahura-Mazda prosseguiu no seu discurso, dizendo que criou Gahon, o lugar mais bonito da terra, repleto de rosas, onde nascem os pássaros com plumagem de rubi. Ahriman criou por seu lado os insetos que fazem mal às plantas e aos animais. A lista da criação de um e de outro é enorme. A cada maravilha que Ahura-Mazda criava para a felicidade dos humanos, Ahriman criava o seu correspondente maligno. 

Esta relação entre Ahura Mazda e Ahriman explica porque embora o primeiro seja responsável por tudo o que há de bom no universo, as forças da destruição estão fora de seu controle, não sendo ele, a rigor, uma divindade onipotente. Só quando o bem e a harmonia triunfarem na batalha final entre as duas forças é que ele, na condição de Ormazd, se tornará então onipotente.



YAZATAS

Nesta concepção, a natureza inteira é povoada de gênios, os
FRAVACHI
Yazatas, aos quais são devidos sacrifícios. Chamam-se Fravachis os bons gênios, assumindo eles um papel parecido com os anjos da guarda (anjos custódios) do cristianismo, estes criados por inspiração daqueles. Ao nascer, cada ser humano já tem o seu Fravachi, criado por Ormazd, para acompanhá-lo. O príncipe dos demônios é, como se disse, Ahriman ou Angra Mainyu. Chamados de Devas, os demônios se dedicam a provocar a mentira e a trapaça. Sua função é a de se contrapor ao bem, em qualquer circunstância.  

Diante dos rutilantes espíritos do bem, Ahriman colocou as suas hostes sombrias e maléficas, hierarquicamente organizadas. Aos Irmãos Imortais opõem-se os príncipes que vivem em Duzerek, a morada de Ahriman, presididos por Eskem, o Demônio da Inveja. Aos Izeds se opõe a numerosa falange do Devas, tenazes e belicosos. Mithra tem o seu oposto em Darudj, inimigo feroz, que contra ele levanta o seu ódio como Ahriman o faz com relação a Ormazd. A natureza inteira aparece também dividida entre estes dois princípios: frente ao homem justo e piedoso vive o ímpio e malvado; os animais sagrados, tímidos e dóceis, têm diante de si os ferozes e predadores.

A luta entre estes dois princípios não é eterna. Ela, como se disse, ficou, por determinação de Zervan Akarena, limitada a ciclos de doze mil anos, divididos, cada um, em quatro idades de três mil anos. Na primeira, Ormazd se dedica à obra da criação enquanto seu inimigo se prepara, com infernais ardis, para corrompê-la e degradá-la. Na segunda, Ahriman sai das trevas e ataca; mas, cego pela luz pura do outro lado, cai no abismo e se desespera numa raiva impotente. Passados seis mil anos, na terceira idade, o maligno tenta de novo invadir o paraíso dos deuses (Gorotman), a mansão de Ormazd e dos Amesha Spenta. 

O homem foi criado ao final da terceira idade. Ahriman resolveu deixar os deuses de lado e se dispôs a atacar o ser humano e a criação como um todo, alvos bem mais fáceis, vingando-se assim de Ahura Mazda. Tomando a forma de uma serpente, Ahriman se escondeu na terra e atacou, alterando a organização dos elementos. Com deletérios vapores, sufocou o touro divino Abudad e se dirigiu ao paraíso em que viviam Meskia e Meskianea, o primeiro homem e a primeira mulher. Dirigindo-se a eles, declarou que, com seu enorme poder, era o criador de tudo o que existia e, dando-lhes frutas e leite de cabra, tornou-os seus seguidores. Desde aquele momento, Meskia e Meskianea perderam sua inocência, a felicidade e a imortalidade, herdando sua descendência a maldade e a corrupção. O primeiro par humano morreu, seus corpos se mesclaram à terra e suas almas foram para os céus e lá esperam o grande dia da ressurreição da carne.

