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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação. 





domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.









  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (2)

                                           
CONSTELAÇÃO   DE   ORION
Outra história da mitologia grega que mantém muitas relações com o universo escorpiano é a do gigante Orion. No mito, ele tem uma personalidade orientada instintivamente, dominada por paixões imperativas, por ideias e valores animados por pulsões violentas. Em Orion, sempre, as pulsões pela vida levadas ao extremo coexistem com um espírito tanático, uma ambivalência como a encontramos na frase de Nietzsche: O amor pela vida é, quase, o contrário do amor por uma longa vida, aplicável a alguns escorpianos. Não é por acaso que se diz de pessoas que têm este temperamento que elas têm “o Diabo no corpo”, um modo de viver que se caracteriza pelo desejo de ser sempre mais do que se é, um desejo que afasta sempre qualquer possibilidade de bem- estar e de satisfação. Uma angústia de viver que se alimenta de inquietações, exasperações, tormentos, agressividade e convulsões.  

Contam as várias versões do mito de Orion, todas descrevendo-o como um ser de extrema sensualidade, que sempre pontilharam a sua vida  cenas de vinho, de sexo, de violência e de vingança. Entregue a uma de suas grandes paixões, a caça, diz a lenda que ele chegou a ameaçar de extermínio os animais da terra, pondo assim em risco de destruição não só os ciclos da vida animal como os da ordem natural, ambas um reflexo da lei cósmica superior. Sendo-lhe oferecida, pela deusa Eos, uma oportunidade para se redimir, ele não conseguiu se libertar das suas tremendas pressões instintivas interiores, demoníacas, mantendo-se fixado no seu papel de grande sedutor, sempre belíssimo, esplêndido fisicamente, atraindo deusas e mulheres que a ele se entregavam, impotentes diante do seu poder de encantar, de fascinar. 


ÁRTEMIS
Uma das versões do mito nos conta que a deusa Ártemis, outra grande caçadora, ignorando as façanhas do nosso herói, que se gabava de ter livrado totalmente a ilha de Chios de perigosos animais, o convidou para acompanhá-la nas suas andanças cinegéticas. Apolo, irmão de Ártemis, que aliás não tinha muito sucesso com as mulheres, prossegue a mencionada versão, não viu com bons olhos essa “amizade”. Além disso, Apolo jamais esquecera que Orion havia partilhado o leito de Eos, a Aurora, na ilha de Delos, lugar sagrado, onde ele e a irmã haviam nascido. Por causa dessa grande indelicadeza da deusa da aurora com relação a ele, Apolo, o deus da luz, dizem as más línguas, foi condenada por Zeus a jamais deixar de se ruborizar. 




ORION   CARREGA   ÁRTEMIS
Apesar da segurança com que Ártemis conduziu a sua aproximação com Orion, alegando que nada poderia lhe acontecer, Apolo alimentava temores com respeito a essa relação, no que teve razão. Logo nos primeiros contactos com Ártemis, Orion deu mostras de seu descontrolado temperamento, atacando-a sexualmente, dando vazão ao seu invencível furor erótico, certamente atraído pela beleza física da irmã de Apolo.

A indignação de Ártemis diante da afoiteza e da petulância de Orion foi enorme. A deusa, como sabemos, gozava do privilégio da
ORION   E   ESCORPIÃO
virgindade, concedido por Zeus quando presenciou horrorizada o sofrimento da mãe, Leto, ao dar à luz ao irmão. O revide veio incontinenti: Ártemis arrancou das profundezas do terra um aracnídeo gigantesco (um ser até então inexistente na natureza), um escorpião, que, apesar luta de Orion para dele se desvencilhar, o picou no calcanhar, ferindo-o mortalmente. Por essa razão é que ambos, Orion e o escorpião, foram para os céus, transformados em constelações, para que a história deles nunca mais fosse esquecida.

Este episódio da morte de Orion nos faz lembrar que o calcanhar é um lugar, sob o ponto de vista astrológico, tradicionalmente considerado como ariano no corpo humano, muito vulnerável. Comuns as histórias, em mitos e lendas, que nos falam de ferimentos ou da morte de deuses solares, heróis e reis, atingidos nesse ponto. Só para citar alguns exemplos, temos, na mitologia egípcia, o deus solar Ra (serpente) e Harpócrates (escorpião); na mitologia grega, Aquiles (flecha), Talos (farpa), Édipo (argola); na mitologia escandinavo-germânica, Balder (visco); na mitologia védica, Krishna (flecha) etc. 

