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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (4)


HADES  ( GIOVANNI  DA  MODENA , 1379 - 1455 )

As três divindades sobre as quais discorremos  em Escorpião (3), conforme as culturas em que aparecem, “convivem”, cada uma a seu modo, com o Hades grego no signo de Escorpião. Sugerem todas, com as suas histórias, o inexorável e constante fluir das formas quando chegamos ao equinócio de outono, período em que, através da destruição, se prepara, no mundo natural, um futuro renascimento. É destas aproximações que decorrem  naturalmente as associações que podemos fazer entre o inferno (Hades) e o oitavo signo astrológico. Ligado à obscuridade, às trevas, à invisibilidade, o inferno, em todas as cosmogonias, sempre apareceu “em baixo”, ctônico, subterrâneo, lembrando o frio, as trevas, as sombras, a solidão.

As ligações do número oito com o renascimento estão presentes em várias tradições. Na astrologia, depois do sete, o número do repouso provisório, o oito indica uma possibilidade de ressurreição sob uma nova forma. Uma das mais conhecidas ilustrações do que aqui se diz, sob o ponto de vista astrológico, é a referência que podemos fazer aos signos de Libra (7), Escorpião (8) e Sagitário
CASULO
(9), aparecendo Escorpião como o casulo, invólucro no qual a crisálida (em grego, krysallis, dos), a larva do inseto, adormecida e entorpecida, se transforma, ocultamente, em borboleta. É por esta razão que a borboleta sempre foi considerada como um símbolo do renascimento. Na antiguidade grega, borboletas esculpidas em túmulos eram indicações de crenças reencarnacionistas.

Quanto ao número oito, é preciso lembrar também que ele aparece em muitas doutrinas orientais, como a budista, por exemplo, através da chamada via óctupla, como um símbolo de
PIA  BATISMAL
SÉ VELHA DE COIMBRA
renascimento. Na tradição ocidental, grega, não é por outra razão que o número oito sempre apareceu associado a Dioniso, o deus das metamorfoses. Não podemos esquecer ainda que as antigas pias batismais, por essa mesma razão, tinham a forma octogonal, na qual o oito se compunha do quatro (símbolo do corpo material), do três (símbolo da alma) e do um (símbolo do divino). Assim, era o número oito, para os primitivos cristãos, aquele que reunia as condições necessárias ao aparecimento de um novo ser pelas águas do batismo


DESCIDA  AOS  INFERNOS ( JEAN  LE  TAVERNIER , ? - 1462 )

A chamada “descida aos infernos” de que nos falam os mitos corresponde na vida cósmica aos primeiros dias outonais, prelúdio do inverno por oposição à ascensão, que ocorre em março no equinócio da primavera. Em todas as religiões de mistério, a descida aos infernos é imagem da morte alegórica, o abandono pelo iniciado (mystes) de sua natureza profana na obscura cela da reflexão, a passagem do negro (nigredo) ao branco (albedo) dos alquimistas. 


CORÃO
O Corão faz do inferno uma entidade devoradora, atribuindo-lhe características de fornalha, de incêndio, de tortura e de abismo sem fundo. As suas sete portas são reservadas aos que não adoraram o verdadeiro Deus e, que, portanto, viveram em pecado. Isto é, os cristãos, os judeus, os magos, os idólatras, os hipócritas e os sabeístas (seguidores do sabeísmo, seita judaico-crista, baseada na magia e na adoração dos astros, do antigo reino de Sabá, sudoeste da Arábia).

O fogo devorador do inferno, em todas as tradições, o fogo que consome e destrói simboliza, dentre outros sentimentos de natureza passional, o remorso, a culpa, o medo do sofrimento moral e a inveja. O inferno católico, como o Tártaro grego, tem um caráter definitivo ao representar o desespero e o endurecimento no pecado e no erro pela total e irremediável incapacidade de mudança. 


HADES  ( PIETER  BRUEGEL , O VELHO , 1525 - 1569 )

As modernas psicologias, fazendo coro a tudo isto, representam o inferno do inconsciente como um mar noturno que é preciso atravessar, isto é, partir de uma situação consciente, no geral muito limitada, mas dolorosa invariavelmente, para que uma outra margem, uma outra forma de vida seja atingida. Este processo se confunde com o próprio processo de individuação que tem início pela descida de uma pessoa à sua interioridade, ao mesmo tempo uma regressão e a busca de uma renovada forma. 

Algumas correntes da moderna psicologia ocidental, numa “leitura” evidentemente retirada da mitologia grega, consideram o inferno um símbolo do recalque, um mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. Se num primeiro momento Hades é a divindade  que tem a ver com essa operação, ele pode, num segundo momento, significar como Plutão a reconstituição radical da personalidade vitimada pelo recalque sobre novas bases, pela rejeição dos elementos deletérios ou supérfluos que nas suas profundezas se encontram. 

Esta reconstituição costuma muitas vezes ocorrer subitamente, de modo imprevisível, uraniano. Qualquer que seja este processo, porém, instantâneo ou demorado, Plutão, astrologicamente, ao comandá-lo, é comumente representado com a cornucópia nas mãos, a nos mostrar que é nesse mundo subterrâneo (inconsciente) que estão todos os valores de que necessitamos, porém mal repartidos ou mal distribuídos. Por isso, a cercá-lo imagens de germinação, de passagens da morte à vida, de metamorfoses. A maieutikê (maia, em grego, parteira) socrática, a arte de fazer com que os espíritos trouxessem à luz, ao consciente, verdades que guardavam desconhecidas ou esquecidas dentro de si, é astrologicamente um método escorpiano para se chegar à “verdade”. Por determinadas perguntas feitas ao seu interlocutor, Sócrates o fazia “descobrir” verdades que estavam dentro dele. O filósofo levava-o a essa descoberta pela reminiscência, anamnese, partindo de dados matemáticos elementares ou de verdades morais universais. A Psicanálise freudiana é, neste sentido, um método maiêutico.

Ainda que muitas tradições antigas tenham do inferno concepções muito variadas, a maior parte delas o imagina como um subterrâneo misterioso e terrível onde as almas dos defuntos suportam sofrimentos indescritíveis como punição por crimes e pecados cometidos sobre a terra. As penas e sofrimentos infernais são estabelecidos por um tribunal, imagem simbólica da consciência, de um eu superior, como o encontramos nas psicologias freudiana e jungiana. 

Além disso, o reino dos mortos sempre foi organizado em vários andares, etapas que deveriam ser superadas conforme o nível de evolução das almas. Os romanos chegaram a um refinamento tal da ideia infernal  que o organizaram em vários degraus, etapas diferentes, onde eram acolhidos os natimortos, os suicidas, os amantes infiéis, os matricidas etc.


DIS PATER
Antes das infiltrações gregas, antigos povos da península itálica, com base em mitos etruscos, davam o nome de Orco (esconder, ocultar) não só ao reino subterrâneo dos mortos, mas à divindade que o governava. Posteriormente, devido ao sincretismo greco-latino, tendo por modelo o Plutão grego, os romanos passaram a dar o nome de Dis ou Ditis à divindade regente desse reino (dis, em latim, rico, opulento, abundante).



Os povos nórdicos, que possuem talvez o mais “escorpiano” reino dos mortos, davam, como os gregos também o faziam, o nome de Hel ao seu mundo infernal, sendo esse também o nome da divindade que o governava (vide a propósito o nome do computador que “trabalha” no filme de Stanley Kubrick, 2.001 – Uma Odisseia no Espaço). Hel se ligava por uma ponte ao mundo dos vivos e era dividido em nove regiões.

MIDGARD
Ao que parece também por influência cristã, o antigo deus Loki, uma espécie de demônio superior, sempre trabalhando no sentido contrário ao das demais divindades, foi assumindo a tutela do mundo do mal, passando Hel, mudando de gênero, a ser visto como sua filha. Hel conviveu desde que “nasceu” com os gigantes, com monstros, como o lobo Fenrir, e com a grande serpente Midgard. Ela dava abrigo, no seu reino, ao monstro Nidhog, que roía dia e noite a árvore Ygdrasil, que fazia a ligação terra-céu nos dois sentidos. 

