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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (2)

                                           
CONSTELAÇÃO   DE   ORION
Outra história da mitologia grega que mantém muitas relações com o universo escorpiano é a do gigante Orion. No mito, ele tem uma personalidade orientada instintivamente, dominada por paixões imperativas, por ideias e valores animados por pulsões violentas. Em Orion, sempre, as pulsões pela vida levadas ao extremo coexistem com um espírito tanático, uma ambivalência como a encontramos na frase de Nietzsche: O amor pela vida é, quase, o contrário do amor por uma longa vida, aplicável a alguns escorpianos. Não é por acaso que se diz de pessoas que têm este temperamento que elas têm “o Diabo no corpo”, um modo de viver que se caracteriza pelo desejo de ser sempre mais do que se é, um desejo que afasta sempre qualquer possibilidade de bem- estar e de satisfação. Uma angústia de viver que se alimenta de inquietações, exasperações, tormentos, agressividade e convulsões.  

Contam as várias versões do mito de Orion, todas descrevendo-o como um ser de extrema sensualidade, que sempre pontilharam a sua vida  cenas de vinho, de sexo, de violência e de vingança. Entregue a uma de suas grandes paixões, a caça, diz a lenda que ele chegou a ameaçar de extermínio os animais da terra, pondo assim em risco de destruição não só os ciclos da vida animal como os da ordem natural, ambas um reflexo da lei cósmica superior. Sendo-lhe oferecida, pela deusa Eos, uma oportunidade para se redimir, ele não conseguiu se libertar das suas tremendas pressões instintivas interiores, demoníacas, mantendo-se fixado no seu papel de grande sedutor, sempre belíssimo, esplêndido fisicamente, atraindo deusas e mulheres que a ele se entregavam, impotentes diante do seu poder de encantar, de fascinar. 


ÁRTEMIS
Uma das versões do mito nos conta que a deusa Ártemis, outra grande caçadora, ignorando as façanhas do nosso herói, que se gabava de ter livrado totalmente a ilha de Chios de perigosos animais, o convidou para acompanhá-la nas suas andanças cinegéticas. Apolo, irmão de Ártemis, que aliás não tinha muito sucesso com as mulheres, prossegue a mencionada versão, não viu com bons olhos essa “amizade”. Além disso, Apolo jamais esquecera que Orion havia partilhado o leito de Eos, a Aurora, na ilha de Delos, lugar sagrado, onde ele e a irmã haviam nascido. Por causa dessa grande indelicadeza da deusa da aurora com relação a ele, Apolo, o deus da luz, dizem as más línguas, foi condenada por Zeus a jamais deixar de se ruborizar. 




ORION   CARREGA   ÁRTEMIS
Apesar da segurança com que Ártemis conduziu a sua aproximação com Orion, alegando que nada poderia lhe acontecer, Apolo alimentava temores com respeito a essa relação, no que teve razão. Logo nos primeiros contactos com Ártemis, Orion deu mostras de seu descontrolado temperamento, atacando-a sexualmente, dando vazão ao seu invencível furor erótico, certamente atraído pela beleza física da irmã de Apolo.

A indignação de Ártemis diante da afoiteza e da petulância de Orion foi enorme. A deusa, como sabemos, gozava do privilégio da
ORION   E   ESCORPIÃO
virgindade, concedido por Zeus quando presenciou horrorizada o sofrimento da mãe, Leto, ao dar à luz ao irmão. O revide veio incontinenti: Ártemis arrancou das profundezas do terra um aracnídeo gigantesco (um ser até então inexistente na natureza), um escorpião, que, apesar luta de Orion para dele se desvencilhar, o picou no calcanhar, ferindo-o mortalmente. Por essa razão é que ambos, Orion e o escorpião, foram para os céus, transformados em constelações, para que a história deles nunca mais fosse esquecida.

Este episódio da morte de Orion nos faz lembrar que o calcanhar é um lugar, sob o ponto de vista astrológico, tradicionalmente considerado como ariano no corpo humano, muito vulnerável. Comuns as histórias, em mitos e lendas, que nos falam de ferimentos ou da morte de deuses solares, heróis e reis, atingidos nesse ponto. Só para citar alguns exemplos, temos, na mitologia egípcia, o deus solar Ra (serpente) e Harpócrates (escorpião); na mitologia grega, Aquiles (flecha), Talos (farpa), Édipo (argola); na mitologia escandinavo-germânica, Balder (visco); na mitologia védica, Krishna (flecha) etc. 

RAPTO   DE   KÓRE


Quando falamos do signo de Escorpião não podemos deixar de lembrar e voltar à história do rapto de Kóre, a jovem filha de Deméter, arrancada das suas inocentes brincadeiras juvenis quando colhia flores, na ilha da Sicília. Está hoje suficientemente reconhecido por todos que se voltaram para esta história que o Senhor do Inferno, Hades-Plutão, sem solicitar o consentimento de Deméter, sua irmã, “negociou” a sua união com a jovem com Zeus, seu irmão e pai da menina.

Zeus, ao que parece, nunca levou em consideração se a presença dos mortos (que não passavam, para os gregos, de sombras lamentáveis no Hades), com as suas queixas e lamentos, se as lúgubres trevas do reino infernal seriam de natureza a alegrar o coração da sua jovem filha. Nunca se perguntou também como a jovem viveria o brutal sequestro. Ele viu certamente o irmão como um “bom partido”, pois governava uma parte importante do universo. Ao concordar com o rapto, Zeus prestava, sem dúvida, um grande favor ao irmão, que não conseguia uma “rainha” para o seu reino, por motivos óbvios, apesar do título que a candidata escolhida ostentaria. E o mais importante, talvez, pois essa união sempre contribuiria para que o irmão, agradecido, não alimentasse ideias de atentar contra a sua soberania universal, como era costume acontecer entre os membros das elites divinas governantes.

Quando associamos o Hades grego ao signo de Escorpião, não podemos deixar de abrir um generoso espaço para o importante papel que nessa relação desempenha a história de Kóre-Perséfone.
PERSÉFONE   E   ROMÃ
 ( MAIA  RAMISHVILI )
Kóre, em grego, quer dizer jovem, donzela, o contrário de Kóros jovem, rapaz. Às vezes, a palavra é usada com o sentido de thygater, filha. No mito, nasceu ela da união de Zeus, o Senhor do Olimpo, com Deméter, a  deusa da terra produtiva. Um dos símbolos de Kóre era a semente, a própria imagem da alternância entre vida e a morte, lembrando tanto vida subterrânea como vida manifestada na superfície da terra. Raptada por seu tio, Hades-Plutão, levada para o Inferno, transformou-se em Perséfone, uma dualidade que nos coloca diante de dois arquétipos, o da jovem virgem e o da rainha do mundo infernal.

De um modo geral, Kóre é o arquétipo da jovem inconsciente quanto à sua personalidade visível nos seus relacionamentos com o mundo.  Possuídas por esse modelo, muitas jovens costumam erotizar bastante a sua aparência, o seu comportamento, a sua maneira de ser, colocando as pessoas à sua volta num estado de excitação e até de paixão amorosa muitas vezes incontrolável. O arquétipo de Kóre nos remete a uma das proposições mais importantes do tema da sedução: é mais pelo seduzido que pelo sedutor que a sedução se realiza. 

Realmente, apesar da sua imagem de “atacante”, o sedutor atua sempre nesse processo sob pressão. Ele é, digamos, constrangido a atacar. Seu ataque é comandado por aquele (a) que será a sua vítima. Todo sedutor é, assim, “forçado” a seduzir pela sua “vítima”. O que temos aqui é algo semelhante ao contrato masoquista, um contrato comandado pela vítima. Ao longo da história do homem, esta maneira de ser poderá ser facilmente constatada, sendo inúmeros os casos em que o sedutor não passa de uma marionete do seduzido. Bastante indecisa, às vezes falsamente ingênua, a jovem virgem Kóre, como uma flor, oferecendo os seus encantos aos que passam, “nunca sabe  bem o quer”, mas espera que algo lhe aconteça, que alguém a “colha” e que sua vida então mude.

A flor, como sabemos, se desenvolve entre a terra e água, princípios passivos. Suas pétalas, seu cálice, tudo nela é receptáculo da luz, da chuva, do orvalho, dos ventos, e, como tal, é dependente da atividade celeste. As flores, além de presentes em
ASFÓDELO
todas as etapas da vida (nascimentos, aniversários, celebrações, casamentos, mortes), sempre tiveram um papel importante no jogo da sedução, na literatura galante. Para os antigos gregos, a proximidade e/ou a inalação do perfume de certas flores era perigoso, como no caso de narcisos, asfódelos, jasmins, jacintos, camélias etc., todas presentes na mitologia grega, dela fazendo parte, às vezes, como importantes personagens. As flores brancas, particularmente aquelas que são muito perfumadas, segundo a tradição mediterrânea, podem até atrair a alma de pessoas mortas. 


NARCISO
O narciso, na mitologia, coroava a cabeça de várias divindades, das Erínias, das Moiras e, muitas vezes, do próprio Hades, sendo neste caso um símbolo do entorpecimento, da morte como um sono profundo. Como já se disse, narcisos , pelo seu perfume perturbador e soporífero, são ideais para a confecção de filtros mágicos. Diz a tradição que uma mulher que receba de um homem um buquê de narcisos ficará presa a ele, não conseguindo tiraá-lo mais da sua cabeça. 

