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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

LIBRA (5)



 TISBE   E   PÍRAMO   ( MOSAICO   ROMANO )

Uma das mais belas histórias que devemos associar ao mundo libriano é a de Píramo e Tisbe. A sua origem pode se rastreada na antiga Babilônia e a versão que prevaleceu foi a que Ovídio nos deixou nas Metamorfoses. Contra a vontade das respectivas famílias, os jovens se amavam ardentemente. Conseguiam manter contacto através de uma fenda no muro que separava as propriedades em que viviam. Com muita dificuldade, certa feita, marcaram um encontro noturno, fora da cidade, junto do túmulo de Nino, o fundador mítico de Nínive e do império babilônico, no local onde havia uma amoreira. 

Tisbe foi a primeira a chegar. Assustou-se quando viu um leão se aproximar de uma fonte próxima do local. Na fuga, deixou cair a sua écharpe. O animal, com os beiços ainda ensanguentados (acabara de devorar uma corça), estraçalhou o lenço da jovem, deixando nele muitas marcas de sangue. Pouco depois, o animal visto já ao longe, Píramo chegou; diante dos restos da écharpe, concluiu que a sua amada havia sido devorada. Totalmente
AMOREIRA
descontrolado, sacou um punhal e se matou. Tisbe, porém, resolveu voltar ao local e se deparando com o corpo do amante, matou-se também com o punhal dele. Os frutos da amoreira, de brancos que eram, tingiram-se, desde então, de vermelho diante de tanto sangue derramado. Vêm dessa história inúmeras restrições que acompanham a amoreira. Uma delas: para não conhecer um destino tão trágico como o dos dois jovens da Babilônia, encontros amorosos nunca deverão se dar sob ou na proximidade de amoreiras. 

ZEUS  E  HERMES  NA  CASA  DE  BAUCIS  E  FILEMON
(  PHILIP  GYSELAER , 1620 - 1650 )

Uma outra ilustração libriana pode ser encontrada na história de Baucis e Filemon. Ela era uma frigia, casada com um camponês muito pobre. Um dia, em visita à terra, Zeus e Hermes, disfarçados como mendigos, passando pela vila em que morava o casal, foram escorraçados pelos seus habitantes. Apenas Baucis e Filemon, apesar de sua grande pobreza, os acolheram. Os deuses, tocados por tão grande gentileza, revelando-se então, sugeriram que eles fizessem um pedido, com a promessa de atendê-lo. Pediram para morrer juntos, pois um não suportaria a morte do outro. Passaram-se os anos e quando morreram, juntos como o prometido, eles foram transformados numa árvore de um só tronco. Esta história era contada em antigos círculos astrológicos para se falar do signo de Libra, destacando-se através dela que o amor feliz e duradouro é feito de humildade, de paciência, de tolerância mútua e de ternura, de exigências medidas e de aceitação tranquila dos limites e das provas trazidas pela vida, tudo evidentemente fora do mundo passional que, aliás, não é de Libra. 


PIGMALEÃO   E   GALATEIA
JEAN - LÉON  GÉRÔME , 1824 - 1904 )
Uma outra história sempre associada ao signo de Libra é a de Pigmaleão e Galateia. Além de rei de Chipre, Pigmaleão era incomparável escultor. Jamais conseguindo se ligar a mulher alguma, achando-as todas desinteressantes, feias, indignas de seu amor, resolveu esculpir uma, que seria a mais bela de todas as criaturas. Assim fez, dando-lhe o nome de Galateia (branca, transparente, em grego). Era ela perfeita, faltando-lhe apenas a palavra e a visão. Amou-a perdidamente. Suplicou a Afrodite que lhe desse vida, pois queria acariciá-la, amá-la, torná-la humana, desejosa e desejável. Ou seja, astrologicamente, passar da abstração de Libra como signo de ar à dimensão terrestre, carnal, da alma. Talvez sem o saber, Pigmaleão estava tentando superar aquilo que talvez seja a danação de Libra, a sua recusa ou dificuldade para se encarnar, sempre uma grande dificuldade para viver devido à grande dependência do “outro”. Libra é realmente o signo que antes de tudo mais sonha o amor do que o vive, pedindo sempre sentimentos sublimes, adjetivo que, como sabemos, é ligado ao elemento ar.

JEAN   BURIDAN
Uma das histórias mais interessantes que podemos  também ligar ao signo de Libra nos vem da filosofia. É o famoso argumento do asno de Buridan. Jean Buridan, filósofo escolástico francês (1300-1358), ligou seu nome a uma história por ele criada: um asno que, sedento e faminto, encontrando-se a igual distância de um cocho com feno e de uma tina com água, não conseguia se decidir, escolher. Este argumento foi usado por Buridan nos seus cursos tanto contra os partidários do determinismo (para os quais o asno morreria de fome e de sede, o que pareceria viável) como contra os partidários das teses do livre-arbítrio (que consideravam o animal  dotado de uma liberdade que poderia levá-lo à indiferença). O asno, incapaz de decidir entre beber primeiro e comer depois, ou vice-versa, incapaz enfim de fazer uma escolha, permaneceu imóvel entre os dois estímulos. Esta história é, acredito, uma boa ilustração da conhecida incerteza inibitória libriana. Impulso e inibição, desejo e medo, ímpeto e recuo.

