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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A SEDUÇÃO - I


A   TENTAÇÃO   (TETO  CAPELA  SISTINA)
                                                                                       
Seduzir vem da raiz duc, conduzir, desviar, levar a algum lugar, afetar, movimentar. Educar, assim, será conduzir corretamente. Na Itália fascista, Mussolini, com base nesse sentido, assumiu o apelido de Duce, o condutor, o guia do povo italiano. A sedução pressupõe uma capitulação, uma subjugação, uma interferência na vontade do seduzido. A palavra toma também o sentido de solapar as bases de alguma coisa, uma implosão. Daí o sentido que sedução toma moralmente, de fazer cair em falta, de fazer errar, corromper. Nesta perspectiva, há algo de demoníaco na sedução. Seduzidos, nós nos desequilibramos, perdemos o rumo. As armas da sedução: a mentira, a falsidade, a ilusão, o engodo. Toda sedução começa por uma tentação, que é um impulso para a prática de alguma coisa censurável ou não recomendável. Tentação é comichão, instigação, prurido, forniquices ou fornicoques, como dizem os portugueses,  e, finalmente, sedução. 


DOLOS

Para os antigos gregos, Apate era a personificação da sedução, do engano, da malícia, do erro. Seu irmão chamava-se Dolos, que tipificava o procedimento fraudulento. Hoje, no mundo moderno, Dolos atua principalmente no Direito Civil, onde aparece como responsável por manobras e artifícios que se inspiram na má-fé para induzir alguém a praticar atos lesivos ou prejudiciais contra si mesmo. Ele atua também no Direito Penal como a deliberada demonstração de alguém de violar a lei, por ação ou omissão, com pleno conhecimento da criminalidade do que está fazendo.


PANDORA   E   EPIMETEU

Apate e Dolos foram enviados pelos deuses aos humanos como punição por Prometeu lhes ter entregue uma parcela do fogo celeste. Quem os trouxe, com outros males, foi Pandora, a Mulher, (etimologicamente, presente de todos), encerrados numa caixa, da qual escaparam, quando ela e Epimeteu a destamparam. Apate e Dolos são filhos de Nix e do Érebo, as Trevas Superiores e as Trevas Inferiores, respectivamente. Fora da esfera jurídica, onde têm presença marcante, Apate e Dolos integraram-se também, perfeitamente, ao cotidiano dos humanos.

Apate morava nas colinas de Arniso e tinha especial predileção
AFRODITE
pelos cretenses e fenícios, famosos comerciantes e navegadores do Egeu, que a ela recorriam bastante nos seus negócios. Apate, Fraus, entre os romanos, tinha horror de Aletheia (etimologicamente, não-esquecimento), a Verdade, que, entre os citados romanos, tomou o nome de Veritas, filha do deus Saturno. Apate gostava de andar na companhia de Peitho, a Persuasão, que fazia parte do séquito de Afrodite. Peitho era filha de Até, o Engano da Razão, mais conhecida pelo nome de Erro. Nas esferas intelectuais, Peitho, entretanto, costumava apresentar um lado mais positivo, ao se aproximar de Tikhe, o Acaso, e de Eunomia, a Boa Ordem.  

Sedução é palavra que lembra muito encanto, magia, feitiço, força irresistível que submete. Que poder é esse que se impõe a nós, que muitas vezes nos arrasta para onde não queremos ir? A sedução é tanto um padecer, um suportar, como um fazer. Quando algo nos seduz, colocamo-nos na situação de vítimas. Normalmente, a sedução nos impõe um estado de carência, de sofrimento. Seduzidos, precisamos conquistar, obter aquilo que nos seduziu. Ficamos sempre presos a uma situação mais ou menos dolorosa. Tornamo-nos vítimas (vítima vem de victus, condição do animal levado para o sacrifício). Padecemos, sofremos, se não encontramos um meio de sair do sofrimento.  

Quando nos fixamos um pouco mais sobre o tema, constatamos, em muitos casos (para não dizer na maioria deles, talvez) que todo sedutor é, no fundo, um seduzido. Ou, de outra maneira: nem todo seduzido é um sedutor, pelo menos conscientemente. Na chamada sedução ativa, quando assumimos o papel do sedutor, é preciso colocar antes a pergunta: o que nos moveu em direção da “vítima”? Tomemos o caso de D. Juan, Don Giovanni, na ópera de Mozart. Criado por Tirso de Molina (1583-1648), D. Juan Tenório é, na literatura ocidental, o patrono dos sedutores-seduzidos, como está no El Burlador de Sevilla


FILME   DE   JOSEPH    LOSEY

Quando D.Juan se põe em ação para trabalhar (a sedução é um ofício para ele), ele está sempre respondendo a uma sedução experimentada antes. No caso de D. Juan, o que o seduz é o odor de saias (odor di femina), como ele apregoa; basta este odor para lhe causar uma pressão ansiosa, dolorosa, inquietante. Instala-se nele, premente, o desejo, uma falta que precisa ser satisfeita. A sedução do sedutor é um poder que faz acontecer, que faz surgir algo, que pode mover, que pode mudar as coisas.  Seduzido, D. Giovanni vai agir.

Por outro lado, sofrida, a sedução é um padecer, um suportar, vivido passivamente. O seduzido fica na dependência do outro. Sua determinação vem daquele que o seduziu. É o caso, por exemplo, da relação entre o professor Immanuel Rath (Emil Jennings) e Lola (Marlene Dietrich), no filme O Anjo Azul, um clássico no gênero, dirigido pelo grande Joseph Sternberg, com base numa história de Heinrich Mann. Vitimado, o digno professor ficou inteiramente à mercê de Lola.

Muitas vezes, este padecer tanto dá prazer como repugna, tanto dá medo, como é desejado. Numa situação dessas, lutamos contra essa força ou criamos condições, colaboramos, para que o sedutor se aposse de nós? Tornamo-nos alvo, objeto, troféu? Contribuímos para isso? Somos vítimas inocentes? Ou, no fundo, desejamos inconscientemente a sedução?

Tomemos, por exemplo, o caso de Herculano, da peça Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues. Ele é um pio cristão, casto, como toda a sua família. Herculano é viúvo, misógino, vive com tias velhas e com um filho que cultua a memória da mãe edipicamente. Lá para as tantas, é empurrado pelo maquiavelismo
TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA
do irmão nos braços da prostituta Geni. Esse encontro com Geni transforma totalmente a vida de Herculano: a falecida, a santa mulher vira um bucho, uma chata. De súbito, Herculano cai de cabeça na devassidão. Torna-se um crápula. O filho, que era um carola militante, acaba na prisão, onde é violentado sexualmente por um bandido boliviano de quem se tornará amante. Geni, a sedução, sensual, voluptuosa, bonita, é o tormento de Herculano, um querer não querer, um tormento do qual ele não sabe como fugir ou não quer. Ela, por sua vez, como Fedra, ama o filho de Herculano.

