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terça-feira, 18 de julho de 2017

VIRGEM (1)


VIRGEM
As antigas civilizações do oriente, como a védica, e mediterrâneas, como a egípcia e a grega, tinham pleno conhecimento da influência das  chamadas eras cósmicas no desenvolvimento e na evolução dos povos. As eras cósmicas foram estabelecidas em função da passagem do Sol pelas constelações zodiacais, definindo esta passagem, em linhas gerais, segundo cada constelação, por um determinado período, para esta ou aquela civilização, modelos muito semelhantes relacionados com os seus fundamentos religiosos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos. Cada período tem a duração de 2.160 anos, correspondente a 30º dos 360º que tem o ciclo completo.  

No chamado zodíaco das constelações esta progressão solar tem a duração de 25.920 anos, o chamado grande ano pitagórico, correspondente a um deslocamento solar de 360°, e de 2.160 anos se considerarmos o trânsito do Sol através de uma única constelação (30°). Este ciclo composto pelas doze constelações, baseado na chamada precessão dos equinócios,  nos permite perceber que há ciclos de tempo muito mais extensos dos que usamos normalmente, de grande importância para o entendimento da evolução da humanidade como um todo.



A era cósmica em que nos encontramos hoje, a de Peixes, começou em 498 dC. e terminará em 2.658 dC. As eras que a antecederam têm as seguintes datas de ínicio: Áries (1.662 aC), Touro (3.822 aC), Gêmeos (5.982 aC), Câncer (8.142 aC), Leão (10.3102 aC.). Estamos hoje na terceira e última fase da era de Peixes, que começou no ano de 1.938. 

As eras cósmicas são a própria memória do mundo. Os ciclos precessionais, que as determinam permitem-nos interpretar a história da humanidade já que marcam elas o aparecimento de raças, nações e religiões. Determinam inclusive o nascimento, a ascensão e a morte de uma raça raiz. O grande ano zodiacal de 25.920 anos se divide em quatro períodos (estações) de 6.480 anos, formados cada um por três eras cósmicas. O predomínio da raça ariana teve início quando o Sol ingressou na constelação de Áries, em 1.662 aC, e se estenderá até 4.818 dC, nele se incluindo as eras de Peixes e de Aquário. No período anterior ao do domínio da raça ariana, tivemos a evolução, a ascensão e a decadência da chamada raça atlante, durante as eras de Câncer, Gêmeos e Touro. 


GRAHAM   HANCOCK
As mais antigas referências que temos sobre Virgem nos apontam para um período muito recuado, a-histórico, anterior ao ano 10.000 aC. Foi por esse tempo, quando o Sol transitou de Virgo para Leão, como está hoje comprovado por pesquisas arqueológicas conduzidas por Graham Hancock e outros, que antigos povos, habitantes da região que mais tarde receberia o nome de Egito, levantaram um monumento para celebrar tal passagem. Refiro-me à esfinge de Gizé, uma estátua de pedra calcária, uma figura mítica, formada pela cabeça de uma mulher e por um corpo de leão com asas de águia. 

ESFINGE   DE   GIZÉ
DEMÉTER
( J.A.WATEAU , 1770 - 1718 ) 
Estudos recentes (séc. XX), contrariando o que a egiptologia tradicional sempre defendeu erroneamente, comprovaram que a parte humana da estátua era a cabeça de uma deusa das colheitas, a deusa Ísis, irmã e esposa de Osíris, associada mais tarde por Heródoto à deusa Deméter, dos gregos, e à deusa Ceres, dos romanos. Ela era representada nesta forma como uma mulher de porte majestoso segurando na mão um maço de ramos de trigo que ela teria lançado nos céus para formar a Via Láctea. Nas histórias que os egípcios nos contam sobre ela, uma variante nos diz que, desgostosa com o comportamento dos humanos, ela  se retirou da terra numa idade que corresponderia à da Idade da Prata da mitologia grega.

Uma das melhores maneiras de se apreender as principais características do signo de Virgem está na analogia, na solidariedade, que há  entre a mulher e a agricultura. Esta solidariedade pode ser descrita, num primeiro momento, através da aproximação da fecundidade da terra,  da  capacidade geradora do elemento feminino, aproximação fundamental para que seja possível a aquisição de uma consciência de que a vida, a morte e o renascimento são interdependentes.


MÃE DOS CEREAIS
No cenário “agrícola” do signo de Virgem as suas características mais marcantes estão certamente no poder da colheita e na destinação do que se colheu. Inúmeros ritos e costumes, ao logo da história do homem, atestam estes poderes. Eles sempre foram vistos como uma força sagrada e representado por figuras míticas. Quaisquer que sejam os modelos, eles giram invariavelmente em torno da figura de uma Grande Mãe, chamada geralmente de Mãe do Milho, Mãe do Trigo, Mãe dos Cereais etc.  

Em muitas tradições, desde tempos pré-históricos, era comum o sacrifício de seres humanos por ocasião das colheitas. Na mitologia grega, por exemplo, as reminiscências deste rito estavam em certas passagens míticas. Uma história grega nos fala de Litierses, um filho bastardo do rei frígio Midas. Ele possuía muitas terras, inteiramente ocupadas pela cultura do trigo. Era conhecido como o ceifeiro maldito. Sempre que, no tempo das colheitas, um estrangeiro passasse pelos seus domínios ele lhe dava hospedagem e o convidava a segar o trigo. Este convite era um desafio, uma competição. Se o estrangeiro ceifasse o trigo mais rapidamente que ele poderia ir embora. Se não, o que sempre acontecia (Litierses era imbatível na ceifa), ele o matava, decapitando-o, e lançava o corpo da vítima despedaçado nos campos. Esta história termina quando Hércules, a serviço da rainha Ônfale, foi incumbido de enfrentá-lo. Nosso herói o venceu e o decapitou.  