A luta entre os Amesha Spenta e os Devas é incessante, renovando-se constantemente. Atualmente, segundo o Avesta, vive a
AVESTA
humanidade o final de uma terceira idade. Depois de uma batalha que durará noventa dias e noventa noites, Ahriman será vencido. O cenário, ao longo dos séculos e séculos, nos mostra que no começa das quartas idades os Devas se mostram vitoriosos, já que obtiveram obtiveram antes algumas vantagens. As almas dos mortos vagam perdidas e chorosas. Em sua perseguição se lançam então os incansáveis Devas. Os Izeds as defendem e as encaminham para a ponte Tchinevad, suspensa entre a eternidade e o mundo. Ali, Mithra tem o seu tribunal e Bahman o assessora. As almas boas e justas atravessam a ponte sem sofrer ataques do seu guardião, o pavoroso cão Sura, e chegam, conduzidas pelos Izeds, à presença de Ormazd e os Amesha Spenta, que dos seus tronos as acolhem. As almas dos malvados e dos inconstantes se tornam sempre o butim dos Devas.

No final da quarta idade, o cometa maléfico Gurker escapará da vigilância da Lua, que rege o seu curso, e deslocando-se pelo espaço se chocará com a Terra, abrasando-a. Do interior da Terra, os metais, derretidos, formarão rios ferventes. Contorcendo-se, desde as suas entranhas, nosso planeta terá então purificadas as potências do mal. Ormazd e Ahriman, afinal, se reconciliarão no seio da Unidade, criando um novo ciclo e uma nova Terra, pura, perfeita, entoando as suas criaturas cânticos de louvor à verdade e à luz. A seguir, tudo recomeçará...



GÊMEOS   DE   AHURA   MAZDA

Tudo o que sabemos de Ahura Mazda nos foi transmitido pelo que sobrou da doutrina da Zaratustra, em textos chamados gathas. As concepções  expostas nos gathas revelam que as experiências religiosas de Zaratustra admitiam o êxtase, típico dos xamãs da Ásia central, no qual era adotado o cânhamo (bhang) como agente enteógeno. Em tais experiências o corpo do xamã adormecia enquanto sua alma viajava até o paraíso (goro demana, a casa do canto).

Zaratustra recebeu a sua revelação religiosa diretamente de Ahura Mazda. Esta revelação falava de uma espécie de imitatio dei, isto é, o crente, embora permanecendo livre, deveria procurar imitar o exemplo de Ahura Mazda, que é sempre spenta (santo). Se assim o fizer, será acompanhado o crente por uma escolta de seres divinos (amesha spenta) dentre os quais destacamos Asha (Justiça), Vohu Manah (Bom Pensamento), Armaiti (Devoção) e Haurvatat (Saúde) e Ameretat (Imortalidade).

A reforma de Zaratustra possibilitou que por meio do rito (yasna) fosse possível ao oficiante participar de uma experiência extática única chamada maga através da qual era obtida a iluminação, usando-se, para tanto, uma bebida que levava na direção de deus (enteógena), de nome haoma. Zaratustra afirmava ter tido várias visões de Ahura Mazda, sempre considerado, por isso, mais que criador e juiz do homem, um amigo, um colaborador cheio de benevolência.

A reforma religiosa se Zaratustra deixou de lado uma importante divindade dos antigos persas, de características solares, Mithra, já mencionado, que tutelava o mundo animal, as boiadas, em especial. O  nome do deus, além de se ligar à designação solar, tem relação com a palavra contrato, com a ordem social, no que sugere, astrologicamente, características aquarianas. Ignorado por Zaratustra, o culto de Mithra reapareceu no período aquemênida quando passou o deus a incorporar o papel de uma divindade salvadora sob o ponto de vista escatológico. Seu culto teve grande expansão no período helenístico da história grega e, depois, durante a dominação romana. 


MAPA   ANTIGO   DE   OSTIA

Entre os romanos, o mitraísmo se tornou uma religião de mistério com sete graus de iniciação. Muito popular no império romano, do séc. II ao séc. V dC, se alastrou por extensas regiões ao longo dos rios Reno e Danúbio, sendo a cidade de Ostia, perto de Roma, um centro importante de seu culto. Lembro que pesquisas arqueológicas iniciadas no séc. XIX nessa cidade trouxeram à luz vários tesouros artísticos, destacando-se dentre eles um esplêndido altar de Mithra, o Mithraeum.  



