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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CENTAURUS, CETUS, CORONA AUSTRALIS





CENTAURUS forma com Lupus e Ara, o Altar, um conjunto que deve ser apreciado de modo interdependente, pois nos contam histórias que falam de adoração e de devoção. Esta constelação foi
KIRON
vista pelos gregos inicialmente tanto como o centauro Kiron como o centauro Folo, ambos ligados ao ciclo dos doze trabalhos de Hércules. A grande constelação do Centauro ocupa uma área cuja declinação sul varia entre 30º e 60º. A imagem que temos dela é a de um centauro que segura um lobo com uma de suas mãos estendida. Gregos e árabes viram-na como se caminhasse na direção da constelação do Altar para sacrificar o animal. 

ERATÓSTENES
Considerando porém que os mesmos gregos já haviam ligado, com muito maior pertinência, a figura de Kiron à constelação zodiacal de Sagitário, não vejo razão associá-lo a esta constelação. Quem fez esta confusão foi Eratóstenes de Cirene, astrônomo, matemático, geógrafo e diretor da Biblioteca de Alexandria (séc III aC), deixando de lado a tradição que já havia fixado Kiron no Zodíaco e colocado Folo como o Centauro do Sul.


FAMÍLIA   DE   CENTAURUS  ( SEBASTIANO  RICCI , 1659 - 1734 )

Na mitologia grega, os centauros são seres híbridos, compostos por um corpo de cavalo e um busto humano. Desde a antiguidade, seu valor simbólico é ambíguo. Na cultura grega, sua origem estava ligada historicamente às primeiras invasões de cavaleiros vindos da Ásia Menor, que aterrorizavam as populações dos países mediterrâneos. Os povos da América central, aliás, consideraram os invasores espanhóis do mesmo modo, quando irrompiam nas aldeias montados em cavalos. Viam-nos, ao mesmo tempo, como humanos e animais.





BATALHA  ENTRE  CENTAUROS  E  LÁPITAS
( KAREL  DUJARDIN , 1667)
Famosa na mitologia grega é a batalha entre os Lápitas, povo das montanhas da Tessália, e os Centauros, filhos de Ixion e de Nephele, o primeiro filho de Ares, deus da guerra. Rei dos lápitas, Ixion cometeu vários e gravíssimos crimes, dentre eles o de perjúrio e o traiçoeiro assassinato de seu sogro, jogando-o num buraco cheio de carvões em brasa. Destronado e expulso da cidade, passou a perambular pelos caminhos, ninguém lhe dando acolhida. Zeus, magnânimo, que do alto tudo via, resolveu ajudar seu neto. Purificou-o, trazendo-o para viver no Olimpo. 


IXION   E   NEPHELE  ( P.P. RUBENS , 1615 )


IXION   NO   TÁRTARO
( BERNARD  PICARD , 1731 )
Mal chegado à mansão divina, Ixion tentou atacar sexualmente Hera, a esposa de Zeus. Repelindo-o, indignada, ela relatou o ocorrido ao marido. Zeus, então, mandou confeccionar com nuvens um simulacro de Hera, que Ixion, de nada sabedor, e acreditando tratar-se da divina deusa, que agora acedia ao seu desejo, envolveu-se com ela sexualmente. Dessa união, nasceram os centauros, filhos, portanto, de Ixion e de Nephele, a Nuvem. O castigo do ingrato Ixion veio em seguida: Zeus obrigou-o a ingerir ambrósia, tornando-o assim imortal, e mandou amarrá-lo no Tártaro, com serpentes, a uma roda incandescente, a girar eternamente. Fixado nesse suplício, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das
CENTAURO
pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, vivendo em bandos, sempre fazendo algazarras, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da irracionalidade do ser humano. 


Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno. Nas obras de arte simbolizam os centauros a concupiscência carnal, que torna o homem muito semelhante às bestas, sempre ausentes quaisquer  traços da vida racional e espiritual, abolida qualquer luta interior no que diz respeito ao controle dos instintos. 


SILENO
Diferente destes tipos que acabei de descrever é o centauro Folo, filho de Sileno e de uma ninfa da raça das melíades, ninfas dos freixos (melia, freixo, em grego), nascidas do sangue derramado de Urano quando da sua castração. Dotados de grande saber, os Silenos eram sátiros envelhecidos, filhos do deus Pan. Foram considerados por todas as tradições como preceptores de Dioniso quando jovem. 


SILENO   ÉBRIO  ( JOSÉ  DE  RIBEIRA , 1626 )

Folo era um centauro extremamente pacífico e cordato, muito diferente dos filhos de Ixion. Quando da realização do seu sétimo trabalho, o da captura do javali de Erimanto, Hércules, ao passar por Fóloe, foi recebido com muita hospitalidade por Folo. Há muito que Folo aguardava a visita do nosso herói, pois Dioniso lhe dera uma jarra de vinho, hermeticamente fechada, recomendando-lhe que só a abrisse quando o filho de Alcmena viesse à sua gruta. Preparada lauta refeição, servido o vinho, os outros centauros que viviam na região, sentido o perfume da divina bebida, invadiram a gruta, atacando Folo e seu hóspede. Hércules matou muitos
FOLO   
centauros, outros fugiram, sendo perseguidos tenazmente por nosso herói que, ao voltar, encontrou Folo muito triste, a dar diligentemente sepultura aos seus infelizes “irmãos” mortos. Para matar os centauros, Hércules usara flechas envenenadas. Ao retirá-las do corpo dos centauros para melhor inumá-los, Folo feriu-se acidentalmente na coxa, morrendo logo em seguida. Coube ao nosso herói, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrá-lo em magnífica sepultura que construiu para esse fim. 



GAIUS   JULIUS   HYGINUS 
Algumas das estrelas da constelação do Centauro do Sul, como é chamada também, com algumas de Lupus, eram conhecidas entre os árabes pelo nome de Al Kadb al Karm, O Ramo da Videira. Ptolomeu descreveu a constelação vendo numa das mãos do Centauro um lobo e na outra um tirso, que é, como sabemos, um dos emblemas do deus Dioniso. Todas as representações posteriores desta constelação sempre a associaram às constelações do Altar e do Lobo, como podemos constatar em Hyginus e, muito mais tarde, nas Tábuas Afonsinas. Em Roma, a constelação do Centauro era às vezes denominada pelos nomes de Semi Vir ou Semi Fer, isto é, Meio Homem ou Meia Besta, respectivamente.