OS   CEIFADORES  ( PIETER  BRUGHEL , 1565 )

Evidentemente, o que temos aqui, por trás do mito, é o costume antiquíssimo do sacrifício de uma vítima humana para a regeneração da força manifestada na colheita, um sacrifício no qual se repete o ato que deu vida aos grãos (para que algo nasça é preciso que algo morra). O homem primitivo, compreenda-se, viveu durante milhares e milhares de anos na ansiedade quando das colheitas, pois poderiam esgotar as forças geradores da terra. Além disso, havia o medo de que o Sol não voltasse quando de sua viagem hibernal, que a própria Lua, tão próxima, também resolvesse desaparecer ou que a semente, por uma razão qualquer, não vingasse. Daí, o costume de se oferecerem as primícias (os primeiros frutos) para ser tentada uma reconciliação com todas estas forças que agiam no interior da terra e nos frutos como também para ser obtida a permissão de consumir os produtos obtidos sem risco nenhum. 


HÓRUS  ,  OSÍRIS ,  ÍSIS 

Embora Ísis, devido à sua enorme popularidade entre os egípcios assimile traços de outras deusas gregas (Hera e Afrodite) é com Deméter que ela mais se identifica. A história desta deusa nos foi contada por Plutarco, historiador grego. Revela-nos ele que ela era filha de Geb e de Nut. O primeiro lembra o Kronos grego e a outra, Reia, ambos, titânidas, filhos de Urano e de Geia, que formam as divindades regentes da segunda dinastia da mitologia grega. Ainda muito jovem, Ísis foi escolhida por seu irmão Osíris para ser sua esposa. Dessa união nascerá Hórus, que, com os pais, constituirá a grande tríade religiosa egípcia.   

NA  RODA  DE  FIAR
( CORNELIS KOPPENOL )
Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos (entre os egípcios, diz-se de cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil , que compreendia doze meses de 30 dias cada um; epago, em grego, quer dizer levar, transportar). Subindo ao trono com seu irmão mais velho, ela o ajudou na sua obra civilizadora, ensinando às mulheres a fiar o linho e tecer; ela também ensinou aos homens a arte da cura de doenças e os inspirou a viver em núcleos familiares, instaurado a cerimônia matrimonial (vínculo ritual pelo qual a mulher se torna mãe). 


ÍSIS

Como Osíris viajava muito, ocupado com o seu culto (conquista pacífica do mundo), Ísis se tornou a regente do país, sempre governando sabiamente. Imensa foi a sua dor quando tomou conhecimento do assassinato de Osíris por Seth, o Violento, irmão de ambos. Cortou os seus cabelos, rasgou as suas vestes e partiu à procura no rio Nilo da arca onde, segundo soubera, o corpo despedaçado do marido estava encerrado. Levada pela correnteza do rio até o mar, a arca chegou à costa fenícia. Numa praia, a arca foi ter a um tronco oco de um tamárix, nele se alojando, sem nenhum sinal exterior de sua presença nele.

A esse tempo, o rei de Biblos estava construindo um palácio e muitas árvores eram abatidas. Uma delas foi este tamárix, usado para escorar o teto da edificação. Logo se espalhou a história que desse tronco se desprendia um perfume estranho. Chegando tal história a Ísis, ela logo se dirigiu ao local. Sem revelar quem era,
ASTARTE
conseguiu se fazer receber pela rainha Astarte, que lhe confiou seu filho recém-nascido, tornando-se Ísis assim a ama da criança. Enquanto esperava uma oportunidade para se aproximar melhor do tronco da árvore, Ísis cuidou do jovem príncipe. A criança, todas as noites, era purificada por ela, segundo determinados ritos de calcinação, cujo objetivo era o de torná-la imortal. A rainha, contudo, a surpreendeu numa noite quando da prática de  tal rito. Nesse momento, Ísis revelou quem era e o motivo da sua vinda a Biblos. Obteve logo o tronco da árvore, abriu a arca, vertendo copiosamente suas lágrimas sobre os restos de Osíris, e, levando a arca para o Egito,  escondeu-a numa região pantanosa, para afastar a possibilidade de Seth encontrá-la. Nem todas as partes do corpo de Osíris, entretanto, estavam na arca. Seth, para impedir a reconstituição do corpo do irmão, distribuíra, por vários lugares, em catorze pedaços, o seu restante, pretendendo, com isso, aniquilá-lo para sempre. 

Sem se desesperar, Ísis se pôs a procurá-los, encontrando todos, menos o pênis, que um peixe do rio havia devorado. A deusa começou então cuidadosamente a recompor o corpo; ajudada pela sua irmã Neftis, por seu sobrinho Anúbis, por Toth, o vizir do
EMBALSAMAMENTO
defunto, e por Hórus, seu filho póstumo, que ela havia concebido unindo-se ao cadáver de seu marido, magicamente reanimado por seus encantamentos. Ísis praticou pela primeira vez, os ritos de embalsamamento, que proporcionaram ao deus assassinado uma vida eterna. Depois de tudo isso, a deusa se retirou e para escapar da fúria de Seth refugiou-se nos pântanos, a fim de educar seu filho Hórus, até que atingida por ele a idade adequada para poder vingar o pai. 

Graças à proteção e aos encantamentos da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos. A deusa era detentora de uma magia que astuciosamente obtivera do deus Ra, quando a seu serviço. Tal aconteceu quando Ra, tomando a forma de um velho de membros trêmulos e de boca babosa, vindo a perambular pelo mundo dos mortais. Ísis, usando terra impregnada da baba do deus, fabricou uma serpente venenosa, que, colocada no caminho do velho deus, o mordeu. Incapaz de se curar, Ra teve que recorrer à deusa, que o salvou. Foi nessa ocasião que Ísis, segundo o mito, se apoderou do nome secreto de Ra, conquista que lhe permitiu estender o seu poder por todo o universo, sendo adorada, por isso, em todo o mundo mediterrâneo, como deusa suprema e universal. Mãe da natureza, dos elementos, divindade tutelar dos manes, tornou-se Ísis o centro de vários círculos esotéricos, sendo considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e do renascimento. Passou ela a personificar desde então a anima universal, e, quanto ao mundo masculino, a somatória de todas as tendências femininas do seu psiquismo.  


