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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O TÉDIO

O cansaço de viver sempre acompanhou o homem, fazendo parte da condição humana. Os nomes dessa maneira de sentir o mundo variaram conforme as épocas, a maioria, até o século XIX, fazendo parte da literatura, da arte, da poesia, da filosofia, da religião: "ania", apatia, taedium vitae, acídia, melancolia, neurastenia, mal du siècle, spleen, absurdo, náusea etc.

Os estoicos gregos por volta do séc.III aC procuraram tratar o tema de um modo filosófico. Propunham que os homens deveriam aceitar o que decorria inevitavelmente da natureza e não se revoltar. O sábio deveria viver numa espécie de “fortaleza interior” e obedecer a máxima que lhe recomendava suportar e se abster de participar do mundo. Assim, o sábio deveria controlar as suas representações do mundo de modo a escapar do sofrimento. Os estoicos e os céticos defendiam a conquista de um estado chamado apatia, estado de insensibilidade emocional ou esmaecimento de todos os sentimentos, alcançado mediante o alargamento da compreensão filosófica. Ou seja, um estado de alma não suscetível de comoção ou interesse, indiferença controlada.
 

Sêneca foi para nós o primeiro na antiguidade a descrever os sintomas desse estado, por ele denominado de taedium vitae, cujos traços por ele fixados tinham, por exemplo, muito em comum com o que Freud descreveria mais tarde como depressão. Sêneca estabeleceu uma distinção entre taedium (tédio) e aegritudo (desgosto, esgotamento, também no sentido físico). Este último, para Sêneca, não é a mesma coisa que o outro, não podendo ser usados como sinônimos. O primeiro é um mal-estar que envolve a existência como um todo, é mais insidioso, paralisa a decisão, e não sendo tão espetacular como o último, como no luto ou no furor insano, parece desencorajar qualquer tratamento.

Ainda na antiguidade, um pouco mais perto, por volta do séc. IV dC, os anacoretas do deserto conheceram uma forma desse cansaço de viver de modo muito peculiar, dando-lhe o nome de acídia ou acedia, caracterizada por um enfraquecimento da vontade, uma espécie de abulia espiritual quanto ao exercício das virtudes, especialmente no que respeita ao culto e à comunicação com Deus. A palavra é grega, akedia, significando ao mesmo tempo negligência, indiferença, mágoa, prostração, desgosto, apatia do coração e da alma. A literatura dos padres do deserto (ver a literatura de Evagro, o Pôntico, Egito, séc. IV dC) nos dá testemunhos deste estado: O anacoreta se sente tão esgotado como se tivesse percorrido um longo trajeto no deserto ou se submetido a um jejum de muitos dias.


O a da palavra acídia é privativo, negativo, denotando falta de elã, de interesse, de motivação, desinteresse. A palavra tem relação com o verbo latino cedo, cessi, cessum, cedere, avançar, prosseguir, persistir. A acídia é descrita pelos monges do deserto como um estado no qual o que se faz se revela subitamente como destituído de interesse, sem razão, sem objetivo. A acídia aponta para a inutilidade do que se está a fazer. Os anacoretas, como sabemos, viviam como trogloditas, em pequenas celas, em cavernas, na penumbra, nos desertos do Egito, durante anos e anos até a morte. 

Como anacoretas, deviam manter permanentemente a sua atenção concentrada no que faziam, a leitura, as orações, a busca de água e de alimentos, sempre o mínimo, o estritamente necessário para a sobrevivência. Qualquer descuido com relação a esta concentração significaria uma porta aberta para o demônio. A doutrina dos padres do deserto recomendava que jamais fosse dada alguma oportunidade a que pensamentos ou atos viessem a trazer algum desvio das posturas recomendadas. 


A ociosidade era um dos grandes perigos, uma das vias preferidas do demônio para atacar. A ociosidade era provocada geralmente por um questionamento interior sobre a validade ou a utilidade do que se fazia. Como a preguiça, era uma arma de Satã. Aberta a guarda, o monge podia sair do estado de entusiasmo (Deus em nós) em que se encontrava e se tornar uma presa do vazio. Abria-se uma espécie de fenda, de ruptura, na tensão que o anacoreta alimentava como meio de se relacionar com Deus. Isto era a acídia. Uma ruptura que podia levar o monge a fugir, a abandonar tudo. Afinal, Alexandria, a cidade mais bela do mundo, cheia de prazeres, estava apenas a um dia de marcha... A acídia era a mais ameaçadora das tentações, maior que as mulheres e que a comida, tentações sempre mais fáceis de combater.

Pascal, filósofo de século XVII, nos seus Pensées, nos diz, quanto ao tópico cansaço de viver (ennui), que nada é mais insuportável ao homem que ficar entregue a esse estado, inerte, sem paixões, sem nada a fazer, sem nenhum divertimento, palavra que para ele toma o sentido de alguma forma de ação. No século XVIII, a Enciclopédia de Diderot e D´Alembert nos informa que o ennui é uma espécie de desprazer impossível de definir. Não é 
desgosto, não é tristeza, é mais uma privação de todo o prazer, causado por algo que não sabemos, que afeta os nossos órgãos, ou é causado por algo que nos é exterior, coisas do mundo, acontecimentos, que, ao invés de nos interessar, produzem um mal-estar, um desgosto, aos quais podemos nos acostumar. 
 
Os românticos denominarão de mal du siècle este modo de ser. Chateaubriand, no Le Génie du Christianisme, declara: Vivemos com um coração cheio num mundo vazio; e sem jamais ter sentido algum prazer, desenganados de tudo. Em quase todos os escritores deste período sempre este sentimento de insatisfação. Todos falam de fadiga, opressão, desencanto, fastio. Coleridge, poeta inglês, compõe em 1.802 uma ode ao desespero, na qual ele descreve minuciosamente este estado que ele chama de “morna prostração”, no qual se sente mergulhado. 


