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domingo, 3 de julho de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU – PLUTÃO (3)

                           
DEUSES    EGÍPCIOS
     
Vários textos foram produzidos para instruir o homem egípcio quanto à viagem que faria depois de sua morte. Essencialmente, estas instruções lembravam que o homem deveria procurar viver na terra da maneira mais justa possível, pois seus atos seriam colocados diante dele num julgamento futuro, perante dos deuses, cerimônia que os gregos chamaram de psicostasia, a pesagem da alma. Dizia um texto: Um homem pode permanecer depois da morte e todos seus atos serão colocados diante dele depois da sua morte. Entretanto, a existência no Além significa vida eterna e ela só será atingida por aquele que não procedeu erradamente. Se assim foi, o homem que assim procedeu existirá no Outro Lado (Duat) como um deus.


OSÍRIS   PRESIDE   A   PSICOSTASIA

A crença era unânime: depois da morte, todos seriam submetidos a um julgamento final, na presença do deus Osíris. Representado por uma múmia, Osíris presidia um tribunal diante do qual o coração do morto seria pesado, isto é, julgado. Na balança do julgamento, enquanto o coração ocupava um prato no outro prato era colocada uma pena de avestruz, emblema da equanimidade, símbolo de Maat, a deusa da justiça. Para os que se dessem mal neste julgamento, um animal feroz, chamado Devorador de Almas, ficava à sua espera. Chamado Ammit ou Aman em egípcio, este monstro, como se disse, era um ser híbrido, composto, na sua forma mais divulgada, por um torso de leão, por um hipopótamo na sua parte traseira e por um crocodilo na parte superior do corpo (cabeça). Era ele o encarregado de comer o coração do morto que não tivesse passado no julgamento. Comido o coração, a morte se tornava definitiva, dissolvendo-se o morto no nada.


AMMIT

Os que eram aprovados, iriam repetir no Outro Lado as agradáveis atividades que haviam desempenhado em vida, ainda que alguns trabalhos lhes fossem devidos (cuidar das terras dos deuses e do seu abastecimento de água, garantindo-lhes fertilidade eterna).  Os ricos e poderosos podiam transferir essas obrigações para os “Respondentes” (ushebits), já mencionados.  



USHEBITS
  
Embora os primitivos cultos divergissem quanto ao que um morto poderia ou não fazer do outro lado, os egípcios, através dos colégios sacerdotais, acabaram por elaborar uma síntese engenhosa das suas principais crenças relacionadas com a vida no Além. Dizia-se que o morto ficava no seu túmulo durante o dia, embora pudesse voltar a visitar os vivos por intermédio do seu alado Ba, entidade imaterial que representava a sobrevivência física do morto. Por intermédio de seu Ba, o morto poderia inclusive voltar aos locais de sua predileção no mundo dos vivos. Ao amanhecer, deveria retornar ao seu túmulo, para se alimentar, beber e repousar, cuidados dos quais até os mortos necessitavam.


BA

Partes importantes do Outro Lado eram reservadas para o fantástico e numeroso panteão egípcio. Cada nomo possuía a sua divindade principal. Ra dominava em Heliópolis, Toth em Hermópolis, Ptah em Menfis, Amon em Tebas etc. Uma espécie de loteamento, enfim, cada grande divindade dona de um pedaço do Outro Lado. No Novo Império, houve uma tentativa de se impor, através dos principais colégios sacerdotais,  uma certa ordem no disputadíssimo mercado religioso do país. Foi possível então se reunir a totalidade do panteão, representar toda a família celestial unida, algo como fazemos com os retratos de grupo. Esta iniciativa foi tomada durante o reinado dos faraós ramesessidas (III ao XI), entre 1220-1085 aC.



  HERMÓPOLIS   E   HELIÓPOLIS   NO   DELTA   DO   NILO

Osíris, o equivalente do Hades grego, teve a sua personalidade, ao longo de milênios, construída por contribuições diversas, até que acabou por se constituir numa divindade extremamente complexa e muito lógica até. O desenvolvimento da personalidade de Osíris  se manteve muito próximo da sensibilidade dos povos semíticos que sempre viveram uma religião de salvação fundada por um homem-deus que conheceu uma “paixão” (aqui sinônimo de sofrimento) no meio de outros homens.


ABUSIR

Foi em Busiris ou Abusir (etimologicamente, cidade e templo de Osíris), capital do nono nomo do Delta, que Osíris apareceu, assumindo as atribuições de um deus-pastor chamado Andity pelas populações locais. Já se levantou várias vezes a hipótese de que Osíris teria sido uma figura
TEXTO   DAS   PIRÂMIDES
histórica que num período obscuro da história do país, período pré-dinástico, teria unificado as tribos da região. As mais antigas referências às gestas osirianas encontram-se no chamado
Texto das Pirâmides ou Livro das Pirâmides, uma coletânea de inscrições gravadas nas cinco pirâmides de Saqara. Estes textos foram depois integrados àqueles produzidos pelo colégio sacerdotal de Heliópolis, centrados na figura do deus Ra. Nas versões heliopolitanas, Osíris é considerado como filho de Geb e de Nut, A Terra e o Céu (algo como Cronos e Reia entre os gregos) tendo como irmãos Hórus, o Antigo, ou Haroeris, o maléfico Seth, Ísis e Nephtys, todos nascidos ao mesmo tempo, nessa ordem. 


GEB   E   NUT

Historicamente, como se disse, o que se sabe é que Osíris havia ocupado o lugar do pai e reinara sobre o país em companhia de sua
RUÍNAS   EM   BIBLOS
irmã e esposa, Ísis. Num certo momento de sua vida, deixara na regência do país sua esposa e partira para divulgar a sua proposta civilizadora pelo mundo. Ao voltar, Seth, em companhia de setenta e dois asseclas, o mataram, encerrando o corpo numa arca, lançando-a ao Nilo. Levado pelas águas, o corpo de Osíris chegou a Biblos, Fenícia.

Chegando a essa cidade em busca do corpo do marido, Ísis o encontrou porque uma árvore crescera sobre a arca em que se encontrava o corpo de Osíris. O rei do Biblos ordenou que se
ISIS   AMAMENTA
HÓRUS
construísse uma coluna e um caixão para conter o corpo, entregando tudo a Ísis. No Egito, na região de Buto, no Delta, Ísis deu à luz a Hórus, um filho póstumo dela e de Osíris. Aproveitando-se da ausência de Ísis, Seth apoderou-se do corpo de Osíris e o despedaçou em catorze pedaços, espalhando-os  de pelo país. Auxiliada por Toth, Anúbis e pela irmã, Ísis recuperará os catorze pedaços (menos o pênis, devorado por um peixe) e reconstituirá, com as artes mágicas de que era detentora, o corpo do marido. Nos lugares em que foram encontrados os pedaços do corpo de Osíris, Ísis fez com se levantasse um templo.

