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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (1)


SAGITÁRIO  ( BOLONHA, SÉCULO XIII )
                                          
Nas antigas tradições astrológicas da Ásia, o signo de Sagitário sempre foi representado por uma flecha ou por uma flecha e um arco. Nomes que o designavam, nomes como Kaman (Pérsia), Yai (Turquia), Kertko /Caldeia), Al Kaus (Arábia), todos, têm relação com a flecha. Há registros de que no antigo Egito a constelação era representada por um cisne ou um íbis, embora o zodíaco de Denderah nos mostre um arqueiro bifronte, uma parte humana e outra leonina. Na Mesopotâmia, a constelação era representada também por uma figura híbrida, um ser muito especial, parecido com um sátiro grego.  Inscrições cuneiformes designam a constelação por nomes como O Forte e O Gigante Rei da Guerra, personificando o arqueiro deus da guerra, Nergal, depois deus dos infernos, confundido às vezes com o planeta Marte. 

Os hindus, há mais de 3.000 anos aC, já representavam Sagitário por um cavalo, por uma cabeça de cavalo ou por um cavaleiro. O nome sânscrito desta constelação que se fixou para nós foi

entretanto o de Dhanus (arco). Na tradição dos Upanishads, o signo de Dhanus propõe a identificação com a flecha, representando o conhecimento que liberta do karma e do ciclo dos renascimentos. No antigo mundo védico, a sílaba sagrada AUM (OM) era o arco, atma, a alma, a flecha, sendo o Brahman, o Todo, o alvo, tudo isto sugerindo a saída da multiplicidade e do samsara pela volta à unidade. 

Nos tempos védicos, os astrólogos davam o nome de Brihaspati a uma dividade que tutelava o planeta Guru, Júpiter na astrologia ocidental, regente de Dhanus. Com o tempo, essa distinção acabou desaparecendo, sendo Brihaspati, denominado como “pai dos deuses” ou “preceptor dos deuses” citado astrologicamente como o próprio regente do signo. Brh é um prefixo sânscrito que significa grande, traduzindo ideias de desenvolvimento, crescimento, expansão. Pati significa senhor. Brihaspati é, assim, aquele que governa porque é grande, porque tem poder  e porque se expande. 

BRIHASPATI
Brihaspati, entre os hindus age como a inteligência e a palavra dos deuses, sendo identificado como a divindade que permite ao ser humano ter acesso a um nível de conhecimento que lhe possibilita ultrapassar o que o mental comum, inconstante e instável, lhe fornece através de budha (o planeta Mercúrio) e das condicionantes impregnações lunares (manas). É o conhecimento proporcionado por Brihaspati (Júpiter), como buddhi, que põe o hindu não só em contacto com o testemunho de grandes sábios do passado como lhe possibilita o acesso a um tipo de conhecimento superior, libertador, estabelecendo uma ligação com o Brahman.

Ao se identificar com a flecha, conforme proposta do nono signo astrológico, Dhanus, o homem adquire o conhecimento que o liberta do ciclo dos renascimentos (samsara), transformando o que nele há de animal e racional em espiritual, liquidando-se, assim, os seus débitos kármicos.  A filosofia vedantina, como sabemos, distingue quatro tipos de karma. O primeiro é o sanchita-karma, a totalidade das sementes (efeitos) acumuladas, provenientes de encarnações anteriores, que ainda não começaram a germinar, encontrado na quarta casa astrológica. 

O segundo é o prarabdha-karma, a parte do anterior que numa encarnação será vivida, colhida, constituindo a nossa presente biografia; são os efeitos que repercutem numa encarnação presente, que estão no Meio do Céu. O terceiro é o kriyamana-karma, a nossa capacidade de discernir quanto às ações do presente que poderão continuar abastecendo o sanchita-karma e que, como tal, deverão ser evitadas; este conhecimento é encontrado (ou não) na nona casa. Finalmente, o agama-karma, a nossa capacidade de prever o resultado futuro de nossas ações, realizemo-las ou não; confunde-se com o nosso livre-arbítrio. Chama-se upaya (método) o conjunto de recursos encontrados (ou não) na nona casa que podem ser usados para nos ajudar a trabalhar com o kriyamana-karma e o  agama-karma. Para os antigos astrólogos hindus, o prarabdha-karma, o kriyamana-karma e o agami-karma, na vida de alguém, seriam explicados por Jyotish. As mudanças e as transformações que alguém desejasse realizar em sua vida só ocorreriam através do conhecimento que ele tivesse do seu kriyamana-karma e do seu agama-karma, isto é, do que astrologicamente significam o signo de Sagitário (Dhanus), a sua nona casa. 


