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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CENTAURUS, CETUS, CORONA AUSTRALIS





CENTAURUS forma com Lupus e Ara, o Altar, um conjunto que deve ser apreciado de modo interdependente, pois nos contam histórias que falam de adoração e de devoção. Esta constelação foi
KIRON
vista pelos gregos inicialmente tanto como o centauro Kiron como o centauro Folo, ambos ligados ao ciclo dos doze trabalhos de Hércules. A grande constelação do Centauro ocupa uma área cuja declinação sul varia entre 30º e 60º. A imagem que temos dela é a de um centauro que segura um lobo com uma de suas mãos estendida. Gregos e árabes viram-na como se caminhasse na direção da constelação do Altar para sacrificar o animal. 

ERATÓSTENES
Considerando porém que os mesmos gregos já haviam ligado, com muito maior pertinência, a figura de Kiron à constelação zodiacal de Sagitário, não vejo razão associá-lo a esta constelação. Quem fez esta confusão foi Eratóstenes de Cirene, astrônomo, matemático, geógrafo e diretor da Biblioteca de Alexandria (séc III aC), deixando de lado a tradição que já havia fixado Kiron no Zodíaco e colocado Folo como o Centauro do Sul.


FAMÍLIA   DE   CENTAURUS  ( SEBASTIANO  RICCI , 1659 - 1734 )

Na mitologia grega, os centauros são seres híbridos, compostos por um corpo de cavalo e um busto humano. Desde a antiguidade, seu valor simbólico é ambíguo. Na cultura grega, sua origem estava ligada historicamente às primeiras invasões de cavaleiros vindos da Ásia Menor, que aterrorizavam as populações dos países mediterrâneos. Os povos da América central, aliás, consideraram os invasores espanhóis do mesmo modo, quando irrompiam nas aldeias montados em cavalos. Viam-nos, ao mesmo tempo, como humanos e animais.





BATALHA  ENTRE  CENTAUROS  E  LÁPITAS
( KAREL  DUJARDIN , 1667)
Famosa na mitologia grega é a batalha entre os Lápitas, povo das montanhas da Tessália, e os Centauros, filhos de Ixion e de Nephele, o primeiro filho de Ares, deus da guerra. Rei dos lápitas, Ixion cometeu vários e gravíssimos crimes, dentre eles o de perjúrio e o traiçoeiro assassinato de seu sogro, jogando-o num buraco cheio de carvões em brasa. Destronado e expulso da cidade, passou a perambular pelos caminhos, ninguém lhe dando acolhida. Zeus, magnânimo, que do alto tudo via, resolveu ajudar seu neto. Purificou-o, trazendo-o para viver no Olimpo. 


IXION   E   NEPHELE  ( P.P. RUBENS , 1615 )


IXION   NO   TÁRTARO
( BERNARD  PICARD , 1731 )
Mal chegado à mansão divina, Ixion tentou atacar sexualmente Hera, a esposa de Zeus. Repelindo-o, indignada, ela relatou o ocorrido ao marido. Zeus, então, mandou confeccionar com nuvens um simulacro de Hera, que Ixion, de nada sabedor, e acreditando tratar-se da divina deusa, que agora acedia ao seu desejo, envolveu-se com ela sexualmente. Dessa união, nasceram os centauros, filhos, portanto, de Ixion e de Nephele, a Nuvem. O castigo do ingrato Ixion veio em seguida: Zeus obrigou-o a ingerir ambrósia, tornando-o assim imortal, e mandou amarrá-lo no Tártaro, com serpentes, a uma roda incandescente, a girar eternamente. Fixado nesse suplício, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das
CENTAURO
pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, vivendo em bandos, sempre fazendo algazarras, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da irracionalidade do ser humano. 


Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno. Nas obras de arte simbolizam os centauros a concupiscência carnal, que torna o homem muito semelhante às bestas, sempre ausentes quaisquer  traços da vida racional e espiritual, abolida qualquer luta interior no que diz respeito ao controle dos instintos. 


SILENO
Diferente destes tipos que acabei de descrever é o centauro Folo, filho de Sileno e de uma ninfa da raça das melíades, ninfas dos freixos (melia, freixo, em grego), nascidas do sangue derramado de Urano quando da sua castração. Dotados de grande saber, os Silenos eram sátiros envelhecidos, filhos do deus Pan. Foram considerados por todas as tradições como preceptores de Dioniso quando jovem. 


SILENO   ÉBRIO  ( JOSÉ  DE  RIBEIRA , 1626 )

Folo era um centauro extremamente pacífico e cordato, muito diferente dos filhos de Ixion. Quando da realização do seu sétimo trabalho, o da captura do javali de Erimanto, Hércules, ao passar por Fóloe, foi recebido com muita hospitalidade por Folo. Há muito que Folo aguardava a visita do nosso herói, pois Dioniso lhe dera uma jarra de vinho, hermeticamente fechada, recomendando-lhe que só a abrisse quando o filho de Alcmena viesse à sua gruta. Preparada lauta refeição, servido o vinho, os outros centauros que viviam na região, sentido o perfume da divina bebida, invadiram a gruta, atacando Folo e seu hóspede. Hércules matou muitos
FOLO   
centauros, outros fugiram, sendo perseguidos tenazmente por nosso herói que, ao voltar, encontrou Folo muito triste, a dar diligentemente sepultura aos seus infelizes “irmãos” mortos. Para matar os centauros, Hércules usara flechas envenenadas. Ao retirá-las do corpo dos centauros para melhor inumá-los, Folo feriu-se acidentalmente na coxa, morrendo logo em seguida. Coube ao nosso herói, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrá-lo em magnífica sepultura que construiu para esse fim. 