As práticas mágicas operadas sobre o corpo de Osíris começaram pela mumificação. Está prática, entre os egípcios, parte da ideia de que o corpo deve subsistir depois da morte na sua forma material
MORTO   ENVOLTO   EM   PELES
para poder prosseguir sua vida no Outro Lado. Por isso, os egípcios buscaram tanto os meios artificiais para que isto fosse possível. Desde o início do período pré-dinástico (10.000- 8.000 aC?), os egípcios tinham notado que as propriedades do seu solo eram favoráveis a isso. Contando com esse aspecto favorável da natureza, passaram a usar, para aumentar a “vida” do corpo morto, invólucros de peles de animais para inumá-los.  

Como já se disse, Osíris preferiu descer ao Duat, o mundo dos
RA
mortos, para nele reinar. Ao assumir o reino dos mortos, Osíris, com isso, “promoveu” um grande enfraquecimento dos cultos que se prestavam a Ra, deus solar. Nos primeiros tempos do período dinástico, entre 4.000 e 3.000 aC, o processo de mumificação era muito primitivo; ele consistia apenas na impregnação da mortalha que envolvia o corpo com natrão ou resinas. 



EXTRAÇÃO   DAS   VÍSCERAS

O aperfeiçoamento dos métodos de mumificação só ocorreu no início do Antigo Império (quarta dinastia), quando incisões começaram a ser feitas para a extração das vísceras. Na sexta dinastia já havia uma classe de embalsamadores profissionais. A mumificação, contudo, era privilégio da família imperial e de alguns outros aristocratas mais chegados ao faraó.


MUMIFICAÇÃO

No Médio Império, a mumificação já estava bastante aperfeiçoada e se vulgarizara. A perfeição do processo, porém, só foi atingida no Novo Império (séc. XVI, 18ª dinastia). Neste período, a grande novidade era habilidade demonstrada por alguns profissionais que conseguiam preservar, na múmia, a expressão do rosto, como se o morto estivesse vivo, assim se dizia. 


MÚMIA  

A partir da quinta dinastia é introduzida uma grande modificação na arte funerária egípcia. As pirâmides, até então ”mudas”, começaram a “falar”, isto é, inscrições começaram a ser feitas, textos que constituiriam o chamado Livro dos Mortos mais tarde, uma coletânea de fórmulas destinadas a proporcionar ao morto (o faraó sobretudo) uma caminhada para o Outro Lado isenta de perigos. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Quando um faraó tomava providências para construir a sua pirâmide, ele designava também um certo número de pessoas que, depois do enterro, deveriam assumir seu culto. Ligar-se a uma atividade dessas era uma honra; todos os cortesãos desejavam fazer parte desse privilegiado grupo. A exemplo do faraó, os aristocratas também procuravam assegurar que nada faltaria ao seu túmulo, de modo especial as provisões, a serem constantemente renovadas.



SACERDOTES   

No Médio Império, os ritos funerários sofreram nova mudança. Não havia mais um só “servidor do ka”, o filho mais velho geralmente, uma espécie de executor testamentário. Uma parte dos recursos do morto passa a ser destinada aos membros de colégios sacerdotais que assumem o encargo de “guardar” a lembrança do morto em todas as solenidades e cerimônias do templo. Os sacerdotes irão doravante, entoando cantos, aos túmulos e lá depositarão alimentos, cerveja e pão, principalmente. Aos poucos, as famílias deixam de cuidar do túmulo e “vida” do morto no Outro Lado. Os colégios sacerdotais passam a se encarregar dessas tarefas, que lhes proporcionavam vultosas rendas extraordinárias.



MÚMIAS

Todos estes cuidados tinham obviamente a intenção de facilitar ao máximo a caminhada do morto para o Outro Lado, deixando-o inclusive “tranquilo”. O que se desejava é que o morto chegasse “bem” à Sala das Duas Verdades. Assim, ele poderia, recebido por Anúbis, ser conduzido à presença de Osíris  e saudar os seus quarenta e dois assistentes que presenciariam o julgamento. 

OSÍRIS
O tribunal era infalível e incorruptível; a sentença proferida, com base na pesagem do coração, significaria uma eternidade de felicidade ou um mergulho no nada. Introduzido na sala das Duas Verdades, o morto, já qualificado perante Osíris, saudava os assistentes, os demais deuses presentes, e começava a prestar declarações, inspiradas diretamente pelo seu coração. A sua confissão era basicamente negativa. Ele deveria fazer a sua confissão usando trinta e seis frases negativas (este número era imutável). Seu discurso se encerrava com a frase Eu sou puro. O morto poderia ser interpelado pelos presentes, se suas declarações fossem julgadas insuficientes. Ao final, o morto fazia um elogio dos juízes.

O morto, antes de iniciar a sua confissão, pedia ao seu coração que não prestasse depoimentos que lhe fossem desfavoráveis, que não se voltasse contra ele no tribunal para que o prato da balança não pendesse desfavoravelmente, condenando-o. Ao declarar que o seu coração se confundia com o seu próprio ka, pedia que ele não mentisse e que fosse assim em direção do bem desejado, o ingresso nos reinos de Osíris.

Depois destas palavras, a corte se mantinha em silêncio. Anubis parava as oscilações dos pratos da balança para constatar se eles se equilibrariam. O morto seria salvo e conquistaria a vida eterna se o prato da balança onde estivesse uma pena da deusa Maat fosse mais pesado que o outro, onde estava a sua consciência. Do contrário, seria a condenação inapelável.

Lembro que na Idade Média a prova da balança, com o nome de
BALANÇA   EM   OUDEWATER
bibliomancia, era muito usada para o julgamento dos acusados de feitiçaria pela Igreja católica. Fazia-se o acusado subir num prato da balança e no outro se colocava uma Bíblia; se o acusado fosse mais pesado que a Bíblia, a condenação era inevitável. Na Inglaterra e nos Países Baixos a bibliomancia foi usada até 1707. Na Holanda, na cidade de Oudewater, por privilégio papal, estava um dos mais  importantes centros desta prova. 

Plutarco, sempre tão bem informado sobre o Egito, nos conta que Ísis, não desejando que o drama osiriano caísse no esquecimento, instituiu os chamados santos Mistérios de Ísis em honra ao marido, para que eles servisse de exemplo e de consolação para os seres humanos. O capítulo XVIII do Livro dos Mortos dá uma lista das cidades em que estes Mistérios se realizavam. Conforme inscrições encontradas, são inúmeros os depoimentos de pessoas que participaram destes Mistérios nos quais encontramos registros do quanto se sentiram confortadas e em paz. Os Mistérios que mais tarde se realizariam na Grécia, em Elêusis, instituídos pela deusa Deméter, lembram bastante os egípcios.   

O que os mystai (iniciados) egípcios ressaltavam nos seus depoimentos é que eles se sentiam como que participantes da natureza dos deuses. Osíris nunca foi como os outros deuses egípcios, senhor de um ou de vários territórios. Benfeitor, nenhum outro deus pode ser chamado como ele de Ounophres, o  Ser Bom por excelência, pois ele forneceu aos egípcios um meio de salvação. 