O mito nos revela que, Kóre foi raptada quando, num prado da Sicília, junto com algumas jovens amigas, colhia flores. O mito nos revela mais que Kóre, ao contrário das amigas, se sentiu particularmente atraída por uma região mais seca do terreno, onde só havia um tipo de flores, de pétalas brancas, com uma pequena
NARCISSUS   SEROTINUS
coroa amarela no centro. Essa flor, conforme se comprovou posteriormente, foi criada especialmente pela Grande-Mãe Geia para auxiliar Hades-Plutão a raptar a jovem. Extremamente odorífica, dessa flor, chamada tecnicamente de Narcissus poeticus, às vezes confundida com o Narcissus Serotinus, os homens aprenderam a  extrair um óleo, muito usado na fabricação de perfumes. Atualmente, ao que me consta, ele entra na composição de dois perfumes muito famosos, Fatale e Samsara. O perfume do óleo do narciso lembra uma mistura do perfume de duas flores, do jacinto e do jasmim. De todas as espécies de narcisos, o poético é o mais perigoso. Pessoas que dormem ou que permanecem por algumas horas numa sala fechada onde houver narcisos poéticos correm o risco de sentir enjôos, náuseas, vômitos, fortes dores de cabeça. 

O complexo de Kóre vem sendo atualizado pela literatura, pelo cinema e, sobretudo, pelos meios de comunicação de massa (publicidade) através de vários estereótipos como lolitas e ninfetas, adolescentes que procuram sempre despertar o desejo sexual, modelos de comportamento muito ativos hoje tanto na área heterossexual como homossexual. Lembro que os norte-americanos, desde os tempos do cinema mudo, puseram em circulação o termo waif (gamine, em francês) para designar esse
AUDREY   HEPBURN
modelo, uma mistura de sexo e inocência, caracterizado por mulheres de aparência infantil, aparentemente frágeis, que pareciam “pedir” proteção, mas ocultando por trás de sua aparência, sutilmente erotizada, muita malícia, nocividade e perniciosidade como sedutoras (Audrey Hepburn é um exemplo clássico). Eram perigosas e sexualmente estimulantes. O grande arquétipo desse modelo é, sem dúvida, Kóre, “raptada” por Hades, o deus dos Infernos, com o consentimento de Zeus, o próprio pai. 

É preciso ressaltar, porém, que, se esse rapto foi um “trágico” acontecimento para Deméter, não o foi, como se disse acima, para a Grande-Mãe Geia,  que o viu como natural, como “algo” que faz parte da própria vida. Ela colaborou, como “sábia anciã”, para que o rapto se consumasse, não só permitindo que o  cenário fosse montado adequadamente (os atraentes narcisos) e também se “abrindo” para que Hades pudesse subir à sua superfície da terra para atacar a jovem  e depois voltasse ao seu reino subterrâneo. Do ponto de vista de Geia, tanto a sedução como a morte não têm nada de trágico, são acontecimentos que fazem parte do devenir da própria existência. 

O poema homérico nos diz sobre esta passagem que o narciso era um engodo, um favor de Geia, para aquele que recebe tantos, expressão pela qual os poetas se referiam a Hades Este deus era também poeticamente conhecido pelo nome grego de Pluton, nome retirado de uma palavra grega que significa rico. Ou seja, Plutão é o de “inumeráveis hóspedes” (uma referência às almas que recebia em seu reino) e o “muito rico” (uma referência aos tesouros e riquezas inexauríveis que a Terra guardava nas suas entrenhas).  

Narciso vem de narko, sono, narkê, torpor. A flor, entre os gregos, era vista como narcoléptica (narkê, torpor, e lepsis, ataque, rapto), sugerindo, por seu perfume, ideias de sono, morte e diminuição  do nível da consciência. Em razão de sua forma, que lembra o lírio, o narciso aparece ligado à corrupção da virgindade, da pureza. O narciso era também flor muita usada em ritos funerários, ornando os cadáveres levados para inumação nos cemitérios.


RAPTO   DE   KÓRE

A “perdição” de Kóre, como tudo indica, foi apoiada pela Grande-Mãe, que se tornou assim cúmplice de Hades, pois para ela o mundo subterrâneo (o subconsciente, se quisermos) também fazia parte da natureza (vida consciente). A história de Perséfone nos permite perceber todo o dualismo de seu mito, ou seja, o de se ver o mundo inferior como o mundo das almas e o mundo superior como o da luz, da vida física.  Ou seja, para que a vegetação pudesse crescer na superfície da terra, era preciso uma descida ao mundo ctônico. O “invisível” dando origem ao “visível”. Tomar consciência será assim ter percepção do “invisível”, do mundo inferior.

A jovem Kóre, enquanto vivia exclusivamente presa à mãe, não tinha nenhuma consciência de si mesma, da sua beleza, não conhcia os seus motivos subjetivamente, apenas existia simbioticamente.  Fazia-se sedutora para ser colhida, uma flor. Não percebia o quanto atraía sexualmente. Vivia para oferecer ao mundo a sua imagem mais desejável; por isso, mudava semore,  constantemente, adaptando-se como um caleidoscópio.  

A palavra Kóre em grego era usada também para designar a pupila
Adicionar legenda
(menina) do olho que, a rigor, é um vazio, isto é, um orifício situado no centro da íris que, ao se contrair ou dilatar, permite regular a quantidade de luz que penetra no olho. Daí, os outros sentidos que a palavra pupila toma, sentidos  úteis para apreendermos tudo o que arquetipicamente a jovem filha de Deméter pode significar. Pupila é aquela que um educador, um mestre, deve educar, aquela que deve ser tutelada por alguém; é uma protegida, uma educanda, uma noviça. Os gregos davam às bonecas também o nome de kóre, um simulacro do corpo feminino.

Invariavelmente, todos os que se voltaram para o tema de que tratamos falam da filha de Deméter como vítima, a que foi abduzida. O sedutor, no caso, é o deus soturno de um reino para o qual ninguém desejava ir, deuses ou mortais, dono de uma força viril ativa irresistível diante da qual o feminino (passivo) não tinha outra alternativa senão a de se render, se entregar, abandonar-se. A sedução, nessa perspectiva, é sempre apresdentada como um jogo a dois, no qual um (o mais forte) ganha e o outro perde, presente a dialética do dominador e do domimado (O D/s dos psicólogos). 

Apesar de toda a diversidade dos personagens que costumam tomar parte neste jogo, não podemos admitir que a sedução (seducere, etimologicamente, desviar do reto caminho, tirar de lado) seja simplesmente um  querer fazer mal consciente, um constrangimento imperativo irrecusável por parte de quem o pratica. Neste jogo, muitas vezes, o que parece ser o vencedor, como dissemos, aquele que aparentemente se beneficia do ataque (que colhe a flor), nem sempre é quem dá início ao jogo ou aquele que se delicia mais. É claro que sob um ponto de vista teológico, etimológico ou jurídico os sedutores serão sempre o Diabo ou um grande libertino, grandes pecadores, criminosos etc. No Direito Penal brasileiro, por exemplo, sedução é o crime de se manter conjunção carnal com mulher virgem entre 14 e 18 anos, com

aproveitamento de sua inexperiência e/ou justificável confiança. O aparecimento do sedutor (oportunidade, circunstâncias etc.) é determinado em grande parte pela parte seduzida. Na vida religiosa, este princípio pode ser assim expresso: todo místico acaba sempre encontrando o seu deus. Na vida libertina, é o caso do Don Juan descrito por Kierkgaard, seduzido pelas mulheres das quais ele já havia se tornado cativo.

Essa questão de se considerar a sedução simplesmente como um desvio maléfico deve ser revisada, admitir outra leitura, que não fique restrita ao ponto de vista dos jogadores. A sedução é, efetivamente, um desvio maléfico, em muitos casos, mas noutros (em grande parte, talvez) não o seja. Refiro-me, sob o ponto de vista factual apenas, às delícias da sedução, efêmeras ou duráveis,
( F. M. CARMONTELLE, 1750-1825 )
mas sempre delícias. Dentre todos os exemplos para reforçar o que aqui se afirma podemos ficar com os casos mais “difíceis”, o da sedução das “mulheres austeras” ou “as aquecidas pelo Divino”, as “loucas de Deus”, as que formam aquele grande contingente das esposas místicas em todas as religiões. Choderlos de Laclos tratou delas e a Igreja católica transformou muitas mulheres raptadas como Kóre  em santas. 


No tocante às religiões (refiro-me aqui de modo especial ao Cristianismo), é oportuno lembrar, quando seduzidas pelo divino, as mulheres, absolutamente, segundo a ortodoxia dominante, não se desviaram de nada, nem de si mesmas; foram promovidas, colocadas numa categoria especial, foram santificadas, tornando-se dignas de veneração e respeito. Gozaram, simplesmente, por ele
SÃO    JOÃO   DA   CRUZ
possuídas, pelo divino. Quando se trata de homens então, os casos parecem ser bem mais interessantes, pois nos põem mais profundamente diante da chamada feminilidade da alma mística, a “alma-esposa”. São João da Cruz entendia disto muito bem, referindo-se a si mesmo no feminino. Estes seduzidos, homens ou mulheres, são sempre extremamente sedutores. É extensíssima, como sabemos, em todas religiões a galeria dos seduzidos pelo divino, mulheres e homens.

