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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

LIBRA (5)



 TISBE   E   PÍRAMO   ( MOSAICO   ROMANO )

Uma das mais belas histórias que devemos associar ao mundo libriano é a de Píramo e Tisbe. A sua origem pode se rastreada na antiga Babilônia e a versão que prevaleceu foi a que Ovídio nos deixou nas Metamorfoses. Contra a vontade das respectivas famílias, os jovens se amavam ardentemente. Conseguiam manter contacto através de uma fenda no muro que separava as propriedades em que viviam. Com muita dificuldade, certa feita, marcaram um encontro noturno, fora da cidade, junto do túmulo de Nino, o fundador mítico de Nínive e do império babilônico, no local onde havia uma amoreira. 

Tisbe foi a primeira a chegar. Assustou-se quando viu um leão se aproximar de uma fonte próxima do local. Na fuga, deixou cair a sua écharpe. O animal, com os beiços ainda ensanguentados (acabara de devorar uma corça), estraçalhou o lenço da jovem, deixando nele muitas marcas de sangue. Pouco depois, o animal visto já ao longe, Píramo chegou; diante dos restos da écharpe, concluiu que a sua amada havia sido devorada. Totalmente
AMOREIRA
descontrolado, sacou um punhal e se matou. Tisbe, porém, resolveu voltar ao local e se deparando com o corpo do amante, matou-se também com o punhal dele. Os frutos da amoreira, de brancos que eram, tingiram-se, desde então, de vermelho diante de tanto sangue derramado. Vêm dessa história inúmeras restrições que acompanham a amoreira. Uma delas: para não conhecer um destino tão trágico como o dos dois jovens da Babilônia, encontros amorosos nunca deverão se dar sob ou na proximidade de amoreiras. 

ZEUS  E  HERMES  NA  CASA  DE  BAUCIS  E  FILEMON
(  PHILIP  GYSELAER , 1620 - 1650 )

Uma outra ilustração libriana pode ser encontrada na história de Baucis e Filemon. Ela era uma frigia, casada com um camponês muito pobre. Um dia, em visita à terra, Zeus e Hermes, disfarçados como mendigos, passando pela vila em que morava o casal, foram escorraçados pelos seus habitantes. Apenas Baucis e Filemon, apesar de sua grande pobreza, os acolheram. Os deuses, tocados por tão grande gentileza, revelando-se então, sugeriram que eles fizessem um pedido, com a promessa de atendê-lo. Pediram para morrer juntos, pois um não suportaria a morte do outro. Passaram-se os anos e quando morreram, juntos como o prometido, eles foram transformados numa árvore de um só tronco. Esta história era contada em antigos círculos astrológicos para se falar do signo de Libra, destacando-se através dela que o amor feliz e duradouro é feito de humildade, de paciência, de tolerância mútua e de ternura, de exigências medidas e de aceitação tranquila dos limites e das provas trazidas pela vida, tudo evidentemente fora do mundo passional que, aliás, não é de Libra. 


PIGMALEÃO   E   GALATEIA
JEAN - LÉON  GÉRÔME , 1824 - 1904 )
Uma outra história sempre associada ao signo de Libra é a de Pigmaleão e Galateia. Além de rei de Chipre, Pigmaleão era incomparável escultor. Jamais conseguindo se ligar a mulher alguma, achando-as todas desinteressantes, feias, indignas de seu amor, resolveu esculpir uma, que seria a mais bela de todas as criaturas. Assim fez, dando-lhe o nome de Galateia (branca, transparente, em grego). Era ela perfeita, faltando-lhe apenas a palavra e a visão. Amou-a perdidamente. Suplicou a Afrodite que lhe desse vida, pois queria acariciá-la, amá-la, torná-la humana, desejosa e desejável. Ou seja, astrologicamente, passar da abstração de Libra como signo de ar à dimensão terrestre, carnal, da alma. Talvez sem o saber, Pigmaleão estava tentando superar aquilo que talvez seja a danação de Libra, a sua recusa ou dificuldade para se encarnar, sempre uma grande dificuldade para viver devido à grande dependência do “outro”. Libra é realmente o signo que antes de tudo mais sonha o amor do que o vive, pedindo sempre sentimentos sublimes, adjetivo que, como sabemos, é ligado ao elemento ar.