Em que pesem as circunstâncias de tempo e espaço e algumas breves defecções,  o Egito sempre permaneceu fiel ao programa religioso instituído desde os tempos pré-dinásticos. O culto dos mortos implicava também grandes demonstrações de piedade com relação aos ancestrais. O povo egípcio, desde tempos remotíssimos, entendeu a necessidade de preservar pela mumificação os cadáveres (literalmente, corpos tombados) da corrupção e a necessidade de alojá-los convenientemente. Um destino glorioso esperava o morto que escapasse completamente das servidões da condição humana, pois continuava a se “alimentar” e a “viver” eternamente no Outro Lado, leve, livre e solto.


ISIS

A ideia era a de que, como se viu, o morto pudesse gozar, perpetuamente, no Outro Lado, inclusive em companhia de sua família e de seus servidores, os “momentos felizes” que vivera na terra, desde que tivesse levado uma vida justa e respeitosa, sobretudo obediente politicamente. Mesmo o egípcio da mais humilde condição poderia levar para o Outro Lado seus “bons momentos”. Sabe-se que em muitos períodos da história egípcia, nos momentos de crise política e social, estas concepções se enfraqueceram um pouco. Sabe-se que nesses momentos muitos egípcios recorreram a magos-feiticeiros para forçar o tribunal a absolvê-los quando da psicostasia. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - SATURNO (1)

                                   


SISTEMA   SOLAR

Último planeta visível a olho nu do sistema solar, apesar de duas vezes mais distante da Terra que Júpiter, Saturno dista do Sol, em média, cerca de 1.425 milhões de km. do Sol. Leva cerca de 29 anos para percorrer a sua órbita, tendo o seu dia a duração de 10 horas, 39 minutos e 24 segundos. Por causa de sua rápida rotação, Saturno tem um notável achatamentos nos seus polos. Seu diâmetro equatorial é de 120.000 km. Sua massa é 95 vezes maior que a da Terra, seu volume 800 vezes maior e sua densidade 13% da do nosso planeta. Quanto à gravidade, 1,17 vezes a da Terra. Sua temperatura média é de -134º C. 



Saturno é um planeta gasoso, quase que totalmente composto de hidrogênio, com quantidades mínimas de hélio (4%) e de outros elementos. Até agora se descobriram 61 satélites seus, também chamados de luas. Dentre os seus maiores satélites conhecidos destacamos Mimas, Encélado, Tétis, Dione, Reia, Titã, Hiperion, Jápeto e Febe. O maior deles é Titã, com cerca de 5.280 km. de diâmetro (maior que Mercúrio). Os anéis de Saturno são constituídos por uma mistura de gelo, poeira cósmica e material rochoso, entendendo-se por cerca de 280 mil km., com 1,5 km. de espessura máxima. 


SATURNO
Segundo a teoria dos elementos, Saturno pertence ao elemento terra, tendo como princípios primitivos o frio (3,5) e o seco (3,0). Seu brilho é opaco, lívido, plúmbeo, tendo como características principais o coesivo, o estéril, o restritivo, o limitante, o obstrutivo, o impedimento, a renúncia. É por essa razão, desde a antiguidade, conhecido como Infortúnio Major ou Grande Maléfico. No mito grego, com o nome de Cronos, é considerado com toda razão como o Senhor da Terra e do Tempo ao regular o desgaste vital, a longevidade e ao exercer a sua força através da repressão, da disciplina, da coação e da interiorização.

A Saturno, astrologicamente, se atribuem os valores racionais na organização do ego, a erudição, a ambição lenta, a introversão, o
CRONOS
isolamento. Como planeta, dignificado, aponta para a perseverança, a autossuficiência e a autoridade consciente que o tempo proporciona. É, neste sentido, o planeta das archai. Suas virtudes vêm sendo sistematicamente desprezadas no mundo de hoje: responsabilidade, economia, resistência, paciência e reflexão estão hoje totalmente em baixa. Saturno reina sobre o chumbo, metal que se opõe à radioatividade. No plano fisiológico tem a ver com o cálcio, sobretudo com o seu metabolismo; são dele, no corpo humano os ossos (os joelhos especialmente), a paratireoide,  a pele, os dentes, as unhas e os cabelos.  

Saturno nos ensina que, num certo sentido, a autoridade não se transmite ou delega. É única, pois únicas são as suas virtudes, sempre associadas à solidão, à concentração, à meditação e ao poder da vontade. Negativamente, Saturno é avareza, egoísmo, intransigência, melancolia, esquizofrenia, inércia, insensibilidade e pessimismo.

As mais antigas ligações do Cronos grego e do Saturno dos romanos podem ser encontradas talvez na intuição primordial que o homem pré-histórico teve da terra como forma religiosa, como um

receptáculo de forças sagradas difusas. Neste sentido é que a terra (Geia) sempre foi considerada como fundamento de todas as manifestações, como Hesíodo nos mostra em sua Teogonia. Assim, tudo o que estivesse nela ou sobre ela, desde a castração de Urano por Cronos, passou a ser visto como um conjunto uniforme, com suas partes interdependentes, constituindo uma grande unidade, sustentáculo de tudo.

Inicialmente desordenadas, estas forças primitivas, difusas, representadas pela mistura dos quatro elementos (fogo, terra, ar e água), foram aos poucos se acomodando, cada uma delas encontrando os seus limites, um ajuste nem sempre fácil, porém. É de se lembrar que mesmo nas sociedades mais primitivas estas concepções podem ser encontradas. De um lado, pois, os chamados deuses uranianos, de ação celeste fecundante, de características masculinas, origem das forças que atuam na terra,  e, de outro, a terra, geradora, de natureza feminina.

NUN
As primeiras ideias que os egípcios formularam para representar tudo isto em termos religiosos nos falam de que no início havia um oceano primordial, informe, de nome Nun, onde, antes da criação, estavam encerrados os germes de todos os seres e de todas as coisas. Sem templos e adoradores, Nun era mais uma criação intelectual, representada muitas vezes por um ser antropomorfizado, com o corpo mergulhado até a cintura no elemento líquido, as mãos elevadas ao ar, de onde saíram as forças que viriam a atuar no espaço criado de modo radiante (fogo), coesivo (terra), expansivo (ar) e fluente (água).


ATUM
No início, pois, só um imenso oceano envolvido por trevas absolutas, que não podem ser confundidas com a noite porque o dia não existia. Nenhum movimento, nenhum ruído. No interior de Nun, imenso espaço líquido, sombrio, espesso, de contorno indiferenciado, iria se manifestar um demiurgo, de nome Atum, designado por expressões como O que é completo e O que é e não é ao mesmo tempo. 



Aos poucos, manifestando-se, impondo-se às trevas, Atum trouxe à existência um ponto luminoso, um lugar sagrado que os gregos designarão pelo nome de Heliópolis, a cidade do Sol. Isto aconteceu antes do aparecimento de outros lugares, igualmente sagrados, como Hermópolis, a cidade dos oito divindades (Ogdoade), dos  pais e das mães que estarão na origem de todas as coisas. Este lugar será ocupado depois como residência do deus Toth. 


