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domingo, 1 de janeiro de 2017

ARA





ARA - Também conhecida como Altar, estava esta constelação para os gregos ligada à Titanomaquia, batalha travada entre os crônidas (filhos de Cronos), também conhecidos como titãs, e os olímpicos, comandados por Zeus. Estes, vencedores, encomendaram a construção de um altar aos Cíclopes,  diante do qual confirmaram a sua união e a disposição de manter a nova ordem imposta. Depois, então, foi o altar, como constelação, colocado nos céus. 


CRONOS   MUTILA   URANO  ( G, VASARI  E  C. GHERARDI , 1560

Após a mutilação de Urano por seu filho caçula, Cronos, os titãs (Cronos seus irmãos), se apoderaram do poder, impondo um regime cruel a todo o universo. Cronos converteu-se na realidade num déspota pior que o pai. Uniu-se à sua irmã Reia, tendo tido com ela vários filhos, que devorava assim que nascidos para evitar que se transformassem em seus sucessores, pois, segundo uma sentença oracular, um deles o destronaria. Pela ordem, foram devorados Héstia, Demeter, Hera, Hades e Poseidon. 

REIA   E   CRONOS
Diante do "canibalismo" de seu esposo, bastante desanimada, quando do nascimento de seu sexto filho, Zeus,  Reia teve uma ideia: oferecer no lugar dele, para que Cronos o devorasse, uma enorme pedra, envolta em grossos panos, certa de que ele nada perceberia. O plano de Reia teve sucesso. Cronos nada notou, fixado, como sempre, na sua função de "grande devorador". 


MÉTIS
É oportuno observar que este acontecimento mítico é uma ilustração de como os gregos valorizavam o que denominaram pelo nome de métis, o procedimento de Reia. Podemos traduzir métis como astúcia, inteligência prática, avisada, solércia, o chamado pensamento "oblíquo" dos filósofos, conceito que se opõe opondo-o à violência, ao despotismo e à arbitrariedade. Os gregos, diante da força bruta que os titãs então representavam, trouxeram para o primeiro plano de sua Mitologia esse elemento, que sempre ocupou um lugar de grande importância na sua civilização. Grandes figuras do mito grego, entre deuses e heróis, destacando-se Ulisses mais que todos dentre estes últimos,  participaram de inúmeras histórias exemplares quanto ao uso da métis.

ZEUS   E   AMALTEIA
Longe do pai, em Creta, protegido por ninfas e por demônios guerreiros (Curetes), alimentado pela cabra Amalteia, Zeus, jovem, sentido-se forte, resolveu libertar os irmãos e destronar o pai. A vitória que obteve se deve mais uma vez à astúcia. Zeus recebeu um precioso auxílio de Métis, divindade que tutelava o pensar "oblíquo". Titânida, filha de Oceano e de Tétis,  Métis forneceu a Zeus uma droga, uma espécie de vomitório, graças ao qual Cronos, ingerindo-o sem o saber, foi compelido a devolver todos os filhos que engolira (Héstia, Hera, Deméter, Poseidon e Hades). Depois de vencer o pai, Zeus teve que enfrentar os seus tios, irmãos de Cronos, senhores do universo. Nova confrontação entre a força
CÍCLOPE
primitiva que estes representavam e a inteligência dos representantes da nova ordem, que Zeus e seus irmãos doravante assumiriam. O combate foi difícil, os anos se passavam e nada. Foi preciso que Zeus recorresse a novos aliados. Fez um apelo aos Hecatônquiros (os de Cem Braços) e aos Cíclopes (os de Olho Redondo), entidades uranianas, que o ajudaram então, oferecendo-lhe estes últimos armas poderosíssimas, o trovão, o relâmpago e o raio, com os quais Zeus obteve finalmente a vitória. Este episódio é conhecido pelo nome de Titanomaquia.




TITANOMAQUIA  ( PETER  PAUL  RUBENS )


Aos poucos, Zeus conseguiu impor uma nova ordem que ia se contrapondo à dos titãs, que tinha por base a violência pura. Instauram Zeus e seus irmãos, agora donos do universo, sob a supremacia do primeiro, a noção de complexidade, noção sob a qual se resolveriam doravante as relações entre os próprios deuses e entre os humanos. A esta noção de complexidade foram também incorporadas, ao lado do uso da força bruta, certas práticas de alianças e de recompensas, uma “doutrina de poder” que dará forma à ordem olímpica, a ser observada, com as inerentes limitações e imperfeições, também pelo mundo terrestre. Os gregos levarão estas noções e procedimentos como modelo às civilizações do tempo, fixando valores e métodos de governo e de relações políticas ainda hoje presentes na vida das nações.


 A   QUEDA   DOS   TITÃS  ( CORNELIS  VAN  HAARLEM )

Pouco a pouco,  no espírito grego, os titãs  passaram a simbolizar as forças brutas em ação no cosmos, voltadas exclusivamente para a satisfação dos desejos terrestres, materiais, forças sempre em oposição às de caráter evolutivo, espirituais,  que Zeus e seus irmãos representavam. Juntamente com os Cíclopes e os Hecatônquiros, os titãs se tornaram a imagem viva da movimentação e dos entrechoques cósmicos dos primeiros tempos. Eram eles as forças selvagens, indomáveis, do mundo natural então em formação. É neste sentido que os titãs aparecem como ambiciosos, presos à materialidade, adversários do espírito, que Zeus e seus irmãos, os deuses olímpicos, tentavam impor à ordem universal. 