GAIUS   JULIUS   HYGINUS 
Algumas das estrelas da constelação do Centauro do Sul, como é chamada também, com algumas de Lupus, eram conhecidas entre os árabes pelo nome de Al Kadb al Karm, O Ramo da Videira. Ptolomeu descreveu a constelação vendo numa das mãos do Centauro um lobo e na outra um tirso, que é, como sabemos, um dos emblemas do deus Dioniso. Todas as representações posteriores desta constelação sempre a associaram às constelações do Altar e do Lobo, como podemos constatar em Hyginus e, muito mais tarde, nas Tábuas Afonsinas. Em Roma, a constelação do Centauro era às vezes denominada pelos nomes de Semi Vir ou Semi Fer, isto é, Meio Homem ou Meia Besta, respectivamente.

Na astronomia medieval cristã, esta constelação foi visualizada de outro modo. Uns a chamaram de Noah (Noé), personagem bíblico que sobreviveu juntamente com a sua família ao dilúvio. A figura de Noé aparece na tradição medieval obviamente ligada ao tema do vinho. Ele foi, biblicamente, o primeiro personagem a descobrir os efeitos da bebida alcoólica que, uma vez ingerida descontroladamente, ao invés de levar ao céu, leva ao inferno, por libertar a besta (o centauro) que há em todo ser humano. Há na Bíblia algumas advertências contra o álcool apesar da declaração de que ele alegra o coração do homem, conforme está em Salomão. 

EMBRIAGUEZ   DE   NOÉ  ( GIOVANNI  BELLINI )

Outras versões do medievalismo cristão sobre esta constelação, menos difundidas, mas muito importantes para a compreensão do seu campo semântico, a ligam, uma, ao tema de Abraão e Isaac no que diz respeito ao tema do sacrifício (akedá)  e, outra, à figura de Nabucodonosor, rei da Babilônia, na medida em que este personagem aparece associado à rainha de Sabá e a Salomão, a primeira identificada por alguns como Lilith. Ainda com relação à

constelação do Centauro, seria interessante não esquecer, como a Astrologia o fez até agora, a descoberta, por  John Herschel, de uma das mais notáveis nebulosas do céu, nela presente. Filho do descobridor de Urano chamou esta nebulosa de Blue Planetary, cujas dimensões oscilam entre a metade e a totalidade do primeiro planeta transaturnino.



PTOLOMEU
A constelação do Centauro estende-se de 2º de Libra a 28º de Escorpião, ficando claro pelos seus limites as conotações decorrentes dos temas da hospitalidade (Libra) e do vinho (Escorpião). Ptolomeu viu nas estrelas desta constelação situadas na parte humana da figura influências venusianas e mercurianas. Às estrelas mais brilhantes, na região das patas do Centauro, ele atribuiu influências venusianas e jupiterianas. A estrela alfa, de 1ª magnitude, é Bungula, também conhecida pelo nome de Toliman, hoje a 28º51´ de Escorpião; a seguir, temos Agena, beta, também de 1ª magnitude, a 23º06´ de Escorpião. Há uma terceira estrela, Chort, inexpressiva astrologicamente.

No antigo Egito, Bungula, ligava-se ao equinócio de outono, e serviu de orientação para a construção de templos no norte e no sul do país entre os anos de 4.000 e 2.000 aC. Recebeu, entre os egípcios, o nome de Serkt. Para Ptolomeu, Bungula favorece as
MAO TSE-TUNG
amizades, dá refinamento e pode levar a posições honrosas. Há, por outras tradições, indicações de que Bungula pode influenciar no 
sentido de ligar quem a tem com algum destaque a causas, projetos, mas que sempre exigirão correções e revisões no futuro. Agena, para Ptolomeu, também proporciona influências semelhantes e dando também posições elevadas, honras, projeção. O mapa de Mao Tse-Tung poderá servir para o estudo das influências destas duas estrelas.





CETUS, a Baleia, é o monstro que aparece na história de Andrômeda, enviado por Poseidon para devorá-la, conforme já visto quando esta constelação foi estudada. Foram os gregos que fixaram para a Astrologia a constelação da Baleia, dando-lhe uma origem mítica. Cetus é um monstro marinho, uma figura híbrida, constituída por traços de baleia, de crocodilo e de hipopótamo. É
AS   GREIAS  ( H. FUSELI )
uma figura feminina, filha de Pontos e de sua mãe Geia. O primeiro, cujo pai é o Éter, como sabemos, é a primeira personificação masculina do mar, representado pela onda, pelo movimento marinho. Nereu, Taumas, Fórcis e Euríbia são irmãos de Cetus, todos entidades marinhas monstruosas, ligadas às forças primordiais, fazendo parte das primeiras elaborações cosmogônicas e genealogias teogônicas. Cetus, ligada a Fórcis, gerou as Greias (As Velhas), também chamadas Fórcidas, que aparecem no mito de Perseu.



JONAS
A Baleia é um cetáceo (Ketos, para os gregos) que, como vimos, foi morto por Teseu, que o petrificou com a cabeça da Medusa, para libertar a princesa Andrômeda, filha de Cepheus e de Cassiopeia. A baleia faz parte de um grupo de animais que aparecem na mitologia, na religião e no folclore de vários povos como devoradores. Caracterizam-se por bocarras ou por goelas enormes, muitas vezes desproporcionais ao corpo, que tudo devoram e engolem. Da galeria fazem parte, como é o caso, além da baleia, o crocodilo, o hipopótamo, o lobo, a hiena, as grandes serpentes e outros. 



Não foi por acaso, aliás,  que monstros como Cetus foram parar na filosofia. O filósofo inglês Thomas Hobbes publicou em 1.651 um livro, Leviathan, para defender a tese de que seria necessário que os homens estabelecessem um contrato social a fim de que a paz fosse garantida. Os homens, afirma ele, são egoístas por natureza. A lei que prevalece nas relações entre eles é a da guerra entre todos (bellum omnia omnes). Esta afirmação se baseava numa máxima de Plauto: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem). Assim, para que não se exterminassem uns aos outros, era necessário, através de um contrato social, que se garantisse a paz. A proposta de Hobbes, para que isto se concretizasse, era a do estabelecimento de um governo totalitário, de tipo monárquico, que "engolisse" tudo (inclusive as liberdades individuais), evidentemente sem a presença de outros poderes como parlamentos, congressos, câmaras etc. que só servem para enfraquecer o Leviathan e gerar o caos. 