 
Baudelaire põe em circulação o spleen, promovendo-o como valor literário. Enfado, melancolia sem causa aparente ou específica. A palavra veio da Inglaterra, sendo spleen, o baço, órgão sede da melancolia, sendo esta, conforme sua etimologia, a bile negra. A melancolia é produzida a partir da bile negra, que leva os indivíduos por ela acometidos à lentidão, à tristeza, à prostração. É um estado mórbido caracterizado pelo abatimento físico e mental, visto muitas vezes como manifestação de vários problemas psiquiátricos, hoje mais considerada como uma das fases da psicose maníaco-depressiva. Um tema de eleição literário muito usado por pré-românticos e românticos. Théophile Gautier, poeta do romantismo francês, dirá: Não sou nada, não faço nada; não vivo, vegeto. Eis porque não sendo bom para nada me pus a escrever versos.

Para Schopenhauer, não há escapatória. O tédio de viver, o ennui dos franceses, o spleen dos ingleses, não é acidental, ocasional. Na vida do nosso psiquismo é sempre e necessariamente ao que chegaremos se persistimos no nosso querer viver. É deste filósofo (O Mundo como Vontade e como Representação) a seguinte observação: “A vida oscila como um pêndulo, da esquerda à direita, do sofrimento ao tédio.”

Os existencialistas farão do tédio algo mais profundo, diferenciando-o do tédio comum, banal. Este tédio profundo será para eles um meio, desde que o homem se questionasse, para o desvelamento, a desocultação, do seu estar-no-mundo. Sartre, em A Náusea, através de Antoine Roquentin, denuncia o tédio burguês, a rotina que encobre o autêntico viver, que rejeita a angústia das escolhas. O tédio (a náusea) sobrevém quando o mundo à nossa volta não provoca mais que indiferença. A contingência, para os existencialistas, é o mundo caindo na indiferenciação.

Numa variante, Albert Camus, introduzirá o absurdo, noção filosófica que ele apresenta em O Mito de Sísifo, nascida da constatação da contingência do mundo. O absurdo, que Sartre apresentara antes no referido romance, é para esses escritores-filósofos uma interrogação sobre o sentido da existência, muito mais do que uma questão semântica. O absurdo se define como uma impossibilidade de encontrar algum sentido para a vida. É dessa constatação que Sartre nos falará da obrigação que, malgré tout, temos de dar um sentido ao mundo, de fazermos as nossas escolhas, por mais angústia que isso nos cause. Se herdamos um mundo dos outros, não há angústia, logo, conclui Sartre, não há vida autêntica. Complicando um pouco mais a questão, Sartre nos fala que esta escolha tem que ser feita por nós tendo o outro à nossa frente (o homem não é simplesmente, é, ao contrário, sempre, um ser-para-os-outros).

                                                 

Num dos seus livros, The Waves, Virginia Woolf nos deixou este registro: “Estou só num mundo hostil. A face humana é atroz. A biografia desta escritora, sabemos, toda feita de sofrimentos, rebeldia, fracassos, languidez, abatimento, cansaço e depressão é uma lenta descida infernal. 

Francis Scott Fitzgerald é outro. Sua obra é uma confissão, um ensaio autobiográfico onde temos a história de um fracasso sentimental, artístico e existencial. Estes dois exemplos são casos literários, mas já prenunciam o que viria a ocorrer logo adiante. 

A partir de meados do século XX, vem se dando, por razões abaixo comentadas, o nome de depressão a esse estado de desencorajamento, de perda de interesse, que decorre de alguma perda, de decepções, de fracassos, quando aquele que o experimenta é tomado por grande sofrimento e solidão. Costuma também aparecer, nesse quadro, algum tipo de prostração física e moral decorrente de algum estresse. O estresse, como sabemos, é um distúrbio fisiológico ou psicológico causado por circunstâncias e acontecimentos que nos são adversos. A palavra também tem o sentido de algo que nos puxa em várias direções, que nos importuna, que nos atropela.


VICTOR HUGO

Os especialistas da área (médicos, psicanalistas, psiquiatras, psicólogos, a indústria farmacêutica etc.), que assumiram o controle do tema, deram o nome de depressão endógena àquela que, no seu entender, não está ligada a nenhum tipo de trauma e que não é passível de ser atribuída a alterações orgânicas. Já a depressão bipolar, a mais comum, muito em moda hoje, é para eles aquela em que temos a alternância entre estados de excitação (mania) e de depressão. À mercê desse estado, os males que nos acometem hoje, segundo esse diagnóstico, numa sociedade como a nossa, impregnada de exacerbado individualismo, acentuam ainda mais o sofrimento causado.

A depressão é hoje um mal universal. A sua temática mudou profundamente. Até o início do século XX, ela girava em torno da culpabilidade, do pecado, de posturas filosóficas, de questões religiosas. Hoje, no centro da depressão está a desvalorização narcísica do homem moderno. Instigado a ter, a possuir, a ir, excitado ao máximo pelo ataque dos meios de comunicação, quase sempre não lhe é possível a obtenção de tudo aquilo que lhe foi imposto como desejo. A excitação e a queda são os dois lados da mesma montanha, inevitáveis. Daí as expressões: “minha vida é miserável, pobre, desinteressante”; “não estou à altura do que mereço”; “eu acho que tenho direito a um outro tipo de vida” etc. Da culpa passamos à frustração. As mensagens, antes, nos pediam que fôssemos responsáveis, que o nosso dever viesse antes, que sempre seria possível conciliar os nossos interesses com os dos outros, conformávamo-nos em não querer tanto da vida, víamos até algum mal nisso. Hoje, seja feliz de qualquer modo; arranque agora tudo o que você puder da vida; se você não pegar, o outro leva; não seja idiota, o mundo é assim mesmo, são as mensagens.



Não suportamos a dor de não possuir, de não ter, de não ir, de não fazer, de não ser “alguém”, pois, afinal, como dizem a publicidade e as religiões oficiais, só temos uma vida. O problema é que, por várias razões, físicas, pessoais, individuais, sociais, econômicas, políticas etc. não conseguimos dar atendimento a essas propostas, aos desejos que elas impõem, que nos atacam por todos os lados, em qualquer lugar. 