GUERRA   DOS  TITÃS  ( CERÂMICA )

No processo da individuação do ser humano, por uma natural analogia, passaram  os titãs a representar as forças que dentro dele se opunham a qualquer impulso evolutivo no sentido de uma espiritualização harmonizante. O combate dos olímpicos contra os titãs era, nessa perspectiva, era uma ilustração do esforço evolutivo do ser humano para sair dos planos da animalidade, da vida instintiva. Zeus, nessa mesma linha de pensamento, identificou-se assim como o modelo do elã espiritual na direção da transcendência, um impulso no sentido de superação das servidões da matéria e dos sentidos.

No seu todo, os titãs aparecem como potências primordiais, imagens da forças e das energias originais, cegas no geral, que atuam grosseiramente (a castração de Urano, Cronos devorando seus filhos etc.), que é preciso saber superar, ultrapassar, seja no sentido da criação da Lei Social, a ser observada por todos, seja no sentido de uma espiritualização progressiva que vá além daquela e que transforme as  forças brutas em ação no cosmos em forças da alma. Além do mais, os titãs representam, a par de sua luta contra o espírito, encarnando as tendência à dominação, ao despotismo, ao arbítrio, uma tendência obsessiva que muitas vezes se esconde por trás de uma desmedida ambição de melhorar a vida humana só materialmente. Este impulso está hoje, no mundo moderno, como sabemos, centrado nas várias expressões do poder da tecnocracia. 

KIRON
Outra versão sobre a origem de Ara pode ser encontrada no mito grego do centauro Kiron, pelo qual tomamos conhecimento do altar que ele erigiu para sacrificar  simbolicamente o lobo, símbolo da vida instintiva. Sempre considerado por todas as tradições como um monstro devorador, o lobo é uma das imagens mais caras a antigos cultos solares. No Egito, por exemplo, sob o aspecto negativo, o lobo representava poder destruidor do Sol, este, como sabemos, um símbolo de egos poderosos nas suas expressões mais hipertrofiadas. É este aspecto perigoso que o lobo nos é apresentado em inúmeros contos e lendas nos quais personifica a ferocidade, a gula.  É neste sentido que o lobo é a imagem arquetípica da libido insaciável nos seus vários aspectos devoradores, concretizados através de comportamentos egoístas, associais, violentos, destrutivos.  

Lembremos que as constelações do Centauro, do Lobo e do Altar, todas constelações austrais, formam um conjunto que, tendo-se em vista a sua melhor compreensão, devem ser analisadas através das
LOBO
suas várias relações. O lobo, qualquer que seja o enfoque, é sempre símbolo da vida instintiva, que deve ser controlada no ser humano pela sua razão e colocada a sua energia a serviço de um desenvolvimento progressivo da vida social, coletiva. Força vital que não pode morrer, mas que deve ser corretamente orientada, o “lobo” no ser humano tem que ser sacrificado no altar, um microcosmo catalizador do sagrado. Em direção do altar devem convergir todos os gestos litúrgicos e todas as linhas do edifício social (nossa relação com o Todo) que nos cabe levantar. É o altar uma miniatura do templo e do universo, uma síntese da totalidade. É no plano terrestre o lugar onde o sagrado deve  se condensar com maior intensidade. É no altar que o profano se torna sagrado, isto é, social, na perspectiva em que colocamos aqui esse tema. Por ficar geralmente acima do que o rodeia, o altar deve simbolizar não só ascensão como um sacrifício constante que o ser humano deve fazer para melhorar socialmente tanto a sua vida como a dos outros com os quais tem que conviver.


SANCTUARIUM
O altar se confunde com o santuário, tornando-se deste modo o lugar mais sagrado do templo. Entre os romanos, designava a palavra altar o gabinete do imperador (sanctuarium). Depois, no latim eclesiástico, passou a dar nome a um lugar recôndito, protegido, para a realização de cerimônias religiosas. Entre os judeus, o altar se confunde com o tabernáculo, santuário portátil que foi erigido no deserto e que os acompanhava em suas perambulações após o êxodo. O tabernáculo representava a morada de Deus em meio à comunidade e tinha como modelo o santuário celestial. Seu traçado simbolizava a criação, a estrutura do cosmos e a história futura do povo de Israel até a idade messiânica, ideias há muito perdidas pelos detentores do poder na moderna nação israelita. 

DIONISO
Uma terceira versão grega liga a origem desta constelação ao altar do deus Dioniso. Deus da vida selvagem, da vegetação, da vida animal, da vida florescente, das mudanças cósmicas, cíclicas, sazonais, é Dioniso a energia em operação no universo. Lembra no mundo humano a pulsão fundamental de viver que não pode ser contida, que impele toda a existência a se realizar pela a ação. Nesse sentido, aponta para o irrefreado, para tudo o que escapa  do controle racional, tudo o que é insaciável, sem inibições ou limites. Enquanto Apolo representa a ordem, o racional a serviço do espiritual, Dioniso ressalta as pressões do inconsciente que empurram para o caótico, para a auto-aniquilação, para a dissolução das formas, para um sentido involutivo por trás do qual existe sempre uma ideia de verdade e de justiça, de renovação, de metamorfose. Neste sentido, é Dioniso visto como uma divindade infernal, destrutiva das formas que não sabem se renovar.   


