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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

AQUÁRIO (5)


CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO
     
Uma das figuras mitológicas mais ligada aos impulsos aquarianos de desafio, de rebeldia, de fraternidade, de vida comunitária é a do titã Prometeu, filho de Jápeto (lançar, arremessar) e de Clímene (a que atende, a que ouve com simpatia), oceânida, sendo ele neto, pelo lado paterno, de Geia e de Urano. É Prometeu (o que sabe antes, por antecipação), sem dúvida, entretanto, um dos personagens mais ambíguos, contraditórios e paradoxais da mitologia grega. Num momento, coloca-se em guerra aberta contra Zeus, a autoridade suprema, noutro procura se compor com ele em nome de um utópico projeto político, o da salvação da humanidade. 

O nome Prometeu, lembro, admite uma outra etimologia em grego; ele é o hábil, o que sabe fazer e se conduzir, como, aliás um dos componentes de seu nome sugere. Com efeito, o nome Prometeu
MÉTIS , CERÂMICA GREGA
admite dentro dele a palavra metis, conceito que os gregos divinizaram ao criar uma deusa, Métis, tornando-a dona do arquétipo, desse padrão de comportamento. Na palavra grega metis reúnem-se ideias de habilidade, esperteza, sutileza, juízo previsor, pensamento precavido, qualidades e virtudes que nosso herói possuía, sem dúvida, mas que, por razões “inexplicáveis”, como um bom exemplo da incongruência aquariana que era, as ignorava muitas vezes, como se não as possuísse. 

Prometeu era recriminado pelo fato de nunca se ter definido claramente por um lado na guerra entre titãs e olímpicos, ora parecendo alinhar-se com os primeiros, ora com os outros. Sua independência de espírito, seu constante esforço no sentido de buscar a objetividade, seu apego à ideia de liberdade parecem ser os responsáveis por sua espantosa “versatilidade”, por suas flutuações e vacilações, tão típicas de pessoas do elemento ar.

MOSAICO   ROMANO,
( TRÉVERIS , ALEMANHA )
Para o fim a que me proponho, aproximar o mito da astrologia, acredito ser útil ouvir duas figuras da literatura grega que sobre ele falaram, Hesíodo e Ésquilo. Para o primeiro, o titã era um amigo dos homens (Filantropíssimo, o seu apelido), um salvador, pois Zeus sempre desejara destruir a raça humana, criada durante a dinastia de seu pai, Cronos. Uma raça indigna, na qual não se podia confiar, constituída por seres ignorantes, boçais, “seres rastejantes”, como dizia Zeus, que viviam pregados ao solo, comendo poeira, alimentando-se de coisas putrescíveis. Essa destruição veio, primeiro, por uma proibição: os humanos não mais poderiam usar o fogo, elemento que controlavam muito precariamente. Com a perda do elemento ígneo, regrediriam eles à vida animal, passando certamente a viver refugiados no fundo das cavernas ou empoleirados no alto das árvores, prisioneiros dos seus terrores noturnos. 


PROMETEU ROUBA O FOGO
(JAN COSSIERS , 1600-1671)
Prometeu, como se sabe, interveio, assumindo as dores e sofrimentos do triste destino a que Zeus queria impor aos humanos. Roubou um pouco do fogo solar do deus Hélio, trazendo-o dos céus para a Terra, escondido no galho oco de uma figueira, a árvore do fogo. Por esse crime, o titã, depois de muitas discussões, será punido pelo senhor do Olimpo. Agrilhoado nas montanhas do Cáucaso, seu fígado era destruído durante o dia pelas bicadas de um monstruoso abutre enviado por Zeus, recompondo-se o órgão durante a noite e assim sucessivamente. Depois de muito tempo, séculos e séculos, será Prometeu enfim libertado por Hércules e se reconciliará com os olímpicos. 

Zeus, como o mito nos dá conta, acabará permitindo que os humanos passem a usar o fogo. Pune-os, contudo, através de
PANDORA  E  EPIMETEU
Pandora, a dotada por todos os deuses, arquétipo mítico da mulher, que Zeus faz descer dos céus à terra, trazida por Hermes, para provocar a divisão entre os sexos, divisão até então inexistente. Ao descer, Pandora trazia nas mãos uma jarra, na qual os deuses haviam encerrado todos os males que doravante infernizariam a vida dos humanos. Quando Pandora chegou, Prometeu estava ausente. Quem a recebeu foi seu irmão Epimeteu (o que sabe sempre depois). Encantado e seduzido por Pandora, antecipando o que Eva faria com Adão como está no texto bíblico, ambos, de comum acordo, destamparam a jarra, liberando todos os males que desde então infelicitam o gênero humano, males representados pelas divindades que viviam na antecâmara do Hades, no Bosque de Perséfone. Assolam a Terra e a humanidade, assim, desde esse fatídico dia, monstros como Algos (Dor), Geras (Velhice), Eris (Discórdia), Ftonos (Inveja), Limós (Fome), Ate (Erro), Lyssa (Fúria), Penia (Pobreza), Penthe (Luto), Apate (Fraude), Strophe (Chicana) e outros mais. 


ELPIS
Com os malefícios acima citados, veio também na jarra de Pandora uma entidade que, à primeira vista, muito benéfica, contrariamente às demais, revelou-se logo, em bem pouco tempo, como talvez a mais deletéria de todas. Refiro-me a Elpis (Esperança), espectro terrível, revestido de uma falsa aura benfeitora, que trouxe um dos grandes males que afligiriam a humanidade desde então. O mito nos conta que Epimeteu e Pandora, ao perceber que as entidades infernais escapavam da jarra aberta afoitamente, conseguiram fechá-la, retendo apenas uma, a chamada Elpis. Ao conservá-la como um “valor positivo”, os humanos, como logo se viu, “perderam” o presente, isto é, deixaram de vivê-lo, para se projetar em direção do futuro, expectantes e frustrados sempre, como a experiência e a história da humanidade sempre demonstraram. Uma das consequências mais danosas decorrente da conservação de Elpis foi a perda da dimensão física do presente por grande parte da humanidade, que passou a viver tão somente em termos de projeções mentais, construindo mapas de territórios inexistentes. Elaborações puramente mentais, sendo um de seus melhores exemplos o tema filosófico da utopia, palavra que, etimologicamente, significa não estar em lugar nenhum.


Como se sabe, Utopia foi o nome dado pelo inglês Thomas Morus  ao país imaginário que ele descreve numa obra de mesmo titulo, um país no qual vivia um povo perfeitamente sábio, poderoso e feliz, graças às suas instituições ideais. O tema, como se constata, tem forte acento aquariano, como aliás as têm produções semelhantes da literatura filosófica produzida ao longo dos anos, obras como Pantagruel e Gargantua, de  François Rabelais (1483-1553); La Città del Sole,  de Tommaso Campanella (1568-1639); La Salente, descrita em Télémaque 1651-1715), de Fénélon; Le Voyage en Icarie, de Étienne Cabet (1788-1856). Ainda dentro deste enfoque pode ser consultada, sempre com grande interesse e prazer, a obra Guide de Nulle Part & D´Ailleurs à l´usage du voyageur intrépide en maints lieux imaginaires de la littérature universelle, de autoria de Gianni Guadalupi e de Alberto Manguel, já traduzida para o português (de modo não completo).

