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domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião. 

                            

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (5)





Alguns acontecimentos astronômicos ocorridos no séc. VIII aC, registrados na Ásia Menor, podem nos fornecer, acredito, alguns elementos para enriquecer a nossa crônica marciana. Os acontecimentos a que me refiro podem ser pesquisados a partir de registros bíblicos, como os encontramos principalmente nas profecias de Amós e de Isaías. 

AMÓS
Amós (séc. VIII aC) foi um profeta de origem humilde, criticou o seu povo por seus pecados e previu seu exílio. As profecias de Amós falavam de um terremoto (raash) que traria muita destruição. Isaías (séc. VIII aC) é outro profeta que nos fala da sua visão dos céus, uma visão tipicamente marciana. Ele viu anjos clamando uns aos outros: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; o mundo inteiro está pleno de sua glória. 


ISAÍAS


Isaías (13:10) nos fala que as estrelas do céu e as constelações não brilharão com a sua luz, que o Sol ficará escuro ao nascer pela manhã e que a Lua não brilhará. Diz ele que o mundo será lançado fora do seu eixo e o exército celeste sacudirá os céus; nesse dia da ira do Senhor dos Exércitos, dia da sua violenta cólera,  a Terra sairá do seu lugar.



Sabe-se que no ano de 747 aC um novo calendário foi introduzido no Oriente Médio. Esse ano é conhecido como o do começo da era Nabonassar, nome de um rei babilônico. O estabelecimento desse calendário decorreu da necessidade de se fazer alguns ajustes no antigo calendário à vista de uma catástrofe, o referido raash, ocorrida, como tudo indica, num dia ao que corresponderia ao nosso  23 de março de 687 aC. 


BAMBOO   BOOK

Sobre essa data há registros chineses (nos chamados anais Bamboo Books), americanos (antigos indígenas do México) e judaicos.
LIVRO    DOS    REIS
Nesse dia, os exército de Senaquerib, rei dos assírios, foram destruídos (há indicações desse fato no Livro dos Reis). Historiadores como Heródoto e Flavio Josefo, que se manifestaram sobre a destruição das tropas assírias, concordam quanto ao fato de que tal ocorreu (morte de milhares de homens) numa única noite, na referida data.


O raash a que se referem os judeus teria sido causado por uma anormal aproximação da Terra do planeta Marte, alterando-se o eixo e a órbita do nosso planeta. Um relação interessante é que tal aproximação coincidiu com a fundação de Roma, um período em que o deus-planeta estava realizando grandes proezas no céu. Não é por acaso que o mito registra que Rômulo e Remo nasceram quando o Sol se encontrava em eclipse total. 

De acordo com lendas populares, no dia da fundação de Roma a marcha do Sol foi interrompida e o mundo escureceu. Quando da morte de Rômulo, segundo essas mesmas fontes, ocorreram vários fatos estranhos. Uma fonte mais fidedigna (Plutarco, Vidas) nos relata que “súbitas, estranhas e extraordinárias perturbações, com incríveis mudanças, encheram o ar; a luz do Sol sumiu e a noite desceu sobre eles, não com paz e tranquilidade, mas com terríveis estrondos de trovões e rajadas furiosas.”



Ovídio, grande poeta latino, do início da era cristã, diz sobre o mesmo acontecimento: “Ambos os polos tremeram e Atlas mudou o peso do céu... O Sol desapareceu e levantaram-se nuvens obscurecendo o céu... o firmamento era rasgado por raios de fogo. O povo fugiu e o rei (Rômulo), sobre os corcéis de seu pai, voou para as estrelas.”

Entre os antigos judeus, a grande divindade é Javé. De características tipicamente uranianas, tonitroante e relampejante, é o deus das tribos do deserto, sendo dele também a função guerreira. Seu principal atributo é a soberania absoluta, exercida através das manifestações atmosféricas, sendo a mais espetacular o raio. É, por direito de conquista, um deus único, que se impõe pelo terror; é aquele dá a vida e a destrói, aquele que garante a ordem universal, guardião das normas e encarnação da própria lei. A lei e a espada são dele. 


JAVÉ

Os elementos recolhidos da pré-história nos informam, com certeza, que o antigo povo de Israel era nômade. A dinâmica da conquista da terra de Canaã por esse povo aparece nos textos bíblicos e nos permite entender como ele, entre poderosos impérios, Assíria, Babilônia e Egito, principalmente, conseguiu, na primeira parte do segundo milênio aC, conquistar, por “doação divina”, terras já ocupadas, para nelas se instalar. 

JACÓ   E  O   ANJO
A organização das doze tribos de Israel, oriundas dos doze filhos de Jacó, foi estabelecida com grande rigor para que fosse superada não só a vida nômade como também a hostilidade dos vizinhos. A organização das doze era quase militar. Cada tribo compreendia um certo número de clãs (mishpaha), que forneciam unidades militares encarregadas da defesa contra os ataques externos e os saques (elef). Cada clã era formada por “casas de pais” (bet ab). Os chefes dessas unidades, os chefes dos clãs e os chefes das “casas dos pais”governavam a tribo, assumindo as funções políticas e judiciárias.

Sabe-se que mesmo antes do chamado período real, que começou com Saul (1030-1010 ac), a organização tribal do povo israelita era a de um exército aguerrido, sempre em movimento e preparado para atacar como para se defender. As unidades militares eram formadas por homens livres, que adquiriam as suas próprias armas e equipamentos. Os chefes militares, nos períodos de guerra, gozavam de autonomia com relação ao poder civil. 


SAUL    E    DAVID    ( REMBRANDT )

Só no período real (Saul, David, Salomão) o exército se tornou nacional e o serviço militar obrigatório, admitida a convocação de conscritos. O poder real se apoiava fortemente nas forças militares, profissionalizadas. Os principais postos na organização militar passam a ser ocupados por membros da família real, criando-se, além disso, uma poderosa e privilegiada casta militar. 