Na astronomia medieval cristã, esta constelação foi visualizada de outro modo. Uns a chamaram de Noah (Noé), personagem bíblico que sobreviveu juntamente com a sua família ao dilúvio. A figura de Noé aparece na tradição medieval obviamente ligada ao tema do vinho. Ele foi, biblicamente, o primeiro personagem a descobrir os efeitos da bebida alcoólica que, uma vez ingerida descontroladamente, ao invés de levar ao céu, leva ao inferno, por libertar a besta (o centauro) que há em todo ser humano. Há na Bíblia algumas advertências contra o álcool apesar da declaração de que ele alegra o coração do homem, conforme está em Salomão. 

EMBRIAGUEZ   DE   NOÉ  ( GIOVANNI  BELLINI )

Outras versões do medievalismo cristão sobre esta constelação, menos difundidas, mas muito importantes para a compreensão do seu campo semântico, a ligam, uma, ao tema de Abraão e Isaac no que diz respeito ao tema do sacrifício (akedá)  e, outra, à figura de Nabucodonosor, rei da Babilônia, na medida em que este personagem aparece associado à rainha de Sabá e a Salomão, a primeira identificada por alguns como Lilith. Ainda com relação à

constelação do Centauro, seria interessante não esquecer, como a Astrologia o fez até agora, a descoberta, por  John Herschel, de uma das mais notáveis nebulosas do céu, nela presente. Filho do descobridor de Urano chamou esta nebulosa de Blue Planetary, cujas dimensões oscilam entre a metade e a totalidade do primeiro planeta transaturnino.



PTOLOMEU
A constelação do Centauro estende-se de 2º de Libra a 28º de Escorpião, ficando claro pelos seus limites as conotações decorrentes dos temas da hospitalidade (Libra) e do vinho (Escorpião). Ptolomeu viu nas estrelas desta constelação situadas na parte humana da figura influências venusianas e mercurianas. Às estrelas mais brilhantes, na região das patas do Centauro, ele atribuiu influências venusianas e jupiterianas. A estrela alfa, de 1ª magnitude, é Bungula, também conhecida pelo nome de Toliman, hoje a 28º51´ de Escorpião; a seguir, temos Agena, beta, também de 1ª magnitude, a 23º06´ de Escorpião. Há uma terceira estrela, Chort, inexpressiva astrologicamente.

No antigo Egito, Bungula, ligava-se ao equinócio de outono, e serviu de orientação para a construção de templos no norte e no sul do país entre os anos de 4.000 e 2.000 aC. Recebeu, entre os egípcios, o nome de Serkt. Para Ptolomeu, Bungula favorece as
MAO TSE-TUNG
amizades, dá refinamento e pode levar a posições honrosas. Há, por outras tradições, indicações de que Bungula pode influenciar no 
sentido de ligar quem a tem com algum destaque a causas, projetos, mas que sempre exigirão correções e revisões no futuro. Agena, para Ptolomeu, também proporciona influências semelhantes e dando também posições elevadas, honras, projeção. O mapa de Mao Tse-Tung poderá servir para o estudo das influências destas duas estrelas.





CETUS, a Baleia, é o monstro que aparece na história de Andrômeda, enviado por Poseidon para devorá-la, conforme já visto quando esta constelação foi estudada. Foram os gregos que fixaram para a Astrologia a constelação da Baleia, dando-lhe uma origem mítica. Cetus é um monstro marinho, uma figura híbrida, constituída por traços de baleia, de crocodilo e de hipopótamo. É
AS   GREIAS  ( H. FUSELI )
uma figura feminina, filha de Pontos e de sua mãe Geia. O primeiro, cujo pai é o Éter, como sabemos, é a primeira personificação masculina do mar, representado pela onda, pelo movimento marinho. Nereu, Taumas, Fórcis e Euríbia são irmãos de Cetus, todos entidades marinhas monstruosas, ligadas às forças primordiais, fazendo parte das primeiras elaborações cosmogônicas e genealogias teogônicas. Cetus, ligada a Fórcis, gerou as Greias (As Velhas), também chamadas Fórcidas, que aparecem no mito de Perseu.



JONAS
A Baleia é um cetáceo (Ketos, para os gregos) que, como vimos, foi morto por Teseu, que o petrificou com a cabeça da Medusa, para libertar a princesa Andrômeda, filha de Cepheus e de Cassiopeia. A baleia faz parte de um grupo de animais que aparecem na mitologia, na religião e no folclore de vários povos como devoradores. Caracterizam-se por bocarras ou por goelas enormes, muitas vezes desproporcionais ao corpo, que tudo devoram e engolem. Da galeria fazem parte, como é o caso, além da baleia, o crocodilo, o hipopótamo, o lobo, a hiena, as grandes serpentes e outros. 



Não foi por acaso, aliás,  que monstros como Cetus foram parar na filosofia. O filósofo inglês Thomas Hobbes publicou em 1.651 um livro, Leviathan, para defender a tese de que seria necessário que os homens estabelecessem um contrato social a fim de que a paz fosse garantida. Os homens, afirma ele, são egoístas por natureza. A lei que prevalece nas relações entre eles é a da guerra entre todos (bellum omnia omnes). Esta afirmação se baseava numa máxima de Plauto: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem). Assim, para que não se exterminassem uns aos outros, era necessário, através de um contrato social, que se garantisse a paz. A proposta de Hobbes, para que isto se concretizasse, era a do estabelecimento de um governo totalitário, de tipo monárquico, que "engolisse" tudo (inclusive as liberdades individuais), evidentemente sem a presença de outros poderes como parlamentos, congressos, câmaras etc. que só servem para enfraquecer o Leviathan e gerar o caos. 


JONAS  E  A  BALEIA
Entre os judeus, temos, a história de Jonas, que foi devorado pela baleia. Profeta bíblico, Jonas fugiu do chamamento de Deus e recusou-se a pregar o arrependimento (teshuvá). Durante a sua fuga, foi atirado ao mar e engolido por um grande peixe que, segundo o texto bíblico, tinha olhos do tamanho de janelas e cujo estômago era iluminado por uma pedra preciosa. Esse peixe, tido pela tradição por uma baleia, corria o risco de ser engolido pelo maior dos monstros marinhos, o Leviathan (símbolo de Samael, o príncipe do mal entre os judeus). 