JYOTISH

Além disso, a transformação desejada só se viabilizaria se conhecido como o seu prarabdha-karma (a sua décima casa), no qual está o karma a ser colhido numa presente encarnação, estaria afetando a sua vida em função da  qualidade, da intensidade e das características que apresenta, segundo os seus níveis: 1) karma não-fixo (adridha); 2) karma fixo/não fixo (dridha-adridha); 3) karma fixo (dridha). No primeiro caso, temos o karma que pode ser removido sem grandes problemas, com algum esforço, porém. Um karma leve. No segundo caso, temos o caso de débitos kármicos, de intensidade média, só removidos com muito esforço. No terceiro caso, temos os débitos kármicos muito pesados, severos, que exigirão  esforços constantes por uma vida inteira, jamais removíveis. 

Dhanus encerrava na astrologia védica o terceiro quadrante zodiacal, conhecido pelo nome de Dharma, antecedido pelo segundo e pelo primeiro, designados respectivamente pelos nomes de Kama e de Artha. O quarto quadrante zodiacal tinha o nome de Moksha. Os nomes destes quadrantes designavam as quatro etapas pelas quais todo o hindu deveria passar, quatro metas de vida, sendo a primeira uma preparação para a segunda e assim por diante.



A primeira meta, Artha, tinha a ver com ideias de afirmação e de conquistas materiais. Nessa primeira meta prevalece matsya nyaya, a lei do peixe, da qual se diz que peixes grandes comem peixes pequenos. Grande parte da humanidade vive segundo esta lei, explicada na filosofia ocidental por pensadores como Machiavel, Hobbes e por correntes filosóficas que defendem o pragmatismo e o utilitarismo. Na segunda
THOMAS  HOBBES , 1588 - 1679
meta, temos Kama,  na qual também grande parte da humanidade está fixada: a vida como busca do prazer. Kama é o nome de uma divindade muito parecida com o Eros grego. Kama, com seu arco, dispara flechas que provocam os desejos humanos. Possui cinco flechas, uma para cada um dos sentidos humanos. É Kama a própria encarnação do desejo. 

Na terceira meta, temos Dharma, conceito que lembra ao mesmo tempo responsabilidade, dever e obrigação. É o quadrante da vida social e, neste sentido, se opõe ao primeiro, o da individualidade. Com Dharma, entramos na vida social, que pede uma noção clara dos direitos e dos deveres dos seres humanos. Este quadrante, astrologicamente, é encerrado por Dhanus, signo que nos fala de conhecimentos superiores que nos levam a uma vida espiritual, transindividual e transsocial, que nos põe em relação com a humanidade como um todo. Com as influências de Dhanus, vividas superiormente, deixamos de agir só em função da nossa individualidade e/ou da nossa vida social. 

Para Jyotish, se Dhanus é o signo do conhecimento, o da sabedoria será o de Peixes (Meena), o da doação, onde o conhecimento que leva ao Brahman será passado aos outros, compartilhado, sem nenhuma ideia de reciprocidade. Doar simplesmente com o objetivo de que a vida do Todo, a humanidade e o mundo natural melhorem. É por isso que o signo de Meena, Peixes, fechava o quarto quadrante na astrologia védica, dando-se o nome de Moksha à última etapa da vida no Hinduísmo. Moksha é palavra que etimologicamente nos remete a ideias de desatar, abrir mão, largar, emancipar, terminar. Moksha é conceito que afasta por isso a noção de ego. É em moksha que se vive plenamente uma das máximas hinduístas, a do desapego do resultado das ações praticadas. É através de Moksha que o homem, o chamado liberto em vida, como parte do Todo, do Brahman, pode se projetar além de si mesmo, em direção do mundo natural e dos outros outros homens.


CORRESPONDÊNCIAS   ZODIACAIS

A esta caminhada em direção do Brahman, que na astrologia é orientada a partir de Dhanus, tanto o Hinduísmo como o Budismo dão o nome nirvana marga. Nirvana é palavra que etimologicamente tem relação com um verbo (nirva) que  significa acalmar, extinguir diminuir, atenuar, apagar, mas que, muitas vezes, pode tomar o sentido de ir-se, de atravessar. Todo este campo semântico diz respeito obviamente ao controle do ego, dos seus desejos, dos seus apegos, da sua ignorância. O nirvana é um estado a ser conquistado, um modo de ser que deve ser confirmado pela própria vida daquele que o busca. A via para esse fim é a que tanto a astrologia como as doutrinas filosófico-religiosas chamam de gnana marga ou jñana marga, o caminho do conhecimento.


