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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

LIBRA (4)

                                        
PSYCHE E O AMOR , 1798
( FRANÇOIS  GÉRARD )
Muitos astrólogos, desde a antiguidade, associam a Libra o mito de Cupido e Psyche, na medida em que o signo procura descrever como um  ego busca o  seu complemento. É só através dessa busca e de seu sucesso, como sabemos, que o tipo astrológico libriano se realiza plenamente. O mito procura traduzir, de certo modo, a busca do Outro, a busca de um complemento, no geral muito mais inventado, idealizado, do que real.  


APULEIO
Antes, contudo, a origem da história. Tudo começou com Lucius Apuleius Theseus (170-125, Madaura, atual Argélia), chamado simplesmente de Apuleio, escritor latino polígrafo de origem africana. Depois de ter estudado eloquência em Cartago, dirigiu-se a Atenas, tornando-se adepto do platonismo. Percorreu em seguida boa parte da Ásia Menor e do Mediterrâneo fazendo-se iniciar em cultos de mistério (Mitra, Elêusis, Ísis, Cabiros, Cibele, Astarte, Sabazios) na esperança, como dizia, de “encontrar o segredo das coisas” e de “se abandonar a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio.” Voltou a Cartago, assumindo a advocacia, tornando-se um retor célebre. Além de alguns pequenos tratados filosóficos e discursos, escreveu Floridus e De Magia ou Apologia, este último composto como
METAMORPHOSIS
peça de sua defesa por ter sido acusado de seduzir uma rica viúva chamada Prudentilla, para lhe tomar a fortuna. Sua obra mais importante intitula-se Metamorphosis, chamada algumas vezes de O Asno de Ouro, onde se encontra o seu famoso conto Cupido e Psyche, que podemos certamente relacionar com a peça de defesa acima mencionada. Apuleio nos deixou como escritor a imagem de uma poderosa sensibilidade sempre às voltas com influências místicas, grande imaginação, alegria, gosto pela paródia e construções rebuscadas, tudo numa linguagem eivada de preciosismos.

O conto de Apuleio nos diz que havia um rei e uma rainha que tinham três filhas belíssimas. Para as duas primeiras os adjetivos superlativos disponíveis na linguagem eram suficientes para celebrá-las. Quanto à caçula, porém, sua beleza era tão extraordinária que não havia palavras para descrevê-la. O único recurso, e mesmo assim insatisfatório, eram as interjeições que procuravam traduzir um grande deslumbramento. Logo a notícia correu o mundo, uma nova Vênus havia nascido. De várias partes do país e do exterior acorreram muitas pessoas na esperança de ver a “nova” deusa, que aceitava as homenagens que lhe eram prestadas. Por causa disso, os lugares sagrados e os santuários de Vênus não mais eram visitados, o culto divino se enfraquecia. Como não poderia deixar de acontecer, a imensa hybris da jovem princesa, chamada Psyche, incomodou a deusa Vênus, que resolveu punir tamanha insolência. Chamou seu filho Cupido, incumbindo-o de puni-la exemplarmente. 


CUPIDO SUPLICA A VÊNUS QUE PERDOE PSYCHE
( 1827, GEORGE  ROUGET )

Vênus é um nome derivado de palavras latinas que significam amor físico, apetite sensual e sexual, vida instintiva. Foi por esse nome que os romanos personificaram a sua deusa do amor, procurando assimilá-la à Afrodite grega. Na origem, entre os antigos povos da Itália pré-romana, a deusa Vênus tinha relação com o mundo agrário, com jardins e pomares, mais exatamente. Aos poucos, porém, por influência do culto grego de Afrodite, que entrara na Itália pela Sicília, Vênus começou a ocupar uma posição de destaque no panteão latino, especialmente pelo fato de, segundo o mito, um descendente seu, Eneias, oriundo de Troia, ter fixado as bases do futuro império romano.

Quanto a Cupido, filho de Vênus e Marte entre os latinos, o nome vem do verbo latino cupere, desejar ardentemente, inflamar-se. No
CUPIDO
ESCULTURA   ROMANA
mito romano, difere um pouco do Eros grego. Embora no mundo romano se apresente sempre muito travesso, irresponsável, inconsequente, na sua iconografia clássica, a imagem de Cupido chega a diferir bastante do seu modelo grego. O Cupido latino, com efeito, parece mais envelhecido que o Eros grego; é uma figura tomada por um certo cansaço, traços que suas esculturas romanas inclusive revelam, características que podemos, quem sabe, atribuir a um certo desgaste do arquétipo.   

Vênus pede a Cupido uma vingança perfeita, observadas as seguintes determinações: a jovem princesa terá que se apaixonar pelo mais horrendo dos homens, perdendo não só toda a sua herança familiar como a sua dignidade, a incolumidade de seu corpo, descendo a níveis tão baixos de existência de modo a que ninguém queira compartilhar de seu sofrimento. Transmitidas tais instruções, Vênus encaminhou-se para o seu elemento, o mar, sendo recebida por um grande séquito, as filhas de Nereu, o formidável Portuno, a saltitante Salácia, Palemon, o condutor dos delfins, inúmeros tritões, todos a reverenciá-la.