Os egípcios identificaram, assim, o princípio maior das forças criadoras celestes sob o nome de Atum, representando-o por
MNEVIS
Mnevis, um touro divino, adorado na cidade sagrada de Heliópolis. Mais tarde, se fez de Atum uma personificação do Sol poente e do Sol antes do seu nascer. É considerado como o grande ancestral do gênero humano, usando na cabeça a dupla coroa dos faraós (pschent). Masturbando-se, juntando sua saliva e pronunciando certas palavras, Atum gerou o primeiro casal, Tefnet e seu irmão gêmeo Shu, criados sem o concurso de nenhuma entidade feminina. Assim, o
Um se tornou Três.  

Esse primeiro casal teve dois filhos, Geb, deus da terra, e Nut, deusa do céu. Sobre Geb disse Shu que seu nome seria Vida e sua filha deveria ser chamada de Maat, Harmonia. Viveram unidos até
PLUTARCO
que Shu, o pai, os separou. Plutarco, o historiador grego, identificava Geb ao Cronos grego. Como deus da terra, a base do universo, afastado da irmã, Geb vivia desolado, eternamente queixoso. Ele aparece, em muitas representações, deitado aos pés de Nut, o corpo coberto de vegetação, apoiado num cotovelo e com um dos joelhos elevado, dobrado, simbolizando assim as montanhas e as ondulações da crosta terrestre. Sobre a sua cabeça, Geb tem um ganso, que constitui o ideograma de seu nome. Geb e Nut geraram os chamados deuses osirianos, recebendo por isso Geb o título de pai dos deuses.   


NUT    E    DEUSES   
  
O ganso selvagem era como o pato e o cisne, na religião do antigo
GEB
Egito (na Índia e na China também), uma ave sagrada, de características solares, uma antítese das trevas, servindo de mensageira entre o céu e a terra. A alma de um faraó era comumente representada por um ganso. Já quando da elevação de um faraó ao trono soltavam-se quatro gansos dos quatro pontos do horizonte, acompanhada a liberação das aves por determinadas fórmulas mágicas. 

Atum, o Sol que envelhecia, foi substituído por Ra, o Sol nascente, que só poderia se mostrar quando surgisse na aurora como Khepri, sob a
KHEPRI
forma de um escaravelho alado. Com isto, instituía-se a tripla natureza do Sol,  Khepri (nascente), Ra (meio-dia) e Atum (poente), cada um deles diferente e o mesmo. O escaravelho é um símbolo cíclico do Sol, lembrando ao mesmo tempo morte e ressurreição. É a imagem do Sol que renasce por si mesmo, ao encerrar os seus ovos numa pequena bolota de terra que ele mesmo fazia e empurrava. 

Nut, que os gregos associavam a Reia, ao contrário de Geb, sempre recebeu um culto formal. Sua união com o irmão nunca foi aceita totalmente por Ra. Por isso, Ra os separou brutalmente, não permitindo que ela parisse os seus filhos em qualquer um dos 360 dias que tinha o ano.  

Felizmente, nos diz Plutarco, Thot, o escriba dos deuses, teve pena dela e, ao jogar damas com a Lua, vencendo-a, depois de muitas rodadas, obteve luz suficiente para confeccionar cinco dias. Como estes dias não apareciam na duração do ano oficial,  Nut teve condições de dar nascimento aos seus cinco filhos: Osiris (Dioniso e/ou Hades para os gregos), Haroeris (O Primeiro Horus), Seth (Tifon para os gregos), Isis (Hera, Deméter, Afrodite e Selene para os gregos)  e Nephtys (Afrodite e/ou Nike, para os gregos).

THOT
Os cinco dias fabricados por Thot têm o nome de epagômenos (literalmente, os que estão sendo acrescentados), cinco dias que escaparam ao olhar de Ra. Osíris, que se tornaria o herdeiro de Geb, foi o primeiro a nascer, de tez escura, amorenado. O dia do nascimento de Osíris é chamado de o dia do touro nos campos. O segundo a nascer foi Haroeris, Hórus, o Antigo (Primeiro); o terceiro a nascer foi Seth, que para sair mais rapidamente rasgou o ventre materno lateralmente. Sua cor lembrava os dias vermelhos, empoeirados, do deserto no período das secas. Seu nascimento foi marcado por muitas perturbações cósmicas e no país. A quarta a nascer, em Denderah, foi Ísis. Ela apareceu sob a forma de uma mulher negra , ao mesmo tempo como a noite e rosada como a aurora, cheia de doçura e amor. Diz-se que Nut, quando a filha estava nascendo, lhe disse: Por tua mãe, sê ligeira! (is, no antigo egípcio). A irmã fiel de Ísis, Nephtys foi a última a nascer.

Nut é representada normalmente por uma mulher que tem o seu corpo arqueado sobre a Terra, com seu ventre estrelado, mantida suspensa no ar por Shu, formando uma abóbada. Às vezes, ela
RA
aparece na forma de uma vaca, a forma que tomou quando, sob as ordens de Nun, colocou sobre o seu ventre seu pai Ra, as estrelas e as constelações, decidido a deixar a Terra, depois da revolta dos humanos. Nut é conhecida também como mãe de Ra, que, a cada manhã, renasce em seu ventre. Sob a  forma humana, Nut leva sobre a cabeça um vaso arredondado, que é o ideograma de seu nome. É a protetora dos mortos, que muitas vezes abraça; na cobertura dos sarcófagos, seu corpo estrelado fica acima da múmia, velando maternalmente por ela.

Shu havia, por sucessão, substituído Ra. Enquanto isso, Seth, sob o nome de Apophis, gerava um grande número de descendentes, seres dracônticos, que ameaçavam o reino de Shu, estabelecido no delta do Nilo. Os descendentes de Seth avançavam destruindo o país. Shu compreendeu tardiamente que para lutar contra as trevas a força e a inteligência humanas eram insuficientes. Os deuses se encontravam enfraquecidos, pois os humanos haviam deixado de realizar sacrifícios.


APOPHIS   E   ATUM

Era preciso, urgentemente, revigorar a fé dos humanos. Shu deu ordens nesse sentido. Uma grande resistência religiosa foi montada no país, impedindo-se, com grandes esforços e sacrifícios, que o mal triunfasse. Os descendentes de Apophis não conseguiram passar. Os problemas de Shu, entretanto, não haviam cessado. Suas indecisões, o fracasso das primeiras medidas que ordenara, estavam vivas na mente de todos. Havia muito descontentamento; Shu entendeu então que deveria renunciar. Como seu filho Geb não estava ainda preparado, decidiu que sua mulher, Tefnet, ocuparia o trono provisoriamente. 

Geb não gostou da decisão do pai. Não via com bons olhos a ocupação do trono real pela mãe. Uma noite, invadiu o palácio real e tentou violentá-la sexualmente. Ela escapou, fugiu, anunciando em seguida que renunciaria a favor do filho. Atacado pelas forças de Apophis, Geb foi ferido. Ra, que das alturas tudo via, resolveu ajudá-lo. Enviou-lhe através de um mensageiro a sua “peruca” (aura solar, luminosidade irradiante), jamais usada por alguém. Os ferimentos de Geb, milagrosamente, desapareceram.