O sistema fez com que a depressão e a frustração caminhassem juntas. Em hipótese alguma este mesmo sistema, que modela os nossos desejos, permitirá que sejam fechados os três portões do inferno, a ansiedade, o desejo e a cobiça, como dizem os nossos mestres hindus. Uma das consequências de tudo isto é o número enorme de terapeutas que chegam ao mercado da depressão anualmente, no mundo todo. De outro lado, a indústria farmacêutica faz a sua parte, pondo ao nosso alcance as maravilhosas pílulas da felicidade. 

A falsa liberdade que temos de decidir no mundo atual, voltado totalmente para as mais variadas formas de consumo, desde bens a pessoas, de filosofias e modas culturais de massa prêtes-à-porter à mudança anual dos nossos carros ou a do nosso “living”, suscita angústia e depressão. Neste quadro, nossa sociedade vem, entretanto, de uns anos para cá, encontrando meios para não deixar que mergulhemos na depressão continuadamente por muito tempo, que evitemos as crises mais sérias. Muitos terapeutas da área operam hoje como bombeiros. Um exemplo, ainda que não muito atual me vem à memória. Tchaikovski passava por períodos de depressão, podia ficar dois ou três anos sem nada fazer, entregue a ela. Depois, então, criava algo novo. É sob este ângulo que podemos encontrar um lado até bastante interessante na depressão, um certo encanto. A luta contra ela pode levar, no geral, a alguma forma de criatividade, sempre mais frutífera que a luta contra a ansiedade, já que a primeira nos põe sempre diante das próprias origens da vida.
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No geral, no atacado, a depressão, atualmente, se inscreve no quadro da frustração, como expusemos. No varejo, no dia-a-dia, ela poderá ser classificada, sempre se tendo em vista o que já expusemos anteriormente (vide Être sûr de Soi, de Willy Pasini, Suíça), insistimos, em três tipos:

a) a maníaco-depressiva, que tem base biológica, hormonal, e que pode ser tratada com medicamentos sem necessidade de psicoterapia. Os depressivos recorrem aos técnicos ou aos hospitais para tratar a sua depressão sazonal, anual, conforme o caso, como as mulheres e homens procuram hoje os ginecologistas e andrologistas. Com essa prática, podemos alargar os prazos da volta da depressão, de anuais para trienais ou quinquenais, por exemplo. 

b) o segundo tipo da depressão é a neurótica, o mal está nos pessimistas de todo o gênero. É uma maneira de ver o mundo, negro, cinza, sem cor nenhuma (hoje, esse tipo de depressão já pode ser encontrado em jovens adolescentes e mesmo em crianças). Uma das grandes causas deste tipo de depressão está no esfacelamento do núcleo familiar. As comparações passaram a ser feitas horizontalmente, o sentido de autoridade se perdeu. Este fato é hoje particularmente crítico para o mundo feminino, que “se escolhe” mais e que, portanto, se torna cada vez mais ansioso e deprimido.

c) o terceiro tipo de depressão é o chamado reacional. Ele sobrevém depois de um acontecimento traumático, a perda de um emprego, a morte de um ente querido, o rompimento de uma união etc. Este, diríamos, é o lado mais soft da depressão, exigindo pouco suporte técnico, quando for o caso. Encontrado um novo amor, um novo emprego, o que se foi é substituído (há sempre um “refil), as coisas se acomodam.

domingo, 25 de setembro de 2011

A COR DA MÚSICA


Há várias pessoas que por razões congênitas, muitas vezes inexplicáveis, ou por motivo de doença ou por terem ingerido determinados remédios ou drogas têm uma perturbação sensorial chamada sinestesia (syn, juntamente, com, mais aisthesia, sensação) na qual ocorrem sensações simultâneas através de uma única excitação. O ouvido “ouve” cores; os olhos “vêem” sons; os ouvidos “ouvem” odores etc. Há, assim, nesta percepção uma cooperação entre funções diferentes (sinergia, syn, juntamente, com, mais ergeia, atividade, trabalho). Sensações suplementares àquelas percebidas normalmente. Uma outra região ou órgão do corpo capta simultaneamente a sensação, traduzindo-a no seu registro.

Desde o fim da Idade Média que essa questão foi levantada. Um tratado de música que aparece na Inglaterra nesse período estabelece uma relação entre cores e música. A relação era estabelecida mais exatamente entre cores e duração de notas, não com as notas em si ou com os seus intervalos ou com o timbre dos instrumentos, com a duração das notas apenas.

No séc. XVII, um médico e musicólogo francês, Pierre Bourdelot, procurou a relação entre a música e as artes plásticas. Viu um paralelo entre a disposição de desenhos, de seus contrastes, perspectiva, tons e variedade de cores, do conjunto todo enfim, com músicas, harmonias, desarmonias.

No séc.XVII, são os jesuítas, já então muito envolvidos com os estudos científicos de Física, da Acústica, em especial, que levantam a questão da sinestesia. Athanasius Kircher (1602-1680) foi um deles. Este jesuíta alemão, orientalista, começou se dedicando ao estudo de hieróglifos, a traduções da língua copta (língua do antigo Egito, a partir do grego) e à divulgação da cultura chinesa na Europa. Seus estudos mais importantes estão da área da Acústica, da Luz e dos Imãs, na Física. Passa por ser um dos precursores do cinema como inventor da lanterna mágica, conforme está no seu texto Ars Magnae Lucis et Umbrae in Mundi (1645).



ATHANASIUS KIRCHER

Kircher estabeleceu relação entre o uníssono, a nota dó e o dó sustenido, com a cor branca; o ré com o cinza ou o negro; o mi bemol com o amarelo; o mi com o vermelho claro; o fá com o rosa; o fá sustenido com o castanho; o sol com o amarelo ouro; o lá bemol com o púrpura; o lá com o vermelho vivo; o si bemol com o violeta; o si com o púrpura e o dó (oitava) com o verde.






PADRE   MERSENNE


Contemporâneo de Kircher, o padre Mersenne (1588-1648), francês, foi uma figura impressionante. Consagrou sua vida à ciência, mantendo abundante correspondência com Descartes, Pascal, Fermat, Torricelli e muitos outros sábios. Seus trabalhos mais importantes estão na Acústica: descobriu as leis dos tubos sonoros e das cordas vibrantes; utilizou o fenômeno do eco para medir a velocidade do som etc. Fala muito de sinestesia. Compara por exemplo a nete (a mais alta das cordas da lira grega, que simboliza a Lua) ao agudo, à cor branca; a mese (nota média na música grega), “a nota mais agradável de todas, que participa do Céu e da Terra”. Propôs uma pesquisa: “ver se há na música alguma coisa que corresponda à luz, a qual contém todas as cores em eminência e perfeição.”


