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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (3)



O   RAPTO   DE   HELENA ( FRANCESCO PRIMATICCIO , 1504 - 1570 )
                                          
Como antecedentes do poema, o mais notável fato é o rapto de Helena, rainha de Esparta, mulher de Menelau, por Páris, príncipe troiano, filho de Príamo, rei de Troia, e de Hécuba, sua mulher. São irmãos de Páris, dentre outros, Heitor, casado com Andrômaca, e Cassandra, vidente, gêmea de Heleno. A fim de reparar essa afronta, os gregos, sob o comando de Agamemnon, rei de Micenas, casado com Clitemnestra, irmão de Menelau, organizam uma expedição para resgatar Helena, que era irmã de Clitemnestra. Os gregos têm na sua expedição, como figuras principais, famosos guerreiros, Ajax, Diomedes, Ulisses, Nestor, Pátroclo e Aquiles, este o mais destemido de todos, filho de Peleu e de Tétis, divindade marinha.


GUERRA  DE  TROIA
( J.G.TRAUTMANN, 1713 - 1769 )
O poema relata apenas um curto período da guerra de Troia, então no seu décimo ano. Os ouvintes de Homero estariam no entanto familiarizados com os acontecimentos anteriores, aos quais o poeta ia se referindo no decurso da história cantada, acompanhada pelo phorminx, ou simplesmente narrada.

Nesse sentido, a história começa em tempos muito
LAOMEDONTE
( G.TROPPA , 1637 - 1733 )
recuados, quando da construção das muralhas da cidade, protegida por Zeus, rei dos deuses. Governava-a, ao tempo da construção, Laomedonte, que tivera a ideia de cercá-la, tornando-a inexpugnável. Como a cidade prosperava rapidamente, ele não descansou enquanto não viu erguida uma grande e protetora muralha à sua volta.  

Para construir a proteção idealizada, Laomedonte invocou e obteve a ajuda divina. Poseidon, irmão de Zeus, grande divindade dos oceanos e dos mares, ofereceu-se para ajudar os troianos mediante algumas recompensas. Todavia, terminada a construção da impenetrável muralha, os troianos se recusaram a cumprir o trato feito. Poseidon retirou a sua proteção de Troia, tornando-a vulnerável a ataques, apesar das suas poderosas muralhas


PARIS
Troia, por ocasião da guerra, era governada pelo rei Príamo, filho de Laomedonte, casado com Hécuba, princesa da Frígia, que, de acordo com algumas versões, lhe deu catorze filhos, citando-se, dentre eles, que nos interessam mais de perto, o nobre Heitor, a profetisa Cassandra, o vidente Heleno e o belo Páris. Quando estava grávida de Páris, Hécuba sonhou que este filho seria a causa da destruição total da cidade, sonho confirmado por um oráculo. Para o bem de Troia, entretanto, Hécuba decidiu abandonar o filho à morte, expondo-o no monte Ida. Mas Páris foi salvo por pastores e cresceu como um deles, ignorando a sua origem real. 

Bem antes do início da guerra, Zeus decidira que Tétis, uma nereida, se casaria com Peleu, um mortal, rei de Ftia. Desta união nasceria Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos. Toda a sociedade olímpica foi convidada para a festa, com exceção, por razões óbvias, de Éris, a deusa da discórdia. Vingando-se da afronta, Éris lançou ao salão onde se realizava a festa um pomo de ouro, com  a inscrição “à mais bela”. Tanto Hera, a esposa de Zeus, como Palas Athena, deusa virgem, e Afrodite, deusa do amor, reclamaram o pomo dourado, pedindo que Zeus arbitrasse a disputa, o que ele sabiamente recusou, fazendo-se substituir, por uma escolha feita ao acaso, por Páris, que vivia como um pastor perto de Troia.  