BEEMOT  E  O  LEVIATÃ
Leviathan tem dimensões enormes, sendo a maior das criaturas do mar. Diz a Bíblia que Deus matou a sua fêmea para impedir que, procriando, a criação fosse destruída. Da pele da fêmea é que foram feitas as roupas que cobriram as vergonhas de Adão e de Eva. No fim dos tempos, na idade do Messias, Deus fará o arcanjo Gabriel matar o macho. Noutra versão, será Beemot, o maior dos monstros terrestres, que enfrentará o Leviathan, morrendo ambos numa luta final. 

O que a história de Jonas simboliza é a morte iniciática. Entrar no ventre do monstro é morrer, dele sair é renascer. O monstro, a baleia, neste caso, aparece, pela sua forma ovoide, com um encontro de opostos, que podem representar o nascimento ou a ressurreição. Os dois arcos da figura ovoide significam aqui a conjunção do mundo inferior com o mundo superior, ou do céu com a terra, a totalidade. 

Jonas passou no ventre da baleia três dias e três noites. Atendidas as suas preces, Deus fez com que o monstro o vomitasse, voltando ele à vida de uma outra maneira, um novo ser. Esta mesma imagem, aliás, será repetida no Novo Testamento, em Mateus, quando ele registra a previsão de Cristo: Pois assim como Jonas passou no ventre do
TIAMAT
monstro três e três noites, assim o Filho do homem também o passará. As tradições mesopotâmicas aproximaram esta constelação do monstro Tiamat, que nos seus mitos cosmogônicos representava a água salgada, a personificação do  mar como elemento feminino que dava origem à própria vida. Tiamat simbolizava também as forças cegas do caos primordial, contra o qual tiveram que lutar os deuses inteligentes e organizadores. 



PAUSÂNIAS
Referências à história do monstro vencido por Perseu são encontradas em Plínio, o grande naturalista romano, em São Jerônimo, o grande latinista do Cristianismo, e em Pausânias, viajante e geógrafo do II séc. DC Os romanos designarão Cetus pelo nome de Pristis (grande cetáceo, em latim), a ele juntando adjetivos como nereia e auster.  Os árabes conheceram a constelação através dos gregos e lhe deram o nome de Al Ketus.

CETUS
A constelação da Baleia, embora não muito investigada astrologicamente, apresenta certas peculiaridades. Uma é a sua relação com o sul da Via Láctea, como que querendo devorá-lo; a outra é porque possui estrela Mira, a chamada “Estrela Maravilha”, a primeira estrela que mudava de magnitude, estudada por astrônomos. Cetus se estende de 17º de Peixes a 13º de Touro. Para Ptolomeu as suas influências são semelhantes às de Saturno, podendo causar ociosidade, preguiça. As estrelas de Cetus, pela ordem de importância, são: Menkar, alfa, a 13º37´Touro, entre a 2ª e a 3ª magnitudes; esta estrela está situada entre os olhos e a boca de Cetus, numa região chamada de O Nariz, Al Minhar, em árabe; tem também, segundo a tradição, natureza saturnina, atraindo desgraças e infortúnios. A seguir, temos Deneb Kaitos, Baten Kaitos, Deneb Schemali e Mira. 

No meu entender, parece ter ficado de fora, quanto a Cetus e Menkar, o mais importante quanto às suas possibilidades significativas. Em muitas tradições, a passagem pelo ventre de monstros, os marinhos de modo especial, é expressamente considerada como uma descida ao mundo infernal, ao mundo subconsciente. Equivale a entrar na noite, símbolo das gestações, das germinações que vão se revelar à luz do dia. A noite é rica de todas as virtualidades. Entrar no ventre da baleia é entrar na noite, é voltar à indeterminação. É nas trevas do ventre da noite como no da baleia que se fermenta o futuro, a preparação do dia, a volta à vida. 


Entrar no ventre da baleia sempre significou uma volta a um estado pré-formal, embrionário, equivalendo o monstro à noite cósmica, ao caos antes da criação. A passagem pelo ventre da baleia era simbolicamente o caminho de todo processo iniciático. Uma imagem desta luta está, por exemplo, no romance de Herman Melville, escritor americano do século XIX, Moby Dick ou a Baleia Branca, um avatar do Leviathan judaico.

Se considerarmos o inconsciente do ser humano, pessoal ou coletivo, como um imenso oceano, monstros como Cetus podem emergir subitamente, adquirindo um caráter destrutivo. Cetus aponta, nos temas astrológicos, para uma área de águas profundas, muito abaixo da superfície, onde monstros podem se esconder. Ao subir à superfície, podem trazer muito perigo, destruição, inclusive coletivamente. Menkar, no grau em que estiver, pode ser um ponto onde temos possibilidades de contacto com o inconsciente coletivo,
NAPOLEÃO
não esquecidas evidentemente as informações que possam ser obtidas por quadrante, signo, casa e aspectos. No meu entender, tanto a Cetus como a Menkar podemos atribuir influências plutonianas, lembrando que Plutão se exalta em Áries e se exila em Touro. Mapas para estudo os de Freud e de Napoleão. No primeiro, influências positivas de Cetus-Menkar; no segundo, negativas. 






CORONA AUSTRALIS, a Coroa do Sul, embora muito modesta, foi reconhecida por Ptolomeu.  Os latinos a chamavam de Corona Sine Honore. A tradição astronômica, incorporada por muitos astrólogos, chamou esta constelação de A Coroa do Centauro. Isto se deve ao fato de que em muitas representações os artistas punham uma coroa na cabeça dos centauros. Esta ideia tem provavelmente origem na figura dos Gandharvas, que, na Índia, são representados com um torso humano e um corpo ora de cavalo, ora de pássaro, coroados. 


GANDHARVA   VOADOR
Atribui-se aos Gandharvas na mitologia hindu grande potência sexual. Envolvidos sempre com mulheres, são músicos, usam o vinho, conhecem ervas afrodisíacas. Segundo alguns textos, representam a força primordial e a energia universal, incorporando o Eros grego muito de seus traços. Participando da energia solar, são representados frequentemente com uma coroa de raios sobre a cabeça, decorrendo dessas características, talvez, a ligação que os gregos fizeram entre a coroa e o centauro. Outra tradição grega não vê uma coroa, mas, sim, um punhado de flechas na mão do centauro, que irradiam luz como os raios do Sol.  