JEAN   BURIDAN
Uma das histórias mais interessantes que podemos  também ligar ao signo de Libra nos vem da filosofia. É o famoso argumento do asno de Buridan. Jean Buridan, filósofo escolástico francês (1300-1358), ligou seu nome a uma história por ele criada: um asno que, sedento e faminto, encontrando-se a igual distância de um cocho com feno e de uma tina com água, não conseguia se decidir, escolher. Este argumento foi usado por Buridan nos seus cursos tanto contra os partidários do determinismo (para os quais o asno morreria de fome e de sede, o que pareceria viável) como contra os partidários das teses do livre-arbítrio (que consideravam o animal  dotado de uma liberdade que poderia levá-lo à indiferença). O asno, incapaz de decidir entre beber primeiro e comer depois, ou vice-versa, incapaz enfim de fazer uma escolha, permaneceu imóvel entre os dois estímulos. Esta história é, acredito, uma boa ilustração da conhecida incerteza inibitória libriana. Impulso e inibição, desejo e medo, ímpeto e recuo.

LAMED
Entre os judeus, o signo de Libra é o mês de Tishrei, tendo relação com a letra lamed, a mais “alta” das letras do alfabeto hebraico, cujo valor numérico é trinta. Além do mais, a forma dessa letra é parecida com a de uma balança. O signo que sobe neste mês indica que nele é chegado o tempo da avaliação das ações humanas. A tribo relacionada com o signo é a de Ephraim, o segundo filho de José e de Asenath (aquela que pertence à deusa Neith; segundo o Gênese, ela era a esposa egípcia de José), filha do sacerdote de On, que o patriarca Jacó adotou no momento de sua morte. A tribo de Ephraim possuía o centro da região montanhosa do país de Canaã. Depois da divisão do reino, Ephraim foi o inimigo mais poderoso de Judá (quarto filho de Jacó) e a principal tribo do reino do norte.

Na tradição judaica, o nome deste mês, Tishrei, indica que ele marca o início de um ano novo porque ele contém as mesmas letras que a palavra que designa o começo (bereshit, Gênese). O significado da palavra Tishrei em aramaico é reconciliação, reparação. Isto quer dizer reparação de ações do passado que irão permitir que uma pessoa vire as páginas do livro de sua vida. A letra lamed simboliza a sublime oportunidade que este mês oferece para que uma pessoa possa ir das profundezas do pecado à maior altura espiritual, pondo sua vida em ordem e reajustando o seu coração. Aliás, segundo algumas tradições, a letra lamed quer dizer lev (coração). Tishrei marca o fim da primeira metade do ano (que começa com Nissan (Áries). É considerado como o coração do ano assim como o coração recebe e distribui a energia espiritual pelo período anual em sua totalidade. 

A natureza essencial deste signo, o acasalamento, é a íntima relação entre marido e mulher, o que simboliza também que foi nesse período que ocorreu a unificação entre Deus e o povo judaico. Isto

é especialmente revelado pelo Yom Kipur, que cai no dia dez de Tishrei, quando as duas Tábuas, contendo os dez mandamentos foram dadas a Israel. O Yom Kipur, como se sabe, é celebrado como o “dia da expiação”, o mais sagrado do calendário judaico, marcando o fim dos dez dias de penitência. Na antiguidade era o único dia em que o sumo sacerdote entrava no “Santo dos Santos” (a área mais sagrada do tabernáculo e do templo) e um bode expiatório, carregando os pecados de Israel, era enviado a Azazel, no deserto, a um penhasco de onde o animal era lançado, carregando assim os pecados de Israel. Embora o nome Azazel se refira a um lugar, ele também designava entre os judeus um demônio ou anjo caído.



GUERRA  ( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

O bode, lembremos, em todas as tradições sempre foi considerado como um símbolo do fogo genésico, do fogo sacrificial, de onde nasce a vida. Esta carga simbólica tem evidente relação com o signo de Áries e com o planeta Marte. Não é por outra razão que o bode, na mitologia hindu, é montaria do deus Agni. Em várias culturas, na greco-romana principalmente, era da figura do bode que saía a base teriomórfica de sátiros, silenos, faunos, egipãs e de outros seres que ficavam entre o humano e o animal, divindades campestres, companheiras do deus Pã, todos amantes de ninfas e de jovens mortais de ambos os sexos. Eram representados por pequenos seres humanos barbudos, muito fortes, peludos, com pequenos chifres, orelhas pontiagudas, cauda, e um membro viril descomunal. 


MOISÉS   E   DEZ   MANDAMENTOS
 ( REMBRANDT , 1606 - 1669)

A concessão do Decálogo é considerada como um “presente de núpcias”, da união do povo de Israel com Deus, um presente semelhante ao que o marido dá à mulher quando de sua união. Esta aceitação do Decálogo transformou Israel numa nação religiosa, abençoada, alçando-a à condição de “cabeça” dentre todas as demais, isto é, a que deve guiar todos os povos na direção do divino.    