 ROMA , IGREJA  DE  SÃO  CLEMENTE ,  ALTAR  DE  MITHRA   











sábado, 9 de abril de 2016

URANO (3)

              
                                      

De um modo geral, as divindades celestes de natureza uraniana mostram a sua cólera através de trovões, relâmpagos ou raios. Oniscientes, onipotentes, sábias, essas divindades são sempre as
ÁFRICA   OCIDENTAL
primeiras legisladoras dos grupos humanos na sua vida nômade (guerreiros, coletores, predadores) antes de assumirem uma vida sedentária. Um dos melhores exemplos de uma divindade dessa natureza é Olorum (literalmente, proprietário do céu); nós a encontramos entre Yorubás africanos, povo da África ocidental, ao sul do Benin e a sudoeste da Nigéria. Olorum, depois de ter iniciado a criação do mundo, delegou a divindades inferiores o trabalho de acabá-la e de governar o mundo criado. Retirou-se dos assuntos celestes e terrestres, não se encontrando mais colégios sacerdotais que cuidassem da sua imagem, de seu culto e de seus ritos. É, entretanto, sempre invocado, como último recurso, quando as grandes calamidades se abatem. Olorun reinava sobre os céus com o nome de Olofin Orum, Senhor do Céu, enquanto, abaixo, Olokun, princípio feminino, reinava sobre as águas.  

Os homens só se lembram dos céus em casos excepcionais, quando perigos vindos dessas regiões, os ameaçam diretamente. Na maior parte do tempo, a religiosidade humana se dispersa, volta-se para inúmeras outras solicitações de natureza cotidiana, terrestre, mais prementes. Com relativa certeza, porém, parece ser possível afirmar que a devoção às divindades uranianas foi a primeira forma que tomou a religiosidade dos homens primitivos,  fortemente marcada por sentimentos, pela afetividade. 

Se do céu, isto é, das divindades que se manifestavam através de fenômenos atmosféricos vinham coisas boas, favoráveis, tempo bom, chuva e Sol na medida certa, era preciso agradecer. Se, pelo contrário, os deuses se manifestassem com violência, isto é, se do céu só viessem tempestades, frio intenso ou calor abrasador, geradores de várias catástrofes, enchentes, seca, desmoronamentos etc., era preciso fazer sacrifícios para que tais tendências fossem revertidas.  



DYAUS
    
Quando nos voltamos para a Índia, por exemplo, encontramos algo semelhante. É opinião geral que as duas mais antigas divindades dos povos árias que invadiram a Índia no início da era de Áries (2.000 aC) eram Dyaus, o Céu, e Prithivi, a Terra. Nos hinos do Rig-Veda se faz menção a eles como sendo os pais dos demais deuses. Eles são sempre descritos como grandes, vigorosos e sábios, como aqueles que promovem a virtude e prodigalizam favores aos que os honram. Deles se fala também que geraram todas as criaturas e que são bondosos.





INDRA
Numa outra passagem do Rig Veda, temos informações que nos revelam que o Céu e a Terra foram criados por Indra, que os transcendia em grandeza. Às vezes, se menciona que o Céu e a Terra foram criados por Soma, o deus que vive na planta de mesmo nome, uma das divindades mais citadas no Rig-Veda. Como entender tudo isto? A opinião mais aceitável é a de que Indra ocupou aos poucos, gradualmente, o lugar de Dyaus. Indra, como se sabe, faz parte da principal trindade da religião védica, ligada ao elemento ígneo, que se completa com com Surya, o Sol, e Agni, o fogo terrestre.   

Dyaus-pitri (Deus Pai ou Pai do Céu) era nome mais comum pelo qual Dyaus era invocado. Quando o Céu e a Terra eram invocados juntamente usava-se a expressão Dyava-prithivi. Dyaus personificava a abóbada celeste, o firmamento supremo. Todos os deuses, o Sol, a Lua, o Vento, a Chuva, o Relâmpago, a Aurora são filhos dele. Ele tem o poder de abrir a Terra e de fertilizá-la com o seu sêmen, a chuva. A palavra Dyaus (do radical indo-europeu div, depois deiwo, brilhante, celeste), no antigo mundo védico, representava o lugar onde brilhavam os deuses. O Akasha, Éter, era uma manifestação física sua.  

