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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (1)

                            
 
GRÉCIA    ANTIGA ( PERÍODO  HOMÉRICO )
     
Grande parte do que apresento neste artigo é um resumo das ideias que há muito, muito tempo, num projeto pessoal, venho reunindo sobre a mitologia grega, desde que,  a meu pedido, em 1.949, terminado o meu curso ginasial, ganhei de presente de minha mãe, nas festas de Natal, os dois poemas de Homero, na tradução de Carlos Alberto Nunes. Com o correr dos anos, vieram depois outras traduções, outras leituras, o estudos das línguas, as viagens, o interesse por outras tradições mitológicas (a hindu principalmente), as relações delas com a literatura, o teatro, as artes plásticas, o cinema e, sobretudo, a astrologia, eis que tudo, como venho aprendendo, se ilumina mutuamente. A cada dia uma relação nova, uma descoberta. A viagem continua...   


A primeira referência que temos sobre Homero está escondida na Teogonia, no verso 39. Nesse verso, Hesíodo descreve o canto das musas. Para falar dele, cria um verbo, homereusai, homenageando o poeta. Esse verbo faz referência à harmonia que há no canto das musas, como ele soa agradavelmente. Outro que assinala a presença de Homero é o poeta Callinos de Éfeso, de meados do séc. VII aC. Por essa época, Tirteu de Esparta e Mimnemene de Collophon também se referem diretamente à Ilíada. Alceu de Lesbos, contemporâneo de Sapho (fim do séc. VII aC) retoma a cena entre Zeus e Tétis do começo da Ilíada para nos falar de Homero. Mais ou menos em 600 aC, Clístenes, tirano de Siracusa, proibiu nos agones poéticos da cidade menções a poemas homéricos, declarando-os muito favoráveis aos argivos. Um pouco antes de 520 aC, Hiparco, filho mais velho de Psístrato, tirano de Atenas, introduziu a recitação dos poemas homéricos na grande festa das Panateneias. 


PÍNDARO
No V séc. aC, aparecem sobre Homero dados mais consistentes. Além de menções, temos já muitas transcrições sobre sua poesia, algumas discutindo seus conteúdos, estilo e linguagem. Píndaro (520-445 aC), o grande poeta lírico, fala dos homéridas como cantores de palavras, rapsodos,  isto é, de versos "costurados juntos". A palavra rapsodo já circulava bastantes nos meios poéticos para designar o “costureiro de versos”. A palavra rapsodo é retirada do verbo grego rhapteinv (costurar). Já o aedo, (aoídos), cantor, era sinônimo do outro. Ambos cantavam os versos dos poemas épicos. 

HOMERO
Mas quem, na realidade, foi Homero? Um neto de Ulisses?  Um velho poeta cego e lúbrico? Um ser semi-divino? Uma mulher? Onde nasceu? Na Grécia, no Egito, na Anatólia, em Roma? Teria ele existido realmente? As hipóteses são muitas. Será que os poemas que temos como sendo de sua autoria não teriam sido produzidos coletivamente, por uma corporação de poetas?   

O que temos sobre a vida de Homero está reunido, de um modo geral, em muitos textos que podemos chamar de Vidas de Homero. Se vamos aos textos mais próximos, da época romana ou bizantina, por exemplo, percebe-se que todos eles fazem referência a textos bem mais antigos, do século VII aC. e de antes. 

Para compor os seus poemas, Homero, está hoje provado, valeu-se de um dialeto literário nunca falado na Grécia. Criou praticamente uma linguagem própria, única, na história da literatura, de grande riqueza vocabular, que sempre encantou e perturbou tanto os tradutores, os especialistas, como o leitor comum, seduzindo enfim, de um modo ou de outro,  todos aqueles que de seus poemas se aproximam.



A fim de encontrar o verdadeiro Homero, ainda na antiguidade, levantou-se a hipótese de que ele poderia ter se escondido em algum personagem de seus poemas, num aedo, o mais provável.  Adotada essa linha de busca, não será preciso fazer muito esforço para “descobri-lo” na Ilíada. Agamemnon, antes de se dirigir a Troia, como  comandante dos exércitos gregos, deixou um poeta de sua corte chamado Demódoco para proteger e ajudar sua esposa, a rainha Clitemnestra, no que ela precisasse. Sabe-se que embora o poeta a tivesse aconselhado ela não resistiu ao jogo sedutor de Egisto. Enquanto Agamemnon e Menelau, seu irmão, estavam em Troia, Egisto conseguiu conquistar Clitemnestra e, com ela, tramou um plano para assassinar o seu marido, o que de fato aconteceu. 


ODISSEIA
Na Odisseia, aparece também um poeta-cantor de mesmo nome, Demódoco, considerado um “aedo divino”.Como está no poema, os deuses fizeram dele um ser que a todos seduzia com o seu canto. Demódoco alegrou os feácios, que haviam acolhido Ulisses, na corte do seu rei Alcinoo. As musas privaram-no da visão, mas lhe haviam concedido o dom de cantar divinamente. O nome Demódoco vem de duas palavras gregas: demos (povo) e dekhesthai (o que ajuda ao cantar, o que torna as coisas melhores quando canta).

Buscando um pouco mais, é possível, seguindo a suposição acima levantada (Homero teria se escondido em algum personagem), descobrir que,  na Odisseia, Ulisses, como rei de Ítaca, mantinha também um poeta-cantor, de nome Phemios, que aparece na Ilíada. O nome Phemios, etimologicamente, se liga a ideias de normalidade, de lei divina ou lei moral, costume, vontade dos deuses. Era Phemios um poeta lírico que alegrava os banquetes. Na Odisseia, sua audiência era formada, em grande parte, pelos pretendentes de Penélope, quase todos oriundos da aristocracia de Ítaca e de reinos próximos. 


PRETENDENTES   DE   PENÉLOPE
( JOHN  WILLIAM  WATERHOUSE  ,  1849 - 1917

No poema, quando Phemios distraía a sua plateia, Penélope o interrompeu, achando o seu canto muito triste. Telêmaco interveio, tomando a defesa do poeta, repreendendo a mãe, dizendo-lhe que os presentes não poderiam querer mal ao poeta-cantor, que a todos encantava com a sua arte, ainda que a história narrasse o triste destino dos heróis gregos.


ULISSES   ATACA   PRETENDENTES   DE   PENÉLOPE

Quando Ulisses e seu filho Telêmaco começaram a atacar os pretendentes de Penélope e os maus servidores de seu palácio, Phemios e o arauto Medon foram livrados da morte, pedindo Ulisses que o primeiro, Phemios, entoasse cantigas de noivado para dissimular os gritos dos que ele e o filho matavam. Medon, esclareça-se, era o arauto dos pretendentes de Penélope, que tentaram  armar uma cilada para matar Telêmaco. Quando do regresso do jovem à ilha, Medon revelou o plano deles a Penélope, fracassando eles assim no seu intento. 

Por causa do destaque bastante positivo recebido pelos poetas nos dois poemas, A Ilíada e A Odisseia, ainda no mundo arcaico foi montada uma versão segundo a qual  Homero seria filho de Telêmaco e de Policasta, filha do sábio Nestor, que tantos bons conselhos prodigalizou ao filho de Ulisses. É provavelmente como um desdobramento desta versão que sai a história que faz de Homero, além de aedo, um  professor. 


HESÍODO
 Com base na “simpática” defesa que Homero fez dos poetas em suas obras, levantaram-se já na antiguidade outras hipóteses sobre a sua origem. O mais importante, porém, como se notou, é que Homero abriu um caminho para que os poetas falassem um pouco de si mesmos e dos acontecimentos do tempo em que viveram. Se em Homero ainda havia um certo pudor quanto a isto, de Hesíodo em diante, com ele, Safo, Píndaro e outros as declarações pessoais tornaram-se bem mais abertas.
OS   TRABALHOS   E   OS   DIAS
Mencione-se, por exemplo, o caso de Hesíodo, tido às vezes como cronologicamente um pouco mais jovem que Homero. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, poema dedicado a seu irmão Perses, com quem teve problemas por causa da herança familiar, insta-o a observar as virtudes do trabalho, dá-lhe conselhos morais, recomendando que ele procure sempre trilhar o caminho do bem. 