DEUSES  DO  MAR  SAÚDAM  VÊNUS ( E. LE SUEUR , 1616 - 1655 ) 

Registre-se além disso que os pais da jovem haviam consultado um oráculo apolíneo, pois, embora ela fosse lindíssima, como mulher alguma poderia ser, não era amada; definhava por isso, muito triste.
REUNIÃO DE CUPIDO E PSYCHE
( J.P. SAINT-OURS - 1752 - 1809 )
Suas duas irmãs, muito menos bonitas, já haviam inclusive se unido a dois belos príncipes. O oráculo sentenciou: Psyche deveria ser levada ao mais alto penhasco do país e ali exposta suntuosamente; um monstro horroroso viria se unir a ela. É nesse momento que Cupido, cumprindo as ordens de sua mãe, vê a jovem princesa no penhasco e se sente por ela “flechado”, instantaneamente apaixonado. Libertou-a e a levou para o seu palácio no vale. A única coisa que lhe pediu, logo na primeira noite, quando a possuiu, foi que permanecesse com os olhos vendados quando ele fosse visitá-la, que jamais tentasse vê-lo. 



PSYCHE   SURPREENDE   CUPIDO   ADORMECIDO
( 1769 ,  LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE )

As duas irmãs, tendo ouvido histórias sobre Psyche, conseguiram saber onde ela se encontrava. Visitando-a, sugeriram que ela era muito tola, que deveria remover a venda dos seus olhos e conhecer o seu esposo, talvez um monstro, quem sabe. Ainda que muito relutante, mas cheia de curiosidade, a jovem fez o que as irmãs haviam sugerido. Resolveu acender uma lamparina a óleo para vê-lo melhor. Ao se debruçar sobre ele com a lamparina, gotas de óleo cairam e Cupido acordou, logo fugindo, abandonando-a. 

Psyche se desesperou. Foi a Vênus, que não consentiu que ela visse seu filho-amante, a não ser que ela lhe prestasse alguns serviços, na condição de serva. A deusa impõe então à jovem várias tarefas
VÊNUS   E   PSYCHE  
humanamente impossíveis, certa de que ela fracassaria. O mundo natural, entretanto, as plantas e os animais, sentindo muita pena da jovem, a ajudam no cumprimento das referidas tarefas (separar um gigantesco  monte de grãos variados, numa única noite; trazer para Vênus flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros ferozes; trazer para Vênus uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios infernais Estige e Cocito). Nesse ínterim, refeito de seu ferimento (queimadura), Cupido foi a Júpiter e lhe pediu que concedesse a imortalidade a Psyche, o que aconteceu, recebendo ela umas gotas de ambrosia, divinizando-se e se imortalizando. 

Esta história suscitou ao longo dos séculos muitas interpretações. Sob o ponto de vista filosófico (Apuleio era um adepto do platonismo), temos aqui a ideia de que a alma é intrinsecamente divina. Esta natureza é perdida quando do processo da encarnação, mas pode ser recuperada. Nesta perspectiva, Psyche representa a natureza espiritual de cada ser humano. No cristianismo, esta história foi usada para simbolizar a busca de Deus pela alma.

PSYCHE  E CUPIDO  ( ANTONIO  CANOVA , 1757 - 1822 )

Numa outra leitura, podemos dizer que tendo pecado pela curiosidade e pela dúvida, a alma perde o seu amante divino e se torna escrava de Vênus, que a submete a duras provas. Recuperada por Cupido, ela se torna, enfim, imortal e passa a viver na eterna felicidade do amor. Tanto um símbolo da alma à procura de seu ideal como da sua purificação (salvação pelo amor) depois de ter decaído. Outros vêem na história uma tendência à idealização de parceiros. Depois de um certo tempo, porém, ousando olhá-los como realmente são, a decepção se instala, ocorrendo tanto uma separação emocional e/ou física. Os testes, as provas e os desafios pelos quais as relações têm que passar estão evidentes no contexto do conto, lembrando-se, neste particular, que, sob o ponto de vista astrológico, Saturno se exalta em Libra. 

Uma outra hipótese, que estudiosos, psicólogos e artistas nunca, a meu ver, levantaram, é que esse conto que passou à história da literatura filosófica, hoje quase que só “trabalhado” por psicólogos, é, no fundo, uma declaração de amor de nosso trêfego Apuleio à rica viúva, uma peça literária pela qual ele procurava se redimia aos seus olhos, deixando claro que o “amor tudo vence.” Segundo consta, a rica Prudentilla o perdoou por ter se apoderado do seu dinheiro, enganando-a, e eles acabaram muito felizes.

ORFEU   E   EURÍDICE
A história de Cupido e de Psyche coloca-nos também diante de uma questão que me parece fundamental na mitologia grega e com larga repercussão na matéria astrológica, mas nunca explorada de modo mais consequente. Refiro-me ao tema da proibição de se olhar na relação amorosa. O mito de Orfeu e de Eurídice não é, assim, o único a colocar a questão da interdição do olhar, do direito de ver, da necessidade que os parceiros amorosos têm de “se dar a ver”, bem como das interdições e castigos que sancionam a transgressão destes interditos.