O  JULGAMENTO  DE  PARIS  ( P.P.RUBENS , 1577 - 1640 )

As deusas, interessadíssimas na disputa, foram então a Páris e tentaram suborná-lo, prometendo-lhe, cada uma delas, o que julgaram ser o melhor para ele. A deusa Hera ofereceu-lhe o continente asiático com todas as suas riquezas; Palas Athena, a poderosa filha de Zeus, ofereceu-lhe a sabedoria e a vitória em todas as batalhas; Afrodite ofereceu-lhe o amor na pessoa da mais bela mulher do mundo, a espetacular Helena, casada com Menelau. Páris optou pela oferta de Afrodite. As duas deusas preteridas tornaram-se de imediato grandes inimigas da deusa do amor, inimigas implacáveis, e, como tal, dispostas a causar a destruição de Troia. 

HELENA   E   PARIS  , 1788  ( J. L. DAVID )

Pronto para a conquista de Helena, Páris dirigiu-se antes ao palácio real de Troia, onde foi reconhecido por Cassandra e aceito por Príamo como seu filho legítimo. Rumou em seguida para Esparta, sendo recebido na corte de Menelau, que dela se ausentara momentaneamente por questões de família. Ajudado por Afrodite, conquistou rapidamente Helena e a levou para Troia. Quando voltou a Esparta e soube do motivo da partida da mulher, Menelau convocou um grande número de chefes gregos para irem com ele, com os seus exércitos, atacar Troia e trazer Helena de volta. É de se lembrar que em tempos idos estes chefes gregos, convocados por Menelau, tinham também cortejado Helena e firmado um acordo: ajudar aquele que conseguisse o amor dela e vingar qualquer desonra que sobre o futuro marido viesse a recair por sua causa. Foi assim que Páris pôs em andamento a concretização da profecia oracular que causaria a destruição de Troia.

Muitos dos chefes gregos, além disso, desejavam há tempos saquear a rica cidade asiática. Sabiam, entretanto, por sentença oracular, do destino que os esperava se partissem sem que uma condição, muito importante, fosse observada: Aquiles deveria obrigatoriamente participar do empreendimento. Ulisses, grande chefe grego, por outro lado, fora avisado também de que a sua participação na guerra o levaria a uma ausência de vinte anos do seu reino. Simulou então o rei de Ítaca uma espécie de loucura para não participar da expedição a Troia. Desmascarado, acabou por decidir-se a ir. 

AQUILES  MERGULHADO  NO  RIO  ESTIGE ( A.BOREL , 1743 - 1810 )

Aquiles, como combatente, era praticamente invulnerável porque ao nascer a mãe o havia mergulhado nas águas do Estige, rio infernal, tornando-o imortal, excetuada esta condição por um ponto, o calcanhar, por onde a mãe o segurara. Mais tarde, como narra o poema, uma flecha, guiada pelo deus Apolo, atingirá este ponto, matando nosso herói. Aquiles também estava ciente de que, se fosse à guerra, morreria jovem. Para livrar o filho de uma morte prematura, Tétis disfarçou-o com roupas de mulher, escondendo-o. O astucioso Ulisses descobriu o ardil, o que forçou Aquiles a se envolver na luta.

AGAMEMNON
Agamemnon, irmão de Menelau, foi eleito comandante de todos os exércitos gregos. Cerca de mil navios foram preparados para levar as tropas gregas às costas troianas, através do mar Egeu. Os ventos, contudo, quando da partida dos gregos, cessaram completamente, impedindo a partida do porto de Aulis. Consultado um oráculo através de Calcas, o adivinho da expedição, descobriu-se que Agamemnon tinha morto, numa caçada, uma corça consagrada
IFIGÊNIA  , 1788  ( J.L.DAVID )
a Ártemis, a deusa lunar. Nada faria a deusa perdoar a ofensa senão o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamemnon. Em meio a grandes tormentos e angústias, Agamemnon mandou chamar a filha sob o enganoso pretexto de a casar com Aquiles. Clitemnestra, a rainha, mãe de Ifigênia, todavia, descobriu a trama mentirosa. No momento em que a jovem estava para ser sacrificada, acalmou-se a deusa, que desistiu da exigência que impusera, voltando os ventos a soprar, o que possibilitou a partida da frota grega para Troia. 