Foi Platão, no seu diálogo O Simpósio (O Banquete), quem nos deu uma ideia

dessa dialética, ao nos fixar, pelas palavras de Sócrates, a origem do deus Eros, o amor, o desejo, Cupido para os romanos. Etimologicamente, Eros vem de palavras que lembram abrasar, queimar, arder. Platão diz que Eros é filho de Penia (pobreza, carência, falta) e de Poros (artifício, expediente). É uma carência que procura através de um expediente atingir sua plenitude, a sua satisfação. Os poetas consideram muitas vezes o amor como um pedinte, que vive na pobreza, que mendiga, que dorme na soleira das portas, e que, não correspondido, faz definhar e pode também causar a morte. Sua satisfação dependerá de nossa habilidade (Poros) para de chegar ao ser ou ao objeto amado.



EROS

As flechas de Eros são o símbolo dessa invasão. Eros é cego, atira suas flechas a esmo, mas seu poder é absoluto. Às vezes vem como guerreiro, usa capacete, é agressivo, montado em carneiros, leões, centauros, símbolos do fogo. Noutras vezes, vem com uma coroa de rosas, cantando, tocando lira. É o Eros cantor, músico, que produz encantamento, sortilégio, algo mágico (thelksis). Nesta figuração de cantor e músico, torna-se Eros o modelo do caçador clássico, invencível; suas flechas têm um veneno contra o qual não há antídoto; é um deus temido por deuses e mortais. As rosas vermelhas, coloridas pelo sangue de Adônis, são símbolos do amor, neste caso. Já a lira aparece como símbolo da harmonia cósmica. Fazer vibrar a lira é fazer vibrar o mundo. Muitas vezes, Eros vem com perfumes que ativam os sentidos, que provocam o aparecimento de imagens, criando climas e atmosferas. Esse é o Eros sedutor, que não se importa com aqueles a quem seduz. Esse tipo de sedução é vivido muitas vezes como rapto, violência, estupro. Nossos corpos, nosso pensamento, nossa vontade, tudo é arrastado por essa força que nos faz viver no sofrimento e no prazer que traz esse sofrimento. Todos os nossos pontos de referência são destruídos quando esse amor-paixão nos toma porque percebemos que a nossa vida está nas mãos de outra pessoa. Abandonamo-nos a ela e a tememos ao mesmo tempo. A outra pessoa passa a ser tudo para nós, céu e inferno. Tanto o é que nos perguntamos como podemos viver sem ela. É aqui que o Amor e a Morte se igualam.

Há casos especiais em que o amor-paixão se torna recíproco. A sedução é mútua. Nesse caso, temos a faísca do divino nos dois parceiros. A vida se ilumina, envolvida por uma fulguração que antecipa, de certo modo, a fusão com o grande Todo. Perdem-se os parceiros um no outro. Esse tipo de amor traz uma carga tamanha de subversão para os padrões da normalidade do mundo que, no geral, ele termina em tragédia, muitas vezes em morte. Talvez só a experiência mística dele se aproxime. Aliás, já se disse que toda paixão é, no fundo, um desejo de autoaniquilação. A literatura, as canções, sobretudo as canções, trazem-nos exemplos desse tipo de amor. Vida e morte.   

Esta união das duas imagens que se excluem: amor e morte, silêncio e eloquência, amargor e doçura, deu na literatura belos versos, principalmente na lírica da Idade Média e dos séculos XVI e XVII. Essa união de opostos tem na Retórica o nome de oxímoro. Na poesia moderna, Baudelaire e Fernando Pessoa, por exemplo, sempre demonstraram muito interesse por essa figura de Retórica. Mas quem melhor a utilizou foi Camões, imbatível até hoje, como sempre perfeito, quando pensamos num exemplo:

Amor é fogo que arde sem se ver;           


É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder…

Boa parte da literatura mística do oriente e do ocidente se inscreve nessa tendência de ligar o amor ao sofrimento, como ferida e mesmo como autoaniquilação.

San Juan de la Cruz (séc. XVI), em Lâmpadas de Fogo

Oh! Suave Cautério!                       
SAN JUAN DE LA CRUZ
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão!
Oh! Toque delicado!
Que a vida eterna sabe,
E paga toda a dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.


Frei Patrício Scaldini, carmelita descalço, que se dedicou à divulgação da obra de San Juan de la Cruz, nos fala assim da sedução mística na introdução de seu livro sobre o chamado “Poeta de Deus”: A experiência mística é beber o Amado, tornar-se o Amado. No mundo de hoje não há espaço para uma contemplação intimista, para uma espiritualidade fechada, escondida sob uma redoma de vidro e incapaz de gerar pessoas prontas para lançar-se na gloriosa empresa de conquistar e dar a vida.

É de Mirabai, nascida na Índia, em 1498, de família Rajput, perto de Ajmer, educada pelo avô, no palácio de Merta (cidade-fortaleza), outro refinado exemplo dessa figura de Retórica que acolhemos aqui com muito prazer. Cultuando Krishna, avatar de Vishnu, sonhava casar-se com o deus, sua grande devoção. Casou-se em 1516 com um nobre. Não teve filhos, sempre se colocando como virgem nos seus poemas. Morreu em 1546. Seus últimos anos de vida foram passados em meio a perseguições políticas. Cheia de dúvidas, desligou-se dos seus valores de casta, retirou-se, procurando uma vida ascética. Alguns aproximam Mirabai de Mestre Eckart (dominicano e teólogo alemão, séculos XIII e XIV, 1260-1327). 

Uma canção de Mirabai:

Oh, meu companheiro,
Estranho é o comportamento dos meus olhos,
Tua doce figura introduziu-se em minha mente
E nela faz caminho para meu coração
Há quanto tempo estava em minha casa, contemplando a estrada?
Minha vida depende de Shyan, o Bem-amado.
Ele é a erva que me permite viver.
Mira tornou-se propriedade pessoal de Giridhara: 
Dizem que ela enlouqueceu.

Talvez a melhor maneira de entendermos o mecanismo da sedução esteja na Alquimia, mais exatamente na Solutio (dissolução), operação alquímica ligada à água. Este elemento, sob o ponto de vista das qualidades primitivas, se compõe pela união do frio e do úmido, o primeiro favorecendo a penetração, a receptividade, e a outro a interiorização. Sedução e solutio estão sempre ligadas à água, à umidade, pois é essa qualidade que favorece a invasão, a penetração e a dissolução das formas. Não foi por acaso que Afrodite, a deusa do amor, nasceu na água. 

No jogo da sedução, se aquele que seduz é maior, mais poderoso, que o seduzido, ele sempre acabará se impondo a este, afetando-o mais, dominando-o. Comuns estes casos nas conversões religiosas, filosóficas e políticas, principalmente. Este tipo de sedução leva o seduzido a se dissolver num grupo, numa seita. Há muitas vezes até perda do nome, afastamento do meio familiar, rompimento com relação a todas as ligações anteriores, amigos, grupos de referência etc. Não é por acaso que na Psicanálise banhos, chuvas, orvalho, imersões, inundações, dilúvio, quedas d’água são símbolos de dissolução quando aparecem em sonhos, podendo anunciar que estamos prontos para mudanças e transformações. Nessa perspectiva é que a vida humana, com seus desejos, seus sentimentos e emoções, é figurada por um rio que atravessa a terra e se lança no mar, representando este a imensidão misteriosa em direção da qual ela se encaminha e da qual ela saiu. Banhos, em sonhos, indicam, por isso, uma necessidade de regeneração, de esquecimento do passado, de deixarmos para trás alguma coisa em nossa vida. Inundações, por outro lado, poderão representar a perigosa invasão de incontroláveis e catastróficos sentimentos. É pelas mesmas razões expostas que as águas submarinas têm relação com a vida subconsciente e que águas geladas (geleiras e glaciares) simbolizam em alto grau a estagnação psíquica nas suas conhecidas expressões de ideias fixas, manias, obsessões e compulsões.