MESOPOTÂMIA
Ao que parece, dentre os povos da Mesopotâmia, foram os babilônicos os primeiros a estabelecer a ligação entre determinadas constelações com os meses do ano. Sabe-se que por volta do ano 1.000 aC eles já tinham definido  o círculo zodiacal com dezoito constelações, reduzidas depois para doze. Esta redução possibilitou que não só a noção da eclíptica (via solis) se estabelecesse como também a fixação dos eixos equinociais e solsticiais. Foi a partir das definições acima que a eclíptica foi dividade em doze partes iguais, dando-se a elas, como signos, os seus respectivos nomes (traduzidos): O Mercenário (Áries), O Touro e As Estrelas (Touro com as Plêiades), Os Grandes Gêmeos (Gêmeos), O Caranguejo (Câncer), O Leão (Leão), A Balança (Libra), A Espiga (Virgem), O Escorpião (Escorpião), Pabilsag (Sagitário), A Cabra-Peixe (Capricórnio), O Grande (Aquário) e As Caudas (Peixes). Pabilsag (Sagitário) era uma divindade conhecida desde a mais remota antiguidade mesopotâmica. Era filho de Enlil (Grande Montanha), sendo sua esposa a deusa Ninisina, padroeira de Isin, divindade ligada às doenças e às curas. 

Embora os sumérios tinham iniciado na Mesopotâmia a leitura do céu, pelo reconhecimento de algumas constelações e de planetas, foram os babilônicos, mais tarde, por volta de 2.000 aC que deram a esta leitura um sentido diferente, utilizando-a para fazer previsões
ENUMA   ANU   ENLIL
(presságios) quanto aos seres humanos, geralmente pessoas de elevado status, e quanto a acontecimentos relacionados com a vida do país, conflitos, guerras, epidemias, catástrofes. Ficaram famosas as  tabuletas em argila cozida de uma série intitulada Enuma Anu Enlil que registram, desde o período assírio até o babilônico, a posição aparente dos planetas, principalmente Marte e Vênus. O primeiro representa Nergal, deus da guerra, do inferno e da pestilência, e o segundo, associado a Ishtar, relacionado com o amor, a fertilidade e a paz.   


TIAMAT   E   MARDUK

No mundo mesopotâmico, quando a Babilônia se tornou o maior centro político do país, quem passou a reinar absoluto sobre todos os planetas foi o deus Marduk. Uma descrição dos seus feitos pode ser encontrada na quinta tabla da Epopeia de Gilgamés: Ele
ENLIL
construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou
EA
adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era um astro masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa “Casa da Água”, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, lembre-se, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza. Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


UTUKKU

As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukku, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukku chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga, enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz. 

SIN  

Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit. Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, “Fortuna Maior”. 

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk na Mesopotâmia,  Zeus e Júpiter, no mundo greco-romano, associados ao maior planeta  do nosso zodíaco, representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a
MICHEL   GAUQUELIN  ,  1928 - 1991
ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema astrológico de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

Participando do simbolismo do raio de luz e da chuva fertilizante como ligação entre dois estados, o celeste e o terrestre, a flecha lembra passagens rápidas e penetração como união mística. É neste sentido, na tradição hinduísta, que a flecha é sinônimo de celeridade intuitiva fulgurante, do chamado saber rápido. Esta relação da flecha com esse tipo de conhecimento  explica-se melhor na medida em que soubermos que sagitta, flecha, em latim, tem
KIRON
relação com  o verbo sagire, perceber rapidamente e também ter faro. Dentro deste verbo encontramos o radical sag, que, em latim, aparece em palavras como sagus (o que pressagia), sagax (que tem o odor sutil como o cão), sagacitas (que tem os sentidos finos), praesagus (que pressente), sagaciter (saber com penetração). É por esta razão que Sagitário é considerado tradicionalmente como o signo da profecia. Saga, sagae era o nome que os antigos romanos davam às suas bruxas, feiticeiras, as que “sabiam antes.” É de todo esse contexto que sai a palavra cinegética, uma das artes ensinadas pelo centauro Kiron aos seus pupilos, como veremos.