Depois de desembarcarem num lugar errado, os gregos acabaram chegando a Troia, cercando-a; numa das extremidades do território que ocuparam, ficou o valente Aquiles com os seus homens; na
ILÍADA 
outra, o famoso Ajax. Durante nove anos tentaram atravessar as invulneráveis muralhas. Enquanto não o conseguiam, assaltavam e pilhavam cidades e localidades próximas. Ao final do nono ano, um acontecimento precipitou, porém, os acontecimentos: capturaram os aqueus duas belas mulheres, Criseida, troféu destinado a Agamemnon, e Briseida, destinada a Aquiles. Assim começou realmente a Ilíada...

Aquiles é sem dúvida a figura mais importante do poema homérico. Tétis, a nereida, sua mãe, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por todos os deuses. Uma sentença oracular declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram da bela nereida e procuram alguém para se tornar o seu esposo. Dentre muitos candidatos, apareceu Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela Tétis, apesar de suas sucessivas metamorfoses e disfarces. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, como se disse, jogou no salão em que se realizava a festa o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia...


KIRON  E  AQUILES  ( AFRESCO )
Depois de seis filhos consumidos pelo fogo, na ânsia de torná-los imortais, Tétis resolveu mergulhar o último nas águas do rio Estige, que tinham o poder de tornar invulnerável tudo o que fosse banhado por elas. Essa criança era Aquiles, cujo calcanhar, porém, não foi banhado pelas águas, pois por ali a mãe o segurara. Para os cuidados de sua educação,  Aquiles foi enviado à gruta do centauro Kiron. Consta que o centauro-mestre, ainda que não tivesse resolvido o problema da invulnerabilidade total de Aquiles, mas para aumentar o seu desempenho físico, operou o calcanhar do nosso herói, nele implantando um osso do gigante Dâmiso, o maior corredor que já existira, jamais vencido. 

O jovem foi muito bem tratado também pela mãe do centauro, Fílira, e por sua esposa, a ninfa Cáriclo. A partir dos doze anos, foi adestrado na caça, na equitação, na medicina e em outras artes; o centauro passou-lhe o respeito pelos mais velhos, e ensinamentos claros quanto à necessidade do que eram a defesa da honra pessoal (timé) e o amor à verdade. O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javalis, da moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força e vigor. Do mel, recebia doçura, afabilidade. Ao chegar à gruta do centauro, o filho de Tétis chamava-se Líguiron (agudo, sibilante, gasguito).

Calcas, o adivinho, profetizou que a cidade de Troia só seria conquistada com a participação de Aquiles e que a guerra duraria cerca de dez anos. Tétis veio do fundo do mar e escondeu o filho, vestindo-o de mulher e passando a chamá-lo de Pirra. Assim, educado como uma jovem passou Aquiles muito tempo. Chegando a profecia ao conhecimento dos chefes militares aqueus, foram eles buscá-lo, sendo-lhes difícil reconhecer no meio das moças aquele que seria o maior guerreiro de todos os tempos. Acabaram por fim encontrando-o, resolvendo Ulisses o problema. Engajado, Aquiles partiu com um amigo, Pátroclo. Tétis sabia que o filho, se fosse a Troia, teria uma glória eterna, mas sua vida seria breve. Se não fosse, viveria muito, mas sem nenhuma glória. Aquiles, conhecendo o dilema, optou pelo morrer jovem.

Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram  uma séria desavença. Este último teve que devolver, por imposição do deus Apolo,  ao pai, a sua escrava-amante. Irritado, para substituí-la, mandou buscar a escrava-amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, porém, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e prometeu dar a Aquiles vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe conceder,  como esposa,  uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível na sua negativa.