Uma das versões do mito de Prometeu nos relata que inicialmente alinhado com os titãs ele foi por eles desprezado devido às suas atitudes simpáticas para com os humanos, criaturas criadas no reino de Cronos. Bandeando-se para o lado dos olímpicos, não demorou muito para mudar de lado novamente, assumindo a posição de grande protetor dos humanos diante das intenções de Zeus, que queria destruí-los. Uma incoerência, sem dúvida, um traço comum na personalidade de muitos aquarianos, como já disse, que não conseguem harmonizar as suas motivações afetivas com os seus mecanismos mentais. Esta a razão talvez pela qual muitos aquarianos estão "tão presentes quando tão ausentes e tão ausentes quando muito presentes".


PROMETEU ACORRENTADO   ( P.P. RUBENS, 1577 - 1640 )


HEFESTO
(G. COUSTOU, 1677-1746)
A prisão de Prometeu aos rochedos, determinada por Zeus, por Hefesto, Crato e Bia, a sua imobilização, constitui um castigo exemplar para qualquer aquariano. Com efeito, mesmo nos tipos menos conscientes do signo qualquer ameaça de cerceamento, de impedimento na liberdade de ir a e vir, qualquer limitação física ou mental, qualquer ideia de contenção pode se constituir numa tortura insuportável.

Ao trazer o fogo de natureza divina dos céus para terra a fim de entregá-lo aos humanos, Prometeu, diz-nos uma versão, estava tentando fazer com que eles recuperassem um dom que haviam recebido quando criados, no reino de Cronos, o do conhecimento do futuro. Tal privilégio havia sido revogado por Zeus, que, como vimos, queria exterminá-los. Uma hipótese para a tendência que muitos aquarianos apresentam, a de “querer” conhecer o futuro, a de desejar antecipá-lo, talvez, quem sabe, possa ser explicada por esse episódio.


HÉRCULES  E  PROMETEU
O mito do titã Prometeu nos conta ademais que ele possuía um segredo. Ele sabia que um filho que Tétis, a mais bela de todas as nereidas, tivesse com Zeus ou Poseidon, que a cortejavam, destruiria o pai. Para uns, a libertação de Prometeu foi negociada, quando o titã se prontificou a revelar tal segredo. Uma outra versão registra que a libertação de Prometeu ocorreu por intervenção de Hércules, quando matou o abutre que o agredia, ao retornar de uma viagem ao oriente quando do seu terceiro trabalho. 


GILGAMÉS  E  ENKIDU
Uma terceira versão nos permite aproximar a história de Prometeu da epopeia de Gilgamés. Conta-se nesta versão que inicialmente não havia o sexo feminino. Os humanos, todos machos, se viravam sexualmente entre si ou, como o fazia Enkidu, no mito mesopotâmico, com gazelas e cabras. Devido à petulância de Prometeu, os deuses resolveram punir os humanos, criando Pandora, irresistivelmente bela, mas curiosa, cheia de defeitos, tipicamente femininos segundos os deuses, um ser fatal para os protegidos de Prometeu. Com isso, instalou-se a divisão, machos e fêmeas, homens e mulheres separados para sempre, aqueles eternamente em busca de uma integração perdida através destas últimas, complementares, mas vivendo como opostos.

Foi Epimeteu, que não tinha o dom da profecia, como o irmão, aquele que recebeu a mulher, acolhendo-a, embora advertido para não aceitar nenhum presente dos deuses. Ele e Pandora,  como vimos, retiveram Elpis no fundo da jarra, tão imprudentemente aberta por eles. Muitos poetas, voltando-se em particular para este acontecimento, vêem Elpis como um bem infinitamente precioso. Graças a ele, apesar de tudo, de todas os sofrimentos, desgraças e misérias a que continuamente são submetidos, os humanos jamais perderam o gosto de viver. É neste sentido que Elpis faz parte da história da humanidade já que são os aquarianos os encarregados de nos fazer acreditar em dias melhores, em invenções científicas estimulantes e utopias maravilhosas. 

Epimeteu, o que sabe depois, o seduzido, assumirá a grandiosa tarefa de pôr em andamento os sonhos aquarianos, gerando, com Pandora, Pirra, a vermelha, que se unirá a Deucalião, seu primo, filho de Prometeu e de Clímene, oceânida. Deucalião será o grande ancestral dos helenos. Juntos eles salvarão a humanidade quando do dilúvio enviado por Zeus. Achando-os dignos, Zeus os preservará. Salvar-se-ão numa arca, na qual guardaram seus bens e animais. Terminada a tormenta, ancorada a arca no topo do monte Parnaso, ambos participarão da criação de novos seres humanos. 

DEUCALIÃO   E   PIRRA  ( VIRGIL SOLIS , 1514 - 1562 )

Receberam Pirra e Deucalião ordens de lançar às suas costas as pedras que encontrassem; as atiradas por Deucalião transformaram-se em homens e as atiradas por Pirra em mulheres. Os descendentes de Prometeu vêm perpetuando, apesar de tudo, a estranha vontade e para muitos a incompreensível determinação de, a todo custo, com enormes sacrifícios, preservar a humanidade das malévolas intenções divinas. 

Serão os filhos diretos de Prometeu, os aquarianos superiores, aqueles que conduzirão a humanidade para uma nova era, onde ideias tão retrógradas e incômodas como as de divindade, diabo, seres superiores, pecado e culpa etc. serão abandonadas. A humanidade, iluminada pelas propostas aquarianas, compreenderá enfim que aquilo que vem realmente em seu auxílio são as qualidades com as quais cada um de seus membros pode e deve contar. Os homens deixarão assim de representar as suas qualidades superiores por divindades, que idealizam, afastando de sua vida tanto tormento, tanta angústia, tanta impotência, tanta inibição... 

Por isso, encaminhando-se o Sol para o seu exílio na futura era de Aquário, a sua viagem noturna de 2160 anos, os deuses serão letra morta no ideário religioso da humanidade futura bem como toda a simbologia construída a partir dele. Na sequência das idades da mitologia grega (cosmogonia, esquizogenia, autogenia) chegaremos à quarta, aquela em que o homem assumirá o controle do universo. Encerrado no sistema solar há milhões de anos, o homem   já o vasculha em várias direções, preparando-se, como vem dando provas, para desbravar a galáxia, da qual o nosso sistema solar é uma ínfima parte. Depois de Urano (Céu) Cronos (Terra) e Zeus (Espírito), o Homem assumirá o comando da quarta idade, a da Autogamia. Circunscrito à botânica, este nome ganhará uma leitura nova na era que se aproxima. Seu significado se ampliará, do vegetal ao animal (humano). Através da homogamia, a maturação simultânea do androceu e do gineceu de uma mesma flor, chega-se à autogamia (autopolinização) embora não se exclua a alogamia. Transpostas estas ideias para o mundo humano, resolver-se-ão inclusive algumas contradições e confusões homo e heterossexuais presentes nestes séculos finais da era de Peixes.