As pessoas nascidas no mês de Tishrei costumam apresentar uma disposição natural para viver harmoniosamente com os outros.
ROSH  HA - SHANÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )
Refinamento e abertura espiritual são comuns nos do signo já que é no primeiro e segundo dias de Tishrei que se comemora a festa do ano novo judaico (Rosh ha - Shaná, “cabeça do ano”). Segundo a tradição, foi nessa data que Deus criou Adão, o primeiro homem. Rosh ha - Shaná é também conhecido como o Dia do Julgamento, pois dá início a um período de julgamento para a humanidade, que termina em Hoshaná Rabá, quando Deus senta em seu trono e determina o destino de cada indivíduo no ano que se inicia. Três livros são abertos no céu, um para os verdadeiramente justos, um para os verdadeiramente iníquos e outro para os que não se enquadram nas duas categorias mencionadas. Os judeus acreditam que com orações e arrependimento sincero, nos dez primeiro dias do mês, seus nomes venham a ser inscritos, para o ano seguinte, no livro dos justos. É por isso que eles costumam se cumprimentar com as seguintes palavras: Que teu nome seja inscrito no livro dos justos para que possas gozar de um bom ano. Sopra-se o shofar a fim de se despertar os pecadores para o arrependimento. Nesta cerimônia são consumidos alimentos em razão de seu simbolismo positivo, alimentos que trarão influências benéficas, como a cabeça de animais, inclusive de peixes, para que a pessoa durante o ano vindouro possa viver como “cabeça” e não como “cauda”, ou seja, que viva como um vencedor e não como um perdedor. 

RABI COM TORÁ (MARC  CHAGALL)
As pessoas nascidas sob a influência de Tishrei costumam enfrentar muitas dificuldades quando da tomada de decisões. Se se voltarem, porém, para os ensinamentos da Torá, poderão superar tais dificuldades, encontrando o foco naquilo que é mais importante para elas. Esta tendência à vacilação que as pessoas nascidas em Tishrei se deve ao elemento ar, elemento que os do signo compartilham com os nascidos em Sivan (Gêmeos) e Shevat (Aquário). No 22º dia do mês de Tishrei é celebrado Simchat Torah, o dia do recebimento da Torá. Lembram os astrólogos que o elemento ar deste signo é composto por um balanceamento entre o fogo e a água, elementos que são naturalmente opostos. As relações de complementaridade entre José e Judá são indicadas pela aproximação entre Nissan (Áries), da tribo deste último, e de Tishrei (Libra), que é de Ephraim, filho de José, como já se viu.    

O corpo celeste que rege Tishrei é o planeta Vênus, que tem a ver tanto com o amor quanto com as paixões, conforme esclarece o
TALMUD
Talmud. Estes sentimentos são expressos no calendário judaico no festival de Sukot, que começa no dia quinze do mês, na Lua cheia. O festival tem a duração de oito dias. No último dia, Deus e o povo de Israel se unem como marido e mulher, matrimonialmente. O festival de Sukot (tabernáculos, em hebraico) é uma das três grandes celebrações relacionadas com a peregrinação ou festas da colheita. 

Sukot começa no dia 15 de Tishrei, após a colheita anual, sendo considerada a mais feliz das festividades bíblicas. Comemora-se a generosidade de Deus, simbolizada pelas frágeis cabanas que os judeus habitavam no deserto. Durante o Sukot, os judeus moram e comem nessas cabanas (tabernáculos). São usados quatro vegetais nesse festival: a palmeira, uma fruta cítrica, o salgueiro e a murta (Levítico, 40.23). Eles são brandidos para celebrar a generosidade divina ao fim da estação da colheita, simbolizando os diferentes tipos que constituem uma comunidade judaica. A palmeira dá fruto, mas não tem odor agradável; é usada para representar o judeu que estuda a Torá, mas que não cumpre os seus mandamentos; a murta tem cheiro agradável, mas não dá frutos; o salgueiro não dá frutos nem cheira; a fruta cítrica, isto é, o etrog, dá frutos e tem odor.  Os judeus dão o nome de etrog a uma fruta cítrica, da família do limão, da lima e da toronja, usado exclusivamente para fins religiosos, representando também o coração humano; seu forte aroma afasta insetos e seus caroços neutralizam venenos e dão um hálito agradável.

