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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PEIXES (1)

                  
CONSTELAÇÃO    DE   PEIXES

O peixe, em todas as tradições, sempre foi considerado como um símbolo da água. Seu corpo não se compõe de partes distintas, é um todo no qual tudo se une, ao contrário do ser humano e da maior parte de outros animais. Por essa razão, como a água, o peixe sempre foi visto como um símbolo da indiferenciação, uma totalidade indistinta. 

TALES
Já em virtude de sua excepcional prolificidade e da grande abundância de suas ovas, o peixe e a água se unem simbolicamente na medida em que têm relação com ideias de origem, de lugar de nascimento e de fecundidade.  O primeiro filósofo da primeira escola da filosofia grega, surgida na Jônia, séc. VII aC., Tales, considerava a água como o princípio de todas as coisas. Para ele, a água era


o que não tinha princípio, sendo uma força animada, ativa, dela tudo derivando. A multiplicidade das coisas, para ele, tinha sua profunda unidade neste princípio, animado e animador, eterno.  Anaximandro, outro filósofo grego desse período, registrou que alguns povos da Ásia Menor proibiam o consumo da carne de peixe, já que ele era considerado um ancestral da raça humana.

TIRÉSIAS
Oportuno também é lembrar que os peixes, em muitas culturas, sempre apareceram associados à sabedoria e à adivinhação. O mais famoso dos videntes gregos, o cego Tirésias, recorria muito à prática da ictiomancia, uma forma de adivinhação baseada no movimento dos peixes dentro da água. Famosos, no mundo grego, eram os peixes de um enorme tanque que havia no santuário de Apolo,
DELFOS
em Delfos, deus da mântica profética; segundo se afirmava, eles tinham o dom da profecia. Apuleio, “aquele que queria descobrir o segredo de todas as coisas”, do séc. II dC, escritor neoplatônico latino, dentre outras acusações que lhe foram feitas, estava a de ter consultado os peixes de Apolo para obter informações que o ajudassem a ficar com o dinheiro de uma rica viúva que com ele se engraçara.

Por viver no elemento líquido, símbolo do inconsciente, sempre se propagou desde a antiguidade,  que os peixes davam corpo aos conteúdos “vivos” das camadas mais profundas da personalidade do homem, conteúdos estes associados à ideia de fecundidade e de forças vitais interiores. É por isso que nos sonhos o peixe é também visto como um intermediário entre as camadas profundas do psiquismo e um aspecto do inconsciente tornado acessível. Os grandes peixes, como a baleia, podem ser vistos, nesta perspectiva, por outro lado, como possibilidade de risco de devoração das forças conscientes pelas energias profundamente introjetadas no inconsciente.

PIA  BATISMAL
O simbolismo do peixe é inseparável do da água, evocando a ideia de renascimento como um acontecimento cósmico (renovação anual da natureza, fim do inverno, início da primavera), cuja simbologia, por isso, foi estendida à vida religiosa e psicológica. Associado ao renascimento, o peixe é nas religiões um símbolo do batismo (palavra que, em grego, traduz uma ideia de mergulho). É por essa razão que os primeiros cristãos atribuíam às virtudes das águas das pias batismais à ação invisível de Cristo, fazendo-se do peixe, habitante das águas, o símbolo deste sacramento. Fizeram os primeiros cristãos também do peixe, gravando sua imagem nas pedras, o símbolo do Salvador oferecendo-se como alimento aos seus fiéis.


VARUNA
Na Índia, o peixe é montaria do deus Varuna, aquele que tudo envolve, deus das vastidões do céu noturno e dos oceanos. Varuna monta monstros marinhos como Makara, um claro indício de que seu poder se estende a todas as formas e estruturas. Makara, como monstro marinho, uma espécie de crocodilo, símbolo do signo de Capricórnio, simboliza a ambição, representada aqui pela voracidade da sua mordida. Predador, Makara é anfíbio, sendo monstro em dois elementos, na água e
MAKARA
na terra. Apesar de todo o seu poder, Makara tem que se submeter a Vishnu; é a  montaria (vahana) deste deus. Vishnu, como encarnação da própria lei divina (2ª pessoa da trindade hinduísta), nos lembra que tudo o que toma forma, por mais resistente que seja, está destinado, cedo ou tarde, à dissolução. Varuna é particularmente venerado no período das secas; usa uma armadura dourada e leva nas mãos uma rede, símbolo dos pescadores, no que se parece muito com o Poseidon dos gregos.