AUSONIUS
É de se lembrar que os romanos e gauleses (o poeta Ausonius, séc.IV dC e Vercingetorix, inimigo de Júlio Cesar, chefe dos gauleses) registram a constelação. O primeiro lhe deu o nome de Amphora. O outro mandou cunhar moedas onde ela aparecia com o nome de Diota, uma jarra com duas alças. Em muitos zodíacos romanos, a constelação tem o nome de Pavo, ave consagrada à deusa Juno,  Junonis Astrum, nome latino o do pavão. Os romanos adotaram também uma antiga denominação da constelação entre os gregos, transliterando-a como Hydrochous.


MAHA  KUMBA - MELA

Entre os hindus, Aquário é Kumbha. A cada três anos, realiza-se na Índia uma imensa assembleia (kumbha-mela) no mês de janeiro, dela participando milhares de sannyasins pertencentes a todas as ordens religiosas e vindos de várias regiões do país. Alternativamente, a assembleia se realiza em Hardwar, Allahabad, Nasik e Ujjain. A ideia é a de reunir, congraçar, participar de uma grande festa na qual as energias superiores são distribuídas.
SANGAM
Khumba significa pote, e mela, festival. Cada ciclo de doze anos é encerrado por um grande festival (
Maha Kumbha-Mela), onde milhões de devotos se reúnem para se banhar no Sangam, nome do local do encontro de três rios sagrados, o Ganges, o Yamuna e o Saraswati, para se purificar, participando assim daquele que é considerado o maior festival religioso do mundo. Em 2007, ocorreu em Allahabad o chamado Ardh Kumbha-Mela, que fechou um ciclo de doze festivais (144 anos), evento que reuniu cerca de 70 milhões de pessoas. 

O Kumbha-Mela é uma cerimônia que tem por base uma passagem da mitologia hinduísta, a luta entre deuses e demônios pelo pote que contém o néctar da imortalidade, chamado amrita (não-morto). Diz o mito que durante a disputa quatro gotas caíram dos céus nas quatro cidades acima referidas. O amrita foi produzido pelos deuses e pelos demônios quando da agitação dos oceanos, nos momentos iniciais da criação do universo. Lutando pela posse do néctar maravilhoso, os deuses conseguiram a duras penas vencer os demônios. A cada três anos, esse acontecimento é celebrado no grande festival do signo de Aquário. 

Entre os judeus, Aquário é Shevat, o décimo primeiro mês do calendário hebraico, governado por Saturno. Em hebraico, Aquário é Dli, palavra que quer dizer jarra, balde, recipiente para líquidos, sendo o signo representado por um aguadeiro, uma figura humana que transporta água. A água na perspectiva astrológica judaica é símbolo da misericórdia e da purificação, razão pela qual as energias de Shevat devem ser esparramadas, distribuídas indiscriminadamente, beneficiando a todos. 

Embora uma respeitável tradição afirme que o signo de Israel é Capricórnio, outra, também muito relevante, estabelece que é Shevat. Ambas acabam se reconciliando, porém, na medida em que o período solar de Tevet (Capricórnio) se estende por Shevat, correspondendo ambos os signos aos dois órgãos da visão. Mais ainda: no Livro da Criação (Sefer Yetsirá), obra mística do início da tradição, que alguns atribuem a Abraão, nos seus capítulos iniciais, afirma-se que o estômago também se relaciona com Shevat porque este signo traz a ideia de retificação do ato de comer. Esta retificação fala que devemos buscar com os olhos o melhor para que a nossa “digestão” mental não sofra, para que não a prejudiquemos. Esta preocupação encontra apoio nas letras que se

associam ao mês. Primeiro Bet, que criou Saturno, e depois Tzadi, que criou o próprio signo, que tem o significado de justiça, de equilíbrio. É no mês de Shevat que temos a oportunidade de nos redimir pela revelação da verdade e da luz, sendo por isso Shevat considerado com o mês da redenção. O Livro da Formação e o Zohar, lembremos,são considerados como a base do conhecimento cabalístico. 

A justificativa para se considerar Shevat como o signo de Israel está no fato de o conteúdo da jarra ser a água, que é símbolo da Torá, como está escrito em Isaías. A Torá significa ensinamento e é um dos conceitos fundamentais do judaísmo, compreendendo tanto o Pentateuco (Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) como a Bíblia hebraica e, num sentido mais amplo, toda a tradição judaica. A proposta que está em Shevat é a de se ver a criação através do serviço divino através da Torá. 

Ainda que Saturno governe Capricórnio e Aquário, a astrologia judaica entende que os dois signos devem ser considerados a partir de um Saturno que se volta para o Sol, isto é, para o interior do sistema solar, e de outro Saturno, que “olha” para o infinito do espaço sideral. Enquanto o primeiro diz respeito a Capricórnio, significando o limite físico das construções e dos sistemas, o outro aponta para a superação destes limites, inclusive para a sua destruição.


MOISÉS ( MICHELANGELO, 1475-1564 )

Uma das principais figuras do judaísmo, Moisés, “o salvo das águas”, personagem principal do Êxodo, associa-se a Shevat na medida em que a Torá é chamada também de lei mosaica. Moisés é, assim, aquele que presta serviços, como um aguadeiro através da distribuição das águas da Torá. Shevat é um mês de bênçãos abundantes, o que tem a ver com a tribo que o representa, a tribo de Asher (felicidade, em hebreu), filho de Jacó e de uma empregada de sua esposa, Léa, que se instalou no norte do país de Canaã. Com base no Gênese (cap. 49, v.20), o óleo é um usado como um símbolo da Torá porque assim como ele se separa de outros líquidos e mantém a sua pureza, assim acontece com a sabedoria da Torá. Por isso, água e óleo são usados como símbolos da sabedoria da lei mosaica. O óleo (shemen) é um equivalente da tradição oral da Torá que começou com Moisés, tradição chamada de Mishná, que contém letras de shemen


MOISÉS  RECEBE  AS  TÁBUAS  DA  LEI
(MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )
O elemento de Shevat é o ar, elemento da tradição oral, essencial para a manutenção do corpo físico, já que é com ele fazemos trocas com o meio exterior. Os demais signos relacionados com o ar, Sivan e Tishrei, Gêmeos e Libra, tem a ver, respectivamente, com a entrega da Torá no monte Sinai e o segundo com as tábuas da lei, dos dez mandamentos. A tarefa do povo judaico é a de dar de beber os ensinamentos da Torá ao resto do mundo. 

O planeta que tem relação com Shevat é Saturno (Shabtai), que rege também Capricórnio, indicando ele a necessidade de se buscar a contemplação e o aprofundamento das virtudes do coração. Os que nascem sob a influência de Shevat costumam revelar uma tendência para a originalidade, possuindo também uma mente curiosa, inquisitiva. O pensamento original do signo é indicado pelas letras da palavra Dli, que contém as mesmas que significam “dar nascimento”. Uma implicação etimológica liga o nome Shevat à palavra Shevatim, que lembra aflição, pois foi durante este mês que Deus começou a afligir os egípcios com as pragas, causadoras do início da sua decadência. 