RAPTO   DE   KÓRE


Quando falamos do signo de Escorpião não podemos deixar de lembrar e voltar à história do rapto de Kóre, a jovem filha de Deméter, arrancada das suas inocentes brincadeiras juvenis quando colhia flores, na ilha da Sicília. Está hoje suficientemente reconhecido por todos que se voltaram para esta história que o Senhor do Inferno, Hades-Plutão, sem solicitar o consentimento de Deméter, sua irmã, “negociou” a sua união com a jovem com Zeus, seu irmão e pai da menina.

Zeus, ao que parece, nunca levou em consideração se a presença dos mortos (que não passavam, para os gregos, de sombras lamentáveis no Hades), com as suas queixas e lamentos, se as lúgubres trevas do reino infernal seriam de natureza a alegrar o coração da sua jovem filha. Nunca se perguntou também como a jovem viveria o brutal sequestro. Ele viu certamente o irmão como um “bom partido”, pois governava uma parte importante do universo. Ao concordar com o rapto, Zeus prestava, sem dúvida, um grande favor ao irmão, que não conseguia uma “rainha” para o seu reino, por motivos óbvios, apesar do título que a candidata escolhida ostentaria. E o mais importante, talvez, pois essa união sempre contribuiria para que o irmão, agradecido, não alimentasse ideias de atentar contra a sua soberania universal, como era costume acontecer entre os membros das elites divinas governantes.

Quando associamos o Hades grego ao signo de Escorpião, não podemos deixar de abrir um generoso espaço para o importante papel que nessa relação desempenha a história de Kóre-Perséfone.
PERSÉFONE   E   ROMÃ
 ( MAIA  RAMISHVILI )
Kóre, em grego, quer dizer jovem, donzela, o contrário de Kóros jovem, rapaz. Às vezes, a palavra é usada com o sentido de thygater, filha. No mito, nasceu ela da união de Zeus, o Senhor do Olimpo, com Deméter, a  deusa da terra produtiva. Um dos símbolos de Kóre era a semente, a própria imagem da alternância entre vida e a morte, lembrando tanto vida subterrânea como vida manifestada na superfície da terra. Raptada por seu tio, Hades-Plutão, levada para o Inferno, transformou-se em Perséfone, uma dualidade que nos coloca diante de dois arquétipos, o da jovem virgem e o da rainha do mundo infernal.

De um modo geral, Kóre é o arquétipo da jovem inconsciente quanto à sua personalidade visível nos seus relacionamentos com o mundo.  Possuídas por esse modelo, muitas jovens costumam erotizar bastante a sua aparência, o seu comportamento, a sua maneira de ser, colocando as pessoas à sua volta num estado de excitação e até de paixão amorosa muitas vezes incontrolável. O arquétipo de Kóre nos remete a uma das proposições mais importantes do tema da sedução: é mais pelo seduzido que pelo sedutor que a sedução se realiza. 

Realmente, apesar da sua imagem de “atacante”, o sedutor atua sempre nesse processo sob pressão. Ele é, digamos, constrangido a atacar. Seu ataque é comandado por aquele (a) que será a sua vítima. Todo sedutor é, assim, “forçado” a seduzir pela sua “vítima”. O que temos aqui é algo semelhante ao contrato masoquista, um contrato comandado pela vítima. Ao longo da história do homem, esta maneira de ser poderá ser facilmente constatada, sendo inúmeros os casos em que o sedutor não passa de uma marionete do seduzido. Bastante indecisa, às vezes falsamente ingênua, a jovem virgem Kóre, como uma flor, oferecendo os seus encantos aos que passam, “nunca sabe  bem o quer”, mas espera que algo lhe aconteça, que alguém a “colha” e que sua vida então mude.

A flor, como sabemos, se desenvolve entre a terra e água, princípios passivos. Suas pétalas, seu cálice, tudo nela é receptáculo da luz, da chuva, do orvalho, dos ventos, e, como tal, é dependente da atividade celeste. As flores, além de presentes em
ASFÓDELO
todas as etapas da vida (nascimentos, aniversários, celebrações, casamentos, mortes), sempre tiveram um papel importante no jogo da sedução, na literatura galante. Para os antigos gregos, a proximidade e/ou a inalação do perfume de certas flores era perigoso, como no caso de narcisos, asfódelos, jasmins, jacintos, camélias etc., todas presentes na mitologia grega, dela fazendo parte, às vezes, como importantes personagens. As flores brancas, particularmente aquelas que são muito perfumadas, segundo a tradição mediterrânea, podem até atrair a alma de pessoas mortas. 