Foi Odin quem determinou que ela ocupasse esse mundo, também chamado de Niflheim. Sua aparência era terrível, e seu palácio, na região mais profunda do seu reino, era uma réplica infernal do palácio celeste de Odin, o Valhala. Desconsideradas as influências cristãs, a deusa Hel tinha por função, como uma espécie de gerente de um grande hotel, distribuir as almas que chegavam ao seu reino nas dependências que lhes cabiam, conforme a sentença decorrente do seu julgamento. Hel evoca, como se disse, o Valhala dos germânicos, paraíso dos guerreiros mortos nos campos de batalha, recolhidos e levados para lá pelas Valquírias, tão celebradas por Richard Wagner. O Valhala tinha mais de quinhentas portas, tão grandes que oitocentos guerreiros podiam sair por uma delas ao mesmo tempo, quando tivessem que combater os lobos.
CAVALGADA  DAS  VALQUÍRIAS ( PETER NICOLAI ARBO, 1831 - 1892 )

O herói germânico amava a vida, os seus bens e prazeres, não temia a morte porque ela não tinha  para ele o significado de aniquilação inesperada e fatal. A morte era para ele tão só a consumação final de um destino. Mesmo com a chegada do cristianismo, essa ideia não desapareceu. O destino, entidade criadora e transformadora por excelência, é cósmico e nele as individualidades se dissolvem no devir constante e inexorável do universo. Nem os deuses escapam dele, sempre em luta contra a morte e a decadência que constantemente os ameaçam. 


DESCIDA AOS INFERNOS
G. DA  MODENA , 1379 - 1455 )
Aos seres desvalorizados não era consentido sobreviver à morte para gozar as delícias do Valhala. Os que haviam morrido ignominiosamente iam sempre para o Niflheim, o País dos Mortos, do Gelo e das Trevas, cuja entrada era guardada pelo cão Garm. Ali viviam seres monstruosos, os anões, os gigantes e todos aqueles que haviam morrido de velhice ou de doença. Esta região era o domínio de Hel, que encarnava o princípio da doença, da decadência, da morte ignóbil, cujo poder o próprio Odin/Wotan era obrigado a aceitar. Neste reino, ausente qualquer esperança de ressurreição, tudo era sombrio, gelado, trevoso. 

Na mitologia germano-escandinava, os fantasmas e os duplos dos mortos se envolviam frequentemente com os vivos, assombrando-os, aparecendo em sonhos. Essas formas, chamadas de fylgjur, podiam também se manifestar como animais perigosos. Há espíritos dos mortos que se manifestavam, sempre sedentos de sangue e cruéis, chamados druckgeister (espíritos de opressão). Tradição semelhante é encontrada na Escócia, onde temos criaturas hermafroditas com asas de morcego, rosto de mulher, olhos e cabelos de fogo, habitantes dos pântanos, sempre uma séria ameaça a quem, à noite, se aventure por esses lugares.

Foram os escandinavos que criaram um dos melhores cenários relacionados com mitos que universalmente descrevem as catástrofes naturais que ameaçam a humanidade não só em razão dos seus pecados e faltas como também em virtude de ciclos de tempo que se fecham, destruindo tudo o que existe, inclusive
O ANEL DOS NIBELUNGOS
deuses, para que um novo mundo apareça. Este cenário, chamado de Ragnarok (em velho escandinavo, destino fatal dos deuses) ou  de Crepúsculo dos Deuses, descreve um combate final em que os deuses serão mortos por gigantes (Odin engolido pelo lobo Fenris; Freyr morta por Surt; Thor envenenado depois de sua luta contra a serpente Midgard). Depois da catástrofe geral, o mundo renascerá, uma nova idade do ouro, sob a tutela do deus Balder ressuscitado (vide a ópera de Richard Wagner O Anel dos Nibelungos).

Uma das mais “escorpianas” histórias da mitologia grega é aquela que tem Alceste (a defensora, a que afasta o perigo) como personagem principal. Alceste era uma das filhas de Pélias, rei de Iolco. Era a mais bela de todas, muito requestada, cercada de pretendentes. Para evitar complicações diplomáticas, o pai estabeleceu condições praticamente impossíveis de serem cumpridas por qualquer candidato à mão da jovem: ele daria sua filha àquele que conseguisse atrelar, ao mesmo jugo, um javali selvagem e um leão. Além do mais, as bestas assim atreladas deveriam dar uma volta completa numa pista de corridas. 

Um dos candidatos, Admeto (o indomável), graças à cumplicidade do deus Apolo, conseguiu fazer com que Hércules domasse os dois animais, cumprindo assim os requisitos impostos por Pélias. Consta que essa interferência de Apolo se deve ao fato de o deus solar, quando do seu exílio terrestre, ter sido tratado com extrema deferência pelo pai de Admeto, o rei Feres. Outros, mais “venenosos”, afirmam que Apolo, enquanto permaneceu na corte de Feres, havia se apaixonado pelo jovem príncipe. De qualquer maneira, vitorioso, Admeto conquistou a mão de Alceste. Esqueceu-se ele, porém, como era obrigatório em casos de favorecimentos desta natureza, de fazer o devido sacrifício a Ártemis, a deusa da vida selvagem. 

Muito ressentida, a deusa, no dia das bodas de Admeto e Alceste, encheu a câmara nupcial de serpentes. Intervindo mais uma vez, Apolo conseguiu resolver o problema e os noivos puderam ter a sua lua-de-mel. Tudo parecia correr  bem, quando Admeto foi sorteado pelas Moiras e decretada a sua morte (algumas versões nos dizem que por interferência de Ártemis).  Apolo, mais uma vez,  que tinha por Admeto toda a solicitude que se possa ter por alguém, embriagou Átropos, retardando assim a morte de seu protegido, para que se procurasse uma outra pessoa para morrer em seu lugar. Consultados, os pais do soberano, embora muito velhos, mal enxergando a luz do dia, não quiseram fazer o sacrifício pelo filho.

ALCESTE   MORRENDO ( J. F. P. PEYRON , 1744 - 1814 )

Tudo estava nesse pé, quando Alceste, corajosamente, se ofereceu para dar a vida pelo marido, não só por amor a ele mas por considerar que a presença do pai seria bem mais importante que a da mãe para a educação dos filhos do casal. Versões: a) Alceste teria se matado logo, sacrificando-se, ingerindo veneno; ao descer ao Hades, Perséfone, achando absurdo e injusto tal sacrifício, a incitara a voltar e tomar de novo o seu lugar entre os vivos. b) Admeto, diante de Thanatos, que viera buscá-lo, oferecera, covardemente,  ao deus da morte a sua própria esposa como substituta. Quando Thanatos estava para agarrar Alceste, eis que surge Hércules, que recebera hospitalidade de Admeto, depois de ter cumprido o seu primeiro trabalho (As Éguas de Diomedes). Ciente do que ocorria, Hércules travou um violento combate com o deus da morte, conseguindo arrancar de suas garras a jovem e bela esposa de Admeto. 


HÉRCULES   LEVA  ALCESTE  A  ADMETO
( ANTOINE  COYPEL , 1661 - 1722 )
Modelo de uma esposa amantíssima e exemplar e de uma inexcedível piedade filial, a esposa de Admeto e filha de Pélias, com justa razão, deu seu nome ao que chamo de complexo de Alceste, isto é, aquele comportamento, parcial ou totalmente inconsciente, vinculado ao terreno da afetividade, que leva algumas mulheres a agir como a esposa de Admeto o fez com relação à sua vida familiar, como filha, como esposa e como mãe, a mais perfeita encarnação do ideal feminino segundo o mundo patriarcal.   

A inclusão da piedade filial como elemento deste complexo se deve a uma história que envolve Medeia, sobrinha de Circe, feiticeira como a tia. Tudo começou quando Jasão retornou a Iolco, depois da conquista do Velocino de Ouro. Passou a arquitetar com a grande feiticeira, sua esposa, um estratagema para eliminar Pélias, seu tio, que havia usurpado o trono do país, que por direito caberia a seu pai, condenado à morte pelo irmão.  

MEDEIA  E  FILHAS  DE  PÉLIAS
Por amor ao marido, muito humilhado pelo tio desde que voltara da Cólquida, Medeia se aproximou enganosamente das filhas de Pélias, que não sabiam da sua união com Jasão, e as convenceu de que poderia, com a sua arte mágica, rejuvenescê-lo, já muito avançado em anos que estava. Bastaria que as filhas o fizessem em pedaços e que os lançassem num caldeirão de bronze com muita água. Medeia, então, adicionaria a essa mistura um preparado que só ela conhecia, um segredo de sua família, trazendo Pélias de volta à vida numa forma muito rejuvenescida. Para demonstrar do que era capaz, a sobrinha de Circe, usando o processo acima descrito, transformou um velho e trôpego carneiro num jovem e saltitante cordeirinho. 