Ainda no terreno das associações, os astrólogos judeus notaram que enquanto em Israel a celebração do Shabat (descanso, do anoitecer de sexta-feira à noite de sábado) se liga tanto ao nome de Saturno (Shabtai) como à Lua (shabater, é um verbo que indica o descanso da Lua, dia em que ela para de crescer, tendo a ver pois com o plenilúnio) em outras tradições o dia do repouso semanal foi deslocado para um outro dia, para o dia do Sol, o primeiro dia da semana. Segundo eles, a nação de Israel, que se situa acima da influência das constelações, sempre conservou a cerimônia no dia de Saturno, uma prova de sua profunda compreensão, pois nesse dia os judeus recebem uma alma extra e os fogos do inferno são arrefecidos. Diz a tradição que se todos os judeus pudessem guardar respeitosamente, completamente, o dia do Shabat, o Messias viria. Os antigos astrólogos místicos judaicos achavam que os aspectos feminino e masculino de Deus se unirão no Shabat, um dia de harmonia cósmica, quando as forças do reino do mal (Sitra Achra) perderão sua força. As ressonâncias dessas ideias no mundo aquariano são, como se vê, muito evidentes, se lembrarmos da androgenia natural do signo.

Segundo muitos cabalistas, a chamada era de Aquário, também conhecida como era da Revelação ou da Redenção, já começou. Isto se deve ao fato de já estar a humanidade, por influência de Shevat, procurando se unificar de algum modo, impulso básico para uma futura redenção. Esse impulso, no mundo todo, como sabemos, vem buscando a unificação através do que há de mais negativo em Aquário, a tecnologia. Ou seja, enquanto a tecnologia de Shevat une o mundo (aldeia global), as nações vêm contraditoriamente levantando barreiras de todo tipo, físicas, militares, econômicas, religiosas, que só reforçam as suas fronteiras, criando verdadeiros guetos, obstáculos à livre circulação das pessoas. 

Na tradição judaica, o ano-novo do reino vegetal é celebrado a 15 de Shevat. Isto pode ser entendido pelo fato de ser o mundo vegetal a única força do mundo físico capaz de vencer a força da gravidade, um dos mais poderosos anseios dos representantes do signo. Para controlar estes anseios de rompimento das limitações do mundo físico e de distribuição de energias das alturas para o todo, derramando-as sobre a humanidade, os astrólogos judaicos pedem que sejam levadas em consideração as energias do signo oposto, Leão (Av). Dois aspectos a salientar aqui: a) muitos aquarianos escondem fortes traços leoninos nos seus discursos e propostas humanitários. b) outros aquarianos se descuidam completamente do seu eu pessoal, desintegrando-o promiscuamente numa vida grupal. 

Os astrólogos judeus nos dizem que estas tendências negativas de um signo podem ser atenuadas ou mesmo revertidas se aplicado o conceito cabalístico do tikum, palavra que, em hebraico, quer dizer correção. Este conceito, no seu sentido mais abrangente, é o aplicado trabalho de correção que a alma pode fazer através de suas
CABEÇA E CAUDA DO DRAGÃO
encarnações. O tikum é representado no mapa pelo eixo dos nós lunares, descrevendo o nó sul, a chamada cauda do dragão, tudo aquilo que alguém traz de vidas passadas. Já o nó norte, a chamada cabeça do dragão, descreve o caminho corretivo a ser tomado segundo as energias do signo em que se encontre, desenvolvidas superiormente. Temos sempre que considerar ambos os nós para obter algum sucesso na encarnação em que nos encontramos. Esse eixo, na astrologia cabalística, é muito importante porque ele afeta todo o mapa astrológico. Se alguém, por exemplo, tem o tikum em Aquário, a proposta para esta pessoa será a de desenvolver as anergias superiores deste signo procurando conciliá-las, inclusive, com o que o Sol, a Lua ou o Ascendente representem no seu mapa, estejam onde estiverem.

A constelação de Aquário estende-se de 9º de Aquário a 26º de Peixes, sendo suas principais estrelas, em magnitude decrescente, Sadalmelek, no ombro direito do aguadeiro, Sadalsuud, no ombro esquerdo, Sadachbia, na jarra, Skat, na perna e Ancha no quadril. Ptolomeu afirmava que os ombros do aguadeiro tinham características saturninas e mercurianas.  


CONSTELAÇÃO  DE  AQUÁRIO
Sadalmelik (A Favorecida do Rei), alfa de Aquário, é uma estrela de 3ª magnitude, hoje em Peixes, a 3º04´. Sadalsuud (A Favorecida do Reino), beta, também de 3ª magnitude, está hoje nos 22º 42´ de Aquário. Ambas são consideradas como favoráveis, fertilizam como a água, não no sentido material (dinheiro, bens etc.), mas fazendo com que (principalmente se relacionadas com o Asc. Os luminares, Júpiter e Vênus) o bem-estar seja “vivido” muito mais interiormente. Esta “felicidade” interior, contudo, costuma ser traduzida muitas vezes por um otimismo ingênuo, por expectativas sem fundamento, mas que podem bastar para aquele que os experimenta. Mapas como os de Jules Verne, do Brasil e dos USA podem ser úteis para estudos sobre ambas as estrelas. Os astrólogos latinos davam o nome de Sidus Faustum Regis à primeira e Fortuna Fortunarum à segunda. Os nomes, respectivamente, têm origem árabe, Al Sad al Malik e Al Saad al Suud.








domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião. 

                            

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (4)


HADES  ( GIOVANNI  DA  MODENA , 1379 - 1455 )

As três divindades sobre as quais discorremos  em Escorpião (3), conforme as culturas em que aparecem, “convivem”, cada uma a seu modo, com o Hades grego no signo de Escorpião. Sugerem todas, com as suas histórias, o inexorável e constante fluir das formas quando chegamos ao equinócio de outono, período em que, através da destruição, se prepara, no mundo natural, um futuro renascimento. É destas aproximações que decorrem  naturalmente as associações que podemos fazer entre o inferno (Hades) e o oitavo signo astrológico. Ligado à obscuridade, às trevas, à invisibilidade, o inferno, em todas as cosmogonias, sempre apareceu “em baixo”, ctônico, subterrâneo, lembrando o frio, as trevas, as sombras, a solidão.

As ligações do número oito com o renascimento estão presentes em várias tradições. Na astrologia, depois do sete, o número do repouso provisório, o oito indica uma possibilidade de ressurreição sob uma nova forma. Uma das mais conhecidas ilustrações do que aqui se diz, sob o ponto de vista astrológico, é a referência que podemos fazer aos signos de Libra (7), Escorpião (8) e Sagitário
CASULO
(9), aparecendo Escorpião como o casulo, invólucro no qual a crisálida (em grego, krysallis, dos), a larva do inseto, adormecida e entorpecida, se transforma, ocultamente, em borboleta. É por esta razão que a borboleta sempre foi considerada como um símbolo do renascimento. Na antiguidade grega, borboletas esculpidas em túmulos eram indicações de crenças reencarnacionistas.