AMOR  CORTÊS NUM  JARDIM  MEDIEVAL ( RENAUD DE MONTEAUBON )

O tema do olhar me parece profundamente ligado ao signo de Libra e de Touro e às duas Vênus que os regem, a Vênus “exterior” do primeiro e a  Vênus “íntima” do segundo. A Vênus libriana é, numa aproximação literária, a do amor cortês, desmaterializada, na qual as pulsões carnais aparecem invariavelmente sublimadas, transformadas em obras de arte etéreas, depuradas. O amor cortês, como se sabe, impõe distância, mesuras, vive em grande parte da imaginação (lembremos que Vênus se exalta em Peixes). A Vênus taurina é carnal, pede o sentido do tato, associa-se à plenitude lunar. A Vênus libriana pede mais o sentido do olhar que o toque, 


ASTRÔNOMO
Os astrônomos, com as suas lunetas, há muito, perceberam que o planeta Vênus apresenta fases semelhantes às da Lua, conforme a posição por ele ocupada com relação ao Sol. É de Galileu a observação que A mãe dos amores imita as fases de Diana. Notaram também os estudiosos do céu que todos os acidentes da superfície do astro quase nunca eram percebidos pelo olhar, pois um manto de nuvens invariavelmente os escondia. Dessa constatação astronômica passou-se ao símbolo poético. Os poetas, desde sempre, “traduziram” esse fato astronômico, falando-nos da pudicícia e do recato da deusa, que “jamais baixava os seus véus”. Imaginação, mistério, promessas ou tão só as camadas mais ou menos espessas da atmosfera do planeta... Contra a realidade carnal taurina temos as abstrações librianas. Os tipos librianos, recordemos, são sempre muito sensíveis ao olhar do outro, ao julgamento que este olhar faz. Nos tipos librianos há sempre (?) o temor do olhar do outro, o receio de que este olhar os surpreenda inadequadamente “compostos”, “arrumados”. 

Dentre os muitos mitos que fazem parte do universo libriano, um capítulo importante é o das histórias de parceiros amorosos, de casais, cujos nomes não poderão jamais se separar. As suas histórias transcorrem geralmente em regiões fronteiriças às da morte (Escorpião), falando-nos de interdições de se olhar, de jogos de sedução que passam pelo olhar. Os personagens se dão a ver, mas quem vê ou é visto se expõe sempre a matar ou a morrer.

Orfeu, nome que lembra privação em grego, não escapa destas leis. Filho de um rei da Trácia, segundo uns, de Apolo para outros, é sobretudo um dispensador da harmonia. Com o seu canto e a sua música acalma as bestas, faz cantar a natureza, tem poder inclusive
CALÍOPE
sobre o mundo mineral (as próprias pedras o seguem). Orfeu é um sedutor. Hesita entre Apolo e Dioniso, tentando conciliar estes deuses inconciliáveis, o da medida e do espírito celeste o primeiro e o outro o da vida luxuriante e da desmedida. Sua mãe é a musa Calíope (a de bela voz), a inspiradora tanto da poesia épica como da lírica. Cantor e músico incomparável, a constelação da Lira, segundo alguns, o acolheria quando cumprido o seu estranho destino. 

ARGONAUTAS
Depois de longa viagem ao Egito, Orfeu se engajou na expedição dos Argonautas, comandada por Jasão. Sua função, com a sua música e seu canto, era a de marcar a cadência dos remadores, acalmar as tempestades e distrair os marinheiros atingidos por Pothos, causador do dorido sentimento de nostalgia noturna. Ao voltar da expedição à Cólquida, encontrou a dríade Eurídice (a de grande justiça), por quem se perdeu de amores. Logo, porém, a perdeu. Ao fugir de uma investida sexual de Aristeu, deus apicultor, é picada por uma serpente e morre, descendo, por isso, ao Hades. 



A  MORTE  DE  EURÍDICE ( ERASMUS  QUILLINUS , 1607 - 1678 )

Inconsolável, Orfeu para lá se encaminhou, confiante no seu poder de sedução. Perséfone encantou-se com as melodias do filho de Calíope, convencendo Plutão a libertar a jovem dríade. A história é conhecida: uma condição é imposta; Orfeu iria na frente e Eurídice o seguiria, não podendo ele olhá-la em hipótese alguma até que ultrapassada a saída do reino dos mortos. Na versão clássica do mito, Orfeu perdeu Eurídice porque não observou a interdição, olhando-a muito cedo, vitimado por uma crise de impaciência tipicamente ariana. Dentre as explicações para o comportamento de Orfeu, acredito que algumas hipóteses poderiam ser alinhadas: a) ele duvidou da palavra dos senhores da morte; b) teve medo, temendo encontrar uma Eurídice lívida e desencarnada, um eidolon, um fantasma e não um ser de carne e osso; c) arrependeu-se, não sabendo como assumir o “renascimento” da sua amada, já que o Hades e Eurídice ficariam para sempre associados. 



Ao longo dos séculos, a maior parte daqueles que se aproximaram desta história acusaram Orfeu. Para uns (Jacqueline Kelen, L´Éternel Masculin), Orfeu não sabia apreciar o que lhe escapava, que ele não sabia dominar. Falta de humildade, talvez. Não acreditou no milagre, por isso ele não se produziu. Tem Orfeu muita invenção poética mas pouco amor para ressuscitar a jovem. Platão, no Phedro, acusou Orfeu de fraqueza. Uma alma fraca que não teve a coragem de morrer como Alceste. 