As pelíades, como a história registra, se entusiasmaram e diante do que lhes fora demonstrado não hesitaram em matar o pai e destroçá-lo. Procurada para que fosse aplicada a sua receita, Medeia não foi encontrada. Jasão e sua família estavam vingados. Dentre as pelíades, Alceste foi a única a não aderir à proposta de Medeia, combateu-a mesmo, afirmando que as leis de Cronos deveriam ser respeitadas por todos, que nem mesmo os deuses poderiam revogá-las, e que amava o pai mesmo velhinho. Assim, além de exemplo de piedade e de respeito familiar, de grande amor ao marido e aos filhos, da aceitação do papel que lhe cabia nesse
ESTER   NUM   PURIM
( E. LONG , 1829 - 1891 )
contexto de superiores valores masculinos, Alceste ofereceu também inegáveis provas de inexcedíveis sentimentos religiosos, merecendo, por isso, dar nome ao complexo que descrevi, tornando-se assim um insuperável exemplo para todas as mulheres atreladas ao mundo patriarcal. Como ela, talvez, ainda que não de todo satisfatória a comparação, pela excepcionalidade de seu exemplo, algumas matriarcas judias como Ester e Léa.

Os habitantes da antiga Acádia, na Mesopotâmia, davam o nome de Girtab ao escorpião, isto é, “àquele que pica”. Era o símbolo das trevas, pois trazia consigo a diminuição da potência solar, depois do equinócio de outono. Há uma passagem da mitologia grega que traduz, com outras palavras, este poder que o escorpião tem de afetar o Sol. O deus Hélio, o Sol considerado fisicamente, depois de muita insistência por parte de seu filho Faetonte, emprestou a ele seu carro.

FAETONTE  ( JAN EYCK , 1390 - 1441 )

Muitas foram as recomendações e advertências, de modo especial quanto à fogosidade dos cavalos e quanto às zonas que, ao transitar pelo Zodíaco, ele iria atravessar. Em cada uma delas um perigo, animais bravios, traiçoeiros, carneiros, touros, caranguejos, leões etc. Bem ou mal, saindo às vezes da eclíptica, encostando na terra, provocando incêndios, Faetonte conseguiu chegar até a sétima constelação, Libra, que não teve problemas para atravessar. Contudo, ao ingressar na constelação seguinte, qual não foi o seu espanto e o seu desespero. Os quatro cavalos, sentindo-se certamente não conduzidos por mãos hábeis, desarvoraram-se, assustados, enlouquecidos, diante do monstruoso escorpião que lá vivia. Faetonte, como a história registrou, perdeu totalmente o controle do carro. Os desastres se sucederam de tal modo que Zeus, a pedido da Mãe Geia, não teve outra alternativa senão a de fulminar o tresloucado jovem, que pagou a sua vida, mergulhando com o carro nas águas do rio Erídano.

Um dos grandes mitos da antiguidade que devemos associar ao eixo Escorpião-Touro é o do deus Mithra, que tem relação com o deus de mesmo nome da religião védica. O nome mithra, na origem mihr, queria dizer Sol. Depois, passou a significar contrato, na época aquemênida, também nome de uma divindade conciliadora para representar a alternância entre a luz e as trevas, assumindo inclusive as funções de um deus de natureza escatológica. Seu culto se espalhou pelo mundo helenístico e depois romano sob a forma de uma religião de mistério (sete graus de iniciação).


MITHRA

A estatuária helenística popularizou a cena da imolação de um touro por Mithra numa gruta. Era o taurobolium, o batismo pelo sangue do touro. De grande penetração no mundo greco-romano, o culto foi muito difundido nos meios militares. Como ideias essenciais do mitraísmo destacamos um zelo ardente pela pureza moral, obtida e conservada graças a uma atitude belicosa, a do “soldado da fé”. Daí, o prestígio do culto entre as legiões romanas, traduzido pela veneração da luz, sendo o único princípio “invencível” o Sol (Sol Invictus). A grande festa do mitraísmo era celebrada no dia 25 de dezembro, uma das datas aproveitadas pelos primitivos cristãos para nela fixar a sua festa de Natal. 

Mithra era, entre os antigos persas, o deus da luz criada, da veracidade, da boa fé e da justiça, sempre invocado como garantia da palavra dada e dos contratos em geral; uma espécie de juiz clarividente das ações humanas. Neste sentido era um mediador entre dois mundos opostos, o mundo luminoso superior (nona casa astrológica) e o mundo da luz criada pelos homens (sétima casa astrológica). Seu culto também estava baseado na doutrina da ressurreição por uma regeneração física e psíquica. As cerimônias eram celebradas numa gruta, em torno de uma lanterna, com ritos especiais, chamados sacramentos: um batismo pelo sangue, pela água pura, por aspersões de água lustral (purificação), por unções de mel, pela distribuição comunitária do vinho e do pão). Os iniciados tratavam-se entre si pelo título de irmãos, sendo os superiores, instrutores, chamados de pais.

TAUROBOLIUM
No séc.II da era cristã, o rito do taurobolium foi introduzido no mundo romano, onde já era grande também a influência do culto de Cibele, Grande-Mãe, oriundo da Ásia Menor. O taurobolium era o batismo pelo sangue do animal, uma aspersão sanguinolenta que transformava o mystes num renatus in aeterneum, nascido para uma nova vida, eternamente. A vigorosa energia do animal regenerava o corpo e a alma do iniciado, pondo-o em comunicação com formas superiores da vida espiritual. Os exércitos romanos difundiram o culto de Mithra por todo o império, com grandes celebrações no dia 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começavam de novo a aumentar, festejando-se o renascimento do Sol, o Natalis Solis

O taurobolium significava também o controle da natureza primitiva e instintiva do homem, representada em muitas tradições por animais. Há cerimônias específicas para o estabelecimento dessa relação, principalmente em ritos de iniciação para jovens do sexo masculino. O jovem, através deste rito, entra na posse de sua alma racional e sacrifica o seu o lado instintivo, animal, por meio de um outro rito, sendo o mais comum o da circuncisão. Só então o jovem poderá ser considerado um ser humano. É por isso que, em muitas tradições, africanas especialmente, que os animais são considerados como seres não circuncidados. Assim, o sacrifício do touro pelo deus Mithra (sacrifício também encontrado nos cultos dionisíacos) pode ser considerado como um símbolo da vitória da natureza espiritual do homem sobre sua animalidade, da qual o touro é um símbolo comum. 

O que está acima pode, explicar, por exemplo, a popularidade das touradas e de temas míticos como o do Minotauro, símbolo das indomáveis forças instintivas do homem. O culto de Mithra, acredito, também pode ser compreendido, sob o ponto de vista astrológico, como a passagem da era cósmica de Touro para a de Áries, que começa em 1.662 aC., lembrando-se que o planeta Marte rege tanto o signo de Escorpião como o de Áries.

Outra aproximação muito significativa que podemos fazer com relação ao signo de Escorpião é o cotejá-lo com as crenças celtas relacionadas com a morte, com o outro mundo e com as ideias de renascimento. É importante dizer de início que os celtas continentais tinham uma atitude muito  positiva com respeito à morte como está demonstrado tanto por evidências arqueológicas como por testemunhos literários. Julio Cesar, o imperador romano, como se sabe, escreveu uma obra sobre as guerras que os romanos travaram na Gália, contra os celtas. Ele nos informa, pois os conhecia muito bem, que eles honravam deuses muito semelhantes aos dos romanos, inclusive o seu Dispater, a divindade que governava o mundo infernal; informou-nos mais Cesar que os druidas, os sacerdotes celtas, atribuíam muita importância à crença da transmigração das almas. Comentando, porém, esta última informação, ele acrescenta uma venenosa observação: a de que os druidas propalavam essa ideia para que os guerreiros celtas não tivessem medo de morrer. 