LAMED
Entre os judeus, o signo de Libra é o mês de Tishrei, tendo relação com a letra lamed, a mais “alta” das letras do alfabeto hebraico, cujo valor numérico é trinta. Além do mais, a forma dessa letra é parecida com a de uma balança. O signo que sobe neste mês indica que nele é chegado o tempo da avaliação das ações humanas. A tribo relacionada com o signo é a de Ephraim, o segundo filho de José e de Asenath (aquela que pertence à deusa Neith; segundo o Gênese, ela era a esposa egípcia de José), filha do sacerdote de On, que o patriarca Jacó adotou no momento de sua morte. A tribo de Ephraim possuía o centro da região montanhosa do país de Canaã. Depois da divisão do reino, Ephraim foi o inimigo mais poderoso de Judá (quarto filho de Jacó) e a principal tribo do reino do norte.

Na tradição judaica, o nome deste mês, Tishrei, indica que ele marca o início de um ano novo porque ele contém as mesmas letras que a palavra que designa o começo (bereshit, Gênese). O significado da palavra Tishrei em aramaico é reconciliação, reparação. Isto quer dizer reparação de ações do passado que irão permitir que uma pessoa vire as páginas do livro de sua vida. A letra lamed simboliza a sublime oportunidade que este mês oferece para que uma pessoa possa ir das profundezas do pecado à maior altura espiritual, pondo sua vida em ordem e reajustando o seu coração. Aliás, segundo algumas tradições, a letra lamed quer dizer lev (coração). Tishrei marca o fim da primeira metade do ano (que começa com Nissan (Áries). É considerado como o coração do ano assim como o coração recebe e distribui a energia espiritual pelo período anual em sua totalidade. 

A natureza essencial deste signo, o acasalamento, é a íntima relação entre marido e mulher, o que simboliza também que foi nesse período que ocorreu a unificação entre Deus e o povo judaico. Isto

é especialmente revelado pelo Yom Kipur, que cai no dia dez de Tishrei, quando as duas Tábuas, contendo os dez mandamentos foram dadas a Israel. O Yom Kipur, como se sabe, é celebrado como o “dia da expiação”, o mais sagrado do calendário judaico, marcando o fim dos dez dias de penitência. Na antiguidade era o único dia em que o sumo sacerdote entrava no “Santo dos Santos” (a área mais sagrada do tabernáculo e do templo) e um bode expiatório, carregando os pecados de Israel, era enviado a Azazel, no deserto, a um penhasco de onde o animal era lançado, carregando assim os pecados de Israel. Embora o nome Azazel se refira a um lugar, ele também designava entre os judeus um demônio ou anjo caído.



GUERRA  ( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

O bode, lembremos, em todas as tradições sempre foi considerado como um símbolo do fogo genésico, do fogo sacrificial, de onde nasce a vida. Esta carga simbólica tem evidente relação com o signo de Áries e com o planeta Marte. Não é por outra razão que o bode, na mitologia hindu, é montaria do deus Agni. Em várias culturas, na greco-romana principalmente, era da figura do bode que saía a base teriomórfica de sátiros, silenos, faunos, egipãs e de outros seres que ficavam entre o humano e o animal, divindades campestres, companheiras do deus Pã, todos amantes de ninfas e de jovens mortais de ambos os sexos. Eram representados por pequenos seres humanos barbudos, muito fortes, peludos, com pequenos chifres, orelhas pontiagudas, cauda, e um membro viril descomunal. 


MOISÉS   E   DEZ   MANDAMENTOS
 ( REMBRANDT , 1606 - 1669)

A concessão do Decálogo é considerada como um “presente de núpcias”, da união do povo de Israel com Deus, um presente semelhante ao que o marido dá à mulher quando de sua união. Esta aceitação do Decálogo transformou Israel numa nação religiosa, abençoada, alçando-a à condição de “cabeça” dentre todas as demais, isto é, a que deve guiar todos os povos na direção do divino.    

As pessoas nascidas no mês de Tishrei costumam apresentar uma disposição natural para viver harmoniosamente com os outros.
ROSH  HA - SHANÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )
Refinamento e abertura espiritual são comuns nos do signo já que é no primeiro e segundo dias de Tishrei que se comemora a festa do ano novo judaico (Rosh ha - Shaná, “cabeça do ano”). Segundo a tradição, foi nessa data que Deus criou Adão, o primeiro homem. Rosh ha - Shaná é também conhecido como o Dia do Julgamento, pois dá início a um período de julgamento para a humanidade, que termina em Hoshaná Rabá, quando Deus senta em seu trono e determina o destino de cada indivíduo no ano que se inicia. Três livros são abertos no céu, um para os verdadeiramente justos, um para os verdadeiramente iníquos e outro para os que não se enquadram nas duas categorias mencionadas. Os judeus acreditam que com orações e arrependimento sincero, nos dez primeiro dias do mês, seus nomes venham a ser inscritos, para o ano seguinte, no livro dos justos. É por isso que eles costumam se cumprimentar com as seguintes palavras: Que teu nome seja inscrito no livro dos justos para que possas gozar de um bom ano. Sopra-se o shofar a fim de se despertar os pecadores para o arrependimento. Nesta cerimônia são consumidos alimentos em razão de seu simbolismo positivo, alimentos que trarão influências benéficas, como a cabeça de animais, inclusive de peixes, para que a pessoa durante o ano vindouro possa viver como “cabeça” e não como “cauda”, ou seja, que viva como um vencedor e não como um perdedor. 