NARCISO
O narciso, na mitologia, coroava a cabeça de várias divindades, das Erínias, das Moiras e, muitas vezes, do próprio Hades, sendo neste caso um símbolo do entorpecimento, da morte como um sono profundo. Como já se disse, narcisos , pelo seu perfume perturbador e soporífero, são ideais para a confecção de filtros mágicos. Diz a tradição que uma mulher que receba de um homem um buquê de narcisos ficará presa a ele, não conseguindo tiraá-lo mais da sua cabeça. 

O mito nos revela que, Kóre foi raptada quando, num prado da Sicília, junto com algumas jovens amigas, colhia flores. O mito nos revela mais que Kóre, ao contrário das amigas, se sentiu particularmente atraída por uma região mais seca do terreno, onde só havia um tipo de flores, de pétalas brancas, com uma pequena
NARCISSUS   SEROTINUS
coroa amarela no centro. Essa flor, conforme se comprovou posteriormente, foi criada especialmente pela Grande-Mãe Geia para auxiliar Hades-Plutão a raptar a jovem. Extremamente odorífica, dessa flor, chamada tecnicamente de Narcissus poeticus, às vezes confundida com o Narcissus Serotinus, os homens aprenderam a  extrair um óleo, muito usado na fabricação de perfumes. Atualmente, ao que me consta, ele entra na composição de dois perfumes muito famosos, Fatale e Samsara. O perfume do óleo do narciso lembra uma mistura do perfume de duas flores, do jacinto e do jasmim. De todas as espécies de narcisos, o poético é o mais perigoso. Pessoas que dormem ou que permanecem por algumas horas numa sala fechada onde houver narcisos poéticos correm o risco de sentir enjôos, náuseas, vômitos, fortes dores de cabeça. 

O complexo de Kóre vem sendo atualizado pela literatura, pelo cinema e, sobretudo, pelos meios de comunicação de massa (publicidade) através de vários estereótipos como lolitas e ninfetas, adolescentes que procuram sempre despertar o desejo sexual, modelos de comportamento muito ativos hoje tanto na área heterossexual como homossexual. Lembro que os norte-americanos, desde os tempos do cinema mudo, puseram em circulação o termo waif (gamine, em francês) para designar esse
AUDREY   HEPBURN
modelo, uma mistura de sexo e inocência, caracterizado por mulheres de aparência infantil, aparentemente frágeis, que pareciam “pedir” proteção, mas ocultando por trás de sua aparência, sutilmente erotizada, muita malícia, nocividade e perniciosidade como sedutoras (Audrey Hepburn é um exemplo clássico). Eram perigosas e sexualmente estimulantes. O grande arquétipo desse modelo é, sem dúvida, Kóre, “raptada” por Hades, o deus dos Infernos, com o consentimento de Zeus, o próprio pai. 

É preciso ressaltar, porém, que, se esse rapto foi um “trágico” acontecimento para Deméter, não o foi, como se disse acima, para a Grande-Mãe Geia,  que o viu como natural, como “algo” que faz parte da própria vida. Ela colaborou, como “sábia anciã”, para que o rapto se consumasse, não só permitindo que o  cenário fosse montado adequadamente (os atraentes narcisos) e também se “abrindo” para que Hades pudesse subir à sua superfície da terra para atacar a jovem  e depois voltasse ao seu reino subterrâneo. Do ponto de vista de Geia, tanto a sedução como a morte não têm nada de trágico, são acontecimentos que fazem parte do devenir da própria existência. 

O poema homérico nos diz sobre esta passagem que o narciso era um engodo, um favor de Geia, para aquele que recebe tantos, expressão pela qual os poetas se referiam a Hades Este deus era também poeticamente conhecido pelo nome grego de Pluton, nome retirado de uma palavra grega que significa rico. Ou seja, Plutão é o de “inumeráveis hóspedes” (uma referência às almas que recebia em seu reino) e o “muito rico” (uma referência aos tesouros e riquezas inexauríveis que a Terra guardava nas suas entrenhas).  

