Mostrando postagens com marcador HEFESTO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HEFESTO. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

BLADE RUNNER, AINDA



                     

O filme é de 1982, produção dos USA, tendo por subtítulo O Caçador de Androides, classificado como de ficção científica. O diretor é Ridley Scott, transcorrendo a ação em 2019, na cidade de São Francisco. Sombria, enfumaçada, escura, achinesada, na cidade, concepção futurista de Syd Mead, responsável pelo fantástico “desenho” do filme, aglomeram-se promiscuamente alguns milhões de pessoas de várias procedências, num extravagante melting pot, a viver pelas ruas de uma enorme cidade-gueto repleta de construções inspiradas por discutíveis formas que lembram pirâmides com linhas  barrocas. Impregnando tudo, a vida urbana e social, um ar de decadência com tons expressionistas (influências do filme noir ?). 




Por entre os prédios, bem acima do leito carroçável das ruas, deslizam suavemente automóveis, exemplos ultramodernos da avançada tecnologia desse mundo.  Ao fundo, raios luminosos cortando os céus constantemente dão um ar de festival ao que acontece na tela; a enquadrar o cenário, aqui e ali, em meio à silhueta dos prédios, os painéis luminosos das grandes empresas multinacionais, logomarcas há muito conhecidas, persistentes representações de um passado que se adaptou, dão um clima de fatalidade às imagens que se sucedem. Permeia todo filme, sem dúvida, uma atmosfera cyberpunk. Punk, com sabemos, é slang, palavra que tanto significa algo sem importância, uma pessoa destrutiva, jovem parceiro homossexual ou restos de madeira para fazer fogo ou...

HARRISON  FORD  ( RICK  DECKARD )
O roteiro do filme é de autoria de Hampton Fancher e de David Peoples, baseado na novela Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip Dick. O personagem principal é Rick Deckard, um policial de Los Angeles, caçador de androides, criados artificialmente, seres que nos obrigam a aproximar o filme da temática judaica do Golem. O visual apresentado é, sem dúvida, espetacular e procura acentuar, através de um tom profético, o que aguardaria a humanidade num futuro não muito distante se humanos e androides tivessem que conviver.  Quem o concebeu o o visual do filme, como disse, foi Syd Mead. A trilha sonora ficou por conta de Vangelis. 

Embora os maiores créditos com relação ao sucesso do filme
SYD   MEAD
tenham sido atribuídos a Ridley Scott, grande diretor, sem dúvida, não podemos esquecer da inestimável contribuição de Syd Mead, hoje com 81 anos, em atividade. Artista chamado de neofuturista, ele se tornou mais conhecido certamente, fora dos meios técnicos, depois de Blade Runner, Alien e Tron, dos quais participou com a sua concepção visual. Exibindo-se com os seus desenhos, Syd Mead apresenta-se em Universidades, em várias partes do mundo, e presta serviços a grandes empresas que atuam internacionalmente. Desde 1973, quando participou da Documenta de Kassell (na Alemanha ocidental à época), iniciou uma carreira de guest speaker internacional em muitas universidades e empresas, proferindo palestras sobretudo para os desenhistas que trabalham na indústria automobilística. Ainda neste ano de 2014, recentemente, com trabalhos sobre o visual futurista, numa demonstração-espetáculo chamada Progressions, atraiu um público recorde em universidades americanas.  Seu grande lema: A imaginação suplanta a técnica.


No elenco, ao lado de Harrison Ford (Rick Deckard), temos Rutger Hauer (Roy Batty), Sean Young (Rachel), Edward James Olmos (Gaff), Daryl Hannah (Pris), M. Emmet Walsh (cap. Bryant), William Sanderson (J.F. Sebastian), Brion Jones (Leon), Joe Turkell (Tyrell), Joanna Cassidy (Zhora), James Hong (Hannibal Crew) e Morgan Paull (Holdens). 

A   CRIAÇÃO   DO   GOLEM
O Golem (em hebraico, incriado, informe), como se sabe, é um ser humano artificialmente criado pela magia cabalística e por processos que lembram a alquimia. Às vezes, entre os judeus, a palavra golem toma um sentido insultuoso, quando designa um ser semelhante a um zumbi, uma espécie de alma penada. O Golem concorre com a criação divina, é uma imitação do ato criador de Deus. Feito de argila, é mudo, jamais conseguindo os seus criadores lhe dar o dom da palavra. É um ser inclinado naturalmente ao mal, escravo de suas paixões, como o são também os seus criadores. As lendas que cercam essa estranha criatura nos dizem que escapou do controle do(s) seus(s) criador(es), levando ambos , criador e criatura, à destruição. No fundo, a história do Golem pode ser vista como uma ilustração da tecnologia moderna, na medida em que ela, voltada só para fins materiais, como vem acontecendo, escapa do controle de seus criadores. A aproximação com o tema do Golem é inevitável, mas ela poderia ser estendida a outros, como o de Dédalo e Ícaro e Prometeu, da mitologia grega. 

É de se ressaltar que o tema da criação de antropoides ou androides pode ser rastreado nas mais antigas tradições mágicas encontradas em várias culturas. Tais criaturas ora apareceram como simples autômatos, outras vezes como estátuas animadas capazes de falar. O tema está registrado, principalmente, nas antigas tradições egípcia, grega, romana e chinesa. Entre os chamados primeiros Pais da Igreja Católica podemos encontrar também referências a ele. 

Uma das figuras mais interessantes dos tempos iniciais do
SIMÃO,   O   MAGO
cristianismo foi Simão, o Mago, personagem que aparece mencionado nos Atos dos Apóstolos, como taumaturgo (operador de milagres). Gabava-se de animar estátuas de tal modo que quem as visse acreditaria que eram realmente seres humanos de carne osso. Simão competia com os apóstolos para conquistar o povo e quis comprar deles o know-how que Cristo lhes teria transmitido para fazer milagres. Desde então A Igreja Católica dá o nome de simonia à compra ou venda ilícita de coisas espirituais (indulgências e sacramentos) ou temporais (benefícios eclesiásticos).


TALOS
Um dos mais perfeitos seres artificiais de que se tem notícia tem o nome de Talos, uma espécie de robô de bronze, dotado de um servomecanismo aparentemente perfeito, criado pelo deus Hefesto (mitologia grega), invulnerável, a não ser na parte inferior da perna. Talos guardava dia e noite o reino de Creta, jamais descansava. Como todos os seres criados artificialmente, Talos também teve um fim. Medeia, a grande maga, descobriu o seu ponto vulnerável e o atacou, destruindo-o.   

O filme de Ridley Scott descreve que num futuro próximo os
RIDLEY   SCOTT
humanos (leia-se USA, através de uma de suas multinacionais, a Tyrell Corporation) iniciam a colonização espacial. Criam-se para isso seres (androides, “os que têm forma humana”) chamados no filme de replicantes (réplicas humanas), geneticamente alterados, muito mais perfeitos que os humanos, para trabalhos perigosos ou degradantes nas colônias do espaço. Em genética, replicar é tornar múltiplo. Replicar será também fazer a cópia de alguma coisa ou, ainda, duplicar, falando-se da molécula do ADN (ácido desoxirribonucleico) ou DNA, em inglês, o “ácido da vida”. 



REPLICANTES

O nome Tyrell, que aparece no livro e no filme, é também encontrado nas histórias de George R.R. Martin, escritor norte-

americano, nascido em 1948, autor de muito sucesso. Sua série sobre a Casa Tyrell, iniciada em 1991, inspirada na história da Inglaterra, tem o nome de Casa Nobre, novelas da Canção do Gelo e do Fogo, Casa cujo lema é: Crescer Forte. Podemos ainda, com relação ao nome Tyrell, tentar uma aproximação etimológica com tire, de tyre
verbo que tem o sentido de  cansar pelo esforço, pelo trabalho, fatigar, exaurir. 



Neste sentido, o filme é um aterrorizante hino a todas as formas de imperialismo, o norte-americano, em especial, sem dúvida. Esses replicantes têm um modelo, são da série Nexus-6, muito aperfeiçoada, sendo bem mais fortes e ágeis que os humanos. Não têm sentimentos nem emoções, fraquezas humanas. Viajaram pelo sistema solar, foram além dele, visitaram paisagens estelares que nenhum humano poderia visitar.  Seu período de vida, entretanto, seu prazo de validade, é limitado a quatro anos, da data de sua fabricação. Viver na Terra era absolutamente proibido a qualquer replicante. Se porventura alguém encontrasse um poderia matá-lo. O que se depreende é que os replicantes poderiam eliminar facilmente os seus criadores e assumir o controle do Universo. 