RABI COM TORÁ (MARC  CHAGALL)
As pessoas nascidas sob a influência de Tishrei costumam enfrentar muitas dificuldades quando da tomada de decisões. Se se voltarem, porém, para os ensinamentos da Torá, poderão superar tais dificuldades, encontrando o foco naquilo que é mais importante para elas. Esta tendência à vacilação que as pessoas nascidas em Tishrei se deve ao elemento ar, elemento que os do signo compartilham com os nascidos em Sivan (Gêmeos) e Shevat (Aquário). No 22º dia do mês de Tishrei é celebrado Simchat Torah, o dia do recebimento da Torá. Lembram os astrólogos que o elemento ar deste signo é composto por um balanceamento entre o fogo e a água, elementos que são naturalmente opostos. As relações de complementaridade entre José e Judá são indicadas pela aproximação entre Nissan (Áries), da tribo deste último, e de Tishrei (Libra), que é de Ephraim, filho de José, como já se viu.    

O corpo celeste que rege Tishrei é o planeta Vênus, que tem a ver tanto com o amor quanto com as paixões, conforme esclarece o
TALMUD
Talmud. Estes sentimentos são expressos no calendário judaico no festival de Sukot, que começa no dia quinze do mês, na Lua cheia. O festival tem a duração de oito dias. No último dia, Deus e o povo de Israel se unem como marido e mulher, matrimonialmente. O festival de Sukot (tabernáculos, em hebraico) é uma das três grandes celebrações relacionadas com a peregrinação ou festas da colheita. 

Sukot começa no dia 15 de Tishrei, após a colheita anual, sendo considerada a mais feliz das festividades bíblicas. Comemora-se a generosidade de Deus, simbolizada pelas frágeis cabanas que os judeus habitavam no deserto. Durante o Sukot, os judeus moram e comem nessas cabanas (tabernáculos). São usados quatro vegetais nesse festival: a palmeira, uma fruta cítrica, o salgueiro e a murta (Levítico, 40.23). Eles são brandidos para celebrar a generosidade divina ao fim da estação da colheita, simbolizando os diferentes tipos que constituem uma comunidade judaica. A palmeira dá fruto, mas não tem odor agradável; é usada para representar o judeu que estuda a Torá, mas que não cumpre os seus mandamentos; a murta tem cheiro agradável, mas não dá frutos; o salgueiro não dá frutos nem cheira; a fruta cítrica, isto é, o etrog, dá frutos e tem odor.  Os judeus dão o nome de etrog a uma fruta cítrica, da família do limão, da lima e da toronja, usado exclusivamente para fins religiosos, representando também o coração humano; seu forte aroma afasta insetos e seus caroços neutralizam venenos e dão um hálito agradável.

A constelação de Libra estende-se de 7º a 28º de Escorpião. Ptolomeu considerou as estrelas desta constelação através das Pinças de Escorpião, vendo nelas influências semelhantes às de

Júpiter e Mercúrio; já as estrelas situadas no meio das Pinças atuariam como Saturno e, menos, como Marte. No Tarot, lembremos, o signo de Libra aparece associado ao arcano 8, a Justiça. Com ele tem início o segundo septenário do Tarot, significando isto a predominância do reino do equilíbrio, da ação que deve ser empreendida independentemente dos compromissos pessoais. Nas mãos da Justiça, temos a espada e a balança. O simbolismo da Justiça põe em relevo a união harmoniosa das forças opostas, união que deve ser buscada sobretudo interiormente. 





A estrela mais brilhante (alfa) de Libra é Zuben Elgenubi (prato sul), seguindo-se, em grau de importância,  Zuben Eschamali (prato norte), beta, e Zuben Hakrabi, também chamada de Graffias, não considerada astrologicamente. O nome da primeira é uma tradução para o árabe da designação grega ptolomaica (Chele Notos, Pinça do Sul); está situada a 14º 23´ de Scorpio. O nome da segunda é também uma tradução para o árabe da designação ptolomaica (Chele Boreios, Pinça do Norte); está situada a 18ª 40´ de Scorpio.

Ambas as estrelas têm a ver, ao que parece, segundo a tradição astrológica mais consequente, muito mais com questões sociais, com reformas e propostas de justiça do que com problemas pessoais nesta área. A diferença entre elas está, porém, no fato de Eschamali unir, gerar envolvimentos sociais e vantagens, ganhos ou promoção pessoal, enquanto com relação a Elgenubi estas últimas
JOHN   LENON , 1940 - 1980
tendências não costumam se verificar. A orientação de ambas está, como se disse, voltada para o social, para a atuação através de grupos, indo (dependendo de posição e aspectos) desde formas mais intensas de ativismo e engajamento a formas mais suaves (clubes, hobbies etc.). Mapas como os de Martin Luther King, John Lenon, de Karl Marx e Jean-Paul Sartre poderão ser estudados para se conhecer melhor a influência das referidas estrelas.   

