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terça-feira, 22 de setembro de 2015

GALAHAD II


                     
GALAHAD
    
As mais antigas civilizações, desde as primeiras etapas de sua formação, sempre glorificaram alguns seres que de certa maneira se destacaram por feitos ou deixaram algum exemplo. Reis, príncipes, fundadores de religiões, de impérios, de cidades, guerreiros etc. De um modo geral, a esses seres se deu o nome de herói, palavra que veio do grego, héros, heroos, latinizada depois, usada também, nos mitos, para designar um semideus (filho de uma divindade e de um mortal) ou um mortal divinizado. Mesmo as civilizações que não seguiram de perto os modelos asiático e europeu, como as do norte, centro e sul americanas, tiveram essas figuras nos seus mitos. A única exceção que realmente poderíamos destacar, com relação ao tema heroico, nós a encontramos na civilização egípcia, nele inexistente. 

Nas suas raízes etimológicas (gregas) mais profundas a palavra herói designava na mitologia o filho de um deus ou de uma deusa com um ser humano. Aos poucos, a palavra passou a ser utilizada para denominar um mortal divinizado após a sua morte (evemerização) e também aquele que se notabilizou por seus feitos guerreiros, sua coragem, sua abnegação. O sentido da palavra foi se ampliando, admitindo-se depois seu uso para apontar pessoas que suportaram um destino incomum ou que se dedicaram, até com o sacrifício da própria vida, a trabalhar pela humanidade. Do século XVIII em diante, com o Romantismo, uma nova dimensão foi incorporada à palavra, principalmente através da Arte, mais da Literatura. Determinados personagens que problematizavam sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis. Hoje, a palavra é aplicada a pessoas que se destacam por suas relações, dignas ou indignas, que se tornam de algum modo o centro das atenções.


CAVALEIRO  MEDIEVAL  E  SUA  DAMA

De um modo geral, os heróis, nos mitos de todas as culturas, são considerados também como um elo, um traço de união entre a terra e o céu. Podem eles, contudo, em determinados casos, adquirir a imortalidade através de feitos e conquistas excepcionais. No geral, simbolizam um esforço evolutivo, um desejo de superação, de transcendência, que é buscado em meio a impulsos muitas vezes contraditórios, desmedidos, que os levam a tentar se igualar aos deuses ou até mesmo superá-los. Os temas da vida heroica se fixam na conquista da glória, da imortalidade, procuradas através de dois caminhos principais, a via social (horizontal) e a via espiritual (vertical) que, às vezes, se interpenetram. 

Sabemos que a imagem do herói pode se associar em sonhos, em todos os estágios do desenvolvimento psíquico do ser humano, à presença de um guia, de um mestre, de um orientador. Essa figura estará sempre relacionada com o devenir, com o futuro do sonho do herói, como uma proposta de mudança indispensável de autosuperação, de evolução, de transcendência.  


LEITURA   NOS   CONVENTOS

O tema do heroísmo nas lendas (legenda, em latim, o que deve ser lido), além dos caminhos acima apontados, tomou também uma outra direção a partir dos séculos do início da era medieval. As lendas, nesses primeiros tempos, tinham por motivo a vida de santos e de mártires, cujas histórias, reproduzidas em textos, eram lidas (daí o nome legenda, o que deve ser lido) nos refeitórios dos conventos. Passaram essas histórias depois à vida profana como contos populares que tinham por base certos fatos que aos poucos foram se embelezando, se desenvolvendo, transmitidas e transformadas pela imaginação popular. Tais lendas procuraram invariavelmente descrever ações ou ideias através da crônica de certos heróis, com o objetivo de fazer com que o público participasse desse mesmo impulso. Perdeu-se, assim, o fato histórico e no seu lugar o que mais se fixou foi a ação maravilhosa. 

A palavra maravilhoso, do latim mirabilia, traduz tanto a ideia de algo que espanta com a daquilo que pode merecer também crédito, sempre causando admiração, opondo-se tais conceitos aos de realidade ou de normalidade. Há sempre, também, a ideia de transgressão de fatos empíricos. No Ocidente, na cultura medieval, o maravilhoso torna-se um motivo central na literatura cavaleiresca dos sécs. XII e XIII, uma espécie de arma cultural a serviço da aristocracia e dos meios eclesiásticos.


CANÇÃO DE GESTA


Nas lendas, a via é mais social. Ao contrário dos mitos, os personagens lendários não participam, de um modo geral, do divino. O herói da lenda é um personagem enraizado na história, notabilizado por seus feitos guerreiros, por sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade e pureza.  Alguns heróis, embora fixados no plano social, histórico, simbolizaram, entretanto, pelo seu exemplo, uma proposta de transcendência “vertical”, espiritual, religiosa. 


CARLOS   MAGNO

Com o título de canções de gesta aparecem nos séculos seguintes ao reinado de Carlos Magno (768-814), na Europa, principalmente na França, algumas produções poéticas, geralmente compostas em versos de dez sílabas, que louvavam os feitos maravilhosos e heroicos de certos cavaleiros que teriam vivido nas cortes de tempos passados, de modo especial, na época carolíngea, entre os sécs. VIII-IX. Esta literatura é considerada como um subgênero da epopeia e tem características formais específicas, usa uma linguagem estereotipada e procura desenvolver temas ao mesmo tempo religiosos e guerreiros. Gesta vem do latim, gesta, gestorum e tem aqui o sentido de façanhas, feitos heroicos, memoráveis, reais ou imaginários. 


Desde o final do séc. XI, a canção de gesta passou a ser salmodiada por um cantor profissional itinerante, diante de um público muito variado e em grande parte analfabeto que se reunia em lugares de grande concentração popular, praças públicas, feiras, mercados ou lugares de peregrinação. Os auditórios desta literatura, de forte tradição oral, eram entusiastas tanto nas cidades como nas estradas. O ritmo era um dos elementos essenciais destas produções. Os cantores (poetas) procuravam desenvolver seus temas repetidamente, uma sucessão de clichês muitas vezes, usando técnica semelhante à dos aedos (poetas-cantores) gregos dos tempos de Homero (850 aC), tudo para facilitar a sua memorização. De outro lado, valendo-se de recursos como os da variação na repetição, uma espécie de retórica muito peculiar, procuravam eles prender a atenção dos auditórios, formados em grande parte, como se disse, por um público iletrado.

TROVADOR 
Esta literatura, inicialmente voltada para a glorificação dos feitos fundadores da civilização medieval, guerreira, feudal e cristã, foi mudando, a partir do séc. XII, procurando expressões menos rudes, mais elegantes de vida, nas quais as mulheres passavam a ter um papel mais ativo. Surge então a chamada literatura cortês, praticada nas cortes. Dava-se o nome de corte à entourage de um príncipe; era essa entourage que o ajudava e aconselhava, auxiliando-o a administrar os seus domínios, a fazer justiça e a tomar decisões políticas. Nos séculos XI e XII, as cortes dos príncipes ocidentais constituíram o cenário onde começou a se desenvolver esta literatura.

Os costumes e as maneiras se suavizam nesse período. A nobreza medieval se tornou uma classe hereditária cada vez mais fechada. Sob a influência da Igreja Católica, os sentimentos de generosidade e de polidez entraram em circulação. Criou-se uma vida mundana, pontuada por festas e cerimônias. As mulheres, as damas, adquiriram um papel importante na fixação das novas regras de convivência palaciana, regras estas que aos poucos iam permeando inclusive as camadas sociais mais baixas.