A guerra, no período real, se constituiu sempre numa atividade religiosa. Uma derrota era sempre considerada como uma “ausência” de Deus. As regras que orientam a atividade guerreira estão fixadas na Bíblia. A “presença” de Deus nos deslocamentos militares, no período nômade, por exemplo, era indicada pela arca da aliança, carregada pelos membros da tribo de Levi. 

Outro exemplo das regras a observar em tempos de guerra pode ser encontrado no Deuteronômio. No cáp. VII, exige-se que vencidos os inimigos sejam eles “passados a cutelo sem que fique nem um só. Não celebrarás concerto algum com eles nem os tratarás com compaixão.”

Além do que acima se disse sobre Marte no mundo judaico (Javé
ANTIGO    TESTAMENTO
como senhor dos exércitos), há outras passagens no Antigo Testamento que julgo de interesse para ampliar a nossa compreensão sobre outras possibilidades significativas mítico-astrológicas desse astro. Uma leitura mais atenta do Gênesis, da história de Adão e de Eva, ser-nos-á, acredito, muito útil nesse sentido.


Realmente, a Bíblia é um livro único, fonte de três religiões, e, a rigor, não pertence a nenhuma delas nem a ninguém. Antigos rabinos de Israel, aliás, já abordaram essa questão, ao nos dizer que Deus se revelara num deserto inacessível para que ninguém pudesse dizer que a sua mensagem lhe pertencia.

De início é preciso lembrar que o Antigo Testamento foi escrito entre as idades do bronze e do ferro. Essa primeira observação já nos põe diante de Marte e, tendo-a em mente, será possível lançar um olhar diferente sobre o texto. A Bíblia, o Antigo Testamento, pede comentários abertos a todos os “sopros do espírito” para que possamos ter acesso às suas fontes mais secretas. 

O primeiro livro do Antigo Testamento, conhecido como Gênesis, intitulava-se, na tradução dos LXX (Setenta), Bereshit, palavra traduzida como “No princípio”, mas, na realidade, segundo sua etimologia, significando, conforme sua composição: Be, em; Rosh, cabeça: e it, desinência que dá um sentido abstrato à palavra. No grego: em kephalaio (kephale, cabeça). Uma referência, portanto, ao signo de Áries e ao seu planeta regente, Marte. No corpo humano, sabe-se, o signo ariano se relaciona com a cabeça e com o sentido da visão. 

ADÃO   KADMO
Diz o referido texto bíblico que Deus criou um ser andrógino, instalando-o num lugar paradisíaco. Esta criatura tinha como modelo um ser celestial chamado Adão Kadmon, a própria imagem de Deus, composto de duas partes, uma masculina e uma feminina. A palavra Kadmon lembra humanidade, coletividade. Estas duas partes foram criadas por Deus em condições de igualdade.

Esse ser terrestre foi criado no Monte Moriá, sendo feito do pó tomado dos quatro cantos da Terra. Insuflado nele o sopro da vida por Deus, ele recebeu materialmente contribuições de oito componentes universais: da água saiu o seu sangue; das pedras, os seus ossos; do Sol, os seus olhos; da terra, a sua carne; das raízes, os seus ligamentos; do vento, o seu espírito; das nuvens, os seus pensamentos; do fogo, o seu calor. Na sequência da criação, o andrógino apareceu depois do mundo mineral e do mundo animal. Todos os anjos aceitaram a criação do andrógino, menos Samael, razão pela qual ele foi expulso dos céus, transformando-se em príncipe do Mal. 

A parte masculina do andrógino, entretanto, no que foi apoiada pelo Deus criador, não deu o devido reconhecimento de igualdade à parte feminina, que, rebelando-se, fugiu, passando a ser considerada como um demônio (Lilith) pela parte masculina. Desde então, Lilith, segundo a doutrina judaica, se uniu a Samael, príncipe dos demônios, líder dos anjos que foram expulsos do céu, e chefe do Sitra Achra, o “Outro Lado”, reino do Mal. Consta que foi Samael quem enviou a serpente para seduzir a mulher no jardim do Éden. Samael, lembre-se, foi expulso do céu porque não aceitou Adão.

No capítulo II do Gênesis registra-se que Deus não achou bom que a parte masculina ficasse sozinha. Mergulhando-o em profundo sono, tirou dele uma de suas costelas e dela formou um novo ser feminino, uma aberração sob vários ponto de vista, principalmente fisiológica e psicológica. Nus, um diante do outro, não se envergonharam.  Disse-lhes então Deus que formassem a partir de então uma só carne.

Passando a viver num lugar paradisíaco, os dois, todavia, não respeitaram um tabu estabelecido por Deus (não comer os frutos da árvore da ciência, só os da árvore da vida). A responsabilidade por essa desobediência é atribuída ao ser feminino, que se deixou seduzir pelo que a serpente, grande agente do Mal, lhe disse:  que o fruto da árvore da ciência era bom, porque se ela o comesse se igualaria aos deuses, passando a conhecer o bem e o mal. As consequências desse acontecimento nós as conhecemos bem. O homem, por seu turno, deixou-se convencer pela mulher, sendo ambos expulsos do Paraíso.


ADÃO   E   EVA  ( JEAN   MABUSE )
Os dois seres desta história, como todos sabem, têm os nomes de Adão e Eva. As duas letras matrizes do nome Adam são D e M, uma terrestre e outra aquática. Em hebraico, elas formam palavras ligadas à cor vermelha, ao sangue, lembrando também intermediação entre o divino e o humano.  Aliás, ideias de intermediação estão no primitivo significado da palavra demônio. Em hebraico, terra é adamá, adom é vermelho, sendo dam o sangue. No antigo persa, dam é criatura. Em sânscrito, adimant é o que tem um começo. Se formos ao grego, o mesmo. No nome Deméter, a grande divindade da vida terrestre, da agricultura, destacam-se o D e o M.

Adam é, a rigor, um termo genérico que engloba toda a humanidade, podendo ser traduzido também como “terroso” ou “avermelhado”. No oriente, as argilas mais férteis e mais plásticas são vermelhas. Daí, as possíveis aproximações da palavra homem com humus (terra, em latim) e homoios (semelhante, em grego). 