Numa colônia extraterrestre, habitada por esses seres, há um motim.  Alguns conseguem fugir, vindo para a Terra. Eles querem aumentar o seu prazo de validade. Há que caçá-los, exterminá-los, “aposentá-los” como eufemisticamente é dito pelo poder criador. Uma força policial se encarrega desse trabalho. São os blade runners, expressão que admite várias traduções; a) perigo iminente; b) alerta vermelho; c) cortar rente etc... Os replicantes vão sendo caçados um a um. Aos poucos, porém, no desenrolar da ação, eles parecem se tornar mais humanos e os humanos mais replicantes.




O filme, pela sua construção e pelos subtemas que põe em relevo, transcende o gênero da ficção científica, para nos colocar diante de questões filosóficas, eternas para o ser humano. De onde viemos? Será que somos só memória? Somos o que lembramos ou somos algo mais? A tecnologia do mundo moderno, toda voltada para a produção de bens materiais, ajuda a melhorar a qualidade de vida dos humanos ou cria um inferno? Quais são realmente os valores essenciais pelos quais vale a pena lutar? O filme propõe realmente questões sobre os caminhos que a ciência moderna vem tomando; fala de valores éticos, morais; nos faz buscar respostas para o que significa viver mais dignamente. É neste particular que paira sobre todo filme a figura sinistra de Prometeu, que, a pretexto de ajudar os humanos, tanto os infelicitou até hoje.


PROMETEU TRÁS O FOGO DIVINO PARA OS HUMANOS (HEINRICH   FUEGER) 

Os produtores do filme (sempre eles!) o mutilaram por questões políticas e mercadológicas. O diretor Ridley Scott conseguiu, contudo, relançá-lo, dando-nos em 2007 a chamada “versão do diretor”, nela incluindo, com o seu final cut, o que foi cortado na versão de 1982. Ridley Scott é inglês e dentre seus filmes destacamos obras importantes: Os Duelistas, Alien, Telma e Louise, Gladiador, Cristóvão Colombo e outros. Vangelis, o responsável pela música, é grego, fez música neoclássica, progressiva, eletrônica, pop e rock (grupos Formynx e Aphrodite´s Child). É figura conhecida internacionalmente e circula musicalmente entre o erudito de baixa extração e a música pop e o hard rock. 


Blade Runner é um filme importante porque faz pensar, a não ser, é claro, para os que só viram os seus efeitos especiais. Alguns o acham muito dark, tétrico, fantasioso. Não podemos, contudo, ignorá-lo, é muito significativo à sua maneira. Ele se junta, com destaque, a muitos outros filmes que abordaram temas semelhantes desde os primeiros anos do cinema: Frankenstein, Metropolis, Planeta dos Macacos, Farenheit 451, Alphaville, Laranja Mecânica, 2001- Uma Odisseia no Espaço, Matrix e muitos outros.


METROPOLIS   ( FRITZ   LANG )

Um dos subtemas mais interessantes de Blade Runner é, sem dúvida, o das cidades futuristas, muito bem explorado também por Tim Burton, em Batman, (1989), ambos e outros aqui não mencionados tendo sempre como matriz, como fonte de inspiração, o espetacular Metropolis (1927), de Fritz Lang. 


*Texto de apresentação (palestra) sobre o filme em Ciclo de Cinema (2010/2011) realizado para Lita – Projetos Culturais

domingo, 25 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (3)


ADÔNIS

O mito mais completo e conhecido das divindades fenícias do primeiro milênio antes de Cristo, ao qual já nos referimos, é o de Adônis. Por ele, ficamos conhecendo a Afrodite fenícia, de nome Astarte. Adônis entre os fenícios aparece como uma espécie de sucessor de Aleyin e Mot. Estes eram, nos poemas de Ras Sahmra, duas divindades da vegetação que lutavam entre si anualmente.


ASTARTE

Mot, filho de El, grande divindade solar, era o espírito da colheita. Seu tempo era o verão, período em que os grãos ficavam maduros e deviam ser colhidos. Num combate, ele será vencido por Aleyin,
BAAL
filho de Baal, o maior dos deuses depois de El, sendo sua atribuição a de alimentar os cursos de água. É o espírito das fontes, aquele que favorece o desenvolvimento da vegetação, que cresce e se desenvolve na estação das águas. Era honrado através de monumentos  chamados pelos gregos de memnonia, levantados na foz dos rios da Fenícia, lugar onde eram celebradas as cerimônias em homenagem aos mortos. Aleyin, aquele que “cavalgava as nuvens”, morrerá também, por intervenção da deusa Anat, já que o risco de catastróficas inundações precisava ser contido.



NASCIMENTO DE ADÔNIS

Nascido de uma árvore (mirra) na qual sua mãe havia se transformado, Adônis era de uma beleza sem igual. A história aqui narrada se passa na Síria, onde a filha do rei Teias, pretendendo-se mais bela que a deusa do amor (Astarte, Afrodite), foi por ela punida. A punição consistiu fazê-la alimentar uma paixão incestuosa pelo pai, o rei Teias. Unindo-se a ele, por noites sucessivas, na escuridão do seu quarto, a princesa acabou sendo descoberta e condenada à morte pelo pai. Rogando aos deuses, foi por eles atendida, sendo transformada na mirra. A criança, lindíssima, como se disse, saltou do caule da árvore no tempo devido, sendo recolhida por Astarte (Afrodite). 
  
A mirra é uma árvore espinhosa que pode atingir cinco metros de altura, com flores vermelho-amareladas, de cuja casca provém uma resina especialmente usada na medicina e na produção de incenso
MIRRA
desde a antiguidade, considerada rara e valiosa. Nas línguas semíticas, mirra vem do adjetivo amargo (mar, em hebraico). A mirra é muito conhecida por suas propriedades antissépticas, sendo muito usada pelos egípcios nos rituais de mumificação. Desde fins da Idade Média, vem sendo usada em missas, funerais e cremações como incenso, tanto como purificação como meio de ligação terra-céu. Na história cristã dos três reis magos que visitaram Jesus quando do seu nascimento, a mirra aparece como um dos presentes por eles levados. No caso, por sua relação com o embalsamamento, como os egípcios a usavam, a mirra simbolizou o renascimento. Consta que em exames do santo sudário nele foi constatada a presença de mirra. O sudário, como se sabe, é uma espécie de lençol que serve para envolver cadáveres, mortalha. O santo sudário aqui referido teria sido um pano usado para limpar o suor e o sangue que saía dos ferimentos de Cristo, quando da sua crucificação, pano no qual seu rosto ficou impresso.

Encerrada numa arca, a criança foi entregue por Afrodite a Perséfone. Mais tarde, ao tentar recuperá-la, Afrodite viu seu intento negado. A disputa acabou arbitrada por Zeus, sendo decidido que o agora belíssimo Adônis passaria um terço do ano com Perséfone, outro terço com Afrodite e outro terço conforme desejasse. O jovem não titubeou, optando logo pela companhia de Afrodite. 


AFRODITE  E  ADONIS

O mito nos conta que Adônis gostava da caça, paixão da qual Afrodite sempre procurara demovê-lo. Certo dia, porém, quando se entregava à sua paixão venatória, Adônis foi atacado por um imenso javali e ferido mortalmente. Esse javali não era outro senão o deus Ares, antigo amante da deusa, que inconformado por não mais ser admitido no seu divino leito, atacou furiosamente o belíssimo jovem. Ao correr para socorrê-lo, Afrodite pisou num espinho. Dos seus formosos pés, alguma gotas de sangue caíram sobre pétalas de algumas flores brancas que floresciam ao lado do corpo do infeliz jovem; de imediato, essas flores se tornaram inteiramente vermelhas, passando elas desde então a simbolizar o amor. Na linguagem das flores, como se sabe, as rosas de pétalas brancas têm a ver com o amor suspiroso, não correspondido. As vermelhas, desde então, passaram a representar o amor apaixonado.