TEMPLO   DE   PHILAE

Ísis, no mito osiriano, representa a terra fértil do Nilo, fecundada anualmente pelas cheias do rio, isto é, por Osíris, que separa dela Seth, o deserto. Seu culto não cessou de crescer em importância, a ponto de praticamente apagar o de todas as demais deusas. Ultrapassando as fronteiras do Egito, foi o seu culto levado por viajantes e comerciantes para o mundo greco-romano, de onde alcançou as margens do rio Reno, na Germânia. Nas margens do Nilo, ela conservou seus fiéis até o séc-IV dC. Somente no séc. VI, sob o reino de Justiniano, que o templo de Philae, seu principal santuário no extremo sul do país, foi fechado e transformado em igreja católica. 


APULEIO
As festas em honra a Ísis eram celebradas na primavera e no outono, como, aliás, as dos Mistérios de Elêusis, na Grécia. As descrições que Apuleio (escritor latino do séc.II dC) nos deixou sobre as majestosas procissões em sua homenagem podem nos dar, ainda que muito imprecisamente, algumas informações sobre os seus ritos iniciáticos (isíacos). Ísis sempre foi representada como uma mulher majestosa, levando na cabeça uma espécie de coroa estilizada, um ideograma de seu nome. Aparece a deusa às vezes ostentando um disco na cabeça; em outras ocasiões, lembra a deusa Hathor, pelo seu teriomorfismo (cabeça de vaca). Seu emblema era
CRUZ   ANSADA
um nó mágico de nome Tat, chamado nó de Ísis, ou cruz ansada, uma união simbólica do céu e da terra,  e o sistro (trombeta aguda), também símbolo de Hathor.  A escultura e a pintura a representam geralmente ao lado de Osíris, a quem dá assistência e protege, o mesmo fazendo também, de um modo geral, com todos os mortos, com seus braços abertos, como asas. Em algumas representações, aparece chorando ao lado dos sarcófagos ou velando os vasos canopos, onde se guardavam as vísceras dos mortos. Numa outra forma, aparece aleitando Hórus ou o protegendo quando de suas lutas contra Seth.



ÍSIS   ALEITANDO   HÓRUS

Uma grande semelhança pode ser apontada entre Ísis, nas representações em que aparece segurando Hórus, como puer aeternus, nos seus braços, e Perséfone, que, na segunda fase dos Mistérios de Elêusis, a epopteia, carrega num dos braços Brimo, o mesmo puer aeternus, e numa das mãos um feixe de trigo. Ligado a Atenas pela chamada Via Sacra, o santuário de Elêusis estava sob a tutela de Deméter (Grande Mãe) e de Koré, sua filha, divindades do mundo vegetal e de seus ciclos. Elêusis foi sempre um teatro de cerimônias iniciáticas, cujos ensinamentos, de caráter absolutamente esotérico, não podiam ser divulgados sob pena de morte, pena que era também aplicada àqueles que, não iniciados, resolviam ingressar no santuário sagrado. 


ELÊUSIS

Os vestígios desse santuário podem ser hoje visitados no alto de uma acrópole que domina o golfo de Elêusis e a ilha de Salamina. É de se salientar que arqueólogos ingleses e franceses pesquisaram o local no séc. XIX. A partir do fim do período romano da história grega e da imposição do cristianismo como sua religião oficial, as majestosas instalações do santuário entraram em decadência, ficando o lugar cercado por uma topografia confusa, mas envolvendo-o sempre, ainda hoje, um halo de sopro espiritual ao qual se misturam a poluição proveniente de uma estrada cujo trânsito é bastante pesado. À volta das ruínas, algumas flores, lembranças de um tempo em que elas se espalhavam por toda a região, hoje substituídas por “florescentes” usinas.  

Segundo a mitologia, foi em Elêusis que Deméter encontrou a sua filha Koré, que fora raptada pelo deus Hades perto do lago de
GRÃOS  DE  TRIGO
Pergusa, na Sicília. O rei de Elêusis, Keleos, tendo oferecido hospitalidade à deusa, ela, em agradecimento, deu a Triptólemo, filho do soberano, o primeiro grão de trigo  e lhe ensinou a arte de fazê-lo frutificar. Uma estela do séc. V aC, encontrada em Elêusis, hoje no Museu Arqueológico de Atenas, ilustra a doação da deusa ao jovem príncipe. Simultaneamente, Deméter teria comunicado ao grão-sacerdote Eumolpo o ritual do culto da fecundidade.

Deméter, como se disse, era a deusa do trigo, da fecundidade dos campos, e sua filha Koré, tendo assumido a posição de deusa do mundo ctônico devido às “artes” de Hades, como Perséfone, acolhia os mortos quando lá chegavam. Este culto, sem dúvida, tem origem, num primeiro momento, no Egito e, depois, no mundo cretense e egeu, por onde se introduziu na Grécia. O culto que se celebrava no interior do santuário era reservado só aos iniciados, sendo, porém, franqueadas a todos  as festas que se realizavam exteriormente. 

Inicialmente, um culto agrário de fecundação da terra, os Mistérios eleusinos se tornaram, possivelmente sob a influência do orfismo, uma espécie de terapia coletiva, embora alguns o vissem como uma religião de salvação. Os Mistérios, principalmente devido à relevante participação de Dioniso, estavam abertos a todos, sem distinção de classe ou de sexo, mesmo os escravos nele eram admitidos se originários de colônias gregas, tudo muito diferente dos cultos apolíneos, de caráter aristocrático. Os bárbaros, inclusive, poderiam deles participar se se naturalizassem. 