Todos os fenômenos religiosos que nos falam de penetração pelo divino, do toque do divino, conversões, religiões reveladas, de mistério, participações rituais, transes oraculares, profecias etc., têm inegavelmente uma forte conotação sexual. Para receber o divino temos que nos tornar femininos, esvaziarmo-nos, como no caso do ekhstasis dos Pequenos Mistérios em Eleusis. Platão, por exemplo, associa o conceito de possessão pelo divino (enthousiasmòs) a um estado não-racional, feminino. 

PLUTÃO - HADES
O que temos na realidade, em muitos casos, quanto ao feminino, é que as seduzidas são grandes sedutoras. A mulher seduzida, como o sedutor, também “atira” as suas flechas. Elas, “ao cair”, levam junto o sedutor, o derrubam. Kóre vinha há muito, em que pesem os seus poucos anos de vida, pedindo para ser colhida. Quanto a Plutão - Hades, as consequências de seu ato, como tudo indica, ele as suportará até o final dos tempos, administrando o seu reino em companhia de Kóre, que assumiu o papel de esposa amantíssima e obediente, sob o nome de Perséfone.

Os estudiosos do mito, de todos os tempos, nunca abordaram o day after do rapto de Kóre, sob o ponto de vista de Plutão - Hades.
HÉRCULES  ,  PIRITOO  ,  TESEU
Atendo-nos ao mito, Plutão nunca mais raptou alguém. Aliás, mostrou-se sempre muito consciente dos seus poderes e deveres familiares. Lembremos do modo como agiu (marido exemplar) quando dois fanfarrões, Teseu e Piritoo, invadiram o seu reino com a pretensão de raptar Perséfone. Agiu prontamente, prendendo-os e os mandando para o Tártaro, lugar sem volta. Teseu lá ficaria para todo o sempre se não fosse Hércules... 

O que podemos concluir desse episódio, ligando-o a outros dados “biográficos” de Plutão - Hades, é que ele precisava apenas de uma “esposa oficial”, de alguém para assumir o lugar de “primeira dama” no seu reino. Nunca foi um sedutor como seu irmão Zeus, este sim um grande semeador de filhos, os chamados espúrios, alguém que não admitia negativas diante do seu furor erótico.

CHAPEUZINHO
(J. W. SMITH , 1863 - 1935 )
Sob um outro ponto de vista, psicológico, se quisermos, a ação de Plutão - Hades (função de todo “raptor”) não teve outra finalidade senão a de fazer Kóre tomar consciência do seu corpo como polaridade geradora. Aliás, aquilo que aconteceu a Kóre vem sendo atualizado simbolicamente por várias histórias, como, por exemplo, a do Chapeuzinho Vermelho, na qual Hades, Deméter e Kóre são, respectivamente, o lobo, a avó e a heroína. O rapto de Kóre é, neste sentido, uma “descida” que toda mulher deve fazer não só ao interior do seu corpo, e, dessa experiência, chegar a novas formas de autoconhecimento para buscar outras possibilidades de crescimento.

O aspecto sublime do drama Deméter-Kóre está representado, sem dúvida, pelos Mistérios de Elêusis, doação de Deméter à humanidade, como um grande processo transformador no sentido de uma espiritualização progressiva da vida material, tanto no nível pessoal como coletivo. Não é por oura razão que a divindade condutora dos mystai a Elêusis era Dioniso, o deus das metamorfoses, a divindade que num primeiro momento lembrava a regressão, a supressão das interdições, o mergulho na indiferenciação, para, num segundo momento, significar o renascimento sob uma outra forma. Não nos esqueçamos que a terceira fase dos Pequenos Mistérios, a do enthousiasmòs (literalmemente, deus em nós) se realizava quando Dioniso “possuía” o iniciado. A forte conotação sexual dessa penetração divina é evidente. Todo iniciado que participasse dos Mistérios de Eleusis assumia naturalmente a condição de uma Kóre, isto é, tornava-se feminino, sendo invadido pelo deus. 


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Psicanaliticamente, os Mistérios de Elêusis podem ser vistos como uma proposta de descida à vida subconsciente a fim de serem libertadas as potencialidades lá aprisionadas. É neste sentido que Perséfone seria um símbolo do recalque. É no simbolismo da semente que desce ao interior da terra que devemos procurar a busca de certas faculdades espirituais (a busca do tesouro interior) que levam o ser humano ao autoconhecimento. O guia das procissões noturnas que no outono saíam de Atenas em direção de Elêusis pelo Cerâmico era Dioniso, que, como esclarecia Heráclito, era Plutão-Hades, sob um outro aspecto. Esta identificação se tornará mais clara se acrescentarmos que a mãe de Dioniso era Sêmele, nome que lembra semente, uma personificação da terra, como Deméter, fecundada por Zeus na forma de chuva primaveril.

O retorno de Kóre, por outro lado, à mãe não é mais que a ilustração de um dos subciclos do movimento cíclico das estações. Não é por acaso que no dia 22 de setembro (começo do outono), quando se realizava a epopteia, a contemplação, a consumação dos Grandes Mistérios, Perséfone tinha nessa cerimônia um papel muito importante. Ela, como a venerável Brimo, apresentava à multidão de iniciados Brimos, o menino sagrado, o puer aeternus, símbolo da energia universal que não morre nunca, que a cada ano
TELESTERION
retorna. Os Mistérios de Elêusis falavam de uma solidariedade entre a mística agrícola e a sacralidade da atividade sexual. Brimos era gerado pela grande deusa na escuridão do Telesterion e trazido diante da multidão como símbolo do mystes, o iniciado renascido. Brimos, em Elêusis, era um epíteto do deus Dioniso, a criança sagrada, nascida de Perséfone. É dentro do cenário eleusino que o culto de Dioniso significa uma proposta de mudança, de transformação, de espiritualização de quisermos, na medida em que ele nos fala de morte e renascimento. 

A palavra Brimo, de origem trácia provavelmente, sempre teve o sentido de algo terrível, algo que se presenciava com horror. Traduzia ela também uma ideia de inexorabilidade, aparecendo sempre ligada ao mundo infernal, sendo, por isso, muito aplicada a deusas que tinham relações com esse mundo. O nome era usado às vezes como um qualificativo para designar o que deusas como Perséfone, Hécate ou as  Erínias provocavam, um misto de temor, de horror. A palavra era também aplicada a Deméter, em Elêusis. 

A figura de Perséfone tem, no mito, um caráter ambíguo. Afora os seus “deveres oficiais” nos Mistérios de Elêusis e ao lado do marido, sua história é discreta, não é muito rica de acontecimentos. Perséfone aparece nos trabalhos de Hércules (décimo trabalho), no mito de Teseu (já mencionado), no Orfismo e numa disputa que teve com Afrodite. Quanto ao Orfismo, há apenas a mencionar que quando o famoso cantor trácio desceu ao Hades para resgatar a alma de sua falecida noiva, Eurídice, Perséfone, muito tocada pela grande prova de amor por ele demonstrada, interveio decisivamente, com sucesso, no sentido de obter de seu esposo autorização para a libertação da alma da desditosa jovem.


DIONISO , DEMÉTER , MÊNADES




terça-feira, 21 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (1)



              

Desde tempos muito recuados (5.000 aC) que o signo de Escorpião era conhecido por mesopotâmicos, persas, judeus, turcos, maias e muitos outros povos. Na Mesopotâmia, o signo tem a ver com
TIAMAT   E   MARDUK
Marduk, divindade que, à medida que a cidade da Babilônia se firmava como o maior centro do poder no território compreendido entre os rios Tigre e Eufrates, sobrepujou todos os demais deuses. Esta posição se deve sobretudo à sua vitória sobre Tiamat, o oceano primordial, símbolo das trevas e do caos. Depois dessa vitória, os deuses lhe atribuíram cinquenta títulos em sinal de reconhecimento e lhe conferiram o privilégio de fixar os destinos humanos. Desta maneira, Marduk reuniu em si mesmo a plenitude do divino e do humano. Na terra, era não só aquele que fazia crescer os cereais, mas o mundo vegetal como um todo, estendida sua ação inclusive a toda a vida animal.





Marduk se transformou aos poucos na grande divindade organizadora da vida universal. Era representado geralmente como um deus armado, abatendo um dragão, na sua forma mais elevada,
ESAGIL  ( RECONSTITUIÇÃO )
entronizada no grande templo babilônico de Esagil. Desta cidade, a imagem do deus ia para o interior do país, para uma região chamada Akitu, onde ficava vários dias. Lá se realizavam cerimônias, preces, cantos, rituais mágicos, purificações e sacrifícios. O próprio rei ia a Akitu para lhe prestar homenagens, quando, então, a imagem do deus, por uma longa via sagrada, era conduzida para as margens do rio Eufrates, onde havia um grande templo. Marduk, sob o nome de Bel-Marduk, lá permanecia por uns dias, voltando depois a Esagil. Estas cerimônias, no seu todo, duravam vários meses e constituíam uma espécie de religião de mistério, que figuravam a morte do deus, o seu renascimento e, enfim, a sua união com a deusa, Ishtar. 