HERÓDOTO
Em algumas versões, como a de Heródoto, conhecido como o Pai da História, encontramos relatos de que Homero e Hesíodo foram contemporâneos e até aparentados, tendo ambos participado, como poetas, de agones (competições) fúnebres realizados na Eubeia, em homenagem ao seu rei, morto numa batalha, por volta de 700 aC. O próprio Hesíodo, aliás, numa passagem de Os Trabalhos e os Dias, faz referência a uma viagem que fizera à Eubeia para participar dos referidos jogos. Adianta mais Hesíodo que venceu os agones com um hino que compusera em homenagem às Musas, que alguns acreditam fazer parte do proêmio da sua Teogonia. Um depoimento de Aristófanes, encontrado na sua comédia As Rãs, faz alusão ao fato de que as competições seriam muito comuns entres poetas famosos e que aquela na qual se envolveram Homero e Hesíodo seria uma dentre muitas realizadas.

No livro II da História de Heródoto, encontramos informações de que Homero e Hesíodo haviam vivido quatrocentos anos antes dele (Heródoto) e que foram os primeiros a descrever em versos a teogonia (a origem dos deuses), a registrar a aparência
SÍTIO   ARQUEOLÓGICO   DE   DODONA
dos deuses, seus sobrenomes, as funções que exerciam, os seus cultos. Informa-nos mais Heródoto nesse item que, na sua opinião, os dois poetas foram os primeiros a abordar a história dos deuses. Parte do que relatava no referido item ele colhera quando de seus contatos com as sacerdotisas de Dodona. Quanto ao que afirmava sobre os dois poetas, nada mais fazia do que emitir a sua opinião pessoal.


Em que pesem os registros acima feitos, sobre o embate poético entre Homero e Hesíodo, o que fica de mais aceitável dessas afirmações é que desde a antiguidade procuram os estudiosos da literatura grega  destacar, opondo-os, dois grandes exemplos pelos quais a tradição poética daqueles primeiros tempos procurou os seus caminhos. Uma oposição até violenta entre dois mundos. De um lado, os príncipes guerreiros, a Grécia colonialista, invasora,  e, de outro, o mundo arcaico, agrário, fixado nos valores da terra. De um lado, com Homero, a poesia épica e, de outro, com Hesíodo, a poesia didática, gnômica. 

Com a primeira, as aventuras, os valorosos reis, a vocação marítima, a colonização, de outro, os patriarcas, a economia da terra. Economia é palavra que vem do mundo de Hesíodo, de oikos, a família, a casa, as terras, os animais e os servos, e de nomos, a lei, a ordem, o respeito, a disciplina. É por essa razão que Hesíodo denúncia os governantes, notáveis, todos, no seu entender, “comedores de propina”, corruptos e prevaricadores.  Vivendo na Beócia, região agrícola, também de criadores de animais,  na Grécia central, Hesíodo, como os seus demais habitantes era um sólido e taciturno camponês. 


HORÁCIO
Os habitantes da Beócia tinham a fama de usar mais a força física do que a inteligência. Beócio, aos poucos, tornou-se sinônimo de ignorante, simplório, boçal, ingênuo e também de pessoa pouco cultivada, indiferente às letras. O poeta latino Horácio espalhou o sentido pejorativo da palavra. Do grego, ela passou para o latim (boeotius) e chegou ao português. Os franceses, por uma questão homofônica, associaram beócio a bosse (bócio) e, daí, a crétin (cretino). O cretinismo é uma patologia (rara), causada pela diminuição da atividade tireoidiana que, ao atingir certas pessoas, afeta o seu desenvolvimento físico e intelectual.     

Para participar da questão homérica não podemos ignorar a intervenção de um outro historiador, muito importante, mas pouco citado: Éforo (405-330 aC). Ele nasceu em Cime, cidade da Eólida, Ásia Menor, e escreveu uma extensa obra histórica. Num de seus livros, Epichorium Logos, declarou-se conterrâneo de Homero. Estrabão, que não gostava de Éforo, sempre reclamou por ele gostar de citar favoravelmente em seus escritos seus conterrâneos. Estrabão considerava-o, por isso, um simples logógrafo.   

Evidentemente, ninguém duvidava da existência de Homero na antiguidade grega. Suas obras faziam parte da Paideia, do sistema de educação e de formação dos estudante gregos, do qual faziam parte a Gramática, a Retórica, a Ginástica, a Música, a Matemática, a Geografia, a História, inclusive a Natural, e a Filosofia. Esse sistema pedagógico começou a ser montado nos tempos homéricos, atingindo a sua plenitude no período clássico da história grega. Chegaram até nós, por exemplo, para confirmar a existência desse sistema muitas imagens (relevos) nos quais se vê um jovem, numa récita de poesia, acompanhado de um músico, uma das formas então utilizadas para a transmissão da cultura. 

BIBLIOTECA   DE   ALEXANDRIA
As primeiras questões levantadas com relação à existência de Homero apareceram de modo mais consistente nos círculos literários que se juntavam em torno da Biblioteca de Alexandria, por volta do século III aC. Criada durante o período helenístico da história grega, na zona portuária de Alexandria, no Egito, a Biblioteca tinha por objetivo reunir tudo o que se fazia culturalmente na época, além de patrocinar um decidido apoio para a difusão do saber clássico grego.  

Duas figuras, Zenão e Helânico, eruditos ligados à Biblioteca, começaram a pesquisar a biografia de Homero, a partir de sua obra, levantando tudo, dentro da obra do poeta ou não, como lendas ou tradições diversas, que lhes parecessem úteis para o fim pretendido. Nesse trabalho, foram reunidas inclusive muitas biografias “regionais” de Homero encontradas em muitas cidades ou lugares que disputavam a glória de ser a terra natal do poeta: Rodes, Cólofon, Salamina, Chios, Argos, Esmirna, Cime etc. Já ao tempo desses eruditos alexandrinos, por exemplo, uma tese, apresentada, com boa argumentação, defendia que os dois poemas haviam sido escritos por poetas diferentes e que entre ambos haveria uma distância de mais ou menos dois séculos, tendo sido A Ilíada composta antes. Os defensores desta tese foram chamados de “separatistas”.

 Nas cidades acima mencionadas, os que as visitavam em busca do “mistério” Homero, eram recebidos por membros de famílias que se autodenominavam homéridas, descendentes diretos do poeta, que monopolizavam, por direito de sucessão, segundo afirmavam, tanto a recitação de suas obras como o ensino da arte poética na forma por ele criada. As cidades que parecem reunir as melhores possibilidades de se apresentarem com a cidade natal do poeta são Chios e Esmirna. Na primeira destacava-se a ação dos homéridas
PÍNDARO
que sempre procuraram manter os poemas na sua tradição oral. Já Esmirna se destacou por ser um importante centro cultural e linguístico com condições de dar amplo suporte a uma formação tão rica como parece ter sido a de Homero.  Os defensores de Esmirna se valeram mais tarde, para defender melhor a sua posição, do fato de nela ter nascido também Píndaro, poeta que viveu em Atenas entre 518-442 aC. 

Como não poderia deixar de acontecer, versões evemeristas também foram coletadas. O evemerismo, sabe-se, é a transformação de um fato histórico, com os seus personagens, em mito. Algumas destas versões atribuíam a Homero uma natureza semi-divina, ora dando-o como filho de um deus e de uma mortal, ora dando-o como filho de uma deusa e de um mortal. Uma das versões mais “tentadoras” era aquela que o considerava como filho da mais importante das musas, Calíope (etimologicamente, a de bela voz), que tutelava a poesia, tanto a épica como a lírica. Calíope, no mito, é  mãe de Orfeu, de Iálemo, de Himeneu e de Lino. Consta que também gerou as Sereias, as “cruéis cantoras”, e que teria sido professora de canto de Aquiles. 


ULISSES  E  AS  SEREIAS  , 1891 ( JOHN WILSON WATERHOUSE )

Dentre as muitas biografias de Homero, uma das mais citadas é a atribuída a um autor desconhecido, que recebeu o nome de Pseudo-Heródoto. Por ela e pelos textos que nela se mencionam, ficamos sabendo que Homero teria nascido 168 anos antes da guerra de Troia, o que permitiu fixar a data do seu nascimento em 1.102 aC. Embora considerada como pura ficção por muitos, um verdadeiro pasticcio, esta vida de Homero menciona alguns personagens importantes de Ítaca, como o poeta-cantor Phemios, Mentor e outros.