Tudo o que se expôs acima poderá ser melhor entendido se compreendermos que Gêmeos é o signo da informação e que Virgo é o da crítica e da aplicação desta informação para que ela se transforme em conhecimento. É neste sentido que Sagitário se torna
o signo das grandes viagens espirituais e intelectuais através das religiões e dos seus códigos, dos textos legais, da filosofia, do estudo e do ensino superior, da vida universitária, do estudo das línguas e dos costumes dos povos etc.  São representantes de Sagitário, de um modo geral, os religiosos, os catedráticos, os magistrados, os professores, os pregadores, os embaixadores, os exploradores, os viajante etc.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

CÂNCER (1)

               
                                                

Quando o Sol, no mês de junho, ingressa na constelação de Câncer começa no hemisfério norte o verão. A essa data dá-se o nome de solstício de verão, atingindo o Sol o maior grau de afastamento angular do equador, no seu aparente movimento no céu.  Solstitium, em latim, quer dizer parada do Sol (stat, parada). Tem-se a impressão, ao se tornarem os dias cada vez mais longos, que o Sol permanecerá para sempre brilhando com tal intensidade.  Estamos no momento em que a luz se prepara para atingir a sua plenitude máxima no ciclo anual, o que ocorrerá quando do ingresso solar na constelação seguinte, de Leão, o signo do esplendor luminoso. Em dezembro, no hemisfério norte, ao ingressar o Sol na constelação de Capricórnio, teremos o início do inverno (solstício de inverno).




A estas datas solsticiais, que marcam no hemisfério norte o início do verão (junho) e do inverno (dezembro), devemos acrescentar as equinociais, que, em março e setembro, marcam, respectivamente, o início da primavera (ingresso do Sol na constelação de Áries) e do outono (ingresso do Sol na constelação de Libra). Equinócio vem de aequinotium, de nox, noctis, noite, e aequae, igualmente. Nas datas equinociais, os dias e as noites têm a mesma duração. 

Os antigos romanos consideravam o seu deus Janus como

do
no das portas solsticiais. Esta divindade, no panteão romano, fazia parte de um grupo chamado de indigetes, divindades consideradas autenticamente nacionais, por oposição ao grupo dos novensiles, divindades importadas, na maioria da Grécia. Os indigetes relacionavam-se na sua origem com os espíritos muito presentes nos cultos da natureza dos povos que ocupavam a península itálica antes do domínio romano, etruscos, sabinos, latinos e outros, povos que Vergílio homenageia nas suas Geórgicas




Os chamados indigetes, no mundo romano, pelo menos nos primeiros séculos da formação da grande urbs, conservavam uma estreita ligação de dependência com os  espíritos protetores da natureza, que encarnavam as forças  nela presentes. É desse mundo que vem Janus, um espírito que vivia em todas as portas, tanto nos grandes portões das cidades como nas portas das casas. Com o tempo, Janus acabou por adquirir poder sobre tudo o que significasse a ultrapassagem de um limiar,  inclusive sobre tudo o que viesse a ser iniciado pelos homens, uma ação, uma atividade,  um culto, uma cerimônia,  pela celebração das principais datas do calendário. É por essa razão que os romanos deram o nome de janeiro (januarius), numa homenagem a Janus, ao primeiro mês do ano. 

Por outro lado, é bom lembrar que a porta é um elemento importante como símbolo da passagem de um lugar a outro, de um estado a outro, das trevas à luz, se quisermos. São de Janus os portões das vias de acesso que permitem o ingresso nos lugares
GÁRGULAS ( NOTRE-DAME, PARIS )
santificados, sejam templos, catedrais, capelas, inclusive florestas, grutas ou cavernas. Lugares que são, desde sempre, um convite para que participemos dos mistérios que encerram. Geralmente protegidos na sua entrada e paredes laterais por animais fantásticos, dragões, leões,
O  OUTRO  LADO
( G. DE CHIRICO ) 
touros, por cenas de sexo, gárgulas etc., as entradas e os portões desses edifícios, uma vez ultrapassados, nos propõem a abstração de nossa personalidade e de nossos apegos materiais para que um novo eu possa nascer. Ultrapassar portas sempre significou em antigas tradições o abandono de velhos conceitos, ideias, esquemas, afetos. Abertas, as portas  significarão acolhida, convite a se descobrir o que existe no interior do edifício. Fechadas significarão isolamento, aprisionamento, rejeição, exclusão e também proteção. 