Quanto ao número oito, é preciso lembrar também que ele aparece em muitas doutrinas orientais, como a budista, por exemplo, através da chamada via óctupla, como um símbolo de
PIA  BATISMAL
SÉ VELHA DE COIMBRA
renascimento. Na tradição ocidental, grega, não é por outra razão que o número oito sempre apareceu associado a Dioniso, o deus das metamorfoses. Não podemos esquecer ainda que as antigas pias batismais, por essa mesma razão, tinham a forma octogonal, na qual o oito se compunha do quatro (símbolo do corpo material), do três (símbolo da alma) e do um (símbolo do divino). Assim, era o número oito, para os primitivos cristãos, aquele que reunia as condições necessárias ao aparecimento de um novo ser pelas águas do batismo


DESCIDA  AOS  INFERNOS ( JEAN  LE  TAVERNIER , ? - 1462 )

A chamada “descida aos infernos” de que nos falam os mitos corresponde na vida cósmica aos primeiros dias outonais, prelúdio do inverno por oposição à ascensão, que ocorre em março no equinócio da primavera. Em todas as religiões de mistério, a descida aos infernos é imagem da morte alegórica, o abandono pelo iniciado (mystes) de sua natureza profana na obscura cela da reflexão, a passagem do negro (nigredo) ao branco (albedo) dos alquimistas. 


CORÃO
O Corão faz do inferno uma entidade devoradora, atribuindo-lhe características de fornalha, de incêndio, de tortura e de abismo sem fundo. As suas sete portas são reservadas aos que não adoraram o verdadeiro Deus e, que, portanto, viveram em pecado. Isto é, os cristãos, os judeus, os magos, os idólatras, os hipócritas e os sabeístas (seguidores do sabeísmo, seita judaico-crista, baseada na magia e na adoração dos astros, do antigo reino de Sabá, sudoeste da Arábia).

O fogo devorador do inferno, em todas as tradições, o fogo que consome e destrói simboliza, dentre outros sentimentos de natureza passional, o remorso, a culpa, o medo do sofrimento moral e a inveja. O inferno católico, como o Tártaro grego, tem um caráter definitivo ao representar o desespero e o endurecimento no pecado e no erro pela total e irremediável incapacidade de mudança. 


HADES  ( PIETER  BRUEGEL , O VELHO , 1525 - 1569 )

As modernas psicologias, fazendo coro a tudo isto, representam o inferno do inconsciente como um mar noturno que é preciso atravessar, isto é, partir de uma situação consciente, no geral muito limitada, mas dolorosa invariavelmente, para que uma outra margem, uma outra forma de vida seja atingida. Este processo se confunde com o próprio processo de individuação que tem início pela descida de uma pessoa à sua interioridade, ao mesmo tempo uma regressão e a busca de uma renovada forma. 

Algumas correntes da moderna psicologia ocidental, numa “leitura” evidentemente retirada da mitologia grega, consideram o inferno um símbolo do recalque, um mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. Se num primeiro momento Hades é a divindade  que tem a ver com essa operação, ele pode, num segundo momento, significar como Plutão a reconstituição radical da personalidade vitimada pelo recalque sobre novas bases, pela rejeição dos elementos deletérios ou supérfluos que nas suas profundezas se encontram. 

Esta reconstituição costuma muitas vezes ocorrer subitamente, de modo imprevisível, uraniano. Qualquer que seja este processo, porém, instantâneo ou demorado, Plutão, astrologicamente, ao comandá-lo, é comumente representado com a cornucópia nas mãos, a nos mostrar que é nesse mundo subterrâneo (inconsciente) que estão todos os valores de que necessitamos, porém mal repartidos ou mal distribuídos. Por isso, a cercá-lo imagens de germinação, de passagens da morte à vida, de metamorfoses. A maieutikê (maia, em grego, parteira) socrática, a arte de fazer com que os espíritos trouxessem à luz, ao consciente, verdades que guardavam desconhecidas ou esquecidas dentro de si, é astrologicamente um método escorpiano para se chegar à “verdade”. Por determinadas perguntas feitas ao seu interlocutor, Sócrates o fazia “descobrir” verdades que estavam dentro dele. O filósofo levava-o a essa descoberta pela reminiscência, anamnese, partindo de dados matemáticos elementares ou de verdades morais universais. A Psicanálise freudiana é, neste sentido, um método maiêutico.

Ainda que muitas tradições antigas tenham do inferno concepções muito variadas, a maior parte delas o imagina como um subterrâneo misterioso e terrível onde as almas dos defuntos suportam sofrimentos indescritíveis como punição por crimes e pecados cometidos sobre a terra. As penas e sofrimentos infernais são estabelecidos por um tribunal, imagem simbólica da consciência, de um eu superior, como o encontramos nas psicologias freudiana e jungiana. 

Além disso, o reino dos mortos sempre foi organizado em vários andares, etapas que deveriam ser superadas conforme o nível de evolução das almas. Os romanos chegaram a um refinamento tal da ideia infernal  que o organizaram em vários degraus, etapas diferentes, onde eram acolhidos os natimortos, os suicidas, os amantes infiéis, os matricidas etc.


DIS PATER
Antes das infiltrações gregas, antigos povos da península itálica, com base em mitos etruscos, davam o nome de Orco (esconder, ocultar) não só ao reino subterrâneo dos mortos, mas à divindade que o governava. Posteriormente, devido ao sincretismo greco-latino, tendo por modelo o Plutão grego, os romanos passaram a dar o nome de Dis ou Ditis à divindade regente desse reino (dis, em latim, rico, opulento, abundante).



Os povos nórdicos, que possuem talvez o mais “escorpiano” reino dos mortos, davam, como os gregos também o faziam, o nome de Hel ao seu mundo infernal, sendo esse também o nome da divindade que o governava (vide a propósito o nome do computador que “trabalha” no filme de Stanley Kubrick, 2.001 – Uma Odisseia no Espaço). Hel se ligava por uma ponte ao mundo dos vivos e era dividido em nove regiões.

MIDGARD
Ao que parece também por influência cristã, o antigo deus Loki, uma espécie de demônio superior, sempre trabalhando no sentido contrário ao das demais divindades, foi assumindo a tutela do mundo do mal, passando Hel, mudando de gênero, a ser visto como sua filha. Hel conviveu desde que “nasceu” com os gigantes, com monstros, como o lobo Fenrir, e com a grande serpente Midgard. Ela dava abrigo, no seu reino, ao monstro Nidhog, que roía dia e noite a árvore Ygdrasil, que fazia a ligação terra-céu nos dois sentidos. 