A grande notoriedade da biografia de Homero atribuída ao anônimo Pseudo-Heródoto se deve principalmente ao fato de nela se declarar que os fatos narrados sobre o poeta teriam sido compilados pelo historiador. Por contradições encontrada nos textos coletados, muitos historiadores desqualificam as afirmações nele contidas e declaram que o que conhecemos como obra desse Pseudo-Heródoto teria sido escrita entre os séculos III e IV dC, no período alexandrino, período em que havia um público para esse tipo de literatura.  

É nesses textos que encontramos referências sobre a viagem que Homero teria feito a Ítaca e que teria sido hóspede de Mentor, depois incluído como personagem na Odisseia. Registra-se também que, por informações desses textos, por essa época Homero já enfrentava problemas com os seus olhos. Ao deixar Ítaca, ao passar por Colophon, é que teria perdido totalmente a visão. Em Phocacea, depois de passar por Cime, foi acolhido por um pedagogo, Thestorides, em troca de recitais nos quais apresentou A Ilíada e A Odisseia. 

Os registros prosseguem e por eles ficamos sabendo que Thestorides foi para Chios e lá assumiu a autoria dos poemas homéricos. Tomando conhecimento desses fatos, Homero viajou para Chios e declarou  que o verdadeiro autor dos poemas ela ele. Foi nessa ilha, continuando, que Homero teria composto a sua Batrachiomaquia (A Batalha entre as Rãs e Os Ratos), então considerado como um poema destinado às crianças. A seguir, nosso poeta teria viajado para Samos e dali, ao passar por Ios, falecera, a caminho de Atenas.

Lembre-se que na biografia do Pseudo-Heródoto estão os 17 epigramas atribuídos a Homero, também encontrados nos seus Hinos HoméricosPara os mais interessados, registre-se que temos entre nós uma excelente edição bilíngue destes hinos, organizada por Wilson Alves Ribeiro Jr. (Fundação Editora da Unesp)



sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

PEIXES (2)


SIGNO  DE  PEIXES
 CATEDRAL  DE  CHARTRES , FRANÇA
Diante do exposto em Peixes (1), parece-me impossível deixar de aproximar o signo de Peixes, enquanto lembra destruição de formas e dissolução, de todas as catástrofes encontradas em todos os mitos e religiões, englobadas na  expressão “fim do mundo”. No Apocalipse de João, por exemplo, a descrição nos fala de tremores de terra, do Sol enegrecido, da Lua ensanguentada, de estrelas cadentes, de montanhas e ilhas fora dos seus lugares. Há referências a que todos os homens, livres ou não, cheios de temor, se esconderão em cavernas, eis que esse grande dia chegará como o dia da cólera divina.


NAGFLAR
Entre os celtas, a deusa da guerra, Morrigu, profetizava o fim do mundo: confusão das estações, corrupção dos homens, decadência das classes sociais, maldade, relaxamento dos costumes etc. Na mitologia escandinavo-germânica, o navio Nagflar, construído com as unhas dos mortos, deverá aparecer nos dias finais do mundo, ocasião em que o grande deus Odin será devorado pelo monstruoso lobo Fenrir. 

Uma explicação sobre a curiosa passagem acima (a construção do navio Nagflar), encontrada nos próprios textos míticos, nos fala insistentemente de recomendações no sentido de que se cortassem as unhas dos mortos para impedir que as divindades do mal construíssem com elas o famoso navio Nagflar, destinado a atacar a terra e os céus, pondo fim à criação. Por isso, também, tantas prescrições, em inúmeras tradições, sobre os melhores dias para se cortar as unhas dos que iam para o Outro Lado. Lembre-se que uma tradição quase universal registra que as unhas permanecem ligadas a um indivíduo pela magia simpática, sendo nesse sentido equivalentes à alma, muito usadas, por isso, na feitiçaria, tanto para o bem (fabricação de filtros de amor) como para o mal (atingir fisicamente alguém através de um pedaço de sua unha). 


ANTICRISTO, APOCALIPSE  DE  SALISBURG ,  SÉC.XIII ,  INGLATERRA

Na tradição cristã, um personagem misterioso, chamado de  Anticristo, como está no Apocalipse, deverá aparecer algum tempo antes do fim do mundo, enchendo a Terra de crimes, impiedade e desolação. O Anticristo, investido com os poderes do Diabo, virá para destruir as imagens das divindades e fazer-se adorar como o próprio Deus.  


LIBERTAÇÃO , ILUMINURA  ( BURCKHARDT-WILDT , 1752 - 1819 )

O Apocalipse de João faz referência à libertação da Besta acorrentada, sendo o fim dos tempos fixado, primeiramente, pela tradição cristã da alta Idade Média, no temível ano mil. Outra tradição, depois, nos falou que a partir do nascimento de Jesus o mundo duraria tantos anos quantos versos tinham os Salmos de David. Aos poucos, a tradição cristã europeia foi fixando o fim do mundo em datas cada vez mais distantes: 1395, 1545, 1651, 1715 ou 1716, 1819. Alguns textos nos falaram da vinda do Anticristo em 1818 e do fim do mundo em 1823, As duas guerras mundiais do séc. XX foram muito propícias para o surgimento de profecias semelhantes. 

NOSTRADAMUS
Quanto ao que está acima, não podemos deixar de mencionar a profecia de Nostradamus (1566): quando a sexta-feira santa cair no dia de S.Jorge (23 de abril), o domingo de Páscoa no dia de S.Marcos (25 de abril) e a festa de Corpus Domini no dia de S.João Baptista (24 de junho), o mundo acabará. Todas estas datas coincidiram nos anos de 1666, 1734 e 1943. Assinalemos que o calendário maia termina brutalmente no dia 24 de dezembro de 2011 com o fim da quinta idade do mundo, marcado por um cataclismo universal. Lembro ainda que várias seitas religiosas espalhadas pelo mundo anunciam constantemente a sua destruição. Um caso para se registrar: Shoko Asahara, guru da seita Aum-Shinri-Kyo, Japão, previu apocalipses para os anos de 1997, 1999 ou 2000. Em 1995, a seita espalhou o terror com um atentado com o gás sarin no metrô de Tokyo, profetizando o fim do mundo e castigos terríveis.

Como agentes da destruição, a serviço do caos, não podemos esquecer da galeria de monstros que pode ser associada ao signo de Peixes, monstros diferentes dos escorpianos,  estes sempre mais “contidos”, pois os subterrâneos do Hades são o seu habitat natural. Os monstros que associamos a Peixes são os que denominamos de monstros da ressurreição, cuja principal característica é a de provocar pela sua ação uma completa transformação quanto ao que devoram, transformação esta que leva à total decomposição, à
HESÍODO
destruição da antiga forma, reduzindo-a a um estado equivalente ao do caos. É a partir deste estado, onde temos uma completa ausência de limites, uma indeterminação total, que uma nova vida poderá aparecer, estruturando-se como existência dentro de uma nova ordem. A mitologia grega, conforme Hesíodo nos expõe em sua Teogonia, deixa tudo isto muito claro ao nos dar a seguinte ordem: caos, existência e cosmos e assim sucessivamente. 

SÃO   LUCAS
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
No evangelho de Lucas temos: Encontrar em si o ser do peixe é de maneira geral unir-se às formas originais da existência humana que não conhecem o medo, numa camada muito profunda da alma... Esta ideia está presente na história do profeta Jonas, que desceu à vida subconsciente (metaforicamente engolido por uma baleia). Operada deste modo a transformação no ventre do monstro, Jonas foi expelido, o que lhe permitiu se iluminar de um novo modo.  


GINNUNGAGAP
( ILUSTRAÇÃO )
Outro, aliás, não é o entendimento da Alquimia quando ela nos fala da materia prima, expressão que designa o estado em que se encontra a matéria antes de tomar qualquer forma. Em vários mitos encontramos a representação deste estado pela imensidão oceânica antes do aparecimento da terra ou como o fizeram os escandinavo-germânicos através do seu ginnungagap, um abismo que parecia bocejar, cansado de eternidade.