                           

quarta-feira, 4 de junho de 2014

HÉRCULES - SÉTIMO TRABALHO


HÉRCULES

O JAVALI  DE  ERIMANTO - Erimanto era uma região desolada, montanhosa, da Arcádia. Nela vivia um javali gigantesco, que aterrorizava os habitantes da região, destruindo ou matando tudo o que encontrasse pela frente. A missão de Hércules era a de capturá-lo e de levá-lo vivo para Argos. Antes de se dirigir ao local, nosso herói procurou aconselhar-se com o deus Apolo quanto à melhor maneira de dar cumprimento ao que lhe determinara Euristeu. O deus lhe falou que o animal era do deus Ares, sendo também muito caro à sua irmã, a deusa Ártemis. Disse-lhe Apolo que a melhor maneira de enfrentar o monstro e de vencê-lo era a de lutar sem lutar. Hércules se impacientou com as palavras de Apolo, não as compreendeu, e resolveu que decidiria o que fazer quando se visse frente a frente com a fera.



Chegando a Erimanto, nome que lembra não só a cor vermelha como traduz uma ideia de violência e de excitação, Hércules entrou em contacto com o centauro Folo, um centauro pacífico, muito diferente dos demais. Ele havia recebido do deus Dioniso, segundo
DIONISO
Diodoro Sículo, há muito, uma botija de vinho com a recomendação de que só a abrisse quando procurado pelo filho de Alcmena, que viria lhe pedir hospitalidade. Assim aconteceu: aberta espontaneamente pelo centauro a botija de vinho, conforme recomendação de Dioniso, uma grande surpresa; inúmeros centauros que viviam por perto, atraídos pelo odor do vinho, invadiram a gruta na qual Folo e Hércules se encontravam, trocando brindes.

Outra versão, a de Apollodoro, nos revela que, embora preferindo carne crua, como era costume entre os centauros, Folo ofereceu a nosso herói carne assada, como a consumiam os humanos, reclamando nosso herói a falta de vinho para acompanhar a refeição. Folo mostrou-se muito temeroso, pois se servisse vinho, os centauros que viviam por perto seriam fatalmente atraídos pelo odor da bebida, o que certamente lhes causaria muitos problemas. Lembrou Folo que não era  recomendável aproximar o vinho tanto de cíclopes como de centauros, pois, ainda que consumindo doses mínimas, eles se tornavam sempre muito violentos, descontrolados. Hércules não deu ouvidos ao centauro e tomou a iniciativa de abrir o recipiente de vinho guardado. Em pouco tempo, atraídos pelo buquê do precioso líquido, os centauros invadiram a gruta de Folo, armados de pedras e de porretes.

Antes de prosseguir, será importante nos fixarmos um pouco na figura dos centauros já que eles têm um papel importante não só neste trabalho como na história de nosso herói como se verá. Muitos mitógrafos, aliás, quando abordaram este sétimo trabalho, destacaram muito mais a luta que Hércules travou contra os centauros do que a sua vitória sobre o javali. Justificavam este entendimento por alguns fatores: primeiro, porque o javali de Erimanto não fora enviado pelos deuses, sendo apenas um desvio da energia animal presente no universo. Segundo, não era ele propriamente um ser da família dos monstros, pois estes, como sua própria designação indica, são sempre enviados pelos deuses.
TOURO   DE   CRETA
Etimologicamente,  monstro é objeto ou ser de caráter sobrenatural que anuncia a vontade divina. O javali do sétimo trabalho, embora tenha uma conformação anormal, por excesso, ele não tem a marca do divino como outros monstros que Hércules enfrentou, a saber, o touro enlouquecido de Creta, a corça Cerinita, o caranguejo enviado por Hera, Cérbero, o cão tricéfalo e outros. A título de esclarecer melhor esta questão, lembre-se que  a palavra monstro está relacionada com o verbo monere, que em latim significa fazer pensar, fazer lembrar, advertir. É desse verbo, por exemplo, que sai a palavra monumento.

Segundo versões dignas de todo crédito, da progênie de Ixion fazia
TESEU
parte também Piritoo, filho que tivera com Dia, figura sinistra, muito ligado a Teseu, famoso rei de Atenas. Herói lápita da Tessália, Piritoo e suas as histórias  acabaram, com o tempo, por se integrar ao mito de Teseu, de quem ele se tornou escravo, fascinado pelo seu majestoso porte e por suas inúmeras façanhas. Como se explicará no décimo trabalho de Hércules, a descida ao Hades para lutar contra Cérbero, Piritoo, até o final dos tempos, permanecerá prisioneiro no Tártaro. 
   
Para Diodoro, além de pedras e porretes, os centauros costumavam carregar também machados próprios para matar bois. Ainda que fossem filhos de Nephele, um simulacro criado por Zeus, não se pode considerar a mãe dos centauros como divindade. O que temos então é que os centauros, pelo seu duplo corpo, nada têm de divino, pois são constituídos apenas por uma parte animal e por uma parte humana, esta sobreposta aquela.