               Quanto a Eva, Hawwah, foi o nome dado à mulher depois
ADÃO   E   EVA   (TICIANO )
da queda. Segundo a tradição, antes de deixar o Paraíso ela se chamava Aicha (Vivente) ou Icha (Esposa), palavra muito próxima de iccha, que, em sânscrito, significa desejo. Devido à sua falta, a mulher “perdeu” o seu lado divino, ganhando, por outro lado, só materialidade e aspecto físico. Seu novo nome evoca awwah, que lembra desejo em hebreu, palavra que podemos aproximar de avati, se regozijar, em sânscrito, e de aveo, em latim, desejar. 

Há outras hipóteses sobre o nome Eva. Uma delas é a que faz o nome derivar de Heba, esposa do deus hitita das tempestades, uma das hipóstases da deusa Ishtar, deusa do amor e da guerra entre os mesopotâmicos. Outra hipótese faz o nome Eva provir de Aruru, divindade sumeriana, que criou o herói Enkidu antes de iniciá-lo nas delícias do amor. 

Evidentemente, a arraigada misoginia patriarcal sempre preferiu considerar Eva como uma criatura culpada, satanizada por todas as religiões monoteístas, do que como uma iniciadora, uma instrutora, uma salvadora, sem cuja influência o homem nunca poderá alcançar níveis superiores de consciência, sobretudo sob o ponto de vista espiritual. 

Outra questão importante é a do tabu decretado por Deus.
TESEU    E    ARIADNE
Obedecendo-o, o ser humano não poderia jamais escapar da sua sua condição animal, prisioneiro de uma vida puramente instintiva. Ou seja, devia, como a besta, aceitar o cabresto e obedecer, não pensar. Adão é nesse sentido o homem-animal, instinto, pulsão fundamental de vida, que, na Astrologia, tem a ver com o signo de Áries e com o seu planeta regente, Marte. Esta pulsão, para que a convivência humana se estabeleça harmoniosamente, precisa do feminino. O diálogo Ares-Afrodite, Áries-Libra, Marte-Vênus é exemplar. Na Grécia, histórias como as Teseu e Ariadne, Édipo e Jocasta, Jasão e Medeia e outras são ilustrações do que aqui se coloca.  


Instinto, etimologicamente, como se sabe, é aguilhão interior, picada (sting, ferroada) sentido transportado por analogia do físico ao moral. Instinto será o conjunto de reações levado para o exterior, determinado, hereditário, comum a todos os indivíduos de uma mesma espécie, e adaptado a objetivos dos quais o ser que age geralmente não tem consciência. Nidificação, perseguição da presa, movimento de defesa, cio,  busca de acasalamento, alterações do corpo favoráveis à fecundação e à geração, sono e fome são exemplos. 

Os instintos podem ser primários, aqueles que resultam diretamente da estrutura primitiva do ser vivo. Não há reflexão, é algo que precisa ser atendido, algo que se impõe. Os instintos secundários são os que constituem um automatismo derivado, adquirido por adaptações inteligentes, tornadas depois inconscientes. 

De um modo geral, instinto, para o homem comum, é o impulso interior que faz um animal executar inconscientemente atos adequados às suas necessidades de sobrevivência própria, da sua prole ou da sua espécie. Tendência natural, inclinação...

Nos céus, no círculo zodiacal, a primeira imagem desse impulso
CÍRCULO   ZODIACAL
criador aparece através do signo de Áries, sigo de fogo, cardinal, marcando o equinócio da primavera, sendo o seu astro regente (diurno) o planeta Marte. Esse planeta  aparece, pois, como o doador da vida e da energia tanto no cosmos como no homem-animal, lembrando sempre a energia que põe tudo em movimento. Por essa razão, o planeta Marte se refere tanto ao nascimento do homem-animal como à sua morte, como os signos de Áries (primeira casa) e de Escorpião (oitava casa) nos revelam.


Sem a influência de Mercúrio, porém, o homem-animal não poderá  adquirir uma consciência individual, já que Marte se volta sempre para o atendimentos das necessidades básicas e primárias da sua existência. Quem ajuda o homem-animal a controlar e transmutar esses impulsos que tendem a paixões e a emoções negativas, de natureza egóica, é Mercúrio, colocando-os numa perspectiva social e espiritual. 

AARON
Lembro que na astrologia judaica, não aceita evidentemente pela ortodoxia rabínica, o nascimento de Israel como nação só se dá no signo de Gêmeos, signo governado por Mercúrio. Os astrólogos judeus consideram os signos que antecedem Gêmeos, Áries (Marte,  energia)   e   Touro     (Vênus, matéria)    como
instintivos. O mental que irá estabelecer as relações internas entre energia e matéria e externas entre elas, ajustadas, com o meio ambiente, só “nasce” no signo de Gêmeos. Não é por outra razão que o personagem  judeu que tipifica Gêmeos (Sivan) é Moisés, o patriarca.  Ele o irmão, Aaron, ambos descendentes da tribo de Levi, prepararam o povo de Israel para receber a Torah escrita. 

MOISÉS

Nissan é o primeiro mês do calendário hebraico, correspondente ao signo de Áries. As letras hebraicas que nos ligam aos aspectos positivos do mês são Hei, que criou o signo e que representa o desejo de receber, e Dalet, que criou Marte e que quer dizer “pobre”. Combinando-as e interpretando-as à luz da Cabala temos a ideia de que, durante esse mês, devemos nos esforçar para diminuir o nosso desejo de receber egoisticamente. Tendo as duas letras em mente, dizem os (bons) astrólogos judaicos, isso será possível, transformando-se milagrosamente esse desejo de receber unilateralmente num desejo de receber para compartilhar. Uma explicação: ainda nos valendo da gematria judaica, encontramos dentro da palavra nissan, nome do mês, a palavra ness, milagre.