É neste ponto, acredito, que seja possível estabelecer uma clara distinção entre os monstros que atuam em Escorpião e em Peixes, distinção que pode nos auxiliar a fixar melhor os conceitos destes dois signos. Escorpião, através de seu planeta regente, Plutão, tem a ver com as grandes transformações e mutações; fala-nos de reformas que rearticulam ou eliminam componentes para reconstruir com a ideia de melhorar, de reciclar, podendo proporcionar inclusive o conhecimento de forças ocultas, não usadas, desconhecidas, que se tornarão úteis ao corpo transformado. Esta distinção permite-nos, por exemplo, entender melhor o que é transformação orientada escorpianamente e o que é uma transformação de natureza espiritual, pisciana. Um exemplo clássico da primeira é a psicanálise. Da segunda, as transformações religiosas, que levam à destruição do antigo eu profano (abandono da família, perda de identidade, aquisição de um novo nome) e integração em novos grupos, vida anônima etc. As transformações de natureza escorpiana, mesmo as religiosas como as peregrinações, também de natureza sagitariana, é de se lembrar, não trabalham com estas implicações piscianas.


JONAS  E  A  BALEIA
O maior dos cetáceos conhecido, da ordem dos mamíferos aquáticos, a baleia, é o modelo básico dos monstros marinhos que associamos ao signo de Peixes, como agente da morte iniciática. Jonas permaneceu por três dias e três noites no ventre da baleia que o engoliu. Mateus no
SÃO MATEUS
seu evangelho usou este episódio da vida de Jonas para anunciar a ressurreição de Cristo depois de permanecer três dias e três noites no ventre da terra. Segundo muitas histórias espalhadas pelo mundo cristão, a baleia, por ter engolido Jonas, foi punida por Deus. Sua garganta se reduziu tanto que ela só consegue, desde então, engolir peixes muito pequenos.

LEVIATÃ, C. 1865 (G.DORÉ)
É dos judeus que nos vem também a história de outro monstro, muito maior que a baleia, o Leviatã, de enormes dimensões, a maior de todas as criaturas do mar. Segundo a tradição, Deus matou a fêmea da espécie para impedir que o casal procriasse e destruísse o mundo e fez de sua pele roupas para Adão e Eva. Ainda segundo a tradição judaica, na idade do
BEHEMOT
( W. BLAKE, 1757 - 1827 )
Messias, o Leviatã e seu equivalente terrestre, Behemot, entrarão em luta, matando-se um ao outro. Behemot é do tamanho de “mil montanhas” e bebe tanta água diariamente que um rio especial emana do paraíso para saciá-lo. Diz-se que ele ruge uma vez por ano, no mês de Tamuz, para atemorizar os animais do mundo, mantendo-os sob seu controle. 

No banquete messiânico, a pele do Leviatã servirá de toldo para
SAMAEL
abrigar toda a humanidade e sua carne será comida. Os olhos do Leviatã iluminam os mares à noite, as águas fervem ao contacto de seu bafo, escapando do seu corpo um odor tão fétido que pode até superar os perfumes que emanam do jardim do Éden. Conforme a Cabala, o Leviatã simboliza Samael, o grande demônio que, com a sua companheira, Lilith, opera o Sitra Achra, o reino do mal.  


BAAL  UGARIT
O Leviatã nos vem da mitologia fenícia, onde tem o nome de Yam, e contra ele se levanta o deus Baal, o maior dos deuses depois de El, esta grande divindade solar. A luta entre Baal e Yam, divindades primordiais entre os fenícios, é uma representação do choque entre a terra e os oceanos, estes sempre ameaçando aquela de reabsorção. Esta mesma ideia nós a encontramos entre os mesopotâmicos na luta
travada entre Marduk e Tiamat, o mar tempestuoso,
MARDUK   E   TIAMAT
monstruoso, indomável, de onde os deuses haviam saído. Antes de se engajar na luta contra Tiamat, que não aceitava a submissão aos deuses que gerara, Marduk obteve de todos o poder supremo, inclusive o direito de fixar o destino dos deuses e do universo, reunindo assim em sua pessoa a plenitude do divino.  

Analogicamente, sabemos que o elemento líquido, os mares e oceanos especialmente, simbolizam a vida subconsciente, lugar de monstros, de forças rebeldes à razão e muito mais ao espírito, monstros que, como o Leviatã, podem engolir não só o Sol como a própria criação como um todo. Entrar no ventre dos monstros de que falamos significa uma reintegração, um retorno a estados pré-formais, embrionários, situação que lembra a Grande Noite Cósmica, o Caos antes da criação, passagem obrigatória de todo o
PARACELSO
processo iniciático, tema que Paracelso resumia ao dizer que se pretendemos efetivamente nos transformar temos que passar antes por um estado pastoso. A pasta, como se sabe, é um símbolo da matéria informe. Voltar à pasta significa sempre uma vontade de mudar, de ser uma outra coisa, pois ela é um ponto de partida para reorganização integral do antigo ser numa outra forma. Daí, o prazer que muitas crianças experimentam quando brincam com água e terra, pois estão aprendendo a lidar alquimicamente através destes dois elementos, essenciais à vida, com o seu processo de transformação.

THOMAS   HOBBES
O tema do Leviatã foi levado à filosofia por Thomas Hobbes, nos seus ensaios políticos, no séc. XVII. Com base na imagem do monstro bíblico, o filósofo procurou demonstrar as origens do despotismo na disposição natural do homem a ser um lobo para o próprio homem; no mundo natural, é a guerra de todos contra todos. Hobbes se opunha à tese da monarquia por direito divino e faz repousar, cinicamente como alguns acham, o absolutismo sobre um contrato pelo qual os indivíduos conferem todos os direitos a um só indivíduo, o soberano ou a um grupo. Imagem do absolutismo, do totalitarismo, o Estado-Leviatã, em nome da proteção que oferece, a todos engole indiscriminadamente, exigindo cega obediência.



A luta do homem contra o Leviatã tem uma de suas melhores ilustrações na história de Moby Dick ou A Baleia Branca, de Hermann Melville, poeta e romancista americano (1819-1891). A vida deste escritor, como a sua obra, é marcada pelo oceano. Engajando-se na equipe de um barco baleeiro, usou imagens desse mundo para escrever a sua obra-prima em 1851, na forma de uma história apocalíptica e obsessiva que narra a obstinada perseguição de uma baleia branca, enorme e ferocíssima, pelo capitão Ahab, habituado à “luta cósmica no mar”, já mutilado anteriormente pelo monstro. A história de Moby Dick, a encarnação do mal, de toda a “malignidade intangível” do mundo, deu vazão a temas que atormentavam o escritor à época de sua elaboração. 

HERMAN  MELVILLE
Melville experimentava à época grandes tensões não só em relação à sua sensibilidade,  mas, sobretudo, pela crise em que ele e outros escritores americanos estavam mergulhados, crise produzida pelas tensões estabelecidas no ocidente (nos USA especialmente) no século XIX, pelo conflito entre o chamado transcendentalismo e o empirismo, entre religião e ciência, entre fé e ceticismo. Melville, dramatizou piscianamente esse conflito, escrevendo uma das grandes obras-primas da literatura universal. 

O adversário de Ahab era a grande baleia branca, com a sua corcova e hieróglifos na testa, notável pelo furor com que se lançava sobre os homens que a alvejavam ou tentavam destruí-la. Ahab, um ímpio e enorme homem, que parecia um deus, se meteu numa viagem de desforra, seguindo os rastros do migratório Leviatã través do vasto oceano Pacífico, até onde ele e toda a sua tripulação foram destruídos, sendo poupado só o narrador Ismael, que nos contou a história. Para Ahab, todos os objetos visíveis não passavam de máscaras de papelão por trás das quais alguma coisa desconhecida, mas com raciocínio, impelia os moldes de suas feições. Para ele, a baleia branca era o emblema da força ignominiosa fortalecida por imperscrutável malícia e era essa coisa imperscrutável que ele odiava e sobre a qual voltava todo o seu ódio.


XOQUIQUETZAL
Em antigas tradições astecas, os peixes estavam relacionados tanto com a “porta do mistério”, o “país dos mortos”, como com o “mundo das mulheres”, o das divindades do amor como do mundo vegetal, do milho especialmente. A ideia em ambos os entendimentos se centrava na da fecundidade sob todas as formas, morte e renascimento de um lado e vida afetiva de outro, encontrando neste última, através da deusa Xoquiquetzal, as várias formas do amor possessivo ou oblativo, físico ou transcendental. 