LUCANO
O poeta latino Lucano, no primeiro século da era cristã, observou que os celtas encaravam a morte simplesmente como um estágio entre uma vida e outra. Outras fontes literárias (Diodorus Siculus) afirmam a mesma coisa. As tradições mitológicas celtas projetam uma imagem muito ambígua sobre o seu inferno. Fala-se mesmo de uma vida melhor no Outro Lado. Não há dor, sofrimento, decadência; há festas, música, beleza, embora encontremos registros de combates entre heróis que nele se encontram. Outro aspecto, muito contrastante com o que está acima, é o de que inferno pode se tornar um lugar muito perigoso, sombrio, se visitado por humanos antes da morte. 

O aspecto tenebroso do mundo infernal é representado pelos celtas de modo especial nas festividades do Samain, realizada quando o Sol ingressa no sigo de Escorpião. Na Irlanda, era a maior festa, celebrada no início de novembro, marcando o fim de um ano e o início de outro. A festa era um ponto de transição cujos ritos procuravam garantir a renovação e a prosperidade terrena, os êxitos tribais, a germinação da boa sorte para a primavera e o verão seguintes.


SAMAIN  ( F. J. GOYA Y LUCIENTES , 1746 - 1828 )

LUPERCÁLIAS
O Samain corresponde ao Halloween anglo-saxão e equivale à festa de Todos-os-Santos e dos Mortos dos cristãos latinos. Marca, na segunda quinzena do mês de Samon (novembro), o começo da estação sombria, estabelecendo-se então uma comunicação temporária com os mortos. Em oposição a esta festa, no mês Imbolc (fevereiro), temos as celebrações associadas à deusa Brigit, equivalentes às Lupercálias romanas e ao Mardi Gras (terça-feira gorda, último dia do carnaval), festas que assinalavam o fim do período hibernal e o renascimento da vida e do mundo vegetal. A
SANTA  BRÍGIDA , 1280
deusa Brigit era, na origem, uma deusa ligada à terra, ao fogo e à poesia (esta última era considerada como uma expressão do fogo, tendo um caráter não material). Quando da chegada do cristianismo, muitas divindades celtas foram transformadas em santos, como foi o caso de Brigit, que virou Santa Brígida, chamada a Maria dos celtas, venerada tanto quanto São Patrício, o evangelizador dos irlandeses.



LUGNASAD  ( PIETER BRUEGEL, O VELHO , 1525 - 1529)

Em maio, tínhamos as festas chamadas Belteine, que marcavam o início da estação estival. Em agosto, realizavam-se as Lugnasad, em homenagem ao deus Lug, período das grandes assembleias. Estas festas, ao que parece, eram fixadas com base na observação de estrelas importantes. Samain e Belteine tinham início, respectivamente, quando da ascensão helíaca de Antares (Escorpião) e de Aldebarã (Touro). Assim, quando da ascensão helíaca de uma delas, o céu noturno era dominado pela outra. O ano era assim dividido em duas estações, uma sombria, de 179 dias, e outra luminosa, de 186 dias, em harmonia com o calendário climático e agrícola da Europa temperada. As datas das duas outras festas eram determinadas pela ascensão helíaca de Sirius (Lugnasad) e de Capella (Imbolc). 

CALDEIRÃO
O mais importante símbolo de regeneração do mundo celta era o caldeirão, nos seus três níveis: abundância, ressurreição e sacrifício. A maior parte dos caldeirões encontrados em várias tradições míticas deve a sua força mágica à capacidade que eles têm de transformar tudo o que neles é lançado numa massa confusa, equivalente à nigredo alquímica, para que a partir dela possa ser criada uma nova forma. O caldeirão celta lembra a cornucópia, tendo o alimento que nele se prepara um caráter inesgotável, símbolo de um conhecimento sem limites, no que se aproxima bastante de outro símbolo celta, cristianizado, o Santo Graal. O caldeirão celta podia restaurar a vida dos guerreiros, que renasciam mais fortes do que antes. A serpente era outro símbolo usado pelos celtas  para o renascimento, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o encadeamento do ser à cadeia indefinida dos renascimentos.

Ao falar do caldeirão, não podemos esquecer de Héstia, a deusa
HÉSTIA
grega da lareira. Um de seus atributos era justamente o caldeirão, identificando-o os gregos como uma representação do tesouro particular ou do tesouro público, ou seja, tanto das casas como da polis. Héstia “recebia” o que nelas entrasse. No primeiro caso, dinheiro e alimentos. No segundo, os tributos em geral. Em ambas as hipóteses, tudo era levado para o seu caldeirão, posto em comum, preparando-se uma grande “sopa”, distribuída para os da casa ou para os habitantes da polis, segundo as necessidades de cada um. 



sábado, 4 de março de 2017

GÊMEOS (1)





Os gêmeos, em todas as culturas, simbolizam a dualidade ou as contradições internas do ser humano. Todos os heróis gêmeos na mitologia indo-europeia são, no geral, protetores, curadores e salvadores. Representam oposições que, ao final, podem também se complementar em sínteses, vida-morte, aurora-poente, vertical-horizontal, montanha-vale etc. Os mais famosos gêmeos são os nascidos de uma divindade, um pai imortal, e de uma mãe mortal, virgem, uniões que constituem assim os que os antigos gregos chamavam de hierogamia. Os gêmeos, nos mitos, costumam também ter poderes especiais que lhes dão uma numinosa personalidade sempre inspiradora de temor.


CATEDRAL  DE  AMIENS
Podem os gêmeos atuar no sentido do bem ou do mal, conforme o caso. Em muitas culturas, o nascimento de gêmeos é um mau sinal, sendo, por isso, um deles sacrificado. Em muitas regiões da África negra ou do Nilo, por exemplo, a mãe que tem filhos gêmeos pode ser repudiada por seu marido. Por outro lado, entre os índios norte-americanos, os gêmeos eram encaminhados para a feitiçaria.

De um modo geral, independentemente do modo pelo qual apareçam, perfeitamente simétricos ou assimétricos (um obscuro, outro luminoso; um espiritualizado, outro materialista; um voltado para o céu, outro para a terra), os gêmeos representam não só aspectos da dualidade das forças que atuam no cosmos, forças que raramente se unificam, mas, sobretudo, a ambivalência dessas forças, o seu jogo, sempre em constante movimento, ora se equilibrando, ora se dispersando, uma contradição que não se resolve nunca.  Daí os gêmeos aparecerem associados às encruzilhadas.

HÉRCULES  E  ÍFICLES
Os mitos que nos falam de gêmeos, especialmente os gregos, costumam acentuar bastante o que os distingue, a começar pelo pai. Como no caso de Hércules e Íficles, nascidos da mesma mãe, Alcmena, ao mesmo tempo, mas o primeiro
GILGAMÉS E ENKIDU
sendo filho de Zeus e outro filho de Anfitrion, pai mortal, marido de Alcmena. Os mitos também podem tornar gêmeos os que nasceram separados, de mães e pais diferentes. É o caso de Gilgamés e de Enkidu que se tornaram gêmeos quando, em combate singular, descobriram, um no outro, o que faltava a cada um. 

Os gêmeos simbolizam também um grande desejo de unidade. Por isso, o número dois, que os descreve, é o mais ambivalente dos números, representando o princípio binário. Pode sugerir tanto a síntese como a divisão, a atração como a repulsão, o equilíbrio como o conflito. No simbolismo chinês, por exemplo, o dois é um número aziago (yin), fraco, desprovido de um centro. Divindades duplas representam amiúde princípios opostos ou aspectos contrários de uma só realidade. Como número associado à divisão da unidade primordial (Geia-Urano, Terra-Céu, por exemplo), o dois está ligado ao princípio feminino, à união, ao amor, à fertilidade, ao crescimento, à dinâmica da criação e  à sua destruição (já a passagem do dois ao três significa a multiplicidade).

Entre os mesopotâmicos, foram os assírios que nos deixaram, em

tempos muito remotos, uma bem elaborada ilustração celeste e portanto astrológica do mundo geminiano. A atividade intelectual entre os assírios e babilônicos estava colocada sob a égide do deus Nabu, filho de Marduk, o campeão dos deuses, vencedor de Tiamat, o Caos. O prestígio do pai sempre bafejou Nabu favoravelmente. Marduk era uma divindade de características agrárias, tendo por atributo a enxada. Era a maior das divindades, pois foi o único a enfrentar e vencer Tiamat. Nabu chegou mesmo a assumir algumas prerrogativas paternas. Uma de suas funções era a de gravar sobre as tabuinhas divinas os decretos divinos. Sua função, entretanto não era a de um simples escriba. Ele podia, a seu critério, aumentar ou diminuir o número de dias que cabia a cada um dos mortais viver. 