Foi Odin quem determinou que ela ocupasse esse mundo, também chamado de Niflheim. Sua aparência era terrível, e seu palácio, na região mais profunda do seu reino, era uma réplica infernal do palácio celeste de Odin, o Valhala. Desconsideradas as influências cristãs, a deusa Hel tinha por função, como uma espécie de gerente de um grande hotel, distribuir as almas que chegavam ao seu reino nas dependências que lhes cabiam, conforme a sentença decorrente do seu julgamento. Hel evoca, como se disse, o Valhala dos germânicos, paraíso dos guerreiros mortos nos campos de batalha, recolhidos e levados para lá pelas Valquírias, tão celebradas por Richard Wagner. O Valhala tinha mais de quinhentas portas, tão grandes que oitocentos guerreiros podiam sair por uma delas ao mesmo tempo, quando tivessem que combater os lobos.
CAVALGADA  DAS  VALQUÍRIAS ( PETER NICOLAI ARBO, 1831 - 1892 )

O herói germânico amava a vida, os seus bens e prazeres, não temia a morte porque ela não tinha  para ele o significado de aniquilação inesperada e fatal. A morte era para ele tão só a consumação final de um destino. Mesmo com a chegada do cristianismo, essa ideia não desapareceu. O destino, entidade criadora e transformadora por excelência, é cósmico e nele as individualidades se dissolvem no devir constante e inexorável do universo. Nem os deuses escapam dele, sempre em luta contra a morte e a decadência que constantemente os ameaçam. 


DESCIDA AOS INFERNOS
G. DA  MODENA , 1379 - 1455 )
Aos seres desvalorizados não era consentido sobreviver à morte para gozar as delícias do Valhala. Os que haviam morrido ignominiosamente iam sempre para o Niflheim, o País dos Mortos, do Gelo e das Trevas, cuja entrada era guardada pelo cão Garm. Ali viviam seres monstruosos, os anões, os gigantes e todos aqueles que haviam morrido de velhice ou de doença. Esta região era o domínio de Hel, que encarnava o princípio da doença, da decadência, da morte ignóbil, cujo poder o próprio Odin/Wotan era obrigado a aceitar. Neste reino, ausente qualquer esperança de ressurreição, tudo era sombrio, gelado, trevoso. 

Na mitologia germano-escandinava, os fantasmas e os duplos dos mortos se envolviam frequentemente com os vivos, assombrando-os, aparecendo em sonhos. Essas formas, chamadas de fylgjur, podiam também se manifestar como animais perigosos. Há espíritos dos mortos que se manifestavam, sempre sedentos de sangue e cruéis, chamados druckgeister (espíritos de opressão). Tradição semelhante é encontrada na Escócia, onde temos criaturas hermafroditas com asas de morcego, rosto de mulher, olhos e cabelos de fogo, habitantes dos pântanos, sempre uma séria ameaça a quem, à noite, se aventure por esses lugares.

Foram os escandinavos que criaram um dos melhores cenários relacionados com mitos que universalmente descrevem as catástrofes naturais que ameaçam a humanidade não só em razão dos seus pecados e faltas como também em virtude de ciclos de tempo que se fecham, destruindo tudo o que existe, inclusive
O ANEL DOS NIBELUNGOS
deuses, para que um novo mundo apareça. Este cenário, chamado de Ragnarok (em velho escandinavo, destino fatal dos deuses) ou  de Crepúsculo dos Deuses, descreve um combate final em que os deuses serão mortos por gigantes (Odin engolido pelo lobo Fenris; Freyr morta por Surt; Thor envenenado depois de sua luta contra a serpente Midgard). Depois da catástrofe geral, o mundo renascerá, uma nova idade do ouro, sob a tutela do deus Balder ressuscitado (vide a ópera de Richard Wagner O Anel dos Nibelungos).

Uma das mais “escorpianas” histórias da mitologia grega é aquela que tem Alceste (a defensora, a que afasta o perigo) como personagem principal. Alceste era uma das filhas de Pélias, rei de Iolco. Era a mais bela de todas, muito requestada, cercada de pretendentes. Para evitar complicações diplomáticas, o pai estabeleceu condições praticamente impossíveis de serem cumpridas por qualquer candidato à mão da jovem: ele daria sua filha àquele que conseguisse atrelar, ao mesmo jugo, um javali selvagem e um leão. Além do mais, as bestas assim atreladas deveriam dar uma volta completa numa pista de corridas. 

Um dos candidatos, Admeto (o indomável), graças à cumplicidade do deus Apolo, conseguiu fazer com que Hércules domasse os dois animais, cumprindo assim os requisitos impostos por Pélias. Consta que essa interferência de Apolo se deve ao fato de o deus solar, quando do seu exílio terrestre, ter sido tratado com extrema deferência pelo pai de Admeto, o rei Feres. Outros, mais “venenosos”, afirmam que Apolo, enquanto permaneceu na corte de Feres, havia se apaixonado pelo jovem príncipe. De qualquer maneira, vitorioso, Admeto conquistou a mão de Alceste. Esqueceu-se ele, porém, como era obrigatório em casos de favorecimentos desta natureza, de fazer o devido sacrifício a Ártemis, a deusa da vida selvagem. 

Muito ressentida, a deusa, no dia das bodas de Admeto e Alceste, encheu a câmara nupcial de serpentes. Intervindo mais uma vez, Apolo conseguiu resolver o problema e os noivos puderam ter a sua lua-de-mel. Tudo parecia correr  bem, quando Admeto foi sorteado pelas Moiras e decretada a sua morte (algumas versões nos dizem que por interferência de Ártemis).  Apolo, mais uma vez,  que tinha por Admeto toda a solicitude que se possa ter por alguém, embriagou Átropos, retardando assim a morte de seu protegido, para que se procurasse uma outra pessoa para morrer em seu lugar. Consultados, os pais do soberano, embora muito velhos, mal enxergando a luz do dia, não quiseram fazer o sacrifício pelo filho.

ALCESTE   MORRENDO ( J. F. P. PEYRON , 1744 - 1814 )

Tudo estava nesse pé, quando Alceste, corajosamente, se ofereceu para dar a vida pelo marido, não só por amor a ele mas por considerar que a presença do pai seria bem mais importante que a da mãe para a educação dos filhos do casal. Versões: a) Alceste teria se matado logo, sacrificando-se, ingerindo veneno; ao descer ao Hades, Perséfone, achando absurdo e injusto tal sacrifício, a incitara a voltar e tomar de novo o seu lugar entre os vivos. b) Admeto, diante de Thanatos, que viera buscá-lo, oferecera, covardemente,  ao deus da morte a sua própria esposa como substituta. Quando Thanatos estava para agarrar Alceste, eis que surge Hércules, que recebera hospitalidade de Admeto, depois de ter cumprido o seu primeiro trabalho (As Éguas de Diomedes). Ciente do que ocorria, Hércules travou um violento combate com o deus da morte, conseguindo arrancar de suas garras a jovem e bela esposa de Admeto. 


HÉRCULES   LEVA  ALCESTE  A  ADMETO
( ANTOINE  COYPEL , 1661 - 1722 )
Modelo de uma esposa amantíssima e exemplar e de uma inexcedível piedade filial, a esposa de Admeto e filha de Pélias, com justa razão, deu seu nome ao que chamo de complexo de Alceste, isto é, aquele comportamento, parcial ou totalmente inconsciente, vinculado ao terreno da afetividade, que leva algumas mulheres a agir como a esposa de Admeto o fez com relação à sua vida familiar, como filha, como esposa e como mãe, a mais perfeita encarnação do ideal feminino segundo o mundo patriarcal.   