Narciso vem de narko, sono, narkê, torpor. A flor, entre os gregos, era vista como narcoléptica (narkê, torpor, e lepsis, ataque, rapto), sugerindo, por seu perfume, ideias de sono, morte e diminuição  do nível da consciência. Em razão de sua forma, que lembra o lírio, o narciso aparece ligado à corrupção da virgindade, da pureza. O narciso era também flor muita usada em ritos funerários, ornando os cadáveres levados para inumação nos cemitérios.


RAPTO   DE   KÓRE

A “perdição” de Kóre, como tudo indica, foi apoiada pela Grande-Mãe, que se tornou assim cúmplice de Hades, pois para ela o mundo subterrâneo (o subconsciente, se quisermos) também fazia parte da natureza (vida consciente). A história de Perséfone nos permite perceber todo o dualismo de seu mito, ou seja, o de se ver o mundo inferior como o mundo das almas e o mundo superior como o da luz, da vida física.  Ou seja, para que a vegetação pudesse crescer na superfície da terra, era preciso uma descida ao mundo ctônico. O “invisível” dando origem ao “visível”. Tomar consciência será assim ter percepção do “invisível”, do mundo inferior.

A jovem Kóre, enquanto vivia exclusivamente presa à mãe, não tinha nenhuma consciência de si mesma, da sua beleza, não conhcia os seus motivos subjetivamente, apenas existia simbioticamente.  Fazia-se sedutora para ser colhida, uma flor. Não percebia o quanto atraía sexualmente. Vivia para oferecer ao mundo a sua imagem mais desejável; por isso, mudava semore,  constantemente, adaptando-se como um caleidoscópio.  

A palavra Kóre em grego era usada também para designar a pupila
Adicionar legenda
(menina) do olho que, a rigor, é um vazio, isto é, um orifício situado no centro da íris que, ao se contrair ou dilatar, permite regular a quantidade de luz que penetra no olho. Daí, os outros sentidos que a palavra pupila toma, sentidos  úteis para apreendermos tudo o que arquetipicamente a jovem filha de Deméter pode significar. Pupila é aquela que um educador, um mestre, deve educar, aquela que deve ser tutelada por alguém; é uma protegida, uma educanda, uma noviça. Os gregos davam às bonecas também o nome de kóre, um simulacro do corpo feminino.

Invariavelmente, todos os que se voltaram para o tema de que tratamos falam da filha de Deméter como vítima, a que foi abduzida. O sedutor, no caso, é o deus soturno de um reino para o qual ninguém desejava ir, deuses ou mortais, dono de uma força viril ativa irresistível diante da qual o feminino (passivo) não tinha outra alternativa senão a de se render, se entregar, abandonar-se. A sedução, nessa perspectiva, é sempre apresdentada como um jogo a dois, no qual um (o mais forte) ganha e o outro perde, presente a dialética do dominador e do domimado (O D/s dos psicólogos). 

Apesar de toda a diversidade dos personagens que costumam tomar parte neste jogo, não podemos admitir que a sedução (seducere, etimologicamente, desviar do reto caminho, tirar de lado) seja simplesmente um  querer fazer mal consciente, um constrangimento imperativo irrecusável por parte de quem o pratica. Neste jogo, muitas vezes, o que parece ser o vencedor, como dissemos, aquele que aparentemente se beneficia do ataque (que colhe a flor), nem sempre é quem dá início ao jogo ou aquele que se delicia mais. É claro que sob um ponto de vista teológico, etimológico ou jurídico os sedutores serão sempre o Diabo ou um grande libertino, grandes pecadores, criminosos etc. No Direito Penal brasileiro, por exemplo, sedução é o crime de se manter conjunção carnal com mulher virgem entre 14 e 18 anos, com

aproveitamento de sua inexperiência e/ou justificável confiança. O aparecimento do sedutor (oportunidade, circunstâncias etc.) é determinado em grande parte pela parte seduzida. Na vida religiosa, este princípio pode ser assim expresso: todo místico acaba sempre encontrando o seu deus. Na vida libertina, é o caso do Don Juan descrito por Kierkgaard, seduzido pelas mulheres das quais ele já havia se tornado cativo.