BAUDELAIRE

Há um poema de Baudelaire, Hino à Beleza, em que se descreve essa situação. O poeta é seduzido pela Beleza: 

Vens do céu profundo ou sois do abismo        
Oh, beleza. Teu olhar, infernal e divino,
Verte confusamente o bem e o crime
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs em teu olhar o poente e a aurora
Espalhas perfumes como uma noite tempestuosa
Teus beijos são filtro e tua boca uma ânfora
que tornam o herói covarde e a criança corajosa.

Que venhas do céu ou do inferno, pouco importa,
oh, Beleza! Monstro enorme, assustador, ingênuo
se teus olhos, teu sorriso, teu pé me abrem a porta
de um infinito que amo e jamais conheci!

De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou sereia,
que importa se tornas – fada de olhos aveludados,
ritmo, perfume, clarão, ó minha única Rainha!
se tornas o universo menos horrível e os instantes menos pesados?

Toda a sedução é uma espécie de capitulação. Um menosprezo de nossa autoridade, de nossos direitos, um deboche, muitas vezes, um achincalhe à nossa personalidade. Uma rendição e uma redução ao mesmo tempo. Perdemos, com a invasão sedutora, a nossa liberdade, as nossas prerrogativas, os nossos direitos. Ficamos à mercê de algo mais forte, impotentes, diante desse algo que se impõe, que pode nos horrorizar, mas que, no fundo, desejamos. Um querer não querendo. Sucumbimos, morremos, felizes.

Nos Cancioneiros portugueses do pré-renascimento, séculos XIII a XV, encontramos esse tema explorado. Dois exemplos: o primeiro de João Roiz de Castelo Branco e o segundo de Luís Silveira:

CANTIGA SUA PARTINDO-SE
                                                                        
Senhora, partem tão tristes                 
meus olhos por vós, meu bem,  
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,                             
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida;

Partem tão tristes, os tristes,
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

                 
CANTIGA

Senhora, pois, que folgais
Com meu mal, não me mateis;
Porque quanto mais alongais minha vida, tanto mais
Vossa vontade fareis.

E olhai, se me acabais,
Que nunca me mais tereis,
Inda que me desejeis,
Para m´outra vez matardes.
Mas já sei o que cuidais,
e de mim o conheceis:
Confiais que, se de morto mandais que torne, 
que m´achareis.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PLATÃO, PROMETEU E A MITOLOGIA



PLATÃO
Corrente filosófica derivada do pensamento de Platão,  caracterizada pelo dualismo corpo-alma, pelo primado da ideia sobre o mundo percebido, pela desconfiança com relação às representações que o homem faz  do mundo na medida em que ele, o mundo sensível, é uma degradação do mundo divino, o mundo das ideias, o platonismo é uma das tradições centrais do pensamento ocidental. Para o idealismo platônico, a matéria é sempre uma manifestação ilusória, incompleta ou simples imitação imperfeita de uma matriz divina.

Platão desenvolveu seu pensamento através de um gênero filosófico vivo e dinâmico, o diálogo, forma expositiva herdada talvez do pensamento oriental. Em vinte oito diálogos autenticados como seus, ele abordou, com um estilo impecável e refinado, praticamente todos os grandes problemas filosóficos e metafísicos da história da filosofia, indo do discurso racional à linguagem poética, das questões políticas aos problemas da arte e muito mais.

SÓCRATES
Em muitos dos seus textos encontramos uma declarada aversão pelos poetas. Considerava-os mentirosos, fantasistas, perigosos. Eles não habitariam a “cidade justa” do filósofo. Sócrates, em A República, famoso diálogo platônico, afirmou que a polis só seria justa se governada pelos que fossem capazes de cultivar a filosofia. Só aqueles capazes de alcançar o que era imutável e eterno e não ficassem presos à multiplicidade, ao variável, é que poderiam governá-la. O mundo material para Platão era uma manifestação ilusória, incompleta ou mera imitação imperfeita de uma matriz original constituída de formas ideais inteligíveis e intangíveis.

Platão, lembremos, nasceu em Atenas em 428 e morreu em 347 aC. Seu verdadeiro nome era Aristoclês. Por causa de seu porte atlético, de seus ombros largos, ganhou o apelido de Platão. Recebeu uma educação das mais cuidadas, dedicando-se, antes da filosofia, à poesia e ao teatro, à tragédia especialmente.

Por  volta dos vinte anos, conheceu Sócrates, entregando-se a partir de então, com grande paixão, à filosofia, permanecendo ao lado de seu mestre até 399 aC, data de sua morte. Militou nas fileiras do partido aristocrático, mas logo se desiludiu com as mesquinharias e a corrupção do jogo político. Entregou-se então inteiramente ao estudo e à filosofia.  Viajou muito, visitando Megara para conhecer  Euclides, o Socrático. Foi ao Egito e à Sicília (onde viveu na corte de Denys de Siracusa) e, provavelmente,  à Ásia Menor, Creta, à Itália do sul, onde conheceu o pitagorismo com Archytas de Tarento. Há uma história, não confirmada, de que por causa de atritos com o referido Denys, teria sido vendido como escravo e depois resgatado por Dion, político grego, tio daquele.


ACADEMIA

Ao retornar  em 387 aC, Platão começou a ensinar filosofia na periferia de Atenas, nos jardins onde ficava a Academia, às margens do rio Cefiso, perto do local onde o herói Akademos tinha o seu túmulo. Akademos (hekas, longe, distante; demos, povo) é aquele que “age independentemente do povo”. Foi um herói mítico ático que revelou aos Dioscuros (Cástor e Polideuces, os gêmeos, filhos de Zeus) o lugar onde Teseu havia escondido Helena, por ele raptada. A Academia ficava além do bairro Cerâmico, perto do cemitério de Atenas. Mais tarde, chamado de volta à Sicília por Dion, logo retornou a Atenas. Platão morreu octogenário, legando a sua fortuna e a direção da Academia a seu sobrinho Speusippe.


Em A República, Platão coloca as elaborações míticas muito próximas da
HESÍODO
mentira: Narrar um mito é contar algo falso, ainda que no seu interior exista alguma verdade. Em Górgias, Platão rotula o mito como história para crianças, contos da carochinha (mythos graos). É em A República que ele procura desenvolver uma análise dos mitos. Condena Homero, Hesíodo e os poetas órficos, pois “atentavam contra a moral e a dignidade humana”.

Vários trabalhos foram escritos ao longo dos séculos sobre a posição de Platão com relação à mitologia e também sobre o seu desembaraço em se apropriar dos mitos, que tanto condenou, na medida em que eles serviam para ilustrar os seus pontos de vista, deformando-os, reinventando-os inclusive.