Colocado sob a guarda de sacerdotes, o precioso talismã divino foi um dia levado para um lago sagrado para ser lavado. Ao esfregá-lo, viram, com grande espanto, que o maravilhoso talismã tomava a forma de um crocodilo. Ciente do ocorrido, Geb foi ao lago. Destemido, entrou nas águas. Um estranho ser lhe apareceu, tendo a cabeça de um falcão, com dois chifres taurinos, e o corpo de um crocodilo. Entendeu logo que Ra estava ao seu lado. Reconfortado pelo sinal divino, voltou e resolveu atacar os inimigos, vencendo-os inapelavelmente.


ÍSIS,   OSÍRIS,   ATUM   E   HÓRUS

O renome de Geb estendeu-se por todo o reino e por muitos países distantes. Adquiriu o poder de se metamorfosear, principalmente em crocodilo, forma aliás já usada por deuses que o haviam antecedido, Ra e Shu. Essa forma, um dia, seria também tomada por seu filho Osíris, que nasceria de sua união com Nut, deusa celeste. A partir de então, Geb foi reconhecido como o rei dos deuses, dos animais e dos seres humanos, de toda a criação, enfim. Ele sempre prestou muita atenção com relação ao comportamento das serpentes, seres dracônticos, muito inclinadas à revolta, conforme aliás Ra lhe recomendara. 

A serpente no Egito, no seu papel de protetora, é a encarnação da
BUTO
deusa Buto, do Baixo-Egito, que cospe fogo para proteger os que a usam como emblema. Ela figura em companhia do abutre, símbolo do Alto-Egito, na coroa dos faraós. Entre os dois símbolos, coloca-se um disco solar, que representa o poder criador. O interior da terra, lembre-se, para os egípcios (na Alquimia também) era um lugar ofídico por excelência pois era nele que ocorriam as transformações, as regenerações. No Livro dos Mortos, por exemplo, esta ideia aparece com a divisão da noite em doze horas, doze câmaras, nas quais vivem serpentes, que a barca solar tem que atravessar. 

A deusa Buto, protetora do Baixo-Egito, dava também seu nome a uma cidade do delta do Nilo. A deusa-serpente protegeu o infante Horus, filho de Ísis, recolhendo-o na ilha flutuante de Khemnis. Este acontecimento se assemelha ao do nascimento, na mitologia grega, dos luminares (Ártemis e Apolo), na ilha de Ortígia  (Delos depois). Buto é representada normalmente como uma serpente, alada ou não, e muitas vezes coroada. Às vezes, aparece como uma mulher que usa na cabeça a imagem de um abutre, a coroa vermelha do norte. Já o crocodilo aparece sempre associado a Seth como símbolo das trevas e da morte. Eterno inimigo de Osíris, o Sol fecundante, que com Ísis (a cheia do Nilo) representa a fertilidade, sendo Seth a desertificação. 

O que ficou para nós do Cronos egípcio é que ele é uma divindade da segunda dinastia, como o grego, pai dos “osirianos”, deus da substância universal, por ele coagulada e ordenada, da qual um dia saíram os humanos. Quanto ao crocodilo, animal mítico ligado às origens da terra, que apresenta quase que as mesmas características do dragão, ele foi adorado e amaldiçoado no Egito. Na cidade Schedit (Krokodilopolis para os gregos), o crocodilo era reverenciado como uma espécie de demiurgo que no dia da criação havia saído das águas primordiais para ordenar o mundo material. Noutras regiões, por causa dessa sua ligação às origens da criação, ele passou a representar as mais negativas energias do interior do homem, surgidas das profundezas de seu inconsciente. Acrescente-se ainda a este aspecto negativo o fato mítico de ter Seth, o assassino de Osíris, ter se refugiado, em sua fuga, no corpo de um desses animais.

OSÍRIS
Osíris, inicialmente reverenciado como deus da vegetação, nasceu no Alto-Egito, em Tebas. Quando de seu nascimento, uma voz misteriosa proclamou que ele seria o Mestre Universal; foi saudado com gritos de alegria e, ao mesmo tempo, com choro e lamentações, diante do destino que o aguardava. Ra se alegrou, apesar das dificuldades que havia criado quando de seu nascimento. Quando Geb se retirou para o céu, ele o sucedeu como deus do Egito, ligando-se a sua irmã, Ísis, elevada a condição de rainha.

Como rei, Osíris proibiu as práticas antropofágicas e ensinou aos humanos, ainda em estado selvagem, a arte de fabricar instrumentos, de cultivar a terra, de produzir alimentos como o pão e bebidas como o vinho e a cerveja. O culto aos deuses ainda não existia. Osíris orientou a construção dos primeiros templos e das primeiras estátuas, regulou a ordem das cerimônias e inventou instrumentos musicais. Depois disso, ele construiu cidades, deu aos humanos leis justas, recebendo, por isso, o título de Unophris (Onofre), o Ser Bom.   

Não satisfeito com o que realizou no Egito (Cronos e Saturno farão o mesmo, respectivamente, na Grécia e em Roma), Osíris decidiu levar a sua proposta civilizadora pelo mundo afora. Deixando Ísis como regente, partiu acompanhado pelo seu grão-vizir, Thot, e por seus oficiais, Anúbis e Ophois. Voltando, encontrou o Egito sabiamente administrado por sua mulher. Entretanto, pouco depois, foi vitimado por um complô armado por seu irmão Seth, invejoso de seu poder. No vigésimo oitavo ano de seu reino (número saturnino) foi assassinado e seu corpo decomposto. 

Ísis, auxiliada por Toth, Anúbis e Hórus, conseguiu, através das práticas mágicas que conhecia, trazê-lo de volta à vida. Todos
SETH
compareceram a um tribunal divino, presidido por Geb, diante do qual Osíris desmascarou Seth e refutou as acusações que este lhe fazia (usurpação do trono). Ao abrigo da morte, Osíris entregou o trono a seu filho Hórus e desceu ao mundo dos mortos, onde pontifica desde então, assumindo o controle da psicostasia. Osíris simboliza o drama da existência humana destinada à morte, mas sobre ela triunfante periodicamente.

Seth, que aparece sobretudo na forma do monstruoso Apophis (semelhante ao Typhon dos gregos), é o eterno adversário de Osiris, personificação do deserto, árido e seco, símbolo das trevas em oposição à terra fértil, à água fecundante, à luz. Tudo o que vem de bom e profícuo é de Osíris, tudo o que é perversidade e destruição vem de Seth. Seth foi expulso do panteão egípcio, tornando-se um inimigo de todos os deuses. Os asnos, os antílopes e outros animais do deserto eram de Seth, assim como o hipopótamos, o crocodilo, o escorpião e o porco, nos quais Seth se refugiou para escapar dos golpes de Horus. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

EGITO - LITERATURA EGÍPCIA: O DIÁLOGO DE UM DESESPERADO COM SUA ALMA



A história do antigo Egito costuma ser dividida em três grandes eras, representadas pelos Impérios Antigo, Médio e Novo, separados por períodos intermediários de grande confusão política e social. O Antigo Império foi precedido por um período chamado pré-dinástico, que, sabe-se hoje, por recentes pesquisas arqueológicas, na realidade se estendeu entre, mais ou menos, 10000 aC (passagem do paleolítico para o neolítico) e 4300 aC (unificação do Alto e do Baixo Egito), e não como supunha a Egiptologia tradicional, entre 5000 e 2700 aC.