CULTO   DIONISÍACO  ( W.A. BOUGUEREAU , 1884 )

Os cultos de Dioniso eram celebrados no alto das montanhas, nas florestas, jamais em templos, que o deus nunca os teve. Por isso, os gregos colocaram o altar de Dioniso nos céus, entre as constelações, abaixo do “pavoroso” ferrão de Escorpião. Deus da vinha, do vinho, da renovação cíclica em todos os sentidos, Dioniso se confunde, no mito, com Shiva, com Osíris e com Hades-Plutão.
RITO  DIONISÍACO  ( CAMAFEU )
Na Astrologia, “vive” no signo de Escorpião, tendo, por isso, relação com a oitava casa. Espírito da seiva e das formas que brotam, Dioniso é o princípio e mestre da fecundidade animal e humana. É, por excelência, sob o ponto de vista social, o deus da exuberância, da liberação, da supressão das interdições e das proibições, enquanto atua como divindade que leva ao consciente, numa ascensão libertadora, as representações ligadas a pulsões mantidas inconscientes. 

Neste sentido, Dioniso é o que liberta do inferno, é o deus ctônico, representando o grande esforço do ser humano para romper, com
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
violência, a barreira que o separa dos planos superiores, espirituais, da existência. É o deus, através de sua ação, o grande gerador de comportamentos que simbolizam as forças da dissolução da personalidade, num primeiro momento, levando-a a formas regressivas e primordiais, através da orgia e do êxtase (Mistérios de Elêusis), para, a partir delas, se chegar  a outras formas renovadas de vida.  

Neste sentido, Dioniso tem íntima relação com aquilo que no ser humano é chamado pela Psicanálise de libido, matriz das pulsões que devem ser levadas ao altar do deus para que aprendamos a domesticá-las, controlá-las. A libertação destas energias pode tomar
EROS  E  PSYKHE ( BOUGUEREAU )
um caminho racional-espiritualizante ou materializante, evolutivo ou involutivo. Quando estas pulsões não são controladas, quando as mudanças e as transformações não vêm, quando são retardadas, proteladas ou “esquecidas” (sublimação, na Psicanálise), Dioniso intervém com violência, destrutivamente, chegando mesmo a causar a morte das formas, sejam humanas, consideradas individualmente, ou sociais, coletivamente. Na Astrologia, como sabemos, Dioniso atua através do planete Plutão, regente do signo de Escorpião.


HERÁCLITO
( RAFAEL  DE  SANZIO )
Heráclito, pensando certamente nos ritos orgiásticos e nas práticas omofágicas do culto dionisíaco, entendeu que Dioniso e Hades eram, no fundo, o mesmo arquétipo, atuando através de máscaras diversas. O culto de Dioniso se irradia por todo o mundo grego, mediterrâneo e asiático na medida em que ele se torna condutor e salvador das almas. Seu culto se reveste de cerimônias que têm seu ponto alto numa das quatro mânticas que aparecem na mitologia grega, a mântica mistérica ou dionisíaca; a de Apolo a profética; a erótica de Eros; e a poética das Musas.  É dentro deste jogo de relações que se sincretizam que Dioniso se confunde também com figuras como a de Attis e de Adonis (Tammuz) através dos cultos orgiásticos de Cibele, a Grande Mãe frígia, e de Ishtar (Astarte entre os gregos), deusa suméria da fecundidade.


PTOLOMEU
A constelação de Ara estende-se de 10º de Sagitário a 0º de Capricórnio, nenhuma de suas estrelas apresentando interesse astrológico. Segundo Ptolomeu, a influência de Ara como um todo tem características de Vênus e de Mercúrio, o que para mim não se ajusta nem às razões mitológicas das três versões acima apontadas nem ao nome que o próprio Ptolomeu usava para designá-la, Timiaterion (O Turíbulo,  O Incensário). Vejo mais nesta constelação influências de natureza jupiteriana e marciana, o que inclusive de ajusta melhor à tradição
AL   MIJMARAH
registrada anteriormente a Ptolomeu. O incenso tem o seu simbolismo ligado ao da fumaça que, elevando-se aos céus, significava a trajetória que a alma devia seguir, fazendo o mesmo caminho ascensional das preces. Astrologicamente, como se sabe, o incenso faz parte do simbolismo do signo de Sagitário, o que me parece caracterizar melhor as influências de Ara como jupiterianas. Não foi por acaso que os astrólogos árabes chamaram esta constelação de Al Mijmarah, O Incensário. Os latinos, por sua vez, a denominaram  de Ara Centauri, de Ara Thymiamatis e Thymale, estes dois últimos nomes fazendo referência à sua origem dionisíaca. 