A pessoa que quisesse se iniciar deveria se apresentar a um funcionário sacerdotal através de um ateniense já iniciado. Este funcionário assumiria então a condição de mistagogo (professor) perante o candidato. Aceito, participaria então o candidato dos Pequenos Mistérios, em Agra, que começavam por uma purificação no rio Ilyssos. Ao logo dos seis meses seguintes os candidatos iam
ELEUSINION
se tornando mystai (iniciados). No outono, tinha início a segunda fase, a dos Grandes Mistérios, que começava em meados de setembro, segundo o nosso calendário. No dia determinado, alguns efebos iam a Eleusis buscar os hiera, objetos sagrados (de composição ignorada para nós), que, no dia seguinte, deveriam ser levados em procissão a um templo de Atenas, o Eleusinion, em procissão com muita pompa.  

No dia seguinte, chamado ogyrmos (reunião), todos se reuniam sob um pórtico de Atenas e o arconte-rei, numa oração, conclamava a que se afastassem dali todos aqueles que, por qualquer razão, estavam impuros, manchados por um crime qualquer, ou marcados pela atimia (privação dos direitos de cidadania), Depois, iam todos
ASCLÉPIO
ao mar para outra purificação, sacrificando-se em seguida uma leitoa ainda em fase de aleitamento (khoiros, nome também do órgão genital feminino). Nos dois dias seguintes realizavam-se as festas em honra a Asclépio, dentro do calendário eleusino. No dia 19 de setembro, à noite, tinha lugar a grande procissão noturna que levava os hiera de volta a Elêusis, tudo sob a tutela de Dioniso, o deus das metamorfoses. A saída de Atenas se dava pelo cemitério da cidade, chamado 
Cerâmico (bairro onde viviam e trabalhavam oleiros, ceramistas etc.). 


CERÂMICO

Pela região de Agra, fora dos limites de Atenas, território pequeno, mas muito rico (plantações de trigo e centeio), seguindo a Via Sacra, atingia-se ao cair da noite, depois de muitas paradas, com danças e sacrifícios, o território sagrado eleusino, atravessando-se a ponte do rio Cefiso, que separava o profano do sagrado. Essa travessia era marcada por gritos e expressões chamadas geferismos (gephyra, ponte) que incitavam os mystai a atravessar o rio Cefiso, que, como se disse, separava o mundo profano do mundo sagrado, o do santuário.  

As cerimônias que se realizavam estão constituíam a primeira fase dos Grandes Mistérios, a chamada teleté (tele, em grego, é longe; uma referência aos que tinham feito a viagem). Era o primeiro grau da iniciação. Sob a tutela de Dioniso, esta fase se compunha de uma orgia (cantos, danças e bebida, o kykeon), através da qual se atingia um êxtase (sair de si) e se chegava finalmente ao entusiasmo (deus em nós).

Os depoimentos sobre estas experiências afirmam unanimemente que elas lembravam o caminho titubeante das almas nas trevas, presas de inúmeros terrores. Subitamente, porém, como que atingidas por uma intensa luz as almas se sentiam livres, passando a descortinar paisagens maravilhosas, campos férteis. Essas concepções têm forte conotação órfica ou egípcia, segundo seus costumes funerários, conforme Platão notou. 

PERSÉFONE
A segunda fase dos Grandes Mistérios, realizada no interior do templo (Telesterion), tinha o nome de epopteia (a grande visão). Lá, na obscuridade, representava-se uma pequena encenação teatral, a procura de Koré por Deméter e o retorno da primeira à luz, uma simulação dos desencontros da alma e o seu retorno. Aparecia na encenação, segundo depoimentos, uma enorme figura feminina (Perséfone), com ramos de trigo nas mãos, e carregando num dos braços uma criança, Brimo, o puer aeternus, a vida que sempre renascia, mas sempre de outro modo. Nestes espetáculo os sacerdotes conclamavam os mystai a se abrirem para uma outra forma de vida pois “agora eles haviam visto”, isto é, haviam se tornado epoptes.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

DAS FLORES - II


O  ASFÓDELO




A presença de árvores, arbustos, flores e ervas nos mitos comprova, desde a mais remota antiguidade, a importância da ligação entre os seres humanos e o mundo vegetal. Os exemplos, inúmeros, podem ser colhidos em todas as tradições. Uma das mais belas ilustrações dessa ligação, por exemplo, pode ser constatada num baixo-relevo retirado de Farsala (a antiga Phtia homérica, capital do reino dos Mirmidões), hoje no Louvre, no qual Deméter e Perséfone trocam flores amorosamente, pondo-nos diante de temas como morte e renascimento.


DEMÉTER E PERSÉFONE

Os antigos poetas gregos, desde Homero, sempre entenderam que algumas flores tinham um claro sentido funerário, servindo de comunicação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. Neste cenário, destacava-se, mais que todas, o asfódelo. Qualquer grego que encontrasse essa flor não só no Keramikos (cemitério de Atenas, na antiguidade) , no Likavitos, o monte dos lobos (de onde se descortina a mais bela visão de Atenas) ou num jardim, num terreno baldio, ao longo de algum caminho, “sentia” ali, de alguma maneira, a presença da morte.


KERAMIKOS
LIKAVITOS

 Com raízes profundas, o ciclo vital dessa flor coincide com o da própria natureza, falando não só da morte, mas, também, de renascimento. Embora não citados no mito, dois tipos de asfódelo podem ser notados hoje, crescendo na paisagem grega naturalmente, dando dois tipos de flores Asphodeline lutea e Asphodeline luburnica, muito usadas na Europa central como flores ornamentais.


HASTULA REGIA
ASPHODELINE LUTEA
                                
Considerada a rainha das flores infernais, o asfódelo, perdendo a sua beleza no outono, dava à paisagem um aspecto meio sombrio, lembrando solidão e tristeza. Conta-nos a mitologia grega que as almas dos mortos que desciam ao Hades, conduzidas por Hermes na sua função de deus psicopompo, depois de atravessar o rio Aqueronte e julgadas, ficavam perambulando por um certo tempo antes de tomar o caminho para um destino final, eterno (Tártaro) ou provisório (Érebo ou Campos Elíseos), num prado coberto de asfódelos.