PÁTROCLO   FERIDO
Nesse ínterim, Pátroclo, grande amigo de Aquiles, seu companheiro de tenda, numa ação individual, partiu em socorro dos gregos, desmoralizados por sucessivas derrotas. Aquiles consentiu que o amigo partisse, emprestando-lhe sua armadura. Pátroclo, numa escaramuça, acabou sucumbindo, golpeado por Heitor, herói troiano. Tomado por imensa dor, Aquiles se reconciliou com Agamemnon, voltando à luta, apesar de seu cavalo, Xanto, que tinha o dom da profecia, lhe ter anunciado sua morte próxima. Desprezando o aviso, avançou Aquiles contra os troianos. Heitor tentou atingi-lo. O deus Poseidon interveio, livrando-os do choque mortal. Depois de vários encontros, Aquiles e Heitor voltaram a se enfrentar. Zeus se decidiu pela morte do troiano. Ao morrer, Heitor falou a Aquiles sobre a hora de sua morte, que estava bem próxima. Aquiles, tomado pelo ódio, mutilou o corpo de Heitor, nunca esquecendo que ele matara Pátroclo. 



HEITOR   MORTO  ( LOUVRE )


Nesse ínterim, as Amazonas entraram na luta, em socorro de Troia. Aquiles, com requintes de selvageria, matou Pentesileia, a rainha das mulheres guerreiras. As lutas prosseguiam, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco, filho de Nestor (depois de Pátroclo era o amigo mais estimado por Aquiles),
AQUILES   FERIDO
foi enorme. Preparava-se o filho de Tétis para o assalto final às muralhas de Troia. Teria tomado a cidade certamente se o deus Apolo não o intimasse a parar a luta. Não sendo atendido, Apolo guiou uma flecha disparada por Páris para que ela atingisse o único lugar vulnerável do corpo de Aquiles, o calcanhar. Em meio a estertores, lançando gritos de cólera e dor, Aquiles tombou finalmente morto. A disputa pelo seu corpo foi grande, conseguindo Ulisses e Ajax recuperá-lo. Os funerais foram celebrados por Tétis, pelas Ninfas e pelas Musas. Athena passou ambrosia no corpo de Aquiles para que ele não entrasse em putrefação. Todos lhe prestaram homenagens até que o fogo acabou por consumi-lo totalmente. 

Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles, depois de morto, passou a "viver" nessa ilha, que fica na foz do rio Danúbio. Os navegantes narram, desde então, que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, por quem sentiu grande amor, uma filha de Príamo, rei de Troia. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a  cerimônia de invocação das almas (nekyia), ouviu do eídolon do herói, arrependido, uma triste confissão, vinda do fundo de seu coração,  a de que teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês.


DIÁLOGO  DE  AQUILES  E  ULISSES  

Está hoje, devidamente assentado, por estudos históricos, arqueológicos, etnográficos, etnológicos, epigráficos, linguísticos (filologia histórica) e outros, que, por trás da Ilíada temos alguns fatos históricos bem determinados, ainda que o maravilhoso mítico poético a permeie do começo ao fim. Ninguém poderá negar que os aqueus, fundando Argos e Micenas, para sobreviver nos territórios em que se instalaram, só encontraram uma alternativa, a de buscar o mar. Pode-se inclusive admitir que se os personagens que tomaram parte na Ilíada, conforme Homero nos conta, eram fictícios, figuras do mito, a destruição de Ilion, como a de Creta, foram, ao contrário, acontecimentos bem concretos, reais, historicamente comprovados. 

Abrindo um parêntesis: este mesmo entendimento terá que ser levado também para  a abordagem da Odisseia. Em que pesem as diferenças entre os dois poemas homéricos, não podemos deixar de lado os fatos históricos nos quais a história de Ulisses encontra as suas melhores explicações e justificativas. Aborde-se a Odisseia pelo viés que se quiser, literário, mítico, linguístico etc., não há como se negar: a  Odisseia tem como base histórica principal a busca do estanho, metal inexistente no território grego.

Sabe-se que desde o período minoico, bem antes de 2.000 aC, o comércio marítimo cretense dominava o Egeu oriental. A utilização industrial do bronze era um fato que levava os cretenses a buscar no ocidente o estanho, metal que, embora em proporção não muito elevada, entrava obrigatoriamente na fabricação do bronze. Dirigiram-se assim os cretenses à Sicília, ao Adriático e a outros lugares para esse fim.