PEIXES ,  ILUSTRAÇÃO  INDIANA 

Na astrologia hindu, Mina (peixe, em sânscrito) é o nome do signo, cosmologicamente relacionado com o akasha (éter para os gregos), o quinto elemento na filosofia hindu. No início da criação só existe o akasha, a existência onipresente que tudo impregna. No início da criação só existe ele, ao final só ele também, o que nos lembra muito o signo zodiacal de Peixes, ao mesmo tempo fim do inverno e início da primavera. Tudo que tem uma forma, tudo que é produto de uma combinação provém dele, do éter, a substância indiferenciada. É o akasha que se torna ar, que se transforma em líquido, que se torna fogo e terra. O akasha e os outros quatro elementos que são formados a partir dele constituem os chamados mahabhutas, os cinco elementos. É o akasha que se torna Sol, planetas, estrelas, que se torna corpo humano, animal, vegetal, mineral, que se torna tudo que tem uma forma, perceptível ou não. No início da criação só existe ele; ao fim dos ciclos dos sólidos, líquidos e gases tudo volta a ele.

ÁGUAS   PRIMORDIAIS
Não será preciso muito esforço para perceber uma analogia entre o signo de Peixes e a imagem das águas primordiais como as encontramos em várias tradições míticas e religiosas. Nessas tradições, a egípcia e a hinduísta, por exemplo, o nascimento da vida e da terra era concebido como uma emersão que ocorria no elemento líquido, uma imagem muito rica nelas. A vida nascente, para os egípcios,  era representada por montículos de terra que afloravam à superfície das águas quando da vazante do rio Nilo. Os hindus nos falavam do aparecimento do lótus  como um símbolo da primeira manifestação de vida sobre a superfície das águas. 

Os hindus sempre associaram o peixe às renovações cíclicas. Foi por essa razão que o primeiro avatar do deus Vishnu, 2ª pessoa da trindade hinduísta, é Matsya, o peixe, que veio para salvar Manu, o homem mítico, do dilúvio. Manu é o progenitor da raça humana do presente ciclo (manvantara).  Foram o
MATSYA   E   MANU
s hindus, ao que parece, os primeiros a associar a imagem do peixe à ideia da salvação, pois segundo os Vedas, foi Matsya quem revelou também a Manu a ciência sagrada dos Vedas. Uma ideia semelhante à que aparece no cristianismo, onde Cristo é representado muitas vezes como um pescador, sendo os cristãos, os peixes, salvos da imensidão oceânica, e depois mergulhados nas águas santificadas do batismo, agora o seu elemento natural e instrumento de sua regeneração. A mesma ideia aparece, ainda no Budismo, quando o boddhisttava Avalokiteshvara diz ter obtido a revelação do Yoga depois de ter se transformado num peixe. 


TOHU-BOHU , C.1645
( ANTOINE SOMMAVILLE )
O signo de Peixes, como se sabe, situado antes do equinócio da primavera, é um signo mutável, lembrando características de inconsistência, de extrema receptividade, de dissolução, uma massa movente e anônima, onde tudo aparece misturado e nada tem forma. É neste sentido que o signo sempre apareceu associado às catástrofes renovadoras que ciclicamente trazem a renovação da vida. Estas catástrofes aparecem em todas as tradições. Dentre as mais notáveis temos o Apocalipse (tradição cristã), o Tohu-Bohu, o Dilúvio e o Dia do Juízo (tradição judaica), Ragnarok (tradição escandinavo-germânica), Saltstraumen (tradição escandinava), Pralaya (tradição hinduísta) etc.


JUÍZO  FINAL , C. 1435  ( STEFAN  LOCHMER )

O Apocalipse, palavra grega, quer dizer revelação, ou seja, ação inversa (apo) de esconder ou velar (kalyptein). Exegetas cristãos e protestantes atribuem sua autoria a João, o mesmo autor do Evangelho Segundo João. Ele teria recebido a mensagem divina quando, conforme narrou, numa gruta da ilha de Patmos, arrebatado em espírito, ouviu do Senhor as espantosas revelações sobre o final dos tempos (Juízo Final), interpretadas de diversas maneiras por vários segmentos cristãos. A humanidade seria dividida entre santos (aqueles que aceitaram Jesus Cristo como Messias) e pecadores, que se negaram a aceitá-lo. O Juízo Final trará o Céu para os santos e o Inferno para os pecadores. Satanás e seus anjos (demônios) seriam então lançados ao fogo. Algumas tradições
MAÇONARIA
esotéricas e místicas como a Gnose, o Rosacrucianismo e a Maçonaria trabalham com a ideia de que o Apocalipse deve ser considerado segundo a sua linguagem simbólica, apontando o seu texto para processos de transformação pelos quais os homens devem passar para atingir a plenitude do seu ser e a união com o divino. Na Maçonaria, há graus de transmissão do conhecimento desse simbolismo, de modo especial os graus 17 (graus capitulares – Cavaleiro do Oriente e do Ocidente), 19 (graus filosóficos – Grande Pontífice ou Sublime Escocês) e 22 (graus filosóficos – Cavaleiro do Real Machado ou Príncipe do Líbano).