 As escolas episcopais e monásticas formavam um público de leitores atraídos pelas obras em latim e em francês. Estas obras eram escritas especialmente para uma elite mais civilizada, tendo por tema aventuras sentimentais em meio a ambientes elegantes e luxuosos. Esta literatura tomou o nome, como se disse, de cortês porque se destinava, sobretudo, a um público que frequentava a corte. 

No séc. XII, a promoção da mulher é favorecida por uma iniciativa da Igreja Católica. O culto da Virgem Maria, até então apagado, passou a ser muito prestigiado nos meios católicos com o objetivo de se realçar, como altamente desejáveis sob o ponto de vista social, modelos espiritualizados de vida. Esses modelos procuravam acima de tudo valorizar o papel da mulher na construção dessa nova ordem, destacando temas como a concepção do mundo e da sociedade articulada por uma relação hierárquica entre a carne e o espírito, impondo-se este àquela de modo indiscutível; como a santidade do casamento; como a virgindade da mulher solteira; como a atenuação da natureza carnal da mulher, não mais vista fonte absoluta da luxúria e do pecado; como a desculpabilização da mulher, sempre considerada a causadora da expulsão do Paraíso; como as limitações eclesiásticas e judiciárias a que as mulheres estavam submetidas, entendidas como naturais, pois o homem (só ele) tinha sido criado à imagem de Deus (Gen 1,26) etc.


                               ANUNCIAÇÃO ( FRA ANGELICO)

Lembre-se que a Virgem Maria, que antes do século IX só tinha uma festa (1º de janeiro), no fim do século XII já contava com quatro: Anunciação (25 de março), Assunção (15 de agosto), Natividade (8 de setembro) e Purificação (2 de fevereiro). Entre os séculos XIV e XV, acrescentar-se-ão Visitação, Entrada no Templo, Dores de Maria e finalmente Concepção. Com esta promoção, a Virgem Maria se “individualizou” e adquiriu autonomia com relação às questões ligadas ao seu Filho, apesar de todas as discussões que se seguiram nos meios cristãos sobre tal “independência”, muito incômoda às vezes, sempre tivessem procurado garantir a pureza da mãe de Deus, declarada como virgem ante partum, in partu et post partum. 


VISITAÇÃO  DA  VIRGEM  MARIA  A  SANTA  ISABEL  (GIOTTO)

Uma das melhores imagens sobre o papel da mulher nessa nova ordem apareceu entre os séculos XV e XVI como a temos no conjunto das seis tapeçarias, denominadas La Dame à la Licorne, hoje no Musée de Cluny, em Paris. Em cada tapeçaria, sobre um fundo ornado de flores (mille fleurs) e animais, uma jovem mulher é representada cercada de emblemas heráldicos, notadamente um leão e um unicórnio. O conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos; na sexta tapeçaria aparece a frase À mon seul désir, ou seja Segundo o meu livre arbítrio, ou ainda Sem submissão aos sentidos. 


TAPEÇARIA  LA  DAME  À  LA  LICORNE  


Dentro da literatura cortês, muito variada, há um tópico temático que recebeu o nome de matéria bretã, de inspiração celta, mais exatamente a lenda do rei Arthur. Em 1.135, Geoffrey of Monmouth publicou a sua Historia Regnum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), em latim. Esta obra foi traduzida livremente, em octassílabos, para a rainha Alienor, pelo poeta anglo-normando Wace. Revelava-se por ela, para os franceses, a lenda do rei Arthur, chefe dos celtas, que comandou a resistência contra a invasão dos saxões no século VI. 

A figura de Arthur se situa entre a fronteira do real e do imaginário. Sua identidade histórica é a de um chefe militar que organizou no século VI a luta da nação bretã contra o invasor saxão. A literatura vai lhe dar uma segunda existência e fazer dele um rei mítico, um soberano ideal, ao mesmo tempo modelo e representação de todas as virtudes cavaleirescas da Idade Média. 


REI    ARTHUR




A história de Arthur se insere nas tradições da mitologia dos celtas e fala de sua volta, do seu retorno maravilhoso. As lendas trataram Arthur como um rei poderoso e refinado, que mantinha uma corte luxuosa, dela fazendo parte, como mais próximos, os valentes cavaleiros da Távola Redonda. Estes cavaleiros sentavam-se à grande mesa circular para evitar disputas quanto às preferências reais. O cenário das aventuras de Arthur e de seus cavaleiros era a Armórica (nome da Bretanha antes do séc. VII) e mais a região compreendida pela Cornualha, por Gales e pela Irlanda.


TÁVOLA   REDONDA



A crônica de Arthur foi cantada por bardos galeses e por diversos outros (Nennius, Monmouth), fixando-se na França pela obra de Wace e principalmente pela de Chrétien de Troyes (1.135-1.183), o criador do romance moderno, centrada esta última no ciclo do Graal. No século XIII, todas estas obras foram colocadas em prosa sob o título de Lancelot em Prosa ou Corpus Lancelot-Graal, compreendendo cinco partes: A História do Santo Graal, A História do Mago Merlin, O Livro de Lancelot do Lago, A Demanda do Santo Graal e A Morte do Rei Arthur. 


  HISTÓRIA  DE  LANCELOT  E  O  SANTO  GRAAL


O Graal ou Santo Graal (gradalis em latim é um prato largo e cavo, uma espécie de terrina, onde se colocam alimentos de forma gradual; em grego, temos krater, que deu a forma latina cratale, cratalis) seria um cálice muito grande, de que Jesus Cristo teria se servido na última ceia com os discípulos e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue e a água provenientes das chagas do
GRAAL
Crucificado quando de sua Paixão. Segundo lendas bretãs medievais, o Graal teria sido levado para a Bretanha e depositado numa capela dentro de um bosque. O tema do Graal está na base de muitas lendas, de acontecimentos maravilhosos, de fatos extraordinários, inspirando os romances do rei Arthur e dos seus cavaleiros.


Como não poderia ser diferente, as versões sobre a história do Graal, produzidas ao longo dos séculos, são muitas e até, às vezes, contraditórias. Mas há algumas, pouco exploradas, que nos parecem interessantes pois, em que pese toda a carga de maravilhoso e de extraordinário presente, nos permitirão encontrar alguns veios históricos pouco explorados. 

JOSÉ  DE  ARIMATEIA
Um deles, por exemplo, tem como ponto de partida o papel de José de Arimateia na história do Graal. Explorando-o, tomamos conhecimento, numa das versões, de que foi ele, Arimateia, quem trouxe o Graal para a Europa. Senador, discípulo secreto de Jesus, rico comerciante, seus negócios estendiam-se por todo o Mediterrâneo, da Palestina à Britânia. Nas novas terras, Arimateia, liderando um grupo, foi aprisionado e libertado tempos depois por um certo Mordrain, que, como diz a lenda, devidamente inspirado por Cristo, passou não só a lhe prestar assistência como construiu um mosteiro para abrigar o Graal. Para guardião da sagrada peça, foi designado Alain, filho de um cunhado de
CASTELO  DE  COBERNIC
Arimateia. Por ter, certa vez, pescado um grande peixe, com o qual pode alimentar toda a família, Alain passou a ser chamado de Rei Pescador, título que, desde então, ligeiramente adaptado (Rico Pescador) passou a ser aplicado a todos os sucessivos guardiões do Graal. Alain levou depois o Graal para o castelo de Corbenic, onde, bem mais tarde, irão procurá-lo os cavaleiros do rei Arthur.