Com o tempo, Janus, como se disse, adquiriu poder sobre ao que os romanos deram  o nome de initium. No plural, initia, palavra que designava o princípio de uma ciência, de uma religião de mistério, os objetos nela usados, suas cerimônias, bem como os sacrifícios e os auspícios a elas referentes. A etimologia mais remota de Janus está numa raiz indo-europeia, ya, que quer dizer passar, transitar. O signo de Câncer era, nesse sentido, uma porta de passagem, de um subciclo (primavera) para outro (verão), no ciclo anual. No mundo romano, passagens abertas eram chamadas de iani, nome que, depois, virou sobrenome, como Otaviani.


LARES
Janus, no panteão romano, é citado (cultuado), via de regra, juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos dos antepassados que perseguiam os vivos, tudo fazendo parte, como fica fácil perceber para quem tem cultura astrológica, do signo de Câncer.  Os Lares, de origem etrusca, com o tempo, devidamente doutrinados através de cerimônias apropriadas, foram transformados em entidades protetoras das famílias e
PENATES
das casas, tendo muito a ver, nesse sentido, com os valores do mundo familiar e cívico e com os seus espaços fisicamente considerados. Os romanos sempre consideraram a sua vida cívica com um prolongamento da sua vida familiar. Os Lares, com o nome de Lares Compitales (comptium, encruzilhada) protegiam as encruzilhadas das principais vias públicas das cidades. Já os Lares Familiaris protegiam as residências e moradias de um modo geral. 



ESTELA  FUNERÁRIA  ( DI  MANES )
Os Manes eram, a rigor, antepassados divinizados, muito encontrados também em todas as tradições. A palavra vem do verbo manare, que significa sair em direção do mundo de cima, isto é, sair do mundo infernal e subir ao mundo dos vivos. Eram antepassados mortos que não tinham se conformado com a morte e que vinham atormentar os vivos, demonstrar a sua insatisfação, sempre queixosos. A queixa, normalmente, era a de que lhes faltara ou fora incompleto o enterro ritual, que a família não cuidara de despachá-los para o Outro Lado adequadamente, costume herdado dos gregos.  Ou, então, o que era pior, as queixas se referiam ao fato de que embora tivessem mudado de condição, consideravam-se ainda presos ao mundo dos vivos. Eram mortos-vivos, gente que havia morrido com ódio no coração, gente tomada por obsessões, ideias fixas, mágoas, remorsos, desejos de vingança. 

LES  FANTÔMES
( LOUIS BOULANGER, 1829 )
Eram pessoas que permaneciam entre a vida e a morte, não conseguindo alcançar o Outro Lado. Manifestavam-se geralmente à noite, fazendo ruídos, abrindo portas, jogando objetos no chão, abrindo ou fechando janelas. A sua doutrinação para que se conformassem com o seu "destino", indo para o mundo dos mortos, do deus Dite, o grande pai do mundo subterrâneo, incluía a oferta de presentes, geralmente mel, vinho e flores. 

Uma distinção: com o tempo, às almas "boas", conformadas, os romanos deram o nome de Lares. Já às almas "ruins" deram o nome de Lêmures, sempre maléficas e inquietas. Costumavam os Lêmures aparecer sob a forma de fantasmas e tinham o prazer perverso de assustar e incomodar os vivos. Essa tradição é encontrada em muitos países. No Brasil, por exemplo, dá-se a essas almas "ruins" o nome de aparição, assombração. São figuras que aparecem e desaparecem inesperadamente, em meio a rumores, a vozes, sons misteriosos, luzes inexplicáveis.


LÊMUR
Uma observação: os nossos zoólogos deram o nome de lêmur a um animal arborícola, muito semelhante aos símios, encontrado na ilha de Madagascar. Difere dos macacos por possuir um focinho parecido com o da raposa, grandes olhos, pelo lanoso e cauda longa e peluda. Os lêmures, que vivem em sociedades matriarcais,  são esbranquiçados, e como espíritos da noite, principalmente os de menor porte, são noctívagos, gostam de fazer diabruras e produzem sons como se estivessem a chamar por alguém. 

Janus tinha caráter nacional e era uma das mais antigas divindades do panteão romano, sempre representado de modo bifronte, uma cabeça com dupla face, voltadas para direções opostas. "Vivia" sempre fixado no alto de colunas ou na parte superior dos portões e das portas, dominando sempre a entrada e a saída dos lugares de passagem. Ainda hoje, em visitas à Itália, podemos encontrar Janus em galerias, corredores de passagem, pátios etc. Janiculum foi o nome dado a uma cidade que os romanos levantaram numa das sete colinas de Roma. Relativamente próxima, perto de Janiculum, ficava a imagem de outra importante divindade do panteão romano, chamada Saturnia, em homenagem ao deus Sator, antiga divindade das sementeiras de povos itálicos. Assimilado depois ao deus Cronos dos gregos, Sator passou a ser chamado de Saturno, inventando-se a história de que Cronos, vencido na Titanomaquia (batalha em que os futuros deuses olímpicos, comandados por Zeus, venceram os titãs), expulso da Grécia, escondeu-se na Itália, no Lácio (etimologicamente do verbo latino latere, estar escondido), onde foi acolhido por Janus.    