Não podemos esquecer que embora Libra seja um signo artístico, de criações sutis, sua natureza permanece contudo sempre cerebral, como um signo de ar que é. A paixão está presente, o sentimento alimenta o pensamento, mas este se impõe àquela. Em outros termos: quanto mais Eurídice é o centro da poesia órfica, fonte de
JEAN  MARAIS
inspiração, menos ele a aceita e vê como carne e sangue. As versões desta história são inúmeras. Virgílio (Geórgicas) nos fala de imprudência. Ovídio (Metamorfoses), de fatalismo. Depois deles, essa história trágica deu origem a uma grande tradição literária musical e artística. Quanto à música, obrigatória as referências a Monteverdi, Gluck, Haydn e Offenbach; na dança, as coreografias de Roger-Ducasse e de Balanchine-Stravinsky. Na pintura, Breughel, o Jovem, Tintoretto, Rubens, Poussin e Delacroix a utilizaram. No cinema, Jean Cocteau (Orphée) e Marcel Camus (Orfeu Negro). 

Ninguém, que eu me lembre, “levantou” o ponto de vista de Eurídice. Será que ela desejaria realmente voltar à vida terrestre, ela que agora conhecia a morte, ela que agora conhecia tudo o que se passavam no reino de Hades. Apesar de todas as suas declarações, Orfeu, o amado dos deuses, é um ser cheio de fraquezas e de sentimentalismo. Uma personalidade muito “feminina”, como é comum entre os poetas. Ele não é um modelo de afirmação, um ser aguerrido. É ambíguo, oscilante. Características todas que, como sabemos, estarão na causa de sua morte. Uns afirmam que ele se “esqueceu” de honrar Dioniso. Uma versão muito aceita registra que Zeus o fulminou porque ele começou a revelar segredos do Hades que não podiam ser revelados. O mito de Orfeu e de Eurídice não foi o único a propor questões como a da proibição de se olhar, a do direito de se ver, a da necessidade de “se dar a ver” e a de todas as interdições que cercam o tema.

Esta mesma questão da proibição de se olhar nós a encontramos, como se disse, na história de Cupido e Psyche. Embora tenha tentado resistir às insinuações das irmãs, a jovem perdeu a confiança no seu misterioso esposo e acabou por transgredir a interdição. Ela o viu tão belo, tão maravilhoso, que, infinitamente perturbada, deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do seu divino parceiro, acordando-o. Rápido, ele se afastou, dizendo-lhe: Infelicidade para ti, que puseste tudo a perder” Esta cena não pode deixar de nos trazer à mente uma questão (libriana) muito importante, quem sabe uma lição a ser dela retirada, a de que o amor, para conservar a sua força e ação, perdurar, deve ser também cego.


Para recuperar o amor de Cupido, Psyche terá que realizar vários trabalhos, como já vimos, recebendo, para tanto, valioso auxílio divino. Impostos por Afrodite, merecem nossa atenção de modo especial aqueles que a levarão ao Hades. A deusa exige que a jovem encha uma jarra com a água do rio Estige (o que provoca horror), um dos rios infernais, inalcançável para qualquer mortal. Providencialmente, uma águia, a quem, um dia, Cupido auxiliara, resolveu o problema, conseguindo o líquido para a jovem. Enraivecida, Afrodite determinou que ela cumprisse então uma tarefa, a mais terrível de todas, que certamente causaria a sua perdição: Psyche deveria ir ao Hades e pedir a Proserpina (Perséfone) um unguento de beleza que só ela possuía. Psyche, que,
PSYCHE E CARONTE
( J.R.SPENCER STANHOPE , 1829 - 1908 )
até então, havia sempre recebido auxílio para cumprir as tarefas que lhe eram determinadas, sentiu-se perdida, pois ninguém, nem mesmo deuses, ousariam descer ao Hades. Pensou em se suicidar. Dirigiu-se para o alto de uma grande torre para esse fim, para de lá se atirar. Estranhamente, porém, a torre se pôs a aconselhá-la: deveria a jovem munir-se de dois óbolos e de dois pedaços de bolo. Os óbolos para  Caronte, o barqueiro infernal, um na ida e outro na volta, e os pedaços de bolo, do mesmo modo, para o cão tricéfalo Cérbero. Quanto a Proserpina, o máximo cuidado, pois ela gostava de estender armadilhas. 

Psyche foi recebida pela Rainha do Hades e convidada a sentar-se e a fazer uma refeição. Devemos lembrar que há uma lei no mundo infernal que diz o seguinte: quem comer no Hades, um grão que seja, estará condenado a ele voltar e quem lá se sentar numa cadeira, a chamada cadeira do esquecimento, não poderá mais dela se levantar e esquecerá o motivo pelo qual para lá se dirigiu. Psyche, lembrando-se dos conselhos da torre, recusou polidamente os convites, expondo os motivos de sua visita. Obtendo o que desejava, a jovem foi autorizada a voltar à terra. Com o frasco do precioso unguento nas mãos, Psyche pensou em usar um pouco dele para se mostrar ainda mais bela se voltasse a encontrar o seu perdido esposo. Nesta passagem, faltaram evidentemente a Psyche, mais uma vez, comedimento e prudência. Ao abrir o frasco, as substâncias se evaporaram, caindo ela num sono profundo, como se estivesse morta. Tudo isto aconteceu no momento em que ela estava praticamente fora dos limites do Hades.  