A irmã gêmea de Nabu, sua esposa também, chamava-se Tasmit. Era ela quem “iluminava os ouvidos” de modo a fazer com que as palavras pudessem ser mais facilmente ouvidas e compreendidas. Nabu havia inventado a escrita cuneiforme e a arte literária, principalmente o maior dos gêneros, o poético, sendo considerado como aquele que “iluminava os olhos”.


MAHABHARATA
Entre os hindus, a presença dos gêmeos é marcante. No Mahabharata, um antigo poema épico, fala-se da existência de dois celebrados irmãos gêmeos chamados Sunda e Upusunda. Segundo a história, viviam juntos e não podiam ser mortos por ninguém, a não que se matassem mutuamente. Regiam os mesmos domínios, viviam na mesma casa, dormiam no mesmo leito, sentavam-se juntos, comiam no mesmo prato. Por terem exatamente a mesma aparência e a mesma disposição e hábitos, pareciam um único ser dividido em duas partes. 

ASHVINS
Desde a antiga astrologia hindu (Jyotish), o signo de Gêmeos tem o nome de Mithuna. “Vivem” neste signo os Ashvins, divindades cujo nome vem de uma raiz sânscrita que significa “encher”, “ocupar o espaço.”, pois têm a ver com a multiplicação. A razão desta denominação se prende ao fato de que os Ashvins se estendem por todas as partes, estão em todos os lados, um dos gêmeos representando a luz e outro  a umidade. Alquimicamente, lembremos, o elemento ar, relacionado com o pensamento, a vida intelectual, é formado por duas  qualidades primitivas, o quente e o úmido. Como a astrologia nos explica, o signo de Gêmeos é do elemento ar, formado pelo quente e pelo úmido, com uma participação maior do primeiro, uma pequena contribuição do seco. Isto nos permite entender a natureza expansiva do signo, sobre a qual o seco pode exercer algum tipo de controle. 

Alguns comentaristas, entretanto, nos dizem que os Ashvins têm este nome porque vêm montados em cavalos. Outros, ainda, nos falam de uma dualidade sempre presente neles, o dia e a noite, o
BODHADRUMA
céu e a terra, o alto e o baixo e assim por diante. Não é por acaso, aliás, que, no budismo, essa árvore iluminação chama-se, em sânscrito, ashvatta ou pippala, árvore sob a qual os cavalos se aquietam. Outro nome sânscrito da árvore é bodhadruma, que significa a árvore da perfeita sabedoria. Os ocidentais dão a ela o nome de ficus religiosa, a mesma que aparece no mito de Prometeu e, segundo muitos, na Bíblia.   

Os cavalos em quase todas as tradições são símbolos do psiquismo inconsciente, da impetuosidade dos desejos, de um lado irracional no homem, animais associados ao mundo subconsciente, infernal, ctônico, que lembra as trevas, a escuridão. As palavras pesadelo, em francês e inglês, cauchemar e nightmare, respectivamente, guardam esta relação, significando a primeira "opressão do cavalo" e a segunda "besta noturna". 

SIDARTA   GAUTAMA
Na flora indiana, a mais antiga referência que temos sobre a pippala nos diz que a sua madeira é excelente para a produção do fogo, símbolo da consciência iluminada. No budisno, a árvore tem grande destaque. Sentado em baixo dela, foi numa noite de Lua cheia, no mês de maio, em Bodhi Gaya,
HUEN  TSANG
ao norte da Índia, que o príncipe Sidarta Gautama, se iluminou, ou seja, aprendeu a controlar o seu turbilhão mental e emocional. Histórias sobre essa árvore, chamada popularmente de bo tree no inglês dos indianos, chegaram até nós por causa de um historiador e viajante chinês daqueles tempos, chamado Huen Tsang.   

USHAS
Dentre todas as divindades védicas, os gêmeos hindus, os Ashvins, ocupam uma posição muito diferenciada. São eles que trazem a primeira claridade para o céu ainda escuro, a alva, que antecede a aurora. Preparam o caminho para que Ushas, a deusa da aurora, traga, por sua vez, a claridade para que o Sol possa surgir. Representam, pois, a transição entre a noite e a manhã, isto é, fazem com que a noite que passe a ser dia. Com eles, numa outra leitura, a mente humana se ilumina, saindo, como diz a alquimia, da nigredo, das trevas, da indeterminação, do negro, da vida subconsciente, para iniciar (ou não) a sua caminhada em direção da consciência plenamente iluminada, rubedo, representada pelo vermelho. Antes de chegar a esta última etapa, temos mais duas, a albedo, representada pelo branco, e a citrinitas, representada pelo amarelo. Estas quatro etapas, como se pode ver, simbolizam o caminho do Sol desde que sai da noite e chega ao meio-dia, consciência plena, como se disse, Sol vertical, ausentes as sombras. 


ASHVINS
Eram os Ashvins também médicos, informando-nos a sua história que podiam devolver a visão ao cego, a saúde ao coxo e ao caquético. Eram os protetores especiais do lento e do torpe e leais amigos das solteiras em idade avançada. Tinham a ver com o amor e o matrimônio enquanto providenciavam a união ou o reencontro dos se amavam. Por numerosos registros ficamos conhecendo que estas divindades eram capazes de curar os enfermos, de restituir a juventude e o vigor ao ancião e ao decrépito. Podiam salvar um homem de morrer afogado, levando-o são e salvo para a sua casa. 

Num dos mais famosos episódios de sua crônica, conta-se que a perna de Vispala, que havia sido cortada numa batalha, foi substituída por eles por uma de ferro. Devolviam a vista e a capacidade de andar ligeiro a cegos e a estropiados fisicamente. Como resultado destas e de outras narrações, os Ashvins eram invocados por quem queria obter descendência, riqueza, vitória, destruição dos inimigos, proteção de sua casa e de seu rebanho.

Uma outra história nos revela que os Ashvins foram inicialmente considerados impuros (é por isso que nenhum brâmane podia ser médico, pois a profissão o desacreditava para a função sacerdotal). Como, porém, ninguém podia passar sem médicos, foram eles purificados, sendo-lhes então permitida a convivência com os outros deuses. Lembremos que eles são filhos de Surya, o Sol, a primeira das divindades médicas. O mito dos Ashvins, como se pode ver, pertence tanto à esfera do divino ou cósmico como do humano ou histórico. Estas duas vertentes acabaram se fundindo. O vínculo que os une está certamente num grande mistério da natureza: a associação entre os efeitos da luz e da arte curativa em tempos muitos remotos. 

Símbolo do conhecimento ou da revelação, a luz vem sempre depois das trevas, sucedendo-a, uma verdade cósmica, mítica,
DIVINOS  CAVALEIROS
astrológica e psicológica (post tenebras lux), que podemos encontrar quando pensamos na nossa iluminação interior. A luz como vida, saúde e felicidade é tema encontrado em todas as tradições esotéricas ou não. É por essa razão que dois dos cinco Pandavas (personagens do poema épico Mahabharata, que representam o Bem), os irmãos Nakula e Sahadeva, são símbolos dos irmãos divinos cavaleiros (arquétipos). 


Na hierarquia celeste do mundo védico, os Ashvins representam a terceira função, a terceira casta, a dos agricultores-comerciantes, a dos Vaishyas. São eles que trazem a saúde, a juventude e a fecundidade. Conhecendo o segredo das plantas, são, como disse, os médicos celestes. Foram eles que, com o auxílio do sábio-mágico Angirasa, que descobriram o Soma, a bebida da imortalidade. Sempre cercados por uma atmosfera maravilhosa, eles salvaram o Prazer (Bhujyu), que se afogava, e o Apetite (Atri), que um demônio havia jogado num caldeirão fervente.


CHYAVANA
Diz o mito que Indra insistia em não lhes reconhecer a divindade nem o direito ao consumo do Soma, pois eram divindades menos importantes (3ª classe) e impuros ritualmente, como está acima. Mas o sábio Chyavana (Atividade), que havia recebido deles novamente a juventude, conseguiu fazer com que Indra os aceitasse entre os deuses. Conta o Rig Veda, que Chyavana estava decrépito, velho, bastante alquebrado, e que os Ashvins cuidaram dele, revitalizando-o, rejuvenescendo-o, tornando-o, de novo, "aceitável" para a sua mulher. 