TEXTO   DAS   PIRÂMIDES 

A história de Marduk, como se pode ver, guarda estreitas relações com outras, de natureza escorpiana, em que divindades infernais
TEXTO   DOS   SARCÓFAGOS
aparecem relacionadas com os temas da morte e do renascimento. Uma das mais famosas nos vem do Egito, a do deus Osíris. É sobretudo a Plutarco, historiador grego dos sécs. I-II dC, que devemos a história mais completa sobre a vida de Osíris, de sua união com Ísis e da luta que travou contra seu irmão Seth. Textos egípcios (Textos das Pirâmides e Textos dos Sarcófagos) completam as informações de Plutarco.

HINO   A   OSÍRIS
Um dos mais belos textos sobre o deus, o Grande Hino a Osíris, está numa estela exposta hoje no museu do Louvre. Nela se registra, de modo bastante poético e imaginoso, a procura do corpo do deus por Ísis e por Néftis, as lamentações amorosas da primeira e a sua fecundação pelo deus. 

Osíris, “o que tem muitos olhos”, foi associado pelos gregos a duas de suas principais divindades, Dioniso e Hades. Primitivamente, era um deus da natureza em que se encarnava no espírito da vegetação que morria com a colheita e que renascia com a germinação dos grãos. Nesse sentido, foi adorado em todo o Egito como deus dos mortos, condição que o levou ao primeiro lugar no panteão egípcio. 

Muito parecida com a história de Osíris como espírito da vegetação
SAFO  ABRAÇANDO  SUA  LIRA
( J. E. DELAUNAY , 1828 - 1891 
que morre e renasce é a de Tammuz, divindade babilônica, favorito da deusa Ishtar-Astarte. Devidamente adaptada, esta história aparece no mundo semítico, tomando Tammuz o nome de Adônis (adon, mestre, senhor), de onde passa para o mundo grego, para fazer parte de mitologemas relacionados com a Afrodite grega, helenizando-se, assim, as tradições míticas orientais. Lembre-se que todas estas histórias já eram conhecidas no mundo grego desde os sécs. VIII e VII AC., por poetas como Hesíodo e Safo.



O nascimento de Osíris foi muito “problemático”. A começar pela “gravidez” de sua mãe, Nut (o equivalente da Reia grega), que se relacionara secretamente com o deus Geb (o equivalente de Cronos entre os gregos). Ra, o Sol, divindade que tudo via e sabia, muito irritado, colérico, procurou interferir de modo a tornar a gravidez impossível. Muito angustiada, Nut procurou um lugar em que pudesse parir fora do alcance dos olhos de Ra. Não encontrou um lugar em que pudesse se refugiar. A vigilância de Ra era tão implacável que durante a sua viagem noturna pelas trevas encarregava o deus Lua de não perder Nut de vista. 


NUT

As coisas estavam nesse pé quando o deus Toth resolveu prestar auxílio a Nut. Este deus, o das palavras medidas, segundo a história nos conta, nutria grande admiração por Nut ou uma grande paixão, conforme outras versões. Toth convidou o deus Lua para um jogo de dados. A partida foi longa e disputada, mas Toth acabou vencendo. Pediu, pela vitória, que o deus Lua lhe fornecesse a 72ª parte do período de sua luminosidade. Com isso, pode então Toth criar e acrescentar cinco dias suplementares ao período anual, chamados estes dias de epagômenos. Lembremos que epagômeno (epagô, em grego, é trazer, introduzir, acrescentar por indução) é o dia que se acrescenta a um calendário.  Entre os egípcios, era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil, que compreendia doze meses de trinta dias. 


ESCADA  DE  JACÓ (W. BLAKE , 1757 - 1827)
Lembremos que 72 é um número caro a todas as tradições antigas ao indicar ascensão e valorização. Platão nos fala que é o número das “bodas herméticas”, da união do céu com a terra, correspondente a oito gestações completas. Os assírios, os caldeus e os judeus contam em seus calendários mágicos 72 anjos tutelares e  que esse é o número de semidecanatos em um ano. 72 é também o número de degraus da escada de Jacó, que liga o céu e a terra. Plutarco fez alusão a cinco dias que o deus Hermes intercalou em um ano de 360 dias, tirando diariamente 1/72 de cada dia. É de se mencionar também que o aspecto astrológico de 72º tem o nome de quintil, aspecto de natureza “oculta”, devido ao seu grande potencial criativo, numa perspectiva muito individual.



Filho mais velho de Geb e de Nut, irmãos, deuses da segunda dinastia, portanto, como se disse, nasceu Osíris em Tebas, no Alto-Egito, sendo o primeiro dos cinco filhos do casal divino. Nos demais dias epagômenos nasceram, pela ordem, Haroeris, Seth, Ísis e Néftis. Os textos hieroglíficos encontrados pelos arqueólogos contêm inúmeras alusões aos fatos da vida terrestre de Osíris, por eles se sabendo que Ra acabou por aceitar o nascimento de seu neto, reconhecendo-o como herdeiro de seu trono. 

Quando Geb se retirou para os céus, Osíris o sucedeu na qualidade de rei do Egito e se uniu a sua irmã, Ísis. O primeiro ato de Osíris como governante máximo foi o de abolir a prática da antropofagia
FLAUTA  EGÍPCIA
entre os humanos; depois, na sua função civilizadora, ensinou aos seus súditos os processos de fabricação de instrumentos agrícolas e os instruiu na arte do plantio de cereais e da videira, até então desconhecidos, o que lhes permitiu fabricar o pão e bebidas como o vinho e a cerveja, ambas bebidas da imortalidade. Osíris instituiu os cultos divinos, inexistentes; fez construir os primeiros templos, inventou instrumentos como a flauta e ensinou a arte musical para servir de sustentação aos cantos nas festas. 


OSÍRIS
Depois de civilizar o Egito, Osíris, com o mesmo intuito, dirigiu-se à Ásia, deixando Ísis na regência do trono. Acompanharam-no Toth, seu vizir, e seu grande oficial, Anúbis, “o que abre caminhos.” Inimigo de toda violência, foi pacificamente que ele levou a civilização a todos os recantos da terra. Retornando ao seu país, Osíris foi atacado numa emboscada e morto por seu irmão Seth, que armara um complô para destruí-lo. Este acontecimento se verificou no vigésimo oitavo ano do reinado de Osíris, que teve seu corpo despedaçado pelo irmão e espalhado por vários lugares do país. 

Graças, contudo, a seus poderes mágicos, Ísis, ajudada por Toth, Anúbis e Hórus, este filho póstumo dela e de Osíris, conseguiu fazer com que seu marido voltasse à vida. Ressuscitado e ao abrigo
FERTILIDADE   TRAZIDA    PELO    NILO

 da morte, Osíris preferiu deixar a terra e descer ao mundo subterrâneo para reinar sobre os mortos. O que a história desse deus nos revela, assim, na sua dimensão cósmica, é que ele se identificou simbolicamente com o espírito da vegetação que morre e renasce incessantemente, representado, nesse sentido, pelo trigo, pela vinha, pelas árvores e pelas plantas em geral. Ele é também o rio Nilo que, a cada ano, míngua no período da seca e que recupera a sua força, quando das enchentes, vencendo assim o deserto. Ele é, numa palavra, tudo o que a cada crepúsculo se apaga, como o Sol, para renascer a cada manhã, trazendo a luz de volta. A luta entre ele e seu irmão Seth (representado pelo dragão Apophis, equivalente do Tifon grego) nada mais é que uma imagem dessa alternância, a luta entre o deserto e a fertilidade das terras inundadas pelas águas do rio, o choque entre os ventos quentes e a umidade de que a vegetação precisa, a batalha entre a obscuridade e a luz. 



É, contudo, como divindade do “Outro Lado” (Duat) que os cultos de Osíris atingiram a sua máxima expressão e popularidade, pois ele dava aos seus fiéis a esperança de uma vida eternamente feliz no além, num mundo governado por um rei justo e bom. Adorado em todo Egito, em companhia de Ísis e de Hórus, Osíris forma com eles a chamada trindade osiriana (imagem à direita), honrada em todo o país. 

Embora as fontes faraônicas já apresentassem, desde o período do Antigo Império, os principais elementos do mito, a história de Osíris só ganhou grande divulgação com os gregos, espalhando-se por todo o Mediterrâneo. Foi a partir de então que Osíris passou a ser conhecido como um símbolo da potência imperecível do mundo natural, da vegetação em especial, e do chamado Sol Negro, o Sol em sua viagem noturna. É neste sentido que Osíris é cultuado como a grande divindade da morte e do renascimento, tendo também a ver seu mito, numa leitura psicanalítica, com as fases da individuação psíquica do ser humano.