O apelido de pescador, como se sabe, é um título dado a São Pedro, pois, pela sua ação catequética, ao converter os homens, ele os “pescava”, salvando-os da perdição. Os apóstolos de Cristo eram, em grande parte, pescadores de profissão. Além do mais, lembremos que é de um dos títulos de Cristo, em grego, Iesus Christos Theou Uios Soter (Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador), que sai a palavra Ichtus, peixe, em grego, símbolo do Cristianismo.

As versões sobre a história do Graal apontam um número bastante variável com relação aos cavaleiros. Esse número oscila, segundo as versões, entre doze e cento cinquenta. Os cavaleiros de Arthur se empenharão na busca do precioso cálice, que tomará um sentido místico e eucarístico nos romances. Com efeito, o Graal é tanto um símbolo da vida mística como de aspiração à perfeição cristã que leva a Deus. A cavalaria, que antes estivera a serviço do rei ou da dama, de inspiração terrestre, militar, colonizadora, estava agora a serviço do céu, uma cavalaria celeste. 

Dentre os mais hábeis cavaleiros na busca do Graal destacaram-se Lancelot e Perceval. Contudo, por viverem mundanamente, não conquistarão o precioso tesouro. Foi Galahad ou Galaaz, filho de Lancelot do Lago, cavaleiro puro, livre de toda tentação terrestre, que de fato se aproximou do objeto maravilhoso, antes de deixar a terra, contemplando-o num êxtase que representava a felicidade mística. 

Para chegar ao Graal, símbolo da plenitude interior, era preciso, diz a história, ir além de Lancelot ou de Perceval. O Graal equivale ao caldeirão da mitologia celta, que tanto proporcionava de modo inesgotável alimento para o corpo como iluminava interiormente. É uma conquista que não está ligada a ações externas, mundanas, pelas armas, mas, sim, a uma radical transformação interior, do espírito e do coração.


CORNUCÓPIA
Sob o ponto de vista mundano, entretanto, o Graal, pelos poderes que confere, pode ser considerado um talismã, algo assim como a cornucópia criada por Zeus, a lâmpada de Aladin, o anel de Gyges, o capacete da invisibilidade ou as sandálias voadoras que Perseu usou. Tecnicamente, o talismã (do grego, telesma, objeto consagrado), pela sua preparação ritual e natureza mágica, tem relação com poderes, sendo, neste sentido, ativo. Difere do amuleto (do latim, amuletum, protetor, preservativo), de natureza passiva, que protege contra infortúnios e desastres, exercendo uma função apotropaica, afastando os males. Era o caso, entre os antigos gregos, de estatuetas do deus Príapo, colocadas nos pomares e jardins das casas para afastar Phtonos, a Inveja. 

O tema do Graal vem sendo utilizado desde o século XIX também por alguns estudiosos, fora dos fechados circuitos universitários, para defender a tese de que sempre existiu na Inglaterra, institucionalmente, uma Igreja, cuja origem se perdia em tempos muito remotos, anteriores mesmo à chegada do Graal. Tal defesa se baseia numa possível ligação estabelecida entre a Palestina e a Inglaterra. Cristo e o rico José de Arimateia, em segredo, diz a lenda, visitaram o local, onde se localizava a ilha de Avalon do mito celta, lugar em que, mais tarde, se formaria a pequena cidade de Glastonbury, perto de Bristol, a cerca de 150 km. de Londres.

Depois da morte de Cristo, Arimateia, conforme se disse, em companhia de um grupo, conseguiu chegar ao local por ele anteriormente visitado, ali se levantando uma igreja para guardar a preciosa peça. Esta ligação, reativada mais tarde, teria dado origem à Igreja Anglicana, por pressão de emissários que teriam vindo da Terra Santa. Estes emissários, segundo a tese sobre a qual ora discorremos, se fixaram em Glastonbury.          Estas histórias sobre
Glastonbury (onde se realiza nos tempos de hoje talvez o maior festival de música popular da Grã Bretanha) ganharam grande divulgação principalmente a partir do século XIX, tocando corações e mentes, provocando um revival sem precedentes da mitologia celta, como aconteceu, por exemplo, pioneiramente, com William Blake. 




A história do Santo Graal ganha outra dimensão, ampliando-se bastante o seu alcance simbólico, histórico e psicológico, quando estudada à luz da Astrologia (signo de Virgem). É pelas aproximações que podemos fazer entre a lenda do Graal e a Astrologia, que ampliamos o sentido dessa história. A começar por trazer à discussão o problema da sua origem. Uma variante esquecida, mas muito importante, nos coloca diante de um texto que Guyot, poeta provençal da metade do séc. XII, teria encontrado em Toledo, na Espanha, numa biblioteca. Por esse texto, de autoria de um tal de Flegitanus, astrólogo, tomamos conhecimento de que a história do Graal era, como nele está, de origem árabe. O nome Flegitanus provinha, ao que parece, do persa, formado a partir de felehedaneh, palavra que quer dizer astrologia. Não só por esta, mas por outras razões, não será estapafúrdio admitir que a história do Graal tenha sido trazida do Leste para o Ocidente pelos Cavaleiros Templários. 


CAVALEIROS   TEMPLÁRIOS

Se ao que está acima acrescentarmos outras observações de natureza astrológica não será disparatado defender a hipótese de que a história do Graal é, antes da sua cristianização, como ocorreu com relação a muitas lendas medievais, um texto de inspiração astrológica. É a partir de Virgem, signo-recipiente do ego nascido no signo anterior, Leão, que devemos fazer a opção: buscar um caminho evolutivo, indo em direção do terceiro quadrante zodiacal, que se abre com o signo de Libra, ou regredir, ficando à mercê das várias pressões instintivas, representadas pelos signos anteriores (Câncer, Gêmeos, Touro e Áries). A purificação do ego leonino em Virgem pede, para a grande aventura cavaleiresca, que, feitos os votos de Galahad, o homem ideal entre na posse de suas três virtudes: coragem, fidelidade e pureza.


GLASTONBURY  TOR
Ao que está acima, acrescente-se, para justificar a persistência da lenda e as suas ligações com a Astrologia, que recentemente descobriu-se em Glastonbury uma enorme figura zodiacal, traçada em extensa área do solo, nos arredores da cidade, entendendo-se ela até a famosa colina (Glastonbury Tor), onde está porta que dá acesso a Avalon, local de culto de antigas divindades femininas.  