Chamados de Os Inseparáveis (Nasatyas), os Ashvins têm uma tez dourada, são jovens, ágeis e rápidos, podendo tomar as formas que desejarem. Têm uma só mulher em comum, chamada Surya, que tem o mesmo nome do pai deles. Raramente são chamados individualmente pelos seus nomes. Um se chama Nasatya (O Sem-mentira) e o outro Dasra (O Milagroso). Os adjetivos que são acrescentados ao seu nome indicam sempre juventude, beleza, esplendor, velocidade, vivacidade e sua arte de curar. Filhos de Surya, atravessam o espaço num carro dourado, no qual trazem Ushas, a Aurora, ou vêm algumas vezes a cavalo, trazendo-a na garupa. Como vanguarda da luz, são os gêmeos parentes de Pushan (O Progresso).

O nome de Pushan lembra providência, aquele que, no caso, alimenta, nutre, com a sua luz, trazendo também a cura. Pushan é o protetor e o multiplicador das posses humanas e dos rebanhos, atuando também como guia dos que vão para o Outro Lado. 

Uma das mais interessantes genealogias dos Ashvins nós a encontramos no Mahabharata. Lá se conta que Samjña (O
SURYA
Conhecimento intuitivo), filha de Tvashiri (A Indústria), desposou Dharma (A Lei da Perfeição), que é Vivasvat (A Lei Ancestral), cujo símbolo visível é Surya, o Sol. Incapaz de suportar o brilho de seu esposo, Samjña deixou ao lado de Surya sua sombra e, tomando a forma de uma jumenta (Ashvini), entregou-se a uma vida ascética. Dharma, por sua vez, tomando a forma de um cavalo, foi à sua procura. Quando a encontrou e a ela se uniu, dois filhos gêmeos nasceram. Pela razão de sua mãe ter a forma de uma jumenta, os gêmeos receberam o nome de Ashvini-Kumaras (Os Filhos de Jumenta). A jumenta, ou asna, é, como se sabe, em muitas tradições, símbolo da paz, da humildade, da pobreza, da paciência e da coragem. 


ASHVAMEDHA
Um dos mais famosos rituais védicos ligava os Ashvins ao sacrifício dos cavalos (Ashvamedha). Este sacrifício tinha relação óbvia com o cavalo como símbolo da impetuosidade dos desejos, da juventude sobretudo no que ela tinha de ardor, de fecundidade e de disponibilidade. Era um sacrifício ligado socialmente à segunda casta, a dos Kshatryas, a dos guerreiros. Nestes rituais, a imagem do cavalo era associada também a ideias de água corrente e de fogo, isto é, de força, de poder, de emoções que levam à ação. 

Conforme antigos textos védicos nos revelam, um hindu poderia procurar deus através de qualquer uma das formas pelas quais ele
ISHVARA
se manifesta. Para os hindus, o divino se apresenta continuamente sob uma infinita multiplicidade de aspectos diferentes e renováveis. Assim, cada hindu pode ter a sua visão pessoal do divino, a que chamam de Ishvara, um conceito de deus estritamente pessoal, de acordo com a sua possibilidade de apreendê-lo, segundo seu nível de consciência, a sua informação, a sua cultura etc. Esta visão, ao longo de sua vida, pode mudar, se o seu nível de consciência muda. Não é preciso dizer que tal concepção, para as religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, é absurda, escandalosa.

NAKULA   E   SAHADEVA
Muitos desses deuses pessoais podem descer à Terra e se misturar com os humanos, aparecendo sob inúmeras formas e com os seus mais variados atributos. Assim, por exemplo, Indra, Agni e outros tomaram uma forma real (rei Nala) para se unir a uma princesa. Qualquer que seja a forma que tomem os deuses, muitos a tomam a forma humana para, dentre outras coisas, gerar filhos com mortais. Madri, uma das irmãs do rei de Madras, casada com Pandu, gerou dois filhos, gêmeos, Nakula e Sahadeva, quando" visitada" pelos Ashvins.


BATALHA   ENTRE  PANDAVAS   E   KURUS

Nakula é o quarto dos príncipes Pandavas. Seu pai mortal era Pandu, o divino, os Ashvins. Este príncipe foi especialmente treinado para se tornar um grande mestre da arte hípica. Sahadeva especializou-se na leitura dos astros, que estudou com Drona, brâmane, mestre dos Pandavas e também dos Kurus, personagens centrais do Mahabharata. 

Na astrologia, desde os tempos védicos, o signo de Gêmeos tem o nome de Mithuna, nome que em sânscrito que dizer a formação de um par. Esse nome também é dado tanto a pequenas estátuas que se encontram na entrada de qualquer templo como à manteiga (ghee) clarificada, muito usada na cozinha hindu e em muitos rituais védicos como ingrediente fundamental. 


PREPARANDO   O   GHEE

Clarificar é tornar mais claro, limpar de impurezas, purificar, resolver ambiguidades, ganhar concisão, tornar homogêneo, eliminar a escuridão, afastar o nebuloso. Assim, a visita a templos tinha (tem?)  por objetivo a clarificação (iluminação) da mente. Na cozinha, clarificar é operação através da qual algo turvo, escuro, um caldo, por exemplo, se estabiliza num aspecto mais claro. A manteiga clarificada é considerada na medicina tradicional hindu um rasayana (etimologicamente, veículo da essência), um alimento que tanto favorece a longevidade como o rejuvenescimento. Rasa é suco, nectar, essência, gosto. Na mitologia, é o fluxo divino personificado como uma deusa. 

A operação da clarificação (da mente) é obtida tanto através de uma visita a templos como encontrada na culinária indiana, na medicina
GANDHI
ayurvédica e em antigos métodos educativos (limpar a mente), tudo explicado pelo signo de Mithuna.  Lembre-se que este método aqui referido, equivalente à clarificação da manteira (ghee) foi desenvolvido, num passado já para nós muito distante, através de uma pedagogia chamada Segaon, nome de uma pequena cidade do Maharashtra, depois chamada Sevagram, onde viveu Gandhi.   

  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ÁRIES (2)



AMON-RA
Os egípcios, durante seu período histórico chamado de Novo Império, farão de Amon-Ra seu deus supremo. Este é o período da 18ª dinastia que se caracterizou sobretudo pela organização de um poderoso exército, por inúmeras guerras de conquista e pela extensão das fronteiras egípcias. Foi durante essa dinastia que Amon-Ra (Deus Escondido) assumiu a condição de divindade única, representado por uma figura humana teriomorfa, com cabeça de carneiro, às vezes com disco solar enquadrando-a.
GANSOS EGÍPCIOS
Seu culto se alastrou por todo o Egito, enriquecido por contribuições que vieram do culto de outras divindades. Às vezes Amon-Ra era representado por gansos selvagens. Os romanos, aliás, consagravam o ganso a Marte, a Vênus, a Cupido e ao deus fálico Príapo. A carne de ganso gozava da fama de aumentar o desejo, possuindo virtudes afrodisíacas. 

KNUM
Os egípcios associam também o signo de Áries a um deus poteiro, modelador, Knum, na forma de um carneiro de chifres ondulados, que teria elaborado a criação. Ligado à fecundidade, era representado também por uma figura humana criocéfala e adorado como um carneiro ou bode. Nesta qualidade, ele governava a criação, no ventre de todas as mães, dos nascituros, desde o embrião.

Não podemos esquecer que foi pelo tempo em que  Áries tomou o lugar de primeiro signo zodiacal que Amenóphis IV, sob o nome de Akhnetaon, realizou no Egito uma reforma religiosa tipicamente ariana, instituindo o monoteísmo. Por essa reforma político-religiosa, além do rebaixamento de todo o panteão egípcio e da limitação dos poderes da classe sacerdotal, a única divindade a ser adorada na nova ordem imposta era Aton, simbolizado pelo disco solar. O modelo monoteísta egípcio, bem mais tarde, inspirará  primeiro, o monoteísmo judaico e, depois, as suas dissidências, a cristã e a islâmica. Todas, como se sabe,gregos religiões centradas numa figura divina patriarcal, guerreiras, colonialistas e escravocratas, que ignoram e satanizam o papel da mulher.   