A inclusão da piedade filial como elemento deste complexo se deve a uma história que envolve Medeia, sobrinha de Circe, feiticeira como a tia. Tudo começou quando Jasão retornou a Iolco, depois da conquista do Velocino de Ouro. Passou a arquitetar com a grande feiticeira, sua esposa, um estratagema para eliminar Pélias, seu tio, que havia usurpado o trono do país, que por direito caberia a seu pai, condenado à morte pelo irmão.  

MEDEIA  E  FILHAS  DE  PÉLIAS
Por amor ao marido, muito humilhado pelo tio desde que voltara da Cólquida, Medeia se aproximou enganosamente das filhas de Pélias, que não sabiam da sua união com Jasão, e as convenceu de que poderia, com a sua arte mágica, rejuvenescê-lo, já muito avançado em anos que estava. Bastaria que as filhas o fizessem em pedaços e que os lançassem num caldeirão de bronze com muita água. Medeia, então, adicionaria a essa mistura um preparado que só ela conhecia, um segredo de sua família, trazendo Pélias de volta à vida numa forma muito rejuvenescida. Para demonstrar do que era capaz, a sobrinha de Circe, usando o processo acima descrito, transformou um velho e trôpego carneiro num jovem e saltitante cordeirinho. 

As pelíades, como a história registra, se entusiasmaram e diante do que lhes fora demonstrado não hesitaram em matar o pai e destroçá-lo. Procurada para que fosse aplicada a sua receita, Medeia não foi encontrada. Jasão e sua família estavam vingados. Dentre as pelíades, Alceste foi a única a não aderir à proposta de Medeia, combateu-a mesmo, afirmando que as leis de Cronos deveriam ser respeitadas por todos, que nem mesmo os deuses poderiam revogá-las, e que amava o pai mesmo velhinho. Assim, além de exemplo de piedade e de respeito familiar, de grande amor ao marido e aos filhos, da aceitação do papel que lhe cabia nesse
ESTER   NUM   PURIM
( E. LONG , 1829 - 1891 )
contexto de superiores valores masculinos, Alceste ofereceu também inegáveis provas de inexcedíveis sentimentos religiosos, merecendo, por isso, dar nome ao complexo que descrevi, tornando-se assim um insuperável exemplo para todas as mulheres atreladas ao mundo patriarcal. Como ela, talvez, ainda que não de todo satisfatória a comparação, pela excepcionalidade de seu exemplo, algumas matriarcas judias como Ester e Léa.

Os habitantes da antiga Acádia, na Mesopotâmia, davam o nome de Girtab ao escorpião, isto é, “àquele que pica”. Era o símbolo das trevas, pois trazia consigo a diminuição da potência solar, depois do equinócio de outono. Há uma passagem da mitologia grega que traduz, com outras palavras, este poder que o escorpião tem de afetar o Sol. O deus Hélio, o Sol considerado fisicamente, depois de muita insistência por parte de seu filho Faetonte, emprestou a ele seu carro.

FAETONTE  ( JAN EYCK , 1390 - 1441 )

Muitas foram as recomendações e advertências, de modo especial quanto à fogosidade dos cavalos e quanto às zonas que, ao transitar pelo Zodíaco, ele iria atravessar. Em cada uma delas um perigo, animais bravios, traiçoeiros, carneiros, touros, caranguejos, leões etc. Bem ou mal, saindo às vezes da eclíptica, encostando na terra, provocando incêndios, Faetonte conseguiu chegar até a sétima constelação, Libra, que não teve problemas para atravessar. Contudo, ao ingressar na constelação seguinte, qual não foi o seu espanto e o seu desespero. Os quatro cavalos, sentindo-se certamente não conduzidos por mãos hábeis, desarvoraram-se, assustados, enlouquecidos, diante do monstruoso escorpião que lá vivia. Faetonte, como a história registrou, perdeu totalmente o controle do carro. Os desastres se sucederam de tal modo que Zeus, a pedido da Mãe Geia, não teve outra alternativa senão a de fulminar o tresloucado jovem, que pagou a sua vida, mergulhando com o carro nas águas do rio Erídano.

Um dos grandes mitos da antiguidade que devemos associar ao eixo Escorpião-Touro é o do deus Mithra, que tem relação com o deus de mesmo nome da religião védica. O nome mithra, na origem mihr, queria dizer Sol. Depois, passou a significar contrato, na época aquemênida, também nome de uma divindade conciliadora para representar a alternância entre a luz e as trevas, assumindo inclusive as funções de um deus de natureza escatológica. Seu culto se espalhou pelo mundo helenístico e depois romano sob a forma de uma religião de mistério (sete graus de iniciação).


MITHRA

A estatuária helenística popularizou a cena da imolação de um touro por Mithra numa gruta. Era o taurobolium, o batismo pelo sangue do touro. De grande penetração no mundo greco-romano, o culto foi muito difundido nos meios militares. Como ideias essenciais do mitraísmo destacamos um zelo ardente pela pureza moral, obtida e conservada graças a uma atitude belicosa, a do “soldado da fé”. Daí, o prestígio do culto entre as legiões romanas, traduzido pela veneração da luz, sendo o único princípio “invencível” o Sol (Sol Invictus). A grande festa do mitraísmo era celebrada no dia 25 de dezembro, uma das datas aproveitadas pelos primitivos cristãos para nela fixar a sua festa de Natal. 

Mithra era, entre os antigos persas, o deus da luz criada, da veracidade, da boa fé e da justiça, sempre invocado como garantia da palavra dada e dos contratos em geral; uma espécie de juiz clarividente das ações humanas. Neste sentido era um mediador entre dois mundos opostos, o mundo luminoso superior (nona casa astrológica) e o mundo da luz criada pelos homens (sétima casa astrológica). Seu culto também estava baseado na doutrina da ressurreição por uma regeneração física e psíquica. As cerimônias eram celebradas numa gruta, em torno de uma lanterna, com ritos especiais, chamados sacramentos: um batismo pelo sangue, pela água pura, por aspersões de água lustral (purificação), por unções de mel, pela distribuição comunitária do vinho e do pão). Os iniciados tratavam-se entre si pelo título de irmãos, sendo os superiores, instrutores, chamados de pais.