AFRODITE SOCORRENDO ADÔNIS

A rosa sempre apareceu nos mitos da região mediterrânea e da Ásia Menor como símbolo do amor que vence a morte e do renascimento. No Egito, por exemplo, a rosa era muito usada nos Mistérios de Ísis como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal, tornando-se o Egito, como se disse, o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade. É de se registrar ainda que, no mundo inteiro, os grupos esotéricos que usam a rosa em seus ritos de iniciação cunharam a expressão “sub rosa” para designar a transmissão de conhecimentos que não podia ser divulgada exotericamente. 


SUB  ROSA

Divindade do mundo vegetal, espírito da vegetação que, como Aleyin se manifesta nos grãos dos cereais, Adônis, no mito grego, era conhecido como Adoni, meu senhor, meu mestre, nome que as mulheres fenícias repetiam sem cessar, como lamentação, nas festas em homenagem ao deus. Na Bíblia, Ezequiel chama Adônis de Tamuz, este divindade mesopotâmica da vegetação e do grão. 



ADÔNIS  MORTO

O culto de Adônis estava difundido por toda Fenícia, mas era em Biblos que acontecia a sua celebração mais pomposa. Perto de Biblos e de Baalbek, elevava-se um suntuoso santuário levantado em honra a Astarte, destruído mais tarde pelo imperador Constantino, quando definiu o cristianismo como a  única religião do império romano. As mulheres fenícias, a cada ano, celebravam a volta do deus a estes lugares no final da colheita. 




Os gregos davam o nome de Adonias a estas festas. Imagens do deus em cera ou em terracota eram colocadas na entrada ou nos terraços das casas; as mulheres iam para as ruas da cidade, proferindo as suas lamentações, cabelos desgrenhados, golpes de mão no peito, tudo para demonstrar a sua grande dor; dançavam e cantavam ao som das flautas curtas e estridentes (giggros), muitas usadas em cerimônias fúnebres. 

Foi o maravilhoso poeta grego Teócrito (sécs. III-II aC) quem nos deixou uma descrição destas festas, celebradas com grande pompa
oriental, como ele as viu em Alexandria, no palácio de Arsinoé, esposa do imperador Ptolomeu-Philadelpho. O poeta nos descreveu os famosos Jardins de Adônis do palácio de Arsinoé, extensos terraços, onde em enormes caixas rasas eram cultivadas rosas, irrigadas com água quente para que florescessem mais depressa. Nesses jardins eram também cultivadas, em nome do deus, outros vegetais que também germinavam e cresciam  rapidamente, o funcho, o centeio, o trigo e sobretudo a alface, que tinha um papel importante no culto de Adônis. 

O mito nos informa que tendo recolhido o corpo inerte do seu infeliz amante, Afrodite o depositou num leito de prata recoberto com um manto púrpura e com folhas de alface. Ao lado do leito, vasos com perfumes raros, frutos, mel, bolos e inúmeras corbeilles de rosas. Os vegetais acima mencionados, morrendo logo, pelo fato de produzidos da maneira apontada, não tinham raízes, nada que os prendesse à Terra, sendo considerados como emblemas da efêmera existência de Adônis. Os Jardins de Adônis, assim artificialmente criados, eram expostos com imagens do deus, sendo depois jogados no mar ou nas fontes. A alface, usada em banquetes funerários, era considerada na antiguidade um alimento nefasto; ingerida em excesso, provocava a impotência, impedia a concepção ou, no caso de mulher grávida, tornava imbecil o filho. Era também usada para combater a concupiscência.

Entre os fenícios, Astarte era a mais importante deusa feminina como dona da fertilidade, da sexualidade e da guerra, adorada principalmente em Sidon, Tiro e Biblos. Do seu culto, muito diversificado, faziam parte ritos de natureza sexual e libações. Suas principais festas se realizavam no equinócio da primavera. Consta que o rei Salomão entregou-se ao seu culto, mandando inclusive levantar um templo em sua homenagem.

A história de Adônis foi introduzida na Grécia principalmente pela via poética, passando a fazer parte dos mitos ligados a Afrodite. 
O tema sempre inspirou poetas das mais diversas correntes. Do original mesopotâmico, passamos ao fenício e deste ao grego. Poetas como Bion de Esmirna e Ovídio, poeta latino, enriqueceram a histórico do jovem deus com variantes. O primeiro, do início do séc III dC, deixou-nos O Epitáfio de Adonis, inspirado por Teócrito (As Mulheres na Festa de Adônis). Ovídio, do início da era cristã, fala-nos de Adônis no décimo livro de suas Metamorfoses.

A história de Adônis chegou à Grécia pelo caminho das ilhas do Egeu. Quem pela primeira vez abordou o tema parece ter sido Safo,
SAFO
a grande poetisa de Lesbos. Apoderando-se dele, as mulheres gregas o difundiram, mas não escaparam do deboche dos comediógrafos machistas de então (séc. V aC). Foi por essa época que Plutarco, o historiador, escreveu sobre os Jardins de Adônis, ganhando o culto uma expressão espetacular em Alexandria. 


A história de Adônis, ao longo dos séculos, desde a antiguidade grega, sempre seduziu os poetas, principalmente. No Renascimento,
RONSARD
com a volta do mundo greco-romano, o lado caçador de Adônis é destacado, notando-se uma clara preferência pelo aspecto lunar de sua personalidade (da deusa Ártemis) e empobrecimento do seu aspecto venusiano, sendo esquecida inclusive a tragédia de Mirra. Franceses (Ronsard e La Fontaine), ingleses (John Milton e Spenser), espanhóis (Lope de Veja e Calderón de la Barca), ingleses (John Keats e Percy Shelley), italianos (G.B. Marino e Gabriel d´Annunzio) e franceses (Gustave Flaubert, Gérard de Nerval e Ernest Renan) se apoderão do tema, levando-o, alguns, para o teatro.


Os primitivos gregos, bem antes da “chegada” de Afrodite à região mediterrânea oriental, vinda da Ásia Menor, parecem ter tido uma divindade do amor, que não deixou traços. O que temos de mais certo quanto ao tema é que a irradiação dos cultos de Ishtar e de Astarte fez da deusa grega do amor uma divindade muito parecida com as duas deusas orientais. A mitologia grega, através de Homero (Ilíada), fez Afrodite filha de Dione e de Zeus, helenizando os traços da Astarte fenícia para representá-la, ficando ela conhecida pelo nome de Dioneia. Dione (brilhante, luminosa) era, numa versão, uma divindade da primeira dinastia, filha de Urano e Geia, e de Oceano e Tétis noutra variante.

Na ordem que introduziu na mitologia grega, Hesíodo (Teogonia), conservando no modelo grego muitos dos traços das deusas orientais, ligou o nascimento de Afrodite à castração de Urano por seu filho caçula Cronos. Este, como sabemos, instigado pela mãe, Geia, ao castrar o pai com a foi de silex que ela lhe dera, decretou o fim da primeira fase da mitologia grega (autogenia), representada pela dinastia cujos titulares eram os seus pais.

A castração (esquizogenia)  de  Urano,  segunda  fase  da  mitologia
grega, possibilitou o aparecimento da ordem cósmica ao pôr fim à indiscriminada fecundação celeste uraniana. O entrechoque das forças elementares, a desordem dos primeiros momentos da criação, representada pelos filhos que ele e Geia geravam, os titãs, chegou assim ao seu término. Gigantescos, estapafúrdios, descomunais, os titãs, que simbolizavam as forças elementares descontroladas, foram se acalmando, se acomodando, vencidas pela nova ordem, dando origem ao que os gregos chamaram de cosmos. 

Por oposição ao caos (indeterminação, indiferenciação), o cosmos significava para os gregos a ordenação do universo segundo
EROS
princípios e leis inteligíveis, sobretudo as irrevogáveis leis que haviam sido estabelecidas por Cronos. Na ordem cósmica não havia lugar para ideias de acaso ou destino. O cosmos não podia depender de uma vontade, de caprichos ou mesmo da arbitrariedade dos deuses, mas de regras que assegurassem o seu contínuo  desdobrar-se, o devenir universal, segundo uma ordem determinada. Com a castração de Urano, as coordenadas de espaço (1ª dinastia, Urano-Geia) e tempo (2ª dinastia, Cronos-Reia) se fixaram, passando as relações humanas, até então comandadas por Eros (satisfação unilateral), a se orientar por novas formas de convivência (reciprocidade) que a ordem cósmica pedia.