RIO AQUERONTE

Muitos que se referiram a esta flor aproximaram  etimologicamente seu nome da palavra latina cetro. A origem dessa ligação asfódelo-cetro, parece-me, está numa observação que Plínio, o grande naturalista romano, nos deixou, ao salientar que pela grande importância que a flor tem na mitologia do Hades ela só poderia ter sido criada por uma potência detentora de um cetro, divina. Hastula regia foi a expressão que usou. Em latim, hastula é palavra que designa o machado real, símbolo de poder, que alguns usam para designar também a flor.

O asfódelo faz parte da família das liliáceas. As flores desta família são geralmente bulbosas, contêm alcaloides, com rizomas ricos em fécula, cultivadas como ornamentais e usadas também para a alimentação e a elaboração de medicamentos. Há perto de vinte diferentes tipos de asfódelos, que se distribuem por toda a bacia do Mediterrâneo, sendo também encontradas da Ásia Menor à China.

HOMERO
Homero, na Odisseia, a chamou simplesmente de asfódelo do campo, ligando-a ao rapto de Kore por Hades, deus infernal. Ao aparecer nas margens de muitos rios gregos, foi utilizada poeticamente para representar as almas dos heróis mortos na guerra de Troia. As suas hastes nuas eram usadas para representar os exércitos que lutaram nas guerras e agora vagueavam sem destino às margens do rio Aqueronte, no Hades.

Aparecendo em tufos, com um odor desagradável, sombreada por traços violáceos, pintalgada, o asfódelo, pelo destino que lhe deram os humanos, reforçava essa associação infernal. As suas raízes, assadas, misturadas com figos, eram usadas na antiguidade como refeição servida quando do falecimento de alguém nos banquetes fúnebres. O costume, aliás, ainda é hoje notado em algumas regiões do interior do país.

Desde o período arcaico da história grega sabia-se da crença segundo a qual as almas dos mortos se alimentavam das raízes dos asfódelos, razão pela qual foram eles muito plantados nos cemitérios. Homero chamou de “desertos de asfódelos” a região habitada pelos mortos. Uma explicação para a proliferação dessas flores na paisagem grega era a de que as ovelhas e cabras costumavam evitá-las por causa de uma certa aspereza. Por isso, onde entrassem a vegetação original degenerava. Na vida do homem grego antigo, o asfódelo, apesar de sua beleza e do seu valor simbólico, era uma planta “ruim”. Florescendo entre abril e agosto, permanecia no outono ressequida, áspera, perdido todo o seu antigo esplendor. Na planície, porque crescia em desordem, os espaços por elas cobertos, depois de agosto, se reduziam a uma grande quantidade de hastes retorcidas, secas, a sugerir o mundo infernal. Entre a beleza e a desolação, lembravam, num primeiro momento, o esplendor de Kore que fora raptada na Sicília, num prado coberto de asphodelus albus, e, noutro, a terrível Senhora do Hades.

DIONISO


Segundo Teócrito (etimologicamente, o que julga as deusas), que viveu entre 315-250 aC, inspirador de Virgílio, o asfódelo tinha relação com o deus Dioniso, dos Mistérios de Elêusis. Nos antigos afrescos do santuário, apareciam coroados com a flor Deméter, Perséfone e o próprio Dioniso. Dentre outras referências míticas sobre  ela, há a que nos informa que no jardim que a deusa Hécate mantinha no Hades, para as suas ervas usadas na feitiçaria, os asfódelos ocupavam grande espaço.

                                                                                                                                                                                     
ASPHODELUS FISTULOSOS

Dentre seus vários tipos que aparecem na paisagem infernal, um dos mais citados é o asphodelus fistulosos, com pétalas elegantemente dispostas, estreitas, valorizadas por seu aspecto decorativo. Faziam parte da vegetação dos Campos Elíseos, lugar, como se sabe, onde as almas ficavam sem nenhum sofrimento aguardando o seu retorno à vida.

EPIMÊNIDES

Um dos mais curiosos registros sobre as virtudes da flor é o que nos dá a conhecer que Epimênides, considerado por muitos como um dos sete sábios gregos, usava-a juntamente com a malva para saciar a sua fome e a sua sede. Quem nos fala disso é Plutarco no seu Banquete dos Sete Sábios. Diógenes de Laércio, por outro lado, afirmava que por ter Epimênides só se alimentado com ervas e raízes teria vivido mais de 150 anos. Nascido em Cnossos, capital do reino de Creta, Epimênides vidente e poeta, é personagem cuja vida transcorre entre o mito e a história, sendo considerado por alguns como um dos fundadores do orfismo, juntamente com Onomácrito.


ILHA DOS MORTOS
Ainda no Hades, o asfódelo era encontrado também na ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte, rio que separava o mundo dos vivos do mundo dos mortos, e que devia ser atravessado pelas almas (eidola). Todavia, aqueles, cuja morte não se revestira de todos os ritos necessários à sua passagem para o Outro Lado, ficavam na ilha, governada pela Medusa. Isto colocava essas almas numa espécie de limbo, um estado entre a vida e a morte do qual jamais conseguiriam sair.

Outra ilha, Ogígia, citada por Homero na Odisseia, onde vivia a ninfa Calipso, é também famosa pelos asfódelos nela encontrados, num bosque sagrado, em meio à sua vegetação. Calipso, nome que etimologicamente lembra ocultação, desaparecimento (kalyptein, cobrir, ocultar, esconder), era aquela que ocultava, que fazia desaparecer, que tirava do convívio humano, uma metáfora do Hades, mais exatamente dos Campos Elíseos.

Apaixonada por Ulisses, tentando fazê-lo esquecer Ítaca, a bela Calipso desejava retê-lo, dando-lhe em troca a imortalidade. Na tradição mítica, muitas ilhas, como se sabe, eram habitadas por

ULISSES E CALIPSO
mulheres que possuíam poderes temíveis, associados aos mistérios e à magia. Separadas do todo, as ilhas eram, ao mesmo tempo, promessa de vida paradisíaca e vida infernal.