Inegavelmente, o que melhor ilumina o mito osiriano é a leitura astrológica na medida em que o signo de Escorpião simboliza o fim da vegetação, a queda e a decomposição dos galhos e folhas, e, num sentido lato, evidencia a destruição das formas e dos valores objetivos do ser humano. Alquimicamente, quando o Sol transita pelo signo de Escorpião nos céus, passamos a trabalhar, no mundo natural, com ideias de desagregação, de fermentação e de putrefação, operações sem as quais não podemos pensar em renascimento.    

Na mitologia mesopotâmica, sob o reino de Apsu, o grande abismo cheio de água que cerca a terra, está o mundo infernal, região para a qual se dirigiam os que morriam, um “lugar sem retorno”. Para chegar a ele era preciso atravessar um rio e depois ingressar num palácio de sete portas, abandonando-se em cada uma delas uma peça da roupa que o morto (alma) vestia. A audaciosa Ishtar, um dia, atreveu-se a visitá-lo e quase dele não conseguiu sair se não fossem os seus poderes mágicos e, sobretudo, a intervenção de Ea, uma espécie de Poseidon, grande divindade do Apsu. Às vezes, os deuses permitiam que os encerrados no inferno voltassem por uns momentos à superfície luminosa da terra, como foi o caso de Enkidu, companheiro de Gilgamés, autorizado inclusive a revelar ao amigo o que se passava nas trevas infernais. 

EDIMMU

As almas dos mortos que lá viviam eram chamadas de edimmu, aladas como os pássaros; alimentavam-se, com raras exceções, de poeira e de lama. Além dessas almas, encontravam-se também no inferno os deuses vencidos, cúmplices de Tiamat, derrotados por Marduk, quando da grande batalha vencida por este último, o que ensejou a cosmização do universo criado. 

No épico babilônico sobre a criação, aparecem duas entidades com destaque. Uma delas é Apsu, também chamado Abzu ou Engur, nele residindo seu filho, o sábio deus Enki (Ea) e sua esposa Dulgalnuna, subordinando-se a eles várias criaturas marinhas. Enquanto Apsu personificava as águas subterrâneas, as águas salgadas eram de Tiamat. Formavam, Apsu e Tiamat, um par macho-fêmea. Geraram eles uma linhagem divina, da qual faziam parte, além de Enki, outras divindades que acabaram por criar muitos problemas a Apsu. Muito descontente, Apsu resolveu
BABILÔNIA  -  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO
exterminá-los, apesar dos protestos de Tiamat. Revoltada, incontida e aparentemente ilimitada no seu eterno vai-e-vem, Tiamat lembrava a indeterminação, o caos primordial, informal e tenebroso. Constituía-se, como tal, num perigo permanente para os deuses que, na nova ordem, representavam o mundo masculino. Aliada do mundo feminino, Tiamat precisava ser vencida e, de fato, o foi por Marduk, a divindade tutelar da Babilônia, que se tornou a primeira cidade do país, capital do império.     


ERESHKIGAL
Nesse cenário, sobre o mundo infernal reinava sozinha a deusa Ereshkigal. Um dia, porém, o deus Nergal, com catorze demônios, invadiu esse reino; a paz foi negociada então, unindo-se Ereshkigal ao deus invasor como esposa. Até então deus da guerra e da destruição, tornou-se Nergal baal (deus) dos mortos. Ele usava como símbolo uma espada e, às vezes, um elmo feito com uma cabeça de leão. O visual de Nergal era muito semelhante ao de Ares e de Marte, deuses da guerra, respectivamente, entre gregos e romanos, sendo também evidente, por outro lado, as suas implicações astrológicas com o planeta de mesmo nome (regente de Escorpião). Seu primeiro ministro e comandante das tropas infernais era Namtaru, o deus da peste. 

NERGAL
Ereshkigal e Nergal eram auxiliados também por sete annunaki, que agiam como juízes, sendo o tribunal presidido pelo deus Sol-Utu. Além deles, havia uma força policial, os galla, para cuidar da segurança do reino. No mais, esse submundo era concebido de modo semelhante ao céu, ambos organizados em função de modelos terrestres. Mesmo na morte havia uma rigorosa ordem de preferência, sob o ponto de vista social. As almas dos reis e dos altos funcionários ocupavam sempre os melhores lugares. A alma de qualquer defunto ilustre tinha, ao chegar, de oferecer sacrifícios aos seus nobres predecessores. A conduta nesse submundo obedecia a certas regras, impostas por Gilgamés, o grande herói, que se tornou um deus depois de sua morte. 

Se as sentenças fossem favoráveis, as almas podiam esperar uma existência razoavelmente satisfatória. Não obstante essa promessa de esperança, os mesopotâmicos sempre acreditaram que a vida no reino infernal seria sempre um pálido reflexo da que havia conhecido na Terra. Tinham eles bem poucos motivos para esperar uma vida venturosa no inferno, mesmo tendo sido impecáveis na sua conduta em vida. 

A história do amor entre Ereshkigal e Nergal é narrada num texto que tem o nome dos dois personagens. É por esse texto e outros que tomamos conhecimento de mais alguns atributos de Nergal como a de que era a divindade responsável por declarações de guerras, pela devastação de florestas pelo fogo, por epidemias de febres e por pragas de toda espécie. Fazia parte do seu séquito, dentre outras divindades menores, mas igualmente violentas, a deusa Erra, que dizimava pelas doenças populações inteiras.  


DIONISO
Se nos voltarmos para a Grécia, não há como não deixar de aproximar o que dissemos acima de Osíris da história de Dioniso e evidentemente do signo de Escorpião. Desde a sua origem, Dioniso, o deus de Nysa, como sabemos, sempre teve uma forte relação com a vida animal e vegetal, honrado, por isso, ao ar livre, no alto das montanhas. Sua relação com o vinho, bebida enteógena, liberadora, também se fixou logo, juntamente com espetáculos dramatúrgicos, que estão na origem de seus cultos. 

Aos poucos, foi incorporando o deus outros traços para se constituir numa divindade ligada à renovação cíclica da natureza e às metamorfoses do mundo animal e humano. Como deus civilizador, aparece Dioniso ligado aos prazeres, à exuberância, aos desregramentos, ao rompimento de limites. Psicologicamente, ele tem a ver com tudo aquilo que, no ser humano, dissolve a cristalização de formas, de complexos e de comportamentos automatizados, podendo causar, através dessa ação, regressões a perigosos e temidos estados caóticos, pré-egoicos. Neste sentido, ele atua sempre no sentido de eliminar repressões, constrangimentos e limites, quando as necessárias transformações ou atualizações dos seres e dos organismos sociais não acontecem, trazendo a loucura, a destruição e mesmo a morte.


CULTO   DE   DIONISO

Os cultos de Dioniso sempre oscilaram entre o espiritual e o físico, mostrando-se no geral muito “selvagens” e turbulentos (como os de certas correntes shivaístas na Índia), o que incomodava sobremodo a polis grega, que, por isso, procurou “civilizar”, ou melhor, urbanizar o deus de qualquer maneira. Assim, suas festas foram aos poucos sendo incorporadas ao calendário oficial de Atenas; os dramas dionisíacos, espontâneos e naturais, foram dando lugar a manifestações teatrais com regras bem definidas (tragédia e comédia), patrocinando o poder público competições que no gênero marcaram profundamente a vida grega.

Para se entender o que estamos a expor é preciso lembrar que a religião oficial da polis grega (Atenas) era aristocrática. Os deuses olímpicos atuavam para reprimir a hybris dos que tentassem ir além do seu métron. A meta da religião olímpica era a obtenção do conhecimento contemplativo (gnosis), a purificação da vontade para que o divino fosse recebido (khatarsis) e obtida a consequente libertação do ser para uma vida de imortalidade (athanasia). As principais divindades do mundo olímpico, inspirador da ordem aristocrática, eram Zeus, Apolo e Palas Athena.

Do outro lado, opostas, tínhamos as correntes religiosas dionisíacas, voltadas para os mitos naturalistas, para os cultos agrários, do tempo cíclico, divindades da vegetação e da vida animal, que morriam e ressuscitavam. Dioniso era a principal delas. Ele era o deus da libertação, da orgia, do êxtase e do entusiasmo, que tinha na videira o seu maior símbolo. Seu culto logo se tornou popular, sendo considerado como o deus dos deserdados, dos que não tinham vez na polis aristocrática, as mulheres, os metecos (estrangeiros), as crianças e os escravos. Ele fazia parte de um grupo de divindades que lembrava a morte, a catábase, a viagem infernal, e o renascimento. 


ORFISMO
O sucesso do orfismo na polis grega, como seita religiosa, se deve provavelmente a este problema, o dos desregramentos dos cultos dionisíacos, sempre temíveis, sobretudo sob o ponto de vista político. Não é de espantar que o cristianismo, nos seus primórdios tenha chegado a ver Orfeu como uma prefiguração de Cristo. Orfeu é um personagem mítico, sedutor, que aparece no mundo grego como uma tentativa de se neutralizar os “perigosos” cultos dionisíacos, sempre uma ameaça para a polis aristocrática, apolínea. 