AFRODITE ANADIÔMENE 
 Da castração de Urano, da sua genitália lançada ao mar, em meio a secreções, sangue e abundante espuma, nos conta Hesíodo, nasceu Afrodite (aphros, espuma), conservando ela, sob uma aparência grega, muitos dos traços da Ishtar assiro-babilônica e da Astarte siro-fenícia. Um dos nomes pelos quais Afrodite será conhecida é derivado da sua origem marinha, Anadiômene. A ilha de Cithera, ao sul do Peloponeso, foi a primeira etapa da penetração do culto das deusas orientais do amor na Grécia. Quem “conduziu” Afrodite a Cithera foi o Zéfiro, deus do vento que sopra na direção oeste-leste, ao entardecer. 


Do sangue que da ferida de Urano caiu sobre a Terra, fecundando Geia ou Titaia novamente, nasceram, ao mesmo tempo que Afrodite, outros seres, as Erínias ou Fúrias, os Gigantes e as ninfas Melíades ou dos Freixos, as deusas da vingança, além dos descomunais inimigos do vida espiritual e as ninfas do sangue e da
FREIXO
guerra, respectivamente. As primeiras, como sabemos, ligar-se-ão muito à ação de Afrodite, pois terão a função fazer com que sejam respeitadas as leis da natureza e os limites físicos e morais na convivência humana. Todos aqueles que ultrapassassem os limites dos seus direitos em detrimento dos direitos dos outros seriam por elas punidos. Já os Gigantes, encarnação dos pavores que atormentavam o homem arcaico, personificavam os elementos irracionais que na vida psíquica fazem oposição aos impulsos evolutivos do homem, opondo-se à sua transcendência, prendendo-o à terra, como filhos de Geia que eram. As ninfas Melíades (melia, freixo) estão ligadas à raça que viveu na Idade do Bronze, gente violenta e belicosa, sempre guerreando. Tinham eles, como símbolo, a lança, cujo cabo era confeccionado com a madeira do freixo. O cabo da garrocha de Aquiles era de freixo, assim como o arco de Eros. Para os germânicos, o freixo era a primeira árvore da criação, chamada por eles de Yggdrasil.


Em virtude de seu nascimento marinho, Afrodite passou a governar o princípio da reciprocidade nos relacionamento humanos, equilibrando assim o seu oposto, o quente, como promessa do desenvolvimento de formas, mas, também, como ameaça de absorção. Por sua ligação com o elemento líquido, Afrodite foi chamada desde então de Anadiômene, a nascida das ondas do mar, fixada nessa forma pelo pintor grego Apeles.





De Cithera, Afrodite foi levada a Chipre, a Ilha do Cobre (em grego chalkos e em latim cuprum). Desde a antiguidade grega, conforme o simbolismo dos metais, o cobre correspondia a Afrodite, sendo mais tarde associados a ambos o planeta Vênus. O cobre, na medida em que no jogo das polaridades exerce a função magnética, por oposição à elétrica (Marte), é um excepcional condutor de energia. Sempre representou o cobre também a água como princípio gerador da vida. Em virtude de sua passagem por Chitera e Chipre, Afrodite era chamada pelos nomes de Citeréia e Cípria, conforme Homero registrou. 

Para uma melhor visualização deste período da vida de Afrodite, será sempre interessante uma visita à obra de alguns artistas para uma adequada compreensão do significado e do alcance do seu mito. Grande fonte de inspiração da poesia de Safo, Afrodite foi
AFRODITE (PRAXÍTELES)
sobretudo tema escultórico e pictórico de muitos artistas, destacando-se as estátuas que dela fizeram Calímaco (Venus Genitrix, assim chamada pelos latinos), Lisipo (bronzes de Afrodite) e Praxíteles (suas famosas Afrodites, orientalizadas, tiveram como modelo sua amante Frineia, a cortesã mais rica e célebre de Atenas). Na pintura, menção especial para a famosa obra de Sandro Botticelli O Nascimento de Vênus, de 1485, destinada a embelezar o palácio de um dos membros da família Médici. Essa tela, como se sabe, impregnada dos ideais neoplatônicos que então circulavam nos meios cultos da época, é uma representação dos valores materiais subordinados aos espirituais. A beleza corporal de Vênus (Afrodite) se vê sublimada pela pureza das linhas fluídas e leves. 


Boticelli, nesta sua tela, procurou, sem dúvida, seguir as ideias de Platão, que no seu diálogo O Banquete fez uma distinção entre duas das várias “faces” da deusa. De um lado a Afrodite Urânia, que não teve mãe, que é celeste, inspiradora de amores etéreos, imateriais, sublimes, que não é carnal; de outro, a Afrodite Pandêmia, popular, a dos amores vulgares, a que se dá com (para) todos, promíscua. Não será necessário muito esforço para se perceber onde hoje a Afrodite Pandêmia pontifica...

Ao surgir das águas, Afrodite se mostrou tão bela que as nereidas, os tritões e todos os demais habitantes do mundo líquido acorreram apressados para contemplá-la, rodeando sua concha nacarada, seu meio de transporte em direção das referidas ilhas. As ondas, ativadas pelo sopro de Zéfiro, começaram antão a empurrá-la docemente, o ar se tornou mais leve, uma luz suave cobria a terra e toda a natureza se regozijava.  

Ao chegar a Chipre, recebida pelas Horas,  seu  primeiro cuidado,                                                                                          
relatam antigos textos, se voltou para os seus cabelos. Secos e ajeitados, com o auxílio de suas atenciosas preceptoras, logo emolduraram o seu maravilhoso rosto em resplandecentes ondas acobreadas. A seguir, sempre com colaboração das Horas, Afrodite cuidou de seu corpo, cobrindo-o com muita naturalidade, primeiro com o chiton, como veste de baixo; depois o péplos e o himation, a túnica e o manto. Um cinto (zone), onde guardava todos os artifícios da arte da sedução (enkrateia), apertava a túnica à cintura. Nos formosos pés, as sandálias (krepis), muito elegantes. No mais, as jóias, os brincos (enonon), os colares (hormos), os anéis (daktylos), as pulseiras (amphidai) e as argolas para as pernas (periskelis).

A seguir, as Horas lhe ofereceram as primícias dos frutos que cada estação proporciona e com elas a deusa trocou ideias sobre a boa prática de comover os corações, de neles infundir prudência, de entender claramente os deveres da amizade, da vida conjugal, das obrigações familiares, de incorporar à vida social os necessários e cuidadosos cerimoniais das refeições, dos divertimentos, das festas e, por fim, da sábia arte do repouso.


AS  HORAS

Hora (divisão de tempo) era palavra grega que servia para designar as estações do ano (Primavera, Verão e Inverno). Depois, aos poucos, a palavra passou a dar nome às divisões do dia e da noite, estendendo-se seu número a doze,  reduzido, em seguida, a apenas quatro. No mito, eram filhas de Zeus e de Têmis, esta a deusa das leis imprescritíveis. Eram três a princípio: Eunômia, a Disciplina, Dikê, a Justiça, e Irene, a Paz. Popularmente, recebiam o nome, respectivamente, de Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). 

Homero considerava as Horas como porteiras dos céus, cabendo a elas abrí-los e  fechá-los. Gozavam de um privilégio especialíssimo: todo ano desciam ao Hades para trazer Adônis de volta a Afrodite. Eram encarregadas de distribuir a umidade necessária à vida vegetal, dosando-a convenientemente. Por isso, assumiram também a tutela da educação das crianças, para que elas “brotassem”, “florescessem” e “frutificassem” no tempo certo. Como reguladoras de toda a vida social, cujo equilíbrio mantinham, as Horas eram presença obrigatória em todas as cerimônias nupciais celebradas no mito. 


CÁRITES

Os gregos as reverenciavam oferecendo-lhes as primícias dos frutos de cada estação. Sempre acompanhadas por Têmis, eram representas por três graciosas jovens com asas de borboletas; levavam nas mãos quadrantes, relógios e outros símbolos da veloz fuga do tempo. Gostavam as Horas da companhia das Cárites e integravam ambas, sempre, o cortejo de Afrodite e ocasionalmente os de Apolo e de Dioniso.