                                                    
                                                    CALENDÁRIO   HEBRAICO
   
Os celtas nunca chegaram a definir bem uma divindade que assumisse a função guerreira. Entre os continentais, Gália, é bem possível que cada tribo designasse por um nome de sua livre escolha uma divindade para desempenhar esse papel. Assim, poderíamos pensar num Marte gaulês e nos seus diversos apelidos: Segomo (Vitorioso), no vale do Reno e na Borgonha; Beladon ou Belatus-cadros (O Destruidor), entre os bretões; Camulus (O Poderoso), no Auvergne. Além destes, outros apelidos, de difícil identificação: Leherennus (O primeiro dos deuses), Dunates (O protetor das cidadelas), Carurix (O rei dos combates).

Embora o culto dessa divindade celta, sob esses nomes, estivesse bastante diversificado, contribui também para uma falta de maiores dados sobre ela o fato de que as representações (imagens e esculturas) que dela temos tivessem procurado  sempre apresentá-la sob traços greco-romanos. 

Entre os celtas insulares temos que fazer referências a Morrigu ou
MORRIGU
Morrigan (Grande Rainha). Ela aparece sob um aspecto hediondo aos guerreiros falando-lhes de combates nos quais serão feridos ou mortos. Outras divindades cruéis não são mais que extensões desta Belona celta. Dentre elas destacamos: Fea (Odiosa),  Badb (Furiosa), que é representada sob o aspecto de um corvo; Macha (Batalha) e Nemon (Venenosa). Há ainda a destacar Mider ou Medyr, divindade infernal, que aparece sob o aspecto de um arqueiro extremamente hábil, uma espécie de Guilherme Tell.


A deusa suprema da guerra entre os insulares gaélicos é Morrigu, deusa da “loucura guerreira”, que lembra fisicamente um pouco a orgulhosa Hera grega. Ela é, porém, entre os gaélicos, muito mais uma representação lunar, no que lembra Ártemis com a etimologia de artamos, sanguinária. É reverenciada através de ritos mágicos e cruéis. Sempre armada, carrega espadas nas mãos. Seu grito de guerra equivale ao de dez mil homens. Sempre que houver uma guerra, entre humanos ou deuses, ela estará presente na sua forma humana ou na de um corvo. Fazem parte do seu mundo, espíritos, fantasmas, demônios opressores, duendes e espectros.

terça-feira, 4 de março de 2014

A FIGUEIRA

 
FICUS BENGHALENSIS

  
A oliveira, a vinha e a figueira são as três mais importantes expressões do mundo vegetal nas antigas sociedades mediterrâneas. As três estão ligadas ao cotidiano dessas sociedades, fazendo parte da sua economia, da sua alimentação, dos seus costumes, da sua medicina popular, dos seus mitos e lendas, das suas crenças religiosas.

 Há uma vasta literatura sobre as duas primeiras, ligadas de modo especial ao mundo greco-romano, sobejamente
BÉRBERE - MARROCOS
conhecida. Já quanto à figueira, embora  também faça ela parte da cultura ocidental, pelos motivos acima expostos, pouco se sabe dela,  como árvore-símbolo dos povos do norte da África. O que vai nos interessar mais neste trabalho é o levantamento de algumas questões que, longe de esgotar o assunto, possam nos ajudar a entender como essa árvore se tornou tão importante para muitas civilizações do mundo antigo, especialmente sob o ponto de vista religioso. 



ÁFRICA COM O NORTE EM DESTAQUE


As figueiras são conhecidas também como ficus, calculando os botânicos que no mundo todo haja cerca oitocentas espécies dessa árvore, especialmente em regiões de clima tropical e subtropical. Os frutos da figueira, além de muito consumidos pelos seres humanos, fornecem alimento para aves, símios e peixes (frutos caídos na água). O fruto da figueira mais consumido em todo o mundo é o proveniente da Ficus Carica, assim designada porque se supõe que seja a Cária a região de sua origem. A Cária (etimologicamente, país montanhoso) estava situada no noroeste da Ásia Menor. Colônia fenícia, foi helenizada pelos dóricos e depois tomada pelos persas, passando depois para o poder romano no início de nossa era.  





Conhecida desde o período neolítico, a figueira sempre foi considerada como a árvore da generosidade e da abundância em virtude de suas virtudes protetoras, fecundantes e regeneradoras. Um dos primeiros povos a nos
revelar os segredos da figueira foi o egípcio, interessado inclusive por técnicas de seu cultivo (arboricultura), principalmente sob o ponto de vista frutífero e do aproveitamento do seu lenho,  há muito usado para a construção de sarcófagos. Conheciam os egípcios um processo chamado caprificatio através do qual as frutas fêmeas eram polinizadas por um inseto, o blastófago, que abriam nos frutos um orifício para esse fim. Os gregos e romanos também conheceram esse processo, descrito, por Teofrasto, discípulo de Platão,  e pelo naturalista romano Plínio, O Velho.

CLEÓPATRA


Um dos grandes acontecimentos da vida do povo egípcio, aliás, tem relação com os figos, muito apreciados por Cleópatra, a última rainha do país, da dinastia dos Ptolomeus. Consta da sua biografia um episódio, não confirmado historicamente, o de que a serpente (víbora) que lhe picou mortalmente o seio veio escondida num grande cesto de figos por ela pedido à sua criadagem. Uma das espécies mais conhecidas da árvore tem entre os egípcios o nome de figueira dos faraós.


A figueira dos faraós (ficus sycomorus) tem também o nome de sicômoro é árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis e também como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo inclusive muito útil na tinturaria (tingimento de tecidos). Sua madeira, além de bastante usada para a construção de sarcófagos, como se disse,  é especialmente empregada na confecção de instrumentos musicais e de móveis. 