A constelação de Libra estende-se de 7º a 28º de Escorpião. Ptolomeu considerou as estrelas desta constelação através das Pinças de Escorpião, vendo nelas influências semelhantes às de

Júpiter e Mercúrio; já as estrelas situadas no meio das Pinças atuariam como Saturno e, menos, como Marte. No Tarot, lembremos, o signo de Libra aparece associado ao arcano 8, a Justiça. Com ele tem início o segundo septenário do Tarot, significando isto a predominância do reino do equilíbrio, da ação que deve ser empreendida independentemente dos compromissos pessoais. Nas mãos da Justiça, temos a espada e a balança. O simbolismo da Justiça põe em relevo a união harmoniosa das forças opostas, união que deve ser buscada sobretudo interiormente. 





A estrela mais brilhante (alfa) de Libra é Zuben Elgenubi (prato sul), seguindo-se, em grau de importância,  Zuben Eschamali (prato norte), beta, e Zuben Hakrabi, também chamada de Graffias, não considerada astrologicamente. O nome da primeira é uma tradução para o árabe da designação grega ptolomaica (Chele Notos, Pinça do Sul); está situada a 14º 23´ de Scorpio. O nome da segunda é também uma tradução para o árabe da designação ptolomaica (Chele Boreios, Pinça do Norte); está situada a 18ª 40´ de Scorpio.

Ambas as estrelas têm a ver, ao que parece, segundo a tradição astrológica mais consequente, muito mais com questões sociais, com reformas e propostas de justiça do que com problemas pessoais nesta área. A diferença entre elas está, porém, no fato de Eschamali unir, gerar envolvimentos sociais e vantagens, ganhos ou promoção pessoal, enquanto com relação a Elgenubi estas últimas
JOHN   LENON , 1940 - 1980
tendências não costumam se verificar. A orientação de ambas está, como se disse, voltada para o social, para a atuação através de grupos, indo (dependendo de posição e aspectos) desde formas mais intensas de ativismo e engajamento a formas mais suaves (clubes, hobbies etc.). Mapas como os de Martin Luther King, John Lenon, de Karl Marx e Jean-Paul Sartre poderão ser estudados para se conhecer melhor a influência das referidas estrelas.   

                           

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (5)





Alguns acontecimentos astronômicos ocorridos no séc. VIII aC, registrados na Ásia Menor, podem nos fornecer, acredito, alguns elementos para enriquecer a nossa crônica marciana. Os acontecimentos a que me refiro podem ser pesquisados a partir de registros bíblicos, como os encontramos principalmente nas profecias de Amós e de Isaías. 

AMÓS
Amós (séc. VIII aC) foi um profeta de origem humilde, criticou o seu povo por seus pecados e previu seu exílio. As profecias de Amós falavam de um terremoto (raash) que traria muita destruição. Isaías (séc. VIII aC) é outro profeta que nos fala da sua visão dos céus, uma visão tipicamente marciana. Ele viu anjos clamando uns aos outros: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; o mundo inteiro está pleno de sua glória. 


ISAÍAS


Isaías (13:10) nos fala que as estrelas do céu e as constelações não brilharão com a sua luz, que o Sol ficará escuro ao nascer pela manhã e que a Lua não brilhará. Diz ele que o mundo será lançado fora do seu eixo e o exército celeste sacudirá os céus; nesse dia da ira do Senhor dos Exércitos, dia da sua violenta cólera,  a Terra sairá do seu lugar.



Sabe-se que no ano de 747 aC um novo calendário foi introduzido no Oriente Médio. Esse ano é conhecido como o do começo da era Nabonassar, nome de um rei babilônico. O estabelecimento desse calendário decorreu da necessidade de se fazer alguns ajustes no antigo calendário à vista de uma catástrofe, o referido raash, ocorrida, como tudo indica, num dia ao que corresponderia ao nosso  23 de março de 687 aC. 


BAMBOO   BOOK

Sobre essa data há registros chineses (nos chamados anais Bamboo Books), americanos (antigos indígenas do México) e judaicos.
LIVRO    DOS    REIS
Nesse dia, os exército de Senaquerib, rei dos assírios, foram destruídos (há indicações desse fato no Livro dos Reis). Historiadores como Heródoto e Flavio Josefo, que se manifestaram sobre a destruição das tropas assírias, concordam quanto ao fato de que tal ocorreu (morte de milhares de homens) numa única noite, na referida data.