ORFEU
Recapitulando rapidamente o leit motiv da história de Orfeu, grande poeta e cantor, lembremos que devido à morte de sua amada, Eurídice, ele obteve permissão para retirá-la do inferno sob a condição de não procurar revê-la até que tivessem ambos saído do mundo infernal, ele caminhando na frente, ela atrás. Mas no momento em que está para atingir o mundo dos vivos, Orfeu se volta para vê-la, perdendo-a, por isso, definitivamente. Desesperado, tentou ainda recuperá-la, mas em vão, Eurídice retornara ao Hades. Cheio de dor, Orfeu desde então desdenhou todas as mulheres. Por essa razão, foi destroçado pelas mênades, as sacerdotisas de Dioniso.


ORFEU   E   EURÍDICE  ( G. F. WATTS , 1870 )

Segundo a doutrina órfica, a alma imortal habita um corpo mortal; depois da morte, ela passa uns tempos no inferno para se purificar, reencarnando depois num outro corpo humano ou mesmo no de um animal, enriquecendo-se de experiências nestas transformações sucessivas, semelhantes ao samsara dos hindus. Só os iniciados conheciam as fórmulas mágicas que permitiam a metempsicose e a salvação definitiva da alma. O orfismo comportava muitos dogmas, princípios filosóficos, regras de alimentação, controle da sexualidade etc. Praticavam os órficos a abstinência da carne e vestiam-se de branco, símbolo da pureza. 

O orfismo e o cristianismo trouxeram ao mundo grego e helenístico a promessa de uma vida futura. Ambos, Orfeu e Cristo, aparecem assim como mediadores da divindade para multidões sofredoras da agonizante cultura greco-romana, falando-lhes de uma vida eterna. Cristo é, porém, um produto típico de uma religião patriarcal, cujos profetas representam seu Deus como um ser absoluto. A orientação do cristianismo quanto ao espaço e ao tempo é também muito diferente daquela que o orfismo propunha. Este nos fala de uma religião que propõe uma alternância cíclica entre o mundo inferior e o superior que lembra a alternância do mundo vegetal; o outro, o cristianismo, é celestial, escatológico e finalista (para informações mais detalhadas sobre o Orfismo, leia neste blog o artigo Orfeu ou O Fracasso de um Poeta). 




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

LIBRA (4)

                                        
PSYCHE E O AMOR , 1798
( FRANÇOIS  GÉRARD )
Muitos astrólogos, desde a antiguidade, associam a Libra o mito de Cupido e Psyche, na medida em que o signo procura descrever como um  ego busca o  seu complemento. É só através dessa busca e de seu sucesso, como sabemos, que o tipo astrológico libriano se realiza plenamente. O mito procura traduzir, de certo modo, a busca do Outro, a busca de um complemento, no geral muito mais inventado, idealizado, do que real.  


APULEIO
Antes, contudo, a origem da história. Tudo começou com Lucius Apuleius Theseus (170-125, Madaura, atual Argélia), chamado simplesmente de Apuleio, escritor latino polígrafo de origem africana. Depois de ter estudado eloquência em Cartago, dirigiu-se a Atenas, tornando-se adepto do platonismo. Percorreu em seguida boa parte da Ásia Menor e do Mediterrâneo fazendo-se iniciar em cultos de mistério (Mitra, Elêusis, Ísis, Cabiros, Cibele, Astarte, Sabazios) na esperança, como dizia, de “encontrar o segredo das coisas” e de “se abandonar a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio.” Voltou a Cartago, assumindo a advocacia, tornando-se um retor célebre. Além de alguns pequenos tratados filosóficos e discursos, escreveu Floridus e De Magia ou Apologia, este último composto como
METAMORPHOSIS
peça de sua defesa por ter sido acusado de seduzir uma rica viúva chamada Prudentilla, para lhe tomar a fortuna. Sua obra mais importante intitula-se Metamorphosis, chamada algumas vezes de O Asno de Ouro, onde se encontra o seu famoso conto Cupido e Psyche, que podemos certamente relacionar com a peça de defesa acima mencionada. Apuleio nos deixou como escritor a imagem de uma poderosa sensibilidade sempre às voltas com influências místicas, grande imaginação, alegria, gosto pela paródia e construções rebuscadas, tudo numa linguagem eivada de preciosismos.

O conto de Apuleio nos diz que havia um rei e uma rainha que tinham três filhas belíssimas. Para as duas primeiras os adjetivos superlativos disponíveis na linguagem eram suficientes para celebrá-las. Quanto à caçula, porém, sua beleza era tão extraordinária que não havia palavras para descrevê-la. O único recurso, e mesmo assim insatisfatório, eram as interjeições que procuravam traduzir um grande deslumbramento. Logo a notícia correu o mundo, uma nova Vênus havia nascido. De várias partes do país e do exterior acorreram muitas pessoas na esperança de ver a “nova” deusa, que aceitava as homenagens que lhe eram prestadas. Por causa disso, os lugares sagrados e os santuários de Vênus não mais eram visitados, o culto divino se enfraquecia. Como não poderia deixar de acontecer, a imensa hybris da jovem princesa, chamada Psyche, incomodou a deusa Vênus, que resolveu punir tamanha insolência. Chamou seu filho Cupido, incumbindo-o de puni-la exemplarmente. 


CUPIDO SUPLICA A VÊNUS QUE PERDOE PSYCHE
( 1827, GEORGE  ROUGET )

Vênus é um nome derivado de palavras latinas que significam amor físico, apetite sensual e sexual, vida instintiva. Foi por esse nome que os romanos personificaram a sua deusa do amor, procurando assimilá-la à Afrodite grega. Na origem, entre os antigos povos da Itália pré-romana, a deusa Vênus tinha relação com o mundo agrário, com jardins e pomares, mais exatamente. Aos poucos, porém, por influência do culto grego de Afrodite, que entrara na Itália pela Sicília, Vênus começou a ocupar uma posição de destaque no panteão latino, especialmente pelo fato de, segundo o mito, um descendente seu, Eneias, oriundo de Troia, ter fixado as bases do futuro império romano.

Quanto a Cupido, filho de Vênus e Marte entre os latinos, o nome vem do verbo latino cupere, desejar ardentemente, inflamar-se. No
CUPIDO
ESCULTURA   ROMANA
mito romano, difere um pouco do Eros grego. Embora no mundo romano se apresente sempre muito travesso, irresponsável, inconsequente, na sua iconografia clássica, a imagem de Cupido chega a diferir bastante do seu modelo grego. O Cupido latino, com efeito, parece mais envelhecido que o Eros grego; é uma figura tomada por um certo cansaço, traços que suas esculturas romanas inclusive revelam, características que podemos, quem sabe, atribuir a um certo desgaste do arquétipo.   

Vênus pede a Cupido uma vingança perfeita, observadas as seguintes determinações: a jovem princesa terá que se apaixonar pelo mais horrendo dos homens, perdendo não só toda a sua herança familiar como a sua dignidade, a incolumidade de seu corpo, descendo a níveis tão baixos de existência de modo a que ninguém queira compartilhar de seu sofrimento. Transmitidas tais instruções, Vênus encaminhou-se para o seu elemento, o mar, sendo recebida por um grande séquito, as filhas de Nereu, o formidável Portuno, a saltitante Salácia, Palemon, o condutor dos delfins, inúmeros tritões, todos a reverenciá-la.


DEUSES  DO  MAR  SAÚDAM  VÊNUS ( E. LE SUEUR , 1616 - 1655 ) 

Registre-se além disso que os pais da jovem haviam consultado um oráculo apolíneo, pois, embora ela fosse lindíssima, como mulher alguma poderia ser, não era amada; definhava por isso, muito triste.
REUNIÃO DE CUPIDO E PSYCHE
( J.P. SAINT-OURS - 1752 - 1809 )
Suas duas irmãs, muito menos bonitas, já haviam inclusive se unido a dois belos príncipes. O oráculo sentenciou: Psyche deveria ser levada ao mais alto penhasco do país e ali exposta suntuosamente; um monstro horroroso viria se unir a ela. É nesse momento que Cupido, cumprindo as ordens de sua mãe, vê a jovem princesa no penhasco e se sente por ela “flechado”, instantaneamente apaixonado. Libertou-a e a levou para o seu palácio no vale. A única coisa que lhe pediu, logo na primeira noite, quando a possuiu, foi que permanecesse com os olhos vendados quando ele fosse visitá-la, que jamais tentasse vê-lo. 



PSYCHE   SURPREENDE   CUPIDO   ADORMECIDO
( 1769 ,  LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE )

As duas irmãs, tendo ouvido histórias sobre Psyche, conseguiram saber onde ela se encontrava. Visitando-a, sugeriram que ela era muito tola, que deveria remover a venda dos seus olhos e conhecer o seu esposo, talvez um monstro, quem sabe. Ainda que muito relutante, mas cheia de curiosidade, a jovem fez o que as irmãs haviam sugerido. Resolveu acender uma lamparina a óleo para vê-lo melhor. Ao se debruçar sobre ele com a lamparina, gotas de óleo cairam e Cupido acordou, logo fugindo, abandonando-a. 