LOUIS-BERTRAND CASTEL
Ainda no séc.XVII, o padre jesuíta Louis-Bertrand Castel (1688-1757), físico, matemático e músico, registra que no seu entender o Sol corresponde ao vermelho; o Mi, ao amarelo; o Dó, ao azul. Sua teoria é vasta. Construiu um instrumento conhecido como Cravo Ocular. Um teclado semelhante ao de um cravo comum comandava o jogo dos tubos e a aparição de cores, ou de pinturas, às vezes de uma lanterna de vidros coloridos. O padre Castel pretendia dar aos cegos uma boa ideia das cores. Voltaire e J.-J. Rousseau registraram as experiências do padre Castel de modo desfavorável (o primeiro falava em se “convidar todos os surdos de Paris para o concerto”).

O padre Castel utiliza em seus trabalhos relações que já na Antiguidade greco-romana haviam sido estabelecidas: a ideia de peso, de gravidade, atribuída à cor negra, era do planeta Saturno e das notas mais graves. O amarelo, cor do Sol, é atribuído à quinta (dominante), grau determinante da harmonia medieval. O verde, cor de Vênus, participante do azul e do amarelo, se situa a igual distância destas cores. E assim por diante...

Os românticos, no século XIX, fizeram uso poético destas relações. Os simbolistas mais ainda. Baudelaire, no seu poema “Correspondences”, levanta equivalências de sensações entre perfumes, cores e sons. Fala de “perfumes frescos como a carne de crianças, doces como os oboés, verdes como os prados, e outros corrompidos, ricos e triunfantes.” Baudelaire, num estudo sobre Edgar Alan Poe (Notes nouvelles sur Edgar Poe, 1857), diz: “É este admirável, este imortal instinto do Belo que nos faz considerar a Terra e seus espetáculos como uma exposição sumária, como uma correspondência do céu... É tanto pela poesia e através da poesia como por e através da música que a alma entrevê os esplendores que estão além do túmulo.” A função do poeta, para ele, seria a de captar intuitivamente estas misteriosas correspondências. Cores e sons, tudo expresso por uma analogia recíproca, o mundo como uma complexa e indivisível totalidade. Os sons sugerindo cores e as cores dando ideias de melodias. Nesta linha de pensamento, há que se destacar também o aspecto olfativo da poesia de Baudelaire.

Outro que explora esse mundo de relações é Arthur Rimbaud (1854-1871), um dos maiores “casos” literários de todos os tempos, aquele que tentou apreender o universo pela magia das sensações e por estados alucinatórios que se aproximavam da vidência, tudo traduzido por uma linguagem única. Ritmos, sonoridades, transmutação de elementos verbais, alquimia da palavra, imagens excepcionais. Rimbaud fala de: A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles.

Muitos acham que quando Rimbaud compôs este poema, "Voyelles" (1871) ele estaria se lembrando de um alfabeto em cores com o qual teria aprendido a ler. Daí a sua elaboração de um sistema de correspondências entre sons e cores.

Hector Berlioz (1803-1869), o genial compositor de A Sinfonia Fantástica, num tratado de orquestração que escreveu, ao descrever o timbre de instrumentos, faz relações entre os sons graves da flauta e as cores escuras; fala em “negros acentos da clarineta” etc.

Uma das propostas mais abrangentes da questão sinestésica foi elaborada pelo compositor russo Alexander Scriabin (1872-1915). Admirador de Chopin e depois ligando-se à Metafísica e à Teosofia, às filosofias de Nietzsche e de Schopenhauer e à música de Richard Wagner, procurou sistematizar em termos musicais as correspondências entre cores e tons.

A Teosofia é uma forma sincrética de religião, ciência e filosofia, tendo por base principalmente o Budismo e o Hinduísmo. Foi fundada em New York em 1875 por Helena Petrovna Blavatsky. Ensina o conceito panteísta de Deus e a perfectibilidade do ser humano através de uma série de reencarnações. Scriabin tentou traduzir em música os conceitos teosóficos, a partir das relações entre divinos raios cósmicos, os chakras e cores.

O raio nº l (vontade divina) tem relação com a garganta (centro que no corpo humano sustenta a frequência do raio) e com a cor azul. O raio nº 2 (sabedoria divina), topo da cabeça, amarelo. O raio nº 3 (amor divino), coração, cor-de-rosa. O raio nº 4 (pureza divina), base da espinha, branco. O raio nº 5 (ciência divina), terceiro olho, verde. O raio nº 6 (paz divina), plexo solar, púrpura e ouro. O raio nº 7 (liberdade divina), sede da alma, violeta.

Scriabin sonhou em partir para a Índia. Lá comporia um Mistério, a ser encenado num templo circular próximo de um lago, somente para um público adepto. Sua morte o impediu de realizar o intento. Deixou um rascunho da primeira parte da obra, O Ato Preliminar. A Sinfonia, isto é a composição musical, com piano solista, teria o nome de Prometeu. A interpretação estava ligada a uma partitura de cores, executada juntamente com a partitura musical. O executante manobraria um teclado que comandaria a projeção das cores. Em 1911, houve uma tentativa de encenação de Prometeu. Só em 1915 a obra foi encenada na íntegra em New York. Depois dessa encenação, nunca mais. Só a parte musical é apresentada, não se levando em conta a partitura das cores.


Mais recentemente, um escritor francês, Boris Vian (1920-1959) tentou o que chamou de pianococktail. A cada nota a correspondência de uma bebida alcoólica, um licor, um arômata. O pedal forte corresponderia ao ovo batido, o pedal fraco ao gelo, e assim por diante... Em 1968, num espetáculo de cabaré, a obra de Vian foi apresentada.