Nesse ínterim, Cupido, lamentando a perda de sua jovem esposa, intercedia a seu favor diante de Zeus. Aquiescendo Zeus ao pedido,
MERCÚRIO  OFERECE  A PSYCHE
O  CÁLICE  DA  IMORTALIDADE
( 1510 ,  RAFAEL DE  SANZIO ) 
Cupido não só a recuperou como, por iniciativa do próprio Senhor do Olimpo, a jovem se tornou imortal por lhe ter sido permitido o consumo de um pouco de ambrosia. Unindo-se novamente os amantes, gerarão uma filha que recebeu o nome de Volúpia, sempre representada como uma bela mulher, de faces artificialmente muito coloridas, de olhares lânguidos, postura lasciva, uma figura da qual a modéstia está certamente ausente. Aparece sempre semi-deitada numa espécie de divã florido e segura numa das mãos uma alada bola de vidro, uma imagem sempre carregada de sensualidade. Esta filha que Cupido e Psyche tiveram desqualifica em grande parte, senão totalmente, a meu ver, a leitura que a moderna Psicologia jungiana (Erich Naumann) faz desta história, ao “traduzir” Volúpia como Deleite ou Bem-aventurança, de natureza celeste, tentando espiritualizá-la, características inexistentes ou intenções ausentes do texto de Apuleio.

Todas as provas impostas por Vênus têm certamente qualquer coisa a ver com as vicissitudes do jogo amoroso. Psyche aceita o sofrimento, sente-se fanée, pensa no envelhecimento, chega à beira do suicídio. Há muito de Libra, sem dúvida, na história de Psyche, o desejo de agradar, de permanecer sempre jovem, bela, uma “filha de Vênus”, sempre vulnerável ao olhar do outro, aterrorizada pelo pensamento de não mais ser amada. A história nos fala das armadilhas do amor, dos sonhos de beleza perfeita, do amor que “nunca morre”, de tentações, hesitações, balanceamentos, fragilidade, de muitos componentes do mundo libriano, enfim. Fala-nos também a história das dificuldades que existem para se chegar ao amor adulto, consciente, da confrontação dos olhares, das indagações mudas, da maior ou menor sensibilidade dos parceiros amorosos na captação de nuances e matizes no discurso amoroso. Muitos, ao longo dos séculos, condenaram Psyche, esquecendo, porém, as intermináveis horas de espera que ela suportou para rever o marido, o seu tédio palaciano, o seu bovarismo, alimentado, em grande parte pelo marido e pelas irmãs. A pergunta então se impõe: que significa realmente esta interdição de contemplar o deus do amor? Será que o amor e a morte não podem ser olhados? Na história, Cupido tem o direito de ver Psyche, ela, porém, não pode vê-lo. A história lembra muito a de Endímion, sem dúvida. O jovem e lindíssimo pastor, conforme a versão, era visto por Selene ou por Hipnos, mas não via. 

A história de Cupido e de Psyche, iluminada astrologicamente, talvez nos deixe questões que jamais conseguiremos explicar totalmente. Que se passa realmente quando duas pessoas que se amam abrem os olhos simultaneamente, um atingindo a alma do outro, uma entregando-se ao outro? Um instante absoluto, mágico, milagroso, certamente impossível de ser reproduzido conscientemente. Verdade ou mentira dos olhos?


PSYCHE  RECEBIDA   NO   OLIMPO ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 ) 

Se em Gêmeos o eu está se opondo sempre ao não-eu, em Libra, este modo de ser é ultrapassado para ser procurada uma nova forma de vida, a da complementaridade, a unio, a conjunctio oppositorum. Em Libra, o eu se busca numa relação com o outro. Mas para que isto aconteça é preciso correr riscos, encarar as incertezas, aceitar, quem sabe, as desilusões, é preciso muito esforço, procurar conhecer o outro. Uma leitura que muitos fizeram: Psyche foi aquela que buscou a imagem real do outro, busca que a levou inclusive a usar desastradamente a lamparina de óleo. A pergunta, a meu ver, então se impõe: qual, a rigor, a razão dessa “necessidade de ver realmente o outro”, se os próprios deuses haviam proibido que tudo fosse vivido “às claras”? A história parece deixar claro que a comunhão com o outro não se realiza através do conhecimento racional. Será que foi por piedade que Cupido se dispôs a ajudar Psyche, levando-a para o Olimpo, onde a união de ambos tomou características de uma hierogamia? Ou, simplesmente, reduzindo a história ao essencial, não será ela mais que a revelação da impossibilidade de se encontrar nos relacionamentos humanos o equilíbrio ideal? Ou, astrologicamente, de outro modo, segundo a receita divina: será que não deveríamos preferir para a casa VII, ao invés da razão (a lamparina de Psyche), a escuridão e a imaginação?










sexta-feira, 18 de março de 2011

O EROS FRIO

OS LIBERTINOS


Nascido do Caos, juntamente com Geia, Nix, Érebo e o Tártaro, conforme Hesíodo nos descreve em sua Teogonia, Eros (Cupido ou Amor para os romanos) é a força primordial que vai promover a união das quatro primeiras entidades para que o Cosmos se estabeleça. Eros quer dizer estar inflamado, arder, abrasar. No entender de mitólogos, poetas, filósofos e artistas, Eros é uma força fundamental que provoca não só a constituição do Cosmos como garante a sua continuidade. É pulsão que incita a busca do outro como libido, impelindo à ação, atualizando as virtualidades do ser.