Quando os micênicos conseguiram penetrar em Cnossos, muitos séculos depois, saqueando e destruindo a cidade, Micenas se converteu na herdeira do comércio cretense, estabelecendo transações comerciais mais amplas com o ocidente, alcançando não só a Itália meridional e a Sicília como a Sardenha e a Espanha. Sabe-se, por exemplo, que no princípio do segundo milênio aC os povos que viviam na península ibérica já haviam começado a utilizar o bronze por influência dos navegadores egeus que  os visitavam. 

Enquanto historicamente a discussão das datas e fatos com relação à Ilíada apresenta poucas controvérsias, a referente à Odisseia alimenta um debate que vem se estendendo até os nossos dias, firmando-se cada vez mais, com relação a esta última, a chamada tese atlântica e, por isso, ficando bastante enfraquecida a posição dos defensores da tese mediterrânea. Ou seja, Ulisses teria ultrapassado as colunas de Hércules e navegado até o Atlântico norte, tendo chegado, quem sabe, à Islândia. Por um estudo mais acurado do texto homérico e com as contribuições a que acima nos referimos, é possível estabelecer hoje que é no canto V da Odisseia que começa o relato da navegação atlântica de Ulisses, que, como tudo indica, se baseava em descrições fenícias, conforme se descobriu posteriormente. 

Acrescente-se que os gregos micênicos, tendo adquirido um profundo conhecimento das técnicas de navegação, se guiavam muito bem pelas estrelas e, como observadores argutos, sabiam também se valer de outros fenômenos celestes. Nas suas observações, iam muito além do que sabiam os sacerdotes do santuário de Delfos, organizadores do imperialismo grego, que viviam fechados nos seus templos. 





Desde os micênicos que os gregos tinham como norma autorizar empreendimentos marítimos e viagens só entre março e outubro. Registre-se que o início anual da temporada marítima era determinado pelo aparecimento das Plêiades, grupo de estrelas situado no final da constelação de Touro. A etimologia do nome, Plêiades, nos remete ao verbo plein, navegar, em grego. Pela limpidez de sua visualização, a partir de maio, esse grupo, as Plêiades, ligava-se com muito destaque aos calendários agrícola e marítimo.

Os marinheiros gregos observaram, por exemplo, que no curso de suas aventuras marítimas em direção do sul a estrela Polar ia se acercando cada vez mais do horizonte. A medida de sua altitude, medida angular, lhes permitia avaliar a distância que percorriam. Os gregos se aproveitaram tanto das descobertas babilônicas como egípcias com relação aos céus, valendo-se delas inclusive com relação à construção de seus barcos. O trirreme grego, para navegação oceânica, com cerca de 40 m. de comprimento, como se comprovou, descendente direto dos barcos egípcios, era impulsionado por remos manejados com grande firmeza, por cento e quarenta e quatro remadores, podendo atingir uma velocidade de 22 km/hora. 


TRIRREME   GREGO 

De outro lado, muito próximos de cretenses e micênicos, por sua civilização e poder marítimo, os troianos constituíam-se num sério obstáculo para a expansão dos dois primeiros citados no Mediterrâneo. Era preciso, pois, destruir a talassocracia troiana para
RUÍNAS  DE  TROIA
não só dominar o Egeu oriental como penetrar na Ásia Menor (Anatólia). A invasão de Troia pelos micênicos se deu provavelmente entre 1.193 e 1.184 aC., como as mais recentes pesquisas históricas propõem.

Uma leitura atenta da Ilíada nos faz “sentir” que estamos diante de um texto que descreve uma guerra de conquista e que seus personagens parecem ter uma existência “real”. Ao lado dos aspectos político, social e religioso que a Ilíada apresenta, não há dúvida de que o poeta nos descreve com aceitável veracidade que o mundo micênico era constituído por um conjunto de grandes e pequenos reinos, bastante entrelaçados por razões de fidelidade ou vassalagem, dominado por uma voraz aristocracia guerreira.