Galahad é filho de Lancelot e de Elaine, filha do Rei Pescador. Seu nome vem do hebraico, galead, testemunho, de onde chega ao latim bíblico, Galaad (Gênesis XXXI, 47-48). Galahad, na história, era descrito como um cavaleiro extremamente delicado, solícito, o que menos tinha a ver com aventuras sexuais. Sua pureza e sua quase que total ingenuidade é que lhe deram fama. Lendas celtas revelam que quando a Távola Redonda foi instituída um lugar foi mantido deliberadamente vazio. Esse lugar era chamado de Siège Dangereux (Assento Perigoso), destinado ao cavaleiro que um dia encontraria o Graal. Este cavaleiro deveria possuir uma inigualável
RAINHA  GUINEVERE
pureza e, para provar seu valor, teria de retirar uma espada de uma pedra onde fôra cravada (este episódio é uma transposição do mesmo acontecimento que encontramos no mito de Teseu, famoso herói grego). Vários cavaleiros do cortejo de Arthur, incluindo Gawain (Gauvain) e Perceval, tentaram em vão retirar a espada. Lancelot, ciente de sua adúltera relação com a rainha Guinevere, para não desvalorizar a prova, declinará de tentá-la. 


Ao chegar a Camelot, Galahad, lançou-se à prova, realizando-a
CAMELOT
com sucesso. É depois deste acontecimento que os cavaleiros vão procurar o Graal, sendo Galahad o primeiro a dele se aproximar, não podendo, por isso, retornar ao mundo dos homens. Sua alma foi transportada por anjos para os céus, para onde também foi o Graal, levado da terra misteriosamente por mãos que das nuvens desceram. 


Através dos séculos, a imagem de Sir Galahad, como a de um cavaleiro cristão puro e ascético, foi suplantada pela de um cavaleiro cortês, um perfeito gentilhomme. Alguns estudiosos que especularam sobre os romances do Graal chegaram a sugerir que isto se deveria provavelmente a uma certa homofonia entre Galahad e a palavra galant em francês ou gallant, graceful em inglês, (galante, gracioso, gentil, valente, garboso). É com este sentido que Galahad “vive” na língua inglesa como um termo que descreve um modelo de cavalheirismo e de cortesia com relação ao sexo oposto, um perfeito gentleman. 

O ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnou, mais do que qualquer outro cavaleiro, se perdeu. O que ele passou a representar no ideário anglo-saxônico está bem longe daquele cavaleiro que era, antes de tudo, o mestre da sua montaria. O cavaleiro que, ao mesmo tempo em que servia a sua religião e o seu rei, que participava das cerimônias da corte ou que poderia se devotar a uma dama, nunca deixava de interiorizar os seus combates. Talvez o que tenha contribuído bastante para esta descaracterização tenham sido as palavras do velho rei Merdrain, ao abraçar o nosso herói: Galahad, preposto divino, lídimo cavaleiro por quem tanto esperei, abraça-me e permite que eu repouse sob tua proteção, a fim de que eu possa morrer entre teus braços; pois tu és virgem e mais puro que qualquer outro cavaleiro, tanto quanto a flor de lis, signo de virgindade, é mais branca que qualquer outra flor. És um lírio de virgindade, és uma rosa ereta, uma flor de boa virtude e da cor do fogo, o fogo do Espírito-Santo que tão bem te ilumina, eis que minha carne, envelhecida e morta, já se sente toda renovada. (A Demanda do Santo Graal). 

BALDER
Galahad é também, sem dúvida, um símbolo que atualiza o grande modelo que é o deus Balder, dos povos nórdicos, num outro contexto. De uma santidade espantosa, Balder é o melhor de todas divindades escandinavo-germânicas, todos o louvam; sua aparência é tão bela que ele se torna luminoso, sendo comparado, por isso, às brancas flores dos campos, como acontece com Galahad. Balder é, dentre todos os deuses, o mais clemente, possuindo todas as virtudes: sabedoria, sensibilidade e bondade. Galahad, como Balder, ignora os vícios, seus pensamentos são sempre sublimes, suas palavras são sempre justas. 

O Cristianismo medieval, de modo especial o praticado pelos cistercienses, que tinha na mais alta conta a Ordem dos Templários, aproximou bastante a figura de Galahad da de Cristo. Chamado pelo nome de O Esperado, ele era uma espécie de Cristo Cavaleiro, pois, além de destruir os ímpios, todos os que sofriam, à sua aproximação, se viam curados, os demônios era afugentados e os encantamentos e sortilégios se desfaziam.


PRÍNCIPE VALENTE
Em 1937, com desenhos de Harold Hal Foster, apareceram nos USA as histórias em quadrinho de um cavaleiro que lembrava muito Galahad. Era o Príncipe Valente. Em 1949, o cinema se apossou de Galahad. Os estúdios da Colúmbia lançaram um seriado com o título de As Aventuras de Sir Galahad, com George Reeves, o Superman dos anos 1950, no papel-título. Em 1954, Henry Hathaway dirigiu O Príncipe Valente, com James Mason (Sir Brack), Robert Wagner (Príncipe Valente) e Janeth Leigh (Aleta), nos papéis principais. Em 1975, aparece na Inglaterra, na criação coletiva do grupo Monty Pyton, Em Busca do Santo Graal. Em 1981, John Boorman, dirigiu Excalibur. O melhor filme até hoje produzido sobre o tema (cavaleiros, matéria bretã, poesia medieval) continua sendo, sem dúvida, Lancelot du Lac,  do genial cineasta francês Robert Bresson. Para ampliar um pouco mais a compreensão do mundo medieval, recomenda-se aqui que, embora não nos falem diretamente de Arthur e de seus cavaleiros, não deixem de ser vistos, em especial, dois grandes filmes: Les Visiteurs du Soir (Os Visitantes da Noite), realizado por Marcel
ANJELICA  HUSTON
Carné, em 1952, com roteiro do grande Jacques Prévert e de Pierre Laroche, com Alain Cuny e Arletty nos papéis principais. O outro é
A Walk with Love and Death, de 1969, dirigido por John Huston, com a juvenil Anjelica Huston no seu primeiro papel no cinema, ao lado de Assi Dayan, falecido em 2014, filho do famoso militar israelense Moshe Dayan.






terça-feira, 24 de junho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO TRABALHO



 
EURISTEU,  CÉRBERO  E  HÉRCULES  
                    
Capturar o cão infernal Cérbero - Filho dos monstruosos Tifon e de Équidna, Cérbero, o cão tricéfalo, cauda de dragão, cheio de serpentes pelo corpo, guardava as portas de entrada do Tártaro, no Hades, onde Plutão e Perséfone viviam no seu palácio.  Cérbero jamais permitia a saída dos que para o Tártaro fossem enviados. A tarefa de Hércules era muito difícil, já que só as almas podiam descer ao reino infernal. Nosso herói, para o cumprimento dessa missão, recebeu, por ordem de Zeus, o auxílio de Hermes, o deus psicopompo. Hermes era a divindade encarregada de transportar as almas para o Hades, reino subterrâneo, para onde elas iam obrigatoriamente, quando do desaparecimento do corpo físico.


O   HADES  

Antes, por sugestão da deusa Palas Athena, Hércules procurou informações sobre o que seria uma catábase infernal, visitando, para tanto, o Santuário de Eleusis. Lá tomou conhecimento de que o Hades era um lugar onde as almas eram julgadas conforme o que tivessem feito os seus donos na sua vida terrena. Um julgamento desfavorável poderia significar a danação eterna para os grandes criminosos e pecadores, como Sísifo e Tântalo, que foram enviados para o Tártaro, o “inferno dos maus”, a região mais profunda do mundo infernal. Ou então poderia significar, se os crimes cometidos não tivessem sido tão graves assim, uma permanência demorada, sofrida, mas provisória, num lugar chamado Érebo. Um julgamento favorável significaria a permanência provisória, isenta de qualquer sofrimento, nos Campos Elíseos, outra região infernal. Nos casos de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elíseos, as almas, depois de beber das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento, poderiam reencarnar.