Ainda dentro do campo das possibilidades significativas da figura do centauro, outra tradição deu a esta constelação o nome de A Roda de Ixion (Rota Ixionis), uma alusão ao desditoso pai dos centauros, conforme relatado no texto sobre a constelação do Centauro, acima. 


CENTAURO
Da união de Ixion com Nephele, como narramos, nasceram os Centauros, os nubigenae,  os filhos da nuvem. A palavra centauro parece admitir uma etimologia que tem origem no verbo kentein, ferir, picar, mais a palavra aura, ar. Ou seja, aqueles que são apenas feridos, picados pelo elemento ar, que não tem nenhum lampejo racional, somente pura vida instintiva. O elemento ar não participa da vida do centauro, ou só o faz muito precariamente. Por isso, passaram os filhos de Ixion a representar desde o seu nascimento, no ser humano, a ameaça permanente da vida instintiva sobre o seu lado racional.


HADES  ( ANÔNIMO )
Para punir exemplarmente seu petulante neto, Zeus o enviou para o Tártaro, região mais profunda do Hades (Inferno) onde as punições não têm por objetivo a destruição da forma do pecador de modo a lhe proporcionar um renascimento. O Tártaro é o lugar das punições eternas. Os pouquíssimos que desceram ao Hades e de lá retornaram, contam que ouvem, vinda lá dos lados dessa tétrica região, perto do rio Piriflegetonte, uma voz, que aos gritos, adverte: honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão. Sem dúvida, uma vã tentativa de Ixion no sentido de fazer com que o seu triste lamento chegue ao ouvido dos mortais. 

Uma outra versão sobre a origem desta constelação tem relação com Dioniso. Sêmele, filha de Cadmo e de Harmonia, era uma uma princesa tebana. Foi amada por Zeus e concebeu Dioniso. Ao ter conhecimento da aventura amorosa do marido com ela, Hera, a protetora dos amores legítimos, resolveu intervir. Concebeu um plano para destruir a jovem e lindíssima rival. Tomando a forma humana, de uma velha e sábia mulher, insinuou-se no palácio onde
ZEUS   E   SÊMELE  ( G. MOREAU )
vivia a princesa, conseguindo um lugar de ama. Logo ganhou a confiança de Sêmele, que lhe fez confidências sobre o seu divino amante. Hera resolveu então aconselhá-la, aguçando-lhe a curiosidade: pedir a Zeus que ele se apresentasse em seu divino esplendor. Zeus ponderou a Sêmele que o atendimento do pedido, de sua parte, lhe causaria dano, lhe seria muito funesto, já que humanos não têm como suportar a epifania de uma divindade. Ela insistiu, lembrando-lhe que, quando haviam começado a se relacionar, Zeus lhe prometera, sob juramento, em nome do rio Estige, que qualquer pedido que ela  fizesse por ele seria atendido. 



RIO   ESTIGE
Estige era filha de Oceano e Tétis, uma oceânida. Como fonte, Estige alimentava um dos rios infernais, do mesmo nome. Suas águas eram gélidas e tinham propriedades mágicas. Quando da Titanomaquia, Estige, com seus filhos, cooperou para a vitória dos futuros olímpicos. Por seu gesto, recebeu o privilégio do horkos, isto é, o de que, a partir da concessão, os deuses profeririam seus juramentos em seu nome, juramentos irrevogáveis. Quando uma divindade resolvia jurar, a deusa Iris ia rio Estige para buscar uma jarra com a sua água, para servir de testemunha ao horkos. A inobservância do juramente por uma divindade, além de outras penalidades, afastava-a do convívio dos mortais por nove anos, além de lhe ser proibido o consumo do néctar divino.


NASCIMENTO   DE   DIONISO
Não tendo como recuar, Zeus se apresentou a Sêmele na sua esplêndida forma divina, uma epifania que ela não suportou. O palácio em que vivia foi inteiramente destruído e ela carbonizada. O mito nos revela que Palas Atena retirou do ventre de Sêmele o fruto inacabado de seus amores o e levou a Zeus. O pai dos deuses resolveu, então, alojar o feto numa de suas coxas. No tempo devido, completada a gestação femural, nasce Dioniso da coxa de Zeus.


MORTE   DE   SÊMELE  ( PETER  PAUL  RUBENS )

Mais tarde, já tendo assumido os seus deveres divinos, como um dos imortais, Dioniso, de volta de uma viagem que fizera à Ásia para difundir o seu culto, desceu ao Hades e de lá retirou o eidolon (forma que a alma toma para descer ao Hades) de sua mãe. Ressuscitada, Sêmele foi devidamente coroada por Dioniso sob o nome de Tione, como a primeira das mênades, suas sacerdotisas. Depois, resolveu Dioniso levar Tione apoteoticamente para viver entre os olímpicos, colocando antes, porém, a coroa que lhe dera entre as estrelas como uma constelação, chamada pelos gregos de Coroa Austral.


MÊNADES

Outra versão grega sobre a origem desta constelação pode ser encontrada nas biografias de Píndaro e de Karinna de Tanagra, ambos poetas do século V aC.,esta professora daquele, que ficou
KARINNA  ( WILLIAM  BLAKE )
famoso pelos seus Epinícios. Em cinco concursos, ela o venceu, tendo recebido várias e justificadas homenagens. Um pouco de sua obra (lírica coral), em dialeto beócio, foi preservado. Influenciou Ovídio e William Blake, na sua série The Visionary Heads, deixou-nos um retrato dela. Recebeu Karinna os títulos de Musa Lírica e de Musa Viva Foi homenageada pelos astrônomos da época que "colocaram" nos céus a coroa que recebeu por suas vitórias poéticas.  


A constelação da Coroa Austral aparece ainda em algumas outras tradições com o nome de Uraniscus, diminutivo de céu (Urano), em grego. Uranisco é a abóbada palatina ou palato, divisão óssea e muscular entre as cavidades oral e nasal. É o chamado palato ósseo, placa óssea que forma o céu da boca. 