A fama das excelências de Afrodite chegou ao Olimpo, manifestando os Imortais um vivo desejo de conhecê-la. As Horas, alvoroçadíssimas, a prepararam então, ataviando-a devidamente, perfumando-a, coroando sua cabeça com uma maravilhosa grinalda de rosas e pedrarias e cingindo sua cintura com o famoso cinturão que continha todos os truques e combinações possíveis das artes que faziam parte do jogo amoroso. Subiu então Afrodite à Mansão dos Deuses, acompanhando-a Eros e Hímeros, o Amor e o Desejo. 


HÍMEROS

No anverso do cinturão de Afrodite estavam fórmulas que favoreciam a vida afetiva; no verso, as que a envenenavam. No primeiro caso, por exemplo, se indicava como Eros e Hímeros, devidamente guiados pela Esperança (Elpis) e acompanhados pelo Pudor (Aidós), pelos suspiros, por débeis acentos amorosos, por carinhosas fórmulas hipocorísticas, por juramentos e pela disposição conciliadora, podiam favorecer a vida afetiva. No verso, estavam, ainda exemplificando, fórmulas através das quais Eros e Hímeros podiam ser inteiramente liberados, dando-se assim oportunidade a que as Erínias pudessem ser convocadas, pois sempre se estaria diante de casos de perfídia, de ciúmes, de inveja, de hipocrisia e de traição, tudo isto contribuindo para que a vida afetiva se tornasse um verdadeiro inferno. Usado adequadamente, porém, o cinto sempre proporcionaria graça, beleza e juventude, superando-se com eles quaisquer obstáculos na vida afetiva. 

Não foi por outra razão, por exemplo, que Hera, a Senhora do Olimpo, tentando reconquistar seu amado esposo, depois de grave entrevero por causa dos seus amores extraconjugais, pediu que Afrodite lhe emprestasse o seu famoso cinturão. A deusa do amor enviou-o com um bilhete: “Recebe-o, ocultando-o junto do teu corpo. O quanto puderes desejar nele se encontra e, por um encanto secreto que não se pode explicar, ele fará com que te saias bem em todos os teus empreendimentos.” Sabe-se que Afrodite usou o seu famoso cinturão em várias oportunidades, para se sair bem nos seus inúmeros affaires amorosos. Com muita facilidade, por exemplo, como se verá, obteve o perdão de Hefesto, seu marido, depois do seu rumoroso caso com Ares, o deus da guerra. 

Assim que pôs os pés no Olimpo, Afrodite arrancou grandes exclamações de admiração dos deuses, suscitando grande apreensão e mesmo cenas de ciúme explícitas por parte de várias deusas. Foi cercada por vários deuses, inclusive por Zeus que, contudo, teve que se conter, pois Hera exercia grande controle sobre ele, não o largando um minuto sequer a sós com a deusa recém-chegada. Todos disputavam a honra de a ela se unir, seja tomando-a como esposa ou como amante.


AFRODITE  E  HEFESTO  ( VÊNUS  E  VULCANO )

Zeus resolveu então casá-la com seu filho Hefesto, um prêmio por sua incansável atividade como ferreiro divino e fabricante de maravilhas técnicas e armas que tanto encantavam os olímpicos. Foi assim que o mais feio dos deuses se transformou no marido da mais bela das deusas. Rainha de Pafos (cidade de Chipre, muito famosa pelos cultos que nela se celebravam em honra a Afrodite) e Deusa do Amor, como Homero a chamou na Ilíada, soberana do prazer, da formosura, a deusa uniu-se, por razões de Estado, digamos, com um marido rico, “industrial”, muito chegado ao poder olímpico, mas coxo e feio, que andava coberto de fuligem e que vivia muito mais para as suas indústrias que para a convivência amorosa. Realmente, Afrodite não poderia amá-lo. Por isso, incontáveis foram os seus casos...


HEFESTO, O DE PÉS TORTOS

Muitos acreditam, todavia, que o primeiro amor de Afrodite foi Zeus, nascendo dessa relação as Cárites, as Graças. Para evitar problemas com Hera, sempre foi divulgado que a mãe das três belas jovens seria Eurínome, uma oceânida. Seja como for, as Cárites logo se integraram ao cortejo de Afrodite e, às vezes, ao de Apolo, atribuindo-se a elas as influências benéficas sobre a atividade intelectual e as obras de arte em geral. 

A maior parte dos habitantes do Olimpo e mesmo os seus frequentadores, divindades de nível inferior que lá não tinham moradia, eram de opinião que Afrodite consumou seu primeiro adultério com o deus Ares, o Senhor da Guerra. Todos são unânimes em afirmar que tal fato se deveu ao descaso de Hefesto para com a sua bela esposa. Metido sempre nas suas forjas, situadas em longínquas ilhas vulcânicas, Hefesto abandonava Afrodite, deixando de vê-la por longos períodos. 


PANDORA

Alguns, como Hesíodo, por exemplo, atribuem este estranho comportamento de Hefesto à sua origem. Filho de Zeus e de Hera, ele teria vindo ao mundo “sem amor”, isto é, conforme o poeta, teria sido gerado apenas pela deusa num momento de cólera, por causa do nascimento de Palas Athena. Suas relações com o mundo feminino sempre foram lamentáveis. Sua suprema vingança, entretanto, veio com Pandora, sua genial “criação”, a primeira mulher, fascinante e irresistível, que instaurou definitivamente a divisão entre os sexos. 

Afrodite e Ares encontraram-se numa das famosas reuniões do Olimpo. Marcado um encontro no palácio de Hefesto, este ausente como sempre, Ares apresentou-se a Afrodite todo armado, como se fosse participar de uma batalha. Deixando de lado os circunlóquios, Ares foi diretamente ao assunto. Afrodite, relatam as crônicas, sentiu-se um pouco atemorizada a princípio. Mas ele logo, sofregamente, retirando a sua couraça e depondo as suas armas, as suas perneiras, exibiu à deusa a sua excepcional forma física. Foi o necessário para que ela se entregasse a ele totalmente. Hélio, o Sol, já havia despontado no horizonte quando acordaram.

Segundo o poeta abaixo mencionado, estas foram as únicas palavras de Ares, quando do seu encontro amoroso com a divina Citereia: “Ó deusa que adoro, vem a meus braços, entreguemos nossos corações ao encanto do amor; Hefesto está ausente, foi a Lemnos e te abandona por seus bárbaros companheiros.” Consta que a única palavra de Afrodite foi: “Abrasa-me!” 


AFRODITE   E   ARES

Muitos cronistas nos relatam esse episódio, mas quem o fez melhor foi, sem dúvida,  Demodokos, um poeta cego que frequentava muito a corte do rei Alcinoo, dos feácios. No palácio real, perante o rei, convivas e Ulisses, ainda incógnito, o poeta contou histórias sobre este último. No mercado da cidade, perante grande público, o poeta, depois de ter contado muitas histórias sobre as façanhas do marido de Penélope, foi à praça da cidade e, com acompanhamento musical, narrou a história do encontro amoroso de Afrodite e Ares, a todos dando prazer e divertindo-os muito.



O poeta relata que o deus Hélio, que tudo via, pôs à mostra a cena dos dois amantes enlaçados no leito nupcial do palácio de Hefesto. Todo o Olimpo tomou imediatamente conhecimento do que ocorria,
HEFESTO
inclusive Hefesto, na distante ilha de Lemnos onde tinha as suas forjas. Os deuses accorrem pressurosos para ver a cena, o mesmo fazendo Hefesto, que, apesar de coxo, deslocou-se com espantosa velocidade. Todos chegam a tempo de encontrar ainda enlaçados os dois amantes. As deusas, ouvindo as recomendações de Aidos, o Pudor, eximiram-se de ir ao palácio. Assim que entrou no quarto nupcial do seu palácio, sem dizer uma palavra, Hefesto lançou uma rede sobre Afrodite e Ares, envolvendo-os de tal modo que, apesar dos esforços do deus da guerra, não conseguiram eles se libertar. A velha máxima hefestiana mais uma vez prevaleceu: aquilo que o deus das forjas, das ligas, dos metais incandescentes e dos nós unia, ninguém desatava.  