Esta deusa, que lembra astrologicamente a exaltação de Vênus em Peixes, sempre foi relacionada pelos povos mesoamericanos com a água, com a vegetação, com o sacrifício. Sua festa marcava a chegada do inverno e a despedida das flores, cujos perfumes eram muito apreciados. Na festa que se celebrava em homenagem à deusa se enfatizava sempre o referido tema. Era atribuído à deusa o patronato das bordadeiras, das tecelãs e das talhadoras, estendendo ela também a sua ação ao mundo da fertilidade, da beleza, da sensualidade, sendo ela protetora da gravidez e das jovens mães, inclusive da prostituição.

Na antiga Síria era famosa a deusa Derceto, deusa com cauda de peixe. No mito, proveniente da Mesopotâmia, certamente, teria sido ela uma lindíssima jovem que se recusara a assumir a maternidade, com medo de gerar um ser monstruoso. Lançou-se, por isso, ao mar, desejosa de acabar com a sua vida. O deus Poseidon (o mito chegou à Grécia), irritado com a atitude da jovem, transformou-a num ser híbrido, metade mulher, metade peixe. Não será preciso grande esforço para se perceber que Derceto é uma ilustração do signo de Peixes na medida em que o episódio nos lembra a grande
SOLUTIO
dificuldade que os nativos do signo sempre têm para se adaptar à vida, à realidade da existência. Derceto não é ser humano, terrestre, nem um animal tipicamente marinho. Derceto se entrega assim à regressão, no caso, uma representação da solutio alquímica. Como símbolo da recusa da carne, Derceto testemunha a dificuldade que têm os do signo de assumir uma forma. Por isso, foi condenada até o final dos tempos a “viver” entre dois estados.

Derceto fracassou como ser humano, isto é, como mulher. Como se disse, atirou-se ao mar, sendo transformada por Poseidon numa espécie de sereia inacabada. Segundo outras versões, foi engolida por um monstro marinho e devolvida ao elemento na forma híbrida descrita, tornando-se um ser indefinível, indeterminado. De que tinha medo Derceto? De assumir sua condição de mulher, sua versão carnal. A fuga, a recusa, o escapismo e a evasão, lembremos, são temas constantes no comportamento pisciano.


SEREIA
O mito de Derceto se liga ao da sereia, símbolo da incapacidade do ser humano de conquistar uma forma. No lugar de uma realização, de uma ação possível, ao contrário o convite à aniquilação, à tentação da entrega e do abandono, o mergulho na vida inconsciente, um sonho ao mesmo tempo terrível e fascinante. Toda sereia é bela como Derceto, de longa cabeleira dourada, sedutora, seu canto inebria, dissolve a consistência, neutraliza a função consciente. O canto da Sereia enfeitiça aquele que o ouve, conduzindo-o à perdição, ao relaxamento, apagando as fronteiras. A palavra sereia vem de seirazen, verbo grego que significa “prender com uma corda”, subjugar, atrelar.


PROCLUS  (R.ORLANDINI)
O filósofo grego neoplatônico Proclus (séc. V dC) resumiu os diferentes aspectos das sereias, no mito grego filhas do deus-rio Aqueloo e de Melpômene (a que canta e dança, musa da tragédia), dividindo-as em três classes: a) as celestes, que têm Zeus como patrono; b) as tentadoras, cujo patrono é Poseidon; e c) as purificadoras, sob a tutela de Hades. Eram chamadas as sereias entre os gregos de “mães do mar”. Com os primeiros cristãos e ao longo da Idade Média, a ideia de que a sereia é um ser sedutor e depravado se fixa; torna-se ela a imagem da voluptuosidade, da tentação carnal e da luxúria. Foi preciso esperar o Renascimento para que as sereias retomassem um pouco de seu status de cantoras divinas e instrumentistas excepcionais, duplos das musas no elemento aquático.


ULISSES  E  AS  SEREIAS ( HERBERT DRAPER , 1863 - 1920 )

Na maioria dos registros da mitologia grega, as sereias se ligam também às artes por filiação e, em algumas imagens, aparecem com instrumentos musicais, atribuídos também à poesia. Ha versões em que as sereias aparecem ligadas às esfinges, das quais a mais famosa é a que aparece no mito de Édipo, também conhecida como a “cruel cantora”, porque propunha em versos um enigma. Além dessa relação com a poesia e a música, sereias e esfinges tinham ainda em comum o fato de serem ávidas de sangue e de prazer erótico.


CIRCE 
Na Odisseia, as sereias são anunciadas por Circe, que orienta Ulisses sobre a maneira de ouvir-lhes o canto sem a elas sucumbir. Meio ave, meio mulher, a partir da Idade Média, meio peixe, meio mulher, a sereia é uma entidade que porta os estereótipos da sedução feminina. Embora essa figura que atrai e conduz as suas vítimas para o “fundo das águas” (subconsciente) esteja presente em várias culturas, muito raramente a ela se atribui identidade masculina, como é o caso do boto brasileiro. 

BOTO
O boto brasileiro é o golfinho do Amazonas. Ele faz parte da  galeria dos  seres míticos sedutores e raptores ligados às águas, que encontramos em várias culturas, contos, lendas, folclore etc. Os botos da Amazônia seduzem as moças ribeirinhas e são, na região, os pais de todos os filhos de paternidade desconhecida. Nas primeiras horas da noite, o boto se transforma num bonito rapaz, alto, forte, amante das festas; jamais tira o chapéu para não revelar a sua origem (o orifício que tem no alto da testa por onde respira);sedutor, bem falante, frequenta bailes, conversa, namora, arruma encontros amorosos em becos escuros e antes dos primeiros clarões do dia, lá pelo fim da madrugada, pula nas águas e volta a ser boto.



Entre as sereias registradas pela cultura europeia, Jorge Luis Borges (El Libro de los Seres Imaginarios) lembra Murgen, capturada em Gales, no século VI, que foi batizada e santificada, e outra que, em 1403, passou pelo dique em Haarlen e, segundo um cronista do século XVI, não era peixe porque fiava, nem mulher, porque podia viver na água. Borges ainda chama a atenção para a diferença registrada no idioma inglês entre as sereias clássicas, siren, e as mermaids, que aparecem com cauda de peixe.

MURGEN , PINTURA EM PAREDE
Há inúmeros depoimentos de marinheiros sobre as sereias, registros que a tradição conservou. Uma das histórias mais estranhas do cristianismo, como acima citei, é a de Murgen, a sereia, reverenciada como santa na Irlanda, embora não reconhecida oficialmente como tal pela igreja católica. Ao que parece, o nome Murgen seria uma corruptela de mer woman. A lenda nos fala de uma menina que, brincando perto do mar com o seu cachorro, foi arrastada pelas ondas para uma caverna. Pediu aos deuses que a salvassem. Foi atendida, sendo transformada da cintura para baixo num peixe, enquanto seu animal de estimação virava uma lontra.  
                                 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

AQUÁRIO (5)


CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO
     
Uma das figuras mitológicas mais ligada aos impulsos aquarianos de desafio, de rebeldia, de fraternidade, de vida comunitária é a do titã Prometeu, filho de Jápeto (lançar, arremessar) e de Clímene (a que atende, a que ouve com simpatia), oceânida, sendo ele neto, pelo lado paterno, de Geia e de Urano. É Prometeu (o que sabe antes, por antecipação), sem dúvida, entretanto, um dos personagens mais ambíguos, contraditórios e paradoxais da mitologia grega. Num momento, coloca-se em guerra aberta contra Zeus, a autoridade suprema, noutro procura se compor com ele em nome de um utópico projeto político, o da salvação da humanidade. 

O nome Prometeu, lembro, admite uma outra etimologia em grego; ele é o hábil, o que sabe fazer e se conduzir, como, aliás um dos componentes de seu nome sugere. Com efeito, o nome Prometeu
MÉTIS , CERÂMICA GREGA
admite dentro dele a palavra metis, conceito que os gregos divinizaram ao criar uma deusa, Métis, tornando-a dona do arquétipo, desse padrão de comportamento. Na palavra grega metis reúnem-se ideias de habilidade, esperteza, sutileza, juízo previsor, pensamento precavido, qualidades e virtudes que nosso herói possuía, sem dúvida, mas que, por razões “inexplicáveis”, como um bom exemplo da incongruência aquariana que era, as ignorava muitas vezes, como se não as possuísse. 