Esta constelação estende-se de 2º a 12º de Capricórnio, tendo apenas uma estrela digna de registro, Alpheca meridional (veja Corona Borealis). As estrelas desta constelação  não apresentam nenhum interesse sob o ponto de vista astrológico. Ptolomeu, entretanto, atribui a elas influências da natureza de Saturno e de Júpiter (favorecem a conquista de posições elevadas, mas podem trazer obstáculos não previstos).

















sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

INTRODUÇÃO



CONSTELAÇÕES
               
Constelações são agrupamentos de estrelas próximas umas das outras ligadas por linhas imaginárias, que formam diferentes desenhos, como conjuntos, servindo estes para distingui-las, conforme denominação que os homens lhes deram. Para melhor encontrá-las, quando da sua observação no céu noturno, os homens, desde a pré-história, se habituaram a reunir as estrelas em torno das mais brilhantes, em maiores ou menores conjuntos. Em todas as civilizações, nas mais variadas latitudes, estes conjuntos deram origem às constelações. 
  
Dentre esses conjuntos, há alguns que, suficientemente elevados acima do horizonte, retornam a cada noite, sempre idênticos, sem se levantar ou se pôr, sempre visíveis por isso, fazendo circunvoluções em torno de um ponto que parece fixo no céu. São as chamadas constelações circumpolares. Para os habitantes do hemisfério norte, esses grupos estelares se movimentam em torno de um centro aparentemente fixo, a chamada estrela Polar, situada atualmente na constelação da Ursa Menor. Para os habitantes do hemisfério sul, no seu céu estrelado, as constelações giram em torno de uma zona escura sem uma estrela central visível.


ESTRELAS
As outras estrelas que se elevam no oriente, fazem um curso ascendente no céu, percorrendo um grande arco, terminando-o a oeste, sob o horizonte. Estas estrelas (a maioria) só se tornam visíveis em determinadas estações do ano. Os homens logo perceberam que essas estrelas que sumiam no horizonte não se apagavam. O que acontecia é que elas passavam a percorrer o céu diurno, um céu inundado de luz solar, que fazia desaparecer a sua luminosidade, mesmo a das mais brilhantes, durante essa trajetória. 

O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário, sempre dependeu da acuidade dos observadores e de sua cultura.  Todas as sociedades humanas, ao longo da história do homem, desde o paleolítico, sempre voltaram os seus olhos para o céu. Cada uma destas sociedades procurou definir os limites desses agrupamentos estelares, classificá-los, projetando neles as suas tradições, os seus mitos, os seus valores religiosos, as suas lendas, as suas histórias. 

Na antiguidade, as estrelas que ficavam fora dos desenhos eram chamadas pelos gregos de amorphotoi (informes) ou sporades
HIPARCO
(espúrias). Os latinos chamavam-nas de extra (na parte de fora), sparsiles (esparsas), informes (informes) e os árabes de al harij min  al surah (as que ficam fora da imagem). Os gregos chamaram os desenhos das constelações de semata ou
PTOLOMEU
teirea (signos ou corpos), de zodia (animais), de meteora (coisas suspensas no céu). Hiparco chamou-os de asteriomoi (feitos de estrelas), Ptolomeu de morphoseis (formas semelhantes) e schemata (figuras). Os latinos os chamaram de astra sidera, signa, constellatio e stellatio (astros siderais, signos, constelação e estrelário).

O primeiro texto grego (Phaenomena) que temos sobre as
ARATOS
constelações é de Aratos, de 270 aC., nele se mencionando a existência de quarenta e cinco agrupamentos. Muitos desses desenhos, sabe-se, vieram para Grécia através dos caldeus, da Mesopotâmia, que os haviam definido por volta de 1.500 aC. Ao longo dos séculos, muitas civilizações, desde os antigos egípcios, inclusive algumas do extremo-oriente, vêm disputando a honra de ter definido por primeiro esses agrupamentos estelares. O catálogo de estrelas de Ptolomeu foi publicado na Europa, em Colônia, em 1.537, com quarenta e oito desenhos de Dürer.    



ALBRECHT   DÜRER  ( 1471 - 1528 )
   
BÓREAS
Nosso ciclo (Mitologias do Céu – As Constelações) começa pelas constelações boreais, adjetivo derivado de Bóreas, nome pelo qual os gregos designavam um vento que vinha do norte, do hemisfério setentrional, a região ártica. Esta última palavra, ártico, lembre-se, vem de arktos, urso, tendo relação direta com as constelações da Ursa Maior (Ursa Major) e da Ursa Menor (Ursa Minor), circumpolares, ambas com sete estrelas principais. A disposição das estrelas da constelação da Ursa Maior sempre lembrou grosseiramente aos povos, desde a pré-história, uma carroça puxada por sete bois (septen trionis, em grego), advindo dessa leitura o nome setentrional para designar o hemisfério norte. 

Bóreas, na mitologia grega, era o deus do vento norte. Habitava a Trácia, ao norte da Grécia, região muito fria, de gente belicosa e selvagem. Era representado como um demônio alado, barbudo, vestindo uma túnica curta, e de força descomunal. Era filho de Eos, deusa da aurora, e de Astreu, um titã, filho de Crio e de Euribia. Os ventos pertencem à raça dos titãs, sendo personificados como seres sempre ligados a descontroles e a violências, incapazes de qualquer tipo de adaptação. Bóreas participou de muitos episódios no mito. Um deles o tornou muito famoso: atacou e matou o jovem Jacinto, belíssimo, cujo amor disputava com o deus Apolo. 


MORTE   DE   JACINTO, 1769 ( NICOLAS  RENÉ  JOLLAIN 



TORRE  DOS  VENTOS
ATENAS
Austral é adjetivo que vem de Auster, nome latino de Noto, um dos quatro ventos (anemoi) que os gregos colocavam sob o comando de Éolo, deus dos ventos.  Violento e quente, Austro soprava do sul (África) em direção do mar Mediterrâneo. Na direção contrária de Noto, soprava Bóreas (Aquilon para os romanos), vento frio e cortante. Do leste soprava Euro (Vulturnus para os romanos), gerador de tempestades. Do oeste, agradável e suave, vinha Zéfiro (Favonius para os romanos). Como divindades, todos participaram de inúmeros mitos. Austral tem como sinônimos meridional, sul, antártico.