Arthur Rimbaud, numa famosa carta de 1871, a um amigo, escreveu: "o poeta torna-se vidente mediante um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos.” Não é a exaltação de um frenesi sensual, mas é a ideia de mostrar que por determinadas práticas é possível chegar a um “desregramento” do próprio conhecimento sensível, que se tornará então capaz de conhecer e de agir em outros planos. O tantrismo procura, na Índia, de certa forma, este desregramento. Um sentido agindo por outro.

Para que as suas "vertigens" fossem fixadas, Rimbaud elabora um verbo poético acessível a todos os sentidos, uma língua que resumisse perfumes, sons e cores. Era a chamada Alquimia do Verbo; ele foi do verso livre aos poemas em prosa (Iluminations) através de efeitos de sonoridade que criaram uma impressionante magia verbal.

Estas ideias sinestésicas estão, por exemplo, na observação de J-J Rousseau quando ele diz: “cada sentido possui seu próprio campo. O campo da música é o tempo; o da pintura, o espaço. Multiplicar os sons dos ouvidos ao mesmo tempo ou desenvolver as cores umas após outras será mudar-lhes a economia. Colocar o olho no lugar do ouvido e vice-versa.”

Em antigas tradições se procuram técnicas para fragmentar a sensibilidade, alargando, com isso, as possibilidades de nossa percepção, unindo a música à luz, luz a imagens, imagens a palavras. Ver com os ouvidos, ouvir com os olhos.

Uma aplicação destas maneiras de ver, ouvir, sentir, é a criação de uma dialética – perguntas e respostas – para nos relacionarmos de modo diferente com o que nos cerca. Interpretar sons, imagens, odores, sinais através de processos indutivos como, por exemplo, os antigos gregos tentaram com as suas quatro mânticas, a profética (Apolo), a poética (Musas), a mistérica (Dioniso) e a erótica (Eros).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CALUNDU & SPLEEN


Calundu é palavra usada para caracterizar estados de ânimo em que se alternam irritação, mau humor, agastamentos breves, amuos e caprichos inexplicáveis. O comportamento de uma pessoa vitimada pelo calundu, se não chega abertamente ao antissocial, torna sempre muito difícil a sua convivência com outras pessoas. Tais estados de ânimo, embora nem sempre equivalentes, costumavam ser descritos popularmente por expressões como “estar com o miolo ralado , “estar com o diabo no corpo”, “acordar de ovo virado”, “estar de Lua” e várias outras.


Pelos depoimentos literários que nos deixaram escritores do Brasil colonial, os ataques de calundu punham as pessoas malcriadas, respondonas, quando não totalmente imprevisíveis, desagradáveis no trato. Quanto a crianças, difícil aturá-las. Era preciso muita paciência, como se dizia, para não perder a paciência com elas. Esse comportamento infantil era considerado por muitos tão só como “falta de educação”, malcriadez, algo que umas boas palmadas poderiam resolver logo. A palavra calundu fazia então parte do vocabulário de um mundo familiar quotidiano, mais no nordeste, hoje desaparecido. Em certas áreas do território brasileiro onde a influência africana foi mais forte, do Rio de Janeiro para cima, ainda é possível encontrar pessoas usando a palavra.

As maiores vítimas do calundu sempre foram as crianças e as mulheres. Uma explicação:
desde a antiguidade, em muitas outras civilizações, esse comportamento cheio de caprichos sempre foi atribuído a influências lunares. Capricho, como se sabe, é vontade repentina sem justificativa, mudança súbita de comportamento, algo visto do lado da extravagância, da cisma, da veleidade, da birra. Além do mais, lembre-se que a palavra capricho vem da palavra latina capra, reconhecidamente um animal lunar, inquieto, sempre em movimento, e, como tal, ligado ao signo astrológico de Câncer, governado pela Lua.

A Lua, desde tempos imemoriais, sempre apareceu associada à umidade, ao crescimento orgânico da natureza, agindo, segundo as suas fases, sobre a vegetação, a vida animal e o movimento das marés. Possuindo o ser humano, proporcionalmente, tanta água em seu corpo quanto o planeta Terra, cerca de 72%, constataram os antigos, com facilidade, pela lei da correspondência, o quanto a Lua age sobre a saúde humana e as emoções.

A influência da Lua sobre os ritmos biológicos é um fato, embora a chamada ciência oficial do Ocidente considere a tese sob grande reserva. Esta prevenção pode ser explicada pela observação de que toda a ciência ocidental foi e continua sendo construída sobre a ideia da temporalidade solar. Com efeito, nosso calendário é gregoriano, solar. Além disso, não é por acaso que o Sol é o símbolo maior das religiões patriarcais. Lembre-se que os antigos gregos tinham um verbo, seleniadzein para designar a ação da Lua sobre pessoas mais sensíveis (os chamados lunáticos), ação que, em muitos casos, podia levar a comportamentos incoerentes, extravagantes, doentios.

O termo calundu, na origem, quando da vinda dos africanos para o Brasil, designava apenas certas cerimônias de caráter religioso, acompanhadas de canto, dança e batuque. Essas cerimônias eram frequentadas por negros escravos que nelas procuravam orientação sobre a sua vida, sobre o seu destino nas novas terras em que haviam passado a viver. Quem lhes dava as informações era uma espécie de medium, às vezes chamado de feiticeiro. Possuído por entidades sobrenaturais, espíritos, o medium mergulhava num transe, chegando às vezes ao desmaio. Ao voltar, recuperando a consciência, respondia então às perguntas que lhe haviam sido feitas..

A palavra calundu é de origem africana, kulundu, nome que se dá aos espíritos ou entes que, invadindo o corpo de alguém, mergulhando-o num transe, o tornava ora sorumbático, ora nostálgico, triste ou irritado, neurastênico, cheio de arrufos. Era durante essa “invasão” que o medium fazia uma viagem à África, trazendo de lá as respostas que daria aos que o consultavam. Desse contexto saiu a palavra para ser aplicada a pessoas que pareciam ter sido possuídas por esses espíritos ou entes que baixavam nessas cerimônias.