Psyche se desesperou. Foi a Vênus, que não consentiu que ela visse seu filho-amante, a não ser que ela lhe prestasse alguns serviços, na condição de serva. A deusa impõe então à jovem várias tarefas
VÊNUS   E   PSYCHE  
humanamente impossíveis, certa de que ela fracassaria. O mundo natural, entretanto, as plantas e os animais, sentindo muita pena da jovem, a ajudam no cumprimento das referidas tarefas (separar um gigantesco  monte de grãos variados, numa única noite; trazer para Vênus flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros ferozes; trazer para Vênus uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios infernais Estige e Cocito). Nesse ínterim, refeito de seu ferimento (queimadura), Cupido foi a Júpiter e lhe pediu que concedesse a imortalidade a Psyche, o que aconteceu, recebendo ela umas gotas de ambrosia, divinizando-se e se imortalizando. 

Esta história suscitou ao longo dos séculos muitas interpretações. Sob o ponto de vista filosófico (Apuleio era um adepto do platonismo), temos aqui a ideia de que a alma é intrinsecamente divina. Esta natureza é perdida quando do processo da encarnação, mas pode ser recuperada. Nesta perspectiva, Psyche representa a natureza espiritual de cada ser humano. No cristianismo, esta história foi usada para simbolizar a busca de Deus pela alma.

PSYCHE  E CUPIDO  ( ANTONIO  CANOVA , 1757 - 1822 )

Numa outra leitura, podemos dizer que tendo pecado pela curiosidade e pela dúvida, a alma perde o seu amante divino e se torna escrava de Vênus, que a submete a duras provas. Recuperada por Cupido, ela se torna, enfim, imortal e passa a viver na eterna felicidade do amor. Tanto um símbolo da alma à procura de seu ideal como da sua purificação (salvação pelo amor) depois de ter decaído. Outros vêem na história uma tendência à idealização de parceiros. Depois de um certo tempo, porém, ousando olhá-los como realmente são, a decepção se instala, ocorrendo tanto uma separação emocional e/ou física. Os testes, as provas e os desafios pelos quais as relações têm que passar estão evidentes no contexto do conto, lembrando-se, neste particular, que, sob o ponto de vista astrológico, Saturno se exalta em Libra. 

Uma outra hipótese, que estudiosos, psicólogos e artistas nunca, a meu ver, levantaram, é que esse conto que passou à história da literatura filosófica, hoje quase que só “trabalhado” por psicólogos, é, no fundo, uma declaração de amor de nosso trêfego Apuleio à rica viúva, uma peça literária pela qual ele procurava se redimia aos seus olhos, deixando claro que o “amor tudo vence.” Segundo consta, a rica Prudentilla o perdoou por ter se apoderado do seu dinheiro, enganando-a, e eles acabaram muito felizes.

ORFEU   E   EURÍDICE
A história de Cupido e de Psyche coloca-nos também diante de uma questão que me parece fundamental na mitologia grega e com larga repercussão na matéria astrológica, mas nunca explorada de modo mais consequente. Refiro-me ao tema da proibição de se olhar na relação amorosa. O mito de Orfeu e de Eurídice não é, assim, o único a colocar a questão da interdição do olhar, do direito de ver, da necessidade que os parceiros amorosos têm de “se dar a ver”, bem como das interdições e castigos que sancionam a transgressão destes interditos.


AMOR  CORTÊS NUM  JARDIM  MEDIEVAL ( RENAUD DE MONTEAUBON )

O tema do olhar me parece profundamente ligado ao signo de Libra e de Touro e às duas Vênus que os regem, a Vênus “exterior” do primeiro e a  Vênus “íntima” do segundo. A Vênus libriana é, numa aproximação literária, a do amor cortês, desmaterializada, na qual as pulsões carnais aparecem invariavelmente sublimadas, transformadas em obras de arte etéreas, depuradas. O amor cortês, como se sabe, impõe distância, mesuras, vive em grande parte da imaginação (lembremos que Vênus se exalta em Peixes). A Vênus taurina é carnal, pede o sentido do tato, associa-se à plenitude lunar. A Vênus libriana pede mais o sentido do olhar que o toque, 


ASTRÔNOMO
Os astrônomos, com as suas lunetas, há muito, perceberam que o planeta Vênus apresenta fases semelhantes às da Lua, conforme a posição por ele ocupada com relação ao Sol. É de Galileu a observação que A mãe dos amores imita as fases de Diana. Notaram também os estudiosos do céu que todos os acidentes da superfície do astro quase nunca eram percebidos pelo olhar, pois um manto de nuvens invariavelmente os escondia. Dessa constatação astronômica passou-se ao símbolo poético. Os poetas, desde sempre, “traduziram” esse fato astronômico, falando-nos da pudicícia e do recato da deusa, que “jamais baixava os seus véus”. Imaginação, mistério, promessas ou tão só as camadas mais ou menos espessas da atmosfera do planeta... Contra a realidade carnal taurina temos as abstrações librianas. Os tipos librianos, recordemos, são sempre muito sensíveis ao olhar do outro, ao julgamento que este olhar faz. Nos tipos librianos há sempre (?) o temor do olhar do outro, o receio de que este olhar os surpreenda inadequadamente “compostos”, “arrumados”. 

Dentre os muitos mitos que fazem parte do universo libriano, um capítulo importante é o das histórias de parceiros amorosos, de casais, cujos nomes não poderão jamais se separar. As suas histórias transcorrem geralmente em regiões fronteiriças às da morte (Escorpião), falando-nos de interdições de se olhar, de jogos de sedução que passam pelo olhar. Os personagens se dão a ver, mas quem vê ou é visto se expõe sempre a matar ou a morrer.

Orfeu, nome que lembra privação em grego, não escapa destas leis. Filho de um rei da Trácia, segundo uns, de Apolo para outros, é sobretudo um dispensador da harmonia. Com o seu canto e a sua música acalma as bestas, faz cantar a natureza, tem poder inclusive
CALÍOPE
sobre o mundo mineral (as próprias pedras o seguem). Orfeu é um sedutor. Hesita entre Apolo e Dioniso, tentando conciliar estes deuses inconciliáveis, o da medida e do espírito celeste o primeiro e o outro o da vida luxuriante e da desmedida. Sua mãe é a musa Calíope (a de bela voz), a inspiradora tanto da poesia épica como da lírica. Cantor e músico incomparável, a constelação da Lira, segundo alguns, o acolheria quando cumprido o seu estranho destino. 

ARGONAUTAS
Depois de longa viagem ao Egito, Orfeu se engajou na expedição dos Argonautas, comandada por Jasão. Sua função, com a sua música e seu canto, era a de marcar a cadência dos remadores, acalmar as tempestades e distrair os marinheiros atingidos por Pothos, causador do dorido sentimento de nostalgia noturna. Ao voltar da expedição à Cólquida, encontrou a dríade Eurídice (a de grande justiça), por quem se perdeu de amores. Logo, porém, a perdeu. Ao fugir de uma investida sexual de Aristeu, deus apicultor, é picada por uma serpente e morre, descendo, por isso, ao Hades. 



A  MORTE  DE  EURÍDICE ( ERASMUS  QUILLINUS , 1607 - 1678 )

Inconsolável, Orfeu para lá se encaminhou, confiante no seu poder de sedução. Perséfone encantou-se com as melodias do filho de Calíope, convencendo Plutão a libertar a jovem dríade. A história é conhecida: uma condição é imposta; Orfeu iria na frente e Eurídice o seguiria, não podendo ele olhá-la em hipótese alguma até que ultrapassada a saída do reino dos mortos. Na versão clássica do mito, Orfeu perdeu Eurídice porque não observou a interdição, olhando-a muito cedo, vitimado por uma crise de impaciência tipicamente ariana. Dentre as explicações para o comportamento de Orfeu, acredito que algumas hipóteses poderiam ser alinhadas: a) ele duvidou da palavra dos senhores da morte; b) teve medo, temendo encontrar uma Eurídice lívida e desencarnada, um eidolon, um fantasma e não um ser de carne e osso; c) arrependeu-se, não sabendo como assumir o “renascimento” da sua amada, já que o Hades e Eurídice ficariam para sempre associados. 



Ao longo dos séculos, a maior parte daqueles que se aproximaram desta história acusaram Orfeu. Para uns (Jacqueline Kelen, L´Éternel Masculin), Orfeu não sabia apreciar o que lhe escapava, que ele não sabia dominar. Falta de humildade, talvez. Não acreditou no milagre, por isso ele não se produziu. Tem Orfeu muita invenção poética mas pouco amor para ressuscitar a jovem. Platão, no Phedro, acusou Orfeu de fraqueza. Uma alma fraca que não teve a coragem de morrer como Alceste. 

Não podemos esquecer que embora Libra seja um signo artístico, de criações sutis, sua natureza permanece contudo sempre cerebral, como um signo de ar que é. A paixão está presente, o sentimento alimenta o pensamento, mas este se impõe àquela. Em outros termos: quanto mais Eurídice é o centro da poesia órfica, fonte de
JEAN  MARAIS
inspiração, menos ele a aceita e vê como carne e sangue. As versões desta história são inúmeras. Virgílio (Geórgicas) nos fala de imprudência. Ovídio (Metamorfoses), de fatalismo. Depois deles, essa história trágica deu origem a uma grande tradição literária musical e artística. Quanto à música, obrigatória as referências a Monteverdi, Gluck, Haydn e Offenbach; na dança, as coreografias de Roger-Ducasse e de Balanchine-Stravinsky. Na pintura, Breughel, o Jovem, Tintoretto, Rubens, Poussin e Delacroix a utilizaram. No cinema, Jean Cocteau (Orphée) e Marcel Camus (Orfeu Negro). 