Foi durante o Antigo Império, com base em estruturas sociais já estabelecidas no período pré-dinástico, que um sistema de governo teocrático, muito organizado e centralizado, foi implantado. O acontecimento religioso mais importante dessa fase foi o do desenvolvimento do culto solar centralizado em Ra, deus Sol, o Criador, a partir da cidade de Iun, chamada de Heliópolis pelos gregos (na Bíblia foi chamada de On), associado a outras divindades. As principais bases desse culto estão definidas nos Textos das Pirâmides.

PTHA
A cosmogonia heliopolitana, para explicar a criação, origem da vida universal, adotava a tese segundo a qual a matéria procedia de uma fonte (unidade primordial) e se transformava gradativamente em múltiplas e diversas formas. Estas transformações, segundo a teologia menfita, se concretizavam através da palavra falada, sendo Ptha a grande divindade desta demiurgia. 

Por volta de 2700 aC e pelos quinhentos anos seguintes, o Egito entrou numa fase de grande prosperidade. As fronteiras
CANAIS DE IRRIGAÇÃO
controladas, o país produzindo, os faraós da quarta dinastia governavam com os olhos postos na eternidade. Construíram-se grandes monumentos, grandes edificações e esculturas em pedra. Canais e diques foram abertos e levantados para controlar melhor as águas do Nilo, para tornar o país ainda mais fértil.  Heliópolis cresceu suntuosamente em importância. A sensação era a de um progresso que jamais teria fim. O rei-deus era supremo, todos se considerando seus servos, inclusive a aristocracia, de onde saíam os quadros para a administração do país. 


Quando a quinta dinastia desse período (2494-2345 aC) subiu ao poder, um clima de intranquilidade, porém, foi aos pouco se espalhando pelo país. As relações entre o poder central, o faraó, e a classe sacerdotal começaram a se deteriorar, afetando bastante a vida de toda a população. Quando da passagem da quarta para a quinta dinastia, o faraó, até então considerado como uma divindade encarnada, suprema, começou a sofrer uma capitis diminutio. A classe sacerdotal de Heliópolis, cujo poder crescia em importância e riqueza, promoveu uma espécie de rebaixamento da figura real. De divindade suprema, absoluta, como um Ra, ele passara a ser considerado como seu filho.


RA

Além deste problema, outro, de natureza bem material, começou a intranquilizar bastante o governo central: a economia estava ameaçada de colapso. Constatou-se que os grandes gastos que haviam sido feitos na dinastia anterior, para celebrar as glórias de Ra e do poder faraônico, haviam praticamente esvaziado o Tesouro real.

Mas os problemas não se resumiam só a estes. Graves acontecimentos de ordem administrativa, provocados por atitudes de rebeldia da burocracia que administrava o país, nas mãos da aristocracia, antes submissa ao poder real, estavam servindo de exemplo para manifestações de desobediência popular. Os nobres, que nas províncias do império atuavam como governadores, começaram a se mostrar descontentes com o poder central, que o faraó representava, alguns até questionando abertamente a sua onipotência.

Durante toda quinta dinastia as tensões foram se avolumando até que no reinado do seu último faraó do período, chamado Pepi, que reinou por quase noventa anos, elas se tornaram incontroláveis. A agitação tomou conta do país, os senhores feudais, isoladamente ou através de alianças regionais, opuseram-se ao poder faraônico. Uma demonstração explícita dessa rebeldia foi quando muitos deles passaram a construir os seus túmulos nos seus domínios, uma afronta máxima.

As concepções funerárias egípcias, desde os tempos pré-dinásticos, observadas no Antigo Império, embora jamais tenham sido claramente estruturadas, revelaram sempre uma crença inabalável na sobrevivência no Outro Lado. Era costume, por isso, que os nobres procurassem ser enterrados nas proximidades dos túmulos reais, para melhor acompanhar o faraó no seu destino de imortalidade.

A rebeldia dos senhores feudais acabou gerando a anarquia, o caos social e político. As desordens e as crises eram constantes, perdendo-se o controle real sobre as águas do Nilo, vital para o bom desempenho da economia do país. As colheitas foram grandemente prejudicadas, a escassez de alimentos logo passou a fazer parte do quotidiano das pessoas, quando não mesmo a fome, em extensas regiões. Foi por esta época também, para piorar a situação, que nômades asiáticos atingiram a região do delta do Nilo, uma região rica, trazendo muito sofrimento para a vida de grandes contingentes populacionais. Aceleradamente, o Antigo Império se desintegrou, entrando o país num período histórico a que se deu o nome Primeiro Período Intermediário. 

Durante esse período, o Egito foi governado por sete dinastias, da sétima à décima primeira. Foi durante as sétima e oitava dinastias, cujos governantes duraram muito pouco no poder, que a guerra civil se tornou generalizada entre os governadores das províncias, com seus exércitos de mercenários. A fome, a miséria e a doença tomaram conta do país. Os túmulos foram saqueados, principalmente os mais ricos, da realeza e da aristocracia. Desrespeitadas as instituições do poder político, as pessoas adotaram atitudes individualistas, colocando os seus interesses pessoais acima de qualquer engajamento religioso ou social. Os tempos eram de agnosticismo, de pessimismo, de desespero. A morte, inclusive, se “desvalorizou”. As pessoas deixaram de investir na eternidade.

Os registros literários que nos chegaram desse período dão testemunhos da crise. Sua característica maior estava na excessiva valorização do individualismo como uma espécie de réplica à deterioração da figura do faraó. Um admirável texto desse período (autor anônimo), denominado por alguns estudiosos de O Debate sobre o Suicídio, é um diálogo entre um homem atormentado pelo desespero e sua alma (ba). O homem tenta convencer a sua alma de que o suicídio é algo bom, positivo, diante do mundo, assim descrito: Os irmãos são maus, os companheiros de ontem não se amam... Os corações estão ávidos, cada um desejando os bens de seu vizinho... Não há mais justos. O país está abandonado aos que só cultivam iniquidades... O pecado que ronda a Terra não tem fim. Mais: A morte está hoje diante de mim como a cura para um doente. A alma, numa certa passagem do texto, embora tente sempre demovê-lo, garante que ficará junto dele, mesmo que ele decida pôr fim à própria vida. 