Sabe-se por Eurípedes e por Isócrates que a iniciação de Hércules
ARISTÓFANES
nos Mistérios de Eleusis era necessária para que ele pudesse cumprir a tarefa que lhe fora determinada, pois os que deles participavam aprendiam a lidar com a morte, aceitando-a como algo natural e não aterrorizante. É de se lembrar que Aristófanes, o comediógrafo, com sua peça As Rãs, usou este episódio da descida de Hércules ao Hades para nos dar um grande trabalho crítico sobre o teatro grego, a tragédia, em especial.

Como Hércules era um estrangeiro (era natural do Peloponeso) e Eleusis ficava perto de Atenas, na Ática, nosso herói teve que ser adotado antes por um ateniense (estrangeiros não podiam participar dos Mistérios), o que de fato ocorreu, e passar por uma purificação por causa da morte dos centauros (sétimo trabalho). Depois dessas providências, sabe-se que a proibição acabou sendo revogada, transformando-se Eleusis num santuário pan-helênico, o que possibilitou que qualquer grego ou mesmo estrangeiros dele pudessem participar. 




Depois dessa iniciação, Hércules em companhia de Hermes, dirigiu-se ao cabo Tênero, na Lacônia, uma das mais conhecidas entradas do Hades na Grécia. Começaram a descer, indo em direção do rio Estige, um dos cinco rios infernais. Estige, etimologicamente o que causa horror, é um rio infernal de águas geladas, sendo enviados para as suas margens as almas dos que haviam cometido principalmente crimes de perjúrio. É de se lembrar que quando da vitória dos deuses olímpicos contra os Gigantes, Zeus, devido à grande colaboração que recebeu de Estige, então a mais velha das oceânidas, lhe concedeu, quando transformada em rio infernal, o privilégio do horkos, ou seja, era em seu nome que os deuses faziam os seus mais solenes juramentos; se os desrespeitassem seriam expulsos do Olímpo, com a ameaça de exílio ou mesmo de uma permanência no Hades. 

HERMES  PSICOPOMPO
As almas que se encontravam às margens do Estige fugiram assustadas, diante da insólita presença de nosso herói. Dali, Hermes conduziu Hércules até o rio Aqueronte, o principal rio infernal, aquele que verdadeiramente dava acesso ao Outro Lado. Tão espantado ficou o barqueiro Caronte que se esqueceu até de pedir o óbolo de praxe, que as almas deviam lhe entregar para poder ter acesso ao palácio dos reis do Inferno. Por causa dessa falta profissional, sabe-se que Caronte passou um ano encarcerado, preso a ferros.

Na ocorrência da morte, a alma (psykhe), desprendendo-se do corpo  físico   (soma),   tomava   a   forma   de   um   eidolon,   uma
NEKYIA
representação que lembrava vagamente o corpo físico. Chamada também de opsis (aparência) ou de skia (sombra), a alma como eidolon conservava de modo latente uma espécie de inteligência que podia ser ativada se os  familiares e amigos do morto procurassem manter a lembrança dele através de determinada cerimônia, regularmente realizada, chamada nekyia, da qual faziam parte sacrifícios e invocações para que fosse possível mantido o devido contacto. Energizadas pelos sacrifícios e invocações, as almas poderiam então falar, geralmente para se queixar e invariavelmente manifestando muito rancor com relação ao mundo dos vivos. 


MAPA   DO   HADES

O rio Aqueronte (etimologicamente, tanto pantanoso, lamacento, como o das dores) era o mais importante do Hades. A ele se juntavam os rios Piriflegetonte (o de chamas sulfurosas) e o Cocito (o dos gritos, uivos). A travessia do Aqueronte era feita por um barco conduzido Caronte, o barqueiro infernal, um dos agentes do Hades, que ia no leme; os remadores eram as próprias almas. Feio, magérrimo, de barba hirsuta, sempre com as vestes sujas, manchadas pelo limo esverdeado das águas do rio, Caronte era uma figura sinistra, muito temida e odiada. 


CARONTE
  
Hércules, ao sair da barca, percebeu duas figuras próximas, a Medusa e Meléagro. Ao tentar golpear a primeira com a sua espada, Hermes o dissuadiu, aquela figura era apenas uma sombra (skia), uma sombra, porém, muito importante pois ela era dona de uma ilha, a chamada Ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte. Nessa ilha ficavam as almas daqueles que não haviam tido sua morte ritualizada, exigência indispensável para que pudessem realmente ingressar no mundo infernal.


ILHA   DOS   MORTOS   ( BÖCKLIN )

MELÉAGRO
Quanto ao outro, disposto também a atacá-lo, Hércules ouviu-o por um momento. Meléagro começou então a contar a sua história ao nosso herói, narrando-lhe os últimos momentos em que passara na terra. Hércules se comoveu tanto que lhe prometeu, quando de seu retorno, desposar Dejanira, sua irmã.  O que mais tocou Hércules foi Meléagro ter-lhe dito que sua irmã, a de nuca delicada, ficara só em casa e que era ignorante das coisas do amor, nada sabia das artes da Afrodite dourada, como enfatizou. 

Prosseguindo na sua caminhada pelo Hades, Hércules encontrou Teseu e Piritoo, o Lápita, aprisionados por Plutão nas famosas "cadeiras do esquecimento", de onde nunca mais deveriam se libertar, pois haviam tentado raptar Perséfone. Hércules, contudo, grande amigo do famoso herói ateniense, o libertou, arrancando-o tão violentamente da cadeira-prisão que pedaços das nádegas de Teseu nela ficam presos. Piritoo, filho de Ixion, o pai dos centauros, foi esquecido e lá permanecerá certamente até o final dos tempos.

O que se conhece desta passagem, como está em Racine, que quem
PERSÉFONE   E   ASCÁLAFO
alimentava esperanças de fazer sexo com Perséfone, a rainha do Hades, era Piritoo e não Teseu.  Mais à frente, Hércules encontrou Ascálafo, filho de uma ninfa do rio Estige e do deus-rio Aqueronte, e também resolveu libertá-lo. Este personagem presenciara o momento em que Plutão-Hades pusera nas mãos de Kore as famosas sementes vermelhas de uma romã, tornando-a fértil. Indiscreto, Ascálafo divulgara o acontecimento, narrando-o de um modo tão debochado que denegrira a pureza da jovem. Deméter o puniu, colocando-o sob um imenso rochedo. Libertado por Hércules, Ascálafo não conseguiu contudo viver sob a sua antiga forma. Deméter imediatamente o transformou numa coruja, substituindo um castigo por outro.