Desde o século XVII, temos registros dessas cerimônias no Brasil entre os escravos africanos. Esses registros estão nos autos do Santo Ofício da Inquisição, o tribunal eclesiástico instituído pela Igreja católica desde o século XIII (até o inicio do século XVIII) com a finalidade de averiguar e julgar sumariamente os pretensos hereges e feiticeiros acusados de crimes contra a fé católica. A Inquisição, como se sabe, combateu e perseguiu de modo especial em todo o mundo católico três grupos raciais: judeus, negros e ciganos. No Brasil, não tivemos propriamente a instalação desses tribunais, mas a ação de seus emissários, representantes, que aqui começaram a aportar desde fins dos anos de 1.500. Os visitadores, como eram chamados, formavam um grupo de três: o visitador propriamente dito, o notário (amanuense, escrevente) e o meirinho (funcionário da Justiça). Eles podiam usar o segredo e a tortura no seu trabalho.
O BOCA DO INFERNO

Outros documentos que comprovam a existência das cerimônias do calundu entre os escravos são os registros das visitas que os bispos faziam então (durante o período colonial), a várias cidades brasileiras, em parceria com o poder policial, para averiguar a fé popular. Uma terceira fonte que nos indica que as práticas do calundu eram comuns está em alguns textos literários como, por exemplo, na obra do baiano Gregório de Matos (1633 – 1696), o famoso Boca do Inferno, historicamente o primeiro e um dos maiores poetas brasileiros do período colonial.

OS MISTÉRIOS DE ELÊUSIS (ORGIA)

Chamavam-se calunduzeiros os negros que se entregavam às práticas mencionadas. Com o tempo, porém, passaram as cerimônias a ser frequentadas também por brancos, que queriam “saber” de suas vidas. Faziam parte dos rituais o cozimento de certas ervas, usadas em beberagens neles servidas; havia música, batuques e danças, sendo exigido o uso de roupas especiais, de preferência brancas. A música e a dança tinham um caráter orgiástico, dionisíaco, levando os participantes e, principalmente, a figura mais importante do grupo, o medium, a uma espécie de êxtase que lembrava muito o que ocorria nos mistérios de Elêusis da antiga Grécia.

Recobrando os sentidos, o feiticeiro era capaz de responder às perguntas que lhe haviam sido feitas. Dizia-se que durante o transe e perdidos os sentidos ele era capaz de visitar a sua terra natal, a África, de onde traria as desejadas respostas. Ao final da cerimônia, o calunduzeiro também aliviava os que o haviam procurado, deles retirando o mal que os afligisse, o feitiço, lançando-o depois na água corrente. Todo terreiro de calundu estava situado perto de um rio ou riacho. Afasta-me da água corrente e da língua de má gente, dizia um ditado popular. As cerimônias do calundu, assim realizadas, seriam, numa perspectiva histórica, anteriores ao candomblé, originando-se este, para alguns estudiosos, daquelas.

De fins do século XVIII em diante, o primitivo sentido de calundu (cerimônias secretas de escravos em que se evocavam espíritos e se faziam adivinhações, tudo em meio a muita dança e música) foi se perdendo, muito contribuindo para isto a perseguição religiosa e policial. A palavra calundu foi tomando então o sentido que apontamos no início deste trabalho. A maior responsabilidade por esta mudança deve ser creditada, porém, a uma fantástica figura da história do Brasil, pouco citada, não muito entendida, a chamada “escrava concubina” por alguns historiadores. Era ela uma mucama, nome dado no Brasil e na África portuguesa, à escrava ou criada negra, geralmente jovem, que vivia mais próxima dos senhores, ajudando nos serviços caseiros, tomando conta de crianças, inclusive como ama-de-leite, e acompanhando a dona da casa em passeios. Foi ela, sem dúvida, no nosso período colonial, a grande responsável por essa alteração semântica

Foi nas casas grandes, nas sedes dos engenhos, nos grandes sobrados coloniais que o primitivo sentido de calundu se perdeu, passando aos poucos, assim alterado, para a linguagem coloquial do povo brasileiro. O quadro era conhecido: a criança que não queria dormir ou que tivesse o famoso mau olhado, cheia de manhas, birrenta, que vomitasse inexplicavelmente, estava com calundu, era o “diagnóstico” entendido da escrava concubina. Quem era ela? Era a escrava que inclusive dormia com o senhor da casa; jovem e bonita, escolhida com muito cuidado: cuidava das crianças e tinha lugar no leito do senhor da casa, muitas vezes à frente da esposa oficial.

Além das crianças, as maiores vítimas do calundu eram as mulheres casadas. Submissas, desprezadas, indispostas sempre, presas geralmente a um casamento infeliz, elas “ficavam” facilmente com calundu. Ressaltemos que o calundu nas mulheres tem muito a ver com aquele período que antecede o fluxo menstrual. Um antigo nome da menstruação, aliás, era catamênio, etimologicamente descida da Lua Da meia idade em diante, porém, raros os registros desse comportamento em mulheres. Se as encontrássemos nesse estado, seriam elas invariavelmente as mal humoradas solteironas. Quanto ao mundo masculino, o calundu não faz parte dele. Os nossos trezentos anos de história colonial o comprovam. Por que? O calundu é sobretudo infantil, feminino, lunar, já que as crianças e mulheres sempre foram consideradas, como se disse, as mais afetadas pela ação da Dindinha Lua. Os estados de ânimo descritos pelo calundu não encontram uma justificativa plausível, racional. Ele lembra instabilidade, oscilação, imaginação, caprichos, impulsos ocasionais, repentinos, sem justificativa, acessos súbitos, coisas lunares... Não é por acaso que a moderna psicologia (Jung) dá o nome de anima ao aspecto lunar, feminino, do inconsciente masculino, onde se aloja tudo o que, do lado dos sentimentos e emoções, é vago, impreciso, quimérico, intuitivo. Tudo isto não faz mais do que confirmar um antigo adágio astrológico:  A Lua não se “explica”, é algo que apenas se sente.

Os estados afetivos penosos que o ser humano experimenta, de difícil ou impossível definição ou entendimento, que o colocam numa situação expectante, diante da qual ele se julga indefeso, têm três estágios. O primeiro deles é a inquietação, o segundo é a ansiedade e o terceiro é a angústia. Enquanto a ansiedade é pessoal, tem um objeto, fixa-se em algo (a pessoa ouve falar ou lê algo que a “incomoda” realmente; outros que ouvem a mesma coisa nada “sentem”), a inquietação vive à procura de um pretexto, de uma justificação para se apresentar. O calundu é da esfera da inquietação, tudo é pretexto para que um caso seja criado. É, por isso, vago, indistinto, incerto.