Para Platão, o mito era ficção, o que os aproximava por isso da  parábola e da alegoria. Ficção, como se sabe, é ato ou efeito de fingir, criação fantástica, farsa. Parábola (para, ao lado; ballein, lançar; pôr em paralelo), é mensagem indireta transmitida por meio da comparação, da analogia. Alegoria (allos, outro; egor, falar), falar de uma coisa, mas referindo-se a outra. Para Platão o mito não podia ser usado como um método válido para se alcançar a verdade, embora pudesse ser objeto de uma forte adesão interior, como no caso dos mitos escatológicos, por exemplo.

O mito era também perigoso para Platão porque  tinha um sentido oculto. Precisava ser ultrapassado, decifrado, interpretado. Era aberto a múltiplos níveis de significação. Ou seja, o mito “não afirmava a verdade, oferecia sentidos.” Era, como tal, uma “outra” representação. Evocava, sugeria, falando tanto à inteligência quanto à imaginação, o que sempre podia causar muita confusão. Para Platão, o mito, em suma, era um retorno ao pré-lógico.

Obras como as de Victor Brochard (Les Mythes dans la philosophie de Platon) e Luc Besson (Platon, les mots et les mythes), publicadas no último século, não nos ajudaram muito a entender as teorias de Platão sobre os mitos e muito menos explicam a contento porque ele, que tanto os combateu, os usou da maneira como o fez, modificando-os, falseando-os.

Foram sobretudo os diálogos de Platão (A Apologia de Sócrates, Criton, Phedon, O Simpósio e Theeteto) que contribuíram para fazer de Sócrates, do qual não temos obra alguma, um mestre do pensamento e um dos pais da filosofia, o pensador capaz de despertar os espíritos para a reflexão graças à sua ironia e à sua maiêutica, a sua arte de dialogar. O essencial da filosofia socrática consistia, como se sabe, em sua fé na razão humana, pela qual o homem poderia atingir o conhecimento de si mesmo e a felicidade. Conhece-te a ti mesmo e Ninguém é mau voluntariamente  eram frases usadas por Sócrates, segundo Platão.

Deixando de lado a questão de Sócrates ter existido ou não, de ter sido um personagem “inventado” (um mito?) ou um ser historicamente determinado, de sabermos onde começa Sócrates e termina Platão, tomemos um mito usado por este último para ilustrar o que aqui se diz: o mito de Prometeu, como foi apresentado em Protágoras, diálogo em que Sócrates e os sofistas discutem sobre a questão de ser possível ou não se ensinar a virtude.

Eis o mito de Prometeu como Platão o narrou. Retirei-o de “Platon, Oeuvres complètes”, Bibliotèque de la Pléiade, NRF:

 “Era o tempo em que os deuses já existiam, mas não as raças. Quando chegou o momento marcado pelo destino para o seu nascimento, os deuses modelaram-nas no interior da Terra, com uma mistura de terra e de fogo e de todas as substâncias que podem se combinar com o fogo e a terra. Depois, quando decidiram trazê-las à luz, eles ordenaram a Prometeu e a Epimeteu que as dotassem de qualidades, distribuindo-as a cada uma delas como conviesse. Epimeteu pediu a Prometeu que o deixasse fazer sozinho tal distribuição: ”uma vez feita por mim tal distribuição, disse ele, tu a verificarás depois”. Aquiescendo Prometeu, Epimeteu se pôs ao trabalho. Ao distribuir as qualidades, ele deu a certas raças a velocidade sem a força; a algumas, mais fracas, dotou de rapidez; a outras ele concedeu armas; para aqueles desarmados por  natureza, inventou alguma outra qualidade que lhes permitisse assegurar a sua salvação. Às raças de pequena altura, concedeu-lhes a possibilidade de uma fuga alada ou a vida num habitat subterrâneo. Aquelas que foram dotadas de elevada altura, era por essa qualidade mesma que se salvavam. Assim, com relação a todas, a distribuição que procurou fazer consistiu em igualá-las quanto às oportunidades e, no que dissesse respeito ao que imaginou, tomou precauções para que nenhuma delas se extinguisse.

 Assim, depois de lhes haver  dado meios de escapar de ações destrutivas recíprocas, imaginou para cada uma delas defesas adequadas contra as variações de temperatura que vinham de Zeus: vestiu-as com uma espessa pele e sólidas carapaças, próprias para protegê-las não só do frio, mas também das altas temperaturas; sem contar que, quando fossem se deitar, tal proteção constituir-se-ia  também numa coberta individual e parte de cada uma; elas calçariam um tipo de tamanco feito de chifre ou de couro, sólido, sem sangue. Depois disso, forneceu-lhes alimentos próprios a cada uma delas: para algumas, a erva que crescia da terra, para outras, os frutos das árvores, para outras, raízes; a algumas consentiu que seu alimento fosse a carne de outros animais e lhes atribuiu uma fecundidade restrita, enquanto atribuía uma fecundidade abundante  àquelas que corriam o risco de ter o seu número diminuído e dessa forma garantindo a salvação de suas espécies.

Mas, como Epimeteu não era muito atento, não se deu conta que, depois de ter gasto o tesouro das qualidades em benefício dos seres privados de razão, restava-lhe ainda a raça humana que não fora absolutamente dotada; e ele estava preocupado com relação ao que fazer. Ora, enquanto assim se preocupava, eis que chegou Prometeu para fazer o devido controle; ele viu os animais adequadamente dotados, sob todos os aspectos, enquanto o homem ficara completamente nu, descalço, sem cobertas, desarmado. O momento do homem sair do interior da Terra em direção da luz já havia chegado. Então, Prometeu, atarantado, sem saber que meio encontrar para salvaguardar o homem, roubou de Hefesto e de Athena o gênio criador das artes, isto é, o fogo (pois sem o fogo ninguém poderia  adquirir e muito menos utilizar este gênio criador); e foi procedendo assim que Prometeu deu ao homem o seu presente. Eis então como o homem adquiriu a inteligência que é aplicada às necessidades da vida. Mas ele, o homem, não possuía a arte de administrar as Cidades! Esta arte, com efeito, estava com Zeus. Mas não era mais possível a Prometeu penetrar na acrópole habitada por Zeus, sem falar das temíveis proteções que envolviam o próprio Zeus. Então, Prometeu penetrou sub-repticiamente na oficina que era comum a Athena e Hefesto, onde os dois praticavam suas artes, e, depois de ter roubado a arte de se servir do fogo, domínio de Hefesto, e as artes restantes, domínio de Athena, fez delas presente ao Homem. É deste fato que resultam para a espécie humana os confortos da vida, mas, posteriormente, para Prometeu, com a instigação de Epimeteu, resultou uma perseguição por ter sido o autor do roubo!