As principais características do mundo grego de então foram bem destacadas por Homero, evidenciando-se dentre elas a riqueza de Micenas (riquíssima em ouro), a inexistência do cobre e do ferro, a
FUNERAL   GRÉCIA   ANTIGA
arquitetura dos palácios, a figura do anax (palavra que designa o rei, o senhor, que possui um poder que o situa acima do basileu, o simplesmente rei), o fausto dos funerais (Pátroclo), o megaron (grande sala, típica dos palácios micênicos), o costume de designar os aristocratas e mesmo os inferiores por meio de muitos epítetos, associados ao seu nome de família. 



Nesse mundo, circulava uma poesia transmitida oralmente, de geração em geração, de natureza áulica (do grego, aulé, palácio, e do latim aula, corte, sala do palácio), palaciana, com muitas fórmulas religiosas e militares. Tal poesia se renovava continuamente à medida que ia sendo cantada, sabendo-se, contudo, que os poetas (aedos ou rapsodos) guardavam na sua memória a totalidade dos versos, a maior parte deles constituída de frases feitas, constantemente repetidas. É de se notar que os epítetos abundantemente encontrados nos poemas homéricos, milhares de vezes repetidos, ganham destaque maior quando nos voltamos para os personagens mais importantes e para as grandes divindades, que chegam a ter em média uma dezena de apelidos, que pouco variam.

Tudo indica que Homero fazia-se entender perfeitamente pela aristocracia micênica, gente voltada para as armas e para o mar. Deixava essa poesia claro para eles que o presente era o passado constantemente renovado por aedos e rapsodos. Nesse discurso poético, toda a ênfase se concentrava sobretudo, na vida dos heróis, na qual se projetava a vida dos deuses, em conceitos que tanto enalteciam ou não verdades do espírito e do corpo. Por isso, em Homero, na Ilíada, principalmente, o destaque vai para palavras como kalon (belo), agathon (bom), kleos (fama, renome), timé (honra), areté (virtude, excelência), kakon (mal), É do mundo homérico que nos vêm palavras como xenos e barbaros. A primeira designa o grego que vivia no exterior, vindo de uma outra cidade grega, de uma colônia. Já o bárbaro não era grego, falava uma língua incompreensível. A palavra barbaro era uma onomatopeia evocativa de uma algaravia. Quanto à projeção do divino no humano, observe-se, por exemplo, o modo como Agamemnon exerce a sua autoridade, de modo muito semelhante ao despótico comportamento de Zeus no Olimpo, com relação aos seus pares divinos.

Qualquer que seja o viés adotado para nos aproximarmos dos poemas homéricos, o que fica claro ao final é que eles difundiram o “mundo dos gregos”, democratizando-o, fazendo-nos compreender o elevado conceito que eles tinham da sua própria cultura diante dos bárbaros. Ainda que reconhecendo o que deviam aos egípcios, cretenses, mesopotâmicos e a outros povos, eles sempre tiveram consciência de que levaram a eles, inclusive através de suas aventuras imperialistas, valores novos, por esses povos  ignorados, ou apenas conservados por eles num estado embrionário. 

A história do nascimento, da infância e da juventude e da vida adulta dos personagens heroicos  de Homero costuma se revestir de traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. A Grécia clássica procurou transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses heróis. Na realidade, entretanto, não era bem assim. Os heróis gregos, como já se observou,  são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis ou quase, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade teriomorfos, andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino (Aquiles foi chamado de Pirra, a Vermelha), têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes, era também chegado ao travestismo), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo). Com muita facilidade são tomados por monstros e demônios, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), no que acompanham as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual aberrante, cometem estupros, atacam os próprios deuses,  têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam de um modo que beira a anarquia as normas de convivência e regras de civilidade. 