Os textos literários produzidos nos anos do período intermediário de que trato aqui foram reunidos sob o nome de Literatura Pessimista. Esses textos refletem, dentre outras coisas, uma nova atitude com relação à morte e o questionamento sobre expectativa que todo egípcio tinha de alcançar a vida eterna no Outro Lado. Um dos mais antigos textos dessa literatura tem o nome de A Profecia de Nefertiti: um sábio é conduzido à presença do faraó (Sneferu, da quarta dinastia) e lhe fez revelações catastróficas sobre a vida futura do país, com destaque para os conflitos internos e para a invasão estrangeira. Maiores

informações sobre tão antiga literatura, para os quiserem ir mais fundo, poderão ser obtidas num dos mais completos livros até hoje publicado sobre ela, de nome Ancient Egyptian Literature, de Miriam Lichtheim, em 3 vols, publicados em 1973, l976 e 1980, pela University Califórnia Press. Mais informações poderão ser obtidas também em obra sobre o mesmo assunto, de Sir Alan Gardiner, publicada em 1914. Dentre outros textos pessimistas muito curiosos, trazidos por esses historiadores à luz, produzidos na agonia do Antigo Império, cite-se As Admoestações de um Profeta e o diálogo de um desesperado com a sua alma, acima designado pelo nome de O debate sobre o Suicídio. 

Não se pense, contudo, que a literatura pessimista tenha sido uma característica de períodos de decadência, como o foi o Primeiro Período Intermediário. No Médio Império, embora os tempos fossem diferentes, mais amenos, a desconfiança com relação à vida no Outro Lado marcava a sua presença no ideário que dava origem à literatura então produzida. O texto mais representativo dessa nova mentalidade é o Canto de Intef, que reflete uma nova postura da elite intelectual diante do fim último do homem. Poemas como os aqui mencionados foram provavelmente cantados também nos banquetes mortuários, ao lado das celebrações de praxe, em honra aos mortos, que ritualmente se realizavam.

ESTELA COM O CANTO DE INTEF
O Canto de Intef, embora não se oponha abertamente à ideia de uma vida eterna, a ser conquistada durante a vida terrena através do cumprimento irrepreensível de todas as obrigações religiosas e sociais que um egípcio deveria observar, esse canto procurava encorajar o gozo da vida terrena. Essa literatura, aliás, era muito semelhante àquela que muitos séculos mais tarde Horácio, entre os romanos, no início da era cristã, resumiria na expressão Carpe Diem: colhe o teu dia, aproveita o momento, evita perder tempo com coisas inúteis. O poeta egípcio era bastante explícito: mesmo uma tumba repleta de provisões não garantiria uma vida eterna. Aliás, até hoje, completava ele, ninguém voltou do Duat, o Outro Lado, o reino subterrâneo de Osíris, para nos contar alguma coisa sobre ele.

OSÍRIS
Inegavelmente, porém, o texto mais bem acabado da literatura pessimista que nos chegou do antigo Egito, tanto sob o ponto de vista filosófico como literário, foi o do diálogo do desesperado com a sua alma. Semelhante a ele, igualmente expressivo, embora referente a um outro contexto, é o que encontramos no Livro dos Mortos, entre os cantos 26 e 30.Neste, o defunto, ao se apresentar no tribunal de Osíris, para ser julgado, pedia ao seu coração que não depusesse contra ele.


TEXTO  DO  LIVRO  DOS  MORTOS

Entenda-se: para os egípcios, o coração físico (hati) era considerado como sede da vida instintiva, subconsciente. A ele se opunha o ib, o chamado coração consciente, ativo, onde se manifestavam os impulsos evolutivos, os desejos e as aspirações elevadas, nele atuando a vontade lúcida, que devia alimentar a vida moral. O coração, na religião egípcia, era a parte mais importante do ser humano, base do seu destino individual. Era em ib que estavam as possibilidades futuras do ser humano, o que ainda poderia ser realizado. Em hati estava depositado o passado, algo assim como aquilo que os hindus chamavam de sanchita karma. Por isso, o defunto, cheio de angústia, temia a interferência de hati, ou melhor, temia que ele o desmentisse quando estivesse fazendo a sua confissão, sempre negativa: não fiz, não permiti, não provoquei, não usurpei, não causei isto ou aquilo etc.

Para os egípcios, a personalidade humana era composta de quatro
BA,   CEGONHA 
partes: Khet, o corpo físico destinado à morte; chut, a sombra; e dois elementos não percebidos pelos sentidos, ba e ka. O primeiro destes dois últimos era representado por uma cegonha, talvez tanto por razões de ordem homofônicas como analógicas. A partir da 18ª dinastia, ba tomará a forma de um pássaro (cegonha) com cabeça humana que, por ocasião da morte, escapava em direção das regiões etéreas.


O homem existia através de seu corpo (khet), de seu nome (ren), de sua imagem ideal (ka), de sua alma (ba) e de sua sombra (chut). Estas dimensões físicas e espirituais, ressalte-se, não podem ser avaliadas com base nas concepções judaico-cristãs às quais estamos habituados nem segundo certas concepções da Psicanálise moderna, principalmente as de alguns freudianos, que chegam mesmo a considerar o sentimento religioso como um fenômeno patológico. 


CADÁVER   MUMIFICADO

No mundo egípcio, as categorias do concreto e do imaginário mais se imbricam do que se superpõem. Assim, o ser humano, depois de sua morte e de se ter beneficiado dos ritos funerários se reintegra no Outro Lado. O corpo (khet), pelo cadáver mumificado, é colocado numa espécie de cova para permanecer ligado à terra, enquanto seu ka, sob a forma de uma imagem, vai receber oferendas na capela do túmulo. 

O conhecimento do nome (ren) de cada ser humano era indispensável quando da realização dos ritos de passagem por ocasião da morte porque ele guardava uma identidade secreta, sendo o morto por ele convocado. O ka fornecia a força psico-vital, força que permitia que o nome existisse. Aplicava-se o nome ka também à faculdade que tinha um deus, uma pessoa ou um animal de realizar seus atos.


KNUM
Quando o deus oleiro Knum fabricou com barro o primeiro corpo humano, ele criou também o ka, o duplo psico-energético do corpo físico, uma espécie de matriz invisível. Quando o ser humano morria, seu ka se separava de seu corpo físico. Este fazia parte do mundo visível, enquanto o outro participava tanto deste mundo quanto do invisível. O mundo visível, terrestre, era assim uma espécie de “cópia animada” do céu graças ao ka, que era o depósito das forças vitais do qual procedia a vida e que subsistia depois da morte. O ka era uma espécie de reservatório de forças vitais, um duplo imaterial do corpo, modelado ao mesmo tempo que ele. Quando um ser humano morria, era o ka que se “ocupava” das oferendas depositadas quando do culto funerário. O ka de um faraó tinha nele uma parcela do divino. Na arte egípcia, estátuas colossais são sempre usadas para representar o ka real.

Quando nos aproximamos do conceito egípcio do ka não há como não se pensar em Platão, nas suas ideias, provavelmente retiradas, do pensamento religioso egípcio.  Com efeito, para Platão, os múltiplos e sensíveis objetos do mundo físico, composto por uma
PLATÃO
matéria mutável e acidental e por uma forma pela qual são o que são, têm um substrato, uma essência, que existe eternamente. O mundo sensível era para Platão formado assim por elementos ideais e por elementos materiais, constituído pelo ser e pelo não-ser. Todos os seres e objetos do mundo, precários e perecíveis, mais ou menos segundo a espécie a que pertençam, têm em si um reflexo de uma Ideia única correspondente a essa espécie. Assim, os diferentes seres e objetos sensíveis, múltiplos e destinados à morte, como se disse, como não podem ter a perfeição da sua Ideia matriz, já que matéria é sinônimo de imperfeição, resistente sempre à forma, não passam de uma cópia dessa matriz ideal.  