Ora, desde que o homem teve a sua parte do lote divino, foi, primeiramente, o único animal a crer nos deuses; pôs-se a construir altares e imagens. Em seguida, logo começou a articular artisticamente os sons da sua voz e as partes do seu discurso. As habitações, as roupas, os calçados, os agasalhos, os alimentos tirados da terra foram, depois disso, suas invenções. Assim que os homens se equiparam dessa maneira, no começo, viviam dispersos. Não havia cidades; em consequência disto, eram destruídos pelos animais selvagens, pois, de toda maneira, eram mais fracos; e se o produto de suas artes lhes garantia o suficiente para o seu sustento, não lhes dava ele meios de enfrentar os animais, pois não possuíam ainda a arte política da qual a guerra é uma parte. Assim, eles procuraram se agrupar e, fundando cidades, garantir a sua salvação. Mas, quando se agrupavam, cometiam injustiças uns aos outros, precisamente por não possuir a arte de administrar as cidades. Sendo assim, espalhavam-se novamente em várias direções e eram dizimados. Foi então que Zeus, temendo o desaparecimento total da espécie humana, mandou Hermes levar aos homens o sentimento do pudor e da justiça, a fim de que tais sentimentos fossem o atributo das cidades e os liames pelos quais criar-se-iam as amizades. Neste ponto, Hermes perguntou a Zeus de que maneira enfim ele daria aos homens tais sentimentos: será também preciso que eu faça entre eles a distribuição da mesma maneira que foram distribuídas as disciplinas especiais? Ora, eis como tal distribuição havia sido feita: um único indivíduo, que é um especialista da medicina, basta para um grande número de indivíduos  estranhos a esta especialidade; o mesmo acontece para as outras profissões. Bem! Será necessário que eu estabeleça desta maneira os sentimentos da justiça e do pudor  entre a humanidade? Ou será preciso que eu os distribua indistintamente a todos? 

“A todos indistintamente”, respondeu Zeus, e que o sejam no número dos que participam destes sentimentos! Não haveria, com efeito, cidades se apenas um pequeno número de homens, como é, aliás, o caso com relação às disciplinas especiais, participasse destes sentimentos. Além disso, institui mesmo em meu nome uma lei, segundo a qual, será condenado à morte, como se fosse para o corpo social  uma doença, aquele que não for capaz de participar dos sentimentos do pudor e da justiça.”


HEFESTO E ATHENA DE BORDONE

Em síntese, o que temos neste diálogo, também chamado de Os Sofistas, através do mito de Prometeu à maneira de Platão,  é uma história sobre origem das espécies vivas. Epimeteu, na repartição das qualidades por essas espécies, esqueceu-se do homem. Com a intervenção de Prometeu, uma correção é introduzida. Ele roubou o fogo e com ele as habilidades de Athena e de Hefesto, deuses aqui considerados como “tecnocratas”, dando-o de presente ao homem, que assim se civilizou. Por essa ação,  Prometeu será perseguido pelos deuses. Ficou faltando ao homem a arte política, que era de Zeus. Os homens aprenderam a emitir sons, a articular seus discursos, mas viviam dispersos, embora tivessem construído templos e cultuado a imagem dos deuses. Fundaram cidades, mas lesavam-se mutuamente. Zeus, temendo que eles se destruíssem, enviou Hermes para lhes dar o pudor e a justiça, que deveriam ser distribuídos entre todos os homens, como ordenou o Senhor do Olimpo. Aqueles que fossem incapazes de compartilhar tanto um como outro sentimento deveriam ser entregues à morte, pois seriam como doenças envenenando o corpo social.


SOFISTAS

O mito de Prometeu, narrado desta forma, Platão o pôs nos lábios de Protágoras, o sofista. Platão, como se disse, era um inimigo figadal desses  filósofos, para os quais o que interessava era o homem perdido na imediatez do mundo, o problema da sua subjetividade, uma rebelião contra a metafísica, uma afirmação do concreto e do particular. O homem como medida de todas as coisas era uma das máximas da sofística. Para Platão o que interessava era o Homem; para os sofistas, ao contrário, só havia homens, situados histórica e geograficamente. Contra este modo de pensar, Sócrates, isto é, Platão, falava de uma ordem moral objetiva, de verdades absolutas.

PROTÁGORAS
Platão faz então Protágoras, o “inimigo” de Sócrates, distorcer a história de Prometeu para defender os seus pontos de vista. No discurso de Protágoras o que temos é o fogo, símbolo da inteligência humana, como impulsionador da civilização, e o homem fazendo a sua história. De um lado a valorização da técnica e, de outro, a da vida social. Protágoras põe em relevo o cidadão, o homem que com a técnica se transforma em agente da história. Platão, com se sabe, em sua cidade ideal, aristocrática, não reservou para essa “nova classe”, pragmática e utilitarista, que tem origem nas propostas dos sofistas, um lugar de destaque. Em Protágoras, Platão procura deixar claro que uma coisa é saber (filosofia) e que outra é saber fazer (sofística).
 

Hesíodo, quase quinhentos anos antes de Platão, havia fixado de modo bem diferente o mito de Prometeu em sua “Teogonia”. Em linhas gerais, o resumimos aqui, incluindo alguns dados e comentários para a sua melhor compreensão: Prometeu e Epimeteu, gêmeos, pertenciam à raça dos titãs, eram filhos de Jápeto e de Clímene; Atlas e Menécio eram os outros irmãos. Quando da luta entre a segunda dinastia divina (titãs) e a terceira (olímpicos, chefiados por Zeus), Prometeu tomou o partido destes últimos. Agradecidos, os olímpicos, vencedores, o admitiram no Olimpo.

Zeus, com o tempo, resolveu acionar um plano que alimentava há muito: a destruição dos humanos, raça oriunda da segunda dinastia divina, do reino de Cronos, seu pai, pois eram criaturas inferiores,  Aniquilá-los através de um dilúvio. Assim foi feito, mas Prometeu conseguiu salvar seu filho Deucalião, que era casado com  Pirra, a Vermelha, sua prima, filha de Epimeteu. Salvo o casal, em pouco tempo a Terra voltou a se povoar, uma nova raça humana fora criada.

Logo se reiniciaram as disputas entre os humanos e os deuses. Por sugestão de Prometeu, foi promovida uma reunião entre as duas partes na Terra, em Mecone, na qual, por motivos jamais esclarecidos, Prometeu  resolveu enganar seu primo, o Senhor do Olimpo. Para a reunião, um enorme boi havia sido dividido em duas partes. Numa, as carnes e as entranhas do animal, cobertas com o seu couro; noutra, os ossos, encobertos pela gordura. Coube a Zeus, a pedido de Prometeuescolher inicialmente a sua parte. Ele optou pela que parecia a todos a mais apetitosa, a última mencionada, pois carnes e gorduras sempre andam juntas. Zeus logo percebeu que fora enganado. Tomado por imensa cólera, Zeus resolveu privar os humanos do fogo, tecnologia que eles mal controlavam, fazendo-os dessa maneira regredir à animalidade, imbecilizando-os (anoetos). A reunião de conciliação proposta por Prometeu terminara, um grande fracasso...



Prometeu resolveu  então intervir novamente; foi aos céus e roubou uma centelha do fogo do deus Hélio, o Sol, trazendo-a para a Terra, escondida dentro do galho oco de uma figueira. Com o fogo, os humanos se reanimaram; aos poucos foram deixando a vida animal, recuperando a inteligência de forma diferente, começaram a produzir bens como nunca o haviam feito antes.