O Tohu-Bohu (inculto e deserto, em hebraico, numa tradução, e desordem e vazio, noutra), segundo o Gênese, seria o estado caótico primordial da Terra quando ela estava deserta e vazia. Estes termos são encontrados em Jeremias e Isaías, em ambos significando destruição e desolação. Algumas tradições consideram que a expressão designa uma situação anárquica, que precede a manifestação de qualquer forma. Tomou depois o sentido de desordem e caos, inclusive no sentido psicológico, indicando regressão e loucura no processo de individuação. 


O   DILÚVIO  ( LÉON  COMERRE , 1859 - 1955 )

O Dilúvio (Mabul, em hebraico), como se sabe, ocorreu no tempo de Noé e causou a destruição da vida humana e animal, durando quarenta dias e quarenta noites. O modelo judaico é uma evidente transposição de tema semelhante encontrado na epopeia mesopotâmica de Gilgamés. O Dilúvio, entre os judeus, foi uma inundação cataclismática de toda a superfície terrestre. A palavra passou a significar chuva muito abundante, torrencial e demorada, que alaga vastas extensões de terra. Dilúvio vem do verbo latino diluo, desagregar, dissolver, dissipar. O Dia do Juízo (iom ha-din, em hebraico) ocorrerá no final dos dias, no tempo do Messias, quando tiver lugar a ressurreição dos mortos, todos, judeus ou não, chamados ao julgamento divino pelo som do grande shofar. O dia do juízo final será apavorante, escuro, com tempestades e grandes incêndios.


JUÍZO  FINAL, C.1535 ( MICHELANGELO  BUONARROTI )

Os escandinavo-germânicos não acreditavam na eternidade do mundo e muito menos na dos deuses e dos humanos. Como os humanos, os deuses tinham que lutar constantemente contra inimigos invejosos e astutos. Apesar de todas as virtudes que possuíam e da sua grande habilidade guerreira, os deuses tinham que
EDDAS
sucumbir ao ataque dos seus inimigos, os grandes monstros. O universo, que eles sustentavam e protegiam, seria destruído juntamente com eles. Esta gigantesca catástrofe é contada num grande poema, Voluspa, que faz parte de um conjunto chamado Eddas. O nome desta catástrofe é Ragnarok, ou seja, o destino fatal, o fim dos deuses. 

Segundo o mito, a serpente Midgard, identificada com o próprio oceano, mais antiga que os próprios deuses, é a dona das águas primordiais, rodeando toda a terra. Um dia, porque os deuses não cumprem o prometido de dar felicidade à humanidade, ela, enigmática e imprevisível, em cólera, sairá das profundezas
BALDER
oceânicas para, com toda a sua fúria, destruir tudo, inclusive os deuses. Conjugado com o fogo, o mar cobrirá tudo. Os monstros, o lobo Fenris, o cão Garm, os gigantes e os anões, até então contidos pelos deuses, se libertarão, mergulhando a Terra numa grande convulsão. Os deuses serão derrotados. Depois de tudo destruído, então, o mundo renascerá para uma nova idade do ouro, guiada pelo deus Balder (deus da luz, da justiça e da beleza), ressuscitado. 




Os escandinavos puseram em circulação o nome Saltstraument para designar um enorme remoinho de água de tremendo potencial destrutivo. Uma variante deste fenômeno, um pouco menos destrutiva, é o Maelstrom, palavra posta em circulação por Edgar Allan Poe no seu conto A Descida num Maelstrom (1841). Jules Verne foi outro que usou a palavra, em 20.000 Léguas Submarinas, contando-nos ele que o capitão Nemo entrou num Maelstrom com o seu submarino Nautilus. Os latinos, lembro, davam o nome de vertex (vortex) a um imenso turbilhão de água ou de ar, gerador de uma força violentíssima, irresistível. Na filosofia cartesiana, vertex é um rapidíssimo movimento rotatório de matéria cósmica em torno de um centro, para dentro do qual tudo é sugado.

ILUSTRAÇÃO
Indo mais ao passado, recordemos que Homero, na Odisseia, nos fala que Ulisses, ao atravessar o estreito de Messina, entre a Itália e a Sicília, se viu diante de dois monstros, Cila e Caribdes, a primeira filha do deus marinho Forcis e a segunda de Geia e de Poseidon. Cila era um dragão com seis cabeças, com cães furiosos em torno do corpo, e devorava tudo o que passasse pelo estreito. A outra, também voracíssima, cujo nome se liga à mesma etimologia do da parceira, absorvia e vomitava diariamente enormes quantidades de água.