HIPARCO
Além do mais, Hiparco e outros nos dão a saber que Ara, desde tempos muito remotos, havia atraído a atenção popular porque a sua aparição num céu nublado servia para que se fizessem prognósticos sobre o tempo. Ara tinha especial importância para marinheiros porque costumava aparecer em meio a trovões, relâmpagos e raios, anunciando tempestades. Em alguma tradições, por isso, Ara também é conhecida pelo nome grego de Pharos, sinal luminoso, luzeiro, farol, em grego. Zeus (Júpiter), lembremos, como divindade uraniana, luminosa, manifestava-se principalmente através de fenômenos atmosféricos, de três em especial, o trovão, o relâmpago e o raio, advindo daí os seus epítetos Brontaios (Trovejante) e Astrapaios (O que lança raios). Ara, assim, no mapa, pode ser um ponto (uma região) onde Zeus (Júpiter) “fala” conosco., onde podemos ouvir a sua voz. 

Os astrólogos latinos chamaram a constelação de Ara Centauri, de Ara Thymiamatis e Thymale, estes dois últimos nomes fazendo referência à sua origem dionisíaca. Os árabes a denominaram Al Mijmarah, O Incensário.

NIETZSCHE  ( MUNCH )
Na minha opinião, um mapa que ilustra de modo muito significativo tudo o que vai acima é o de Nietzsche, que tem o signo de Sagitário interceptado no seu Ascendente, iniciado a 28º50' de Escorpião. A figura de Dioniso aparece com grande relevância na obra do filósofo alemão como possibilidade oferecida ao ser humano de aceder, a despeito das perversões e dos excessos implícitos no seu culto, a níveis superiores de existência, de modo a eliminar as barreiras que o separam de uma vida transcendente. Os astrólogos latinos chamaram a constelação de Ara Centauri, de Ara Thymiamatis e Thymale, estes dois últimos nomes fazendo referência à sua origem dionisíaca. Os árabes a denominaram Al Mijmarah, O Incensário


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).


sábado, 9 de abril de 2016

URANO (3)

              
                                      

De um modo geral, as divindades celestes de natureza uraniana mostram a sua cólera através de trovões, relâmpagos ou raios. Oniscientes, onipotentes, sábias, essas divindades são sempre as
ÁFRICA   OCIDENTAL
primeiras legisladoras dos grupos humanos na sua vida nômade (guerreiros, coletores, predadores) antes de assumirem uma vida sedentária. Um dos melhores exemplos de uma divindade dessa natureza é Olorum (literalmente, proprietário do céu); nós a encontramos entre Yorubás africanos, povo da África ocidental, ao sul do Benin e a sudoeste da Nigéria. Olorum, depois de ter iniciado a criação do mundo, delegou a divindades inferiores o trabalho de acabá-la e de governar o mundo criado. Retirou-se dos assuntos celestes e terrestres, não se encontrando mais colégios sacerdotais que cuidassem da sua imagem, de seu culto e de seus ritos. É, entretanto, sempre invocado, como último recurso, quando as grandes calamidades se abatem. Olorun reinava sobre os céus com o nome de Olofin Orum, Senhor do Céu, enquanto, abaixo, Olokun, princípio feminino, reinava sobre as águas.  

Os homens só se lembram dos céus em casos excepcionais, quando perigos vindos dessas regiões, os ameaçam diretamente. Na maior parte do tempo, a religiosidade humana se dispersa, volta-se para inúmeras outras solicitações de natureza cotidiana, terrestre, mais prementes. Com relativa certeza, porém, parece ser possível afirmar que a devoção às divindades uranianas foi a primeira forma que tomou a religiosidade dos homens primitivos,  fortemente marcada por sentimentos, pela afetividade. 

Se do céu, isto é, das divindades que se manifestavam através de fenômenos atmosféricos vinham coisas boas, favoráveis, tempo bom, chuva e Sol na medida certa, era preciso agradecer. Se, pelo contrário, os deuses se manifestassem com violência, isto é, se do céu só viessem tempestades, frio intenso ou calor abrasador, geradores de várias catástrofes, enchentes, seca, desmoronamentos etc., era preciso fazer sacrifícios para que tais tendências fossem revertidas.  



DYAUS
    
Quando nos voltamos para a Índia, por exemplo, encontramos algo semelhante. É opinião geral que as duas mais antigas divindades dos povos árias que invadiram a Índia no início da era de Áries (2.000 aC) eram Dyaus, o Céu, e Prithivi, a Terra. Nos hinos do Rig-Veda se faz menção a eles como sendo os pais dos demais deuses. Eles são sempre descritos como grandes, vigorosos e sábios, como aqueles que promovem a virtude e prodigalizam favores aos que os honram. Deles se fala também que geraram todas as criaturas e que são bondosos.





INDRA
Numa outra passagem do Rig Veda, temos informações que nos revelam que o Céu e a Terra foram criados por Indra, que os transcendia em grandeza. Às vezes, se menciona que o Céu e a Terra foram criados por Soma, o deus que vive na planta de mesmo nome, uma das divindades mais citadas no Rig-Veda. Como entender tudo isto? A opinião mais aceitável é a de que Indra ocupou aos poucos, gradualmente, o lugar de Dyaus. Indra, como se sabe, faz parte da principal trindade da religião védica, ligada ao elemento ígneo, que se completa com com Surya, o Sol, e Agni, o fogo terrestre.   