A  REDE  DE  HEFESTO

Ao ver a rede lançada por Hefesto, uma risada tomou conta do grupo de imortais que havia acorrido para presenciar a inusitada cena. Ouviam-se frases como estas: “as tramas crimonosas têm cedo ou tarde sua consequência fatal”, “Ora, ora, eis que a lentidão triunfa sobre a rapidez” e outras mais... Assim, o coxo Hefesto, com a sua arte e astúcia, surpreendeu a sua esposa e Ares, o mais veloz dos deuses do Olimpo, chamado de Gravidus por isso mesmo, “o de passos largos”.


PODEIDON

Dentre os deuses presentes, Apolo, dirigindo-se a Hermes, disse-lhe: “Mensageiro dos deuses e benfeitor dos humanos, aprisionado por estas indestrutíveis malhas, suportarias esta vergonha para passar a noite nos braços da ruiva Afrodite?” A resposta de Hermes veio prontamente: “Ó vergonha digna de inveja! Multiplicai essas inumeráveis ligaduras e que venham todos os deuses do Olimpo presenciar a cena, tudo valeria a pena para passar uma noite nos braços da deliciosa Afrodite.” Ouvidas estas palavras, renovaram-se as gargalhadas por todo lado. Só Poseidon permaneceu sério, logo pedindo a Hefesto que libertasse os dois amantes, livrando-os de tanto opróbrio, comprometendo-se inclusive a pagar o preço do resgate que Hefesto pedisse por tal libertação. Hefesto cedeu e, com as suas poderosas mãos, rompeu a rede maravilhosa. 

Quem nos conta o final desta história é Homero: livres dos laços que pareciam indestrutíveis, os amantes correm para longe do Olimpo, fugindo de todos os olhares. Ares se precipitou em direção da Trácia enquanto Afrodite se retirou para Chipre, indo para Pafos, onde, em um pequeno bosque, havia um templo levantado em sua homenagem. Recebida pelas Cárites, Afrodite foi por elas conduzida ao banho; depois, todo o corpo da deusa foi massageado levemente com perfumadíssimos óleos pelas três jovens, que a vestiram com maravilhosos e transparentes véus, preparando-a assim para voltar ao convívio dos seus pares. 

Antes de partir para a Trácia, a fim de, em longa temporada, visitar as suas estrebarias e casas de armas, Ares transformou num galo (obrigado a cantar três vezes antes do nascimento do Sol) o seu escudeiro Alectrion (galo, em grego), que se esquecera de avisá-lo, como fora determinado, para que Hélio não o surpreendesse com Afrodite. Consta que em virtude dessa união com Ares, Afrodite gerou Harmonia e os gêmeos Fobos e Deimos, este último personificação do Terror e o outro, do Pavor, que tomaram feição demoníaca e passaram a acompanhar o pai onde houvesse batalhas e derramamento de sangue. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TESEU, ARIADNE E DIONISO


Etimologicamente, Teseu quer dizer aquele que estabelece, que institui, o que legisla. Fazendo jus ao seu nome, Teseu, quando assumiu o poder na Ática depois da morte do pai, realizou o que os gregos chamavam de sinecismo, união de vários burgos para constituir uma cidade (Atenas). O mais célebre sinecismo de que se tem notícia na Grécia antiga foi o realizado por nosso herói. De diversas pequenas cidades da Ática, dominadas por poderosos genos, Teseu, conta o mito, fez uma só polis. Atenas tornou-se assim capital política de um estado cujos cidadãos eram todos atenienses, mesmo que tivessem nascido em outros lugares, como em Eleusis ou em Maratona.

 
Teseu, como rei de Atenas, segundo o mito, mandou construir o Pritaneu (edifício público, residência dos pritanes, delegados tribais, onde estes e mais pessoas ilustres da cidade se reuniam para as refeições) e o Senado (Boulé, conselho de Estado), promulgou leis e adotou o uso da moeda. Foi ele responsável também pela fixação no calendário religioso das Panateneias, as festas totais de Atenas, em honra de Palas Athena (fig.dir.), festas que representavam a unidade política da Ática. Devem-se ainda a Teseu a divisão da sociedade ateniense em classes e a definição dos fundamentos da sua democracia, conhecidos mais tarde como: isonomia (igualdade diante da lei), isotimia (igualdade de consideração, de condição), direito de opinião, e direito às honras conferidas pelo mérito pessoal e não pelo nascimento.



POSEIDON

A genealogia do nosso herói é complicada. A versão mais acatada nos revela que Egeu, rei de Atenas, em visita a Trezena, foi recebido pelo rei Piteu, famoso por sua sabedoria e virtudes. Embriagado pelo dono da casa, Egeu foi levado à cama de Etra, princesa real. Durante a noite, ela teve um sonho no qual Palas Athena lhe apareceu, sugerindo-lhe que fosse para uma determinada ilha. Lá chegando, ainda sonhando, o deus Poseidon a recebeu e com ela se relacionou sexualmente. Ficara Etra grávida de Teseu. Na manhã, seguinte ela se lembrava de tudo vagamente, acreditando Egeu, por seu lado, ter com ela mantido relações sexuais, o que o levou a se considerar como pai da criança que Etra teria.


MEDEIA E SEUS FILHOS

Uma outra versão nos conta que Egeu fora ao oráculo de Delfos para descobrir a razão de não ter filhos, depois de ter estado com várias mulheres. No caminho de volta para Atenas, passou por Corinto, onde vivia a feiticeira Medeia. A sobrinha de Circe se preparava para pôr em ação seu plano de matar o rei Creonte, sua filha Creusa e os seus próprios filhos, os que tivera com o herói Jasão, que a desprezara para casar com a mencionada princesa. Em troca de proteção e abrigo em Atenas, depois de cometidos os crimes que arquitetara, Medeia se comprometeu, com o emprego de sua arte, a fazer Egeu gerar um filho. Depois de tudo acertado com a maga é que Egeu, numa outra tentativa para ter o desejado filho, resolveu visitar seu amigo Piteu, em Trezena, conforme está no parágrafo acima. Não houve, assim, necessidade da arte de Medeia, o que não trouxe problemas para que Egeu a recebesse em seu palácio de Atenas e acabasse aceitando-a como amante. 

M menino, conforme combinado, por questões políticas (Egeu temia pela vida do filho), ficou sob os cuidados da mãe e do avô materno em Trezena. Antes de partir, Egeu enterrou sob um rochedo sua espada e um par de sandálias. Pediu que quando atingisse a adolescência o filho fosse procurá-lo em Atenas, levando a espada e as sandálias como sinal de reconhecimento. Teseu, já na infância, demonstrou uma precocidade espantosa: revelou-se um atleta excepcional, intelectualmente muito capaz, além de ser grande músico e instrumentista. Na adolescência, a mãe lhe revelou toda a história do seu nascimento. Jovem, fortíssimo, inteligente, belo, sentindo-se capaz de enfrentar os perigos da jornada, Teseu partiu em direção de Atenas à procura do pai, onde a feiticeira Medeia, como se disse, vivia como hóspede e amante de seu pai. 

A espada e as sandálias que Egeu deixara para Teseu haviam sido enterradas sob um grande rochedo. O jovem, sem grandes esforços, conseguiu levantar a enorme pedra e apossar-se do que o pai lhe deixara. Teseu estava pronto para iniciar o seu caminho e enfrentar as provas que todo herói deve necessariamente cumprir. 

Emblema da bravura e do poder guerreiro, a espada é não só sinônimo de destruição como de justiça e paz. É muito comum, nos vários ciclos, que a espada passe para a mão de heróis do modo como Teseu obteve a sua. Observe-se mais que em várias tradições as espadas dos heróis têm nomes. A espada maravilhosa de Roland, sobrinho de Carlos Magno, por exemplo, chama-se Durandal. Comum, entre os víquingues, as espadas dos chefes terem nomes como “A Chama de Odin” ou “O Fogo do Rei do Mar”. Na mitologia germânica, Siegmund, lembremos, obterá da mesma forma que Teseu a espada que seu pai, o deus Wotan, deixou para ele. 

No seu caminho para Atenas, Teseu se envolveu em inúmeras aventuras, lutas contra monstros, facínoras e salteadores que punham em perigo as cidades situadas no seu caminho e infestavam as estradas. No istmo de Corinto, por exemplo, enfrentou o gigantesco Sinis, O Devastador, filho de Poseidon, que matava as pessoas que por lá passavam de um modo peculiar. Ele as catapultava com árvores que vergava, lançando-as a grande distância, estraçalhando-as. Teseu venceu Sinis do mesmo modo, sendo apelidado, por isso, desde então de “O Arqueador de Pinheiros”. 