KIRON   E   AQUILES

Os centauros, no mito, com exceção de Kiron (filho de Cronos e de Filira) e de Folo (filho de Sileno e de uma ninfa Melíade), se distinguiam de todos os outros, o primeiro por sua grande sabedoria e o segundo por sua grande bondade. Os demais eram todos filhos de Ixion e de Nephele, a Nuvem. Ixion, por seu lado, era filho do deus Ares e seu reino ficava na Tessália.  Tentando fazer da belíssima jovem Dia sua esposa, fez Ixion ao seu futuro sogro, Dioneu, várias promessas. Quando este, depois das núpcias, foi
IXION   
reclamar o cumprimento do prometido, Ixion o matou, lançando-o traiçoeiramente num poço cheio de brasas. Além de eliminar o sogro, tornando-se um assassino, Ixion cometeu o crime do perjúrio, ao não aceitar, como havia prometido, as divindades da família da sua esposa. Ademais, como se tudo isto não bastasse, como rei dos lápitas, ele tinha uma história de inúmeros crimes. Tantos foram os seus desatinos que acabou expulso da cidade que governava pelos seus próprios súditos. Não tendo para onde ir, pôs-se a perambular pelas estradas, transformando-se num pedinte, amaldiçoado por todos.

Zeus, que das alturas tudo via, acabou se condoendo dos sofrimentos de seu neto e resolveu oferecer a ele uma oportunidade de regeneração, acolhendo-o no Olimpo. Mal chegado à mansão dos deuses, porém, Ixion, tomado por incontrolável desvario, que os gregos chamam de hybris, tentou violentar sexualmente Hera, a Senhora do Olimpo. Avisado por ela, Zeus confeccionou uma nuvem (nephele, em grego), dando-lhe uma forma em tudo igual a Hera. Ixion, sem nada perceber,  relacionando-se com ela, tornou-se pai dos famigerados centauros. Castigando-o, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o assim imortal, e o lançou no Tártaro, a prisão dos maus, onde ele, amarrado por serpentes, preso a uma roda de fogo, a girar eternamente, ali ficará até o final dos tempos. Aqueles que lá o viram, como Ulisses, por exemplo, dizem que no seu grande tormento, Ixion profere em altos gritos, na sua sofrida solidão, a frase: honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão

Etimologicamente, a palavra centauro parece ter relação com um verbo grego, kenteo, que tem o sentido de picar, aguilhoar, lembrando esta ação o aguilhão do instinto. Com efeito, o centauro, metade-animal (cavalo), metade-homem, por seus costumes brutais, por andar sempre em grupos, barulhentos e avessos a qualquer disciplina, por sua paixão imoderada pelo vinho, pela carne crua e pela sua sexualidade descontrolada, sempre foi considerado, com relação ao ser humano, como um símbolo das ameaçadas da vida instintiva à vida racional. 


SÁTIRO   ( RUBENS )

É neste sentido que os centauros se assemelham aos sátiros, aos faunos, aos silenos e a outros seres da mitologia, fortemente marcados por características animais, caprinas, no caso. Percorrendo sem cessar os campos e as montanhas a fim de satisfazer seus apetites, são considerados como verdadeiros demônios da natureza. Luxuriosos, insolentes e violentos, ambos, centauros e sátiros, representam, negativamente, sob o ponto de vista social, as constantes ameaças das forças da barbárie à civilização  e da desordem à lei.  

  Hércules foi um justiceiro que sempre procurou combater, além dos monstros e bandidos, os ímpios, os maus e os perjuros. Durante toda a sua vida, lutou sobretudo contra os centauros, uma luta contra si mesmo, no fundo. Símbolo da força, da energia e do heroísmo, grande consumidor de álcool, glutão insaciável, com uma sexualidade inesgotável, salvador de homens e fundador de cidades, Hércules, ainda que venerado como um semideus, jamais conseguiu, contudo, controlar as pressões instintivas que o assaltaram a vida inteira. 


NEPHELE   ( RUBENS )

Pondo para correr os centauros que invadiram a gruta de Folo, Hércules os perseguiu, no que foi atrapalhado por Nephele que, segundo Diodoro, enviou uma chuva torrencial  sobre a região. Em terrenos enlameados, como se sabe, os bípedes encontram muito mais dificuldade para correr do que os quadrúpedes. Hércules, contudo, superou esse obstáculo e, alcançando-os, travou com eles violenta luta, matando muitos deles.

Ainda segundo descrições de Apollodoro, os poucos centauros que escaparam do massacre promovido por Hércules foram se refugiar junto de Kiron. Nosso herói, entretanto, continuou a atacá-los, disparando várias flechas envenenadas. Uma delas atingiu a perna de Kiron, acidentalmente, na altura do seu joelho, ferindo-o mortalmente. De nada adiantou a medicação aplicada por Hércules, fornecida pelo próprio Kiron. A ferida era incurável. O mestre centauro se retirou então para a sua gruta, para morrer, embora sabendo que isto seria impossível, pois uma parte de seu corpo era divina, como filho de Cronos que era. Foi preciso que Prometeu, consoante proposta que fez a Zeus e aceita, cedesse a Kiron o seu lado mortal para que o centauro mestre pudesse morrer e que este cedesse a Prometeu o seu lado imortal, o que possibilitaria a sua libertação. Os detalhes desta troca nos são narrados, além de Ovídio, principalmente por Ésquilo na sua famosa tragédia Prometeu Acorrentado. Kiron, a seguir, foi colocado por Zeus nos céus como a constelação de Sagitário, entre Escorpião e Capricórnio.