A origem do sicômoro é explicada pelos gregos por um mito. Os gigantes eram os inimigos naturais dos deuses. Reia,
REIA
esposa de Kronos, mãe dos futuros olímpicos, ao ser ameaçada por um deles, de nome Syceu, o transformou numa árvore, o sicômoro, nome que, em grego, se decompõe: sycon, figo, e moron, vermelho escuro, também amora. Segundo uma outra versão, Syceu foi um dos titãs que salvou Geia, sua mãe, então perseguida por Zeus, quando da titanomaquia (luta entre os titãs e os futuros olímpicos). Siceu fez nascer uma gigantesca figueira para que Geia nela pudesse se esconder. 



Gaius Julius Solinus, gramático e escritor latino (séc. III dC), nos seus deliciosos textos Collectanea Rerum Memorabilium
e Polyhistor, nos informa que a figueira é a principal árvore do Egito. Sua folha, prossegue, é muito parecida com a da amoreira; seus frutos são encontrados tanto nos galhos como no tronco; a árvore nos dá seus frutos sete vezes por ano (sic); mal colhido um, outro começa a despontar no lugar do que foi colhido. A sua madeira, lançada à água, desce ao fundo; depois de um certo tempo, ela volta à superfície. Esta imagem da madeira boiando à superfície das águas foi
usada na arte mortuária (sarcófagos) para representar a dispersão dos membros do deus Osíris nas águas do rio Nilo. Por sua fecundidade excepcional, a árvore era conhecida como a nutriz por excelência dos defuntos na sua viagem para o Amenti (O Outro Lado). Por essa razão, plantavam-na diante dos túmulos para assegurar a proteção ao defunto até a sua apresentação diante de Osíris. 

OSIRIS


Muito procurada pelos amantes, que gostavam de se refugiar à sua sombra, a figueira tem lugar de destaque na poesia amorosa, desde o período pré-dinástico. Os poetas nos informam que, quando ela “fala” (o movimento de sua ramagem), suas palavras são como gotas de mel; sua textura é a da faiança, sendo sua sombra fresca sempre proteção.

NUT E GEB - CÉU E TERRA


Nos Textos das Pirâmides encontramos referências que ligam a figueira à deusa Nut. Como divindade celeste, é ela
RA
que dá nascimento aos astros, que  engole a cada entardecer e os devolve pela manhã. Assim, o lenho da figueira como sarcófago engole o defunto para transformá-lo num novo Osíris. Nos capítulos 109 e 149 do Livro dos Mortos encontramos referências a ela; no primeiro, há uma menção aos espíritos que habitam nas copas dos sicômoros de esmeralda, ornamento dos rios, que deslizam silenciosos. No segundo, se registra que, na sua viagem, Ra (Sol), com a sua barca, passa por dois sicômoros cor de turquesa. 



ÍSIS

Árvore de Ísis, sabe-se que egípcios, além do uso do figo para a fabricação de produtos farmacêuticos, faziam para
FIGOS SECOS
suas cerimônias religiosas uma bebida com eles. Informações dos tempos da dinastia dos Ramsés nos dão a conhecer que enfiadas de figos secos eram servidas em repastos depois de longas viagens. Os figos eram usados também para a engorda de gansos com fim de se preparar o
FOIE GRAS
foie gras
(fígado de ganso gordo) e na arte da panificação. Esta técnica, séculos e séculos mais tarde, muito difundida entre a elite romana, seria passada para os franceses. Luis XIV estimulou grandemente a plantação de figos na região de Versalhes, dos tipos Rouge d´Argenteuil e Dauphine.


POMAR REAL DE VERSALHES

Para uso religioso, os egípcios importaram de uma região do Mar Vermelho, do misterioso País do Punt, sinônimo de paraíso terrestre para eles, sicômoros especiais (nehat) para
FIGUEIRA DE PUNT
a produção de incenso. Estas árvores foram plantadas nos terraços do templo funerário da rainha Hatshepsut, filha de Tutmosis I, “aquela que reinou como um homem”. As figueiras eram particularmente usadas para cercar os templos, formando em torno deles um cinturão de frescor bastante agradável. As Casas de Vida, centros culturais construídos ao lado dos templos, eram também cercadas por figueiras com esse fim. As deusas Hathor e Isis tinham especial predileção pelos sicômoros para as suas manifestações.


TEMPLO FUNERÁRIO DE HATSHEPSUT


Para alguns estudiosos, o nome grego sykon (figo) teria vindo da Fenícia, lá usado para designar o fruto da Ficus Carica, muito consumido. Conhecido há mais de 10.000 anos, sua cultura já estava estabelecida por volta de 5.000 aC no Oriente Médio, espalhando-a os fenícios por todo o Mediterrâneo e propagando-a posteriormente os cartagineses, gregos e romanos. Recentemente, lembremos, arqueólogos israelenses descobriram que o figo já era cultivado na Cisjordânia desde o período neolítico e atestada a sua importância como alimento privilegiado, especialmente quando seco, para ser comido em épocas de escassez alimentar ou no inverno.


Na Grécia antiga, o figo, sempre considerado como um importante alimento (sua exportação era proibida), tinha um status privilegiado (dádiva divina). Aqueles que os contrabandeavam ou roubavam eram conhecidos pelo nome de sicofantas. O nome, inicialmente, foi aplicado aos encarregados de vigiar os frutos; depois, passou a ser usado para designar esse funcionário como  caluniador, porque,
DIONISO
aproveitando-se do cargo, ele fazia denúncias sem fundamento, só por perseguição ou antipatia. Muito apreciado pelos gregos, o figo fazia normalmente parte de sua alimentação diária. Essa importância está inclusive registrada no mito, onde encontramos a história de Syke (o figo), ninfa pela qual o deus Dioniso se apaixonou. Como símbolo da fertilidade, o fruto era muito usado como um dos alimentos consumidos na primeira fase dos Mistérios de Eleusis, a orgia, juntamente com o kykeon, bebida à base de vinho, de caráter enteógeno, que tinha entre os seus componentes certos fungos (mais tarde, usados como base do LSD), conhecidos como alimento dos deuses (broma theon),  que produziam visões fantásticas.