O Eros se confunde com o desejo e é nesta perspectiva que Platão, numa alegoria, como está num de seus diálogos (Simpósio), o vê como filho de Penia (Carência, Pobreza) e de Poros (Artifício, Expediente). Ou seja, uma falta causadora de sofrimento, que, através de um meio, procura satisfação. Representado por um adolescente, sempre inquieto, inconsequente, com arco e flechas, símbolo de seu poder que tudo invade, promove a união de todos os seres, inclusive dos que jamais deveriam ter se unido. Dispara as suas flechas, muitas vezes, com uma venda nos olhos, a esmo, pois o “amor é cego”. Confunde-se Eros com o próprio desejo. Seu objetivo maior é a conquista, a posse, tendo em vista uma plenitude que se esgota no próprio momento em que acontece.

Apressado, inconstante, insatisfeito sempre, uma de suas características mais notáveis é a de procurar presentificar tudo. Para ele, o futuro é o presente, o instante, não sabendo nunca esperar. Seu elemento, como se percebe, é o fogo, que sempre lembra expansão, uma exteriorização dinâmica, incessante. A significação sexual do fogo sempre foi destacada em todas as culturas, não se podendo esquecer que a primeira técnica que o ser humano criou para gerá-lo foi a fricção, um vai-e-vem que é a imagem do próprio ato sexual.

Ao longo dos séculos, por razões sociais, políticas e econômicas, o homem, ao se organizar em sociedades cada vez mais complexas, precisou controlar essa energia, discipliná-la de algum modo, pois, do contrário a vida em sociedade se tornaria impossível. Relações humanas pedem reciprocidade, acordo, atenuação das individualidades. Pessoas em cuja personalidade prepondera o elemento fogo, como se sabe, tendem a se impor naturalmente às demais. É delas serem mais impulsivas, agressivas, terem mais iniciativa. Sem nenhuma contenção, regras, leis, a prevalecer só o Eros, isto é, os desejos unilateralmente, não teremos vida social.

A criação de um padrão de comportamento que colocasse o Eros numa perspectiva de reciprocidade foi então criado. Refiro-me a Afrodite, deusa que, como arquétipo, ligado ao elemento água, tem por função a sublimação das formas eróticas de união, retirando-as de um nível instintivo, para colocá-las numa dimensão especificamente humana. Com Afrodite, a deusa do amor, não mais o desejo unilateral.

Difícil, porém, o controle de Eros por Afrodite. Eros é o desejo que não sabe se esconder, sempre procurando chegar ao seu objetivo, valendo-se de todos os artifícios para tanto. Apesar da vigilância da deusa, incontáveis as ocasiões em que Eros dela escapa. Ao longo da história da humanidade, o diálogo Eros-Afrodite ganhou inúmeras expressões na Arte, na Filosofia, na Política, na Psicologia, conforme as épocas.

No século XVII, na França essencialmente cristã, sob a dinastia dos Bourbon, uma corrente filosófica de livres-pensadores, cuja ideologia fincava as suas raízes no naturalismo pagão da Renascença, assume socialmente o partido de Eros, levando suas propostas éticas e morais às últimas consequências. Audaciosos, eram chamados de libertinos. De início, reprimidos, encontraram logo, por um certo enfraquecimento do poder central do país, ocasião para que as suas idéias viessem à luz.

É entre os chamados “mundanos”, aristocratas cultos e viajados, que esta moda se manifesta inicialmente. Famosa era, ao tempo, Ninon de Lanclos, que pontificava nos salões, por sua declaração pública de que era um “ser sem alma”. Ninon (1616-1707) era bela, culta, amante de poderosas figuras do país. A nobreza e a elite do dinheiro, em grande parte, ridicularizavam as cerimônias cristãs, os “bons costumes”. Espirituosos, lidos, cultos, sofisticados, os grandes senhores e senhoras eram livres tanto intelectualmente quanto com relação às suas atitudes e comportamento. Um exemplo disto esta na descrição que Sganarello, personagem de D.Juan, peça de um dos maiores gênios do teatro de todos os tempos, Molière, faz de seu mestre.


Na Filosofia, esse movimento, chamado “Incredulidade” ou “Libertinagem”, se manifestou menos abertamente, menos escandalosamente. Era mais intelectual, ficava no campo das idéias, no fundo, porém, tão ou mais destrutivo para os padrões do tempo que a sua forma mais aberta, aristocrática. Os pensadores do movimento propunham que se submetessem ao livre exame as verdades reveladas pela religião e tudo aquilo que delas decorresse socialmente. Incrédulos, céticos, formavam o grupo dos “libertinos eruditos”. Faziam parte do grupo, dentre outros, Gassendi, Théophile de Viau e Saint-Évremond. Montaigne, Bayle e Fontenelle também poderiam ser nele incluídos no grupo.

MOLIÈRE
O D.Juan de Molière é apresentado normalmente como um dos modelos do libertino. No séc. XVIII, a Libertinagem desenvolverá uma estética com base numa filosofia naturalista e imoralista, cujos melhores exemplos são o Marquês de Sade e Pierre Choderlos de Laclos. Filosoficamente, à época, a palavra libertino designava um ser livre e que fazia disso o seu modo de ser. Posteriormente, logo, num ambiente mais “popular”, tomaria o sentido de conduta desregrada, desavergonhada, depravada.