Os ventos, por sua agitação, inconstância e instabilidade, às quais se aliam ideias de cegueira e violência, são forças elementares sempre inquietas e turbulentas. De um modo geral, na mitologia, são instrumentos do poder divino, vivificando, punindo ou ensinando. São portadores de mensagens, manifestações da divindade que quer se comunicar, passar as suas "emoções" aos humanos, desde a doçura mais terna ao seu descontentamento mais tempestuoso.

Embora dotados de poderes benéficos, os ventos, no geral, são considerados como maléficos, principalmente os do norte, responsáveis por muitas doenças. Particularmente nefastos eram os
CALAIS   E   ZETES
ventos que sopravam na direção noroeste, chamados de ventos negros, pois eram oriundos do norte, o império das trevas. Famosa é a passagem mítica que nos relata o rapto de Oritia, filha de Erecteu, rei de Atenas, por Bóreas, que a tornou mãe dos boréadas, os gêmeos Calais e Zetes, gênios dos ventos. Ambos participaram da expedição dos argonautas, na qual desempenharam papel muito importante. 




BÓREAS   RAPTA   ORITIA

Dentre as oitenta e oito constelações que estudaremos, temos cinco, conhecidas desde a mais remota antiguidade, que ficam “acima” da Terra, no Polo Norte Celeste. Os egípcios, por exemplo, diziam que
JOHANN   BAYER  ( 1577 - 1625 )
as estrelas das constelações circumpolares “não conheciam a fadiga”. Tecnicamente, conforme acordos internacionais celebrados já nos tempos modernos, o nome de todas as estrelas e de suas respectivas constelações deve ser grafado sempre em latim. Em 1603, Bayer propôs e foi aceito seu método segundo o qual cada estrela passou a ser conhecida não só pelo nome da constelação da qual fazia parte como por uma letra do alfabeto grego que a distinguia, segundo seu nível de importância. Assim, por exemplo, Regulus, a mais brilhante estrela da constelação do Leão, passou a ser conhecida por alfa Leonis. 





Neste ciclo, por razões astrológicas, interessar-nos-ão apenas as
CAMELOPARDUS
constelações conhecidas desde a antiguidade greco-alexandrina segundo a tradição ptolomaica, sendo quarenta e oito o seu número. Dentre estas, como se disse, cinco são circumpolares: Cassiopeia, Cepheus, Draco, Ursa Major e Ursa Minor. Faz parte desse grupo hoje, desde 1614, a constelação do Camelopardalis (conhecida como a da Girafa), às vezes denominada Camelopardus, aqui não estudada, inventada por Petrus Plancius e registrada por Bartschius, para representar o camelo que conduziu Rebeca a Isaac. O camelopardalis, girafa, em latim, é representado por uma figura híbrida, formada pelo camelo (camellus) e pelo pelo leopardo (leopardalis).

COMO AS ESTRELAS INFLUENCIAM UMA CARTA ASTRAL

Desde a antiguidade, a melhor tradição sobre as estrelas fixas, a helenística, de Anonymous 379, e poucas outras, inclusive a que nos foi transmitida pelos árabes, nos informam que a energia das chamadas estrelas fixas se expressa melhor numa carta astral através dos quadrantes em que se encontram.  No primeiro quadrante, falamos de uma influência tanto mais poderosa quanto mais próxima a estrela estiver do grau ascendente. No quarto quadrante, a estrela se dirá culminante (zênite) quanto mais próxima estiver do grau do Meio do Céu. No terceiro quadrante, a estrela estará a caminho do poente, sendo mais poderosa quanto mais próxima estiver do grau do descendente. No segundo quadrante, a estrela estará a caminho do seu nadir, sendo sua influência mais sentida no final da vida, quanto mais próxima estiver do grau da quarta casa. 

É evidente que ao interpretar a influência das estrelas num mapa natal e em que fase de uma vida elas se tornam mais poderosas, nunca podemos perder de vista a constelação da qual ela faz parte e como esta, no seu todo, afeta também o mapa. Por ser matéria muito específica, inclusive a questão das órbitas, deixamos aqui de aprofundá-la, sugerindo para aqueles que se interessarem que procurem se informar sobre astrólogos competentes que lhes possam ajudar neste particular. Ressalte-se aqui que não podemos atribuir a uma constelação e às suas estrelas as influências determinantes que levam aquele que às experimenta a agir desta ou daquela maneira, a se dedicar a isto ou aquilo, ou a ocupar esta ou aquela posição, mas sempre será possível através delas compreender melhor o sentido geral do tema onde se inscrevem as demais e mais importantes influências planetárias. 





CONSTELAÇÕES BOREAIS.





CASSIOPEIA
CASSIOPEIA - É a Rainha, mulher de Cepheus, rei da Etiópia, e mãe de Andrômeda, a Princesa. Esta família está toda na região circumpolar, região da qual estão próximas as constelações de Perseus e de Draco. Geograficamente, o mito de Cassiopeia se estende à Etiópia, à Arábia e ao sul do Egito. A história nos diz que, tomada pela hybris, um desmedido orgulho, ela se julgara não só mais bela que as Nereidas como mais bela que a própria Hera, a Senhora do Olimpo. Diante de tamanha ousadia, os deuses intervieram. O país todo deveria pagar por isso. Um monstro marinho foi enviado por Poseidon para destruí-lo. Consultado o oráculo de Amon, foram os reis etíopes, pais da jovem, informados que o país só se libertaria se Andrômeda fosse oferecida como vítima expiatória.  

A jovem princesa, espontaneamente, se ofereceu: entregar-se-ia ao monstro e o país seria salvo. Perseu, o grande herói, de volta de sua
CETUS
vitoriosa expedição (morte da Medusa), ao passar pelo país, tomando conhecimento da situação, prontificou-se a matar o monstro, de nome Cetus, muito parecido com uma descomunal baleia, que apenas com o seu deslocamento nos mares provocava destruidores maremotos. Um acordo foi então celebrado: o herói, como prêmio pela morte do monstro, se uniria em casamento à bela princesa. Cepheus e Cassiopeia omitiram, porém, um ponto muito importante: Andrômeda já havia sido prometida por eles ao tio paterno da moça, Fineu, que, a essa altura, já havia traçado planos para matar Perseu depois de sua vitória sobre o monstro.



