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domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CHUMBO

CHUMBO
A mais antiga tradição alquímica de que se tem notícia a estabelecer uma relação entre os metais, os planetas e os signos astrológicos foi a dos caldeus, povo da antiga Mesopotâmia. 

A ordem era a seguinte: ouro-Sol-Leão; prata-Lua-Câncer; mercúrio-Mercúrio-Gêmeos e Virgem; cobre-Vênus-Touro e Libra; ferro-Marte-Áries, associado igualmente ao aço, Escorpião; estanho-Júpiter-Sagitário, associado igualmente ao bronze, Peixes;   chumbo-Saturno-Capricórnio  e Aquário.

Herdeiros dessa tradição, os gregos,  ou melhor,  um colaborador de Platão, Philippe d’Oponte, foi o primeiro, num texto, Epinomis (que faz parte da obra de Platão), a dar o nome dos deuses aos planetas: Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), Ares (Marte), Afrodite (Vênus), Hermes (Mercúrio), relação à qual se acrescentou Selene (Lua).




Os metais sempre simbolizaram energias cósmicas solidificadas, condensadas, sendo considerados como substâncias vivas e sexuadas pelas mais antigas tradições que os dividiram em dois grupos, os criados por Deus e os criados pelo Diabo. Assim, em algumas mitologias africanas, por exemplo, enquanto Deus criava o ouro e a prata, o Diabo criava o cobre e o chumbo.  
   

Por volta de 3000 aC, quando se fixaram melhor certas atividades humanas como a metalurgia, a tecelagem, a carpintaria a construção e a fabricação de tintas e de pigmentos, que uma arte a que se deu o nome de Alquimia, nome proveniente do Egito, ao que parece, reuniu todos esses conhecimentos. A arte alquímica era produto da acumulação de muitas informações técnicas, de várias civilizações. 

Tanto a descoberta de muitos materiais como as técnicas desenvolvidas pelo homem para utilizá-los e transformá-los não
ENLIL
significou a separação destas atividades do cotidiano das pessoas, da sua vida diária. Os trabalhos técnicos dos artesãos que se ligavam diretamente a essas atividades foram associados ao acompanhamento de práticas religiosas ou mágicas, encontrando-se conexões entre metais, minerais, plantas, planetas e deuses. Os babilônicos, por exemplo, ligavam o ouro ao deus Enlil, a prata ao deus Anu e assim por diante.




Dentre as teorias criadas a esse tempo para explicar o mundo material, uma adquiriu muita importância, a de que todas as substâncias existentes no universo eram compostas por cada um e por todos os elementos (fogo, terra, ar e água, na tradição ocidental), diferenciando-se essas substâncias pelas proporções em que nelas eles se apresentavam. 

Os elementos se distinguem uns dos outros por suas qualidades chamadas de primárias, a fluidez ou umidade, a secura, o calor e o frio, possuindo sempre cada um deles duas dessas qualidades. Em cada elemento há uma qualidade que predomina sobre outra: na terra, o seco predomina sobre o frio; na água, o frio sobre o úmido; no ar, a fluidez sobre o quente; no fogo, o quente sobre o seco. Esses  elementos podem se transformar uns nos outros, são intermutáveis por meio da qualidade que possuem em comum. Exemplificando, o fogo pode transforma-se em ar por meio do quente; o ar em água por meio da umidade e assim por diante. Essas operações fazem parte da Alquimia e estão presentes em nossa atividade física e psíquica e acontecem a todo momento em nossa vida cotidiana. 

O chumbo, molybdos, em grego, plumbum em latim, é um metal extremamente denso, pesado e macio, mas não flexível, um dos mais antigos que o homem conheceu. Do ponto de vista alquímico, o chumbo se liga ao elemento terra, formado pelo frio e pelo seco. Antes de 3000 aC, vários povos da antiguidade já obtinham a prata
AQUEDUTO
retirando-a do chumbo. Na Mesopotâmia, usaram-se placas de chumbo para revestimento dos famosos jardins suspensos da Babilônia. São conhecidas, desde essa época, moedas de chumbo chinesas. Os romanos utilizaram muito chumbo, proveniente da Espanha, para fazer os seus famosos aquedutos. 