JONAS  E  A  BALEIA
Entre os judeus, temos, a história de Jonas, que foi devorado pela baleia. Profeta bíblico, Jonas fugiu do chamamento de Deus e recusou-se a pregar o arrependimento (teshuvá). Durante a sua fuga, foi atirado ao mar e engolido por um grande peixe que, segundo o texto bíblico, tinha olhos do tamanho de janelas e cujo estômago era iluminado por uma pedra preciosa. Esse peixe, tido pela tradição por uma baleia, corria o risco de ser engolido pelo maior dos monstros marinhos, o Leviathan (símbolo de Samael, o príncipe do mal entre os judeus). 


BEEMOT  E  O  LEVIATÃ
Leviathan tem dimensões enormes, sendo a maior das criaturas do mar. Diz a Bíblia que Deus matou a sua fêmea para impedir que, procriando, a criação fosse destruída. Da pele da fêmea é que foram feitas as roupas que cobriram as vergonhas de Adão e de Eva. No fim dos tempos, na idade do Messias, Deus fará o arcanjo Gabriel matar o macho. Noutra versão, será Beemot, o maior dos monstros terrestres, que enfrentará o Leviathan, morrendo ambos numa luta final. 

O que a história de Jonas simboliza é a morte iniciática. Entrar no ventre do monstro é morrer, dele sair é renascer. O monstro, a baleia, neste caso, aparece, pela sua forma ovoide, com um encontro de opostos, que podem representar o nascimento ou a ressurreição. Os dois arcos da figura ovoide significam aqui a conjunção do mundo inferior com o mundo superior, ou do céu com a terra, a totalidade. 

Jonas passou no ventre da baleia três dias e três noites. Atendidas as suas preces, Deus fez com que o monstro o vomitasse, voltando ele à vida de uma outra maneira, um novo ser. Esta mesma imagem, aliás, será repetida no Novo Testamento, em Mateus, quando ele registra a previsão de Cristo: Pois assim como Jonas passou no ventre do
TIAMAT
monstro três e três noites, assim o Filho do homem também o passará. As tradições mesopotâmicas aproximaram esta constelação do monstro Tiamat, que nos seus mitos cosmogônicos representava a água salgada, a personificação do  mar como elemento feminino que dava origem à própria vida. Tiamat simbolizava também as forças cegas do caos primordial, contra o qual tiveram que lutar os deuses inteligentes e organizadores. 



PAUSÂNIAS
Referências à história do monstro vencido por Perseu são encontradas em Plínio, o grande naturalista romano, em São Jerônimo, o grande latinista do Cristianismo, e em Pausânias, viajante e geógrafo do II séc. DC Os romanos designarão Cetus pelo nome de Pristis (grande cetáceo, em latim), a ele juntando adjetivos como nereia e auster.  Os árabes conheceram a constelação através dos gregos e lhe deram o nome de Al Ketus.

CETUS
A constelação da Baleia, embora não muito investigada astrologicamente, apresenta certas peculiaridades. Uma é a sua relação com o sul da Via Láctea, como que querendo devorá-lo; a outra é porque possui estrela Mira, a chamada “Estrela Maravilha”, a primeira estrela que mudava de magnitude, estudada por astrônomos. Cetus se estende de 17º de Peixes a 13º de Touro. Para Ptolomeu as suas influências são semelhantes às de Saturno, podendo causar ociosidade, preguiça. As estrelas de Cetus, pela ordem de importância, são: Menkar, alfa, a 13º37´Touro, entre a 2ª e a 3ª magnitudes; esta estrela está situada entre os olhos e a boca de Cetus, numa região chamada de O Nariz, Al Minhar, em árabe; tem também, segundo a tradição, natureza saturnina, atraindo desgraças e infortúnios. A seguir, temos Deneb Kaitos, Baten Kaitos, Deneb Schemali e Mira. 

No meu entender, parece ter ficado de fora, quanto a Cetus e Menkar, o mais importante quanto às suas possibilidades significativas. Em muitas tradições, a passagem pelo ventre de monstros, os marinhos de modo especial, é expressamente considerada como uma descida ao mundo infernal, ao mundo subconsciente. Equivale a entrar na noite, símbolo das gestações, das germinações que vão se revelar à luz do dia. A noite é rica de todas as virtualidades. Entrar no ventre da baleia é entrar na noite, é voltar à indeterminação. É nas trevas do ventre da noite como no da baleia que se fermenta o futuro, a preparação do dia, a volta à vida. 


Entrar no ventre da baleia sempre significou uma volta a um estado pré-formal, embrionário, equivalendo o monstro à noite cósmica, ao caos antes da criação. A passagem pelo ventre da baleia era simbolicamente o caminho de todo processo iniciático. Uma imagem desta luta está, por exemplo, no romance de Herman Melville, escritor americano do século XIX, Moby Dick ou a Baleia Branca, um avatar do Leviathan judaico.

Se considerarmos o inconsciente do ser humano, pessoal ou coletivo, como um imenso oceano, monstros como Cetus podem emergir subitamente, adquirindo um caráter destrutivo. Cetus aponta, nos temas astrológicos, para uma área de águas profundas, muito abaixo da superfície, onde monstros podem se esconder. Ao subir à superfície, podem trazer muito perigo, destruição, inclusive coletivamente. Menkar, no grau em que estiver, pode ser um ponto onde temos possibilidades de contacto com o inconsciente coletivo,
NAPOLEÃO
não esquecidas evidentemente as informações que possam ser obtidas por quadrante, signo, casa e aspectos. No meu entender, tanto a Cetus como a Menkar podemos atribuir influências plutonianas, lembrando que Plutão se exalta em Áries e se exila em Touro. Mapas para estudo os de Freud e de Napoleão. No primeiro, influências positivas de Cetus-Menkar; no segundo, negativas. 