Dyaus-pitri (Deus Pai ou Pai do Céu) era nome mais comum pelo qual Dyaus era invocado. Quando o Céu e a Terra eram invocados juntamente usava-se a expressão Dyava-prithivi. Dyaus personificava a abóbada celeste, o firmamento supremo. Todos os deuses, o Sol, a Lua, o Vento, a Chuva, o Relâmpago, a Aurora são filhos dele. Ele tem o poder de abrir a Terra e de fertilizá-la com o seu sêmen, a chuva. A palavra Dyaus (do radical indo-europeu div, depois deiwo, brilhante, celeste), no antigo mundo védico, representava o lugar onde brilhavam os deuses. O Akasha, Éter, era uma manifestação física sua.  

Os principais nomes de Dyaus são: Abhram ou Maghaveshma (O Lugar das Nuvens), Ambara (Véu), Ananga (Indivisível), Vyoma (O que Recobre), Maha-vela (Grande Véu), Pushkara (Reservatório das Águas), Trivishtapa (Morada dos Três Mundos), Antaroksha (Espaço), Murudvatma (Caminho dos Ventos), Viyat (Separador), Vihayah (Caminhos dos Pássaros), Gagana (Móvil).



NAKASHATRA

Nas concepções védicas, a existência possui oito esferas: 1) Prithivi, onde reside (2) Agni, o Fogo; 3) Antariksha, o Espaço, onde reside (4) Vayu, o Vento, princípio da Vida; 5) Dyaus, o Céu, onde reside (6) Surya, o Sol, princípio do intelecto superior; 7) Nakshatra, as Constelações, onde reside (8) Soma (a Lua), princípio da imortalidade. As esferas da existência e as potências que nela residem são os princípios a partir dos quais o mundo físico dos elementos (adhibhautika) se desenvolveu. Eles são para o ser humano o aspecto mais imediato do divino, os deuses mais imediatamente perceptíveis. Enquanto primeiro grau do aparecimento das coisas, eles representam a juventude do mundo. 

Oposta a Dyaus, a primeira das oito esferas é a Terra, suporte (Dhara) de todas as criaturas, como a Geia dos gregos, nutriz de qualquer forma vital. Ela é mãe de todos os seres viventes, a substância de tudo. Narram os mitos que Prithu, o primeiro rei, inventor da agricultura, obrigou a Terra, contra a sua vontade, a abrir os seus tesouros e a alimentar os homens. Daí o primeiro nome da Terra, Prithivi, o domínio de Prithu.

Nas mais antigas invocações, a Terra era identificada pelo nome de Aditi, a Ampla, A Infinita, a extensão primordial, a primeira das deusas e mãe dos deuses.  Todos os aspectos da natureza e da vida eram formas suas. As montanhas, as árvores, os rios, os animais, tudo era dela. 

A primeira das esferas da existência é Prithivi, a Terra, suporte (dhara) de todas as criaturas, a que nutre todas as formas de existência. Prithivi é representada como uma deusa ou como uma vaca que alimenta com o seu leite todos os seres. Ela é também a substância universal, prima materia, separada das águas. Dela foi feito o homem, sendo ao mesmo tempo mãe e mulher, oposta simbolicamente ao céu, entendidos ambos como o princípio ativo, o primeiro, e princípio passivo a segunda. Prithivi é a virgem penetrada pela enxada ou pela charrua, fecundada pela chuva.



DYAUS   PRITHIVI


Unida ao Céu, a Terra forma, pois, com ele o primeiro casal divino, Dyaus-Prithivi, muito semelhante ao par que na mitologia grega forma a primeira dinastia divina, Urano-Geia. Nas invocações, Prithivi é identificada geralmente como Aditi, inesgotável fonte de abundância.

Em Prithivi reside Agni, o fogo capturado e do qual os homens se apropriaram para utilizá-lo como instrumento de poder e progresso. Qualquer forma do fogo é venerada como um ser divino. A  sua mais honrada forma é a sagrada, nascida da fricção de dois pedaços de madeira, em cerimônias religiosas, nas quais são pronunciadas fórmulas rituais. 

Agni, o fogo doméstico, é a principal divindade dos Vedas, a ele sendo dedicados o maior número de hinos. Ele é o mediador entre a Terra e o Céu, o protetor dos homens e de suas moradas, testemunho de suas ações, sempre invocado em todas as ocasiões solenes. Ele preside todos os sacrifícios e todos os acontecimentos da vida humana.  


AGNI
Antes de os brâmanes terem assumido a posição mais elevada no sistema de castas da Índia, a casta guerreira já possuía divindades que, embora ainda não bem organizadas num panteão, atendiam às suas necessidades, as de uma aristocracia conquistadora. Eram as divindades chamadas de reais, e velavam sobre a ordem social, bem diferentes de divindades como Agni, muito reverenciada ritualisticamente pelos brâmanes, a classe sacerdotal.

ASHVINS
As divindades reais, como o seu próprio nome indica, veneradas por conquistadores, pela elite dirigente, não eram populares. O ariano guerreiro tinha os seus olhos voltados para Indra, para Mitra, Varuna, para os Nasatyas ou Ashvins e para os Ribhus, poderosas divindades que apontavam para uma soberania universal.