O raash a que se referem os judeus teria sido causado por uma anormal aproximação da Terra do planeta Marte, alterando-se o eixo e a órbita do nosso planeta. Um relação interessante é que tal aproximação coincidiu com a fundação de Roma, um período em que o deus-planeta estava realizando grandes proezas no céu. Não é por acaso que o mito registra que Rômulo e Remo nasceram quando o Sol se encontrava em eclipse total. 

De acordo com lendas populares, no dia da fundação de Roma a marcha do Sol foi interrompida e o mundo escureceu. Quando da morte de Rômulo, segundo essas mesmas fontes, ocorreram vários fatos estranhos. Uma fonte mais fidedigna (Plutarco, Vidas) nos relata que “súbitas, estranhas e extraordinárias perturbações, com incríveis mudanças, encheram o ar; a luz do Sol sumiu e a noite desceu sobre eles, não com paz e tranquilidade, mas com terríveis estrondos de trovões e rajadas furiosas.”



Ovídio, grande poeta latino, do início da era cristã, diz sobre o mesmo acontecimento: “Ambos os polos tremeram e Atlas mudou o peso do céu... O Sol desapareceu e levantaram-se nuvens obscurecendo o céu... o firmamento era rasgado por raios de fogo. O povo fugiu e o rei (Rômulo), sobre os corcéis de seu pai, voou para as estrelas.”

Entre os antigos judeus, a grande divindade é Javé. De características tipicamente uranianas, tonitroante e relampejante, é o deus das tribos do deserto, sendo dele também a função guerreira. Seu principal atributo é a soberania absoluta, exercida através das manifestações atmosféricas, sendo a mais espetacular o raio. É, por direito de conquista, um deus único, que se impõe pelo terror; é aquele dá a vida e a destrói, aquele que garante a ordem universal, guardião das normas e encarnação da própria lei. A lei e a espada são dele. 


JAVÉ

Os elementos recolhidos da pré-história nos informam, com certeza, que o antigo povo de Israel era nômade. A dinâmica da conquista da terra de Canaã por esse povo aparece nos textos bíblicos e nos permite entender como ele, entre poderosos impérios, Assíria, Babilônia e Egito, principalmente, conseguiu, na primeira parte do segundo milênio aC, conquistar, por “doação divina”, terras já ocupadas, para nelas se instalar. 

JACÓ   E  O   ANJO
A organização das doze tribos de Israel, oriundas dos doze filhos de Jacó, foi estabelecida com grande rigor para que fosse superada não só a vida nômade como também a hostilidade dos vizinhos. A organização das doze era quase militar. Cada tribo compreendia um certo número de clãs (mishpaha), que forneciam unidades militares encarregadas da defesa contra os ataques externos e os saques (elef). Cada clã era formada por “casas de pais” (bet ab). Os chefes dessas unidades, os chefes dos clãs e os chefes das “casas dos pais”governavam a tribo, assumindo as funções políticas e judiciárias.

Sabe-se que mesmo antes do chamado período real, que começou com Saul (1030-1010 ac), a organização tribal do povo israelita era a de um exército aguerrido, sempre em movimento e preparado para atacar como para se defender. As unidades militares eram formadas por homens livres, que adquiriam as suas próprias armas e equipamentos. Os chefes militares, nos períodos de guerra, gozavam de autonomia com relação ao poder civil. 


SAUL    E    DAVID    ( REMBRANDT )

Só no período real (Saul, David, Salomão) o exército se tornou nacional e o serviço militar obrigatório, admitida a convocação de conscritos. O poder real se apoiava fortemente nas forças militares, profissionalizadas. Os principais postos na organização militar passam a ser ocupados por membros da família real, criando-se, além disso, uma poderosa e privilegiada casta militar. 

A guerra, no período real, se constituiu sempre numa atividade religiosa. Uma derrota era sempre considerada como uma “ausência” de Deus. As regras que orientam a atividade guerreira estão fixadas na Bíblia. A “presença” de Deus nos deslocamentos militares, no período nômade, por exemplo, era indicada pela arca da aliança, carregada pelos membros da tribo de Levi. 

Outro exemplo das regras a observar em tempos de guerra pode ser encontrado no Deuteronômio. No cáp. VII, exige-se que vencidos os inimigos sejam eles “passados a cutelo sem que fique nem um só. Não celebrarás concerto algum com eles nem os tratarás com compaixão.”

Além do que acima se disse sobre Marte no mundo judaico (Javé
ANTIGO    TESTAMENTO
como senhor dos exércitos), há outras passagens no Antigo Testamento que julgo de interesse para ampliar a nossa compreensão sobre outras possibilidades significativas mítico-astrológicas desse astro. Uma leitura mais atenta do Gênesis, da história de Adão e de Eva, ser-nos-á, acredito, muito útil nesse sentido.