PROMETEU  ( CERÂMICA   GREGA )

Ao retornar, Hércules encontrou Folo a abrir sepulturas na terra para enterrar alguns centauros mortos. Contudo, uma das flechas que se contaminara com o sangue de um deles atingira acidentalmente uma das patas de Folo, ferindo-o gravemente. O sangue dos centauros filhos de Ixion e de Nephele era veneno mortal contra o qual não havia antídoto (Hércules, lembremos, também será vitimado mais tarde da mesma maneira). Folo sucumbiu em pouco tempo nada conseguindo nosso herói fazer para aliviar o seu sofrimento. Não lhe restou outra alternativa senão a de organizar um magnífico funeral para honrar o seu hospedeiro. Depois destes acontecimentos, os centauros, como grupo, desapareceram. Viverão, os poucos que escaparam, isoladamente. Embora perigosos, não mais se atreveram a incomodar os humanos como o faziam. Por intervenção de Poseidon, passarão os remanescentes a viver no interior da terra, ctonicamente.


POSEIDON

Hércules dirigiu-se então à montanha, encaminhando-se para o seu pico. Aos gritos, subiu, mas adotando aquilo que lhe pareceu a melhor estratégia, subir de costas. O javali, atraído pelos gritos do nosso herói, pôs-se a persegui-lo; voltado para ele, foi recuando e subindo ao mesmo tempo. À medida que subiam, o terreno montanhoso tornava-se cada vez mais íngreme, principalmente devido à neve, acumulada no topo, sempre mais espessa. Num determinado ponto, o javali deteve-se subitamente, parecendo perplexo. Cansado, imobilizado, estava atolado, não conseguindo dar mais um passo. Hércules, então, deu uma volta, pegou-o pelas patas traseiras, descendo assim com ele a montanha, entre risos e aplausos da multidão que se juntara para presenciar a cena. Desta maneira, Hércules conseguiu levar o animal até Argos, entregando-o ao apavorado Euristeu, que chamou seus soldados para que dessem fim ao animal. 


HÉRCULES  SENTADO  SOBRE  O  JAVALI  ( LOUVRE )

O javali é um dos grandes símbolos do mundo indo-europeu, fazendo parte da chamada tradição hiperbórea. Os hiperbóreos, na mitologia grega,  constituíam um grupo racial que vivia além do vento norte, o Bóreas, portanto, numa região que seria o extremo norte para os gregos. A região dos hiperbóreos era considerada como uma espécie de paraíso nostálgico, de difícil localização. Talvez o país dos sonhos, da imaginação, da idade de ouro da utopia, de todas as tradições míticas. 

O caráter hiperbóreo do javali pode ser notado na medida em que ele representa o elã primordial, associado nesse contexto à simbologia do fogo nas mais diversas culturas. É neste sentido uma imagem primordial da força, do ataque intrépido e da coragem resoluta, sobretudo na Europa setentrional e no mundo celta, onde representava a autoridade espiritual. A sua carne era comida só ritualmente. A ferocidade do animal provocava tanto horror como
XENOFONTE
respeito. Associações entre o javali e o comportamento destrutivo dos guerreiros que o usavam como emblema fizeram com que ele, no cristianismo, se tornasse um símbolo da tirania, das paixões e da luxúria. Seu apelido era, por isso, o  O Cão do Diabo. Xenofonte, no seu tratado Da Caça, nos diz que quando um javali morre os pelos de seu focinho se crispam tanto que podem causar queimaduras a quem os tocar.  

   Consagrado aos deuses da guerra no mundo grego (Ares) e  romano (Marte), o javali sempre apareceu associado à primavera e 
à juventude. Nos países onde não temos a tradição cristã, o javali é um símbolo da coragem e da temeridade, como no Japão. Em outras tradições, o animal é visto como símbolo da autoridade espiritual, opondo-se ao urso, que representa o poder temporal. Ligado a Zeus no mundo grego, associa-se à águia, ao carvalho, ao raio e à trufa. Caçar o javali é atacar o poder espiritual. Na Índia, o javali é um dos avatares de Vishnu, com o nome de Varaha. Na mitologia hinduísta, é através dele que a terra é trazida à superfície das águas primordiais, fixando-se na coluna de fogo (lingam). No mundo celta, é o próprio druida, o sacerdote, enquanto este vive solitariamente nas florestas. 

VARAHA


O nome Erimanto, como vimos, nos remete a uma ideia de vermelho, ardor, a cor do deus Eros, do deus Ares grego e do deus Marte romano. O verbo grego para designar disputas, querelas, é eridzo. Se não dominamos o nosso "javali" interior, destruiremos os campos, as plantações, os vinhedos, poderemos matar pessoas,  não criaremos possibilidades para fazer de nossa vida social algo produtivo, útil, a nós e aos outros. Dominar o javali é transformar a energia vital impulsiva,  em vida espiritual, compreensão que sempre começa pela percepção do "outro", simbolicamente pela nossa "morte" consciente (outono).        Ou seja, transformar o fogo

instintivo  (signo de Áries), sob  a  orientação  do  racional  (signo de Leão),  em  espiritual  (signo de Sagitário), o que nos levará  a um afastamento da nossa condição animal, brutal,  instintiva. Todas estas considerações nos dizem também que não podemos matar o javali, temos que mantê-lo vivo, utilizando a sua energia racionalmente, ajustando-nos assim à vida social, sempre uma preparação para a vida espiritual, onde aparecem os conceitos de coletividade, humanitarismo, fraternidade etc.