O ariano que invadiu o norte da Índia, submetendo as populações de pele escura, os dravdas, venerava Indra, um deus que possuía as mesmas qualidades e defeitos que um kshatrya (casta dos guerreiros). Um destes deuses dos invasores era Varuna, que aparece geralmente muito associado ao deus Urano dos gregos.

VARUNA
Mitra e Varuna formam uma díade e são tidos como Adityas, filhos de Aditi. Como rajas, reis, são detentores daquilo que os védicos chamavam de kachatram, soberania, a essência da casta guerreira. Assim como os asuras (aqui no sentido de seres espirituais), eles têm um poder mágico, maya, uma eficácia misteriosa, um grande poder de encantamento, que, nos demônios, se volta para os malefícios. 

Os princípios soberanos atribuídos aos Adityas são personificações dos princípios intelectuais, morais e das virtudes sociais que regulam o funcionamento harmônico do universo e da sociedade humana. Esses princípios residem nos céus, nas esferas mais altas, dominando a vida e os seus elementos constitutivos. 

Do ponto de vista humano, estes princípios se referem aos aspectos principais de sua existência, orientando as relações dos homens entre si e deles com as forças naturais em operação no cosmos. Os pensadores védicos separaram estes princípios soberanos em dois grupos: uns referindo-se ao mundo dos humanos e outros à ordem cósmica.

Os princípios soberanos do mundo dos humanos são: 1) Mitra (Amizade) – representa a solidariedade, o respeito à palavra dada, as ligações dos homens entre si; 2) Aryaman (Honra) – representa os princípios cavalheirescos, a magnanimidade, as regras da sociedade; 3)Bhaga (Partilha) – representa os bens do clã como propriedade legítima e também o tributo devido como participação no bem coletivo.

Os princípios soberanos do mundo divino (ordem cósmica) são: 1) Varuna (o que tudo cobre ou liga) – representa o destino, as leis misteriosas que guiam os humanos em direção do desconhecido, do inesperado; 2) Daksha (Habilidade) – representa a arte dos rituais, as regras do sacrifício e a capacidade de cumpri-las sem falta; 3) Amsha (Partícula) – representa a parte da essência supramundana que  cabe a cada um dos humanos, sem que isto a diminua; é vivida como acaso, sorte, dom divino, tesouro encontrado, a exigir sempre um “imposto” maior de quem recebe mais. 

MITHRA
Mitra e Varuna são mantenedores da ordem universal, rita. Não a instituíram, mas a mantêm. Rita é o caminhar universal, o eterno fluir de tudo. Esse conceito equivale ao Panta Rei de Heráclito, que nos afirma que tudo é móvel, transitório e passageiro. Mitra governa a amizade, cuida da solidariedade, sanciona os contratos, Varuna garante os juramentos, pune os inadimplentes.  

Os antigos povos védicos representavam através de mitra, palavra que como substantivo quer dizer amigo, o mais importante princípio do mundo dos árias como seres humanos. Mitra, como vimos, quer dizer também solidariedade, respeito à palavra dada, aos tratados, revestindo de sacralidade tudo o que liga o homem a outro homem. A importância de Mitra, porém, com o tempo, foi diminuindo; quando do registro dos hinos védicos, os valores da magia, da manipulação política, já prevaleciam sobre a moral social, sobre as regras que comandavam as uniões.

O principal papel de Mitra era o de forçar os homens a manter as suas promessas. Mitra sempre lhes mostrou os benefícios da camaradagem, da sinceridade, da comensalidade na constituição das associações humanas, das tribos, das nações. Inimigo das disputas e da violência, Mitra tinha como companheira Revati (Prosperidade), que lhe deu três filhos: Dom (Utsarga), Felicidade (Arishta) e Prazer (Pingala).

A esta altura, parece-me oportuno aproximar o Mitra védico, da
AVESTA
Índia, daquilo que na antiga Pérsia tomou o nome de mitraísmo. Na origem, o Mithra dos antigos persas tem muito em comum com o das tribos que invadiram a Índia. Na língua persa da época, Mithra adquiriu características solares (mihr, Sol). No Avesta, conjunto de textos sagrados, escrito em língua avéstica, havia uma díade muito semelhante à da Índia, Mithra e Ahura, fazendo o primeiro um papel de divindade conciliadora. 



TAUROBOLIUM

A estatuária helenística tornou muito conhecida a imagem de Mithra, fazendo-o usar um barrete frígio na cabeça, sacrificando um touro (final da era de Touro), numa gruta, onde se reuniam os iniciados. Era o taurobolium. O rito era de fecundação da natureza, associado a um novo nascimento, tendo portanto relação com o equinócio da primavera. O adepto que se submetia ao batismo pelo sangue do touro tornava-se um renatus in aeternum

Este culto foi introduzido na Itália com o nome de mitraísmo no
CIBELE
segundo século da era cristã, enriquecido com contribuições do culto de Cibele, Grande-Mãe da Ásia menor, pelas legiões romanas. Este culto foi trazido para a Itália pelas legiões romanas quando andaram no Oriente à conquista de terras e fundando colônias, dando elas a Mithra o nome de Deus Salvador, Deus Vencedor, invencível. Segundo o mito, Mithra teria nascido num rochedo, a 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começam a aumentar. Nessa data se celebrava o renascimento do Sol, data a que os romanos deram o nome de Natalis Solis e que os cristãos utilizaram para fixar a sua festa do Natal. 