O revide de Zeus veio prontamente. Mandou prender Prometeu nas montanhas do Cáucaso. Acorrentado por Hefesto, seu fígado era destruído diariamente por um abutre monstruoso, filho de Tifon e de Équidna; à noite, quando a ave se ausentava,  a glândula se recompunha. Para castigar os homens, Zeus inventou uma punição terrível, um mal que por eles seria desejado e amado ao mesmo tempo. Enviou Zeus uma tentação irresistível, a mulher, provocando com isso a irremediável divisão dos sexos,  Pandora, “mal  tão belo”,”presente de todos os deuses”.


                                   
                                              HERMES, EPIMETEU E PANDORA


Ela e os benefícios do fogo vieram juntos, tornando-se assim a mulher o preço do fogo. Pandora desceu assim como um presente dos deuses para simbolizar o fogo dos desejos que tanta infelicidade causaria aos homens.


 Nas mãos, ela trazia uma jarra; dentro dela, os espectros infernais do Jardim de Perséfone, todos os males com os quais desde então a humanidade vem se havendo, dores, misérias, doenças, violência, mentira, corrupção, inveja, velhice, pestes, catástrofes etc. Recebida por Epimeteu (o que sabe sempre depois), apesar da advertência do irmão para que nada aceitasse dos deuses, a jarra foi aberta, dela escapando todos os mencionados males, com  exceção de um, a esperança, que passou a ser tida por quase toda a humanidade como algo muito positivo. Como logo se constatou, porém, a esperança  se constituiu talvez no maior dos males, pois foi a partir desse momento que o presente (só ele é eternamente real) deixou de ser vivido pelos humanos.

Foi por suas intervenções a favor dos humanos que Prometeu recebeu o apelido de filantropíssimo, o muito amigo dos homens. Sob o ponto de vista dos deuses, porém, Prometeu foi um criminoso, um ser perigoso, que roubou um segredo divino e o entregou aos humanos. Entrando na posse do fogo, entusiasmados, os humanos logo esqueceram a origem divina do elemento. Usaram-no exclusivamente para produzir bens materiais. Ao invés de usá-lo também espiritualmente, como agente fecundante, purificador e regenerador, como meio de iluminação que conduzisse a uma vida superior, passaram a vivê-lo tão só como desejo, paixão, velocidade, violência, corrupção, como gerador de conquistas, de riquezas e de guerras. O fogo se tornou incontrolável, apenas um fator de progresso material. De celeste que era inicialmente, o fogo acabou por se tornar infernal na mão dos humanos, transformado em fonte de revolta e de regressão psíquica. Por isso a humanidade progride tanto materialmente, tecnicamente, mas regride cada vez mais moralmente, socialmente.

HÉRCULES
A punição de Prometeu, determinada por Zeus, deveria mantê-lo preso a um sofrimento eterno, agrilhoado às rochas. Hércules, entretanto, quando do seu terceiro trabalho, ao passar pelas montanhas do Cáucaso, ouviu os seus gritos. Dele se apiedou e matou o monstruoso abutre que lhe destruía o fígado a flechadas, libertando o filantropíssimo titã. Com a aquiescência do próprio Zeus, que desejava ampliar o seu renome de divindade magnânima e generosa, como diz Hesíodo, tudo acabou bem. Uma condição, contudo, foi imposta por Zeus: Prometeu ficaria obrigado até o final dos tempos a carregar no tornozelo uma argola, confeccionada com o metal dos seus grilhões, à qual se prenderia um fragmento da montanha onde estivera acorrentado. Com esta exigência, Zeus não só reafirmava a sua autoridade como impedia que o titã esquecesse o seu crime...

Prometeu é, sem dúvida, um dos mais contraditórios, ambíguos e paradoxais personagens da mitologia grega. Num momento, ao que parece omisso com relação ao destino dos seus irmãos titãs ou desprezado por eles, ajudou os olímpicos; depois, insurgiu-se contra Zeus, com quem havia se unido, a autoridade suprema;  logo em seguida, procurou se envolver num discutível e utópico projeto político, a salvação da humanidade, mas cometendo erros incompreensíveis, que comprometeram o seu intento, levando-se em conta, sobretudo, que ele era ”o que sabia antes”, “o de juízo previsor”.

 
ELPIS
   O mito, como se disse, nos conta que Epimeteu e Pandora conseguiram fechar a jarra por esta última trazida, retendo apenas uma entidade chamada “Elpis”, a Esperança. Ao conservá-la como um valor positivo, os humanos, como logo se viu, perderam o presente, isto é, deixaram de vivê-lo para se projetar em direção do futuro, expectantes, angustiados, frustrados sempre, como a experiência sempre demonstrou. Uma das consequências mais danosas decorrentes da conservação de Elpis foi também a perda da dimensão  física do presente por grande parte da humanidade, que passou a viver tão somente em termos de projeções mentais, construindo mapas de territórios inexistentes. Elaborações puramente mentais, sendo um de seus melhores exemplos o tema filosófico da utopia (como a própria República de Platão), palavra que etimologicamente significa, como se sabe, “em lugar nenhum”.

ÉSQUILO
      
 A literatura filosófica e a arte vêm produzindo ao longo dos séculos numerosas obras nas quais a figura de Prometeu, o titã, é evocada. Na antiga Grécia, além de Hesíodo, foi Ésquilo, o primeiro dos poetas trágicos, a escrever sobre ele, a tragédia Prometeu acorrentado. Ésquilo (525-456 aC) é, com todo os méritos, o fundador do teatro grego. Das suas noventa peças só sete chegaram até nós. No seu teatro, o coletivo sempre superou o individual, a polis e os deuses sempre venceram.  A fatalidade sempre esmagou o homem, pois ele tendia a ultrapassar o seu metron, como Prometeu o fez com relação aos deuses. Mais ainda: a falta de um recaía sobre todos. A lição de Ésquilo é a de que todos devem gemer. Ou seja: sofrer para compreender. Honrado por Aristóteles, cinquenta anos depois de sua morte, como grande moralista, Ésquilo tornou-se lenda, um símbolo do pensamento ético. A sua estátua ornava o teatro de Dioniso em Atenas. Poetas, pensadores e dramaturgos de todos os tempos, como os modernos Percy Shelley, Karl Marx e Eugene O'Neill usaram as obras de Ésquilo como motivação de sua própria criatividade.

O teatro de Ésquilo se dirige para as questões universais, para as questões humanas mais graves, problemas sociais, como a natureza da justiça. Escreveu sua obra quando as instituições políticas da polis (Atenas) ainda não se haviam firmado de todo. Não havia no teatro de Ésquilo lugar para “aventuras” individuais como as que Sófocles pôs em seu teatro (Édipo). Seu Prometeu era um “revoltado” contra o sistema e, como tal, devia ser punido. Para Ésquilo, o castigo de Prometeu tinha a finalidade de fazê-lo “retroceder na sua atitude demasiado favorável aos humanos.” Na tragédia esquiliana, Hefesto, ao aprisioná-lo, embora se sinta indeciso entre a sua simpatia por um parente e o temor a Zeus, lhe diz: Pois tu, que és um deus, não só desafias a cólera dos deuses como ainda deste aos mortais honras indevidas.