Realmente, a Bíblia é um livro único, fonte de três religiões, e, a rigor, não pertence a nenhuma delas nem a ninguém. Antigos rabinos de Israel, aliás, já abordaram essa questão, ao nos dizer que Deus se revelara num deserto inacessível para que ninguém pudesse dizer que a sua mensagem lhe pertencia.

De início é preciso lembrar que o Antigo Testamento foi escrito entre as idades do bronze e do ferro. Essa primeira observação já nos põe diante de Marte e, tendo-a em mente, será possível lançar um olhar diferente sobre o texto. A Bíblia, o Antigo Testamento, pede comentários abertos a todos os “sopros do espírito” para que possamos ter acesso às suas fontes mais secretas. 

O primeiro livro do Antigo Testamento, conhecido como Gênesis, intitulava-se, na tradução dos LXX (Setenta), Bereshit, palavra traduzida como “No princípio”, mas, na realidade, segundo sua etimologia, significando, conforme sua composição: Be, em; Rosh, cabeça: e it, desinência que dá um sentido abstrato à palavra. No grego: em kephalaio (kephale, cabeça). Uma referência, portanto, ao signo de Áries e ao seu planeta regente, Marte. No corpo humano, sabe-se, o signo ariano se relaciona com a cabeça e com o sentido da visão. 

ADÃO   KADMO
Diz o referido texto bíblico que Deus criou um ser andrógino, instalando-o num lugar paradisíaco. Esta criatura tinha como modelo um ser celestial chamado Adão Kadmon, a própria imagem de Deus, composto de duas partes, uma masculina e uma feminina. A palavra Kadmon lembra humanidade, coletividade. Estas duas partes foram criadas por Deus em condições de igualdade.

Esse ser terrestre foi criado no Monte Moriá, sendo feito do pó tomado dos quatro cantos da Terra. Insuflado nele o sopro da vida por Deus, ele recebeu materialmente contribuições de oito componentes universais: da água saiu o seu sangue; das pedras, os seus ossos; do Sol, os seus olhos; da terra, a sua carne; das raízes, os seus ligamentos; do vento, o seu espírito; das nuvens, os seus pensamentos; do fogo, o seu calor. Na sequência da criação, o andrógino apareceu depois do mundo mineral e do mundo animal. Todos os anjos aceitaram a criação do andrógino, menos Samael, razão pela qual ele foi expulso dos céus, transformando-se em príncipe do Mal. 

A parte masculina do andrógino, entretanto, no que foi apoiada pelo Deus criador, não deu o devido reconhecimento de igualdade à parte feminina, que, rebelando-se, fugiu, passando a ser considerada como um demônio (Lilith) pela parte masculina. Desde então, Lilith, segundo a doutrina judaica, se uniu a Samael, príncipe dos demônios, líder dos anjos que foram expulsos do céu, e chefe do Sitra Achra, o “Outro Lado”, reino do Mal. Consta que foi Samael quem enviou a serpente para seduzir a mulher no jardim do Éden. Samael, lembre-se, foi expulso do céu porque não aceitou Adão.

No capítulo II do Gênesis registra-se que Deus não achou bom que a parte masculina ficasse sozinha. Mergulhando-o em profundo sono, tirou dele uma de suas costelas e dela formou um novo ser feminino, uma aberração sob vários ponto de vista, principalmente fisiológica e psicológica. Nus, um diante do outro, não se envergonharam.  Disse-lhes então Deus que formassem a partir de então uma só carne.

Passando a viver num lugar paradisíaco, os dois, todavia, não respeitaram um tabu estabelecido por Deus (não comer os frutos da árvore da ciência, só os da árvore da vida). A responsabilidade por essa desobediência é atribuída ao ser feminino, que se deixou seduzir pelo que a serpente, grande agente do Mal, lhe disse:  que o fruto da árvore da ciência era bom, porque se ela o comesse se igualaria aos deuses, passando a conhecer o bem e o mal. As consequências desse acontecimento nós as conhecemos bem. O homem, por seu turno, deixou-se convencer pela mulher, sendo ambos expulsos do Paraíso.