GIGANTOMAQUIA  ( P. P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os excessos heroicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax agride Cassandra em recinto sagrado), são hetero e homossexuais (Hércules, Aquiles), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Certamente, o traço mais característico e específico do herói grego era a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, ajudá-los (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, os heróis gregos, pelo seu comportamento, lembram a fluidez dos tempos primordiais, quando os elementos constitutivos do cosmos ainda não haviam se assentado. Um período onde as irregularidades e os abusos eram comuns, período do cosmos ainda em formação. Com o "mundo dos homens", onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos físicos e emocionais devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras extravagantes. Com eles, encerra-se o chamado período heroico da mitologia grega, definido por Hesíodo. 

Os heróis gregos enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos revelam também a situação de conflito do psiquismo humano, pelos combates, em última instância, que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas (monstros, malfeitores, gigantes), de tendências regressivas, uma espécie de Fatum a persegui-los. Sempre a vida como luta (agonística), como criação de novas formas de relacionamento com o mundo, a partir das lutas internas, as conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização constantes. Pressões internas, projeções imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas. De outro lado, o mundo com seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores. Ao lado dos ingredientes da vida heroica, da excepcionalidade no seu agir (areté) e da honorabilidade pessoal (timé), que estão na base das vitórias interiores, sempre, por outro lado, as ameaças de origens inconscientes, a vaidade, o renome através da consideração pública.


 HERÓIS   GREGOS   

Os heróis de Homero “viveram” entre um período histórico que vai do Heládico recente ao início do Arcaico. Na escala dos metais, faziam parte da chamada idade do bronze, um período da civilização que veio depois do chamado período calcolítico. Todo o período do bronze é conhecido pelo desenvolvimento da tecnologia desse metal, o bronze, essencial para a civilização grega desse período, período situado entre o fim do neolítico e o começo do arcaico, dominado pelo ferro.

Os guerreiros que participaram da guerra de Troia eram responsáveis pela confecção de suas próprias armas, sendo muito usados na Ilíada o substantivo khalkos  (bronze), e o adjetivo khalkeion (brônzeo) embora Homero, que viveu na idade do ferro, se traísse, usando vez ou outra o substantivo sideros (ferro), como na passagem (Ilíada, IV) em que faz a descrição da flecha de Pândaro, com ponta de ferro, que fere Menelau.

Ficamos espantados até hoje quando tomamos conhecimento das características das armas ofensivas e defensivas usadas na Ilíada, designadas indistintamente pelo vocábulo teukhos (equipamento, utensílio). Chama nossa atenção, por exemplo, quanto às armas ofensivas, as lanças, os dois tipos, um chamado dory e outro enkhos. O primeiro tipo era pontiagudo e brilhante, bem menor diante do outra. Idomeneu, porque gostava de usar essa lança,  era conhecido pelo apelido de douriklytos (o famoso pela lança dory). A outra lança chamava a atenção pelo seu tamanho, pois “projetava a sua sombra longe”. A lança de Heitor, por exemplo, tinha onze
TEXTO  DA  ILÍADA
côvados, o que equivale  a mais ou menos sete metros de comprimento. A lança de Aquiles, pelo seu peso, não podia ser manejada por ninguém a não ser ele. Quando Pátroclo, que era fortíssimo, tentou usá-la, não conseguiu, faltou-lhe braço para tanto. Esta grande lança do Pelida fora um presente de Kiron a Peleu, pai do nosso herói.  Muitos heróis da Ilíada gostavam de usar junto de sua espada (xiphos), na cintura, uma espécie de facão, de grande punhal (makhaira), que tanto servia para fazer cirurgias como sacrifícios. 

Os combates da Ilíada privilegiam a luta corpo-a-corpo. Há bem menos referências a lutas travadas a distância. Entre os aqueus, por exemplo, Teucro, irmão bastardo de Ajax Telamônio, embora sobrinho de Príamo e tendo participado ao lado do irmão junto dos gregos, era um exímio arqueiro. Na Ilíada, entre os arqueiros, sempre considerados negativamente,  indignos,  sem ardor, podemos citar Pândaro e Páris.  