Em seguida, muito sensibilizado pelas multidões de almas que encontrou vagando às margens dos rios infernais, Hércules tentou fazer alguns sacrifícios sangrentos com animais do grande rebanho do deus dos infernos com o objetivo de energizá-las um pouco, dando-lhes alguma vida. Menetes, funcionário do Hades, que cuidava dos animais, ao tentar impedir a ação do nosso herói, foi ameaçado de morte por ele. Foi nesse momento que Perséfone, aparecendo e reconhecendo Hércules como seu irmão (eram ambos filhos de Zeus), o informou que seu marido estava pronto para recebê-lo.

HÉRCULES   E   CÉRBERO
Exposta a razão do trabalho, Plutão consentiu que Hércules levasse Cérbero à presença de Euristeu, desde que conseguisse vencê-lo numa luta em que não usasse armas metálicas, inclusive escudos de qualquer natureza. Para se proteger, Hércules pôs sobre os seus ombros e cabeça a pele do leão que costumava usar e muniu-se de algumas pedras pontudas. Atracando-se com o monstro, depois de terrível luta, conseguiu subjugá-lo, amarrando-o com grossas cordas que levara consigo. Afastando-se rapidamente do mundo infernal com a sua presa às costas, Hércules, com enorme esforço, guiado por Hermes, conseguiu chegar finalmente a Micenas. Vendo o monstruoso animal, Euristeu se assustou tanto que imediatamente ordenou ao nosso herói que o levasse até uma das muitas entradas do Hades e que o libertasse para que o monstro pudesse voltar a seu amo.

Os gregos sempre consideraram o acônito, planta venenosa, como infernal, nascida da baba de Cérbero, segundo uma versão. A deusa triforme Hécate, como contado por vários mitógrafos, possuía em seu jardim, no Hades, uma grande plantação desse vegetal, usado na feitiçaria e na magia negra. Muito tóxico, o acônito, extraído da planta, era chamado entre os romanos de “Carro de Vênus” ou de
ACÔNITO
“Capacete de Júpiter” porque, suas flores, invertidas, no primeiro caso, pareciam com um carro puxado por duas pombas ou, no segundo caso, como uma espécie de protetor da cabeça. Era muito usado, desde a mais remota antiguidade, para afastar vampiros e lobisomens, sendo, segundo a tradição, remédio infalível para curar a licantropia. Desde esses antigos tempos, o acônito sempre foi usado para combater a ansiedade, o cansaço, a fadiga, quando apresentam aspectos depressivos.



CAPRICÓRNIO

O décimo trabalho de Hércules tem a ver com Capricórnio, o décimo signo na ordem zodiacal. Este signo, como se sabe, é cardinal e do elemento terra. Astrologicamente, Capricórnio lembra ascensão, conquistas materiais, elevação. Ideias que representam a possibilidade máxima das conquistas materiais. Como tal, é um signo ligado ao zênite mundano. Os capricornianos positivos estão bem qualificados para assumir responsabilidades em empreendimentos de natureza prática, tanto os relacionados com a vida privada ou com a vida pública. Conceitos de ambição, de aspiração, de realização são comuns nos do signo, aliando-se a eles grande persistência, obstinação. Os capricornianos não são imediatistas e, de um modo geral, preferem trabalhar com metas de médio para longo prazo e procuram dar consistência e solidez ao que produzem.




As três cabeças de Cérbero simbolizam astrologicamente o triângulo formado pelos três signos zodiacais do elemento terra, Touro, Virgem e Capricórnio. O elemento terra representa o concreto, o sólido, o tangível e, por extensão, a vida material. Ou seja: ocupado com as pressões do ter, do possuir (Touro) e de, através das conquistas materiais, chegar ao topo da montanha (Capricórnio), muitos homens organizam as suas vidas nesse  sentido, montando uma agenda voltada exclusivamente para esse fim (Virgem).

Este foco na ascensão material costuma eliminar tudo o mais, família, filhos, divertimentos, amigos. Se aberto um espaço para eles, serão para a “conquista da montanha”. Uma festa familiar, por exemplo, será organizada com essa finalidade: convidar pessoas que poderão ser úteis, abrir algumas portas, favorecer de algum modo tal objetivo. A vida social, clubes, academias de ginástica etc.,tudo caminhará também nessa direção: frequentá-los para estabelecer relações “certas”, que possam facilitar a "subida da montanha".  

Esta terceira cabeça, relacionada com o signo de Virgem, costuma representar também tudo aquilo que deveria ter sido feito e que não foi para que a vida fosse orientada numa outra direção: nela estão as mudanças que não aconteceram, os hábitos que se instalaram tiranicamente, as purificações e depurações que não foram feitas, o cuidado corporal protelado, os espaços que não foram abertos no dia-a-dia para divertimentos saudáveis, para uma melhor convivência familiar etc. No lugar, como atitude dominante, sempre uma absurda ênfase em justificativas que falam de “dever cumprido”, o apego às tarefas difíceis, trabalhosas, ingratas ou penosas, a pretensão de satisfazê-las, a prioridade absoluta para tudo que signifique segurança material e, com ela, o reconhecimento social pelos resultados obtidos, a conquista do topo da montanha.

Uma das grandes debilidades de Capricórnio está, com frequência, numa natureza exageradamente séria e taciturna. Tal atitude
SATURNO
costuma gerar muita desconfiança, o que leva muitos que têm que conviver com capricornianos a achá-los, ainda que não o sejam, controladores, manipuladores, frios, calculistas. O planeta de Capricórnio é Saturno, que governa o princípio da cristalização. Este planeta tanto pode fazer dos capricornianos seres disciplinados, obstinados, metódicos e persistentes, como pode lhes proporcionar uma natureza excessivamente contida, tradicionalista, apegada aos valores do passado.

Vários temas se destacam neste trabalho. O tema da descida, da catábase, é o da morte simbólica, já prefigurada na passagem dos Mistérios de Eleusis. Ir ao Hades, lugar onde só entramos sem o corpo físico. Ou seja, aprender a nos livrarmos da forma, das prisões materiais, representadas pelas três cabeças do monstro. Não mais colocar a nossa consciência no material, nos desejos, no corpo físico. Usá-lo, mas a ele não nos prendermos. O centro (a cabeça central, Capricórnio) tem que estar mais acima, num plano que esteja acima da forma. Descer ao Hades é, pois, o início da subida da montanha.  

É neste sentido que Capricórnio deve representar um tipo de
SIGNO   DE   CAPRICÓRNIO
iniciação superior através da qual começamos o ciclo das realizações impessoais (Hércules se sensibilizando com os seres abúlicos que encontrou, com as almas penadas que perambulavam perdidas pelo Hades, muitas "vivendo" na ilha dos Mortos. A ideia de serviço, de consciência grupal "nasce" aqui, se se considerar que o signo de Capricórnio abre o último quadrante  zodiacal, que corresponde ao coletivo, à humanidade como um todo, com relação aos anteriores: o primeiro representa o individual, o segundo o familiar e o terceiro o social, um nos preparando para aceder ao outro. A partir de Capricórnio temos simbolicamente que aprender a nos “desmaterializar”. É por esta razão, por exemplos, que os hindus dão o nome de moksha a esta última etapa, palavra que tem o sentido de desatar nós, romper ligações.  