CORONA AUSTRALIS, a Coroa do Sul, embora muito modesta, foi reconhecida por Ptolomeu.  Os latinos a chamavam de Corona Sine Honore. A tradição astronômica, incorporada por muitos astrólogos, chamou esta constelação de A Coroa do Centauro. Isto se deve ao fato de que em muitas representações os artistas punham uma coroa na cabeça dos centauros. Esta ideia tem provavelmente origem na figura dos Gandharvas, que, na Índia, são representados com um torso humano e um corpo ora de cavalo, ora de pássaro, coroados. 


GANDHARVA   VOADOR
Atribui-se aos Gandharvas na mitologia hindu grande potência sexual. Envolvidos sempre com mulheres, são músicos, usam o vinho, conhecem ervas afrodisíacas. Segundo alguns textos, representam a força primordial e a energia universal, incorporando o Eros grego muito de seus traços. Participando da energia solar, são representados frequentemente com uma coroa de raios sobre a cabeça, decorrendo dessas características, talvez, a ligação que os gregos fizeram entre a coroa e o centauro. Outra tradição grega não vê uma coroa, mas, sim, um punhado de flechas na mão do centauro, que irradiam luz como os raios do Sol.  

Ainda dentro do campo das possibilidades significativas da figura do centauro, outra tradição deu a esta constelação o nome de A Roda de Ixion (Rota Ixionis), uma alusão ao desditoso pai dos centauros, conforme relatado no texto sobre a constelação do Centauro, acima. 


CENTAURO
Da união de Ixion com Nephele, como narramos, nasceram os Centauros, os nubigenae,  os filhos da nuvem. A palavra centauro parece admitir uma etimologia que tem origem no verbo kentein, ferir, picar, mais a palavra aura, ar. Ou seja, aqueles que são apenas feridos, picados pelo elemento ar, que não tem nenhum lampejo racional, somente pura vida instintiva. O elemento ar não participa da vida do centauro, ou só o faz muito precariamente. Por isso, passaram os filhos de Ixion a representar desde o seu nascimento, no ser humano, a ameaça permanente da vida instintiva sobre o seu lado racional.


HADES  ( ANÔNIMO )
Para punir exemplarmente seu petulante neto, Zeus o enviou para o Tártaro, região mais profunda do Hades (Inferno) onde as punições não têm por objetivo a destruição da forma do pecador de modo a lhe proporcionar um renascimento. O Tártaro é o lugar das punições eternas. Os pouquíssimos que desceram ao Hades e de lá retornaram, contam que ouvem, vinda lá dos lados dessa tétrica região, perto do rio Piriflegetonte, uma voz, que aos gritos, adverte: honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão. Sem dúvida, uma vã tentativa de Ixion no sentido de fazer com que o seu triste lamento chegue ao ouvido dos mortais. 

Uma outra versão sobre a origem desta constelação tem relação com Dioniso. Sêmele, filha de Cadmo e de Harmonia, era uma uma princesa tebana. Foi amada por Zeus e concebeu Dioniso. Ao ter conhecimento da aventura amorosa do marido com ela, Hera, a protetora dos amores legítimos, resolveu intervir. Concebeu um plano para destruir a jovem e lindíssima rival. Tomando a forma humana, de uma velha e sábia mulher, insinuou-se no palácio onde
ZEUS   E   SÊMELE  ( G. MOREAU )
vivia a princesa, conseguindo um lugar de ama. Logo ganhou a confiança de Sêmele, que lhe fez confidências sobre o seu divino amante. Hera resolveu então aconselhá-la, aguçando-lhe a curiosidade: pedir a Zeus que ele se apresentasse em seu divino esplendor. Zeus ponderou a Sêmele que o atendimento do pedido, de sua parte, lhe causaria dano, lhe seria muito funesto, já que humanos não têm como suportar a epifania de uma divindade. Ela insistiu, lembrando-lhe que, quando haviam começado a se relacionar, Zeus lhe prometera, sob juramento, em nome do rio Estige, que qualquer pedido que ela  fizesse por ele seria atendido. 



RIO   ESTIGE
Estige era filha de Oceano e Tétis, uma oceânida. Como fonte, Estige alimentava um dos rios infernais, do mesmo nome. Suas águas eram gélidas e tinham propriedades mágicas. Quando da Titanomaquia, Estige, com seus filhos, cooperou para a vitória dos futuros olímpicos. Por seu gesto, recebeu o privilégio do horkos, isto é, o de que, a partir da concessão, os deuses profeririam seus juramentos em seu nome, juramentos irrevogáveis. Quando uma divindade resolvia jurar, a deusa Iris ia rio Estige para buscar uma jarra com a sua água, para servir de testemunha ao horkos. A inobservância do juramente por uma divindade, além de outras penalidades, afastava-a do convívio dos mortais por nove anos, além de lhe ser proibido o consumo do néctar divino.


NASCIMENTO   DE   DIONISO
Não tendo como recuar, Zeus se apresentou a Sêmele na sua esplêndida forma divina, uma epifania que ela não suportou. O palácio em que vivia foi inteiramente destruído e ela carbonizada. O mito nos revela que Palas Atena retirou do ventre de Sêmele o fruto inacabado de seus amores o e levou a Zeus. O pai dos deuses resolveu, então, alojar o feto numa de suas coxas. No tempo devido, completada a gestação femural, nasce Dioniso da coxa de Zeus.


MORTE   DE   SÊMELE  ( PETER  PAUL  RUBENS )

Mais tarde, já tendo assumido os seus deveres divinos, como um dos imortais, Dioniso, de volta de uma viagem que fizera à Ásia para difundir o seu culto, desceu ao Hades e de lá retirou o eidolon (forma que a alma toma para descer ao Hades) de sua mãe. Ressuscitada, Sêmele foi devidamente coroada por Dioniso sob o nome de Tione, como a primeira das mênades, suas sacerdotisas. Depois, resolveu Dioniso levar Tione apoteoticamente para viver entre os olímpicos, colocando antes, porém, a coroa que lhe dera entre as estrelas como uma constelação, chamada pelos gregos de Coroa Austral.