Ninguém, que eu me lembre, “levantou” o ponto de vista de Eurídice. Será que ela desejaria realmente voltar à vida terrestre, ela que agora conhecia a morte, ela que agora conhecia tudo o que se passavam no reino de Hades. Apesar de todas as suas declarações, Orfeu, o amado dos deuses, é um ser cheio de fraquezas e de sentimentalismo. Uma personalidade muito “feminina”, como é comum entre os poetas. Ele não é um modelo de afirmação, um ser aguerrido. É ambíguo, oscilante. Características todas que, como sabemos, estarão na causa de sua morte. Uns afirmam que ele se “esqueceu” de honrar Dioniso. Uma versão muito aceita registra que Zeus o fulminou porque ele começou a revelar segredos do Hades que não podiam ser revelados. O mito de Orfeu e de Eurídice não foi o único a propor questões como a da proibição de se olhar, a do direito de se ver, a da necessidade de “se dar a ver” e a de todas as interdições que cercam o tema.

Esta mesma questão da proibição de se olhar nós a encontramos, como se disse, na história de Cupido e Psyche. Embora tenha tentado resistir às insinuações das irmãs, a jovem perdeu a confiança no seu misterioso esposo e acabou por transgredir a interdição. Ela o viu tão belo, tão maravilhoso, que, infinitamente perturbada, deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do seu divino parceiro, acordando-o. Rápido, ele se afastou, dizendo-lhe: Infelicidade para ti, que puseste tudo a perder” Esta cena não pode deixar de nos trazer à mente uma questão (libriana) muito importante, quem sabe uma lição a ser dela retirada, a de que o amor, para conservar a sua força e ação, perdurar, deve ser também cego.


Para recuperar o amor de Cupido, Psyche terá que realizar vários trabalhos, como já vimos, recebendo, para tanto, valioso auxílio divino. Impostos por Afrodite, merecem nossa atenção de modo especial aqueles que a levarão ao Hades. A deusa exige que a jovem encha uma jarra com a água do rio Estige (o que provoca horror), um dos rios infernais, inalcançável para qualquer mortal. Providencialmente, uma águia, a quem, um dia, Cupido auxiliara, resolveu o problema, conseguindo o líquido para a jovem. Enraivecida, Afrodite determinou que ela cumprisse então uma tarefa, a mais terrível de todas, que certamente causaria a sua perdição: Psyche deveria ir ao Hades e pedir a Proserpina (Perséfone) um unguento de beleza que só ela possuía. Psyche, que,
PSYCHE E CARONTE
( J.R.SPENCER STANHOPE , 1829 - 1908 )
até então, havia sempre recebido auxílio para cumprir as tarefas que lhe eram determinadas, sentiu-se perdida, pois ninguém, nem mesmo deuses, ousariam descer ao Hades. Pensou em se suicidar. Dirigiu-se para o alto de uma grande torre para esse fim, para de lá se atirar. Estranhamente, porém, a torre se pôs a aconselhá-la: deveria a jovem munir-se de dois óbolos e de dois pedaços de bolo. Os óbolos para  Caronte, o barqueiro infernal, um na ida e outro na volta, e os pedaços de bolo, do mesmo modo, para o cão tricéfalo Cérbero. Quanto a Proserpina, o máximo cuidado, pois ela gostava de estender armadilhas. 

Psyche foi recebida pela Rainha do Hades e convidada a sentar-se e a fazer uma refeição. Devemos lembrar que há uma lei no mundo infernal que diz o seguinte: quem comer no Hades, um grão que seja, estará condenado a ele voltar e quem lá se sentar numa cadeira, a chamada cadeira do esquecimento, não poderá mais dela se levantar e esquecerá o motivo pelo qual para lá se dirigiu. Psyche, lembrando-se dos conselhos da torre, recusou polidamente os convites, expondo os motivos de sua visita. Obtendo o que desejava, a jovem foi autorizada a voltar à terra. Com o frasco do precioso unguento nas mãos, Psyche pensou em usar um pouco dele para se mostrar ainda mais bela se voltasse a encontrar o seu perdido esposo. Nesta passagem, faltaram evidentemente a Psyche, mais uma vez, comedimento e prudência. Ao abrir o frasco, as substâncias se evaporaram, caindo ela num sono profundo, como se estivesse morta. Tudo isto aconteceu no momento em que ela estava praticamente fora dos limites do Hades.  

Nesse ínterim, Cupido, lamentando a perda de sua jovem esposa, intercedia a seu favor diante de Zeus. Aquiescendo Zeus ao pedido,
MERCÚRIO  OFERECE  A PSYCHE
O  CÁLICE  DA  IMORTALIDADE
( 1510 ,  RAFAEL DE  SANZIO ) 
Cupido não só a recuperou como, por iniciativa do próprio Senhor do Olimpo, a jovem se tornou imortal por lhe ter sido permitido o consumo de um pouco de ambrosia. Unindo-se novamente os amantes, gerarão uma filha que recebeu o nome de Volúpia, sempre representada como uma bela mulher, de faces artificialmente muito coloridas, de olhares lânguidos, postura lasciva, uma figura da qual a modéstia está certamente ausente. Aparece sempre semi-deitada numa espécie de divã florido e segura numa das mãos uma alada bola de vidro, uma imagem sempre carregada de sensualidade. Esta filha que Cupido e Psyche tiveram desqualifica em grande parte, senão totalmente, a meu ver, a leitura que a moderna Psicologia jungiana (Erich Naumann) faz desta história, ao “traduzir” Volúpia como Deleite ou Bem-aventurança, de natureza celeste, tentando espiritualizá-la, características inexistentes ou intenções ausentes do texto de Apuleio.

Todas as provas impostas por Vênus têm certamente qualquer coisa a ver com as vicissitudes do jogo amoroso. Psyche aceita o sofrimento, sente-se fanée, pensa no envelhecimento, chega à beira do suicídio. Há muito de Libra, sem dúvida, na história de Psyche, o desejo de agradar, de permanecer sempre jovem, bela, uma “filha de Vênus”, sempre vulnerável ao olhar do outro, aterrorizada pelo pensamento de não mais ser amada. A história nos fala das armadilhas do amor, dos sonhos de beleza perfeita, do amor que “nunca morre”, de tentações, hesitações, balanceamentos, fragilidade, de muitos componentes do mundo libriano, enfim. Fala-nos também a história das dificuldades que existem para se chegar ao amor adulto, consciente, da confrontação dos olhares, das indagações mudas, da maior ou menor sensibilidade dos parceiros amorosos na captação de nuances e matizes no discurso amoroso. Muitos, ao longo dos séculos, condenaram Psyche, esquecendo, porém, as intermináveis horas de espera que ela suportou para rever o marido, o seu tédio palaciano, o seu bovarismo, alimentado, em grande parte pelo marido e pelas irmãs. A pergunta então se impõe: que significa realmente esta interdição de contemplar o deus do amor? Será que o amor e a morte não podem ser olhados? Na história, Cupido tem o direito de ver Psyche, ela, porém, não pode vê-lo. A história lembra muito a de Endímion, sem dúvida. O jovem e lindíssimo pastor, conforme a versão, era visto por Selene ou por Hipnos, mas não via. 

A história de Cupido e de Psyche, iluminada astrologicamente, talvez nos deixe questões que jamais conseguiremos explicar totalmente. Que se passa realmente quando duas pessoas que se amam abrem os olhos simultaneamente, um atingindo a alma do outro, uma entregando-se ao outro? Um instante absoluto, mágico, milagroso, certamente impossível de ser reproduzido conscientemente. Verdade ou mentira dos olhos?


PSYCHE  RECEBIDA   NO   OLIMPO ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 ) 

Se em Gêmeos o eu está se opondo sempre ao não-eu, em Libra, este modo de ser é ultrapassado para ser procurada uma nova forma de vida, a da complementaridade, a unio, a conjunctio oppositorum. Em Libra, o eu se busca numa relação com o outro. Mas para que isto aconteça é preciso correr riscos, encarar as incertezas, aceitar, quem sabe, as desilusões, é preciso muito esforço, procurar conhecer o outro. Uma leitura que muitos fizeram: Psyche foi aquela que buscou a imagem real do outro, busca que a levou inclusive a usar desastradamente a lamparina de óleo. A pergunta, a meu ver, então se impõe: qual, a rigor, a razão dessa “necessidade de ver realmente o outro”, se os próprios deuses haviam proibido que tudo fosse vivido “às claras”? A história parece deixar claro que a comunhão com o outro não se realiza através do conhecimento racional. Será que foi por piedade que Cupido se dispôs a ajudar Psyche, levando-a para o Olimpo, onde a união de ambos tomou características de uma hierogamia? Ou, simplesmente, reduzindo a história ao essencial, não será ela mais que a revelação da impossibilidade de se encontrar nos relacionamentos humanos o equilíbrio ideal? Ou, astrologicamente, de outro modo, segundo a receita divina: será que não deveríamos preferir para a casa VII, ao invés da razão (a lamparina de Psyche), a escuridão e a imaginação?