A ação maior de Mithra foi a degola do touro, símbolo do sacrifício da matéria, apesar de todas as tentativas contrárias da serpente e do escorpião que queriam impedi-lo. Desde então, esta cena, muito representada por imagens e esculturas, passou a simbolizar a luta das potências do bem contra as potências do mal. 



SÍMBOLOS   DO   MITRAÍSMO    ( OSTIA  ANTIGA ,  ITÁLIA )

O mitraísmo manteve com a antiga religião da Pérsia duas ligações importantes: a ideia de um zelo ardente pela pureza moral, obtida e mantida graças a uma atitude belicosa, tornando-se o seu adepto um soldado da fé. Decorre desse entendimento o grande sucesso que o mitraísmo teve entre os exércitos romanos. A segunda ligação é a veneração pela luz, o único princípio realmente invencível, absoluto para os adeptos da religião. A vida religiosa para os mitraístas era ascética, disciplinada e muito árdua, daí o seu sucesso entre as legiões romanas.

O mitraísmo, que só desapareceu de Roma por volta do séc. V dC, propunha sete graus de iniciação, cada um deles sob a proteção de um planeta: Perses (Persa), sob a tutela da Lua; Corvus (Corvo), sob a tutela de Mercúrio; Nymphus (Noivo), protegido por Vênus; Miles (Soldado), protegido por Marte; Leo (Leão), sob a tutela de Júpiter; Pater (Pai), sob a proteção de Saturno; e Heliodromus (Mensageiro do Sol), tutelado pelo Sol. O progresso de grau em grau correspondia à ascensão da alma através das esferas planetárias.

Sobre Varuna é preciso mencionar antes que, como outros deuses de caráter uraniano, ele possuía a soberania e a onisciência,
VARUNA
atribuições que eram de Dyaus e que ele foi assumindo. Este processo ocorreu dentro do próprio mundo védico, talvez por volta do início do segundo milênio aC. Varuna, “o que tudo abarca”, “o que tudo envolve”, chamado então de Uruvana, conforme inscrições do séc. XIV aC, foi absorvendo também as manifestações de caráter misterioso, lunar, pluviosas, além de se tornar uma divindade oceânica (dominando as duas últimas regiões do zodíaco).

Como divindade onisciente e infalível, era por sua iniciativa que desciam dos céus vários emissários seus que, com os seus milhares de olhos, vinham espionar a Terra. Varuna era a divindade que via tudo, que conhecia tudo, todos os segredos, todas as intenções. Jamais fechando os olhos, ele e Mitra tinham seus espiões no mundo vegetal, dentro das casas, nas praças e nas ruas. Aliás, um dos apelidos de Varuna era Sahasraksha (O de Mil Olhos). 

Como soberano universal, Varuna era o guardião das normas e da ordem cósmica. Como ele via tudo, como nenhum pecado lhe escapava, por mais escondido que estivesse, os fiéis se prostravam diante dele numa posição de grande humildade. Ao garantir os contratos, ao se posicionar como deus dos juramentos, Varuna era a divindade que ligava, que unia, razão pela qual a imagem das malhas de uma rede era um de seus grandes símbolos. Os homens, diziam os textos sagrados, temem a rede de Varuna, pois ela pode paralisá-los, exauri-los. Esta faculdade que Varuna tinha de ligar punha em evidência o caráter mágico de sua soberania. Por isso, Varuna era considerado o mestre da maya, do jogo fenomênico que encantava e prendia. Os atributos de Varuna eram dabda e pasha (bastão e rede). Pelo que se pode ver, Varuna não era uma divindade exclusivamente uraniana. Suas epifanias não se
WORLD   WIDE   WEB
limitavam apenas aos fenômenos atmosféricos. Sem muito esforço, fica fácil perceber que a rede de Varuna é hoje representada pela sigla WWW (Rede de Alcance Mundial – World Wide Web), conhecida simplesmente como Web, um sistema de documentos em hipermídia, interligados e executado na Internet. O caráter aquático dessa rede pode ser constatado pelos termos que usamos para seguir as ligações, navegar ou surfar na Web. 

A rede, como se sabe, em inúmeras tradições mitológicas, é considerada um objeto sagrado. Ela imobiliza o adversário. Ela serve também para, como símbolo religioso, capturar a força espiritual, como a empregaram os místicos iranianos, por exemplo. Como atributo de divindades supremas, a rede serve para submeter os homens ao divino. O cristianismo a usou neste sentido, como
CRISTO   PESCADOR   DE   HOMENS
símbolo da ação divina: Cristo era um pescador de homens. É por esta razão também que a rede foi parar na análise psicológica. Na psicanálise, por exemplo, esta ideia aparece ligada à livre associação, método terapêutico que consiste em se exprimir todos os pensamentos que vêm à mente, a partir de um elemento dado (palavra, fragmento de sonhos etc.) ou espontaneamente. O terapeuta, lançando a sua “rede”, colherá no “cardume” de palavras, imagens afloradas do inconsciente do analisando, segundo a sua técnica, o que julgar mais importante.  