MÊNADES

Outra versão grega sobre a origem desta constelação pode ser encontrada nas biografias de Píndaro e de Karinna de Tanagra, ambos poetas do século V aC.,esta professora daquele, que ficou
KARINNA  ( WILLIAM  BLAKE )
famoso pelos seus Epinícios. Em cinco concursos, ela o venceu, tendo recebido várias e justificadas homenagens. Um pouco de sua obra (lírica coral), em dialeto beócio, foi preservado. Influenciou Ovídio e William Blake, na sua série The Visionary Heads, deixou-nos um retrato dela. Recebeu Karinna os títulos de Musa Lírica e de Musa Viva Foi homenageada pelos astrônomos da época que "colocaram" nos céus a coroa que recebeu por suas vitórias poéticas.  


A constelação da Coroa Austral aparece ainda em algumas outras tradições com o nome de Uraniscus, diminutivo de céu (Urano), em grego. Uranisco é a abóbada palatina ou palato, divisão óssea e muscular entre as cavidades oral e nasal. É o chamado palato ósseo, placa óssea que forma o céu da boca. 



Esta constelação estende-se de 2º a 12º de Capricórnio, tendo apenas uma estrela digna de registro, Alpheca meridional (veja Corona Borealis). As estrelas desta constelação  não apresentam nenhum interesse sob o ponto de vista astrológico. Ptolomeu, entretanto, atribui a elas influências da natureza de Saturno e de Júpiter (favorecem a conquista de posições elevadas, mas podem trazer obstáculos não previstos).

















quarta-feira, 6 de abril de 2016

URANO (1)

                 
WILLIAM   HERSCHEL
Urano é o primeiro dos planetas situados além de Saturno. Foi descoberto por William Herschel depois da invenção do telescópio, em 1781, quando transitava pelo signo de Gêmeos. Inicialmente, foi confundido com um cometa. Estudos posteriores, porém, confirmaram a sua natureza planetária. A presença de Urano transformou completamente os conceitos que o ser humano havia estabelecido sobre o mundo físico e metafísico.

Urano dista da Terra cerca de 2,8 bilhões de km., sendo praticamente impossível percebê-lo sem aparelhos óticos. No sistema solar, é o terceiro planeta em tamanho, com um diâmetro de pouco mais de 47.000 km., o que equivale a 50 globos do tamanho da Terra. Sua massa é 14,54 vezes maior que a do nosso planeta. Seu dia é muito curto, cerca de 10 horas e 45 minutos dos nossos. A densidade de Urano corresponde a 32% da terrestre. 





Urano é o planeta mais excêntrico do sistema solar; algumas vezes, ele volta para Terra o seu equador e noutras o seu polo norte, ocasião em que seus cinco satélites (luas) parecem estar girando no sentido contrário ao dele, em círculos concêntricos à sua volta.   
  
O passo médio anual de Urano é de 4º30´; sua translação zodiacal varia de 80 a 84 anos, mais ou menos. O ano uraniano equivale a 30.568 dias terrestres. A permanência de Urano em cada signo oscila de 7 a 8 anos. Ao ser descoberto, assumiu a regência diurna do signo de Aquário, deslocando Saturno para a regência noturna. Sua exaltação se dá no signo de Escorpião. Quanto às qualidades primitivas, é seco (3,0) e frio (2,0).

Essencialmente, astrologicamente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico,
URANO
intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Urano é o último dos planetas que pode realizar uma translação completa pelo zodíaco no período de uma vida humana. O planeta seguinte, Netuno, tem uma translação zodiacal de mais ou menos 164 anos. 

Urano, com Netuno e Plutão, situados além do limite visível do sistema solar visível a olho nu, formam um conjunto conhecido pelo nome de “oitava maior” com relação aos sete que os antecedem na ordem planetária. Os sete primeiros planetas do sistema solar têm relação com a vida pessoal (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol e Marte) e social (Júpiter e Saturno) do ser humano. Os três últimos (Urano, Netuno e Plutão), muito mais lentos com relação a Júpiter e Saturno, afetam mais a humanidade como um todo, tanto atingindo gerações como dizendo respeito à evolução ou involução da humanidade como um todo. 

Assim, pode-se dizer, segundo a colocação acima, que enquanto Mercúrio representa o pensamento lógico, o Logos dos gregos, Urano é a sua oitava maior, ao reger a intuição. A intuição é um conhecimento imediato. Para entender esta característica uraniana é preciso distinguir, em princípio, uma intuição que podemos chamar de “empírica”, que se liga a um objeto do mundo, e a intuição “racional” que designa a apreensão imediata de uma relação entre duas ideias. Por exemplo, a de que o átomo é o universo em miniatura. 

O   PENSADOR
AUGUSTE   RODIN ( 1840 - 1917)
Toda intuição tem um caráter de descoberta, quer se trate da descoberta de um objeto do mundo, de uma nova ideia ou da análise de um sentimento. É neste sentido que falamos da natureza “divinatória” da intuição. Distinguimos em psicologia as chamadas inteligências “intuitivas” e as inteligências “discursivas”. O discursivo é o que procede por etapas, por raciocínio; um espírito discursivo procede de maneira metódica e calculada. Opõe-se ao espírito intuitivo, que apreende imediatamente um resultado sem o recurso da demonstração.

Quanto ao número oito, entendamos, em todas as tradições ele
VIA   ÓCTUPLA
sempre apareceu ligado ao renascimento. Depois do sete, número do repouso, o oito indica uma possibilidade de ressurreição. Não é por outra razão, aliás, que muitas práticas orientais (yoga) do budismo, do hinduísmo, do
 jainismo, do tantrismo etc. têm a chamada via óctupla, consagrada por suas doutrinas como meio de acesso a algo maior.

PIA   BATISMAL
É por esse motivo que as pias batismais mais antigas tinham a forma octogonal. O oito (quatro do corpo, três da alma e um do divino) é o número que reúne assim as condições necessárias ao aparecimento de um novo ser, uma nova vida, que se purifica nas águas lustrais inteiramente. A totalidade que o número oito representa é o resultado de uma evolução, da destruição de uma forma e abertura para o nascimento de outra. Os antigos gregos, com razão, associavam o número oito a Dioniso, o deus das metamorfoses. 