Além do mais, Calipso era uma fiandeira, como as Moiras; passava os seus dias a fiar, em companhia de várias ninfas, que cantarolavam docemente. O canto, no mito, é um dos grandes artifícios da sedução. Lembre-seque as Sereias eram chamadas de as “crueis cantoras” porque causam a perdição de todos os navegadores. A vida e a morte estão intimamente ligadas à ideia de fiar, de tecer. Não é por acaso que falamos em tecidos do corpo. Vida tanto é tecido como trama.

Homero nos deixou claro que o maior bem dos heróis da Idade do Bronze era o prazer de sua timé, da consideração pública. Não lhe interessava uma consciência tranquila, mas, sim, acima de tudo, o reconhecimento e o respeito da opinião pública, baseada na sua arete, habilidade guerreira. No caso de Ulisses, algo mais, a sua grande astúcia e prudência, polymetis. Ficar em Ogígia, para Ulisses, era morrer, virar uma sombra, skia, como os mortos do Hades.
 
CALÍMACO
VICTOR   HUGO
Dentre os poetas gregos, além de Homero, atraídos pelo asfódelo, não podemos esquecer um dos melhores, Calímaco (315-240 aC), que, em Alexandria, pontificou na corte dos Ptolomeus. Mais perto de nós, dentre outros, no século XVIII, citemos André Chénier (filho de mãe grega); no séc. XIX, Edgar Alan Poe, Charles Baudelaire, Victor Hugo, Leconte de Lisle e Gabriel Dannunzio; no séc. XX, o grego Georges Séféris (muito influenciado pelo simbolismo francês; Jorge Luiz Borges, William Carlos Williams e Allen Ginsberg.
Todos, de uma forma ou de outra, foram      atacados pela mesma doença que vitimou
VIRGINIA  WOOLF
GEORGES   SÉFÉRIS
Virginia Woolf a maior vítima e seu andrógino personagem Orlando, como ela o descreve na sua novela de mesmo nome, doença provocada, segundo o texto, “por um germe que se dizia nutrido do pólen do asfódelo, soprado da Grécia ou da Itália, e de natureza tão fatal que fazia tremer a mão pronta a ferir, nublava o olhar que procurava a presa e tolhia a língua que declarava amor. Era da fatal natureza dessa moléstia substituir a realidade por um fantasma, de modo que Orlando, a quem a fortuna concedera todos os dons – prataria, lençaria, casas, criados, tapetes, leitos em profusão – com o simples abrir de um livro, ficava com toda essa vasta acumulação reduzida a nevoeiro (Orlando, trad. de Cecília Meireles).”
 


ROBERT ALTMAN
Por fim, não podemos esquecer de uma    das maiores vítimas do “germe do pólen do asfódelo”, o cineasta americano Robert Altman,
ASPHODEL
que com seu derradeiro filme, A Última Noite, obra-prima de sensibilidade e inteligência, nos deixou uma das melhores “leituras” do Hades grego e da famosa flor. A crítica cinematográfica oficial, no geral muito desinformada, não alcançou, digamos, o ângulo mítico do filme e o sentido do personagem Asphodel, o Anjo da Morte, representado por Virginia Madsen. A critíca americana viu no personagem apenas uma “dangerous woman”, no que foi seguida pela crítica brasileira. Dois meses depois de terminado o filme, Robert Altman faleceu (20/11/2006).


 

sábado, 10 de março de 2012

MAIS FLORES

A PEÔNIA




No Ocidente, as sementes e raízes da peônia, desde a antiguidade, têm uma reputação medicinal. É a peônia uma flor do gênero das ranuculáceas (família de plantas venenosas, cujas raízes lembram as patas de uma rã). O nome da flor foi retirado da palavra grega curandeiro (paion). Paion, nome já registrado em Creta, é um dos apelidos do deus Apolo, o médico dos deuses, pai de Asclépio, divindade médica de Epidauro. A peônia é muitas vezes identificada como a "rosa sem espinhos", por sua cor e semelhança.


APOLO


Em grego, ferir é paiein. Apolo é aquele que "como num golpe de mágica" curava as feridas, as doenças. Próximo deste verbo temos em grego pauein, acalmar, suprimir, fazer cessar as moléstias. Com o tempo, o apelido Peã se fixou para Apolo como uma espécie de deus curandeiro, a grande divindade das curas. A palavra serve também para designar um hino de agradecimento a ele pela saúde restaurada. O poeta Píndaro (fig.esq.) é o maior cultor deste gênero poético.





Para Homero, Apolo-Peã foi o deus médico que curou as feridas dos deuses Hades e Ares, agredidos por Hércules. Asclépio, filho de Apolo, também acabou por receber o apelido. Os deuses tinham os seus males (feridas) curados por um bálsamo aplicado por Apolo. O poeta da Ilíada presta grandes homenagens aos poderes herborísticos do deus.



A peônia era considerada por Homero (Ilíada) como a “rainha das ervas”; na poesia bucólica grega (séc.III dC) tinha o mesmo status, sendo aclamada inclusive por sua beleza e poderes curativos, tornando-se, nas mãos de Apolo, uma verdadeira panaceia, aliás, nome de uma das filhas de Asclépio, Panaceia (fig.esq.), a que socorre a todos. As demais filhas de Asclépio eram Áceso, a que cuida de; Iaso, a cura; e Higeia (fig.dir.), a Saúde (há uma bela estátua desta última no MASP, em São Paulo). O nome Asclépio tem relação com a palavra grega, toupeira, animal insetívoro, de olhos muito diminutos, quase cego, corpo alongado, com patas traseiras adaptadas para cavar. Simbolicamente, no mito, a toupeira é um animal de natureza ctônica, que conhece as profundezas da terra. Figuradamente, designa pessoas que trabalham em lugares escuros. Os sacerdotes de Asclépio “desciam” à escuridão do psiquismo dos doentes que procuravam a clínica de Epidauro. Para tanto, sabiam usar com grande habilidade a oniromancia, a técnica de interpretação dos sonhos.