Os principais nomes de Dyaus são: Abhram ou Maghaveshma (O Lugar das Nuvens), Ambara (Véu), Ananga (Indivisível), Vyoma (O que Recobre), Maha-vela (Grande Véu), Pushkara (Reservatório das Águas), Trivishtapa (Morada dos Três Mundos), Antaroksha (Espaço), Murudvatma (Caminho dos Ventos), Viyat (Separador), Vihayah (Caminhos dos Pássaros), Gagana (Móvil).



NAKASHATRA

Nas concepções védicas, a existência possui oito esferas: 1) Prithivi, onde reside (2) Agni, o Fogo; 3) Antariksha, o Espaço, onde reside (4) Vayu, o Vento, princípio da Vida; 5) Dyaus, o Céu, onde reside (6) Surya, o Sol, princípio do intelecto superior; 7) Nakshatra, as Constelações, onde reside (8) Soma (a Lua), princípio da imortalidade. As esferas da existência e as potências que nela residem são os princípios a partir dos quais o mundo físico dos elementos (adhibhautika) se desenvolveu. Eles são para o ser humano o aspecto mais imediato do divino, os deuses mais imediatamente perceptíveis. Enquanto primeiro grau do aparecimento das coisas, eles representam a juventude do mundo. 

Oposta a Dyaus, a primeira das oito esferas é a Terra, suporte (Dhara) de todas as criaturas, como a Geia dos gregos, nutriz de qualquer forma vital. Ela é mãe de todos os seres viventes, a substância de tudo. Narram os mitos que Prithu, o primeiro rei, inventor da agricultura, obrigou a Terra, contra a sua vontade, a abrir os seus tesouros e a alimentar os homens. Daí o primeiro nome da Terra, Prithivi, o domínio de Prithu.

Nas mais antigas invocações, a Terra era identificada pelo nome de Aditi, a Ampla, A Infinita, a extensão primordial, a primeira das deusas e mãe dos deuses.  Todos os aspectos da natureza e da vida eram formas suas. As montanhas, as árvores, os rios, os animais, tudo era dela. 

A primeira das esferas da existência é Prithivi, a Terra, suporte (dhara) de todas as criaturas, a que nutre todas as formas de existência. Prithivi é representada como uma deusa ou como uma vaca que alimenta com o seu leite todos os seres. Ela é também a substância universal, prima materia, separada das águas. Dela foi feito o homem, sendo ao mesmo tempo mãe e mulher, oposta simbolicamente ao céu, entendidos ambos como o princípio ativo, o primeiro, e princípio passivo a segunda. Prithivi é a virgem penetrada pela enxada ou pela charrua, fecundada pela chuva.



DYAUS   PRITHIVI


Unida ao Céu, a Terra forma, pois, com ele o primeiro casal divino, Dyaus-Prithivi, muito semelhante ao par que na mitologia grega forma a primeira dinastia divina, Urano-Geia. Nas invocações, Prithivi é identificada geralmente como Aditi, inesgotável fonte de abundância.

Em Prithivi reside Agni, o fogo capturado e do qual os homens se apropriaram para utilizá-lo como instrumento de poder e progresso. Qualquer forma do fogo é venerada como um ser divino. A  sua mais honrada forma é a sagrada, nascida da fricção de dois pedaços de madeira, em cerimônias religiosas, nas quais são pronunciadas fórmulas rituais. 

Agni, o fogo doméstico, é a principal divindade dos Vedas, a ele sendo dedicados o maior número de hinos. Ele é o mediador entre a Terra e o Céu, o protetor dos homens e de suas moradas, testemunho de suas ações, sempre invocado em todas as ocasiões solenes. Ele preside todos os sacrifícios e todos os acontecimentos da vida humana.  