     
BYRON
                                                                                     
Ésquilo, contudo, não chegou a fazer de Prometeu, como Hesíodo, uma
GOETHE
espécie de “promotor” da decadência da humanidade, apenas o responsável pela vinda de Pandora, a mulher, “o mal tão belo”... Em Ésquilo, Prometeu assume a sua revolta, bate de frente contra os deuses (Zeus), os amaldiçoará e anunciará o seu fim, como os germânicos o farão com o seu Ragnarok (Crepúsculo dos Deuses). As correntes humanistas modernas, filósofos e artistas dos séculos XVIII e XIX, de inspiração romântica, Goethe, Michelet, Byron e outros, trarão o tema prometeico para o primeiro plano em suas produções, sempre enfatizando o seu lado “demasiadamente humano”, progressista e técnico.

Platão, ao se apropriar do mito de Prometeu, esvaziou-o, rebaixando-o de certo modo, transformando Prometeu, na fala de Protágoras,  num “produto” dos sofistas, patrono do homo faber e do homo politicus. O mito do titã tem uma dimensão bem maior, outras implicações, conforme podemos sacá-las das “leituras” que dele fizeram Hesíodo, Ésquilo e muitos outros.

Platão sempre desvalorizou as técnicas diante do conhecimento filosófico. Para ele, as classes que compõem o Estado deviam corresponder às três partes da alma individual. À parte concupiscente da alma corresponderia a classe dos produtores (artesãos, comerciantes, agricultores etc.), voltada para a produção de bens, para os ganhos materiais. A segunda parte da alma, a irascível, seria a dos guerreiros, valentes e audazes. A parte racional da alma corresponderia à classe governante, de onde sairiam os sábios, os únicos que conheciam a verdade e o bem.

APOLO
 Quando Platão proclamou os deveres de um verdadeiro legislador foi a   Apolo                                                                                                                  
DIONISO
que ele o enviou para se inspirar. Para Platão, é Apolo a divindade  inspiradora das mais importantes, belas e primeiras leis, as que dizem respeito à fundação dos templos, aos sacrifícios, ao culto dos deuses, aos heróis, aos antepassados. Apolo, o deus da aristocracia ateniense, através de seu oráculo, era para Platão o guia do gênero humano. Platão, lembremos, nos falava disso tudo num  período histórico da Grécia (Atenas) chamado de clássico, um período que se pretendeu eterno como tantos outros,  um período de esplendor e apogeu, que, como tantos outros, porém, teve fim, se foi, diante das irrefreáveis forças dionisíacas, no eterno jogo dialético dos contrários, da construção e da destruição...

Sabemos que Platão, como está em A República, não considerava a democracia um regime político ideal. O fundamento da sua doutrina política é moral e religioso. A perfeição moral consistia para ele na harmonia das três partes da alma. Cabia à polis, isto é, ao Estado, a tarefa de fazer com que em cada indivíduo esta perfeição moral se realizasse. Ele deve ser a “suprema vontade” a exigir obediência e respeito, sem ser coercitivo. Assim, o Estado, exemplo de justiça, de beleza e de bondade, seria uma realização terrena da civitas ideal, uma antecipação da felicidade celestial. Daí, pois, o Estado para Platão ser uma entidade dedicada a fins transcendentes. A harmonia platônica tem, politicamente, bases morais e espirituais e não materialistas ou econômicas.

A polis grega (Atenas), entre os séculos V e IV aC, tinha por base três princípios: eleuteria (independência), autonomia (poder próprio) e  (autogestão). Nesse período, esses três princípios chegaram a um razoável equilíbrio, criando um regime político que se denominou então de “democracia”, porque a sua proposta era a da liberdade dos cidadãos e a da eliminação (na realidade, uma leve atenuação) das diferenças entre as classes sociais.

Teoricamente, falava-se muito em igualdade perante a lei, em liberdades individuais, em filantropia, traduzindo esta em melhoria da situação econômica dos segmentos sociais que até então não haviam tido a mínima representatividade política na polis. Na teoria, tudo bem, mas na prática é que estavam os problemas, os insolúveis problemas. A aristocracia grega evidentemente não implantaria uma política dessa natureza à custa de seu patrimônio e privilégios. Para tolerar o acesso desses segmentos a níveis econômicos mais elevados a saída estava na manutenção de uma política externa agressiva, colonialista, imperialista.

Além do mais, em que pesem as boas intenções dos discursos democráticos, para se manter a polis funcionando, era preciso manter uma população de escravos, destituídos de quaisquer  direitos civis. Para que a aristocracia pudesse se dedicar às coisas públicas, à vida na “agora”, à política e à arte, não precisando se envolver com as pesadas tarefas cotidianas, era preciso manter uma grande estrutura. Os gregos tinham um verbo, politeyesthai, que significava “tomar parte nos negócios públicos”. Evidentemente, só quem o conjugava eram os eupátridas, os bem nascidos. Esse verbo também admitia um outro sentido, muito simples, “viver”. Ou seja, só quem “vivia” eram os eupátridas, os que participavam da vida púbica na pólis. Eram aproximadamente 40 mil, 140 mil com os familiares.

  O número de escravos precisava, por outro lado, ser ao mesmo tempo suficientemente grande e limitado para que a aristocracia não ficasse desservida e para que se afastassem as possibilidades de sublevações, greves e revoltas, sempre de difícil controle. O número de escravos, no período mencionado, andou por volta de 250 mil. Se a esse número acrescentarmos o de 70 mil, no qual se incluem os metecos (estrangeiros), privados da posse de terras e do direito de casamento com uma ateniense, mais os artesãos (industriais), comerciantes, professores, artistas, funcionários públicos de baixa categoria, endividados de todo o gênero, prisioneiros, todos sem direitos políticos, desprezados pela aristocracia, teremos números bastante significativos.

Na democracia ateniense dos sécs. V e IV aC, os sofistas desempenharam um papel importante, pois foram eles que forçaram a mudança do discurso político sobre o problema moral. O contacto com outras culturas, com leis e costumes diversos, foi também um poderoso fator  estimulante para que aumentasse a participação, na administração pública, de representantes de alguns segmentos sociais que até então dela nunca haviam feito parte. Essa participação, inclusive na atividade legislativa, convenceu os gregos do caráter humano das leis e das instituições sociais. As antigas leis, de caráter divino e eterno,  começam a mudar. Com os sofistas, as leis, como tudo o mais, são relativas e são os homens que as estabelecem. São altamente convencionais, devem ser fixadas através de discussões, debates, acordos.

Não há, por isso, uma verdade objetiva universal válida igualmente para todos como também não pode haver uma moral verdadeira para todos. Entenda-se: Moral (mos, moris, em latim, é etimologicamente vontade de alguém, desejo, capricho) é o conjunto de valores individuais ou coletivos, considerados universalmente como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens. Na Filosofia, é cada um dos sistemas variáveis de leis e valores estudados pela Ética, caracterizados por organizarem a vida das múltiplas comunidades humanas, diferenciando e definindo comportamentos proscritos, desaconselhados, permitidos ou ideais.

 Os gregos, lembro, davam o nome de Ethos ao conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideais ou crenças) característicos de uma determinada coletividade, época ou região.

Platão fez de Prometeu, decididamente, o patrono da desagregação da antiga ordem social fundamentada nos valores  aristocráticos, apolíneos, um agente dionisíaco, um sofista. Os novos tempos da democracia ateniense consolidaram o poder do logos, trazendo  ironias ou a indiferença de filósofos com relação aos mitos e aos poetas.

                                          
       
Os tempos modernos recuperaram a imagem de Prometeu. A poesia (Voltaire, Schelling, Herder, Byron), as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Bocklin) e a música (Beethoven, Liszt, Orff) fizeram dele um símbolo da revolta do pensador ou do artista criativo contra um destino que o quer esmagar. Culturalmente, o ocidente, desde o Renascimento, fez dele uma figura de referência para simbolizar também a sua decidida vontade de “roubar” os segredos do Universo, do Céu e da Terra (antes só ao alcance da aristocracia), para colocá-los, a altíssimo preço, ao alcance de todos; uma vontade que parece não conhecer limites.

É por essa razão que alguns denominaram o período em que os sofistas atuaram na filosofia grega de o do “iluminismo grego”, numa clara referência ao movimento que no final do séc. XVIII procurou, através da Enciclopédia, fazer um quadro geral de todos os esforços do espírito humano, nele se dando um grande espaço à técnica, às artes mecânicas e aos ofícios, para enfatizar a dignidade do técnico, do artesão, e sua utilidade social.

 Prometeu é hoje, sem dúvida, o herói dos tempos modernos. Somos, em grande parte, o resultado dessa grande “ideia” grega, que atravessou séculos, uma ideia instigante, transformadora, e, ao mesmo tempo, causadora de muitas angústias e sofrimentos. O fogo que Prometeu deu aos humanos vem lhes proporcionando importantes conquistas  e, ao mesmo tempo, muitas perdas e derrotas.
ADÃO E EVA  (DÜRER)

O mito de Prometeu representa, segundo uma perspectiva evolutiva da história do ser humano, o despertar da consciência. Do ponto de vista divino, porém, uma queda, como a representaram, por exemplo, os poetas bíblicos quando nos descreveram o episódio em que Adão e Eva, por terem comido o fruto da árvore da ciência (figueira), foram expulsos do Paraíso. Recordemos que foi no galho oco de uma figueira, nele escondido, que Prometeu trouxe o fogo dos céus. A figueira (ficus religiosa) é a árvore do fogo, consagrada na Grécia a Palas Athena e a Hefesto, divindades ligadas às artes técnicas (*).
                                       
FICUS RELIGIOSA

Muitas são as interpretações do tema prometeico. Uma delas, muito sugestiva, irônica, completa, fechada, esquecida (porque ninguém hoje lê mais poesias), foi a que encontrei em Murilo Mendes, poeta brasileiro (1901-1975), retirada do seu livro O Visionário. Intitula-se o poema Novíssimo Prometeu:

Eu quis acender o espírito da vida,
Quis refundir meu espírito molde,
Quis conhecer a verdade dos seres, dos elementos;
Me rebelei contra Deus,
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
MURILO MENDES (ISMAEL NERY)
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho,
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões:
Então o ditador do mundo
Mandou me prender no Pão de Açúcar:
Vêm esquadrilhas de aviões
Bicar meu pobre fígado,
Vomito bílis em quantidade,
Contemplo lá embaixo as filhas do mar
Vestidas de maiô, cantando sambas,
Vejo madrugadas e tardes nascerem
- Pureza e simplicidade da vida! –
Mas não posso pedir perdão.”


(*) – Ashavattha, em sânscrito, era o nome que na antiguidade védica se dava à “ficus religiosa”, grande árvore de raízes aéreas. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por vontade de 2.000 aC.

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito, quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Ou seja, a “árvore sob a qual os cavalos se aquietam”. Liga-se o nome na Astrologia védica (Jyotish) ao signo de Mithuna (Gêmeos). Os Gêmeos, na Índia, têm o nome de Ashwins (Castor e Polideuces, os Dioscuros na mitologia grega) e são as divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya). Este, como símbolo da vida consciente no ser humano, deve caminhar em direção do Brahman (O Todo) espiritualmente.

Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos entre os gregos). Os Ashwins são deuses cavaleiros, têm domínio completo de sua montaria e exercem diversas funções no mito, dentre elas a arte médica. São divindades curadoras, pois controlam os cavalos, símbolo do psiquismo inconsciente.

A segunda etimologia se compõe de a, partícula que indica negatividade em sânscrito;  de shwa, que quer dizer amanhã; e de “tha”, que quer dizer permanecer, ficar. “Ashavattha” significaria, pois, aquilo que nunca permenece o mesmo de um dia para o outro, isto é, o transitório. Na filosofia hinduísta (darshanas), ashavattha é o mundo fenomênico, perecível, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, o mutável, o instável, “o que não permanece o mesmo de hoje para amanhã.”

Na tradição hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema Bhagavad Gita (integrado ao épico Mahabharata), ashavattha é a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi) que une o céu e a terra, por onde se espalha a sua ramagem, uma imagem das escrituras sagradas, os Vedas.

 No Budismo, a árvore tem o nome de “pippal”. A iluminação do príncipe Sidarta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio. Sentado sob a figueira, em Bodhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe “aquietou os seus cavalos” e recebeu o apelido de Buda, o Iluminado.

                                      
                                                          A ÁVORE DE BUDA


Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também pelo nome de banian (ficus indica ou ficus bengalensis), símbolo do conhecimento superior e da imortalidade. Confunde-se ela com o deus Vishnu, a segunda pessoa da trindade (trimurti) hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas a adoram, sendo ela muito encontrada na vizinhança dos templos. Ainda hoje, em muitas cidades do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.

A figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizabdo a sinagoga, que não reconheceu Cristo, e todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Em quase todas as tradições, porém, como na indo-mediterrânea, a figueira sempre apareceu associada a ritos de fecundação, as divindades fálicas, como Dioniso, Príapo e outras.

Considerada como a árvore da abundância, da fecundidade perigosa, descontrolada, aparece na Bíblia como a árvore da ciência. Por isso, ao comer os seus frutos, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Ciência, fígado e fogo se equivalem neste contexto semântico.

Prometeu rouba o fogo dos céus e o esconde no galho oco de uma figueira, entregando-o depois aos humanos. Por isso, como punição terá o seu fígado (ficatum), órgão do corpo humano que se regenera, destruído e recomposto alternadamente.

Ter um bom fígado, como registram nossos dicionários, é expressão usada para descrever uma pessoa corajosa, intrépida, sem temor, características sempre associadas ao fogo. A palavra ficatum, em latim, lembre-se, designava o fígado de ave engordada com figos.  Encontramos também o adjetivo figadal, aquilo que é próprio do fígado, para designar um sentimento alimentado nas vísceras, um sentimento rancoroso, invejoso, profundo. Seria este o caso de Prometeu, um invejoso dos olímpicos?

 O nome Prometeu, etimologicamente “o que sabe antes”, pode ser relacionado também com o verbo manthanein, que tem ligação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões de madeira, símbolos, na Astrologia ocidental, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental. Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar um bastão, tanto para produzir o fogo como a manteiga. Já se levantou a hipótese que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes do deus Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras).
                                            
O DEUS AGNI