PERSEU   LIBERTA   ANDRÔMEDA  ( THEODOR  VAN  THULDEN

Nosso herói, porém, não encontrou dificuldades para vencer a tenebrosa criatura do mar enviada por Poseidon; primeiro, paralisou-a, exibindo-lhe a cabeça da Medusa, transformada por ele em poderosa arma, acabando depois com ela a golpes de espada. Ao ser atacado por Fineu e seus comparsas, Perseu matou alguns, trespassando-os com a sua lança, e petrificou outros. Deixando o país, Perseu voltou à sua pátria, Tirinto, assumindo o trono real, e lá terminou os seus dias, em companhia de Andrômeda, que lhe deu muitos filhos.     


CASSIOPEIA
Cassiopeia lembra, sem dúvida, uma figura feminina de fundo matriarcal que a antiguidade colocou nos céus para representar a sobrevivência de um mundo desaparecido, o matriarcado. Cassiopeia é um símbolo do feminino ainda rebelde, mas sem condições de fazer prevalecer as suas prerrogativas de proeminência e comando. Daí, a punição que a história da rainha revela. Além de quase ter provocado a destruição do seu país, a orgulhosa rainha foi condenada a, sentada no seu trono, ficar eternamente dando voltas em torno de um ponto no polo norte celeste. Seu comportamento, por outro lado, lembra muito o da deusa Hera, que infernizou, com razão, muitas vezes, a vida conjugal que manteve com Zeus.  

A punição de Cassiopeia fica mais evidente quando lembramos o nome pelo qual o cristianismo antigo e medieval denominou esta constelação, Madalena. Maria Magdala ou Maria Madalena foi a mulher a quem Jesus livrou dos “sete demônios” e que perfumou os seus pés, segundo Lucas, passando a ser considerada, depois da sua conversão, como um modelo de mulher penitente e contemplativa. Não é outro o sentido que o nome Madalena toma no nosso léxico, de mulher arrependida, chorosa e triste, que expressa o arrependimento de suas faltas, devotando-se à vida religiosa.

Os árabes chamam esta constelação de A Mão Pintada com Hena por causa de Caph (mão manchada)
HENA
, sua estrela beta. Da hena, pequeno arbusto, de suas folhas secas e pulverizadas, como se sabe, faz-se uma tintura usada na cosmética, a arte que trata do embelezamento físico, principalmente das mulheres. As folhas da hena são colhidas entre os árabes sempre em meio a uma grande celebração religiosa (baraka). O mesmo procedimento encontramos no Sudão, na Índia, na Tunísia, na
HENA  -  PINTURA   CORPORAL 
Argélia e no Senegal. No Egito, a hena faz parte destacada do arsenal cosmético da mulher. O produto comercial extraído da hena tem o nome de Henê, no oriente e no norte da África usado em rituais de caráter medicinal, profilático, cosmético e purificador. Assim como a hena é a rainha de todas as flores, assim deve ser a mulher que a usa, é expressão que encontra apoio no Corão. Lembremos que entre os árabes chama-se Noite do Descanso da Hena aquela em que é dada a bênção aos jovens esposos. Ou seja, como a hena, a mulher se transforma em rainha do lar.



A constelação de Cassiopeia se estende de 25º de Áries a 0º de Gêmeos. Suas estrelas, isoladamente, não são de grande importância para a Astrologia, mas, no seu conjunto, como nos deixaram Ptolomeu e outros estudiosos do céu confirmaram, elas têm características venusianas com forte ênfase saturnina.  Há, com elas, uma ideia de excessivo orgulho devido à posição social, rigor, atitudes dominadoras, o que tende a trazer problemas para as uniões de um modo geral, Não é por outra razão que esta constelação aparece ligada no Tarot ao arcano nº 2, A Sacerdotisa, que, nos aspectos desfavoráveis, pode aparecer como destruidora dos valores femininos tradicionais, dificultando sobremodo uniões de situação privilegiada, não oferecendo a mulher nenhuma colaboração nem convivendo com a ideia de compartilhar.

Os astrólogos romanos deram a esta constelação nomes como Mulier Sedis (A Mulher do Trono) ou simplesmente Sedis, ao qual juntavam os qualificativos regalis ou régia. Os árabes foram pelo mesmo caminho, denominando-a A Senhora no Trono. O poeta

John Milton, no séc. XVII, nos seus versos de Il Penseroso, um poema sobre a melancolia, fez referências a Cassiopeia. No séc. XVII, quando o céu foi redesenhado pela Astronomia, como aconteceu muitas vezes, Cassiopeia se tornou Maria Magdalena ou Deborah, na sua função de juíza, sentada sob uma palmeira, no monte Ephraim. A constelação foi também chamada nesse período pelo nome de Bathesheba, a mãe do rei Salomão. Deborah foi uma juíza,

mencionando-se seu nome no Livro dos Juízes, do Antigo Testamento. Ela, segundo consta, teria livrado seu povo dos ataques do reino de Canaã. Era mulher de Lapidote e exerceu cargo público, prestando também serviços (atendimento) como profetisa sob uma palmeira. Já a belíssima e inteligente Bathesheba (Betsabá) foi uma das mulheres do rei David.  Urias, o marido de Betsabá, foi enviado pelo rei David para a guerra. Não tendo como escapar da perseguição real, Betsabá, já viúva (Urias teria morrido na guerra) se uniu a ele, tornando-se mãe de Salomão, rei que se tornaria famoso por sua grande sabedoria, em grande parte herdada da mãe, conforme algumas versões.




DAVI D  E   BETSABÁ   ( JAN  MASSYS )

Sob o ponto de vista astrológico, a estrela de Cassiopeia que mais nos interessa é Schedar (alfa), hoje a 7º07 de Touro. Ptolomeu entendeu que as estrelas de Cassiopeia tinham características saturninas e venusianas. A experiência astrológica vem demonstrando que as estrelas desta constelação parecem incorporar o arquétipo do feminino prepotente que se expressa por atitudes de comando e por exigências de reverência e respeito. O mapa astrológico da antiga ministra inglesa Margareth Thatcher pode ser um bom tema para o estudo das influências de Cassiopeia e de Schedar. Outro tema interessante para se estudar Cassiopeia e Schedar é o de Nancy Reagan, que tinha o Sol, Marte (regente da casa VII) e Mercúrio no MC.  