TAUROBOLIUM
No séc.II da era cristã, o rito do taurobolium foi introduzido no mundo romano, onde já era grande também a influência do culto de Cibele, Grande-Mãe, oriundo da Ásia Menor. O taurobolium era o batismo pelo sangue do animal, uma aspersão sanguinolenta que transformava o mystes num renatus in aeterneum, nascido para uma nova vida, eternamente. A vigorosa energia do animal regenerava o corpo e a alma do iniciado, pondo-o em comunicação com formas superiores da vida espiritual. Os exércitos romanos difundiram o culto de Mithra por todo o império, com grandes celebrações no dia 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começavam de novo a aumentar, festejando-se o renascimento do Sol, o Natalis Solis

O taurobolium significava também o controle da natureza primitiva e instintiva do homem, representada em muitas tradições por animais. Há cerimônias específicas para o estabelecimento dessa relação, principalmente em ritos de iniciação para jovens do sexo masculino. O jovem, através deste rito, entra na posse de sua alma racional e sacrifica o seu o lado instintivo, animal, por meio de um outro rito, sendo o mais comum o da circuncisão. Só então o jovem poderá ser considerado um ser humano. É por isso que, em muitas tradições, africanas especialmente, que os animais são considerados como seres não circuncidados. Assim, o sacrifício do touro pelo deus Mithra (sacrifício também encontrado nos cultos dionisíacos) pode ser considerado como um símbolo da vitória da natureza espiritual do homem sobre sua animalidade, da qual o touro é um símbolo comum. 

O que está acima pode, explicar, por exemplo, a popularidade das touradas e de temas míticos como o do Minotauro, símbolo das indomáveis forças instintivas do homem. O culto de Mithra, acredito, também pode ser compreendido, sob o ponto de vista astrológico, como a passagem da era cósmica de Touro para a de Áries, que começa em 1.662 aC., lembrando-se que o planeta Marte rege tanto o signo de Escorpião como o de Áries.

Outra aproximação muito significativa que podemos fazer com relação ao signo de Escorpião é o cotejá-lo com as crenças celtas relacionadas com a morte, com o outro mundo e com as ideias de renascimento. É importante dizer de início que os celtas continentais tinham uma atitude muito  positiva com respeito à morte como está demonstrado tanto por evidências arqueológicas como por testemunhos literários. Julio Cesar, o imperador romano, como se sabe, escreveu uma obra sobre as guerras que os romanos travaram na Gália, contra os celtas. Ele nos informa, pois os conhecia muito bem, que eles honravam deuses muito semelhantes aos dos romanos, inclusive o seu Dispater, a divindade que governava o mundo infernal; informou-nos mais Cesar que os druidas, os sacerdotes celtas, atribuíam muita importância à crença da transmigração das almas. Comentando, porém, esta última informação, ele acrescenta uma venenosa observação: a de que os druidas propalavam essa ideia para que os guerreiros celtas não tivessem medo de morrer. 


LUCANO
O poeta latino Lucano, no primeiro século da era cristã, observou que os celtas encaravam a morte simplesmente como um estágio entre uma vida e outra. Outras fontes literárias (Diodorus Siculus) afirmam a mesma coisa. As tradições mitológicas celtas projetam uma imagem muito ambígua sobre o seu inferno. Fala-se mesmo de uma vida melhor no Outro Lado. Não há dor, sofrimento, decadência; há festas, música, beleza, embora encontremos registros de combates entre heróis que nele se encontram. Outro aspecto, muito contrastante com o que está acima, é o de que inferno pode se tornar um lugar muito perigoso, sombrio, se visitado por humanos antes da morte. 

O aspecto tenebroso do mundo infernal é representado pelos celtas de modo especial nas festividades do Samain, realizada quando o Sol ingressa no sigo de Escorpião. Na Irlanda, era a maior festa, celebrada no início de novembro, marcando o fim de um ano e o início de outro. A festa era um ponto de transição cujos ritos procuravam garantir a renovação e a prosperidade terrena, os êxitos tribais, a germinação da boa sorte para a primavera e o verão seguintes.


SAMAIN  ( F. J. GOYA Y LUCIENTES , 1746 - 1828 )

LUPERCÁLIAS
O Samain corresponde ao Halloween anglo-saxão e equivale à festa de Todos-os-Santos e dos Mortos dos cristãos latinos. Marca, na segunda quinzena do mês de Samon (novembro), o começo da estação sombria, estabelecendo-se então uma comunicação temporária com os mortos. Em oposição a esta festa, no mês Imbolc (fevereiro), temos as celebrações associadas à deusa Brigit, equivalentes às Lupercálias romanas e ao Mardi Gras (terça-feira gorda, último dia do carnaval), festas que assinalavam o fim do período hibernal e o renascimento da vida e do mundo vegetal. A
SANTA  BRÍGIDA , 1280
deusa Brigit era, na origem, uma deusa ligada à terra, ao fogo e à poesia (esta última era considerada como uma expressão do fogo, tendo um caráter não material). Quando da chegada do cristianismo, muitas divindades celtas foram transformadas em santos, como foi o caso de Brigit, que virou Santa Brígida, chamada a Maria dos celtas, venerada tanto quanto São Patrício, o evangelizador dos irlandeses.



LUGNASAD  ( PIETER BRUEGEL, O VELHO , 1525 - 1529)

Em maio, tínhamos as festas chamadas Belteine, que marcavam o início da estação estival. Em agosto, realizavam-se as Lugnasad, em homenagem ao deus Lug, período das grandes assembleias. Estas festas, ao que parece, eram fixadas com base na observação de estrelas importantes. Samain e Belteine tinham início, respectivamente, quando da ascensão helíaca de Antares (Escorpião) e de Aldebarã (Touro). Assim, quando da ascensão helíaca de uma delas, o céu noturno era dominado pela outra. O ano era assim dividido em duas estações, uma sombria, de 179 dias, e outra luminosa, de 186 dias, em harmonia com o calendário climático e agrícola da Europa temperada. As datas das duas outras festas eram determinadas pela ascensão helíaca de Sirius (Lugnasad) e de Capella (Imbolc). 

CALDEIRÃO
O mais importante símbolo de regeneração do mundo celta era o caldeirão, nos seus três níveis: abundância, ressurreição e sacrifício. A maior parte dos caldeirões encontrados em várias tradições míticas deve a sua força mágica à capacidade que eles têm de transformar tudo o que neles é lançado numa massa confusa, equivalente à nigredo alquímica, para que a partir dela possa ser criada uma nova forma. O caldeirão celta lembra a cornucópia, tendo o alimento que nele se prepara um caráter inesgotável, símbolo de um conhecimento sem limites, no que se aproxima bastante de outro símbolo celta, cristianizado, o Santo Graal. O caldeirão celta podia restaurar a vida dos guerreiros, que renasciam mais fortes do que antes. A serpente era outro símbolo usado pelos celtas  para o renascimento, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o encadeamento do ser à cadeia indefinida dos renascimentos.

Ao falar do caldeirão, não podemos esquecer de Héstia, a deusa
HÉSTIA
grega da lareira. Um de seus atributos era justamente o caldeirão, identificando-o os gregos como uma representação do tesouro particular ou do tesouro público, ou seja, tanto das casas como da polis. Héstia “recebia” o que nelas entrasse. No primeiro caso, dinheiro e alimentos. No segundo, os tributos em geral. Em ambas as hipóteses, tudo era levado para o seu caldeirão, posto em comum, preparando-se uma grande “sopa”, distribuída para os da casa ou para os habitantes da polis, segundo as necessidades de cada um.