O calundu costuma se manifestar em pessoas cujas estruturas de comportamento e defesas habituais se tornam inadequados para responder a mudanças no seu quotidiano, como a alteração de certos hábitos, mudanças de horário, introdução de alguma disciplina nova, contacto com pessoas diferentes, estranhas etc. O calundu é imprevisível, ficamos desnorteados diante dele, tudo é pretexto para que ele seja manifestado; já a ansiedade não, ela tem sempre um objeto determinado.

A ansiedade, ao contrário do calundu, percebe o seu objeto. O ansioso a capta nos fatos, nos acontecimentos, na realidade em que vive, esta muitas vezes deformada, aumentada, e falsamente interpretada. A ansiedade se liga a objetos, apóia-se em motivos, encontrando neles a sua justificativa. Cada ansioso tem os seus temas prediletos. Já a inquietação, ou seja, o calundu, faz com que a sua vítima se aproveite de qualquer motivo para justificá-la. O calundu é flutuante, tremendamente lunar.

Embora certos traços da saudade ou da nostalgia (solidão, melancolia) possam aparecer também no calundu, nela não encontramos um dos seus grandes componentes, a irritação, o mau humor explícito. A saudade e a nostalgia, se as examinamos mais de perto, notamos que elas têm um objetivo, fixam-se em algo definido. A saudade (solitas, atis, do latim, solidão, desamparo) se prende a um sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de alguém, de um lugar. A palavra saudade nos remete a uma ideia de uma unidade separada do resto, de isolamento. A saudade se aplica mais a pessoas do que a lugares.

A melancolia (do grego, bile negra) atua no plano da tristeza, da prostração. Seu nome vem de um mal físico, ocasionado pelo excesso da bile, substância amarga e escura secretada pelo fígado, que gera esses estados, tornando a pessoa sorumbática, macambúzia (etimologicamente, pastor que fica isolado no alto da montanha), geniosa. Se a saudade se define pelo sentimento de ausência de certas experiências ou pela impossibilidade de reviver certos prazeres, a nostalgia (do grego, nostos, regresso, retorno, e algia, dor, palavra criada em fins do século XVIII pelo médico suíço Harder) é comumente entendida como uma forma de melancolia profunda, tristeza, causada pelo afastamento da terra natal ou do ambiente familiar (mal du pays, como dizem os franceses). Saudade, portanto, mais para pessoas; nostalgia mais para países, cidades ou lugares. Ambas podem ser acompanhadas de distúrbios de comportamento e de somatizações. De um modo geral, saudade aplica-se mais para o sentimento de incompletude com relação a pessoas e nostalgia para o mesmo sentimento, mas com relação a lugares, ambientes, como a aldeia, a cidade natal, a pátria. Dentre os grandes livros que tratam da nostalgia talvez nenhum como o , de Antonio Nobre.

Uma das formas extremas da nostalgia, o banzo, nós a encontramos entre os africanos escravizados. O banzo (mbanzu, em línguas africanas, é pensamento, no sentido de ideia fixa), um processo psicológico causado pela desculturação, que levava os negros, vivendo longe de seu mundo, a um estado onde simultaneamente se notavam excitação, impulsos destrutivos e, depois, aos poucos, tendências à apatia, à inanição e, em certos casos, à loucura e à morte. O negro vitimado pelo banzo não pensava noutra coisa senão na pátria, na terra natal.

O entendimento do nosso calundu se fixará melhor se o aproximarmos da palavra spleen da língua inglesa, lexicografada pelos franceses, para descrever estados de ânimo muito semelhantes. Spleen vem de splen palavra que os gregos usavam para designar o baço, glândula esponjosa que se situa na região abdominal, abaixo do diafragma, atrás do estômago, cuja função é a de exercer um papel regulador na circulação sanguínea, desintegrando os glóbulos vermelhos velhos, sendo por isso chamada de cemitério das hemácias inúteis.  No baço se dá uma troca; desfazemo-nos das hemácias inúteis e obtemos as novas. Astrologicamente, o baço é de Marte. O baço era para os antigos a sede dos humores negros, geradores de uma melancolia sem causa aparente, caracterizada, no século XIX, por uma espécie de desgosto por qualquer coisa, na expressão do poeta francês Alfred de Vigny, um mal estar, uma irritação, uma coisa que se sentia mas que não se sabia o que era.....

ALFRED DE VIGNY

                                           O baço é simbolicamente o início e o fim da força vital. Os antigos gregos atribuíam às suas disfunções a origem do mau humor, da raiva, da insatisfação, do temperamento irritadiço,
a disposição para a provocação de atritos e de querelas por nada. Gente que tem o baço ruim cria caso por nada. O baço é um lugar de energia; por isso, na luta de boxe é o órgão mais visado; bater no baço para minar a energia do outro. Entre os chineses, por exemplo, o baço está relacionado com a energia yin com o equinócio da primavera (Áries), simbolizando a versatilidade, a mobilidade, como a dos humores que não se fixam jamais, causadores de comportamentos que oscilam entre a excitação, a exasperação, a indiferença e a depressão.

Na Astrologia, em todas as tradições, o baço sempre esteve relacionado com os princípios lunar e marciano, já que neles se concentram a morte e o renascimento dos glóbulos vermelhos. Desde a antiguidade, o baço esteve ligado às paixões, inclusive às do sexo. O riso, mais a gargalhada, é da esfera do baço. Plínio, o Velho (23-79), naturalista romano, autor da famosa História Natural, vasta enciclopédia do conhecimento de seu tempo, já apontava essa relação: pessoas que tinham problemas no baço (grande, inchado) costumavam rir escandalosamente. Fazem parte do baço também, na visão dos antigos, a malícia, a impetuosidade, o temperamento orgulhoso e os caprichos, astrologicamente uma relação muito próxima entre a Lua e Marte.