De todos os metais, sabe-se, o chumbo é o mais impermeável à
SOLDADINHO   DE   CHUMBO
água. Encanamentos com mais de 2000 anos foram encontrados recentemente em excelentes condições em Roma. A grande desvantagem dos encanamentos desse metal é que eles congelam com facilidade e estouram. Por derreter facilmente, o chumbo foi muito usado para a confecção de brinquedos, sendo os mais conhecidos os famosos soldadinhos de chumbo.


As propriedades mágicas do chumbo estão atestadas em várias culturas na antiguidade. Quando se desejava fazer mal a alguém, gravava-se numa placa de chumbo o nome do mal, um meio sempre considerado como particularmente eficaz. Por outro lado, carregar uma pequena placa de chumbo presa por fio ao redor do pescoço protegia contra diversos encantamentos e impedia que paixões amorosas se apoderassem de alguém contra a sua vontade.


QUIMERA   BELEROFONTE   E   PÉGASO

É na mitologia grega, na história da morte da Quimera, que encontramos uma referência importante com relação às virtudes do chumbo. Belerofonte, famoso herói, montado no cavalo-alado Pégaso, que conseguira domar com o auxílio de Palas Athena, atacou o pavoroso monstro que vomitava labaredas de fogo. Disparando inúmeras flechas contra o seu corpo, Belerefonte conseguiu que algumas delas, com pontas chumbo, entrassem pela sua bocarra; em contacto com as labaredas expelidas furiosamente, o metal derreteu e, descendo por sua garganta, destruiu completamente as suas entranhas.

Desde a mais remota antiguidade, praticava-se a adivinhação por meio do chumbo, a chamada molibdomancia (molybdos, chumbo, mancia, adivinhação, grego). Deixavam-se cair gotas de chumbo quase líquido na água ou numa superfície lisa e faziam-se previsões segundo os ruídos produzidos. Até o início do séc. XX, essa forma de adivinhação era praticada em quase todos os países da Europa. Na França, no dia de Reis, as jovens casadoiras, segundo a forma que o metal aquecido tomasse quando em contacto com a água, usavam o processo para descobrir a profissão de seu futuro marido: se tomada uma forma que lembrasse um machado, ele seria lenhador; se tomada a forma de uma agulha, ele seria alfaiate e assim por diante. O mesmo acontecia em outros países, usado o processo para fins divinatórios diversos, sempre numa data religiosa importante. Na Bélgica, por exemplo, na noite do dia de Santo André; na Alemanha e na Rússia, na noite do dia de São Silvestre; na Suíça, na véspera do Natal etc.

Na Idade Média, para se saber se uma doença tinha origem sobrenatural, derramava-se chumbo derretido num recipiente com
AMULETOS   DE   CHUMBO
água; se uma imagem se formasse no fundo do recipiente, a origem sobrenatural (feitiçaria) estava confirmada. Há registros de que reis franceses (Luís XVI) mantinham sempre amuletos de chumbo em contacto com o corpo para evitar doenças.


Comercialmente, hoje, o chumbo é empregado no isolamento acústico de ambientes e como material protetor contra radiações em salas de radioterapia de hospitais. É usado também em lugares onde é manipulada a energia nuclear. A sua extrema densidade o torna impermeável à radiação. Dá-se o nome de saturnismo ou plumbismo às intoxicações agudas ou crônicas causadas pelo chumbo ou por alguns de seus sais. Quando queremos nos referir a uma pessoa tristonha, soturna, ou a um céu carregado de nuvens escuras, podemos usar o adjetivo plúmbeo. 

Simbolicamente, o chumbo apareceu sempre relacionado com o fim
SATURNO   E   SEUS   ANEIS
de um período, o fim de um ciclo de vida, identificado por isso com a velhice e a morte.  Não é por acaso que a pele e os ossos, as últimas coisas que desaparecem no ser humano ao morrer, são de Saturno, astrologicamente. Além do chumbo, não podemos descer mais na escala mineral, vegetal e animal. Por isso, é tutelado pelo deus Cronos, na mitologia grega, e pelo planeta Saturno, ambos símbolos do tempo, do tic-tac fatal dos relógios. 