Famosas na Íliada eram as couraças (thorakes) como armas defensivas, feitas de bronze (khalkeothorekon). A mais famosa era a de Aquiles, fabricada por Hefesto, “mais brilhante que os raios de fogo”. Outra couraça famosa foi a que Agamemnon ganhou de Ciniras, rei de Chipre, profusamente decorada. Os gregos davam o nome de mitra a um cinturão largo. Quando em combate, davam preferência a um tipo especial chamado zoster, que cobria a parte inferior da couraça. 


AQUILES  ,  O   HERÓI

Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro. 

Além da proteção da cabeça, do peito e dos braços, os heróis homéricos usavam uma proteção para as pernas, as chamadas grevas (knemides), uma armadura de metal, composta de placas, que iam do joelho até os pés. As belas grevas de Aquiles, fabricadas por Hefesto, eram feitas de estanho, com fivelas de prata. Para a proteção da cabeça, os heróis usavam o elmo (korys), um capacete feito geralmente de bronze, enfeitados com penachos de crina de cavalos. O penacho do capacete de Aquiles era dourado. 

Depois da morte de Aquiles, as suas armas  deveriam ter sido entregues ao melhor dos guerreiros aqueus depois dele. As armas seriam, então, de Ajax Telamônio, o melhor, excetuando-se Aquiles. Todavia, as armas foram entregues a Ulisses, o que provocou a ira do Telamônio. A competição entre Ulisses e Ajax pelas armas do Pelida foi vencida pelo primeiro, mais por causa da sua eloquência do que pelos seus méritos bélicos. Os chefes gregos que as destinaram ao rei do Ítaca levaram mais em consideração mais o discurso de Ulisses do que as suas virtudes (areté), as suas habilidades no campo de batalha. A prevalecer estas últimas, as armas deveriam certamente ter ido para as mãos do Telamônio. Desta areté, lembre-se, faziam parte, para o herói homérico, não só a vitória, ou seja, a morte do inimigo como o ação de despojá-lo de suas armas, belíssimas no geral, e de ultrajar o seu cadáver. 

A fim de se ter uma ideia de conjunto da Ilíada, para estudo, acho interessante fazer um resumo dos cantos, antes de se explicá-los, com a expectativa de que esta seja a primeira camada de uma leitura que ao correr dos anos vá se estratificando de modo a que novas camadas possam não só ir se depositando sobre a anterior, mas completando-a, alargando-a, consolidando-a e jogando-nos noutras direções. Acredito que já tenha sido possível perceber que a leitura (o estudo, melhor dizendo) dos poemas homéricos é algo que demanda vontade, tempo e persistência.  O estudo dos temas e sub-temas que dele fazem parte se constitui certamente num projeto que se inscreve naquilo que os antigos chamavam de erudição e que lembra também o que entendemos por esotérico. A erudição nos lembra algo que vai se formando, se construindo, e, como tal, é algo que não se realiza nunca. Já o esoterismo aponta para o que é reservado ao interior, a poucos; por isso, por oposição ao exotérico, o que, do primeiro, pode ser difundido no exterior, sempre bem menos do que naquele se contém, se aprofunda e exige. Por isso, o exotérico é acessível a um público bem maior, no geral apenas curioso e diletante. 

ODISSEIA , EDIÇÃO  DE  1815
Cabe ainda lembrar que um bom número dos antigos estudiosos gregos das duas epopeias dividiram-se em dois grupos, os unitários e os separatistas. Os primeiros sempre achando que os dois poemas haviam sido escritos por um mesmo poeta (ou por um mesmo grupo). Os outros eram partidários daqueles que atribuíam uma autoria diferente aos poemas. Para estes, A Ilíada seria efetivamente um poema histórico, épico, ou seja, homérico, enquanto a Odisseia seria mais um romance (o primeiro romance escrito), mais fantasioso, “romanesco”. Unitários ou separatistas, cada grupo, ao longo dos séculos, sempre defendeu o seu ponto de vista com muita garra, recheando-o de muitos argumentos, dados e citações. Já ao tempo dos antigos gregos, observe-se, dava-se o nome de corizontes aos defensores do ponto de vista separatista, do verbo grego chorizein (separar).  


                                                   






segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).