AGNI
Antes de os brâmanes terem assumido a posição mais elevada no sistema de castas da Índia, a casta guerreira já possuía divindades que, embora ainda não bem organizadas num panteão, atendiam às suas necessidades, as de uma aristocracia conquistadora. Eram as divindades chamadas de reais, e velavam sobre a ordem social, bem diferentes de divindades como Agni, muito reverenciada ritualisticamente pelos brâmanes, a classe sacerdotal.

ASHVINS
As divindades reais, como o seu próprio nome indica, veneradas por conquistadores, pela elite dirigente, não eram populares. O ariano guerreiro tinha os seus olhos voltados para Indra, para Mitra, Varuna, para os Nasatyas ou Ashvins e para os Ribhus, poderosas divindades que apontavam para uma soberania universal.

O ariano que invadiu o norte da Índia, submetendo as populações de pele escura, os dravdas, venerava Indra, um deus que possuía as mesmas qualidades e defeitos que um kshatrya (casta dos guerreiros). Um destes deuses dos invasores era Varuna, que aparece geralmente muito associado ao deus Urano dos gregos.

VARUNA
Mitra e Varuna formam uma díade e são tidos como Adityas, filhos de Aditi. Como rajas, reis, são detentores daquilo que os védicos chamavam de kachatram, soberania, a essência da casta guerreira. Assim como os asuras (aqui no sentido de seres espirituais), eles têm um poder mágico, maya, uma eficácia misteriosa, um grande poder de encantamento, que, nos demônios, se volta para os malefícios. 

Os princípios soberanos atribuídos aos Adityas são personificações dos princípios intelectuais, morais e das virtudes sociais que regulam o funcionamento harmônico do universo e da sociedade humana. Esses princípios residem nos céus, nas esferas mais altas, dominando a vida e os seus elementos constitutivos. 

Do ponto de vista humano, estes princípios se referem aos aspectos principais de sua existência, orientando as relações dos homens entre si e deles com as forças naturais em operação no cosmos. Os pensadores védicos separaram estes princípios soberanos em dois grupos: uns referindo-se ao mundo dos humanos e outros à ordem cósmica.

Os princípios soberanos do mundo dos humanos são: 1) Mitra (Amizade) – representa a solidariedade, o respeito à palavra dada, as ligações dos homens entre si; 2) Aryaman (Honra) – representa os princípios cavalheirescos, a magnanimidade, as regras da sociedade; 3)Bhaga (Partilha) – representa os bens do clã como propriedade legítima e também o tributo devido como participação no bem coletivo.

Os princípios soberanos do mundo divino (ordem cósmica) são: 1) Varuna (o que tudo cobre ou liga) – representa o destino, as leis misteriosas que guiam os humanos em direção do desconhecido, do inesperado; 2) Daksha (Habilidade) – representa a arte dos rituais, as regras do sacrifício e a capacidade de cumpri-las sem falta; 3) Amsha (Partícula) – representa a parte da essência supramundana que  cabe a cada um dos humanos, sem que isto a diminua; é vivida como acaso, sorte, dom divino, tesouro encontrado, a exigir sempre um “imposto” maior de quem recebe mais. 

MITHRA
Mitra e Varuna são mantenedores da ordem universal, rita. Não a instituíram, mas a mantêm. Rita é o caminhar universal, o eterno fluir de tudo. Esse conceito equivale ao Panta Rei de Heráclito, que nos afirma que tudo é móvel, transitório e passageiro. Mitra governa a amizade, cuida da solidariedade, sanciona os contratos, Varuna garante os juramentos, pune os inadimplentes.  

Os antigos povos védicos representavam através de mitra, palavra que como substantivo quer dizer amigo, o mais importante princípio do mundo dos árias como seres humanos. Mitra, como vimos, quer dizer também solidariedade, respeito à palavra dada, aos tratados, revestindo de sacralidade tudo o que liga o homem a outro homem. A importância de Mitra, porém, com o tempo, foi diminuindo; quando do registro dos hinos védicos, os valores da magia, da manipulação política, já prevaleciam sobre a moral social, sobre as regras que comandavam as uniões.