No séc. XVII, a divisa desses seres libertos era Vivre comme des dieux. Blasfemadores, agressivos, muitos entregavam-se a um epicurismo de baixo nível. Sua meta era de fazer do mundo um paraíso onde tudo fosse possível. Para os seus inimigos, os bien pensants, de idéias conformistas e tradicionais, eram uns insubmissos, uns criminosos. O que os libertinos mais buscavam eram comportamentos que contrariassem as regras morais e políticas. Todos os recursos poderiam ser usados para tanto, esperteza, trapaça, uso de máscaras e, quando conviesse, conforme as circunstâncias, parecer uma coisa e ser outra, sempre tendo em vista o prazer final. É numa sociedade controlada, como a francesa, que esse modo de ser aparece no séc. XVII e vai se desenvolver no séc. XVIII. Deboche, insensibilidade, insubmissão.

No séc. XVII, libertino é o que está pronto a se bater, a acabar até na prisão, a ser atirado até às fogueiras, para afirmar a sua liberdade de pensar. Pensar contra o poder dominante, a religião católica monoteísta que legisla, dirige e condena. Depois, como se verá, a Libertinagem se estenderá à vida cotidiana, às relações sociais, aos costumes, chegando-se logo à licenciosidade e desta à licença sexual. Sempre, uma maneira de pensar e agir contra o pensamento e a ordem dominantes.

Um dos aspectos que a Libertinagem toma é o Preciosismo, um fenômeno tanto social como moral e artístico (literário), já presente na primeira metade do séc. XVII. Este fenômeno se revela através de uma atividade mundana incessante nos salões aristocráticos, em meio a recepções, festas, grandes acontecimentos. Conversação elegante, quase sempre superficial, galanteria. O Preciosismo como movimento é uma reação social contra o mundo anterior, grosseiro, quase que todo voltado, entre as elites mais conservadoras, para prazeres esportivos, caçadas, cavalos.


O movimento se opõe à natureza bruta, à vulgaridade do instinto. Para tanto, colocará em moda um vocabulário de palavras afetadas, uma polidez complicada, perfumes esquisitos, ritualismo. A grande ocupação era o amor, superior, onde os sentidos não entravam muito. Era, no fundo, mais o desejo de distinção aristocrática pela linguagem. Afastar as palavras e expressões populares, os termos vulgares, empregar eufemismos, perífrases, o pensamento mais sutil.

Na literatura, de modo especial na poesia, procurar sempre a perfeição da forma. Como gêneros, o epigrama, o madrigal, o soneto, o rondó e uma intensa troca de correspondência epistolar. Usar antíteses, jogo de palavras, metáforas ricas, alusões, símiles, assonâncias. Tudo muito recherché (rococó), abstrato, nada que machucasse o ouvido. Sempre, por outro lado, a ameaça do exagero, da afetação, do artificial, do pedante. Todo esse movimento se volta também contra as expressões artísticas inspiradas pelo catolicismo.

É certo que São Francisco de Sales e que São Vicente de Paula, já no séc.XVI, haviam tentado uma reforma da Igreja Católica, de suas ordens monásticas, como haviam procurado melhorar o sacerdócio como instituição, promovendo a educação dos padres, incentivando o seu aperfeiçoamento moral, pedindo uma caridade mais ativa. Mas isto foi muito pouco, quase nada. O que havia no séc. XVII, por parte do mundo cristão, era tradicionalismo, conservadorismo, visão estreita dos problemas sociais do tempo.

Além do mais, não podemos esquecer que apesar das tentativas de reforma ou de remodelação da vida social e dos costumes, os aristocratas, principalmente os seus representantes masculinos, na sua grande maioria, permaneciam fixados no seu egoísmo, agressivos, indiferentes, voltados para as suas prerrogativas de machos, apoiados pela Igreja. Os jovens da nobreza passavam algum tempo nos salões, mas grande parte do ano ficavam presos à vida militar, tendo como diversão lutas de espada e cavalos. O Preciosismo era uma espécie de ângulo feminino desse mundo em ação. Molière, em A Escola de Mulheres falará disso.

É neste mundo que a corrente livre-pensadora ganha força do séc. XVII para o XVIII, atualizando o paganismo renascentista e anunciando o movimento filosófico da Enciclopédia. Embora a audácia dos libertinos no começo do séc.XVII tenha sido reprimida até com mortes, o movimento tomou corpo, firmando-se. Um dos lemas do movimento era “A possibilidade de ensinar os homens a serem felizes.”

Charles Sorel, romancista e polígrafo do século, diz “encontrei um meio de os fazer viver como deuses, se seguirem o meu conselho.” Para isto era preciso fazer tábula rasa das crenças comuns e não ter por valor moral senão a generosidade da alma. Ou seja, amar os prazeres do amor, viver uma experiência de voluptuosidade dentro das relações de amizade.


O movimento se reúne em torno de centros como aquele idealizado por Rabelais no seu Gargantua, a “Abadia de Thélème”, uma comunidade que tinha por divisa Fay ce que voudras (fazei o que quiserdes).


Os libertinos do século passaram então a se reunir em torno de um centro que recebeu o nome de “Académie Putéane”. No plano da afetividade, evocar a felicidade, que significará viver num mundo que não conheça a posse do outro nem a ambição. Um verdadeiro libertino não poderia tolerar que os dogmas se sobrepusessem à experiência nem que as paixões à razão. As paixões transformavam o prazer em tormento.