Essa questão de se considerar a sedução simplesmente como um desvio maléfico deve ser revisada, admitir outra leitura, que não fique restrita ao ponto de vista dos jogadores. A sedução é, efetivamente, um desvio maléfico, em muitos casos, mas noutros (em grande parte, talvez) não o seja. Refiro-me, sob o ponto de vista factual apenas, às delícias da sedução, efêmeras ou duráveis,
( F. M. CARMONTELLE, 1750-1825 )
mas sempre delícias. Dentre todos os exemplos para reforçar o que aqui se afirma podemos ficar com os casos mais “difíceis”, o da sedução das “mulheres austeras” ou “as aquecidas pelo Divino”, as “loucas de Deus”, as que formam aquele grande contingente das esposas místicas em todas as religiões. Choderlos de Laclos tratou delas e a Igreja católica transformou muitas mulheres raptadas como Kóre  em santas. 


No tocante às religiões (refiro-me aqui de modo especial ao Cristianismo), é oportuno lembrar, quando seduzidas pelo divino, as mulheres, absolutamente, segundo a ortodoxia dominante, não se desviaram de nada, nem de si mesmas; foram promovidas, colocadas numa categoria especial, foram santificadas, tornando-se dignas de veneração e respeito. Gozaram, simplesmente, por ele
SÃO    JOÃO   DA   CRUZ
possuídas, pelo divino. Quando se trata de homens então, os casos parecem ser bem mais interessantes, pois nos põem mais profundamente diante da chamada feminilidade da alma mística, a “alma-esposa”. São João da Cruz entendia disto muito bem, referindo-se a si mesmo no feminino. Estes seduzidos, homens ou mulheres, são sempre extremamente sedutores. É extensíssima, como sabemos, em todas religiões a galeria dos seduzidos pelo divino, mulheres e homens.

Todos os fenômenos religiosos que nos falam de penetração pelo divino, do toque do divino, conversões, religiões reveladas, de mistério, participações rituais, transes oraculares, profecias etc., têm inegavelmente uma forte conotação sexual. Para receber o divino temos que nos tornar femininos, esvaziarmo-nos, como no caso do ekhstasis dos Pequenos Mistérios em Eleusis. Platão, por exemplo, associa o conceito de possessão pelo divino (enthousiasmòs) a um estado não-racional, feminino. 

PLUTÃO - HADES
O que temos na realidade, em muitos casos, quanto ao feminino, é que as seduzidas são grandes sedutoras. A mulher seduzida, como o sedutor, também “atira” as suas flechas. Elas, “ao cair”, levam junto o sedutor, o derrubam. Kóre vinha há muito, em que pesem os seus poucos anos de vida, pedindo para ser colhida. Quanto a Plutão - Hades, as consequências de seu ato, como tudo indica, ele as suportará até o final dos tempos, administrando o seu reino em companhia de Kóre, que assumiu o papel de esposa amantíssima e obediente, sob o nome de Perséfone.

Os estudiosos do mito, de todos os tempos, nunca abordaram o day after do rapto de Kóre, sob o ponto de vista de Plutão - Hades.
HÉRCULES  ,  PIRITOO  ,  TESEU
Atendo-nos ao mito, Plutão nunca mais raptou alguém. Aliás, mostrou-se sempre muito consciente dos seus poderes e deveres familiares. Lembremos do modo como agiu (marido exemplar) quando dois fanfarrões, Teseu e Piritoo, invadiram o seu reino com a pretensão de raptar Perséfone. Agiu prontamente, prendendo-os e os mandando para o Tártaro, lugar sem volta. Teseu lá ficaria para todo o sempre se não fosse Hércules... 

O que podemos concluir desse episódio, ligando-o a outros dados “biográficos” de Plutão - Hades, é que ele precisava apenas de uma “esposa oficial”, de alguém para assumir o lugar de “primeira dama” no seu reino. Nunca foi um sedutor como seu irmão Zeus, este sim um grande semeador de filhos, os chamados espúrios, alguém que não admitia negativas diante do seu furor erótico.

CHAPEUZINHO
(J. W. SMITH , 1863 - 1935 )
Sob um outro ponto de vista, psicológico, se quisermos, a ação de Plutão - Hades (função de todo “raptor”) não teve outra finalidade senão a de fazer Kóre tomar consciência do seu corpo como polaridade geradora. Aliás, aquilo que aconteceu a Kóre vem sendo atualizado simbolicamente por várias histórias, como, por exemplo, a do Chapeuzinho Vermelho, na qual Hades, Deméter e Kóre são, respectivamente, o lobo, a avó e a heroína. O rapto de Kóre é, neste sentido, uma “descida” que toda mulher deve fazer não só ao interior do seu corpo, e, dessa experiência, chegar a novas formas de autoconhecimento para buscar outras possibilidades de crescimento.