Cila e Caribdes, na realidade, eram dois sorvedouros que todos os marinheiros do Mediterrâneo conheciam, circulando entre os homens do mar, como provérbio, a seguinte frase: Sair de Caribdes, cair em Cila.  Guardavam os dois monstros uma travessia estreita, fazendo ela parte do simbolismo dos lugares de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido. Cila e Caribdes, para o homem mediterrâneo, configuravam uma situação de escolha entre duas alternativas igualmente indesejáveis. 


POSEIDON
Astrologicamente, saliente-se, o planeta Netuno (deus Poseidon) rege todas as formas de implosão conhecidas. Implodir, como se sabe, é provocar ou sofrer colapso para dentro. Colapso, figuradamente, é derrocada, desmoronamento, prostração, ruína. Uma das melhores imagens da implosão é, por exemplo, o sorvedouro, o vertex, a que acima nos referimos. Sorvedouros são redemoinhos de água que se formam em mares ou rios e que levam tudo para o fundo. 

PLUTÃO
Na mitologia, o deus Plutão, rei dos infernos, tinha grande receio das implosões que seu irmão, Poseidon, sempre ameaçou provocar, pois seu reino poderia ser invadido por ele, isto é, pelas águas oceânicas. Tais implosões, como é fácil perceber, poderiam expor à luz as “trevas infernais”, destruindo-se assim as apavorantes imagens que a humanidade sempre construiu em torno dele devido à sua invisibilidade. Plutão temia que o seu reino, exposto à luz, talvez não fosse considerado tão terrível assim... Astronomicamente, como sabemos, vertex é o ponto de intersecção da eclíptica com o meridiano que liga o zênite ao nadir. Na astrologia, não há estudos confiáveis sobre a sua aplicação.


TSUNAMI
Recentemente entrou em circulação a palavra tsunami (onda que atinge o cais, onda de porto, em japonês). O termo é muitas vezes aplicado para designar maremotos, sismos que ocorrem no fundo do mar, muito semelhantes aos sismos que só afetam a crosta terrestre, os primeiros, sim, tidos como causadores de tsunamis. Ao contrário do saltstraument ou do maelstrom dos escandinavos, o tsunami movimenta as águas para cima, o que nos leva a associá-lo também, astrologicamente, à ação de Urano (o epicentro dos abalos sísmicos de onde partem os tsunamis). É de se lembrar que quando Urano transitou pelo signo de Peixes, no início do séc. XXI (2003-2010), os tsunamis entraram na ordem do dia, ganhando muito destaque nos meios de comunicação.  Explosões vulcânicas, deslizamentos de terra subaquáticos ou mesmo quedas de meteoros podem também causar tsunamis

Grandes quantidades de água são assim deslocadas pelos tsunamis, atingindo o litoral, através de ondas enormes, causando devastação e morte. Um dos mais famosos maremotos (hoje tsunamis) conhecidos ocorreu no mar Mediterrâneo (eles são muitos mais comuns no oceano Pacífico) entre os anos de 1650 e 1600 aC, devido a uma violenta erupção vulcânica na ilha de Santorini. Esse violento fenômeno provocou a formação de ondas cuja altura máxima, segundo a tradição narra, teria oscilado entre 100 e 150 metros de altura. Toda a costa norte da ilha de Creta foi destruída. O início do fim da civilização minóica foi principalmente atribuído a este acontecimento. Quando da explosão da ilha-vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, ondas devastadoras se elevaram a cerca de 40 metros de altura. Segundo os antigos gregos, tudo isto sempre foi causado pela ação do deus Poseidon, que, por insondáveis desígnios, tanto pode, com o seu tridente, agitar ou acalmar os mares...

NETUNO
É de se lembrar, quando associamos Poseidon às implosões, que que o planeta Netuno, astrologicamente, é o arquétipo da dissolução (solutio) universal. Como tal, onde o temos num mapa astrológico ali a terra pode nos fugir dos pés devido à sua ação assolapadora, uma das várias formas de dissolução. Solapar é destruir as bases de alguma coisa, aluir, minar, abalar os fundamentos. Assim, onde temos Poseidon (Netuno), há esse risco. Aliás, as patologias de Netuno podem nos lançar em sorvedouros semelhantes, como é, por
PROSPER  MÉNIÈRE
1799 - 1862
exemplo, o caso da chamada síndrome de Ménière (distúrbio de equilíbrio muito semelhantes aos que ocorrem em viagens marítimas, mas que podem também ocorrer em terra), confundida às vezes com avcs. A síndrome a que nos referimos aparece relacionada com “ataques” a Vênus (planeta que se exalta em Peixes e que tanto tem a ver com a audição e o equilíbrio), com Netuno (regente do signo, que nos fala de vertigens, de sorvedouros) e com Mercúrio, que juntamente com Vênus, governa o labirinto, sistema de canais semicirculares e cavidades comunicantes no interior do ouvido, responsável pelo equilíbrio do corpo humano.


domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião.