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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O ZODÍACO (1)

                  
ZODÍACO  -  VENEZA

No ocidente, a origem do Zodíaco é atribuída a três povos: os babilônicos, os egípcios e os gregos. O nome vem do grego, da raiz grega zo, zoo, animal. Zoion é o ser vivente, o animal. O diminutivo, zoidion, pequeno animal, imagem de animal, foi de onde saiu zoidiakos, nome dado a uma zona celeste percorrida em um ano pelo Sol, fornada por doze agrupamentos de astros, interpretados como imagens de animais, de seres e de objetos.


TAPEÇARIA   MEDIEVAL

De um modo geral, a observação do céu e especialmente a da faixa zodiacal era feita na antiguidade por sacerdotes a serviço dos reis. Essa observação dava origem a presságios, relacionados principalmente com eclipses soli-lunares ou com aspectos que os planetas formavam entre si e com estrelas. Estas últimas, ao contrário dos astros que caminhavam pelo Zodíaco, chamados planetas (do grego, planes, planetos, errante, vagabundo), moviam-se tão lentamente que a elas se deu o nome de fixas, estrelas fixas. 

GILGAMÉS
Desde tempos muitos remotos, os astros que assim se movimentavam foram vistos também como representações ou imagens de divindades. Alguns estudiosos, admitem que a epopeia de Gilgamés, rei mítico de Uruk, na Mesopotâmia, cerca de 2.650 aC, com os seus doze cantos, já era uma representação do Zodíaco. Com efeito, os cantos VIII e IX desse poema, por exemplo, evocam a figura de um Homem Escorpião e uma ilustração do Dilúvio, esta associada a uma região do céu denominada  A Água, que ocupava boa parte do quarto quadrante zodiacal. Antigas tabuletas, encontradas por arqueólogos na biblioteca do rei Assurbanípal, entre 1.000 e 700 aC, nos fornecem relações de estrelas fixas. 


BIBLIOTECA  ASSURBANÍPAL
Por volta do séc. VI aC, os babilônicos já nos ofereciam uma imagem bastante correta da faixa zodiacal, dividida em doze partes de 30º cada uma. Entre os sumérios e os acadianos, temos nomes como caranguejo, espiga, arqueiro, cabra pisciforme e mercenário para designar, respectivamente, as constelações de Câncer, Virgem, Sagitário, Capricórnio, Áries etc. Cada uma destas partes se ligava a uma divindade ou a um animal. 

NUT  -  DECANATOS

Os egípcios, por seu lado, ao que parece, conforme a tradição greco-latina nos aponta, já haviam instituído, antes de 2.500 aC, o sistema de decanatos como divisão do círculo zodiacal. Isto é, dividiram-no em 36 partes, cada uma delas compreendendo 10º. Cada um dos 36 decanatos governava dez dias do ano egípcio, sendo estes pedaços do Zodíaco tutelados por gênios protetores.
FANES   E   ZODÍACO
Mais tarde, na astrologia helenística, o sistema de decanatos terá um papel muito importante, como se sabe. Na Mesopotâmia, a existência desta divisão do céu em 36 setores já estava bem atestada por volta de 1.500 aC. Os gregos, que receberam a Astrologia do mundo mesopotâmico, já haviam feito a ligação entre os astros (planetas) e os deuses da sua mitologia. Num diálogo de autoria de Felipe Oponte, discípulo de Platão, sob o nome de Epinomis, que apareceu no ano de 340 aC, dava-se o nome de Cronos a Saturno, de Zeus a Júpiter, de Ares a Marte, de Afrodite a Vênus e de Hermes a Mercúrio.


Historicamente, o primeiro horóscopo conhecido é mesopotâmico; foi levantado no ano de 410 aC para o filho de um rei babilônico. Foi esse mapa que abriu as portas para que a Astrologia genetlíaca fizesse a sua aparição no Mediterrâneo oriental e viesse a conhecer desde então grande sucesso. No ano de 280 aC, Berose, um dos muitos magos persas helenizados, instalou-se como astrólogo na ilha de Cós. 




Os astrólogos do Oriente próximo (Berose, Ostanes e outros), então chamados de chaldai, a partir do século III AC, repensaram a arte das predições dos babilônicos com base na leitura do céu, nela integrando contribuições egípcias e aquelas que viriam do mundo helenístico através do Hermetismo. No período romano da história grega, a Astrologia que então se praticava já se havia enriquecido
MANILIUS
do sistema dos termos e dos decanatos egípcios. Manilius (séc. I dC), com o seu Astronomica, e depois Firmicus Maternus (séc. IV dC, autor de Os Oito Livros da Astronomia) completarão o quadro, recebendo o Zodíaco, a esse tempo, o nome de sphaera barbarica. As palavras astronomus e astrologus eram praticamente equivalentes, reservando-se o nome de chaldai, depois magus, com conotação pejorativa (Cícero), para os astrólogos de origem oriental ou para aqueles que se entregavam às ciências ocultas.

Entre os séculos VI e V aC, matemáticos e astrônomos gregos delimitaram as constelações dos hemisférios boreal e austral e definiram  aquelas que formavam o Zodíaco. Plínio, o Velho, será,

entre os romanos, um entusiasta da ciência grega do céu, deste período. Diz ele: Consta que foi Anaximandro de Mileto quem, pela primeira vez, compreendeu a inclinação do Zodíaco, abrindo assim o caminho para as grandes descobertas, na 58ª Olimpíada (548-545 aC) e que Cleostratros descobriu em seguida os signos que o compõem, a partir de Áries (Carneiro). Prosseguindo: Anaximandro, filho de Praxiades de Mileto, filósofo, parente, aluno e sucessor de Thales, foi quem descobriu os solstícios, os equinóxios e o relógio, e que a Terra está colocada no centro do universo.

ARATOS   DE   SOLES
A obra mais famosa sobre constelações e estrelas fixas publicada antes das de Claudio Ptolomeu foi a de um poeta, Aratos de Soles (315-239 ac), que viveu na Sicília. Ele não era astrônomo ou matemático, mas, sem dúvida, um bom poeta didático. Phaenomena (Os Fenômenos) chamava-se o seu texto, um comentário na forma de um poema mitológico, através do qual era registrada a história das estrelas transformadas em divindades

celestes.  Para compor o seu texto, Aratos valeu-se da obra do astrônomo Eudóxio de Cnido (406-355 aC), intitulada, ao que parece, Phaenomena, hoje perdida. Eudóxio de Cnido foi o astrônomo que calculou o ano solar em 365 dias e 1/4, número que foi preservado por Júlio César, quando da instituição de seu calendário, chamado juliano, só alterado em 1582, pelo calendário gregoriano (papa Gregório XIII), adotado por todos os países desde então. 

O poema de Aratos definiu as doze constelações zodiacais na forma como as temos hoje. Nessa obra também se discutia qual, dentre as

doze constelações, deveria “abrir a marcha dos animais” e inaugurar o ano solar. É de se lembrar, entretanto, quando pensamos em prioridades, que os astrólogos caldeus, já haviam definido que o ano solar deveria começar pelo Carneiro. Para os egípcios, acrescente-se, o ano começava diferentemente, quando do início das cheias do rio Nilo (Osíris-Orion), período em que despontava a estrela Sírius, a estrela da canícula.

HOMERO
O poema de Aratos tem 1.154 versos e nele se expõe, na primeira parte as ideias de Cnido sobre a posição das constelações. Depois de A Ilíada e de A Odisseia, de Homero, o poema de Aratos foi a obra mais lida na antiguidade greco-romana, tendo sido traduzida e utilizada por vários escritores. Os nomes das estrelas que temos hoje proveem em grande parte dessa obra, tendo sido conservados inclusive por Ptolomeu.

HIPARCO
Hiparco, astrônomo e matemático grego (séc. II aC), foi, dentre todos até o seu tempo, o observador mais atento do céu. Ele introduziu na Grécia a divisão babilônica do círculo em 360º, de cada grau em 60 minutos e de cada minuto em 60 segundos. Levantou o primeiro catálogo das estrelas, determinando a posição de cerca de 800 delas e atribuindo-lhes uma grandeza (magnitude), determinada segundo a sua luminosidade. Deixou-nos várias explicações sobre o movimento dos planetas e sobre a desigualdade das estações. Descobriu também a precessão dos equinóxios. Em geografia, pela via matemática aberta por

Eratóstenes, introduziu um emprego sistemático das coordenadas (paralelos e meridianos), além de ter inventado um dioptro (instrumento para medir o diâmetro aparente do Sol e da Lua e para calcular o tamanho de objetos distantes) e um astrolábio (instrumento náutico para observar e determinar a altura do Sol e das estrelas e medir a longitude e a latitude do lugar onde se encontra o observador).


Eratóstenes (276-194 aC) era astrônomo, matemático e geógrafo. Viveu em Alexandria. Deixou obras literárias, filosóficas; foi gramático de renome, interessou-se por cronologia, além de diretor da famosa biblioteca da cidade. Realizou a primeira medida (aproximada) da circunferência da Terra. Mediu os ângulos entre os raios do Sol e a vertical do dia do solstício de verão em Alexandria e em Syena (Assuã). 

Por volta de 150 dC, outra figura importantíssima, digno sucessor de Hiparco e de Eratóstenes, Claudio Ptolomeu de Alexandria, não só confirmou as  descobertas do primeiro, como está em seu Syntaxis, catálogo de estrelas, renomeado Almagesto pelos árabes, como lançou as bases de toda a astronomia e astrologia medievais e islâmicas. 



É de Ptolomeu, grande compilador, geógrafo, linguista e astrônomo a seguinte classificação dos signos zodiacais: Áries governa os pastos, lugar das bestas; Touro, as terras férteis; Gêmeos, as terras estéreis e incultas; Câncer, os lugares úmidos e sombrios; Leão, os desertos e o covil das feras; Virgem, os campos de cereais; Libra, as terras sem lavrar; Escorpião, os vinhedos e campos de amora; Sagitário, os cedros e ciprestes; Capricórnio, os jardins elevados e as montanhas; Aquário, os rios e os lagos; Peixes, os oceanos. 

No ano de 379, em Roma, apareceu, sem o nome do autor, um tratado muito importante sobre as estrelas fixas. Além de mencionar muitos de seus predecessores, babilônicos, caldeus, gregos e romanos, o autor, chamado desde então, por causa de seu anonimato, pelo nome de Anonymous 379, declarava que grande

parte de seu trabalho tinha por base o que Ptolomeu deixara. O trabalho de Anonymous 379 é, a rigor, o primeiro a nos dizer como as estrelas deveriam ser interpretadas num tema natal. O original de Anonymous foi traduzido em 1904 por Fraz Cumont. Somente no final do século XX a obra foi traduzida para o inglês e para o italiano, merecendo destaque esta última, do grande pesquisador e astrólogo Giuseppe Bezza (1946-2014), com o título Stelle lucide, passionali, nocive, soccomirrici.


ZODÍACO   DA   IDADE   MÉDIA
Em todos os países e em todas as épocas, encontramos, mais ou menos idêntico, o Zodíaco na forma circular ou quadrada, com as suas doze subdivisões, com os seus sete planetas da tradição. A figura zodiacal sempre apareceu associada aos monumentos mais importantes construídos pelo ser humano, sejam megálitos, templos, lugares de celebração, pirâmides, zigurates, centros iniciáticos, catedrais etc.


Os antigos hindus sempre consideraram astrologia e astronomia como sinônimos. Para a astrologia hindu dos tempos védicos (Jyotish), o Zodíaco é um círculo de constelações de 18º de largura, dividido exatamente em duas partes de 9º cada pela eclíptica ou via solis. Esse círculo de constelações foi sempre conhecido pelo nome de Bhavachakra ou Círculo da Luz, não tendo começo ou fim. Quando os hindus falam de Rasichakra, estão se referindo ao Zodíaco das constelações (rasi é signo). Quando se referem Bhavachakra, estão se referindo às doze casas zodiacais (bhava é casa). Para que as medidas pudessem ser feitas, um ponto inicial foi arbitrariamente estabelecido. Atualmente esse ponto, como para os ocidentais, está fixado pelos hindus na constelação de Áries (Mesha), fazendo o Zodíaco, como um todo, um movimento no sentido leste-oeste.


NAKSHATRAS
A eclíptica é marcada por 27 constelações ou nakshatras, também chamadas de mansões lunares porque a Lua as atravessa, dando-se a esse círculo completo o nome de mês lunar. Cada constelação contém quatro padas ou quartos, tendo cada um destes 3º e 1/3 do arco celestial (rekha). O Zodíaco como um todo tem 108 padas, medindo assim cada constelação 13º 20´ de arco. Os signos zodiacais (rasis) e as mansões lunares (nakshatras) partem do mesmo ponto, do grau zero de longitude de Áries (Mesha) ou de Aswini, a primeira mansão lunar “dentro” de  Mesha.  

Na Índia, religião, astrologia e karma sempre estiveram interligados. Astrologia e Filosofia são solidárias.  A astrologia revela, para os hindus, os efeitos de ações passadas, ações não lembradas, ou das quais, raríssimas pessoas têm uma vaga noção. Tais ações serão vividas numa vida atual como “destino” (adrishtra), no fundo uma relação causa-efeito que o mapa astral representa. Para os astrólogos hindus a teoria do karma não está baseada, como se poderia supor, em fatalismo ou predestinação, o que poderia ser entendido como uma negação a qualquer possibilidade de desenvolvimento. Todo mapa astral segundo esse entendimento é sempre de natureza kármica, um resultado de ações anteriores, considerado sempre como uma compensação.  

É preciso ressaltar que a civilização hinduísta é muitíssimo mais velha que a nossa; suas tradições nos remetem a alguns milhares de anos aC. Sua antiga astrologia (Jyotish) é muito mais rica que a nossa, identificando-se ela com o próprio Hinduísmo, nos seus aspectos religiosos, míticos, filosóficos e científicos. 

ZODÍACO  -  SÉCULO XII
O Zodíaco celeste pode ser considerado como a fonte de onde, desde a pré-história, fluiu tudo o que ao correr de milênios a humanidade foi transformando em mitos, religiões, conhecimento, sabedoria e ciência, a consciência coletiva, enfim. Pela influência que exerce, pelos astros que por ele transitam, o Zodíaco está intimamente ligado com a própria sobrevivência da humanidade enquanto tem influência direta sobre o clima da Terra, decorrente do ciclo das estações, afeta as migrações do mundo animal e determina a alternância da vida e da morte do mundo vegetal.



Os antigos gregos herdaram dos povos do oriente e do Egito aquilo que conhecemos do céu, nele projetando os seus mitos. Os romanos, por sua vez, tributários dos gregos, pouco acrescentaram ao que deles receberam. Os modelos cosmológicos e os mitos praticamente se mantiveram os mesmos. Foi através dos árabes que boa parte do conhecimento grego do céu passou para a Europa ocidental medieval. 

Mais perto de nós, em termos cronológicos, há que se destacar as
HORUS
alterações pelas quais passou o Zodíaco com relação ao seu ponto de partida. Desde a antiguidade, esta posição era conferida à constelação que se situava atrás (antes) do Sol no primeiro dia da primavera. Quando os cânones da astrologia foram estabelecidos, há cerca de 4.000 anos, esta constelação era a de Áries. Antes de Áries, a constelação que marcava o equinócio da primavera (ponto vernal) era a de Touro, que os egípcios identificavam com o seu deus Horus, filho de Osíris e de Ísis.   










quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CHUMBO

CHUMBO
A mais antiga tradição alquímica de que se tem notícia a estabelecer uma relação entre os metais, os planetas e os signos astrológicos foi a dos caldeus, povo da antiga Mesopotâmia. 

A ordem era a seguinte: ouro-Sol-Leão; prata-Lua-Câncer; mercúrio-Mercúrio-Gêmeos e Virgem; cobre-Vênus-Touro e Libra; ferro-Marte-Áries, associado igualmente ao aço, Escorpião; estanho-Júpiter-Sagitário, associado igualmente ao bronze, Peixes;   chumbo-Saturno-Capricórnio  e Aquário.

Herdeiros dessa tradição, os gregos,  ou melhor,  um colaborador de Platão, Philippe d’Oponte, foi o primeiro, num texto, Epinomis (que faz parte da obra de Platão), a dar o nome dos deuses aos planetas: Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), Ares (Marte), Afrodite (Vênus), Hermes (Mercúrio), relação à qual se acrescentou Selene (Lua).




Os metais sempre simbolizaram energias cósmicas solidificadas, condensadas, sendo considerados como substâncias vivas e sexuadas pelas mais antigas tradições que os dividiram em dois grupos, os criados por Deus e os criados pelo Diabo. Assim, em algumas mitologias africanas, por exemplo, enquanto Deus criava o ouro e a prata, o Diabo criava o cobre e o chumbo.  
   

Por volta de 3000 aC, quando se fixaram melhor certas atividades humanas como a metalurgia, a tecelagem, a carpintaria a construção e a fabricação de tintas e de pigmentos, que uma arte a que se deu o nome de Alquimia, nome proveniente do Egito, ao que parece, reuniu todos esses conhecimentos. A arte alquímica era produto da acumulação de muitas informações técnicas, de várias civilizações. 

Tanto a descoberta de muitos materiais como as técnicas desenvolvidas pelo homem para utilizá-los e transformá-los não
ENLIL
significou a separação destas atividades do cotidiano das pessoas, da sua vida diária. Os trabalhos técnicos dos artesãos que se ligavam diretamente a essas atividades foram associados ao acompanhamento de práticas religiosas ou mágicas, encontrando-se conexões entre metais, minerais, plantas, planetas e deuses. Os babilônicos, por exemplo, ligavam o ouro ao deus Enlil, a prata ao deus Anu e assim por diante.




Dentre as teorias criadas a esse tempo para explicar o mundo material, uma adquiriu muita importância, a de que todas as substâncias existentes no universo eram compostas por cada um e por todos os elementos (fogo, terra, ar e água, na tradição ocidental), diferenciando-se essas substâncias pelas proporções em que nelas eles se apresentavam. 

Os elementos se distinguem uns dos outros por suas qualidades chamadas de primárias, a fluidez ou umidade, a secura, o calor e o frio, possuindo sempre cada um deles duas dessas qualidades. Em cada elemento há uma qualidade que predomina sobre outra: na terra, o seco predomina sobre o frio; na água, o frio sobre o úmido; no ar, a fluidez sobre o quente; no fogo, o quente sobre o seco. Esses  elementos podem se transformar uns nos outros, são intermutáveis por meio da qualidade que possuem em comum. Exemplificando, o fogo pode transforma-se em ar por meio do quente; o ar em água por meio da umidade e assim por diante. Essas operações fazem parte da Alquimia e estão presentes em nossa atividade física e psíquica e acontecem a todo momento em nossa vida cotidiana. 

O chumbo, molybdos, em grego, plumbum em latim, é um metal extremamente denso, pesado e macio, mas não flexível, um dos mais antigos que o homem conheceu. Do ponto de vista alquímico, o chumbo se liga ao elemento terra, formado pelo frio e pelo seco. Antes de 3000 aC, vários povos da antiguidade já obtinham a prata
AQUEDUTO
retirando-a do chumbo. Na Mesopotâmia, usaram-se placas de chumbo para revestimento dos famosos jardins suspensos da Babilônia. São conhecidas, desde essa época, moedas de chumbo chinesas. Os romanos utilizaram muito chumbo, proveniente da Espanha, para fazer os seus famosos aquedutos. 


De todos os metais, sabe-se, o chumbo é o mais impermeável à
SOLDADINHO   DE   CHUMBO
água. Encanamentos com mais de 2000 anos foram encontrados recentemente em excelentes condições em Roma. A grande desvantagem dos encanamentos desse metal é que eles congelam com facilidade e estouram. Por derreter facilmente, o chumbo foi muito usado para a confecção de brinquedos, sendo os mais conhecidos os famosos soldadinhos de chumbo.


As propriedades mágicas do chumbo estão atestadas em várias culturas na antiguidade. Quando se desejava fazer mal a alguém, gravava-se numa placa de chumbo o nome do mal, um meio sempre considerado como particularmente eficaz. Por outro lado, carregar uma pequena placa de chumbo presa por fio ao redor do pescoço protegia contra diversos encantamentos e impedia que paixões amorosas se apoderassem de alguém contra a sua vontade.


QUIMERA   BELEROFONTE   E   PÉGASO

É na mitologia grega, na história da morte da Quimera, que encontramos uma referência importante com relação às virtudes do chumbo. Belerofonte, famoso herói, montado no cavalo-alado Pégaso, que conseguira domar com o auxílio de Palas Athena, atacou o pavoroso monstro que vomitava labaredas de fogo. Disparando inúmeras flechas contra o seu corpo, Belerefonte conseguiu que algumas delas, com pontas chumbo, entrassem pela sua bocarra; em contacto com as labaredas expelidas furiosamente, o metal derreteu e, descendo por sua garganta, destruiu completamente as suas entranhas.

Desde a mais remota antiguidade, praticava-se a adivinhação por meio do chumbo, a chamada molibdomancia (molybdos, chumbo, mancia, adivinhação, grego). Deixavam-se cair gotas de chumbo quase líquido na água ou numa superfície lisa e faziam-se previsões segundo os ruídos produzidos. Até o início do séc. XX, essa forma de adivinhação era praticada em quase todos os países da Europa. Na França, no dia de Reis, as jovens casadoiras, segundo a forma que o metal aquecido tomasse quando em contacto com a água, usavam o processo para descobrir a profissão de seu futuro marido: se tomada uma forma que lembrasse um machado, ele seria lenhador; se tomada a forma de uma agulha, ele seria alfaiate e assim por diante. O mesmo acontecia em outros países, usado o processo para fins divinatórios diversos, sempre numa data religiosa importante. Na Bélgica, por exemplo, na noite do dia de Santo André; na Alemanha e na Rússia, na noite do dia de São Silvestre; na Suíça, na véspera do Natal etc.

Na Idade Média, para se saber se uma doença tinha origem sobrenatural, derramava-se chumbo derretido num recipiente com
AMULETOS   DE   CHUMBO
água; se uma imagem se formasse no fundo do recipiente, a origem sobrenatural (feitiçaria) estava confirmada. Há registros de que reis franceses (Luís XVI) mantinham sempre amuletos de chumbo em contacto com o corpo para evitar doenças.


Comercialmente, hoje, o chumbo é empregado no isolamento acústico de ambientes e como material protetor contra radiações em salas de radioterapia de hospitais. É usado também em lugares onde é manipulada a energia nuclear. A sua extrema densidade o torna impermeável à radiação. Dá-se o nome de saturnismo ou plumbismo às intoxicações agudas ou crônicas causadas pelo chumbo ou por alguns de seus sais. Quando queremos nos referir a uma pessoa tristonha, soturna, ou a um céu carregado de nuvens escuras, podemos usar o adjetivo plúmbeo. 

Simbolicamente, o chumbo apareceu sempre relacionado com o fim
SATURNO   E   SEUS   ANEIS
de um período, o fim de um ciclo de vida, identificado por isso com a velhice e a morte.  Não é por acaso que a pele e os ossos, as últimas coisas que desaparecem no ser humano ao morrer, são de Saturno, astrologicamente. Além do chumbo, não podemos descer mais na escala mineral, vegetal e animal. Por isso, é tutelado pelo deus Cronos, na mitologia grega, e pelo planeta Saturno, ambos símbolos do tempo, do tic-tac fatal dos relógios. 


Cronos, como se sabe, devorava os próprios filhos que gerava, uma imagem do tempo que tudo consome. Daí, Cronos aparecer representado com a ampulheta (o tempo) e o alfange (o instrumento dos ceifadores. Analogicamente, o deus,
CRONOS
o planeta e o metal simbolizam também o princípio da concentração, da fixação, da condensação e da inércia. Viver é tomar forma e também perdê-la, o que nos acontece diariamente, a cada momento da nossa vida. Por isso, a vida, na expressão dos alquimistas, se resume a duas operações: a coagulatio e a solutio. No início, uma energia que vai tomando forma, ganhando corpo, crescendo, se desenvolvendo, chegando à sua plenitude e depois, inexoravelmente, definhando, se contraindo, até que tudo o que foi acumulado volte ao Grande Todo.



LABORATÓRIO   ALQUÍMICO

Os alquimistas sempre colocaram o chumbo em relação com o ouro. Muitas histórias da arte alquímica nos falam de transmutações coroadas de sucesso na medida em que o chumbo, considerado como o mais vil dos metais, e neutralizadas assim as suas influências funestas, podia ser transformado no rei deles, o ouro, quando submetido à ação da “pedra da sabedoria”. Esta metamorfose era para os alquimistas um símbolo da purificação do homem, preso ao mundo terrestre e materializado, que se elevava a níveis superiores da existência pela espiritualização solar.

Cronos, Saturno e o chumbo representam tanto a força que cristaliza, que fixa na rigidez o que entra na existência, dando-lhe condições de resistir aos ataques externos, como pode também se opor, como resistência intransponível, a qualquer mudança. Num primeiro momento, o chumbo simboliza assim imprescindível força que nos estrutura, ajudando-nos a resistir aos embates da vida. Num segundo momento, esta mesma força pode impedir mudanças, transformações, lembrando sempre obstáculos, carências, retardamentos, impotência, paralisia, condensação, desalento, inércia, tanto física (problemas com o metabolismo do cálcio; artroses deformantes, osteoporoses, osteopenias etc.) como psiquicamente (complexos, apego ao passado, atavismos poderosos, a tirania dos hábitos, ideias fixas, obsessões etc.)

CHAVES PARA A CARACTEROLOGIA
O chumbo forma a última fase do processo metálico, o estágio final do desenvolvimento da matéria. Na Alquimia simbólica, o   chumbo é, por isso, usado para representar o nível mais baixo a que a matéria pode chegar, iniciando-se, a partir dele, a caminhada em direção do mais elevado, do superior, simbolizado pelo ouro. Sob o ponto de vista da Caracterologia, as pessoas-chumbo podem ser incluídas entre os fleugmáticos, neles dominando a não-emotividade e a secundariedade, já que costumam retardar bastante as suas respostas diante dos  estímulos recebidos.   

O poder do chumbo tem a ver também com tudo o que segrega, e separa, com tudo o que fecha e inibe, que limita. Onde a influência de Saturno aparece temos o enrijecimento, a formação de pedras (cálculos na bexiga, nos rins, na vesícula, o endurecimento das artérias, por exemplo). Com a idade, vamos entrando no período chumbo da vida, dominado pelo processo da introversão e pelo recolhimento. Ambos, o corpo e a mente vão ficando endurecidos e inflexíveis; as pessoas tornam-se dogmáticas, obstinadas em suas opiniões, não sabendo mudar, fase em que podem se impor ideias de insensibilidade, frieza, renúncia, pessimismo, melancolia ou, simplesmente, recusa de viver. 

O chumbo inibe vibrações. Por isso, é o metal mais usado para conter as trepidações produzidas pelo trânsito pesado e intenso em áreas onde são construídos grandes edifícios. Positivamente, o chumbo e Saturno fortalecem o nosso corpo e nossa alma para que possamos enfrentar as tempestades que podem nos alcançar. Neste caso, o chumbo pode nos ajudar a controlar nossos sentimentos, dando-nos a quantidade certa de resistência ao que ameace o nosso equilíbrio. Uma pessoa saturnizada em demasia mostra-se geralmente avessa à vida social, evita visitas, quase não fala, é solitária, características do chamado tipo esquizoide. No geral, uma vida feita só de deveres, na qual o relógio e o calendário governam tudo. Uma vida onde não entram flores e risos, que são do planeta Vênus, dominado pela deusa Afrodite.   