HÉCATE

A peônia era também encontrada nos jardins da deusa  Hécate, que tinha um conhecimento profundo das ervas, o que confirma os seus poderes de maga.        Segundo consta, Hécate, a deusa triforme das encruzilhadas, que vivia no mundo infernal, num palácio ao lado do deus Hades, mantinha um jardim famoso na Cólquida, perto do Mar Negro, cercado por altas muralhas, com o auxílio de Medeia (sobrinha da maga Circe), que às vezes passava por sua filha.

Já entre os judeus, a flor era conhecida por causa de Moisés (fig.esq.), que sabia de suas virtudes antidemoníacas. Conta-se que ele aconselhou sua sogra, perturbada por espíritos infernais, a se dirigir ao pico de uma montanha, onde Deus lhe indicaria lugares em que a peônia crescia.



Dioscórides, médico e botânico grego do séc. I, compilou a primeira descrição sistemática de 579 plantas da Grécia e definiu cerca de 4.700 usos medicinais dessas plantas e o seu modo de ação. Seu trabalho chegou até nós pela tradução latina, De Materia Medica (c.65 dC). Esse trabalho teve importância fundamental para a medicina européia até o séc. XVII. Galeno, nascido em 131 dC, registrou mais tarde as propriedades das plantas descritas por Dioscórides e desenvolveu a concepção humoral do corpo humano.


Dentre as prescrições de Dioscórides, destacamos: para conter o fluxo menstrual, dar, numa taça de vinho, de dez a doze sementes da peônia vermelha; para combater pesadelos, histeria e dores uterinas, elevar a dose, dando-se quinze sementes. Depois do parto, para rápido restabelecimento das mulheres, acrescentar ao vinho raízes secas da planta.

Nos trabalhos de botânica que deixou, Dioscórides fez a descrição de dois tipos de peônia, uma chamada "macho" e outra "fêmea", mencionando que cresciam em zonas montanhosas, mais nos picos, e nos seus contrafortes. Plínio, o Velho, grande naturalista e enciclopedista romano, nos fala que as peônias cresciam nas áreas sombrias das montanhas e que eram um ótimo remédio para pessoas que tinham pesadelos. Já Teofrasto, grego, sécs. IV-III aC, grande botânico, discípulo de Platão e depois de Aristóteles, mencionara o valor medicinal da peônia, desfazendo inclusive a história que herboristas haviam espalhado, a de que sua colheita só deveria ser feita à noite para que fossem evitados ataques de pássaros. A história, evidentemente, procurava evitar que pessoas não iniciadas se entregassem à colheita predatória da flor.

No tempo do imperador Nero, havia um médico, Thessalus, de enorme fama, que freneticamente denunciou todos os seus colegas como incapazes. Foi enterrado na Via Appia. Uma inscrição, em grego, na lápide, o proclamava o “Conquistador dos Doutores”. Thessalus enviou uma carta a Nero (muito chegado a convulsões) e nela discorria sobre a peônia, afirmando que ela crescia e minguava simpaticamente como a Lua; se arrancada na fase crescente, sua raiz não pode ser utilizada para a expulsão dos demônios, agravando ela a moléstia do paciente. Deve-se arrancá-la na fase decrescente lunar.


Astrologicamente ligada ao Sol, a flor e suas raízes, segundo antigas crenças, só podem ser colhidas à noite e, mesmo assim, se um cão a ela estiver amarrado (?), porque ela pode soltar um grito, fatal para quem ouvi-lo. Este cuidado evitará também um possível ataque de aves, no caso o pica-pau, ave de Marte. Esta ave, como se sabe, era muito honrada na Roma antiga, pois alimentou Rômulo e Remo quando o leite da loba se tornou insuficiente.

Na China, como flor nacional, a peônia se liga a significados de riqueza e de honras, tanto pelo seu porte como pela sua cor vermelha; está muito presente em todas as festividades populares, especialmente nas da primavera, em casamentos e nascimentos. Associa-se também ao cinábrio e à fênix, o primeiro, droga alquímica e a outra, ave mítica, ambos trazendo ideia de longevidade, de imortalidade. No Japão, era (é) a peônia símbolo de fertilidade, ligado à alegria e ao casamento.

FÊNIX

Por causa de sua cor avermelhada, que sugere vitalidade, a peônia foi também muito apreciada na Idade Média. Os grânulos e raízes de uma peônia colhida em noite sem Lua e aplicados em compressas sobre os pulsos ou colocados em volta do pescoço, como um colar, eram remédios excelentes contra a epilepsia. Lembre-se que ainda hoje, em alguns países da Europa (no interior da França, por exemplo), um colar feito com sete raízes da planta, colhida na Lua minguante, entre a meia-noite e o nascer do Sol, é considerado um remédio eficaz contra a dança de São Guido ou coreia, um mal nervoso acompanhado de convulsões.

Chamada na Europa de Rosa-de-Nossa Senhora, símbolo da Virgem Maria, a peônia dos jardins (Paeonia Officinalis), sempre foi muito procurada por suas inúmeras virtudes: ajudava muito as crianças quando do aparecimentos dos primeiros dentes; era, para muitos, além do que já se apontou acima, remédio infalível contra a asma e a gota. Recomendava-se também a peônia aos homens do mar, pois ela evitava tempestades.


A PAPOULA



Na Arte, a papoula aparece muito ligada a algumas divindades gregas. A Hipnos, deus do sono, a Morfeu, deus dos sonhos, seu filho, e a Nix, a Noite, a grande divindade primordial. O simbolismo tem clara relação com as propriedades do ópio da papoula, que cresce como flor silvestre na Grécia e no Mediterrâneo oriental.


HIPNOS

Desde a mais remota antiguidade, a papoula era usada para infusões herbáceas. Liga-se também a flor à deusa Deméter (Ceres entre os romanos) e à sua filha Kore (Perséfone, entre os gregos, e Prosérpina, entre os romanos), como símbolo do sono hibernal da vegetação. Numa outra passagem do mito de Deméter, a flor aparece quando Hipnos, o deus do sono, dá à deusa, muito nervosa, devido ao desaparecimento de sua filha, uma beberagem feita com a flor.