Cronos, como se sabe, devorava os próprios filhos que gerava, uma imagem do tempo que tudo consome. Daí, Cronos aparecer representado com a ampulheta (o tempo) e o alfange (o instrumento dos ceifadores. Analogicamente, o deus,
CRONOS
o planeta e o metal simbolizam também o princípio da concentração, da fixação, da condensação e da inércia. Viver é tomar forma e também perdê-la, o que nos acontece diariamente, a cada momento da nossa vida. Por isso, a vida, na expressão dos alquimistas, se resume a duas operações: a coagulatio e a solutio. No início, uma energia que vai tomando forma, ganhando corpo, crescendo, se desenvolvendo, chegando à sua plenitude e depois, inexoravelmente, definhando, se contraindo, até que tudo o que foi acumulado volte ao Grande Todo.



LABORATÓRIO   ALQUÍMICO

Os alquimistas sempre colocaram o chumbo em relação com o ouro. Muitas histórias da arte alquímica nos falam de transmutações coroadas de sucesso na medida em que o chumbo, considerado como o mais vil dos metais, e neutralizadas assim as suas influências funestas, podia ser transformado no rei deles, o ouro, quando submetido à ação da “pedra da sabedoria”. Esta metamorfose era para os alquimistas um símbolo da purificação do homem, preso ao mundo terrestre e materializado, que se elevava a níveis superiores da existência pela espiritualização solar.

Cronos, Saturno e o chumbo representam tanto a força que cristaliza, que fixa na rigidez o que entra na existência, dando-lhe condições de resistir aos ataques externos, como pode também se opor, como resistência intransponível, a qualquer mudança. Num primeiro momento, o chumbo simboliza assim imprescindível força que nos estrutura, ajudando-nos a resistir aos embates da vida. Num segundo momento, esta mesma força pode impedir mudanças, transformações, lembrando sempre obstáculos, carências, retardamentos, impotência, paralisia, condensação, desalento, inércia, tanto física (problemas com o metabolismo do cálcio; artroses deformantes, osteoporoses, osteopenias etc.) como psiquicamente (complexos, apego ao passado, atavismos poderosos, a tirania dos hábitos, ideias fixas, obsessões etc.)

CHAVES PARA A CARACTEROLOGIA
O chumbo forma a última fase do processo metálico, o estágio final do desenvolvimento da matéria. Na Alquimia simbólica, o   chumbo é, por isso, usado para representar o nível mais baixo a que a matéria pode chegar, iniciando-se, a partir dele, a caminhada em direção do mais elevado, do superior, simbolizado pelo ouro. Sob o ponto de vista da Caracterologia, as pessoas-chumbo podem ser incluídas entre os fleugmáticos, neles dominando a não-emotividade e a secundariedade, já que costumam retardar bastante as suas respostas diante dos  estímulos recebidos.   

O poder do chumbo tem a ver também com tudo o que segrega, e separa, com tudo o que fecha e inibe, que limita. Onde a influência de Saturno aparece temos o enrijecimento, a formação de pedras (cálculos na bexiga, nos rins, na vesícula, o endurecimento das artérias, por exemplo). Com a idade, vamos entrando no período chumbo da vida, dominado pelo processo da introversão e pelo recolhimento. Ambos, o corpo e a mente vão ficando endurecidos e inflexíveis; as pessoas tornam-se dogmáticas, obstinadas em suas opiniões, não sabendo mudar, fase em que podem se impor ideias de insensibilidade, frieza, renúncia, pessimismo, melancolia ou, simplesmente, recusa de viver. 

O chumbo inibe vibrações. Por isso, é o metal mais usado para conter as trepidações produzidas pelo trânsito pesado e intenso em áreas onde são construídos grandes edifícios. Positivamente, o chumbo e Saturno fortalecem o nosso corpo e nossa alma para que possamos enfrentar as tempestades que podem nos alcançar. Neste caso, o chumbo pode nos ajudar a controlar nossos sentimentos, dando-nos a quantidade certa de resistência ao que ameace o nosso equilíbrio. Uma pessoa saturnizada em demasia mostra-se geralmente avessa à vida social, evita visitas, quase não fala, é solitária, características do chamado tipo esquizoide. No geral, uma vida feita só de deveres, na qual o relógio e o calendário governam tudo. Uma vida onde não entram flores e risos, que são do planeta Vênus, dominado pela deusa Afrodite.   