ADÃO   E   EVA  ( JEAN   MABUSE )
Os dois seres desta história, como todos sabem, têm os nomes de Adão e Eva. As duas letras matrizes do nome Adam são D e M, uma terrestre e outra aquática. Em hebraico, elas formam palavras ligadas à cor vermelha, ao sangue, lembrando também intermediação entre o divino e o humano.  Aliás, ideias de intermediação estão no primitivo significado da palavra demônio. Em hebraico, terra é adamá, adom é vermelho, sendo dam o sangue. No antigo persa, dam é criatura. Em sânscrito, adimant é o que tem um começo. Se formos ao grego, o mesmo. No nome Deméter, a grande divindade da vida terrestre, da agricultura, destacam-se o D e o M.

Adam é, a rigor, um termo genérico que engloba toda a humanidade, podendo ser traduzido também como “terroso” ou “avermelhado”. No oriente, as argilas mais férteis e mais plásticas são vermelhas. Daí, as possíveis aproximações da palavra homem com humus (terra, em latim) e homoios (semelhante, em grego). 

               Quanto a Eva, Hawwah, foi o nome dado à mulher depois
ADÃO   E   EVA   (TICIANO )
da queda. Segundo a tradição, antes de deixar o Paraíso ela se chamava Aicha (Vivente) ou Icha (Esposa), palavra muito próxima de iccha, que, em sânscrito, significa desejo. Devido à sua falta, a mulher “perdeu” o seu lado divino, ganhando, por outro lado, só materialidade e aspecto físico. Seu novo nome evoca awwah, que lembra desejo em hebreu, palavra que podemos aproximar de avati, se regozijar, em sânscrito, e de aveo, em latim, desejar. 

Há outras hipóteses sobre o nome Eva. Uma delas é a que faz o nome derivar de Heba, esposa do deus hitita das tempestades, uma das hipóstases da deusa Ishtar, deusa do amor e da guerra entre os mesopotâmicos. Outra hipótese faz o nome Eva provir de Aruru, divindade sumeriana, que criou o herói Enkidu antes de iniciá-lo nas delícias do amor. 

Evidentemente, a arraigada misoginia patriarcal sempre preferiu considerar Eva como uma criatura culpada, satanizada por todas as religiões monoteístas, do que como uma iniciadora, uma instrutora, uma salvadora, sem cuja influência o homem nunca poderá alcançar níveis superiores de consciência, sobretudo sob o ponto de vista espiritual. 

Outra questão importante é a do tabu decretado por Deus.
TESEU    E    ARIADNE
Obedecendo-o, o ser humano não poderia jamais escapar da sua sua condição animal, prisioneiro de uma vida puramente instintiva. Ou seja, devia, como a besta, aceitar o cabresto e obedecer, não pensar. Adão é nesse sentido o homem-animal, instinto, pulsão fundamental de vida, que, na Astrologia, tem a ver com o signo de Áries e com o seu planeta regente, Marte. Esta pulsão, para que a convivência humana se estabeleça harmoniosamente, precisa do feminino. O diálogo Ares-Afrodite, Áries-Libra, Marte-Vênus é exemplar. Na Grécia, histórias como as Teseu e Ariadne, Édipo e Jocasta, Jasão e Medeia e outras são ilustrações do que aqui se coloca.  


Instinto, etimologicamente, como se sabe, é aguilhão interior, picada (sting, ferroada) sentido transportado por analogia do físico ao moral. Instinto será o conjunto de reações levado para o exterior, determinado, hereditário, comum a todos os indivíduos de uma mesma espécie, e adaptado a objetivos dos quais o ser que age geralmente não tem consciência. Nidificação, perseguição da presa, movimento de defesa, cio,  busca de acasalamento, alterações do corpo favoráveis à fecundação e à geração, sono e fome são exemplos. 

Os instintos podem ser primários, aqueles que resultam diretamente da estrutura primitiva do ser vivo. Não há reflexão, é algo que precisa ser atendido, algo que se impõe. Os instintos secundários são os que constituem um automatismo derivado, adquirido por adaptações inteligentes, tornadas depois inconscientes. 

De um modo geral, instinto, para o homem comum, é o impulso interior que faz um animal executar inconscientemente atos adequados às suas necessidades de sobrevivência própria, da sua prole ou da sua espécie. Tendência natural, inclinação...

Nos céus, no círculo zodiacal, a primeira imagem desse impulso
CÍRCULO   ZODIACAL
criador aparece através do signo de Áries, sigo de fogo, cardinal, marcando o equinócio da primavera, sendo o seu astro regente (diurno) o planeta Marte. Esse planeta  aparece, pois, como o doador da vida e da energia tanto no cosmos como no homem-animal, lembrando sempre a energia que põe tudo em movimento. Por essa razão, o planeta Marte se refere tanto ao nascimento do homem-animal como à sua morte, como os signos de Áries (primeira casa) e de Escorpião (oitava casa) nos revelam.