Os hindus, na língua sânscrita, dão o nome de Mesha à constelação de Áries. Aja foi outro nome que lhe deram os antigos védicos, palavra que quer dizer "não nascido". Uma referência ao fato de prevalecer no ariano a vida instintiva. O carneiro, para os hindus, é uma representação cósmica do poder animal e criador do fogo, ao mesmo tempo criador e destruidor, cego e rebelde, caótico e descontrolado, generoso e sublime. Por isso, os hindus chamam o signo de Mesha de Aja, isto é, não nascido. Os tipos arianos, fortemente afetados pela vida instintiva, ausente neles totalmente ou quase a vida racional, são sempre, nesta perspectiva, “um a ser”. 


SURYA
Nos antigos Vedas, o carneiro tem ligação com deus Agni, divindade que, com Surya e Indra (Vayu), forma a trindade de deuses ligados ao fogo. Surya é o Sol, fonte de luz e calor que, na astrologia, toma o nome de Ravi. Indra é o deus do firmamento; suas formas não têm fim; vem num carro dourado puxado por cavalos. Governa a atmosfera, o tempo, manifestando-se através do raio e das chuvas. É uma espécie de operador da energia proporcionada por Surya. 

TANTRISMO
Agni é regente do fogo sacrificial, o elemento ígneo na sua forma mais sagrada. É o fogo terrestre, igual em dignidade aos demais. Está em todas as casas, é protetor dos homens e testemunha das suas ações, sendo invocado em todas as ocasiões. No Yoga tântrico é o manipura chakra (cidade da joia), que corresponde ao elemento fogo, tendo por emblema o carneiro. Foi na forma de um carneiro que o sábio Indra ensinou aos homens a unicidade do Princípio Supremo


KUBERA
O carneiro é também a montaria do deus Kubera, guardião do norte e dos tesouros, uma espécie de Plutão na religião védica. Como tal, é o deus das riquezas subterrâneas, comandando os pequenos seres, os Yakshas e os Guhyakas, demônios que o auxiliam na produção e controle dessas riquezas. Não recebe nenhuma reverência ou adoração.

Entre os gregos, vários mitos convergem para o signo de Áries,   em grego, Kriós (carneiro). Antes, porém, há que se colocar uma questão interessante: em antigos textos, como o poema Sphaira (o mais antigo texto grego que discorre sobre nomes zodiacais), encontramos outra etimologia para Kriós. Esta palavra viria do verbo krino, separar, discriminar, justificado este entendimento pelo fato do signo de Áries marcar com exatidão o limite entre o inverno e a primavera.

Quanto aos mitos gregos, um dos que melhor se relaciona com o signo de Áries, ilustrando-o, é o do velocino de ouro. A história começa com uma catástrofe que se abate sobre a cidade de Orcômeno, na Beócia, na qual está envolvida Ino, a segunda mulher do rei Átamas. Os grãos de trigo, constatou-se, haviam se tornado impróprios para a sementeira. Uma consulta é feita então ao oráculo de Delfos. Os enviados pelo rei, para esse fim, são, na volta, subornados pela rainha; deviam declarar mentirosamente que a catástrofe só seria aliviada com o sacrifício de Frixo (agitação, tremor) e de Hele (nevoeiro matinal), filhos do rei e de sua primeira esposa (Nefele, a nuvem), por ele repudiada.


Zeus, que do alto tudo via, interveio. Enviou um carneiro maravilhoso, voador, de velo de ouro, criado por seu irmão Poseidon, para salvar as crianças.  Quem traz o animal divino até Orcômeno é o deus Hermes, que o orienta no sentido de levar os irmãos à Cólquida (Ásia Menor). No meio da viagem, Hele, tomada por vertigens, cai no mar, morrendo. O local onde caiu Hele, um estreito entre Europa e Ásia, tomou, desde então, o nome de Helesponto (Mar de Hele). 

Chegando à Cólquida, Frixo foi recebido pelo rei Eetes, passando a viver na corte. Eetes era filho do deus Hélio, deus-sol, irmão de Circe e de Pasífae (rainha de Creta), e pai de Medeia, uma família de magos e feiticeiros. O animal divino é sacrificado e o seu velo de ouro, consagrado ao deus Ares, levado para um bosque, é fixado num carvalho. O corpo do animal sacrificado, porém, foi colocado nos céus, entre as constelações , para marcar o início do Zodíaco. 


ARGONAUTAS
(MUSEU THYSSEN-BORNEMISZA
Ligada a esta história de Frixo e de Hele, temos a dos argonautas: 55 heróis gregos que, sob o comando de Jasão, foram à Cólquida se apoderar do velocino de ouro, a pele do maravilhoso animal que fora transformado em constelação. Grandemente auxiliado pela princesa Medeia, que por ele se apaixonou, Jasão, com os seus companheiros, se apoderou do tesouro, matando o dragão que o guardava, trazendo-o para a Grécia.

 Neste mito estão condensadas muitas das principais características do signo de Áries, mais negativa que positivamente. Uma delas é a da “conquista do impossível”, de algo que a razão desaconselha, traço marcadamente ariano. A conquista do velocino de ouro era,
MEDEIA ,  A  FEITICEIRA
PINTURA VITORIANA
com efeito, um empreendimento totalmente desaconselhado pela razão. Pelas dificuldades e obstáculos que cercavam essa conquista, as possibilidades de sucesso eram mínimas. Mesmo assim, com enorme propaganda por todas as cidades gregas, a expedição foi montada. Certamente, se não fosse o auxílio de Medeia, só os elementos psicológicos arianos que desempenhavam um papel tão importante no caráter desses heróis, iniciativa, arrojo, entusiasmo, ardor, impulsividade etc., não bastariam para a garantia da vitória.

O tema se explicita: na expedição comandada por Jasão temos a conquista de um tesouro, guardado por um dragão, ingredientes
JASÃO
típicos do esforço heroico. Mas o que Jasão apenas buscava, como ficou claro quando de seu retorno à Grécia, era apenas uma vitória sob o ponto de vista material que lhe possibilitasse socialmente o acesso a níveis superiores de vida.  A glória que obteve decorreu, é certo, de sua vitória, uma vitória que, afinal, não foi sua, mas de Medeia. Todas as lições que poderia ter aprendido ele não as aproveitou. Com isso, esvaziou de sentido realmente heroico a sua busca.

Jasão acabou por representar um certo tipo de falso idealismo. Ele não entendeu, conforme sua história deixa claro, que não podemos usar quaisquer meios para obter a vitória. Embora a nau Argo pudesse ser vista como um símbolo de aspirações juvenis, de impulsos heroicos, nela, na realidade, no seu sentido mais evidente, não havia nenhuma substância heroica verdadeira, real. No lugar da glória, o que tínhamos era  a vanglória, o convencimento não fundamentado na realidade dos próprios méritos, qualidades ou talentos. No lugar, só bazófia, jactância e vaidade. A nau Argo (branco, cintilante, em grego), símbolo das esperanças dos primeiro
MEDEIA
(A.MUCHA)
anos de vida de jovens guerreiros, torna-se-á ao final um símbolo da ruína da própria vida de Jasão. A história nos fala do entusiasmo da expedição, de uma certa primariedade instintiva, do pioneirismo que Jasão parecia encarnar, da ideia de desbravamento, um projeto rico de promessas. Um elã que, por parte de Jasão, se perverteu. Ele não enfrentou realmente o dragão; foi um filtro mágico  de Medeia que adormeceu o monstro. 

Para o povo grego, a recuperação de tão precioso tesouro, em poder de um povo bárbaro, como foi divulgado pelos governos das cidades envolvidas no projeto, era uma questão de "honra nacional". Nada disto, porém, era  verdadeiro. A motivação para a conquista do velocino de ouro era outra na realidade, ocultava
DELFOS
intenções bem concretas, materiais. Pelo lado de Jasão, se constituía num ato totalmente esvaziado de sentido transcendente. A expedição não passou de uma aventura colonialista. Quem, no mundo grego, orientava e patrocinava politicamente aventuras como esta era o Oráculo de Delfos, o maior centro político-religioso da antiga Grécia, que funcionava também como uma espécie de banco da aristocracia proprietária de terras e rebanhos.      