Costumam as pessoas-chumbo ter muito medo do futuro, já que uma de suas principais características é o espírito de economia que
HARPAGON (COMÉDIE FRANÇAISE)
pode atingir formas extremas como a avareza. Um exemplo: o Harpagon, de Molière. São comuns os casos de pessoas deste tipo que quando têm alguma despesa a fazer, mínima muitas vezes, mergulham em tormentos sem fim, perdendo horas de sono inutilmente. A rondá-las, quase sempre, uma atitude pessimista diante da vida, já que costumam ver dificuldades em tudo. Usam muito o advérbio não. A sua constante insatisfação é quase sempre responsável por um sentimento de incapacidade que está na origem de suas depressões. 


Tais pessoas costumam também se deprimir porque não avançam tão rapidamente como os outros. Muitas vezes, problemas de infância (são os tipos mais propensos a apresentar esses problemas, como os de fixação na infância, no passado, sempre presente o temor inconsciente do poder dos mais velhos) estão por trás desse receio de avançar, pois são as maiores vítimas da pressão que pais exercem sobre seus filhos. Sofrem geralmente de três complexos: o de Cronos (filhos “devorados” pela figura paterna), o de Inferioridade (sentimento de pessoas que se auto depreciam) e o de Isaac (filhos que se entregam docilmente à vontade paterna). Entraram na vida sempre temendo o poder dos mais velhos, pais, professores, mestres, familiares etc. No caso de mulheres, muitas vezes o marido também exerce esse papel, sendo uma extensão da figura paterna. 

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( 1603 , CARAVAGGIO )

Muitos que se enquadram nesta tipologia gostam de mostrar um caráter severo, consigo e com o mundo. Esta severidade, porém, oculta geralmente uma atitude destinada a dissimular a sua sensibilidade e o seu medo de serem magoadas. Protegem-se “endurecendo”, exigindo sempre dos que estão à sua volta um comportamento irrepreensível no cumprimento dos seus deveres. Não toleram uma brincadeira, um “pegar mais leve” na vida. A vida para elas é feita só de obrigações e deveres.

A maioria dessas pessoas acha doloroso qualquer processo de mudança, fugindo sempre de situações em que tenham de abrir mão de imagens, ideais e objetos materiais, sobretudo os herdados. Ao invés de procurarem na vida os intercâmbios adicionais que os ajudem a evoluir, constroem à sua volta muralhas que impedem qualquer penetração na personalidade que montaram. Temem perder a segurança. 

As cores preferidas dos tipos que estou descrevendo são o cinza, o preto, o castanho-escuro e o marrom. Na anatomia humana, os problemas costumam aparecer na pele, nos ossos, nas juntas, nos ligamentos, nos órgãos da audição, na pele, nas unhas e nos cabelos. Negativamente, tudo neste cenário lembra carências (penias, hipo), obstáculos, limitações, endurecimentos etc.


AUGUSTE  RENOIR , 1841 - 1919

Positivamente, porém, simbolicamente o chumbo, Saturno e Cronos lembram constância, disciplina, controle, firmeza. Neste sentido, o que eles nos derem ninguém tira de nós. Eles simbolizam aquele trabalho anônimo que podemos diuturnamente exercer sobre nós mesmos, a conquista interior que o tempo nos dá. As virtudes saturninas são, como se disse, frias, estão do lado das asceses: concentração, perseverança, prudência, sentido de dever, silêncio, domínio da vida instintiva. Não é por acaso que o grande símbolo de Saturno é a montanha e que o mais saturnizado dos pintores, Cézanne, a pintou dezenas de vezes (montagne Sainte -Victoire). 


MONTAGNE   SAINTE -  VICTOIRE ( 1895 , CÉZANNE ) 

As melhores informações que temos para entender o chumbo simbolicamente como ponto de partida para se alcançar níveis superiores da existência nós as encontramos nos textos da Alquimia.


Em todas as tradições, o trabalho alquímico, designado pelo nome genérico de Opus ou Obra em Negro, sempre considerou o chumbo como a base mais modesta da qual se pode partir em direção de uma evolução ascendente. As virtudes requeridas para que alguém se empenhe nesse trabalho são a paciência, a solicitude, a perseverança, a dedicação contínua e a coragem, isto é, as virtudes frias às quais nos referimos. O trabalho da transmutação do chumbo em ouro tinha, por isso, um caráter sagrado, já que pedia também o desapego das limitações individuais para que fossem atingidos níveis coletivos, mais universais.