Costumam as pessoas-chumbo ter muito medo do futuro, já que uma de suas principais características é o espírito de economia que
HARPAGON (COMÉDIE FRANÇAISE)
pode atingir formas extremas como a avareza. Um exemplo: o Harpagon, de Molière. São comuns os casos de pessoas deste tipo que quando têm alguma despesa a fazer, mínima muitas vezes, mergulham em tormentos sem fim, perdendo horas de sono inutilmente. A rondá-las, quase sempre, uma atitude pessimista diante da vida, já que costumam ver dificuldades em tudo. Usam muito o advérbio não. A sua constante insatisfação é quase sempre responsável por um sentimento de incapacidade que está na origem de suas depressões. 


Tais pessoas costumam também se deprimir porque não avançam tão rapidamente como os outros. Muitas vezes, problemas de infância (são os tipos mais propensos a apresentar esses problemas, como os de fixação na infância, no passado, sempre presente o temor inconsciente do poder dos mais velhos) estão por trás desse receio de avançar, pois são as maiores vítimas da pressão que pais exercem sobre seus filhos. Sofrem geralmente de três complexos: o de Cronos (filhos “devorados” pela figura paterna), o de Inferioridade (sentimento de pessoas que se auto depreciam) e o de Isaac (filhos que se entregam docilmente à vontade paterna). Entraram na vida sempre temendo o poder dos mais velhos, pais, professores, mestres, familiares etc. No caso de mulheres, muitas vezes o marido também exerce esse papel, sendo uma extensão da figura paterna. 

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( 1603 , CARAVAGGIO )

Muitos que se enquadram nesta tipologia gostam de mostrar um caráter severo, consigo e com o mundo. Esta severidade, porém, oculta geralmente uma atitude destinada a dissimular a sua sensibilidade e o seu medo de serem magoadas. Protegem-se “endurecendo”, exigindo sempre dos que estão à sua volta um comportamento irrepreensível no cumprimento dos seus deveres. Não toleram uma brincadeira, um “pegar mais leve” na vida. A vida para elas é feita só de obrigações e deveres.

A maioria dessas pessoas acha doloroso qualquer processo de mudança, fugindo sempre de situações em que tenham de abrir mão de imagens, ideais e objetos materiais, sobretudo os herdados. Ao invés de procurarem na vida os intercâmbios adicionais que os ajudem a evoluir, constroem à sua volta muralhas que impedem qualquer penetração na personalidade que montaram. Temem perder a segurança. 

As cores preferidas dos tipos que estou descrevendo são o cinza, o preto, o castanho-escuro e o marrom. Na anatomia humana, os problemas costumam aparecer na pele, nos ossos, nas juntas, nos ligamentos, nos órgãos da audição, na pele, nas unhas e nos cabelos. Negativamente, tudo neste cenário lembra carências (penias, hipo), obstáculos, limitações, endurecimentos etc.


AUGUSTE  RENOIR , 1841 - 1919

Positivamente, porém, simbolicamente o chumbo, Saturno e Cronos lembram constância, disciplina, controle, firmeza. Neste sentido, o que eles nos derem ninguém tira de nós. Eles simbolizam aquele trabalho anônimo que podemos diuturnamente exercer sobre nós mesmos, a conquista interior que o tempo nos dá. As virtudes saturninas são, como se disse, frias, estão do lado das asceses: concentração, perseverança, prudência, sentido de dever, silêncio, domínio da vida instintiva. Não é por acaso que o grande símbolo de Saturno é a montanha e que o mais saturnizado dos pintores, Cézanne, a pintou dezenas de vezes (montagne Sainte -Victoire). 


MONTAGNE   SAINTE -  VICTOIRE ( 1895 , CÉZANNE ) 

As melhores informações que temos para entender o chumbo simbolicamente como ponto de partida para se alcançar níveis superiores da existência nós as encontramos nos textos da Alquimia.


Em todas as tradições, o trabalho alquímico, designado pelo nome genérico de Opus ou Obra em Negro, sempre considerou o chumbo como a base mais modesta da qual se pode partir em direção de uma evolução ascendente. As virtudes requeridas para que alguém se empenhe nesse trabalho são a paciência, a solicitude, a perseverança, a dedicação contínua e a coragem, isto é, as virtudes frias às quais nos referimos. O trabalho da transmutação do chumbo em ouro tinha, por isso, um caráter sagrado, já que pedia também o desapego das limitações individuais para que fossem atingidos níveis coletivos, mais universais.