Três virtudes são requeridas quando pensamos em Capricórnio, conscientemente: silêncio, solidão e trabalho. Neste sentido, Capricórnio   é   um   signo   triste,   de  desapego,  de vida superior,
impessoal. Por isso, desapego de tudo o que é pessoal, pela expansão do pessoal (minha casa, minha família, meus bens, minha posição mundana etc) em direção de outros níveis, que podemos chamar de espirituais. Ao contrário, usar tudo isto, todos os valores materiais como um meio de saída, tornar-se mais leve, de modo a entender que o centro está mais acima. É neste sentido que em todas as tradições as montanhas são sacralizadas, o alto das montanhas, as acrópoles, como símbolos de saída para níveis de vida superior. Em Capricórnio termina o social e começa o coletivo, surge a noção de humanidade

Basicamente,  três  são  os  tipos  capricornianos:  o  defensivo,  o
aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo Crocodilo, pela Cabra e pelo Licorne. Animal de enorme bocarra, o crocodilo é usado para representar o período do ano em que o Sol é engolido pelas trevas, o inverno. Jamais ousando, prisioneiro do poder dos mais velhos, o capricorniano deste primeiro nível vive neste cenário: obediente, precavido em demasia, exageradamente metódico, tradicionalista, respeitador, não consegue empreender nada. É, como tal, um servidor, tornando-se geralmente vítima dos complexos de Cronos ou de Isaac. Pode ser representado também pelo chumbo, o ponto mais baixo a que se pode descer simbolicamente no processo de materialização. O chumbo, como sabemos, inibe qualquer tipo de mudança. Os hindus, com razão, dão o nome de Makara ao signo de Capricórnio, o primeiro mês do inverno, quando a luz solar é “engolida” pelas trevas hibernais, simbolizadas pela imensa bocarra desse animal.


O tipo aspirativo é representado pela cabra montanhesa, animal que procura  viver  nas  alturas.   Sem  os  exageros  do  primeiro tipo, disciplinado, perfeitamente centrado na caminhada aspirativa, muitos capricornianos do tipo “cabra montanhesa” podem se tornar grandes realizadores, até grandes construtores de impérios materiais. Stalin, Adenauer, Mao-Tse-Tung, Amador Aguiar
RICHARD   NIXON
(fundador de um império bancário no Brasil) são bons exemplos. Um exemplo bastante malogrado deste segundo tipo é o presidente Richard Nixon. Foi para o topo da montanha, mas, por não calcular bem os seus “pulos”, levou um tombo mortal.

O capricorniano de terceiro nível, representado pelo Licorne (o Leão de Chifre) é aquele que entende que em Capricórnio o poder de se criar materialmente termina. Como tal, para este tipo, Capricórnio será um signo de saída para o coletivo, para o transpessoal (Aquário). É aqui que ocorre a chamada transfiguração (transformação, metamorfose, mudança na maneira de pensar, de sentir, de proceder, do material para o espiritual). Se não ocorrer essa transfiguração, teremos a crucificação, a prisão na materialidade, o eu (Sol) inteiramente engolido pela vida material, pelas as três cabeças de Cérbero. Lembremos que na Alquimia a crucificação (crucifixio) e a mortificação (mortificatio) são praticamente equivalentes. 

Em todos estes exemplos, a montanha, uma das grandes imagens do signo, sempre apareceu simbolicamente como proposta de elevação, participando de ideais de transcendência enquanto lugar de teofanias, de hierofanias. É o lugar onde a terra e o céu se aproximam mais, lugar onde o divino é reverenciado e, ao mesmo, nele temos o fim das possibilidades aspirativas do ser humano.

A origem deste animal mítico, o Licorne, tem relação com a penetração da matéria pelo divino, que o chifre representa. É o tema do leão (lyon) de chifre (cornu),  sendo o chifre entendido como abundância espiritual e não material, ou seja, a espiritualização da matéria.  Não esquecer que o número de Leão é cinco e o de Capricórnio é dez, um duplo leão, portanto. O eu racional (Leão) se transforma em eu espiritual (Licorne) a partir de Capricórnio.


Uma explicação sobre o licorne: no século XII, ocorreu no ocidente uma transformação dos cavaleiros europeus, de guerreiros andantes em aristocratas rurais. O leão, que sempre aparecera simbolicamente associado ao poder, desde a antiguidade, sendo usado para representar deuses, reis, heróis e chefes militares, sofreu uma espécie de capitis diminutio. Sua imagem foi suavizada, espiritualizada. Surge o licorne, palavra que se decompõe em lyon e cornu, o leão de chifre. O simbolismo do chifre, ao mesmo tempo que encerra um sentido de poder, traz consigo ideias  de elevação, de eminência, de espiritualização (veja neste blog, no e-book, Exercícios de Leitura, a matéria “Os Chifres”, pag. 92, para melhores explicações).  

Historicamente, como sabemos, foi na virada do séc. XII para o séc. XIII, período em que alguns situam o primeiro Renascimento, que o amor se torna cortês e que a coleção de contos tendo como personagens o rei Artur e os Cavaleiros da Távora Redonda representou a expressão maior da cavalaria romântica e espiritualizada (busca do Santo Graal). Foi por essa época também que o românico deu lugar ao gótico e que os cultos marianos passaram a receber grande impulso, redefinindo-se os papéis da mulher na sociedade medieval.

NOTRE  DAME  DE  PARIS
A catedral de Notre Dame, em Paris, é um exemplo do que está acima: ela era não só uma invocação à Virgem, mas uma exaltação que se lhe fazia com a sua ornamentação. Maria foi retratada não só como Mãe de Deus, mas como Rainha do Céu e Advogada dos pecadores, tornando-se o próprio símbolo da Igreja. Um dos mais belos monumentos artísticos à glorificação do feminino é, nesse sentido, a catedral de Chartres, na qual a importância de Maria equivale à de Jesus.



NOTRE   DAME  -  CHARTRES

Foi em algum ponto na virada dos mencionados séculos que, por influência da Igreja Católica, certamente, a palavra  licorne começou a ser usada (indevidamente) para designar um símbolo do poder feminino que vinha de longe, encontrado em várias tradições, um pequeno cavalo unicornudo, que uma virgem acariciava, como imagem da pureza e da sublimação da vida carnal. Uma das mais conhecidas alegorias medievais do que estas figuras representam, com várias possibilidades interpretativas, é o conjunto de seis tapeçarias, do séc. XVI, La Dame à la Licorne (em português, A Dama e o Unicórnio), exposto no Museu de Cluny, em Paris. Numa das peças, vemos o leão (sem chifre) e o unicórnio, como imagem da união do princípio masculino (o leão, o noivo) e o princípio feminino (o unicórnio, a noiva) sob a tutela da Santa Madre Igreja (a Virgem).     


LA   DAME   À   LA   LICORNE  -  TAPEÇARIA

Em Capricórnio temos a desmaterialização daquilo que começou
VESTIMENTA   SUFI
em Câncer. Libertação da matéria, o poder da Lua, mãe das formas, termina. Daí as grandes virtude do signo, frugalidade, ascetismo, concentração. O emblema desta destas virtudes na vida ascética é o cilício, tecido feito com lã de cabra que os Sufis usam. Na Homeopatia, é a Calcárea carbônica, remédio das crianças "velhas", que se dá para o raquitismo, para os que têm falta de confiança, para os que custam a andar, para os debilitados, deprimidos.