Além do mais, lembre-se que Varuna, ao presidir as relações dos homens com os deuses, tem uma conduta imprevisível, seus favores súbitos, sua inexplicável crueldade, nada pode ser previsto, no que lembra muito o Urano da aAtrologia. Ele possui um poder mágico (Maya) com a ajuda do qual cria todas as formas do mundo visível. Por isso, parece muitas vezes um déspota, um mestre poderoso e insensível. É neste sentido que ele representa a realidade interior das coisas, a verdade absoluta (rita) e a ordem que transcende a compreensão humana. Seu grande poder é noturno, misterioso, enquanto o de Mitra é diurno, ligado à luz, à claridade.

O nome de Varuna vem provavelmente da raiz var, que quer dizer envolver, cobrir e, deste modo, tem relação com tudo o que é misterioso, críptico, secreto. É incontestavelmente também o senhor das águas superiores que rodeiam o mundo. Esta ideia é muito interessante para a Astrologia ocidental se levarmos em conta que a constelação de Aquário, governada por Urano, por volta de 4000 aC sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno. Essa constelação era visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, derramando água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanis, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas mais ou menos com o elemento líquido. Não é por outra razão que os babilônicos davam o nome de “Assento das Águas Moventes” às estrelas da constelação de Aquário, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam formado o dilúvio que se abateu sobre a Terra. 



CALENDÁRIO   HEVELIUS


Não é por acaso também que o símbolo da constelação de Aquário produz duas vezes o hieróglifo egípcio da água, duas linhas sinuosas em forma de onda que seguem paralelamente. Isto explica ainda o caráter imaterial do signo, uma espécie de oceano aéreo primordial que banha toda a Terra. É por essa razão ainda que o signo tem relação com as afinidades eletivas que devem dar origem à humanidade através da fraternidade universal. Os védicos propunham, segundo essa ideia, uma outra etimologia para Varuna: var,   raiz que significa ligar, unir; Varuna une todas as coisas, fazendo do múltiplo o uno (vari+unam).

MAKARA
Com o tempo, Varuna se transformou no mais importante dos Adityas e assumiu características que muito o aproximaram também do Poseidon grego. Nessa forma, ele se tornou senhor também dos mares e dos rios, tendo como montaria (vahana) o crocodilo (Saturno) Makara, animal monstruoso que tem a cabeça e as patas de um antílope e o corpo e a cauda de um peixe. 

Embora Varuna tenha muita semelhança com o Urano grego, as diferenças entre eles são bastante significativas como se pode perceber. Não há, por exemplo, na mitologia védica, uma relação matrimonial entre Varuna (Céu) e Prithivi (Terra) como há, na grega, entre Urano e Geia, nem Urano assumiu, como Varuna, qualquer poder sobre o elemento líquido. Alguma relação sempre poderia ser estabelecida, contudo, se pensarmos nas grandes influências aquarianas que nestes últimos séculos da era de Peixes, a terminar matematicamente em 2658, já se fazem sentir. 

Varuna é descrito como uma divindade sorridente; sua cor é a da neve, do lótus ou da Lua; aparece sempre munido de todos os seus
GANGA
ornamentos e atributos. Na mão direita leva uma rede. Postura ereta, rodeado por um halo luminoso; tem como residência favorita a Montanha Florida (Pushpa-giri). Seu palácio é de ouro e fica no lugar mais bonito do universo, chamado Noite Estrelada (Vibhavari). Ao seu lado, senta-se a rainha Varuni, em um trono de diamantes. Samudra (Mar), Ganga (Ganges), além de divindades de diversos rios, lagos e mananciais sentam-se também ao seu lado. 

Dentre os apelidos de Varuna, destacam-se: Sábio (Vidvan), Inteligente (Dhira), Discriminador (Pracetas), Sutil (Gritsa), Hábil (Sukratuh), Inspirado (Vipra), Poeta (Kavi), Grande (Mahan), Vasto (Brihat), Poderoso (Bhuri). Depois que assumiu o poder sobre as águas, recebeu nomes como Senhor das Águas (Apampati), Senhor dos Animais Aquáticos (Yadasampati), Senhor dos Rios (Nadipati), Senhor do que Flui (Sarvasam-saritam-pati).

Varuna é assim a imensidão do universo, o mestre da rita, energia que mantém a ordem universal, a realidade profunda sem a qual nada pode existir. A palavra rita, lembre-se, significa também o conjunto de sacrifícios indispensáveis à boa marcha do universo, no que lembra o conceito de maat entre os antigos egípcios. Varuna vela por tudo, inclusive pelo consumo de soma, produto lunar, a bebida dos deuses. Nos céus, as estrelas estão a seu serviço, espionando o que acontece na Terra e contando-lhe tudo. Ele reina sobre o ritmo das esferas celestes, cujo movimento regula. Varuna é o lado “negro” do Sol quando este faz a sua viagem em direção do oeste. É complementar a Mitra, que representa o Sol matinal. Nada a estranhar que os védicos tenham feito de soma uma divindade, dando-lhe inclusive o nome de Amrita, imortal.