O aspecto sublime do drama Deméter-Kóre está representado, sem dúvida, pelos Mistérios de Elêusis, doação de Deméter à humanidade, como um grande processo transformador no sentido de uma espiritualização progressiva da vida material, tanto no nível pessoal como coletivo. Não é por oura razão que a divindade condutora dos mystai a Elêusis era Dioniso, o deus das metamorfoses, a divindade que num primeiro momento lembrava a regressão, a supressão das interdições, o mergulho na indiferenciação, para, num segundo momento, significar o renascimento sob uma outra forma. Não nos esqueçamos que a terceira fase dos Pequenos Mistérios, a do enthousiasmòs (literalmemente, deus em nós) se realizava quando Dioniso “possuía” o iniciado. A forte conotação sexual dessa penetração divina é evidente. Todo iniciado que participasse dos Mistérios de Eleusis assumia naturalmente a condição de uma Kóre, isto é, tornava-se feminino, sendo invadido pelo deus. 


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Psicanaliticamente, os Mistérios de Elêusis podem ser vistos como uma proposta de descida à vida subconsciente a fim de serem libertadas as potencialidades lá aprisionadas. É neste sentido que Perséfone seria um símbolo do recalque. É no simbolismo da semente que desce ao interior da terra que devemos procurar a busca de certas faculdades espirituais (a busca do tesouro interior) que levam o ser humano ao autoconhecimento. O guia das procissões noturnas que no outono saíam de Atenas em direção de Elêusis pelo Cerâmico era Dioniso, que, como esclarecia Heráclito, era Plutão-Hades, sob um outro aspecto. Esta identificação se tornará mais clara se acrescentarmos que a mãe de Dioniso era Sêmele, nome que lembra semente, uma personificação da terra, como Deméter, fecundada por Zeus na forma de chuva primaveril.

O retorno de Kóre, por outro lado, à mãe não é mais que a ilustração de um dos subciclos do movimento cíclico das estações. Não é por acaso que no dia 22 de setembro (começo do outono), quando se realizava a epopteia, a contemplação, a consumação dos Grandes Mistérios, Perséfone tinha nessa cerimônia um papel muito importante. Ela, como a venerável Brimo, apresentava à multidão de iniciados Brimos, o menino sagrado, o puer aeternus, símbolo da energia universal que não morre nunca, que a cada ano
TELESTERION
retorna. Os Mistérios de Elêusis falavam de uma solidariedade entre a mística agrícola e a sacralidade da atividade sexual. Brimos era gerado pela grande deusa na escuridão do Telesterion e trazido diante da multidão como símbolo do mystes, o iniciado renascido. Brimos, em Elêusis, era um epíteto do deus Dioniso, a criança sagrada, nascida de Perséfone. É dentro do cenário eleusino que o culto de Dioniso significa uma proposta de mudança, de transformação, de espiritualização de quisermos, na medida em que ele nos fala de morte e renascimento. 

A palavra Brimo, de origem trácia provavelmente, sempre teve o sentido de algo terrível, algo que se presenciava com horror. Traduzia ela também uma ideia de inexorabilidade, aparecendo sempre ligada ao mundo infernal, sendo, por isso, muito aplicada a deusas que tinham relações com esse mundo. O nome era usado às vezes como um qualificativo para designar o que deusas como Perséfone, Hécate ou as  Erínias provocavam, um misto de temor, de horror. A palavra era também aplicada a Deméter, em Elêusis. 

A figura de Perséfone tem, no mito, um caráter ambíguo. Afora os seus “deveres oficiais” nos Mistérios de Elêusis e ao lado do marido, sua história é discreta, não é muito rica de acontecimentos. Perséfone aparece nos trabalhos de Hércules (décimo trabalho), no mito de Teseu (já mencionado), no Orfismo e numa disputa que teve com Afrodite. Quanto ao Orfismo, há apenas a mencionar que quando o famoso cantor trácio desceu ao Hades para resgatar a alma de sua falecida noiva, Eurídice, Perséfone, muito tocada pela grande prova de amor por ele demonstrada, interveio decisivamente, com sucesso, no sentido de obter de seu esposo autorização para a libertação da alma da desditosa jovem.


DIONISO , DEMÉTER , MÊNADES