Prometeu era recriminado pelo fato de nunca se ter definido claramente por um lado na guerra entre titãs e olímpicos, ora parecendo alinhar-se com os primeiros, ora com os outros. Sua independência de espírito, seu constante esforço no sentido de buscar a objetividade, seu apego à ideia de liberdade parecem ser os responsáveis por sua espantosa “versatilidade”, por suas flutuações e vacilações, tão típicas de pessoas do elemento ar.

MOSAICO   ROMANO,
( TRÉVERIS , ALEMANHA )
Para o fim a que me proponho, aproximar o mito da astrologia, acredito ser útil ouvir duas figuras da literatura grega que sobre ele falaram, Hesíodo e Ésquilo. Para o primeiro, o titã era um amigo dos homens (Filantropíssimo, o seu apelido), um salvador, pois Zeus sempre desejara destruir a raça humana, criada durante a dinastia de seu pai, Cronos. Uma raça indigna, na qual não se podia confiar, constituída por seres ignorantes, boçais, “seres rastejantes”, como dizia Zeus, que viviam pregados ao solo, comendo poeira, alimentando-se de coisas putrescíveis. Essa destruição veio, primeiro, por uma proibição: os humanos não mais poderiam usar o fogo, elemento que controlavam muito precariamente. Com a perda do elemento ígneo, regrediriam eles à vida animal, passando certamente a viver refugiados no fundo das cavernas ou empoleirados no alto das árvores, prisioneiros dos seus terrores noturnos. 


PROMETEU ROUBA O FOGO
(JAN COSSIERS , 1600-1671)
Prometeu, como se sabe, interveio, assumindo as dores e sofrimentos do triste destino a que Zeus queria impor aos humanos. Roubou um pouco do fogo solar do deus Hélio, trazendo-o dos céus para a Terra, escondido no galho oco de uma figueira, a árvore do fogo. Por esse crime, o titã, depois de muitas discussões, será punido pelo senhor do Olimpo. Agrilhoado nas montanhas do Cáucaso, seu fígado era destruído durante o dia pelas bicadas de um monstruoso abutre enviado por Zeus, recompondo-se o órgão durante a noite e assim sucessivamente. Depois de muito tempo, séculos e séculos, será Prometeu enfim libertado por Hércules e se reconciliará com os olímpicos. 

Zeus, como o mito nos dá conta, acabará permitindo que os humanos passem a usar o fogo. Pune-os, contudo, através de
PANDORA  E  EPIMETEU
Pandora, a dotada por todos os deuses, arquétipo mítico da mulher, que Zeus faz descer dos céus à terra, trazida por Hermes, para provocar a divisão entre os sexos, divisão até então inexistente. Ao descer, Pandora trazia nas mãos uma jarra, na qual os deuses haviam encerrado todos os males que doravante infernizariam a vida dos humanos. Quando Pandora chegou, Prometeu estava ausente. Quem a recebeu foi seu irmão Epimeteu (o que sabe sempre depois). Encantado e seduzido por Pandora, antecipando o que Eva faria com Adão como está no texto bíblico, ambos, de comum acordo, destamparam a jarra, liberando todos os males que desde então infelicitam o gênero humano, males representados pelas divindades que viviam na antecâmara do Hades, no Bosque de Perséfone. Assolam a Terra e a humanidade, assim, desde esse fatídico dia, monstros como Algos (Dor), Geras (Velhice), Eris (Discórdia), Ftonos (Inveja), Limós (Fome), Ate (Erro), Lyssa (Fúria), Penia (Pobreza), Penthe (Luto), Apate (Fraude), Strophe (Chicana) e outros mais. 


ELPIS
Com os malefícios acima citados, veio também na jarra de Pandora uma entidade que, à primeira vista, muito benéfica, contrariamente às demais, revelou-se logo, em bem pouco tempo, como talvez a mais deletéria de todas. Refiro-me a Elpis (Esperança), espectro terrível, revestido de uma falsa aura benfeitora, que trouxe um dos grandes males que afligiriam a humanidade desde então. O mito nos conta que Epimeteu e Pandora, ao perceber que as entidades infernais escapavam da jarra aberta afoitamente, conseguiram fechá-la, retendo apenas uma, a chamada Elpis. Ao conservá-la como um “valor positivo”, os humanos, como logo se viu, “perderam” o presente, isto é, deixaram de vivê-lo, para se projetar em direção do futuro, expectantes e frustrados sempre, como a experiência e a história da humanidade sempre demonstraram. Uma das consequências mais danosas decorrente da conservação de Elpis foi a perda da dimensão física do presente por grande parte da humanidade, que passou a viver tão somente em termos de projeções mentais, construindo mapas de territórios inexistentes. Elaborações puramente mentais, sendo um de seus melhores exemplos o tema filosófico da utopia, palavra que, etimologicamente, significa não estar em lugar nenhum.


Como se sabe, Utopia foi o nome dado pelo inglês Thomas Morus  ao país imaginário que ele descreve numa obra de mesmo titulo, um país no qual vivia um povo perfeitamente sábio, poderoso e feliz, graças às suas instituições ideais. O tema, como se constata, tem forte acento aquariano, como aliás as têm produções semelhantes da literatura filosófica produzida ao longo dos anos, obras como Pantagruel e Gargantua, de  François Rabelais (1483-1553); La Città del Sole,  de Tommaso Campanella (1568-1639); La Salente, descrita em Télémaque 1651-1715), de Fénélon; Le Voyage en Icarie, de Étienne Cabet (1788-1856). Ainda dentro deste enfoque pode ser consultada, sempre com grande interesse e prazer, a obra Guide de Nulle Part & D´Ailleurs à l´usage du voyageur intrépide en maints lieux imaginaires de la littérature universelle, de autoria de Gianni Guadalupi e de Alberto Manguel, já traduzida para o português (de modo não completo).

Uma das versões do mito de Prometeu nos relata que inicialmente alinhado com os titãs ele foi por eles desprezado devido às suas atitudes simpáticas para com os humanos, criaturas criadas no reino de Cronos. Bandeando-se para o lado dos olímpicos, não demorou muito para mudar de lado novamente, assumindo a posição de grande protetor dos humanos diante das intenções de Zeus, que queria destruí-los. Uma incoerência, sem dúvida, um traço comum na personalidade de muitos aquarianos, como já disse, que não conseguem harmonizar as suas motivações afetivas com os seus mecanismos mentais. Esta a razão talvez pela qual muitos aquarianos estão "tão presentes quando tão ausentes e tão ausentes quando muito presentes".


PROMETEU ACORRENTADO   ( P.P. RUBENS, 1577 - 1640 )


HEFESTO
(G. COUSTOU, 1677-1746)
A prisão de Prometeu aos rochedos, determinada por Zeus, por Hefesto, Crato e Bia, a sua imobilização, constitui um castigo exemplar para qualquer aquariano. Com efeito, mesmo nos tipos menos conscientes do signo qualquer ameaça de cerceamento, de impedimento na liberdade de ir a e vir, qualquer limitação física ou mental, qualquer ideia de contenção pode se constituir numa tortura insuportável.

Ao trazer o fogo de natureza divina dos céus para terra a fim de entregá-lo aos humanos, Prometeu, diz-nos uma versão, estava tentando fazer com que eles recuperassem um dom que haviam recebido quando criados, no reino de Cronos, o do conhecimento do futuro. Tal privilégio havia sido revogado por Zeus, que, como vimos, queria exterminá-los. Uma hipótese para a tendência que muitos aquarianos apresentam, a de “querer” conhecer o futuro, a de desejar antecipá-lo, talvez, quem sabe, possa ser explicada por esse episódio.


HÉRCULES  E  PROMETEU
O mito do titã Prometeu nos conta ademais que ele possuía um segredo. Ele sabia que um filho que Tétis, a mais bela de todas as nereidas, tivesse com Zeus ou Poseidon, que a cortejavam, destruiria o pai. Para uns, a libertação de Prometeu foi negociada, quando o titã se prontificou a revelar tal segredo. Uma outra versão registra que a libertação de Prometeu ocorreu por intervenção de Hércules, quando matou o abutre que o agredia, ao retornar de uma viagem ao oriente quando do seu terceiro trabalho. 