Lutar, pois, contra a matéria que nos "prende", desmaterializarmo-
MORTIFICÁCIO : CINTO   DE  CILÍCIO
nos como disse. Penitência, mortificações, se necessário, para libertar a alma. A cabra, como símbolo aspirativo, pode chegar às alturas. Mas as alturas da cabra, como exemplificado,, são sempre perigosas, a rondá-las sempre uma ideia de imprevisibilidade, de capricho (palavra que vem de capris, cabra), tanto em razão de um salto mal calculado (o tombo é quase sempre mortal) como devido à própria imprevisibilidade do clima nas alturas. 

Capricórnio é assim um signo de conclusão. Não podemos ir além dele, impossível o progresso sob o ponto de vista formal. Temos que escolher os nossos meios de elevação. Primeiro, evitar distrações, trabalhar com seriedade, lucidez, inteligência, realismo, sem pieguices. Depois, concentração no mais significativo, sacrifício do supérfluo, silêncio. A misantropia e a misoginia  são perigos  do signo.  Lugares solitários, retiros e vida austera são muitas vezes procurados. No mais, ideias de firmar bases sólidas, de pedras assentadas, não afetadas pelo tempo. 

Dominadas as cabeças de Cérbero, surgirão outros valores, o altruísmo no signo seguinte (Aquário) e a doação desinteressada no último deles (Peixes). Desprendimento e desapego. Nada de futilidades, de leviandade, de irresponsabilidade. Linha dura, autocensura, humildade, "ajoelhar-se" para subir a montanha. Nada de descontroles emocionais, de caprichos, de den guices (Lua exilada), nada de descomedimentos, nem se acomodar à tentação de herdar posições por “razões de sangue” (Júpiter em queda). Observar Vênus, invariavelmente mal em Capricórnio: cuidado para não unir amor e alpinismo social ou ter medo de amar para não dividir; conflitos entre ambição, poder, cálculo e vida afetiva. Cuidados com a diminuição dos interesses afetivos, com a distância da vida instintiva (Marte), já que há a propensão de amortecimento de impulsos vitais importantes em nome de um sistema de segurança que procura organizar e consolidar posições. Fleugma, indiferença e insensibilidade podem aparecer. O que se perde em calor, elã vital, pode ser compensado (?) pela calma, pelo autodomínio, pela constância. Nem sempre contudo será possível manter o mundo à distância. 

De outro ângulo, podemos vislumbrar dois tipos básicos em Capricórnio, o material e o imaterial. O primeiro lembra muitas dificuldades afetivas. Não podendo amar o mundo, procura dominá-lo, colocando-o a seu serviço. Busca de elevação, posições eminentes; cálculo, frieza, caráter determinado, senso político, visão de futuro, calculista. Regras, regulamentos, controle, obediência, proeminência. Nos inferiores, cinismo, insensibilidade, manipulação, desconfiança, aspereza, castração. Bom administrador, assume tudo, inclusive a vida dos outros. São os solitários nas alturas montanhosas.. O segundo tipo é despojado, procura a renuncia ao material, nada de realizações mundanas (Saint Simon); serenidade, frugalidade (Proudhon, opção pela pobreza), desprezo pela ambição temporal, a vida como protesto contra os bens do mundo. Alguns costumam separar-se, isolando-se, buscando "picos" mais altos. Nos inferiores, desprezo, isolamento, melancolia, anulação da vida instintiva, pele e osso, predomínio total das virtudes frias.

Fisicamente, em Capricórnio, temos o corpo resistente, rugas precoces (Saturno é pele e osso), problemas cutâneos, cabelos precocemente embranquecidos, reumatismos, problemas nas articulações, joelhos, artrite, osteoporose, males do frio, lesões ósseas, deformações, luxações, anciloses, paralisias, problemas com o regime do cálcio, ossos em geral, dentes, unhas (paratireoide), dermatoses etc.

Fazem parte da galeria capricorniana, pelo Sol ou pelo Ascendente,dentre outros: Cézanne, Rodin, Adenauer, Bach, Tolstoi, Gavino Leda (veja o filme Pai, Patrão),  Savanarola,  Simone Weil, André Malraux, Montesquieu,  Pablo Casals, Johann Keppler,  Simone de Beauvoir,  Richard Nixon, Schopenhauer, Molière, Anton Tchekov, Edgar Allan Poe...

Quanto à origem da constelação de Capricórnio, temos que  ir ao mito do deus Pan. Ele era filho do deus Hermes e da mortal Dríope. Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, teriomorfo, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial o deus Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois nele viram que um filho de Hermes, deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada. 

Seu corpo era peludo, possuindo ele no lugar de pés cascos e chifres como os de bode e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, sempre à procura de ninfas para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Primitivamente, foi reverenciado como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nele se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc. 

 A aparição de Pan provocava o pânico, um  terror  inexplicável,
PAN
paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na sua ira; eram por ele atacados, inspirando-lhe o deus o pânico. Consta que na batalha de Maratona, atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene, a Lua, e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimento mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era Tifon um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, os deuses gregos fugiram espavoridos, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que Pan ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, pai e filho, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina. Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a
MONTE   ETNA
se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, a batalha foi terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Pelos seus múltiplos aspectos, é de Pã, no mundo grego, que parte a ideia que vai invadir a filosofia, ideia que acabou por constituir a doutrina que tomou o nome de panteísmo. Esta doutrina, como sabemos, na filosofia grega, é de inspiração da corrente estoica, para a qual a força vital imanente ao mundo se confunde com a própria divindade. Spinoza a retomará, sintetizando-a na frase Deus sive Natura, o mesmo fazendo Hegel, que descreve a realização divina não só através da história humana como através do que
NOVALIS
chama de “dialética da natureza.” Lembremos que todo o romantismo filosófico do final do séc. XVIII e início do XIX na Alemanha (Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling) foi profundamente afetado por estas ideias. A teologia cristã moderna (veja inclusive a condenação de Spinoza pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. O panteísmo evoca a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, ideia que encontra a sua melhor formulação no Brahman dos hindus.


Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o
QUADRANTES   ASTROLÓGICOS
meio-do-céu, o setor astrológico que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo material. Esta influência, para a maioria, só tomará o caminho da vida material (cabra montanhesa), para outros, uma significativa minoria, ela unirá o material e o espiritual (licorne). Para chegar a esse ponto da montanha, temos que ter vivido conscientemente os quadrantes anteriores, desde o primeiro e o segundo, onde temos os nossos talentos individuais e a contribuição familiar, passando pelo terceiro, no qual encontramos aqueles com quem nos associamos e deles recebemos ou não colaboração e recursos. A partir de Capricórnio é que o Todo, isto é, Pan, poderá se abrir para nós. No quarto quadrante, que termina pelo signo da sabedoria, Peixes, é que, conforme o aprendizado do terceiro, sobretudo, conquistaremos efetivamente a nossa liberdade, cuja característica mais marcante nesta última etapa está na liberdade de assumir deveres e responsabilidades que independem de retribuição ou reconhecimento. È no último quadrante zodiacal que podemos trabalhar com conceitos de altruísmo, fraternidade, humanitarismo.

A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que o racional, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente quando pensamos em vida digna. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo que se transformam em servidores da humanidade. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que além dos poderes superiores, representado pelo pico das montanhas, há uma autoridade mais alta,  uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido.

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muitos conhecidos pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.