DEMÉTER

Lembremos que Kore foi raptada por Hades e arrastada às profundezas infernais quando colhia flores (narcisos para alguns, lírios para outros). Deméter proibiu terminante que flores fossem usadas nos seus cultos, exceção feita às papoulas, pelo motivo acima apontado, que, por isso, crescem livremente no meio dos trigais. Nos mistérios eleusinos, tendo portanto relação com Deméter, a papoula simbolizava a terra, lugar onde se realizavam as transmutações, isto é, nascimento, morte, esquecimento e renascimento. No mundo eslavo, na Rússia, especialmente, diz-se da jovem que se torna mulher e envelhece sem perder a virgindade que ela é como a papoula. Os antigos gregos acreditavam que a presença de papoulas num campo era imprescindível para a prosperidade do vegetal nela plantado.

A papoula é uma flor da família das papaveráceas, cultivadas como ornamentais para o comércio de flores ou pelas sementes, das quais são extraídos óleos e tinturas que encerram alcaloides. Um dos seus nomes é Papaverum somniferum. Aparece solitariamente, sendo chamada popularmente de dormideira. As cultivadas na China e no Irã são muito utilizadas na produção da morfina e da heroína, presentes no ópio. Às vezes, a papoula é chamada de mimo-de-vênus e de rosa-louca (Hibiscus mutabilis). O Cristianismo se apropriou da flor, tornando a papoula vermelha símbolo do sacrifício de Cristo e do sono da morte. No moderno folclore europeu, diz-se que do sangue dos soldados mortos na batalha de Waterloo nasceram as papoulas vermelhas.


                                     
Desde os tempos da chamada civilização creto-micênica, o uso da papoula era conhecido, como podemos perceber em estátuas nas quais elas aparecem fixadas numa espécie de chapéu ou tiara que figuras femininas ostentam. Hipócrates (séc.V aC), o chamado pai da Medicina grega e patrono da arte médica em geral, filho de um sacerdote do deus Asclépio, nascido na ilha de Cós, usava cápsulas de papoula, inclusive seu suco (ópio), como soporífero. O já citado Dioscórides deixou instruções precisas para a fabricação do ópio a partir da flor, como também muitas informações para que seus discípulos se tornassem aptos a distinguir as imitações desta droga, já muito valorizada à época. Segundo ele, uma pílula do tamanho de uma pequena semente, como a da maçã, seria suficiente para aliviar dores, trazer o sono e conforto no caso de males abdominais. Elevadas doses ou descontrole no uso da droga poderiam levar a um estado de torpor e, provavelmente, à morte.



HELENA

Há uma passagem no mito grego em que se registra que Helena deu um tranquilizante que chamava de nepenthes a alguns heróis para que esquecessem os amigos mortos na guerra, a tristeza das perdas. O episodio é narrado na Odisseia, quando Telêmaco foi procurar notícias de seu pai (Ulisses) junto a Menelau, rei de Esparta. Este tranquilizante de Helena, ao que parece, era feito com láudano, uma tintura de ópio. Helena, quando de sua estada no Egito, ao voltar de Troia em companhia do marido para a Grécia, familiarizara-se com a farmacopeia egípcia, a mais rica do mundo antigo. A palavra nepenthe quer dizer em grego "o que dissipa a dor, a aflição", sendo também um epíteto do deus Apolo. Nepenthe (fig.dir.) é ainda o nome de uma planta não muito conhecida na antiguidade, planta da família das nepentáceas, carnívora. Nepenthe, misturada ao vinho, produzia uma bebida que tinha a propriedade de causar euforia, alegria.

Em várias tradições e culturas, a papoula (um pequeno sachê com seus grãos) é usada sob os travesseiros para favorecer um sono tranquilo e sonhos agradáveis. Como estimulante, a papoula serve para desanuviar ambientes, pois proporciona alegria e bom-humor, além de aumentar a criatividade, sendo considerada, por isso, um excelente talismã para escritores e artistas.

Outras culturas, porém, por causa das propriedades narcóticas, consideram a papoula perigosa, já que ela pode eliminar o autocontrole de uma pessoa. Cercada de inúmeras lendas, a papoula, em certas regiões da França (Dinan), conta-se, foi punida por Deus por causa de seu orgulho, inspirado por sua grande beleza. Deus permitiu que o Diabo a tocasse, razão pela qual ela ficou marcada para sempre: são as pequenas manchas negras que aparecem ao fundo de sua corola.


AFRODITE

É de se lembrar que em razão do grande número de suas sementes, a papoula, conhecida por isso como fecunda papavera, aparece associada no mito grego a Afrodite. Como um símbolo de castidade e antiafrosíaca, a flor tem ligação com Ártemis. Ainda com relação ao mito grego, as papoulas, em algumas versões, têm origem na caverna onde vive Hipnos, deus do sono, perto do país dos cimérios, junto ao qual corre o rio Lethe, o rio do esquecimento. O país dos cimérios, os que habitam as trevas, fica nos confins do ocidente, além dos domínios do deus Oceano. É uma região onde a luz não chega, que fica perto do mundo dos mortos. Ulisses teve que atravessá-la para descer ao Hades, quando foi interrogar o vidente Tirésias (fig.esq.), em busca de informações para encontrar o caminho de volta a Ítaca, seu reino.





Os gregos costumavam representar os deuses Hipnos, do Sono, Thanatos, da Morte, e a mãe de ambos, Nix, a Noite, coroados de papoulas ou carregando-as nas mãos. No simbolismo eleusino, a flor era um símbolo do sono e do esquecimento depois da morte que antecedia a ressurreição. É neste sentido que a papoula emblematiza os estados letárgicos, sempre denotando indiferença e ignorância. Como enteógena (que leva a Deus), a papoula é sagrada porque pode proporcionar viagens fora do corpo; como alucinógena, a papoula é maldita porque é muita usada por feiticeiros.