O principal papel de Mitra era o de forçar os homens a manter as suas promessas. Mitra sempre lhes mostrou os benefícios da camaradagem, da sinceridade, da comensalidade na constituição das associações humanas, das tribos, das nações. Inimigo das disputas e da violência, Mitra tinha como companheira Revati (Prosperidade), que lhe deu três filhos: Dom (Utsarga), Felicidade (Arishta) e Prazer (Pingala).

A esta altura, parece-me oportuno aproximar o Mitra védico, da
AVESTA
Índia, daquilo que na antiga Pérsia tomou o nome de mitraísmo. Na origem, o Mithra dos antigos persas tem muito em comum com o das tribos que invadiram a Índia. Na língua persa da época, Mithra adquiriu características solares (mihr, Sol). No Avesta, conjunto de textos sagrados, escrito em língua avéstica, havia uma díade muito semelhante à da Índia, Mithra e Ahura, fazendo o primeiro um papel de divindade conciliadora. 



TAUROBOLIUM

A estatuária helenística tornou muito conhecida a imagem de Mithra, fazendo-o usar um barrete frígio na cabeça, sacrificando um touro (final da era de Touro), numa gruta, onde se reuniam os iniciados. Era o taurobolium. O rito era de fecundação da natureza, associado a um novo nascimento, tendo portanto relação com o equinócio da primavera. O adepto que se submetia ao batismo pelo sangue do touro tornava-se um renatus in aeternum

Este culto foi introduzido na Itália com o nome de mitraísmo no
CIBELE
segundo século da era cristã, enriquecido com contribuições do culto de Cibele, Grande-Mãe da Ásia menor, pelas legiões romanas. Este culto foi trazido para a Itália pelas legiões romanas quando andaram no Oriente à conquista de terras e fundando colônias, dando elas a Mithra o nome de Deus Salvador, Deus Vencedor, invencível. Segundo o mito, Mithra teria nascido num rochedo, a 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começam a aumentar. Nessa data se celebrava o renascimento do Sol, data a que os romanos deram o nome de Natalis Solis e que os cristãos utilizaram para fixar a sua festa do Natal. 

A ação maior de Mithra foi a degola do touro, símbolo do sacrifício da matéria, apesar de todas as tentativas contrárias da serpente e do escorpião que queriam impedi-lo. Desde então, esta cena, muito representada por imagens e esculturas, passou a simbolizar a luta das potências do bem contra as potências do mal. 



SÍMBOLOS   DO   MITRAÍSMO    ( OSTIA  ANTIGA ,  ITÁLIA )

O mitraísmo manteve com a antiga religião da Pérsia duas ligações importantes: a ideia de um zelo ardente pela pureza moral, obtida e mantida graças a uma atitude belicosa, tornando-se o seu adepto um soldado da fé. Decorre desse entendimento o grande sucesso que o mitraísmo teve entre os exércitos romanos. A segunda ligação é a veneração pela luz, o único princípio realmente invencível, absoluto para os adeptos da religião. A vida religiosa para os mitraístas era ascética, disciplinada e muito árdua, daí o seu sucesso entre as legiões romanas.

O mitraísmo, que só desapareceu de Roma por volta do séc. V dC, propunha sete graus de iniciação, cada um deles sob a proteção de um planeta: Perses (Persa), sob a tutela da Lua; Corvus (Corvo), sob a tutela de Mercúrio; Nymphus (Noivo), protegido por Vênus; Miles (Soldado), protegido por Marte; Leo (Leão), sob a tutela de Júpiter; Pater (Pai), sob a proteção de Saturno; e Heliodromus (Mensageiro do Sol), tutelado pelo Sol. O progresso de grau em grau correspondia à ascensão da alma através das esferas planetárias.

Sobre Varuna é preciso mencionar antes que, como outros deuses de caráter uraniano, ele possuía a soberania e a onisciência,
VARUNA
atribuições que eram de Dyaus e que ele foi assumindo. Este processo ocorreu dentro do próprio mundo védico, talvez por volta do início do segundo milênio aC. Varuna, “o que tudo abarca”, “o que tudo envolve”, chamado então de Uruvana, conforme inscrições do séc. XIV aC, foi absorvendo também as manifestações de caráter misterioso, lunar, pluviosas, além de se tornar uma divindade oceânica (dominando as duas últimas regiões do zodíaco).