O séc.XVIII é de agitação social, de perturbações políticas, de crises na economia. Como sempre, nesses períodos, os salões aristocráticos resplandecem, a sociedade se torna mais mundana, brilhante. A conquista amorosa tem agora um novo código. As relações amorosas viram um jogo dramático. É a libertinagem como proposta total de vida. Nesse sentido, dois escritores se destacarão no século, ambos ligados à vida militar. Um é Donatien Alphonse François, conhecido como o Marquês de Sade (1740-1814), dono de uma biografia repleta de escândalos. Radicalmente subversivo, contesta todo o sistema baseado no princípio da autoridade em nome de uma vontade de poder que se exerce pela violência em todos os sentidos, inclusive sexual.



A libertinagem de Sade, vivida inicialmente como privilégio aristocrático, recrudesceu a partir de 1768. Depois de uma série de escândalos e de condenações, Sade foi encarcerado e condenado à morte. Fugiu da prisão e novos escândalos o obrigaram a fugir para a Itália. Retornando à França por causa da mãe, moribunda, foi preso. Escreveu vários textos, como o Diálogo entre um Padre e um Moribundo, Os Infortúnios da Virtude, Justine, Cento e Vinte e Oito Dias de Sodoma, A Nova Justine, História Secreta de Isabel da Baviera e outros. Num certo sentido, a obra de Sade poderia ser ligada à Filosofia, pois ele se destaca, dentre os escritores libertinos, por colocar questões e teses sobre a subversão social muito mais pela violência do que pela via sexual.


O maior expoente da Libertinagem no século é, entretanto, Pierre Choderlos de Laclos (1741-1823). Oficial do exército, estrategista, questionou toda autoridade em proveito do prazer. Sua obra mais conhecida, As Ligações Perigosas, é um verdadeiro tratado do Mal. Seus personagens são inesquecíveis, Valmont, Mme. de Merteuil, Mme. de Tourvel... Sempre, nele, os tormentos da paixão de um lado, e, de outro, a vida racional, o “Eros frio”.

Para Laclos, a principal regra no jogo da Libertinagem, na síntese feita por Roger Vailland (Laclos par lui-même) é a observância da sua máxima e estrita virtude: “Sempre em ação, sempre seduzindo, nunca seduzido.” A seguir, as regras: 1) a escolha deve ser sempre meritória; 2) a sedução-ação, como na caça com cães, deve dar todas as chances à mulher a ser perseguida; 3) quanto à queda, executar esta etapa com muita clareza e sem muitas fioritúre, floreios, variações; 4) na ruptura, o mérito está no éclatant (brilhante). Ou seja, romper em grande estilo. Esta etapa é sempre um grande desafio para o libertino, nada de ternuras, romper de tal modo que a vítima deva procurar a morte, real ou simbólica.

Como corolários, a Libertinagem: 1) deve ser o contrário do amor-paixão. O contrário, por exemplo, de La Princesse de Clèves ou de Manon Lescaut. No entender do libertino, o amante apaixonado não escolhe. O deus Eros lança a sua flecha e ele capitula. Esse coup de foudre para um verdadeiro libertino é sempre muito vulgar. 2) O libertino não deve ser um coureur, isto é, não deve viver de um lado para outro, excitando-se por qualquer mulher. O “alvo” deve ter valor, sua conquista deve ser meritória (mulheres que são monumentos de virtude). Por isso, o alvo deve ser escolhido livremente, com muita calma, com a devida apreciação e avaliação. 3) A Libertinagem caminha no sentido contrário do amor erótico. Sexo é termo da biologia (não foi por acaso que uma sociedade tão imatura e primária como a norte-americana inventou essa idiota palavra, sexy, algo impensável para o libertino). O libertino jamais usa a palavra sexo. 4) A Libertinagem exige longa formação, exercício permanente, aperfeiçoamento constante. 5) A execução deve ser magistral, nada de pedantismo, orgulho, ufanismo. A arte pode admitir a cumplicidade, a mais terna das ligações para um verdadeiro libertino.

A Marquesa de Merteuil explica, na sua carta 81, com autoridade marcial, que a educação libertina procura dar à pessoa o controle do seu ego. Para ser um libertino, devemos aprender a dominar as nossas emoções, tornarmo-nos mestres dos nossos sentimentos. A paixão sempre é um elemento perturbador do jogo libertino. A agitação é também inimiga da volúpia. O sonho de muitos libertinos: permanecer em liberdade, apenas algumas amizades escolhidas, não se dispersar. Procurar então a “honesta” volúpia, de modo a esperar serenamente a morte. O libertino não vê nenhum proveito na mortificação dos sentidos. Por isso, sente grande felicidade ao usar formas variadas de prazer. Uma citação muito difundida: “O sábio dos estoicos é um virtuoso insensível; o dos epicuristas, um voluptuoso imóvel.” Para o libertino, o primeiro está na dor sem dor; o outro saboreia a volúpia sem volúpia. E, arrematando: “Todo solitário é sempre uma figura sinistra.”

Nada, por isso, de enfeitar, alongar muito o jogo. Tudo rápido, eficaz. O libertino lembra que uma palavra pode assegurar uma reputação ou levar à ruína. A paixão subjuga, escraviza. Coloca quem a sente num estado de sofrimento. Todo apaixonado é um abatido. Escolher, pois, livremente o objeto da chama. Por isso, sempre sujeito, nunca objeto. Autodomínio completo. Buscar a aquisição de novas técnicas, usar muita criatividade, lucidez acima de tudo. Enfim, nada de ilusões ou vaidade com relação às vitórias.