CEPHEUS, o Rei, move-se, como constelação, com as demais
CEPHEUS
apontadas, em torno do polo norte celeste. Rei da Etiópia, casou-se com a vaidosa Cassiopeia, nascendo dessa união a bela Andrômeda, que, por culpa da mãe, foi exposta ao monstro e salva por Perseu, como vimos. Como Cepheus não teve filhos do sexo masculino, o trono da Etiópia foi ocupado, devido à “petrificação” do casal real etíope, por Perses, um dos filhos de Perseu e de Andrômeda. 

Esta constelação, devido à sua posição de relevo no polo norte celeste, embora com estrelas de pequena magnitude, sempre apareceu associada a figuras reais, em várias tradições. Uma delas,
SALOMÃO  ( ÍCONE  RUSSO )
pelo Cristianismo medieval, foi a do rei Salomão, terceiro rei de Israel, filho de David e de Betsabá. Como nos revelam os textos, sabemos que Deus ofereceu a Salomão a escolha de um dom; ele optou pela sabedoria, achando que tudo dependia dela. Foi-lhe dado também por Deus o dom da profecia e a capacidade de entender a linguagem das aves e dos animais terrestres. Adquiriu grande poder material, bens e animais, amontoando riqueza e teve muitas concubinas. Ao fim da vida, porém, percebeu que nada disso o satisfazia. Escreveu o Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes na velhice, obra de um homem desencantado com tudo o que a vida material lhe havia proporcionado.

Os chineses usaram esta constelação para ilustrar o seu entendimento de que o poder real não deve ser mais que a expressão de um mandato celeste. Em torno desse centro real, as
MING  TANG
diversas zonas do espaço (as provícias do império), deviam ser organizadas, imbricando-se umas nas outras, segundo as quatro direções universais. Esse centro se confunde com o eixo do Ming Tang, o espaço total, no centro do qual o imperador tem o seu trono. Evoluindo no Ming Tang, o rei, como o Sol, é responsável pela fixação, no seu império, dos ritmos diários e dos ciclos das estações. A figura real exerce, assim, uma função reguladora, fazendo a ligação entre o domínio cósmico e o domínio social.

As mesmas ideias tiveram os antigos povos védicos e celtas quando se voltaram para a observação desta constelação. O poder real tem que respeitar a ordem celeste. É por isso, exemplificando, que se proibia ao rei celta falar antes do druida (sacerdote, representante do poder religioso) nas assembleias, pois cabia a este último estabelecer as melhores diretrizes para que as relações céu-terra fossem respeitadas e bem conduzidas nas atividades e empreendimentos mais significativos ou em campanhas bélicas, de um modo geral. Os impostos, no mundo celta, deviam chegar ao rei para que ele os distribuísse convenientemente, isto é, a quem precisasse mais. Sem a observância da ordem céu-terra, a fecundidade da terra, das plantas e dos animais desaparecia, degradando-se a vida social. Não respeitando esta ordem, o rei se transformava num usurpador (usurpar é apossar-se ou tomar pela força e sem direito alguma coisa). Nesta hipótese, de desrespeito das diretrizes, o rei sempre terminava muito mal, tragicamente, afogado num tonel de vinho ou de cerveja e seu palácio incendiado. Submetido ao céu, que o druida representava, o rei devia ser sempre um intermediário, um mediador.

Cepheus se estende de 17º de Peixes a 0º de Câncer, sendo, por isso, uma das maiores constelações do céu. Por volta de 22.000 aC, a principal estrela desta constelação já ocupou a posição de estrela polar, posição que voltará a ocupar daqui a, mais ou menos, 7.500 anos. Como as estrelas de Cassiopeia, as de Cepheus também não têm isoladamente importância para a Astrologia, a não ser Alderamin (Al Deramin entre os árabes), sua estrela alfa, hoje a 12º05´ de Áries. O nome é uma referência ao braço direito (Al Dhira) da figura real que a representa. Ptolomeu nos informa que as estrelas desta constelação têm características jupiterianas e saturninas. Ou seja, inclinam à sobriedade, à ponderação, ao equilíbrio, à moderação, podendo Alderamin, porém, quando envolvida com “maléficos”, fazer a vontade claudicar, trazer dubiedade e mesmo capitulação nos aspectos mais dissonantes. 

Cepheus é um bom exemplo para se entender que as constelações, mesmo que possuam estrelas muito importantes, devem ser consideradas pelo que significam e propõe no seu todo. Cepheu é uma espécie de guardião do polo pela via do princípio masculino, que deve se submeter, contudo, a um poder superior, o celeste. Esta constelação pode sugerir também a necessidade de se procurar sempre ajustar os dois princípios, o masculino e o feminino. Cepheu, aliás, no mito, é uma figura que aparece, até certo ponto, pressionada pelo temperamento orgulhoso de Cassiopeia, uma poderosa representante do matriarcado que encontra muita dificuldade para se ajustar em termos da convivência masculino-feminino.

A soberania que Cepheus representa é masculina. Numa carta astrológica, sua melhor expressão será obtida por atitudes afirmativas que levem em consideração o “outro lado” do poder real, geralmente oculto ao olhar humano desinformado. Situado entre os deuses e os homens, o rei deve garantir a harmonia que sem ele não existiria, essa a sua função primacial. Daí as cerimônias de sua entronização da qual fazem parte obrigatoriamente a imposição de um manto, símbolo do céu, e do empunhamento de um cetro, símbolo da justiça a ser exercida na Terra. Isto lhe permitirá assumir a função de poder intermediário entre deuses e homens e de regulador da ordem social em nome da ordem cósmica. O poder real, masculino, entretanto, para se revelar completo, não pode prescindir do feminino ou só admiti-lo num plano apenas biológico. O princípio real masculino tem que admitir o princípio feminino, pois é este quem o anima. Quando estes princípios são verdadeiramente entendidos, isto é, elevados espiritualmente, eles se revelarão como doação, receptividade e reciprocidade.

Dentre várias cartas astrológicas que podem oferecer boas possibilidades de estudo  de Cepheus (a ser analisada sempre, no meu entender, com a de Cassiopeia) cito duas, em particular, as de José Saramago (Maria Pilar del Rio Sánchez) e de Nelson Mandela.