EIXO  CÂNCER - CAPRICÓRNIO
O eixo astrológico Câncer-Capricórnio aparece na história de Janus quando recolhemos a versão de que ele, Janus, em tempos remotíssimos havia sido um herói que, emigrado da Tessália (Grécia) para a Itália, recebeu do rei Câmeses uma parte do seu reino. Pelo processo de evemerização (mitificação de personagens históricos), este herói foi transformado no deus Janus. Morrendo o rei Câmeses, Janus passou a governar sozinho. Foi nessa condição que Janus acolheu o deus Cronos, expulso da Hélade pelos olímpicos. Essa história revela, por outro, o que chamo de imperialismo retroativo da mitologia grega, ou seja, os gregos, para marcar a sua ascendência sobre todas civilizações mediterrâneas, costumavam colocar as suas divindades nas origens de civilizações que eram anteriores à sua, como aconteceu, por exemplo, com o Egito e Creta. 


CRONOS
Cronos na Itália, como Saturno, tornou-se uma divindade civilizadora, responsável pela chamada Aetas Aurea (Idade do Ouro) no mundo romano. Esta idade (tema encontrado na mitologia de outras civilizações) é descrita historicamente como um período em que os deuses e os mortais viviam muito próximos, período em que havia respeito, honra à palavra dada,  as colheitas eram fartas, praticamente nenhuma dor, nada de doenças, catástrofes, pestes ou fome. O que diferenciava os mortais dos deuses era a morte, à qual os primeiro chegavam placidamente, sem sofrimento algum; chegada a sua hora, deitavam-se e dormiam, uma espécie de sono eterno.  

LAREIRA
Já os Penates eram divindades que guardavam o interior da casa, sendo responsáveis pela lareira doméstica, espaço cuja tutela dividiam com a deusa Vesta, a Héstia dos gregos. Eram também responsáveis os Penates pela despensa da casa, lugar onde se guardavam as provisões (penus). Os Penates gostavam muito de "brincar" com as fagulhas que escapavam da lareira ou mesmo de pequenas achas incandescentes que dela saltavam. 

Desde esses tempos áureos, entretanto, a grande contradição, quando pensamos em Cronos (Saturno), já estava instalada inexoravelmente entre os mortais. Se, de um lado, Saturno era o instaurador da aetas aurea, de outro, como Cronos, era o tempo que tudo devorava, o tempo cujo fluir não parava nunca. A lei de Saturno-Cronos, o senhor do tempo, impunha de modo irrevogável uma imagem móvel da imóvel eternidade. Foi a partir da instauração dessa lei que todo movimento tomou o sentido circular e mensurável, dele fazendo parte um começo e um fim. É neste sentido que Cronos-Saturno acabou por se tornar, com o nome Cosmocrator,  o mestre do tempo universal e de seus ritmos. 


SATURNALIA  ( ANTOINE - FRANÇOIS  CALLET )

O reino de Saturno no Lácio chamava-se Satúrnia. Na Roma antiga, celebravam-se, entre 17 e 23 de dezembro, em sua homenagem as Saturnálias, para relembrar a distante aetas aurea, uma idade de abundância, paz e liberdade. Lembre-se que nos primeiros tempos do cristianismo, aproveitando-se da forte mobilização popular que as Saturnálias provocavam, os cristãos,  para uma melhor aceitação da nova religião que pregavam,  escolheram para celebrar a festa do Natal, a data do nascimento de Cristo, o período em que as Saturnálias eram realizadas. 


JANUS
O reinado de Janus acabou se confundindo com a referida aetas aurea, instaurada por Saturno. No decorrer dos séculos, diversas e maravilhosas histórias foram incorporadas à crônica do deus bifronte. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis januarius como a ele atribuída a tutela de todos os começos, sendo ele invocado, nessa condição, como Janus matutinus, antes de qualquer outra divindade. A primeira prece do latino, ao acordar, era para ele, que abria as portas do dia. 