GILGAMÉS  E  ENKIDU
Uma terceira versão nos permite aproximar a história de Prometeu da epopeia de Gilgamés. Conta-se nesta versão que inicialmente não havia o sexo feminino. Os humanos, todos machos, se viravam sexualmente entre si ou, como o fazia Enkidu, no mito mesopotâmico, com gazelas e cabras. Devido à petulância de Prometeu, os deuses resolveram punir os humanos, criando Pandora, irresistivelmente bela, mas curiosa, cheia de defeitos, tipicamente femininos segundos os deuses, um ser fatal para os protegidos de Prometeu. Com isso, instalou-se a divisão, machos e fêmeas, homens e mulheres separados para sempre, aqueles eternamente em busca de uma integração perdida através destas últimas, complementares, mas vivendo como opostos.

Foi Epimeteu, que não tinha o dom da profecia, como o irmão, aquele que recebeu a mulher, acolhendo-a, embora advertido para não aceitar nenhum presente dos deuses. Ele e Pandora,  como vimos, retiveram Elpis no fundo da jarra, tão imprudentemente aberta por eles. Muitos poetas, voltando-se em particular para este acontecimento, vêem Elpis como um bem infinitamente precioso. Graças a ele, apesar de tudo, de todas os sofrimentos, desgraças e misérias a que continuamente são submetidos, os humanos jamais perderam o gosto de viver. É neste sentido que Elpis faz parte da história da humanidade já que são os aquarianos os encarregados de nos fazer acreditar em dias melhores, em invenções científicas estimulantes e utopias maravilhosas. 

Epimeteu, o que sabe depois, o seduzido, assumirá a grandiosa tarefa de pôr em andamento os sonhos aquarianos, gerando, com Pandora, Pirra, a vermelha, que se unirá a Deucalião, seu primo, filho de Prometeu e de Clímene, oceânida. Deucalião será o grande ancestral dos helenos. Juntos eles salvarão a humanidade quando do dilúvio enviado por Zeus. Achando-os dignos, Zeus os preservará. Salvar-se-ão numa arca, na qual guardaram seus bens e animais. Terminada a tormenta, ancorada a arca no topo do monte Parnaso, ambos participarão da criação de novos seres humanos. 

DEUCALIÃO   E   PIRRA  ( VIRGIL SOLIS , 1514 - 1562 )

Receberam Pirra e Deucalião ordens de lançar às suas costas as pedras que encontrassem; as atiradas por Deucalião transformaram-se em homens e as atiradas por Pirra em mulheres. Os descendentes de Prometeu vêm perpetuando, apesar de tudo, a estranha vontade e para muitos a incompreensível determinação de, a todo custo, com enormes sacrifícios, preservar a humanidade das malévolas intenções divinas. 

Serão os filhos diretos de Prometeu, os aquarianos superiores, aqueles que conduzirão a humanidade para uma nova era, onde ideias tão retrógradas e incômodas como as de divindade, diabo, seres superiores, pecado e culpa etc. serão abandonadas. A humanidade, iluminada pelas propostas aquarianas, compreenderá enfim que aquilo que vem realmente em seu auxílio são as qualidades com as quais cada um de seus membros pode e deve contar. Os homens deixarão assim de representar as suas qualidades superiores por divindades, que idealizam, afastando de sua vida tanto tormento, tanta angústia, tanta impotência, tanta inibição... 

Por isso, encaminhando-se o Sol para o seu exílio na futura era de Aquário, a sua viagem noturna de 2160 anos, os deuses serão letra morta no ideário religioso da humanidade futura bem como toda a simbologia construída a partir dele. Na sequência das idades da mitologia grega (cosmogonia, esquizogenia, autogenia) chegaremos à quarta, aquela em que o homem assumirá o controle do universo. Encerrado no sistema solar há milhões de anos, o homem   já o vasculha em várias direções, preparando-se, como vem dando provas, para desbravar a galáxia, da qual o nosso sistema solar é uma ínfima parte. Depois de Urano (Céu) Cronos (Terra) e Zeus (Espírito), o Homem assumirá o comando da quarta idade, a da Autogamia. Circunscrito à botânica, este nome ganhará uma leitura nova na era que se aproxima. Seu significado se ampliará, do vegetal ao animal (humano). Através da homogamia, a maturação simultânea do androceu e do gineceu de uma mesma flor, chega-se à autogamia (autopolinização) embora não se exclua a alogamia. Transpostas estas ideias para o mundo humano, resolver-se-ão inclusive algumas contradições e confusões homo e heterossexuais presentes nestes séculos finais da era de Peixes.



AUSONIUS
É de se lembrar que os romanos e gauleses (o poeta Ausonius, séc.IV dC e Vercingetorix, inimigo de Júlio Cesar, chefe dos gauleses) registram a constelação. O primeiro lhe deu o nome de Amphora. O outro mandou cunhar moedas onde ela aparecia com o nome de Diota, uma jarra com duas alças. Em muitos zodíacos romanos, a constelação tem o nome de Pavo, ave consagrada à deusa Juno,  Junonis Astrum, nome latino o do pavão. Os romanos adotaram também uma antiga denominação da constelação entre os gregos, transliterando-a como Hydrochous.


MAHA  KUMBA - MELA

Entre os hindus, Aquário é Kumbha. A cada três anos, realiza-se na Índia uma imensa assembleia (kumbha-mela) no mês de janeiro, dela participando milhares de sannyasins pertencentes a todas as ordens religiosas e vindos de várias regiões do país. Alternativamente, a assembleia se realiza em Hardwar, Allahabad, Nasik e Ujjain. A ideia é a de reunir, congraçar, participar de uma grande festa na qual as energias superiores são distribuídas.
SANGAM
Khumba significa pote, e mela, festival. Cada ciclo de doze anos é encerrado por um grande festival (
Maha Kumbha-Mela), onde milhões de devotos se reúnem para se banhar no Sangam, nome do local do encontro de três rios sagrados, o Ganges, o Yamuna e o Saraswati, para se purificar, participando assim daquele que é considerado o maior festival religioso do mundo. Em 2007, ocorreu em Allahabad o chamado Ardh Kumbha-Mela, que fechou um ciclo de doze festivais (144 anos), evento que reuniu cerca de 70 milhões de pessoas. 

O Kumbha-Mela é uma cerimônia que tem por base uma passagem da mitologia hinduísta, a luta entre deuses e demônios pelo pote que contém o néctar da imortalidade, chamado amrita (não-morto). Diz o mito que durante a disputa quatro gotas caíram dos céus nas quatro cidades acima referidas. O amrita foi produzido pelos deuses e pelos demônios quando da agitação dos oceanos, nos momentos iniciais da criação do universo. Lutando pela posse do néctar maravilhoso, os deuses conseguiram a duras penas vencer os demônios. A cada três anos, esse acontecimento é celebrado no grande festival do signo de Aquário. 

Entre os judeus, Aquário é Shevat, o décimo primeiro mês do calendário hebraico, governado por Saturno. Em hebraico, Aquário é Dli, palavra que quer dizer jarra, balde, recipiente para líquidos, sendo o signo representado por um aguadeiro, uma figura humana que transporta água. A água na perspectiva astrológica judaica é símbolo da misericórdia e da purificação, razão pela qual as energias de Shevat devem ser esparramadas, distribuídas indiscriminadamente, beneficiando a todos. 

Embora uma respeitável tradição afirme que o signo de Israel é Capricórnio, outra, também muito relevante, estabelece que é Shevat. Ambas acabam se reconciliando, porém, na medida em que o período solar de Tevet (Capricórnio) se estende por Shevat, correspondendo ambos os signos aos dois órgãos da visão. Mais ainda: no Livro da Criação (Sefer Yetsirá), obra mística do início da tradição, que alguns atribuem a Abraão, nos seus capítulos iniciais, afirma-se que o estômago também se relaciona com Shevat porque este signo traz a ideia de retificação do ato de comer. Esta retificação fala que devemos buscar com os olhos o melhor para que a nossa “digestão” mental não sofra, para que não a prejudiquemos. Esta preocupação encontra apoio nas letras que se

associam ao mês. Primeiro Bet, que criou Saturno, e depois Tzadi, que criou o próprio signo, que tem o significado de justiça, de equilíbrio. É no mês de Shevat que temos a oportunidade de nos redimir pela revelação da verdade e da luz, sendo por isso Shevat considerado com o mês da redenção. O Livro da Formação e o Zohar, lembremos,são considerados como a base do conhecimento cabalístico. 