Para celebrar essa vitória, Teseu instaurou os chamados Jogos Istmicos (fig. esq.). Chamados agones (agon, luta, concurso), estes jogos ocuparam desde sempre na vida pública dos gregos uma importância muito grande. No geral, revestiam-se de um caráter fúnebre ou religioso. Há exceções, contudo, como os jogos realizados pelos feácios, quando da estada de Ulisses entre eles, segundo nos conta a Odisseia. Os Jogos Istmicos, de caráter fúnebre, foram organizados por Teseu em honra a Poseidon e a Sinis, que matara, afinal seu irmão por parte de pai...

Um dos encontros mais conhecidos de Teseu foi com a monstruosa e antropófaga Porca de Cromion, de nome Feia, filha dos dois maiores monstros da mitologia grega, Tifon e Équidna, sendo ela, portanto, irmã da Hidra de Lerna, de Cérbero, de Ortro, de Fix (Esfinge), do Leão de Nemeia e de outros mais.

Como animal, a porca simboliza aqui na história de Teseu as forças incontidas da procriação, princípio maternal descontrolado, o feminino concentrado exclusivamente na sua função procriadora, forças das quais Teseu acabara se tornando um grande inimigo. Lembre-se que a porca é um animal de Deméter (fig. esq.) enquanto esta deusa nos remete a ideias de princípios femininos, de vida antipolítica, de abundância, de maternidade feliz. Na tradição grega, o sangue deste animal tinha função purificadora ao ser usado para limpar manchas morais. Foi o caso de Orestes, por exemplo, que Apolo aspergiu com o sangue de uma porca, quando o filho de Agamemnon o procurou para expiar a morte de sua mãe, Clitemnestra.






A PURIFICAÇÃO DE ORESTES

Uma das façanhas mais conhecidas do jovem Teseu, façanhas que no seu todo lembram muito de perto os trabalhos de Hércules, foi o fim que deu a um famoso bandido que aterrorizava os viajantes nas estradas. Esse bandido se chamava Damastes ou Polipemon (o que faz sofrer). Seu apelido era Procusto (o que estica ou reduz). Ele deitava a suas vítimas num leito de ferro; se a vítima fosse maior ele cortava o que ficasse para fora do leito; se a vítima fosse menor, ele a distendia com grande violência para que ficasse do tamanho do leito, chegando a arrancar-lhe as pernas. Vem dessa história a expressão “leito de Procusto”, figuradamente, interpretação artificiosa que visa encaixar à força uma ideia, um princípio, uma afirmação num determinado sistema, doutrina ou corrente de opinião.


A MORTE DE PROCUSTO

Precedido de enorme fama, ainda muito jovem, mas herói aclamado, e sem reavaliar o seu nome, o filho de Egeu chegou a Atenas, purificando-se antes nas águas do rio Cefiso. Vestido luxuosamente, de túnica branca imaculada, cabelos compridos, quase femininos, o jovem foi ridicularizado por alguns populares antes de entrar na cidade. Matou-os todos, lançando um carro de bois sobre eles. 

Pressentindo que teria problemas com o jovem herói, Medeia instigou Egeu a mandar matar o “perigoso estrangeiro”. No banquete de recepção a ele oferecido, Medeia preparou uma cratera de vinho com veneno mortal para o jovem. Antes de levar a bebida aos lábios, Teseu, que logo percebera a nefasta presença da maga junto ao pai, puxou da espada, dando-se a conhecer. Diante dos convivas, o pai o abraçou e o proclamou seu sucessor. Repudiada publicamente, Medeia retirou-se para a Cólquida, sua terra de origem.


TESEU ATACA O TOURO DE MARATONA

A essa altura, as relações entre Atenas e Creta estavam muito deterioradas. Androgeu, filho dos reis de Creta, Minos e Pasífae, havia morrido na Grécia. Sua morte fora atribuída a Egeu, que o mandara lutar contra um pavoroso animal, conhecido como o touro de Maratona, que tudo devastava. A morte do jovem príncipe cretense, como tudo indicava (uma emboscada), fora tramada por Egeu, desconfiado de suas ligações com os palântidas, seus sobrinhos, que queriam se apoderar do trono de Atenas e que contestariam naturalmente o direito de sucessão de Teseu.

Os cretenses enviaram à Grécia um grande contingente militar. Atenas e Creta entraram em guerra. Atenas foi cercada, mas um acordo foi firmado. Os cretenses se retirariam de Atenas desde que anualmente fossem enviados a Cnossos, capital de Creta, jovens gregos que serviriam de alimento ao monstro Minotauro (esq. desenho de Picasso), que se alimentava de carne humana, escondido nos imensos corredores subterrâneos do Labirinto, palácio da cidade.
 
Tomando conhecimento da situação, Teseu se prontificou a ir a Creta no lugar dos jovens. Antes da viagem, Egeu lhe forneceu dois pares de velas para o barco que o levaria, um branco e outro negro. Se voltasse vitorioso, içaria as velas brancas. Recebido no palácio, Minos concordou com a proposta de Teseu: matar o Minotauro para liberar Atenas da pena imposta.

Teseu, durante a entrevista que manteve com Minos, foi visto pela princesa Ariadne (fig.dir.). Imediatamente, ela ficou tomada de incontida paixão por ele. Conforme combinado com Minos, Teseu pernoitaria no palácio e na manhã seguinte desceria aos seus subterrâneos para lutar contra o monstro antropófago. Durante a noite, a princesa se dirigiu aos aposentos de Teseu e lhe declarou a sua paixão.





O FIO DE ARIADNE (ESCHER)


Bem recebida, ela, aconselhada por Dédalo, o inventor mítico que vivia exilado na ilha, lhe entregou um novelo, que ele deveria utilizar para entrar e sair do Labirinto (ruínas esq.), lugar de onde ninguém voltava sem esse auxílio. Uma condição, porém, estabeleceu Ariadne: morto o monstro, Teseu a levaria para Atenas e a desposaria.




Tudo aconteceu como o previsto. Teseu venceu o Minotauro e, com Ariadne, que nada revelou aos pais do seu plano, iniciou o caminho de volta para Atenas. O barco fez uma escala na ilha de Naxos, para que ambos pudessem descansar. Na manhã seguinte, ao acordar, Ariadne se viu só. Correu à praia; ao longe pode ainda avistar o barco de Teseu, que sumia no horizonte. Um detalhe importante: Teseu se esquecera de colocar as velas brancas no barco. Egeu, com os olhos pregados no mar, viu que as velas do barco que se aproximava não eram brancas. 


Desesperado, acreditando ter perdido o filho, atirou-se dos altos penhascos do cabo Sounion, (fig.dir.) suicidando-se. Por isso, o mar dessa região, desde então, passou a ser chamado de Egeu.

Teseu logo assumiu o poder em Atenas, promovendo inúmeras mudanças políticas e sociais. Foi na condição de rei que Teseu recebeu o cego e alquebrado Édipo, acompanhado de sua filha Antígona, levando-o até Colono, bairro de Atenas, onde o malagrado herói foi acolhido por Géia, que abriu as suas entranhas para recebê-lo, longe da vista de todos.

Quanto a Ariadne, seu nome admite várias etimologias, todas relacionadas com a luz, com a claridade, provenientes talvez do nome de seu avô, o deus Hélio, o Sol, pai da rainha Pasífae. Abandonada por Teseu em Naxos, Ariadne foi ali encontrada pelo deus Dioniso, que retornava de uma triunfal viagem que fizera ao oriente aonde fora propagar os seus ritos orgiásticos e disseminar a cultura da vinha. O abandono da princesa cretense, segundo uma versão, nos diz que Teseu ao fazê-lo cumprira uma ordem da deusa Palas Athena, que lhe apareceu em sonho ou como uma visão, quando ele e a princesa cretense pernoitaram em Naxos.