A festa de Janus era celebrada no dia 9 de janeiro, nele se sacrificando, numa cerimônia que tinha o nome de agonium, um carneiro-guia de rebanho. Evidente, neste cenário, de inspiração astrológica, a relação entre Janus e o carneiro, este sempre entendido como suporte simbólico de muitos mitos, onde entra sempre como representante das forças irrefreáveis e criadoras da natureza, inclusive do instinto de procriação que garante a continuidade da vida.

TEMPLO  DE  JANUS ,
EM  AUTUN , FRANÇA
O principal santuário do deus tinha o nome de Janus Germinus ou Quirinus (palavra que lembra a lança, como arma de guerra) e estava situado ao norte do Forum, diante do templo da deusa Vesta, divindade extremamente importante para a vida cívica e familiar. Vesta, como para os gregos, era a dona do interior da casa, principalmente da lareira, lugar de refeições conjuntas. O templo de Janus permanecia sempre aberto em tempos de guerra, fechando-se-o em tempos de paz.

A principal estátua de Janus estava colocada sob um arco nos grandes portões das cidades de modo a permitir que ele "olhasse" os que nelas entrassem e saíssem, posição que lhe possibilitava exercer a sua função maior, a de porteiro. Como deus dos porteiros, tinha o nome de Janitor e carregava sempre uma chave, seu atributo, levando nas mãos um bastão (virga) para afastar as intromissões molestas como cães, pedintes, bêbados etc. Nessa função, acrescentavam-se ao seu nome os sobrenomes Clusivius (o que fecha) e Patulcius (o que abre). Deus ambivalente, deus dos deuses de Roma, Janus controlava as passagens e as transições, marcando a evolução do passado em direção do futuro, permitindo que se passasse de um estado a outro, de um mundo a outro. Para o povo, era mais importante que Júpiter e, mesmo, que Marte. 


TEMPLO  JANUS  QUADRIFONS,
COLINA  DE JANÍCULA
Simbolicamente, Janus é a encarnação do princípio da vigilância. O imperialismo romano encontrou nele uma de suas melhores imagens na medida em que ele via tudo, observava  tudo, controlava tudo, o que estava atrás e o que vinha pela frente. Algumas vezes, o deus aparecia com o nome de Janus Quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do espaço, sendo, como tal, símbolo da prepotência e do totalitarismo. Este aspecto de Janus o aproxima
THOMAS  HOBBES
bastante de Cronos, na medida em que este dá e concede tudo, como grande provedor, como sua história nos conta, mas, por outro lado, como Grande Pai é ele quem impede as mudanças e afasta ou elimina possíveis sucessores. Uma tentação na qual caíram e cairão todos os que, conforme a História vem comprovando ao longo dos séculos, ignoram ou teimam em não reconhecer que a natureza do ser humano se explica muito mais por Hobbes do que por Rousseau.

A cabeça de Janus em algumas culturas passou a ser considerada como um símbolo da ambiguidade, algo assim como uma faca de dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus pode ser considerada como união de contrários, do positivo e do negativo, qualidades que estão presentes no universo tanto no ser humano e sua situação como nas suas ações. A expressão "ter olhos na nuca", ou seja, ver o que está atrás e na frente, vem da história desse deus. Aos poucos esse sentido se perdeu ou se atenuou para dar lugar ao de falsidade, como no caso da "pessoa que tem duas caras", pessoa não digna de confiança, que oculta o seu verdadeiro eu. 

SÃO  JOÃO  BAPTISTA
 ( RAFAEL  DI  SANZIO )
No cristianismo, os dois santos de nome João podem ser associados a Janus, na medida em que abrem as portas solsticiais. Um deles, ligado ao verão, é João Baptista (festa a 24 de junho), chamado de arauto de Cristo. O outro é João Evangelista (festa a 27 de dezembro), ligado ao inverno. No Evangelho de São João, encontramos referências astrológicas sobre esta questão solsticial a partir do versículo 27 do 3º capítulo quando João Baptista se "apaga" (abertura da fase descendente do Sol) numa atitude de espera de
SÃO JOÃO EVANGELISTA
( EL  GRECO )
alguém, maior que ele, que virá (Câncer, como sabemos, é o signo do "eu que virá"). No versículo 30, encontramos: Ele deve crescer e eu diminuir. Quando o Sol chega a Capricórnio, 21 dezembro (a noite mais longa do ano), ele atinge a declinação sul máxima com relação ao hemisfério norte, mas também esse é o momento em que ele começa a "subir" de novo. Ou seja, quando o Sol na sua marcha anual entra em Capricórnio começa o solstício de inverno no hemisfério norte e o solstício de verão no hemisfério sul.    