O ba é a noção que mais se aproxima da nossa, de alma. Primitivamente, o ba parece ter sido o poder que os deuses tinham de se movimentar e de tomar formas diferentes. Assim, uma forma ligava-se a cada ba, podendo os deuses ter muitos ba, segundo a forma que quisessem assumir. O ba  correspondia mais a uma capacidade do que a uma entidade. Quando um ser humano morria, o ba retomava a sua liberdade mas permanecendo ligado ao morto enquanto este, graças à mumificação, conservava uma forma humana. 

Quanto aos deuses, o ba habitava a sua estátua de culto. Essa entidade  tinha assim necessidade de um suporte para se manter, uma imagem, uma estátua. No caso de Ra, por exemplo, dizia-se que seu ba era o Sol. Dizer que alguma coisa era o ba de um deus equivalia a dizer que esta coisa era a manifestação do deus no mundo sensível. 

Negra e furtiva, a sombra, chut, depois da morte, e uma vez “aberta” a porta da tumba, escapava em direção da luz juntamente com a alma. Como fiel companheira do homem durante a sua vida, a sombra, ao escapar, adquiria autonomia. Ela era considerada como um duplo do ser humano com a função de lhe oferecer proteção.      

Depois da morte de uma pessoa, o ka podia permanecer no corpo mumificado ou em alguma estátua que o representasse. Comida e alimentos deviam ser oferecidos para que essa ligação se mantivesse. Quando se trocavam brindes entre amigos, era ao ka que se faziam votos de boa saúde: erguiam-se as taças e se dizia ao teu ka! No momento da morte, esse corpo imaterial, representado sob a forma de um falcão com cabeça humana, deixava o corpo e podia se deslocar por vários lugares, inclusive viajando pelos céus, mas com a obrigação de, à noite, voltar ao túmulo.


TEXTO   DAS   PIRÂMIDES  -  A   BARCA   DO  CÉU

Os livros religiosos que nos informam sobre os costumes funerários egípcios, os Textos das Pirâmides, os Textos dos Sarcófagos e o Livro dos Mortos, nos esclarecem também sobre um princípio espiritual chamado akh, representado por um íbis com um penacho na cabeça. A palavra tem relação com o que é eficaz, benéfico e glorioso. Opondo-se ao corpo, que é da terra, o akh pertencia ao céu. Em tempos muito remotos, ao que parece, só os deuses e os faraós enquanto seres divinos, participavam deste princípio.



O akh estava no começo de qualquer gênese. A imagem para explicá-lo era a da luz saindo das trevas. Os egípcios diziam que Ra saindo de Nut era o akh por excelência. No mito, Nut, deusa do céu noturno, dava nascimento aos astros e os devorava ao fim do dia. Era por isto representada algumas vezes por uma porca, animal que tinha a reputação de devorar as suas próprias crias. O akh, o ba e o ka formavam uma espécie de trindade, três estados espirituais, interdependentes, algo assim como as três faces de um triângulo equilátero. 


NUT

Quando nos aproximamos um pouco mais da literatura egípcia, impossível não se tentar investigar como ela apareceu. Sabe-se que desde o Antigo Império, logo abaixo do faraó, de sua família e da aristocracia, se situava a poderosa classe que fazia o Egito faraônico funcionar de fato. Era a classe dos funcionários públicos, sendo obrigatoriamente escribas os que a ela pertenciam.

A rigor, no Antigo Império, quanto às classes sociais, havia primeiramente o faraó, de origem divina, que assumia uma atitude paternal com relação aos seus dependentes diretos. Mais ou menos numeroso, mais ou menos próximo, esse grupo constituía a nobreza, que costumava às vezes interferir até bastante nos negócios reais. Esse grupo, mais as pessoas da corte, amigos do soberano, chamados imakhu, e os servidores próximos  formavam uma classe privilegiada que foi se afastando e isolando cada vez mais do grosso da população. 

Todo escriba era funcionário do Estado, gozando de grandes regalias em todos os períodos da civilização egípcia. O aprendizado dos candidatos a essa atividade profissional, à qual tinham acesso inclusive crianças de níveis sociais inferiores, começava aos cinco anos, estendendo-se os cursos até os quinze, dezesseis anos ou mais. Era nas escolas, junto dos templos, que os meninos aprendiam, sob uma rigorosa supervisão, a traçar os elegantes signos hieroglíficos e hieráticos. Depois dessa formação, todos acabavam se encaminhando para os vários postos na administração pública. 

Com o tempo, a classe dos escribas, com exceção da dos nobres, foi se colocando acima das demais, adquirindo muitos de seus
ESCRIBA
representantes a condição de sábios. Os instrumentos que usavam e os rolos de papiro que carregavam davam-lhes consideração e prestígio. Era pela cultura que iam adquirindo e pelos meios sociais que passavam a frequentar que os escriba esperavam atingir os postos mais elevados na administração pública, inclusive o de vizir. No Antigo Império, eles gozaram de tanto prestígio que só podiam ter acesso à carreira as crianças da família real e da nobreza. É à classe dos escribas que devemos, sem dúvida, a produção literária que nos chegou do antigo Egito.


Os textos literários desses antigos tempos foram registrados em pedras, óstracos , tabuinhas de madeira e em papiros. Muita coisa foi destruída pelo tempo e pelo próprio homem. Em 1848, um egiptólogo alemão adquiriu um papiro que fazia parte da coleção de um diplomata inglês. Estudos realizados possibilitaram identificá-lo como um texto produzido ao final do Antigo Império, no chamado Primeiro Período Intermediário. Estava escrito na forma de um diálogo (perdeu-se o seu início): um homem desesperado dialogava com o seu ba, obra sem igual na antiga literatura egípcia. 

Inicialmente, a alma declara que se o homem pusesse fim à sua vida, como pretendia, ela não o acompanharia. Ele desapareceria totalmente no nada. Os discursos do homem e da alma vão se alternando, definindo-se bem as suas posições: para o homem, o suicídio era uma solução; para o seu ba, sua consciência, se quisermos, uma derrota vergonhosa, inapelável. 

O homem expressa não só um grande desgosto com relação a si mesmo como com relação aos outros homens. Ele diz que não encontra ninguém com quem possa falar, ninguém em quem possa confiar. E continua: A morte está hoje diante da minha face como o odor da mirra, como se eu estivesse sentado sob a vela num dia de vento. A alma, ao final, assume a palavra num tom mais duro, contundente até, e pede que, embora reconhecidas as dificuldades dos míseros tempos do seu presente, o homem deixasse de pensar no Ocidente (lugar onde ficavam os cemitérios no antigo Egito, sinônimo aqui de morte) e que ele realizasse os ritos que lhe permitiriam esperar serenamente pela sua hora. A alma, encerrando o diálogo, pede que, considerado tudo que o que lhe falta, homem, num primeiro momento, aprenda a amá-la, pois ambos, juntos, saberiam encontrar o caminho do cais.