Sem a influência de Mercúrio, porém, o homem-animal não poderá  adquirir uma consciência individual, já que Marte se volta sempre para o atendimentos das necessidades básicas e primárias da sua existência. Quem ajuda o homem-animal a controlar e transmutar esses impulsos que tendem a paixões e a emoções negativas, de natureza egóica, é Mercúrio, colocando-os numa perspectiva social e espiritual. 

AARON
Lembro que na astrologia judaica, não aceita evidentemente pela ortodoxia rabínica, o nascimento de Israel como nação só se dá no signo de Gêmeos, signo governado por Mercúrio. Os astrólogos judeus consideram os signos que antecedem Gêmeos, Áries (Marte,  energia)   e   Touro     (Vênus, matéria)    como
instintivos. O mental que irá estabelecer as relações internas entre energia e matéria e externas entre elas, ajustadas, com o meio ambiente, só “nasce” no signo de Gêmeos. Não é por outra razão que o personagem  judeu que tipifica Gêmeos (Sivan) é Moisés, o patriarca.  Ele o irmão, Aaron, ambos descendentes da tribo de Levi, prepararam o povo de Israel para receber a Torah escrita. 

MOISÉS

Nissan é o primeiro mês do calendário hebraico, correspondente ao signo de Áries. As letras hebraicas que nos ligam aos aspectos positivos do mês são Hei, que criou o signo e que representa o desejo de receber, e Dalet, que criou Marte e que quer dizer “pobre”. Combinando-as e interpretando-as à luz da Cabala temos a ideia de que, durante esse mês, devemos nos esforçar para diminuir o nosso desejo de receber egoisticamente. Tendo as duas letras em mente, dizem os (bons) astrólogos judaicos, isso será possível, transformando-se milagrosamente esse desejo de receber unilateralmente num desejo de receber para compartilhar. Uma explicação: ainda nos valendo da gematria judaica, encontramos dentro da palavra nissan, nome do mês, a palavra ness, milagre.

                                                    
                                                    CALENDÁRIO   HEBRAICO
   
Os celtas nunca chegaram a definir bem uma divindade que assumisse a função guerreira. Entre os continentais, Gália, é bem possível que cada tribo designasse por um nome de sua livre escolha uma divindade para desempenhar esse papel. Assim, poderíamos pensar num Marte gaulês e nos seus diversos apelidos: Segomo (Vitorioso), no vale do Reno e na Borgonha; Beladon ou Belatus-cadros (O Destruidor), entre os bretões; Camulus (O Poderoso), no Auvergne. Além destes, outros apelidos, de difícil identificação: Leherennus (O primeiro dos deuses), Dunates (O protetor das cidadelas), Carurix (O rei dos combates).

Embora o culto dessa divindade celta, sob esses nomes, estivesse bastante diversificado, contribui também para uma falta de maiores dados sobre ela o fato de que as representações (imagens e esculturas) que dela temos tivessem procurado  sempre apresentá-la sob traços greco-romanos. 

Entre os celtas insulares temos que fazer referências a Morrigu ou
MORRIGU
Morrigan (Grande Rainha). Ela aparece sob um aspecto hediondo aos guerreiros falando-lhes de combates nos quais serão feridos ou mortos. Outras divindades cruéis não são mais que extensões desta Belona celta. Dentre elas destacamos: Fea (Odiosa),  Badb (Furiosa), que é representada sob o aspecto de um corvo; Macha (Batalha) e Nemon (Venenosa). Há ainda a destacar Mider ou Medyr, divindade infernal, que aparece sob o aspecto de um arqueiro extremamente hábil, uma espécie de Guilherme Tell.


A deusa suprema da guerra entre os insulares gaélicos é Morrigu, deusa da “loucura guerreira”, que lembra fisicamente um pouco a orgulhosa Hera grega. Ela é, porém, entre os gaélicos, muito mais uma representação lunar, no que lembra Ártemis com a etimologia de artamos, sanguinária. É reverenciada através de ritos mágicos e cruéis. Sempre armada, carrega espadas nas mãos. Seu grito de guerra equivale ao de dez mil homens. Sempre que houver uma guerra, entre humanos ou deuses, ela estará presente na sua forma humana ou na de um corvo. Fazem parte do seu mundo, espíritos, fantasmas, demônios opressores, duendes e espectros.