A justificativa para se considerar Shevat como o signo de Israel está no fato de o conteúdo da jarra ser a água, que é símbolo da Torá, como está escrito em Isaías. A Torá significa ensinamento e é um dos conceitos fundamentais do judaísmo, compreendendo tanto o Pentateuco (Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) como a Bíblia hebraica e, num sentido mais amplo, toda a tradição judaica. A proposta que está em Shevat é a de se ver a criação através do serviço divino através da Torá. 

Ainda que Saturno governe Capricórnio e Aquário, a astrologia judaica entende que os dois signos devem ser considerados a partir de um Saturno que se volta para o Sol, isto é, para o interior do sistema solar, e de outro Saturno, que “olha” para o infinito do espaço sideral. Enquanto o primeiro diz respeito a Capricórnio, significando o limite físico das construções e dos sistemas, o outro aponta para a superação destes limites, inclusive para a sua destruição.


MOISÉS ( MICHELANGELO, 1475-1564 )

Uma das principais figuras do judaísmo, Moisés, “o salvo das águas”, personagem principal do Êxodo, associa-se a Shevat na medida em que a Torá é chamada também de lei mosaica. Moisés é, assim, aquele que presta serviços, como um aguadeiro através da distribuição das águas da Torá. Shevat é um mês de bênçãos abundantes, o que tem a ver com a tribo que o representa, a tribo de Asher (felicidade, em hebreu), filho de Jacó e de uma empregada de sua esposa, Léa, que se instalou no norte do país de Canaã. Com base no Gênese (cap. 49, v.20), o óleo é um usado como um símbolo da Torá porque assim como ele se separa de outros líquidos e mantém a sua pureza, assim acontece com a sabedoria da Torá. Por isso, água e óleo são usados como símbolos da sabedoria da lei mosaica. O óleo (shemen) é um equivalente da tradição oral da Torá que começou com Moisés, tradição chamada de Mishná, que contém letras de shemen


MOISÉS  RECEBE  AS  TÁBUAS  DA  LEI
(MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )
O elemento de Shevat é o ar, elemento da tradição oral, essencial para a manutenção do corpo físico, já que é com ele fazemos trocas com o meio exterior. Os demais signos relacionados com o ar, Sivan e Tishrei, Gêmeos e Libra, tem a ver, respectivamente, com a entrega da Torá no monte Sinai e o segundo com as tábuas da lei, dos dez mandamentos. A tarefa do povo judaico é a de dar de beber os ensinamentos da Torá ao resto do mundo. 

O planeta que tem relação com Shevat é Saturno (Shabtai), que rege também Capricórnio, indicando ele a necessidade de se buscar a contemplação e o aprofundamento das virtudes do coração. Os que nascem sob a influência de Shevat costumam revelar uma tendência para a originalidade, possuindo também uma mente curiosa, inquisitiva. O pensamento original do signo é indicado pelas letras da palavra Dli, que contém as mesmas que significam “dar nascimento”. Uma implicação etimológica liga o nome Shevat à palavra Shevatim, que lembra aflição, pois foi durante este mês que Deus começou a afligir os egípcios com as pragas, causadoras do início da sua decadência. 

Ainda no terreno das associações, os astrólogos judeus notaram que enquanto em Israel a celebração do Shabat (descanso, do anoitecer de sexta-feira à noite de sábado) se liga tanto ao nome de Saturno (Shabtai) como à Lua (shabater, é um verbo que indica o descanso da Lua, dia em que ela para de crescer, tendo a ver pois com o plenilúnio) em outras tradições o dia do repouso semanal foi deslocado para um outro dia, para o dia do Sol, o primeiro dia da semana. Segundo eles, a nação de Israel, que se situa acima da influência das constelações, sempre conservou a cerimônia no dia de Saturno, uma prova de sua profunda compreensão, pois nesse dia os judeus recebem uma alma extra e os fogos do inferno são arrefecidos. Diz a tradição que se todos os judeus pudessem guardar respeitosamente, completamente, o dia do Shabat, o Messias viria. Os antigos astrólogos místicos judaicos achavam que os aspectos feminino e masculino de Deus se unirão no Shabat, um dia de harmonia cósmica, quando as forças do reino do mal (Sitra Achra) perderão sua força. As ressonâncias dessas ideias no mundo aquariano são, como se vê, muito evidentes, se lembrarmos da androgenia natural do signo.

Segundo muitos cabalistas, a chamada era de Aquário, também conhecida como era da Revelação ou da Redenção, já começou. Isto se deve ao fato de já estar a humanidade, por influência de Shevat, procurando se unificar de algum modo, impulso básico para uma futura redenção. Esse impulso, no mundo todo, como sabemos, vem buscando a unificação através do que há de mais negativo em Aquário, a tecnologia. Ou seja, enquanto a tecnologia de Shevat une o mundo (aldeia global), as nações vêm contraditoriamente levantando barreiras de todo tipo, físicas, militares, econômicas, religiosas, que só reforçam as suas fronteiras, criando verdadeiros guetos, obstáculos à livre circulação das pessoas. 

Na tradição judaica, o ano-novo do reino vegetal é celebrado a 15 de Shevat. Isto pode ser entendido pelo fato de ser o mundo vegetal a única força do mundo físico capaz de vencer a força da gravidade, um dos mais poderosos anseios dos representantes do signo. Para controlar estes anseios de rompimento das limitações do mundo físico e de distribuição de energias das alturas para o todo, derramando-as sobre a humanidade, os astrólogos judaicos pedem que sejam levadas em consideração as energias do signo oposto, Leão (Av). Dois aspectos a salientar aqui: a) muitos aquarianos escondem fortes traços leoninos nos seus discursos e propostas humanitários. b) outros aquarianos se descuidam completamente do seu eu pessoal, desintegrando-o promiscuamente numa vida grupal. 

Os astrólogos judeus nos dizem que estas tendências negativas de um signo podem ser atenuadas ou mesmo revertidas se aplicado o conceito cabalístico do tikum, palavra que, em hebraico, quer dizer correção. Este conceito, no seu sentido mais abrangente, é o aplicado trabalho de correção que a alma pode fazer através de suas
CABEÇA E CAUDA DO DRAGÃO
encarnações. O tikum é representado no mapa pelo eixo dos nós lunares, descrevendo o nó sul, a chamada cauda do dragão, tudo aquilo que alguém traz de vidas passadas. Já o nó norte, a chamada cabeça do dragão, descreve o caminho corretivo a ser tomado segundo as energias do signo em que se encontre, desenvolvidas superiormente. Temos sempre que considerar ambos os nós para obter algum sucesso na encarnação em que nos encontramos. Esse eixo, na astrologia cabalística, é muito importante porque ele afeta todo o mapa astrológico. Se alguém, por exemplo, tem o tikum em Aquário, a proposta para esta pessoa será a de desenvolver as anergias superiores deste signo procurando conciliá-las, inclusive, com o que o Sol, a Lua ou o Ascendente representem no seu mapa, estejam onde estiverem.

A constelação de Aquário estende-se de 9º de Aquário a 26º de Peixes, sendo suas principais estrelas, em magnitude decrescente, Sadalmelek, no ombro direito do aguadeiro, Sadalsuud, no ombro esquerdo, Sadachbia, na jarra, Skat, na perna e Ancha no quadril. Ptolomeu afirmava que os ombros do aguadeiro tinham características saturninas e mercurianas.  


CONSTELAÇÃO  DE  AQUÁRIO
Sadalmelik (A Favorecida do Rei), alfa de Aquário, é uma estrela de 3ª magnitude, hoje em Peixes, a 3º04´. Sadalsuud (A Favorecida do Reino), beta, também de 3ª magnitude, está hoje nos 22º 42´ de Aquário. Ambas são consideradas como favoráveis, fertilizam como a água, não no sentido material (dinheiro, bens etc.), mas fazendo com que (principalmente se relacionadas com o Asc. Os luminares, Júpiter e Vênus) o bem-estar seja “vivido” muito mais interiormente. Esta “felicidade” interior, contudo, costuma ser traduzida muitas vezes por um otimismo ingênuo, por expectativas sem fundamento, mas que podem bastar para aquele que os experimenta. Mapas como os de Jules Verne, do Brasil e dos USA podem ser úteis para estudos sobre ambas as estrelas. Os astrólogos latinos davam o nome de Sidus Faustum Regis à primeira e Fortuna Fortunarum à segunda. Os nomes, respectivamente, têm origem árabe, Al Sad al Malik e Al Saad al Suud.