Sem esse controle não haverá acordo, união, consenso, vida moral. Eros é força vital descompromissada, desejo em estado puro, força
EROS
cega, carência que se satisfaz unilateralmente. Eros (javali, um de seus símbolos) é pulsão fundamental do ser, libido, força que atualiza as nossas virtualidades. É essa força que cria o possível. Esta criação, contudo, só se dá pelo contacto com os outros, por uma série de trocas materiais, sensíveis, e depois, num plano superior, espirituais. Interações, choques, disputas, acordos, atenuações conscientes. É no signo de Libra, a sétima constelação zodiacal, que aprendemos a superar os antagonismos, a assimilar o diferente, a integrá-lo, a controlar o nosso javali, em suma.

Depois da purificação de Virgo, temos que buscar o equilíbrio (equinócio, dias e noites iguais), a união com o oposto, com o outro. Ideias de Justiça, cujo símbolo é a balança aparecem então. O signo de Libra é regido pelo planeta Vênus, que tem a ver com uniões, matrimônios, acordos, contratos, a dualidade que se faz una, um perder e um ganhar constantemente renovado. O planeta Saturno também tem a ver com este signo. Saturno (Cronos) é em Libra o tempo. Todo contrato terá que ser realizado no tempo. Surgirão então sentimentos de equidade, de harmonia (Harmonia é filha de Ares e de Afrodite). Raramente um libriano superior se imporá a alguém ou tentará confiscar algo do outro em proveito próprio. As virtudes superiores do signo, encanto, polidez, educação, diplomacia e mesmo a sedução podem muitas vezes levar ao objetivo, à vitória, se quisermos, sem necessidade de luta. O belo, a estética, os matizes, as nuances, o romantismo, a elegância são de Libra. Esse elemento de beleza e de elegância se encontra, por exemplo, em pintores do signo, como Watteau e Bonnard, e em músicos como Gabriel Fauré.


GILLES ,  LE   PIERROT   ( WATEAU )

Negativamente, Libra pode ser o signo da vacilação, da divisão, do amaneirado, do dúbio, do desejo de agradar de qualquer modo, da protelação, do adiamento, da enorme dependência do outro, da impessoalidade (veja o mito de Eco), da falta de combatividade, do desejo de buscar só o agradável, de evitar o trabalhoso ou o sujo. Mulheres de Libra podem se tornar rainhas da elegância. Figuras librianas podem ser citadas, cada uma seu modo: Oscar Wilde, John Lennon, Brigitte Bardot, Luis XIII, Lamartine, Gandhi, Erasmo de Roterdam (exemplo de um libriano saturnizado) etc.



O libriano pode ser classificado como outonal ou sentimental. No primeiro, prevalece a influência saturnina, tem menos vida, menos elã, pondera mais, legisla, procura a forma, é mais escuro. Já o outro tem invariavelmente um grande desejo de agradar, é mais fraco, sem vontade, resiste pouco às pressões externas, dobra-se, é adaptável, sendo mais “claro”, sociável, fazendo-lhe muita falta as festas e as reuniões.

Neste sétimo trabalho, as lições mais importantes tornam-se evidentes:  recuar é subir, atenuar é aumentar, dividir é somar. É o primeiro trabalho em que não há luta. Hércules, contudo não o entende bem. O episódio onde entra Folo é um desvio libriano (prazer, jovialidade, adiamento, é o famoso "dar um tempo" dos do signo). A solução de Hércules é prática, deu-lhe a vitória sobre o javali, mas ele não percebeu conscientemente o significado transcendente do trabalho. O abrandamento da nossa personalidade, a atenuação da nossa luz, o controle do nosso "javali" tem que ser consciente. O javali é símbolo aqui de tendências obscuras, egoístas, ignorantes. Em algumas culturas, há interdições, por isso, quanto ao consumo da carne do javali (porco). 

Eros (a libido, muitas vezes representada pelo javali) deve se submeter a Afrodite, a deusa que propõe relações por consenso. Na natureza, a luz, em Libra, começa o seu lento retorno à unidade. Dosar a atenuação, nunca transformá-la em morte. Por isso, a Balança quer dizer equilíbrio, lugar onde as oposições devem se
resolver continuamente. A comunicação é de Gêmeos; uma boa comunicação leva a acordos (Libra) e bons acordos levam a amigos (Aquário), os três signos de ar do zodíaco. No fundo, entendimento de que tudo o que se manifesta como vida está sujeito à dualidade e à oposição. O primeiro ato que temos de praticar para participar socialmente de algo é o da atenuação do nosso eu. 