Em algumas passagens míticas, temos informações de que o figo era uma dádiva de Deméter, considerada “tão ou mais importante que o ouro”. Citado na Ilíada e na Odisseia, diariamente consumido, ele era especialmente recomendado aos atletas olímpicos quando concentrados para os agones, já que dava “força e agilidade”. Na medicina, como uma espécie de panaceia, eram famosos os cataplasmas de figo. Platão acreditava na sua origem divina  (dádiva de Deméter) e, como todo grego, era um philosykos, amigo dos figos. Na sua  Academia, sugeria que para melhor filosofar os seus discípulos comessem muitos figos. Para a saúde do corpo eram também recomendados os frutos;   em Esparta, faziam parte, desde cedo, da alimentação da crianças entregues à tutela do Estado. 

ACADEMIA DE PLATÃO


Entre os romanos, a figueira aparece no mito de Rômulo e Remo, encontrados ao pé de uma delas, ali sendo alimentados por uma loba. Inspirado pelos deuses, o pastor Fáustulo os encontrou e os entregou a sua esposa, Aca Larência, para que ela os criasse. À figueira foi dado o nome latino faustulus, tornando-se ela um símbolo político de
RÔMULO E REMO
proteção. Quem nos conta esta história é Plínio, o Velho: o local onde os gêmeos foram encontrados recebeu o nome de Lupercal; no cume do Palatino, berço de Roma, havia uma gruta sagrada onde a loba Luperca amamentou os meninos. O local era conhecido por uma enorme figueira, de nome Ruminal, ao lado da qual borbulhava uma fonte. Rumis era um nome carinhoso dado às mães e popularmente ao seio feminino. Plínio nos informa também que a figueira Ruminal tinha a fama de proteger contra a ação dos raios. 



Os romanos costumavam consumir os figos à mesa, frescos ou como foie gras, e, fora dela, secos. Catão recomendava  que, nessa condição, antes de colocá-los em cestos, era
CATÃO
preciso muito cuidado para que não contivessem nenhuma umidade, livrando-os assim do bolor. Depois de secos, segundo ele, os figos se transformavam num excelente alimento para os humanos e para os animais, servindo de base para muitos produtos medicinais. Plínio falava que o figo era um bom substituto do pão, podendo entrar na ração dos escravos com essa finalidade. A história registrou que Marcus Gavius Agicius, gastrônomo, séc. I dC, introduziu em Roma a técnica de engorda do fígado dos gansos. Chama-se ficatum o fígado do ave assim engordado.  



Catão, o Censor, usou a figueira, por sua resistência e facilidade de propagação, como um símbolo (metáfora) para advertir os romanos do perigo que representava a África, ou melhor, Cartago. Como a figueira, uma “verdadeira praga africana”, a cidade de Cartago resistia bravamente a Roma, afrontando o seu poder. Daí a divisa de Catão: Delenda Carthago, com a qual  encerrava todos os seus discursos diante do perigo que oferecia a cidade púnica. Na origem, punicans, tis, queria dizer vermelho, púrpura. Dela saiu punicus para designar as coisas cartaginesas; por exemplo, punica fides, a má fé, a fé púnica (mercantilismo); punica ars, estratagemas usados pelos cartagineses para enganar, tudo isto, evidentemente, sob o ponto de vista dos romanos. 

MOISÉS (MICHELANGELO)
   
O figo foi um dos tesouros que Moisés prometeu aos judeus quando chegassem à Terra Prometida. A Bíblia nos diz que Adão e Eva esconderam a sua nudez com folhas da figueira depois de terem desobedecido a ordem recebida de não comer os frutos da árvore da sabedoria. Entre os cristãos, a figueira aparece nos evangelhos de Marcos (11:12-14 e 11:20-25)) e Mateus (21:18-22). É conhecida por muitos católicos a Parábola da Figueira Estéril. Segundo muitos estudiosos, Cristo teria usado a figueira como uma metáfora a fim de descrever a aparência externa da nação judaica como algo grandioso (a sua copa, a sua ramagem), mas que deixara há muito de produzir alguma coisa útil para a glória de Deus.   


Assim a figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizando tanto a sinagoga, que não reconheceu o Cristo, como todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Considerada árvore da abundância, da fecundidade perigosa e descontrolada, a figueira aparece na Bíblia como a árvore da ciência, sempre perigosa para as questões da fé. Árvore na qual Judas Escariotes se enforcou, sempre maldita, associada a ritos de fecundação,  a árvore sempre fez parte do universo simbólico das divindades fálicas, Dioniso, Príapo e outras, satanizada por isso pelos cristãos.

EXPULSÃO DO PARAÍSO (MICHELANGELO)


Ao comer os frutos proibidos, Adão e Eva abandonaram o divino. Tentados, pressionados por forças inconscientes que não dominavam (a serpente), acharam, ao comer figos, que podiam adquirir o conhecimento que os igualasse a Deus. Ora, o divino é um mundo ao qual só se pode ter acesso pela fé, nunca pela razão. A figueira, por causa dessa carga de maldição no mundo cristão, foi condenada a dar frutos sem florir. 


A Árvore do Conhecimento, conhecida como a Árvore do
FÊNIX
Bem e do Mal, a grande figueira, estava no Jardim do Éden. Não só Adão e Eva, instigados pela Serpente, comeram os frutos da Árvore; todos os animais da criação comeram-nos também. Só uma ave se absteve, sendo transformada por isso na Fênix, a ave que nunca morre.



 A Árvore do Conhecimento é, como se pode constatar, uma metáfora que admite leituras em várias direções: a) como símbolo da capacidade de discernimento que o homem devia demonstrar diante do Bem e do Mal; b) como uma representação da vida sexual não ligada à procriação, mas tão só ao prazer; c) como uma representação do psiquismo humano; Adão, o consciente, masculino; Eva o inconsciente, feminino. Daí, a relação entre a mulher e a serpente e a culpa atribuída a esta (s) última (s) pela perda do Paraíso; aliás, foi por esta razão que a serpente, nos meios judaico-cristãos, passou a simbolizar o Mal; a sua peçonha foi inoculada, segundo os judeus, em todos os descendentes de Eva, tendo sido, porém, removida do povo de Israel quando a Torá lhe foi transmitida; foi por esta razão também que se atribuiu a paternidade de Caim à serpente e não a Adão. d) uma Ilustração da vida humana que rejeita os valores do mundo natural ao optar pelo luxo, pela concupiscência, pela corrupção da riqueza.  