Mercúrio, a oitava mais baixa de Urano, diz apenas respeito aos processos mentais normais. Já Urano, num tema individual, se bem relacionado com Mercúrio, apontará para inventividade, independência de espírito, singularidade, vanguarda, emancipação. Escritores (poucos) que redimensionaram as técnicas narrativas têm Urano em destaque nos seus temas astrais. Urano é também inventivo, isto é, ele leva à criação de algo novo, ele renova o existente, organizando-o de modo único, diferente. A invenção uraniana distingue-se da descoberta, que revela o já existente, o que estava encoberto. A faculdade de inventar, muitas vezes chamada de imaginação criadora, aparece quando conseguimos nos libertar da memória que nos dá a imaginação reprodutora e sacudir os preconceitos e a tradição de uma época.



URANO   E   GAIA   ( GLIPTOTECA , MUNIQUE )


Urano é palavra grega usada para designar o céu. Sua etimologia  é bastante discutível, embora alguns tentem , com certo sucesso, aproximá-la do sânscrito, de varsha, chuva, estação chuvosa. Urano, seria, pois, aquele que fecunda. 

Por sua transcendência com relação à terra, por sua força, por sua ação fecundante, o céu, desde a mais recuada pré-história, sempre provocou, ao ser contemplado, na mente primitiva, uma experiência de caráter religioso. Isto é, nele se misturam conceitos diversos de ordem meteorológica, astronômica, astrológica e teológica. Centro irradiador de energias da qual depende a vida terrestre, o céu é, com a terra, figura principal nos mitos cosmogônicos em todas as tradições. 

Alto, infinito, inacessível, fecundante, identificado com o princípio masculino, o céu é o lugar a partir do qual o divino atua. A altura acabou se tornando assim uma das características principais das forças celestes divinizadas. Estas forças tinham no outro polo, o feminino, formando-se logo assim a primeira dualidade, céu (masculino), terra (feminino). 

Aos poucos, porém, esta composição foi dando lugar a outras formas religiosas. A inacessibilidade das divindades uranianas será, com o tempo,  abandonada. A crescente complexidade social foi exigindo divindades mais presentes, mais acessíveis, mais dinâmicas. O divino deixou aos poucos de ser tão distante e passou a se “misturar” mais com o homem, uma queda progressiva no concreto.

É nesse período da história do ser humano que começam a aparecer as crenças animistas, o totemismo, o culto ao espírito dos mortos, as divindades locais e mesmo pessoais. O “céu” foi se materializando através de inúmeras expressões, em várias culturas, que tomaram o nome de mana, orenda, epifanias. O que tivemos então foi um empobrecimento crescente dos cultos das divindades supremas, uranianas, sempre reverenciadas à distância com um certo temor, solitárias, onipotentes, cruéis.



DIVINDADES   VÉDICAS


Uma característica destas divindades uranianas, em várias culturas, é que elas, além de deter o poder criador, todo-poderosas, portanto, elas eram clarividentes, sábias. Os humanos, porém, conforme as histórias religiosas nos deixam claro, precisavam de algo mais que a simples contemplação dos espaços celestes e da submissão às suas forças. Surge então a revelação religiosa. As divindades celestes começaram a se “mostrar”, como através dos avatares no Vedismo ou de certos profetas (Cristo), e a transmitir algo que pudesse ser transformado em regras de convivência do humano com o divino e dos humanos entre si.




Aparecem também os intermediários, os agentes da chamada demiurgia. Lembremos que demiurgo, em grego, quer dizer construtor, artífice. Estas ideias foram desenvolvidas por Platão no seu diálogo Timeu. O demiurgo, um emissário do divino, não é onipotente, ele só fabrica o kosmos a partir dos eide divinos, da melhor maneira possível. 

Oportuno lembrar que a palavra demiurgo fazia parte da linguagem cotidiana dos gregos. Demiurgos eram pessoas que trabalhavam para outras. No período arcaico, eram adivinhos, médicos e artesãos em geral. Mais tarde, já no período clássico, os demiurgos formavam uma classe, ao lado dos eupátridas (aristocracia) e dos geomores (aristocratas, proprietários de terra, que cultivavam a própria terra, presos muitas vezes a dívidas contraídas com os ricos eupátridas). Com estes últimos, eles constituíam a plebe. A história da formação da democracia grega é a história da sua luta contra os eupátridas para a obtenção de direitos assegurados legalmente. 



terça-feira, 1 de março de 2016

ASTROLOGIA E SAÚDE - V

 
                                           
WILLIAM  HERSCHEL
DESCOBRIDOR DE URANO
1738 - 1822
Urano – Conhecido como a oitava superior de Mercúrio, Urano tem a ver com a eletricidade cerebral (ligações com Mercúrio), regendo o influxo nervoso e, a rigor, tudo o que pulsa no nosso organismo. Espasmo é a palavra mais usada para se falar de um Urano com problemas. São dele, por isso, todos movimentos físicos involuntários, desde câimbras e fibrilações a tremores de natureza diversa, inclusive epilépticos (pequeno e grande-mal). Acessos súbitos, contorções, estreitamentos, choques, convulsões, distensões, nevralgias, desequilíbrios mentais, tendência a acidentes, gesticulação descontrolada etc. Sua atuação: é vibrante, inesperado, violento, radioativo, destruidor. Opera no sentido contrário e complementar do Sol, sendo o encarregado de levar o sangue arterial às extremidades do corpo. São dele, por exemplo, as diversas parestesias, os chamados formigamentos e o frio nas extremidades do corpo, mãos e pés. Rege Urano a parte da perna compreendida entre os joelhos e os pés, os tornozelos e a barriga da perna. São de Urano o éter, os raios, a eletricidade e os gases. Tem a ver com a hipófise ou a pituitária (ver o chakra ajña dos hindus) e, como tal, com a distribuição hormonal (etimologicamente, do grego hormao, excitar, pôr em movimento).