Ariadne é evidentemente uma das últimas grandes figuras do mundo matriarcal. A versão acima mencionada parece-nos bastante aceitável se levarmos em conta que Palas Athena é uma deusa perfeitamente alinhada com patriarcado, uma deusa combatente, virgem, encouraçada, que nunca se separou da sua égide, de sua lança de ouro nem do seu elmo. Protetora do Estado, deusa das acrópoles, é uma divindade “política”, que tem aversão ao feminino, nada tendo em comum com as divindades que o representam, Afrodite (fig.dir.) à frente de todas. Não foi por outra razão que as Panatenéias, as festas totais de Atenas, foram instituídas por Teseu.




TESEU MATANDO AS AMAZONAS

Embora Teseu sempre tenha sido considerado pelos antigos atenienses como um personagem histórico, suas histórias ocupam grande parte dos mitos referentes à Ática, região onde se situa Atenas. Aparece nosso herói tanto no mito como na história como um dos mais ferrenhos representantes do mundo patriarcal, de modo especial daqueles ligados à “polis”, de um mundo que estava substituindo aquele representado por Ariadne. Esta sempre apareceu como figura ligada à vegetação, sendo inclusive nas ilhas do Egeu considerada como uma antiga divindade das florestas. Dois mundos, já àquela altura, inconciliáveis.

A triste história da princesa cretense pode sugerir outras leituras. Podemos admitir, por exemplo, numa leitura psicológica, que Ariadne, símbolo do princípio feminino, tenha tentado fazer uma ligação entre os dois mundos que ambos representavam ao dar ao herói, símbolo do princípio masculino, o seu famoso fio, de modo que ele pudesse melhor aceitar e integrar as tendências femininas do seu psiquismo. Historicamente, Teseu foi, ao que parece, um representante no continente do mundo jônico, um povo de comerciantes, adoradores de Poseidon, fixados também na Eubéia, ilha paralela ao litoral da Ática e da Beócia.
 
O simbolismo do fio nos remete a ideias como as de união de dois estados de existência; assim, proporcionaria ela a Teseu um “segundo” nascimento, não só a integração do seu masculino e do seu feminino mas uma possibilidade de que ele pudesse sair do seu “mundo subterrâneo”. Só que Ariadne, ao lhe oferecer um renascimento, fez imposições, inaceitáveis a um representante da nova ordem patriarcal que já se impunha. Teseu foi sempre, desde a juventude, um dos mais obstinados representantes dessa nova ordem, que rejeitará totalmente o feminino.

Ariadne vinha de um mundo que perdia rapidamente o seu status, o mundo natural, as florestas; descreve a história, seu encontro com Teseu, miticamente, o conflito natureza-polis, já nos seus primeiros esboços àquele tempo. Ariadne era uma antiga divindade de um mundo que ia desaparecer, mas que teria direito, na sua agonia final, a uma apoteose digna e patética.


ARIADNE, AFRODITE E DIONISO

Quem vai se encarregar de conduzir ao seu final essa triste história é Dioniso, o deus das metamorfoses, da destruição das formas que não sabem se renovar, grande divindade do vinho. Na ilha de Naxos, como recorda Plutarco, celebravam-se há muito festas que tinham um duplo caráter, em honra a Ariadne e ao deus, com muitos cantos primaveris e ditirâmbicos. Estas festas proclamavam Ariadne como uma deusa da vegetação que tem que morrer para que se abra espaço para a cultura da vinha.

Naxos, o cenário da morte de Ariadne, é a maior das ilhas Cíclades. Consta que Dioniso ali fora educado pelas ninfas da ilha. Conquistado pela beleza de Ariadne, a ela se uniu, nascendo dessa união quatro filhos, Toas, Estáfilo, Enópion e Pepareto, que se ligarão à produção de vinho nas ilhas do Egeu. Segundo uma tradição ateniense, haveria um quinto filho, pouco mencionado, de nome Keramicos, que seria o herói epônimo de um bairro de Atenas, onde trabalhavam os ceramistas que fabricavam recipientes para transporte do vinho do deus. Lembremos que junto desse bairro havia um cemitério, de mesmo nome, por onde anualmente, sob a tutela de Dioniso, saíam as procissões em direção do santuário de Eleusis, para a realização da segunda parte dos Mistérios instituídos pela deusa Deméter.

As três fases da vida de Ariadne nos permitem considerá-la como uma figura trágica, de fundo matriarcal, que tentou desesperadamente sobreviver na nova ordem: sua vida começou quando ela se apaixonou por Teseu, tornou-se sua amante e por ele é abandonada. Se de um lado ela lhe ofereceu segurança, abrigo, ternura, calor maternal e sobretudo salvação sob o ponto de vista físico, de outro sempre havia o risco de estreiteza, do abafamento, da opressão, certamente insuportáveis para um tipo como Teseu. Ele simplesmente a usou e se descartou dela.

Num sentido histórico, tão ou mais importante que o psicológico (a possibilidade de Teseu entender-se melhor com a sua “anima”), as relações entre o rei de Atenas e a princesa cretense representam indiscutivelmente o último ato da liquidação do matriarcado, com a grandiosa cena final comandada pelo deus Dioniso. Honrando Ariadne, como última representante de um mundo que terminava, Dioniso a faz sua mulher, tornando-a mãe de cinco filhos, todos, mais tarde, engajados na sua causa, a de proporcionar ao homem, através do vinho, a possibilidade de ultrapassar a sua condição humana em direção de uma espiritualização progressiva. Participando dos festejos matrimoniais, a deusa Afrodite ofereceu a Ariadne um maravilhoso diadema de brilhantes confeccionado pelo deus Hefesto.

As núpcias entre Dioniso e Ariadne simbolizam o ingresso da cultura da vinha nas ilhas do mar Egeu, uma união de duas divindades em que uma delas, Ariadne, terá que desaparecer (destruição das florestas para a plantação das vinhas). É por esta razão que Dioniso a matará, mas honrando-a mais uma vez, transformando em constelação o diadema que a deusa Afrodite lhe dera quando da realização das suas núpcias com ele. Assim colocado nos céus, o diadema passou a ser chamado de Corona Borealis, ou Ariadnaea Corona. Astrólogos do cristianismo medieval tentaram dar o nome de Coroa de Espinhos a esta constelação.

Situada nos céus entre as constelações de Hércules e a do Boieiro, Corona Borealis vai dos 2º aos 17º do signo de Escorpião, tendo suas estrelas a natureza de Vênus e de Mercúrio, no entender de Ptolomeu. A principal estrela desta constelação é Alpheca, a 11º 35´de Escorpião, indicando o seu simbolismo a possibilidade de acesso a planos mais elevados socialmente, mas sem a contribuição dos próprios esforços. Lembre-se, sob o ponto de vista astrológico, que mulheres como Grace Kelly e a princesa Diana, tinham Alpheca (do árabe, Al Nair al Fakkah) em posição de evidência em suas cartas astrais.

Na mão dos artistas, a triste história de Ariadne se banalizou, ficando reduzida apenas ao tema da mulher sedotta e abbandonatta. Desde o Renascimento, a história veio sendo usada nesse sentido. Quando Francisco de Gonzaga e Margarida de Savóia se casaram, Claudio Monteverdi apresentou a ópera Arianna, que se desviou do mito ao celebrar o triunfo do amor entre Dioniso (Baco) e Ariadne. Haendel compôs a sua Arianna in Creta, em 1734. A seguir, tivemos Massenet com Ariane e, já em 1912, uma das mais famosas obras sobre a princesa, a de Richard Strauss, com libreto de Hugo von Hoffmannsthal, Ariane à Naxos.



ARIADNE

Ao longo dos séculos, a história da princesa cretense foi tratada de modo diverso; todos os que dela se aproximaram, porém, insistiram, mais ou menos, como se disse, no tema apontado, o da mulher seduzida e abandonada. Para alguns (Boccaccio), Teseu a teria abandonado porque estaria interessado em Fedra, outra filha de Minos, e, além disso, porque Ariadne em Naxos teria se embriagado e caído num sono profundo. Outros a viram como uma apaixonada invasora e inoportuna. A história da princesa também foi parar na literatura, na poesia (Corneille, Victor Hugo, Nikos Kazantazakis, Marguerite Yourcenar etc.), nas artes plásticas (Guido, Tiepolo e outros), na escultura (J.Dennecker) e até em tapeçarias famosas, sem que nunca se tivesse alcançado toda a dimensão que lhe deu o mito, a de uma grande e trágica figura do mundo matriarcal que não conseguiu ou não quis se adaptar aos brutti tempi que viriam.