É do mundo grego que nos vem a sycomanteia (sicomancia) uma forma de adivinhação praticada com as folhas da figueira. Escreve-se um nome numa folha, nome sobre o qual se deseja alguma informação. Se a folha secar rapidamente, o sinal é de mau augúrio. Se custar a secar, o sinal é de bom augúrio. 


Ciência, fígado e fogo se equivalem no contexto semântico
PROMETEU
do mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos céus (do deus Hélio), trazendo-o escondido no galho oco de uma figueira, e o entregou aos humanos. Por isso, como punição, teve Prometeu o seu fígado destruído e recomposto alternadamente por um abutre gigantesco. Destruído durante o dia, o fígado se recompunha à noite quando a pavorosa ave se afastava. A palavra latina ficatum, como vimos, também designa o fígado de ave engordada com figos. 


O nome
SIGNO DE GÊMEOS
Prometeu, por outro lado, etimologicamente o que sabe antes, o previdente, vem de um verbo, manthanein, que tem relação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões, símbolo, na Astrologia, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental.




Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar bastões para a produção
AGNI
do fogo, da manteiga etc. Já se levantou a hipótese de que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes que no mundo indo-europeu cultuavam o fogo. Na Índia, esses sacerdotes participavam do culto de Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras). 



Simbolicamente, o fígado, em muitas tradições, sempre apareceu associado ao fogo como sede de paixões com o sentido de morte da alma, como privação de Deus. Esta privação toma aqui também (e em muitas outras tradições também) o sentido de excesso, de orgulho mental. Este
SÃO JOÃO DA CRUZ
sentido, por exemplo, nós o encontramos tanto em São João da Cruz como no mito de Prometeu. Ao receber o fogo de Prometeu, os humanos, ao utilizá-lo somente para a vida mental, para a ciência e para seu subproduto, a tecnologia, para  a enorme produção de bens  materiais, perderam a sua dimensão espiritual. O presente de Prometeu, o chamado filantropíssimo, se constiuíu nesse sentido numa dádiva e numa maldição. Prometeu, para os humanos, um grande benfeitor, sob o ponto de vista divino, um ser perigoso, um ladrão. A rigor, o titã foi um agente duplo, como expusemos no trabalho “Prometeu, Platão e a Mitologia”,


GASTON BACHELARD
neste blog. 


Acho oportuno lembrar a esta altura que foi o mestre Gaston Bachelard quem fixou melhor para nós a ambígua figura do Filantropíssimo ao formular o chamado complexo Prometeu: a tendência que tem o ser humano de saber mais do que aqueles que o antecederam, pais, professores, mestres. Esse complexo, como diz Bachelard, ilustra a vontade humana com relação à vida intelectual, tornando-a dependente exclusivamente do princípio da utilidade material Ou seja: o complexo represente a atitude moral que considera como superior tudo o que, sob o ponto de vista utilitário, nos dá mais felicidade. Uma espécie de “aritmética dos prazeres” que tem a finalidade de aumentar cada vez mais o bem-estar material da humanidade.  

HÉRCULES SALVA PROMETEU
     
Punido pelos deuses, Prometeu foi aprisionado nas montanhas do Cáucaso. Ali ficou por muito, tendo o seu fígado destruído e recomposto diariamente, até que Hércules, quando do terceiro trabalho (também neste blog), o libertou. Para um melhor entendimento e uma confirmação do que aqui se expõe, útil a contribuição astrológica. 


O fígado, astrologicamente, tem a ver com o planeta Júpiter, regente do signo de Sagitário. Esse planeta representa os princípios superiores que devem orientar o homem, tanto
FÍGADO
espiritual, como mental e fisicamente. Bem trabalhado, o planeta é generoso, protetor, otimista, sustentador. No corpo humano  tem muito a ver com as propriedades nutritivas e protetoras do sangue. Rege, dentre outras parte e órgãos, o fígado, o baço, a vesícula biliar, a transformação dos açúcares, a atividade química do corpo. Doenças jupiterianas produzem desordens sanguíneas, problemas no fígado, hemorragias, hiperglicemia. Tanto como órgão gerador da vida, de virtudes guerreiras e de coragem, o fígado é, por outro lado, o lugar onde o ser humano deposita sentimentos como a cólera, a dor, o ódio. 


GULA (HIERONYMUS BOSCH)

Palavras como melancolia (melanos, negro, khole, bílis)  atrabiliário (atra, negro, sombrio, mais bilis) e figadal são desse universo. Figadal é o que atinge profundamente; um inimigo figadal nos provoca rancor, faz mal às nossas
vísceras. Júpiter aponta para descontroles alimentares, moléstias pulmonares (ação reflexa), impurezas do sangue, adiposidade, obesidade, flatulência etc. Muitos dos problemas de saúde causados por Júpiter estão ligados aos órgãos da nutrição, do metabolismo, da assimilação, da combustão e das reservas. O fígado, nesses casos, deve ser o primeiro a se observar: é o lugar, como se disse, onde depositamos os excessos. A gulodice é um dos pecados capitais dos sagitarianos; abundância alimentar, degustações de pratos ricos, tudo contribuindo para que o fígado receba grandes quantidades de gordura. Não metabolizada, esta gordura vai engrossar a silhueta, produzindo marcas características nos do signo que se descontrolam, ganho de peso, produzindo a chamada obesidade visceral (esteatose, degenerescência gordurosa de um tecido). Um dos males mais comuns em sagitarianos que vivem desse modo é, por isso, a diabetes. No mais, persistindo o desequilíbrio, a bulimia, acessos de hiperfagia etc. Uma das consequências mais notáveis dos excessos sagitarianos é a gota, moléstia provocada por excesso de ácido úrico no organismo, causador de dolorosas inflamações nas articulações. É uma moléstia que vem acompanha geralmente de obesidade, pressão arterial elevada e níveis altos de colesterol (khole, bilis, stereos, sólido). 