Entre o fim do século XVIII e meados do século XIX, período marcado pela descoberta de dois planetas transaturninos, Urano e Netuno, grandes transformações sociais, políticas e econômicas geraram novas formas de viver. Na arte, essas novas formas de ver e viver o mundo tomam o nome de Romantismo, que se caracterizava pelo abandono da razão clássica, da atitude racional diante da vida e por um componente fortemente feminino quanto à sensibilidade. No seu lugar, agora, a imaginação e a emoção, a exaltação inquieta e orgulhosa do eu pessoal, mergulhado na vaga das paixões. Ao mesmo tempo, o abandono da ordem, da regularidade monótona, do regrado e do fixo. No fundo, era algo muito semelhante ao nosso calundu, tratado à européia, agora com status literário, com o nome de spleen que o Romantismo punha em circulação como literatura.

No século XIX, um dos “males” abordados pelo Romantismo foi o chamado mal du siécle uma mudança da sensibilidade no campo das artes como apontamos, que, no fundo, era uma tradução “superior” daquilo que o homem comum sentia num plano muito pessoal e imediato. O artista romântico não se dava bem em lugar nenhum, achava tudo desinteressante, irritava-se com frequência. Essa nova maneira de sentir o mundo era uma inquietação inexplicável, feminina, que escapava de qualquer administração masculina, solar, não entendida racionalmente. Ela tornava o herói romântico um ser inadaptado, solitário, contraditório, atormentado por uma culpa cuja causa lhe era desconhecida, prendendo-o a um grande desgosto de viver.

Uma das melhores descrições desse mal nós a encontramos numa grande figura da literatura francesa na passagem do século XVIII para o XIX. Referimo-nos a Mme. De Staël (Germaine Necker), que viveu entre 1766 e 1817 e aos textos que fazem parte da sua obra De l’Allemagne. Napoleão a queria com ele, fazendo parte da sua entourage; ela, porém, não o suportava, indo, por isso, se refugiar na Alemanha, de onde passou a escrever regularmente para os seus amigos franceses, dando-lhes notícia sobre a nova sensibilidade do tempo, uma profunda análise do que então pioneiramente produzia o romantismo alemão.

Em 1869, aparecia na França um livro estranho, cujo tema escapava de todas as classificações literárias até então usualmente admitidas. Esse livro chamava-se Spleen de Paris, de Charles Baudelaire, pequenos poemas em prosa, “uma tentativa de adaptar a uma prosa musical, sem ritmo e sem rima, os movimentos líricos da alma”. Ele captou esses “estados lunares” e os transformou em poemas, onde não havia nem ritmo, nem prosa. Baudelaire, com esse livro, trazia para o primeiro plano da literatura questões novas: a das misteriosas correspondências entre o mundo das sensações e o universo suprasensível. Preparava-se o clima para o aparecimento de Freud. Com o poeta, a poesia deixava de ser descritiva, grandiloquente, para se tornar musical, encantatória, irracional, simbólica, lunar. Não é por outra razão que o primeiro “poema” de Spleen de Paris é L’Étranger. Nele, o poeta renega tudo, a família, a pátria, a beleza, o ouro, para amar “as nuvens, as nuvens que passam ao longe, longe, longe, as maravilhosas nuvens.” Lembremos (para os astrólogos) que o planeta Netuno acabara de ser descoberto (1846), e, vindo, com ele, o impressionismo na pintura, o socialismo na política e o simbolismo na poesia e na música. Netuno é, como se sabe, o arquétipo da dissolução universal, do apagamento de fronteiras, da adesão sem medidas, da confusão do eu como o não-eu.


Dizia Baudelaire sobre a sua obra: Descontente de todos e descontente de mim mesmo, desejaria me resgatar e me orgulhar um pouco no silêncio e na solidão da noite... Senhor, meu Deus! Dai-me a graça de produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo. Depois de Spleen de Paris, a literatura francesa mudou. Tudo o que se fez de bom na poesia tem um débito, maior ou menor, com o Spleen baudelairiano. Do poeta, para os que puderem conferir, aqui vai (em francês para para que não se perca a sua musicalidade) o poema Les Bienfaits de la Lune:

La Lune, qui est le caprice même, regarda par la fenêtre pendant que tu dormais dans ton berceau, et se dit: «Cette enfant me plaît. Et elle descendit moelleusement son escalier de nuages et passa sans bruit à travers les vitres. Puis elle s'étendit sur toi avec la tendresse souple d'une mère, et elle déposa ses couleurs sur ta face. Tes prunelles en sont restées vertes, et tes joues extraordinairement pâles. C'est en contemplant cette visiteuse que tes yeux se sont si bizarrement agrandis; et elle t'a si tendrement serrée à la gorge que tu en as gardé pour toujours l'envie de pleurer.

Cependant, dans l'expansion de sa joie, la Lune remplissait toute la chambre comme une atmosphère phosphorique, comme un poison lumineux; et toute cette lumière vivante pensait et disait: «Tu subiras éternellement l'influence de mon baiser. Tu seras belle à ma manière. Tu aimeras ce que j'aime et ce qui m'aime: l'eau, les nuages, le silence et la nuit; la mer immense et verte; l'eau informe et multiforme; le lieu où tu ne seras pas; l'amant que tu ne connaîtras pas; les fleurs monstrueuses; les parfums qui font délirer; les chats qui se pâment sur les pianos, et qui gémissent comme les femmes, d'une voix rauque et douce!

Et tu seras aimée de mes amants, courtisée par mes courtisans. Tu seras la reine des hommes aux yeux verts dont j'ai serré aussi la gorge dans mes caresses nocturnes; de ceux-là qui aiment la mer, la mer immense, tumultueuse et verte, l'eau informe et multiforme, le lieu où ils ne sont pas, la femme qu'ils ne connaissent pas, les fleurs sinistres qui ressemblent aux encensoirs d'une religion inconnue, les parfums qui troublent la volonté, et animaux sauvages et voluptueux qui sont les emblèmes de leur folie.

Et c'est pour cela, maudite chère enfant gâtée, que je suis maintenant couché à tes pieds, cherchant dans toute ta personne le reflet de la redoutable Divinité, de la fatidique marraine, de la nourrice empoisonneuse de tous les lunatiques.