Como divindade onisciente e infalível, era por sua iniciativa que desciam dos céus vários emissários seus que, com os seus milhares de olhos, vinham espionar a Terra. Varuna era a divindade que via tudo, que conhecia tudo, todos os segredos, todas as intenções. Jamais fechando os olhos, ele e Mitra tinham seus espiões no mundo vegetal, dentro das casas, nas praças e nas ruas. Aliás, um dos apelidos de Varuna era Sahasraksha (O de Mil Olhos). 

Como soberano universal, Varuna era o guardião das normas e da ordem cósmica. Como ele via tudo, como nenhum pecado lhe escapava, por mais escondido que estivesse, os fiéis se prostravam diante dele numa posição de grande humildade. Ao garantir os contratos, ao se posicionar como deus dos juramentos, Varuna era a divindade que ligava, que unia, razão pela qual a imagem das malhas de uma rede era um de seus grandes símbolos. Os homens, diziam os textos sagrados, temem a rede de Varuna, pois ela pode paralisá-los, exauri-los. Esta faculdade que Varuna tinha de ligar punha em evidência o caráter mágico de sua soberania. Por isso, Varuna era considerado o mestre da maya, do jogo fenomênico que encantava e prendia. Os atributos de Varuna eram dabda e pasha (bastão e rede). Pelo que se pode ver, Varuna não era uma divindade exclusivamente uraniana. Suas epifanias não se
WORLD   WIDE   WEB
limitavam apenas aos fenômenos atmosféricos. Sem muito esforço, fica fácil perceber que a rede de Varuna é hoje representada pela sigla WWW (Rede de Alcance Mundial – World Wide Web), conhecida simplesmente como Web, um sistema de documentos em hipermídia, interligados e executado na Internet. O caráter aquático dessa rede pode ser constatado pelos termos que usamos para seguir as ligações, navegar ou surfar na Web. 

A rede, como se sabe, em inúmeras tradições mitológicas, é considerada um objeto sagrado. Ela imobiliza o adversário. Ela serve também para, como símbolo religioso, capturar a força espiritual, como a empregaram os místicos iranianos, por exemplo. Como atributo de divindades supremas, a rede serve para submeter os homens ao divino. O cristianismo a usou neste sentido, como
CRISTO   PESCADOR   DE   HOMENS
símbolo da ação divina: Cristo era um pescador de homens. É por esta razão também que a rede foi parar na análise psicológica. Na psicanálise, por exemplo, esta ideia aparece ligada à livre associação, método terapêutico que consiste em se exprimir todos os pensamentos que vêm à mente, a partir de um elemento dado (palavra, fragmento de sonhos etc.) ou espontaneamente. O terapeuta, lançando a sua “rede”, colherá no “cardume” de palavras, imagens afloradas do inconsciente do analisando, segundo a sua técnica, o que julgar mais importante.  

Além do mais, lembre-se que Varuna, ao presidir as relações dos homens com os deuses, tem uma conduta imprevisível, seus favores súbitos, sua inexplicável crueldade, nada pode ser previsto, no que lembra muito o Urano da aAtrologia. Ele possui um poder mágico (Maya) com a ajuda do qual cria todas as formas do mundo visível. Por isso, parece muitas vezes um déspota, um mestre poderoso e insensível. É neste sentido que ele representa a realidade interior das coisas, a verdade absoluta (rita) e a ordem que transcende a compreensão humana. Seu grande poder é noturno, misterioso, enquanto o de Mitra é diurno, ligado à luz, à claridade.