Aplicando o princípio da correspondência (Hermetismo) ao que acima se expôs, fica fácil entender porque Sagitário e Júpiter têm a ver com o distante, com as religiões, com as heresias, com a filosofia. Num nível superior, Júpiter, espiritualmente, representa a revelação e a comunicação,  a expansão pela qual a vida instintiva e a vida mental podem buscar um “além-eu” através de vários modelos de transcendência. 


O fogo que Prometeu entregou aos humanos perdeu o sentido da transcendência; veio criando, ao longos dos milênios, ao invés de modelos superiores da inquietação humana,  formas doentias de vida, hoje integradas ao quotidiano (material) das pessoa como busca desenfreada da riqueza, consumismo, nomadismo, esportes radicais, agitação sob o nome de aventuras, desejo de viajar por
BOLSA DE VALORES
nada, degustação de paisagens pitorescas, especulações ruinosas (jogo do dinheiro) sob o ponto de vista econômico, negócios internacionais questionáveis, competições esportivas motivadas pelo lucro, corrupção do espírito olímpico etc. Ao lado de tudo isto, os vícios de sempre, cada vez mais evidentes porque proclamados e divulgados hoje pelas diversas webs: a ignorância pretensiosa, o exagero, a irreflexão, a imoderação, o despudor,a autoindulgência, a falta de sinceridade, a indigência mental, o exibicionismo, o orgulho arrogante e inútil, a fanfarronice. Isto significa nenhum impulso real para se dar à vida um sentido espiritual, nenhuma vontade de se impregnar as questões práticas com alguma forma de idealismo nem de se procurar entender que as formas mais elevadas de transcendência estão nas viagens que podemos fazer para dentro de nós mesmos.  

  

No mundo islâmico, os camponeses consideravam o figo como um fruto sagrado, bendito (baraka). Sua antiguidade está longamente atestada, fazendo, por exemplo, parte do cerimonial das núpcias entre os bérberes (grupo étnico nômade de origem camita que habita o norte da África desde a pré-história) e camponeses, de um modo geral. A 95ª surata (subdivisão do Corão) começa por uma evocação da figueira e da oliveira. O simbolismo da fecundidade da figueira é, contudo, pré-islâmico. É por essa razão que na África do norte a figueira é sinônimo de testículos.


Entre os povos do norte da África, o figo seco é conhecido pelo nome araula, considerado sempre como um alimento
CARAVANA
muito importante, imprescindível para os pastores do deserto, para os trabalhadores braçais ou para qualquer pessoa que trabalhe fora de casa. São usados também os figos na composição da Fakia, (mistura de frutos secos, nozes, passas etc.), consumida nas festas de Ennair (ano novo agrário), e como acompanhamento nos ritos de inumação. O figo entra ainda como elemento básico para a produção de uma bebida alcoólica, a Mahya, uma espécie de aguardente.



É na Índia que encontramos o maior exemplar da figueira, a Ficus Bhengalensis, seculare, cuja copa chega a atingir mais
FICUS RELIGIOSA
de trezentos metros de diâmetro. Dentre as várias espécies da árvore, a mais importante é, sem dúvida, a Ficus Religiosa. Ashvata (Ashavattha, em sânscrito), conhecida desde os tempos pré-védicos. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (entre 5.000 e 3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por volta de 2000 aC. 



ASWINS

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Liga-se o nome ao signo de Mithuna (Gêmeos), na astrologia védica (Jyotish). Os Gêmeos têm o nome de Ashwins (Dióscuros, na mitologia grega); são divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya), simbolizando como tal o princípio da vida consciente, que deve caminhar espiritualmente em direção do Brahman (O Todo). Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos na mitologia grega). Os Ashwins são deuses cavaleiros e exercem várias funções, de modo especial a médica. São divindades curadoras na medida em que controlam os cavalos. O cavalo, como se sabe, em todas as tradições, é um dos grandes símbolos do psiquismo inconsciente; 
2) a é partícula que indica em sânscrito negatividade; shwa, quer dizer amanhã; tha, quer dizer permanecer, ficar, como está acima. A palavra significaria pois “aquilo que nunca permanece o mesmo de um dia para o outro”, isto é, o transitório. Nas escolas filosóficas (darshanas) do Hinduísmo, ashvattha é o mundo fenomênico, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, mutável e perecível, “o que não permanece o mesmo de hoje para a amanhã.”


Posteriormente, na tradição Hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema  Bhagavad Gita, ashvattha tornou-se a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi), que une o céu, onde estão as suas raízes, à terra, por onde se espalha a sua ramagem (as escrituras sagradas, os Vedas). No Budismo a árvore tem o nome de pippal. A iluminação do príncipe Sidharta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio; sentado sob a figueira, em Boddhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe kshatrya “aquietou os seus cavalos”.


ILUMINAÇÃO DE BUDA


“Aquietar os cavalos”  quer dizer aqui dominar o turbilhão mental e emocional interior, representado astrologicamente por Lua (emocional) e por Mercúrio (mente comum). Estes dois astros são os que mais velozmente circulam nos céus. A Lua, ligada à água, governa o emocional, de natureza inconsciente, enquanto Mercúrio, ligado ao elemento ar, simboliza o mental comum, sempre dispersivo, impregnado de interferências lunares. É por esta razão que o Budismo é um Yoga (da raíz sânscrita  yuj, atrelar, jungir), instrumento de controle dos “cavalos”,  símbolos do  psiquismo inconsciente. 

TRIMURTI

Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também como banian (Ficus Indica ou Ficus Benghalensis), símbolo da imortalidade, do conhecimento superior. Confunde-se ela com Vishnu, segunda pessoa da trimurti hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas adoram esta árvore, muito encontrada na vizinhança de seus templos. Em cada cidade do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.