Tem Urano a ver com o sistema nervoso central, a aura física e magnética, as forças eletromagnéticas do organismo psicossomático. Algumas enfermidades: paralisias temporárias, desordens espasmódicas, psicose maníaco-depressiva, irritações nervosas repentinas, desordens sexuais (hermafroditismo, homossexualismo, impotência nervosa etc.). Frio e calor orgânico excessivos, paranoias, acidentes por raios, radiações e eletricidade.


Urano é responsável por súbitos ataques de moléstias, por rupturas, explosões elétricas e por ações perigosas, exageradas e extravagantes. Em Áries, debilitado, por exemplo, pode causar espasmos faciais, epilepsia, acidentes cardiovasculares (região da cabeça), convulsões. Em signos de ar, sugere males provocados por gases. Em signos de fogo, Urano pede cuidado com faíscas, com deslocamentos através de automóveis e aviões. 

Ao contrário de Saturno, que é hipo, Urano é sempre hiper. Numa relação dissonante com Mercúrio e Lua, afeta bastante a neuromentalidade, causando descontroles mentais e emocionais. Um Urano malogrado sugere anarquia, comportamento bizarro, incongruência, rebeldia e promiscuidade. Marte em mau aspecto com Urano indica acidentes em viagens, quando da prática de esportes radicais, problemas circulatórios e acidentes na região da cabeça etc. O mapa de Ayrton Senna é exemplar quanto a esta última característica.


EM  DIREÇÃO  DAS  ALTURAS
O uraniano, de um modo geral, não gosta de ser como os outros; por isso, comuns as ideias de demarcação, de limites, de distinção, de modo especial com relação às origens e aos ambientes de formação. 


Muito presente a necessidade de uma hiperindividualização, tendência que leva a unidade, o eu, a se considerar como um absoluto, traduzido por ações totais, exclusivas. Daí, muitas vezes, impulsos paroxísticos, conquistas elevadas, picos, grandes alturas, tudo ligado a uma grande inclinação para o incomum, o inabitual. Nada de normas, rotinas ou convenções. Daí os escândalos, a necessidade que muitos tipos uranianos têm de chamar a atenção, de ir na contracorrente. Comuns os risco da imposição da lei do frenesi, da busca das façanhas únicas, dos recordes, da necessidade de todo o espaço possível. Já ouve quem dissesse, quanto ao que expomos aqui, que o uraniano típico oscila entre uma figura prometeica e um aprendiz de feiticeiro. Como o leonino, há sempre o risco de uma inflação ególatra onde entram conceitos de grandeza, genialidade, de ereção vertical.

Comuns, em muitos uranianos, nos tipos mais malogrados, aquilo que a psicologia e psicanálise chamam de supercompensação. Sentindo-se inferiorizados de alguma maneira (feios, desajeitados socialmente, tímidos, com um discurso verbal inconvincente etc.) tais tipos partem (inconscientemente ?) para a supercompensação, uma reação desproporcionada, excessiva, à sensação de inferioridade, culpa ou desajuste que os leva a esforços exagerados no sentido de que tal sensação seja sobrepujada. Esta supercompensação costumar dar certo, embora sempre com certos riscos (anarquia, excentricidade, monomania etc.) quando voltada para realizações que explorem o seu potencial mental, a sua inventividade intelectual. Já explorada fisicamente (mania de recordes etc.) pode causar sérios danos à sua saúde.   


NETUNO
Netuno – Alquimicamente, é o planeta dono da solutio; Netuno é fértil, psíquico, misterioso, secreto. Rege os pés, exercendo poderosa influência sobre o sistema nervoso, as glândulas (principalmente a pineal), as mucosas, certas secreções líquidas do corpo (o pus, o líquido sinovial, por exemplo). Todo o processo quimioterápico é dele de algum
PSICOGRAFIA
modo. São dele também os analgésicos, os soporíferos, os anestésicos líquidos e gasosos. Tem relação com a vidência, a mediunidade, os estados sonambúlicos, as sufocações, o delírio, a demência, as obsessões, as intoxicações causadas pelo tabaco, pelas drogas, pela fumaça, pelos entorpecentes, pelo álcool.

Representa Netuno as doenças imaginárias, favorece a hipocondria e predispõe ao desenvolvimento de males por falta de reação, por inércia. A atuação de Netuno nunca é muito clara, é nebulosa, imprecisa, dificultando os diagnósticos e a dosagem dos remédios. O planeta, no eixo VI-XII de um mapa, oferece sempre dificuldades quanto à fixação da dosagem de remédios, principalmente os de “tarja preta”.

São dele também: os órgãos da percepção extrassensorial, faculdades telepáticas, o plexo solar (que divide com Mercúrio), os glóbulos brancos, também de Vênus. Outros males: desequilíbrios endócrinos por causas inexplicáveis; transes, catalepsia, fenômenos de possessão,
GOYA:  O  REINO  DE  PLUTÃO

alucinações, asfixias, envenenamentos, coma, doenças sem diagnóstico, contágios, alergias, rugas prematuras, sonambulismo. 
Pode-se mesmo afirmar que qualquer pessoa que tenha um Netuno muito debilitado costuma apresentar uma forte tendência para se tornar dependente de uma droga,  fisicamente (maconha, LSD, por exemplo) ou viver moralmente de simulações, fraudes, mentiras, mitomania, hipocrisia, falsa espiritualidade etc. Netuno bem aspectado, principalmente com os luminares, proporciona estados mentais e psíquicos superiores, inclinando á religiosidade, à fé, à compaixão, mas sempre exigindo muito cuidado quando entramos nesse chamado “mundo da espiritualidade”. 

São de Netuno o amor sacrificial, o amor oblativo, o abandono do ego, a recusa do eu para que seja facilitada a adesão com o Todo, a chamada via mística (Quem perde a sua vida a
OSCAR  WILDE
salvará, quem quer ganhar a sua vida a perderá, como está na Bíblia
).  Como se disse, a ação de Netuno nunca é muito nítida e seus efeitos são muitas vezes decepcionantes. É, com razão, o planeta da desilusão, das promessas que não se cumprem. O mapa de Oscar Wilde é um bom exemplo para o estudo das influências netunianas enganadoras aqui levantadas.