Uma das constelações associadas ao signo de Libra é a de Lupus (Lobo). Mais um símbolo evidente, equivalente ao javali: em Libra temos que sacrificar o nosso "lobo", nossa vida instintiva (como o javali, o lobo é sinônimo de agressividade, de astúcia, de voracidade, de selvageria). O poder do lobo diminui na medida em que nos equilibramos melhor, isto é, na medida em que a alma não mais se deixa devorar pela matéria. Com Libra, entramos no hemisfério superior, sendo sete o seu número, que é o das totalizações provisórias a indicar um semiciclo que se fecha e um outro que se abre. Saímos em Libra da vida subconsciente para entrar na vida supraconsciente

TÊMIS
No signo de Libra vivem várias divindades. Têmis (limite), etimologicamente, estabelecer como norma ela é a deusa dos princípios superiores, por oposição ao nomos que é a lei humana, que é consuetudo, o costume, o hábito, o  usual. Têmis tem a ver com leis imprescritíveis; aparece como dona dos oráculos e dos ritos. Titânida honrada e respeitada pelos olímpicos, era a titular do oráculo de Delfos com sua mãe, Geia, tendo ensinado a mântica a Apolo. Têmis era também a mãe das Horas, divindades do tempo (Eunomia, Dikê e Irene), que asseguravam o equilíbrio da vida vegetal e da vida social, distribuindo a umidade corretamente, amadurecendo tanto os frutos como as ações humanas. Eram as divindades que velavam pela educação das crianças, que deviam aparecer, florescer e frutificar no tempo certo, sem pressa, com ritmo.


AS   GRAÇAS   ( BOTTICELLI )

Em Libra vivem também as Cárites (etimologicamente, graça, encanto), também divindades da vegetação e responsáveis pela alegria e pelo contentamento que devem morar no coração dos deuses e dos humanos. Eram chamadas as Graças, Aglaia (Cintilante), Talia (Festa) e Eufrósina (Alegria do Coração). Viviam em companhia das Musas e, como tal, tinham grande influência sobre as obras de arte. Um exemplo disto está, por exemplo, no antigo conceito latino Vita Brevis, que Lamartine usa, como ninguém, no seu famoso poema Le Lac, talvez o mais belo hino libriano já escrito.

Grande parte dos males librianos estão centrados na aparência (pele), tendo por motivação, invariavelmente, sentimentos refreados, frustrações afetivas, decepções no amor etc. A icterícia
ICTERÍCIA
(ictero, verde), por exemplo, infiltração de bile nos tecidos, é o fel: doença dos que remoem, não liberada a força de Marte (Eros). Eczemas, Psoríase e outros males que se projetam na pele são comuns em Libra. Sentimentos de não aceitação, de injustiça. O retido (amor, afeto, Vênus) não tem outra saída senão pela pele (Saturno). No libriano inferior, a dinâmica do psiquismo está sempre voltada para o agradar; fraco, sem vontade (Sol em queda), ele faz todas as "médias", sofre do chamado complexo do avestruz (fazer de conta que não vê) decorrendo dessa acomodação muitos de seus problemas físicos e psíquicos. Problemas renais são também comuns nos do signo, além de dores de cabeça (ação reflexa por Áries, signo oposto). Uma grande tendência dos librianos inferiores é a de transferir sentimentos de culpa para os outros, pois, procuram sempre passar uma imagem de bem intencionados e de compreensivos. 


Astrologicamente, recordemos que na Índia, Thula (Libra) é o signo através do qual é entendido o conceito de Dharma, a lei moral, considerada não como castigo, mas como reajuste, recomposição do equilíbrio rompido. Neste sentido, é que na antiga astrologia védica (Jyotish) o Sol e Marte são vistos como agentes do karma e Vênus e Saturno como agentes do Dharma

A diminuição do material a partir de Libra tem que ser conquistada, produto de uma conquista consciente. É só nesta perspectiva que diminuir significa aumentar. É neste signo, como já se percebeu, que, sob o ponto de vista cósmico, começa visivelmente o retorno à unidade, a reintegração da matéria. Declínio do mundo orgânico, a substância retorna à sua origem. Libra é assim um ponto médio entre o que foi construído e as forças que começam a provocar a sua desintegração. É por essa razão que o outono tem o nome de Fall (Queda) nas línguas anglo-saxônicas. Entre nós, é neste signo que encontramos conceitos como de poente (com relação ao dia), de outono (com relação ao ciclo das estações), de ocidente, lugar de queda, etimologicamente (com relação às direções do espaço).

Em Libra a vida se recolhe, devemos começar a aprender o que na prática significam conceitos como os de despojamento, renúncia, involução física e evolução espiritual. Em Libra tudo o que nasceu, cresceu e se desenvolveu chega ao seu ponto mais elevado e é obrigatoriamente em Libra que tudo começa a descer, declinar, desaparecer. 


ADONIS   E   AFRODITE

Um dos mitos gregos, herança mesopotâmica e fenícia, que melhor expressa o que aqui se expõe é o de Afrodite e de Adonis, seu grande amor. Atacado por um javali (o deus Ares), Adonis (Tamuz para os povos semíticos) era um deus da vegetação que, em muitas tradições religiosas orientais, morre anualmente, uma representação do ciclo vegetal. Morto, Adonis, tem que abandonar Afrodite, para descer ao mundo subterrâneo, para lá passar uma temporada com a
ANÊMONA
deusa Perséfone, rainha do mundo infernal. Do sangue do deus, nascerão as anêmonas (etimologicamente, vento), que representam o efêmero. Flor solitária, de beleza simples, a anêmona tornou-se ao mesmo tempo símbolo da riqueza, da precariedade e da beleza da vida. É a anêmona a flor, mais do que qualquer outra, que evoca o amor submetido às flutuações das paixões e dos caprichos dos ventos.