O nome de Varuna vem provavelmente da raiz var, que quer dizer envolver, cobrir e, deste modo, tem relação com tudo o que é misterioso, críptico, secreto. É incontestavelmente também o senhor das águas superiores que rodeiam o mundo. Esta ideia é muito interessante para a Astrologia ocidental se levarmos em conta que a constelação de Aquário, governada por Urano, por volta de 4000 aC sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno. Essa constelação era visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, derramando água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanis, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas mais ou menos com o elemento líquido. Não é por outra razão que os babilônicos davam o nome de “Assento das Águas Moventes” às estrelas da constelação de Aquário, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam formado o dilúvio que se abateu sobre a Terra. 



CALENDÁRIO   HEVELIUS


Não é por acaso também que o símbolo da constelação de Aquário produz duas vezes o hieróglifo egípcio da água, duas linhas sinuosas em forma de onda que seguem paralelamente. Isto explica ainda o caráter imaterial do signo, uma espécie de oceano aéreo primordial que banha toda a Terra. É por essa razão ainda que o signo tem relação com as afinidades eletivas que devem dar origem à humanidade através da fraternidade universal. Os védicos propunham, segundo essa ideia, uma outra etimologia para Varuna: var,   raiz que significa ligar, unir; Varuna une todas as coisas, fazendo do múltiplo o uno (vari+unam).

MAKARA
Com o tempo, Varuna se transformou no mais importante dos Adityas e assumiu características que muito o aproximaram também do Poseidon grego. Nessa forma, ele se tornou senhor também dos mares e dos rios, tendo como montaria (vahana) o crocodilo (Saturno) Makara, animal monstruoso que tem a cabeça e as patas de um antílope e o corpo e a cauda de um peixe. 

Embora Varuna tenha muita semelhança com o Urano grego, as diferenças entre eles são bastante significativas como se pode perceber. Não há, por exemplo, na mitologia védica, uma relação matrimonial entre Varuna (Céu) e Prithivi (Terra) como há, na grega, entre Urano e Geia, nem Urano assumiu, como Varuna, qualquer poder sobre o elemento líquido. Alguma relação sempre poderia ser estabelecida, contudo, se pensarmos nas grandes influências aquarianas que nestes últimos séculos da era de Peixes, a terminar matematicamente em 2658, já se fazem sentir. 

Varuna é descrito como uma divindade sorridente; sua cor é a da neve, do lótus ou da Lua; aparece sempre munido de todos os seus
GANGA
ornamentos e atributos. Na mão direita leva uma rede. Postura ereta, rodeado por um halo luminoso; tem como residência favorita a Montanha Florida (Pushpa-giri). Seu palácio é de ouro e fica no lugar mais bonito do universo, chamado Noite Estrelada (Vibhavari). Ao seu lado, senta-se a rainha Varuni, em um trono de diamantes. Samudra (Mar), Ganga (Ganges), além de divindades de diversos rios, lagos e mananciais sentam-se também ao seu lado. 

Dentre os apelidos de Varuna, destacam-se: Sábio (Vidvan), Inteligente (Dhira), Discriminador (Pracetas), Sutil (Gritsa), Hábil (Sukratuh), Inspirado (Vipra), Poeta (Kavi), Grande (Mahan), Vasto (Brihat), Poderoso (Bhuri). Depois que assumiu o poder sobre as águas, recebeu nomes como Senhor das Águas (Apampati), Senhor dos Animais Aquáticos (Yadasampati), Senhor dos Rios (Nadipati), Senhor do que Flui (Sarvasam-saritam-pati).

Varuna é assim a imensidão do universo, o mestre da rita, energia que mantém a ordem universal, a realidade profunda sem a qual nada pode existir. A palavra rita, lembre-se, significa também o conjunto de sacrifícios indispensáveis à boa marcha do universo, no que lembra o conceito de maat entre os antigos egípcios. Varuna vela por tudo, inclusive pelo consumo de soma, produto lunar, a bebida dos deuses. Nos céus, as estrelas estão a seu serviço, espionando o que acontece na Terra e contando-lhe tudo. Ele reina sobre o ritmo das esferas celestes, cujo movimento regula. Varuna é o lado “negro” do Sol quando este faz a sua viagem em direção do oeste. É complementar a Mitra, que representa o Sol matinal. Nada a estranhar que os védicos tenham feito de soma uma divindade, dando-lhe inclusive o nome de Amrita, imortal.