Netuno está relacionado, quando em maus aspectos, com o engano na sua forma mais negativa. Pode ser muito difícil para um médico clínico estabelecer diagnósticos para pessoas que têm Netuno na sexta casa. Netuno costuma mascarar o que apresenta. Às vezes, é possível confundir as influências de Saturno com as de Netuno, pois ambos têm efeitos “hipo”. Netuno, na casa 12, muito debilitado, parece ser o responsável pelo autismo em muitas crianças.

Netuno é, com razão, o arquétipo da dissolução universal com relação à participação num todo maior. Daí, quando malogrado, o perigo da invasão, da permeação, da infiltração, da adesão incontrolável, da identificação, da empatia. A grande tendência das personalidades netunianas é a plasticidade psíquica, a grande maleabilidade. Quanto à fisiopatologia, sempre o perigo das permeações viróticas, microbianas, parasitárias, dos contágios, da proliferação celular anárquica causadora de quistos e fibromas moles. 

As patologias de Netuno são sempre difíceis de diagnosticar, misteriosas, geralmente de evolução lenta e perniciosa. Ao contrário da ação dos demais planetas, a de Netuno nunca é muito clara, sendo seus efeitos muitas vezes surpreendentes. Sua ação costuma aparecer associada à vida subconsciente como produtora de moléstias mentais, manias etc. Já no plano social, Netuno, além influenciar praticamente toda a produção artística e política da segunda metade do século XIX (Impressionismo e Simbolismo, especialmente)  deixou a sua  marca também no anarquismo (Netuno exaltado em Leão) e no socialismo.


IMPRESSÃO : O NASCER DO SOL  ( MONET , 1874 )

Netuno é a rejeição do sólido e do coerente. Por isso, são dele as comunidades e pessoas (doente ou não) que vivem fora do mundo normal. É por esse entendimento que damos a Netuno a regência da vida religiosa, dos hospitais, das prisões, dos asilos, dos retiros, dos eremitérios. É por essa razão que para um autêntico pisciano a salvação só pode acontecer dentro de uma comunidade (alcoólatras anônimos, drogados etc.). 

A civilização moderna pode ser considerada, no entendimento que aqui damos a Netuno, como uma verdadeira droga. Tudo que ela oferece é fake, postiço, inautêntico, artificial, produzido pelos vários excitantes que ela inocula através dos meios de comunicação, pela criação incessante de falsos modelos de vida, de falsos deuses (Deus Mercado), e pela consequente impossibilidade que ela produz no nosso interior de alimentarmos qualquer forma de confiança, de fé, de solidariedade no que quer que seja. 


PLUTÃO E CÉRBERO
Plutão – Rege os hormônios, a sexualidade, a reprodução, a renovação das células e dos tecidos, os fermentos solúveis, as deformações, as amputações e as extirpações; tem a ver com cirurgias transformadoras, com as perturbações do equilíbrio ácido do organismo, dores artríticas, o câncer, a esclerose cerebral, acidentes e catástrofes coletivas, erupções do mundo subterrâneo, cataclismos, convulsões, impele a mudanças interiores, exacerba forças secretas. Relaciona-se com o inconsciente de um modo geral, com a psicanálise, sobretudo; marca os passos evolutivos da humanidade, dando o tom da morbidade e da destruição num determinado período ao transitar por um signo. Tem relação com grandes acontecimentos coletivos, com as atividades nucleares e cibernéticas, com assuntos internacionais. Violento sempre, destrói as formas que não sabem se renovar; atua muitas vezes através de sequestros, raptos, ações ocultas (tocaia) e de ataques à traição.  

Maus aspectos de Plutão com Vênus (quadraturas) são responsáveis muitas vezes, em mulheres, por problemas ovarianos; nos homens, problemas na próstata; se Júpiter participar negativamente, neste caso, risco de malignidade. Há estudos sérios a nos indicar que Plutão representa qualquer tendência hereditária para as doenças.
SIGMUND  FREUD
Além do mais, Plutão representa também crescimentos anormais (sinais de nascença, verrugas, neoplasias etc.). O planeta aponta, através do signo em que se encontra, para regiões corporais ou órgãos onde temos grandes possibilidades de crescimentos anormais. O mapa de Sigmund Freud é exemplar para o estudo do que acabamos de mencionar.  


Em última instância, Plutão representa o mais profundo das nossas trevas interiores, as camadas mais profundas do nosso psiquismo. Neste sentido, é que apresenta grande afinidade com o que os gregos designavam por Tártaro quando se referiam ao seu mundo infernal (Hades). Todas as expressões da agressividade destrutiva são dele. As grandes crises de consciência são dele, como o são também o remorso, a culpa, a mágoa, as obsessões, as ideias fixas, os demônios noturnos que nos tiram o sono. Mas é através de Plutão que, apesar de tudo, podemos ter acesso aos tesouros que estão enterrados dentro de nós.

De um modo geral, a localização de Plutão num mapa, sua angularidade, sua dignidade ou debilidade, sempre nos informarão sobre a extensão e as diferentes metamorfoses de uma personalidade e do seu destino. Fisicamente, Plutão, com seus grandes poderes destruidores ou transformadores, marca o triunfo das trevas sobre a luz.  O desequilíbrio material que ele provoca tem muitas vezes a finalidade abrir um acesso ao plano espiritual. Positivamente, a escuridão que Plutão traz está sempre ligada a uma forma de regeneração. Plutão assinala por sua posição um lugar de transformações tão profundas que ali será sempre exigida uma mudança das formas materiais. É por Plutão, como mestre de Escorpião, pelo desequilíbrio que impõe, que se abre o caminho que vai do micro ao macrocosmo, a evasão definitiva do mundo da dualidade, o retorno do múltiplo à unidade.