Do grupo comandado por Jasão faziam parte 55 heróis, todos jovens, a maior parte constituída de renomados e destemidos guerreiros,  destacando-se dentre eles inclusive muitos filhos de deuses como Hércules (acompanhado de seu amante, o belíssimo Hilas) , Castor, Polideuces, Orfeu, Etálides e outros. Não será preciso fazer muito esforço para se notar o quanto a história da conquista do velocino de ouro é semelhante às que as potências ocidentais nos tempos modernos inventaram e continuam a inventar até hoje, quando invadem um país, para ocultar a sua real motivação colonialista e espoliadora. 

Além disso, é preciso salientar que Jasão, a rigor, não pode ser considerado  um verdadeiro herói, pois não enfrentou o dragão para se apoderar do tesouro. Foi só com o imprescindível auxílio de Medeia que ele conseguiu superar vários obstáculos e matar o monstro, apoderando-se do tesouro. Se quisermos interpretar o que aqui se diz, deslocando o foco para a nossa interioridade,   Jasão não enfrentou o “seu” dragão interior, a maior façanha de um verdadeiro herói.

Monstros, nos mitos, simbolicamente, são agentes provocadores do esforço heroico; exigem, quando enfrentados, habilidade, controle do medo, preparação adequada, maestria no domínio da ação. A Psicologia, buscando-os nos mitos, fez dos monstros símbolos da predominância no ser humano das forças instintivas ou irracionais que têm de ser sacrificadas em nome de uma vida superior, racional ou espiritual. Nesse sentido, são os monstros aspectos doentios do psiquismo humano, resistentes, quando não se opondo abertamente, às nossas tentativas de transformação de caráter evolutivo.  Aquele que no mito subjuga estas forças instintivas, irracionais, orientado-as superiormente, é, como se disse, o herói, o fundador, o cavaleiro, o santo, o peregrino, o viajante, o navegante. As forças liberadas por ele poderão assim ser colocadas a serviço de uma elevação, de uma transcendência, ou, na pior das hipóteses, de uma sublimação.


JASÃO  ENVENENA  O  DRAGÃO ( SALVADOR  ROSA ) 

Os monstros, trazendo a questão bem mais para perto de nós, como criaturas produzidas por nossa imaginação, são imortais; morrem e renascem sempre, pois vivem como símbolos e são encontrados em todas as civilizações e culturas. A presença dos monstros na imaginação humana é sempre enigmática, tem um forte caráter  de imprevisibilidade, como a literatura e a arte nos demonstram ao longo dos milênios, em antigos textos, esculturas, tapeçarias, gravuras, na heráldica e, mais modernamente, nas várias expressões da comunicação de massas. Adormecidos ou ignorados às vezes por muito tempo, acomodados na escuridão do nosso psiquismo, podem os monstros nos atacar sem nenhum aviso, causando-nos muito sofrimento, fabricando as nossas doenças, quando não, mais drasticamente, acelerando a nossa passagem para o Outro Lado. 



MORTE   DE   GLAUCE

Depois de algum tempo de vida em comum com Medeia, com ela tendo filhos, Jasão, então famoso e vaidoso, a abandonou para se casar com Creusa ou Glauce, filha do rei. Medeia simulou conformar-se. Entretanto, tomada pelo ódio, agiu, disparando seus malefícios. Enviou como presentes de noivado a Glauce um manto, um diadema e um colar. Ao usá-los, lindíssimos que eram, a princesa virou uma tocha humana. O pai morreu carbonizado ao socorrê-la. O palácio onde viviam a princesa e o pai virou cinzas rapidamente. E como se tudo isto não lhe bastasse, Medeia matou os dois filhos que tivera com Jasão. Por fim, gloriosamente, subiu num veículo alado, presente do deus Hélio, seu grande ancestral, e desapareceu nos ares.


MEDEIA  ( CARLE  VAN  LOO )

Numa das versões do mito, consta que Jasão, depois da morte de Glauce, do seu pai e dos filhos, teria permanecido em Corinto, levando uma vida de vagabundo de praia, desmoralizado, sem nenhuma força e determinação. Acabou morrendo  quando descansava sob os restos da nau Argo que tanta renome e poder lhe trouxera. Uma prancha, desprendendo-se de um mastro da nau, que apodrecia na praia, encalhada na areia, atingiu-o na cabeça, matando-o.

APOLÔNIO  DE  RODES
A história dos argonautas é muito antiga, provavelmente anterior à de Ulisses e à da guerra de Troia e foi preservada devido a Apolônio de Rodes. Historicamente, sua origem se liga certamente às expedições que os gregos aqueus montaram para estabelecer colônias na Ásia Menor, nos territórios da Cólquida. Nesse lugar, foram descobertas, à época, minas de ouro, simbolizadas, aqui na história de Jasão, pelo Velocino de Ouro. A aventura, no seu todo, tem semelhanças com as de Hércules e alguns episódios são comuns à Odisseia (Circe, as Sereias). O drama de Jasão-Medeia lembra um pouco ou muito o de Teseu-Ariadne. O título do poema de Apolônio de Rodes, Argonáuticas, nos remete a uma ideia coletiva e não à vida de um personagem. 

O nome Argo, numa outra etimologia admitida, vem da palavra grega ágil. Barco mais rápido que ele nunca mais poderia ser construído. A deusa Palas Athena teria assumido pessoalmente a orientação da sua construção, chegando até a indicar de onde deveria ser retirada  a madeira para a sua proa, proveniente de um bosque de um santuário de Zeus. Esta madeira era falante e anunciava ao piloto do barco o que estava à frente. Mencione-se também a tripulação do barco. Nunca mais se reuniriam tantos e tão importantes personagens: Argos, Orfeu, os Dióscuros, Peleu, o pai de Aquiles, Meléagro, Laerte, o pai de Ulisses, Hércules, Ergino, filho de Poseidon, Etálides, filho do deus Hermes, Admeto, Acasto, etc. 

O tema dos argonautas se opõe num certo sentido ao da Odisseia. Nesta, temos um herói centralizando tudo, Ulisses. No outro poema, o tema do coletivo acaba se imponto e, mais ainda (para os tipicamente arianos), a ideia de que, apesar de tudo, vale a pena tentar realizar sonhos que a razão muitas vezes julga impossíveis, válidos todos os recursos para tanto, segundo a velha máxima do signo de Áries, a de que todos os meios são bons, desde que eficazes. A história do velocino de ouro caracteriza arquetipicamente a perversão dos impulsos heroicos. Magia e encantamento no lugar de uma vitória real. Os mitos arianos, lembremos, aparecem em várias outras civilizações da era de Áries, entre astecas, gauleses, védicos, romanos etc. Num plano histórico,  fica confirmada por ele a vocação imperialista grega pela expansão da civilização aqueia pelo Mediterrâneo, principalmente pelas suas maiores aventuras guerreiras, a destruição de duas grandes civilizações, a cretense e a troiana.


FULCANELLI
Lembremos que a Alquimia, numa brilhante análise de Fulcanelli (O Mistério das Catedrais), se apoderou simbolicamente deste tema do Velocino de Ouro como uma ilustração do início da Grande Obra, a saída da vida inconsciente, do domínio da vida instintiva (nigredo). para níveis superiores da existência. Algo semelhante à expedição de Jasão, quanto à sua motivação, com características arianas muito parecidas, reaparece, por exemplo, na Idade Média, quando o duque de Borgonha criou uma ordem da cavalaria, a serviço do mercado religioso católico, sob o nome de Velocino de Ouro, com o objetivo de libertar Jerusalém em poder dos infiéis muçulmanos.

Dentre todos os heróis gregos, fortemente impregnados de características arianas, não podemos deixar de lembrar do mais
AQUILES
famoso deles, Aquiles. Sua história é exemplar quando a associamos ao signo de Áries. Alongarmo-nos um pouco mais nela, acredito, será útil para um maior entendimento dos elementos do signo. O nome Aquiles em grego lembra dor, aflição (ákhos). A esse nome também podemos associar o que antigos chamavam de menis, o ódio, a raiva, a ira, principalmente o ódio que acumulado pode tomar uma forma furiosa. Dentre todos os personagens da Mitologia grega o mais famoso dos "enraivecidos" é, sem dúvida, Aquiles, o maior dos guerreiros. Homero, aliás, fala numa certa passagem de A Íliada desse menis, chamando-o de funesto, pois acabará provocando a perdição do famoso herói.