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CENTAURUS, CETUS, CORONA AUSTRALIS





CENTAURUS forma com Lupus e Ara, o Altar, um conjunto que deve ser apreciado de modo interdependente, pois nos contam histórias que falam de adoração e de devoção. Esta constelação foi
KIRON
vista pelos gregos inicialmente tanto como o centauro Kiron como o centauro Folo, ambos ligados ao ciclo dos doze trabalhos de Hércules. A grande constelação do Centauro ocupa uma área cuja declinação sul varia entre 30º e 60º. A imagem que temos dela é a de um centauro que segura um lobo com uma de suas mãos estendida. Gregos e árabes viram-na como se caminhasse na direção da constelação do Altar para sacrificar o animal. 

ERATÓSTENES
Considerando porém que os mesmos gregos já haviam ligado, com muito maior pertinência, a figura de Kiron à constelação zodiacal de Sagitário, não vejo razão associá-lo a esta constelação. Quem fez esta confusão foi Eratóstenes de Cirene, astrônomo, matemático, geógrafo e diretor da Biblioteca de Alexandria (séc III aC), deixando de lado a tradição que já havia fixado Kiron no Zodíaco e colocado Folo como o Centauro do Sul.


FAMÍLIA   DE   CENTAURUS  ( SEBASTIANO  RICCI , 1659 - 1734 )

Na mitologia grega, os centauros são seres híbridos, compostos por um corpo de cavalo e um busto humano. Desde a antiguidade, seu valor simbólico é ambíguo. Na cultura grega, sua origem estava ligada historicamente às primeiras invasões de cavaleiros vindos da Ásia Menor, que aterrorizavam as populações dos países mediterrâneos. Os povos da América central, aliás, consideraram os invasores espanhóis do mesmo modo, quando irrompiam nas aldeias montados em cavalos. Viam-nos, ao mesmo tempo, como humanos e animais.





BATALHA  ENTRE  CENTAUROS  E  LÁPITAS
( KAREL  DUJARDIN , 1667)
Famosa na mitologia grega é a batalha entre os Lápitas, povo das montanhas da Tessália, e os Centauros, filhos de Ixion e de Nephele, o primeiro filho de Ares, deus da guerra. Rei dos lápitas, Ixion cometeu vários e gravíssimos crimes, dentre eles o de perjúrio e o traiçoeiro assassinato de seu sogro, jogando-o num buraco cheio de carvões em brasa. Destronado e expulso da cidade, passou a perambular pelos caminhos, ninguém lhe dando acolhida. Zeus, magnânimo, que do alto tudo via, resolveu ajudar seu neto. Purificou-o, trazendo-o para viver no Olimpo. 


IXION   E   NEPHELE  ( P.P. RUBENS , 1615 )


IXION   NO   TÁRTARO
( BERNARD  PICARD , 1731 )
Mal chegado à mansão divina, Ixion tentou atacar sexualmente Hera, a esposa de Zeus. Repelindo-o, indignada, ela relatou o ocorrido ao marido. Zeus, então, mandou confeccionar com nuvens um simulacro de Hera, que Ixion, de nada sabedor, e acreditando tratar-se da divina deusa, que agora acedia ao seu desejo, envolveu-se com ela sexualmente. Dessa união, nasceram os centauros, filhos, portanto, de Ixion e de Nephele, a Nuvem. O castigo do ingrato Ixion veio em seguida: Zeus obrigou-o a ingerir ambrósia, tornando-o assim imortal, e mandou amarrá-lo no Tártaro, com serpentes, a uma roda incandescente, a girar eternamente. Fixado nesse suplício, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das
CENTAURO
pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, vivendo em bandos, sempre fazendo algazarras, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da irracionalidade do ser humano. 


Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno. Nas obras de arte simbolizam os centauros a concupiscência carnal, que torna o homem muito semelhante às bestas, sempre ausentes quaisquer  traços da vida racional e espiritual, abolida qualquer luta interior no que diz respeito ao controle dos instintos. 


SILENO
Diferente destes tipos que acabei de descrever é o centauro Folo, filho de Sileno e de uma ninfa da raça das melíades, ninfas dos freixos (melia, freixo, em grego), nascidas do sangue derramado de Urano quando da sua castração. Dotados de grande saber, os Silenos eram sátiros envelhecidos, filhos do deus Pan. Foram considerados por todas as tradições como preceptores de Dioniso quando jovem. 


SILENO   ÉBRIO  ( JOSÉ  DE  RIBEIRA , 1626 )

Folo era um centauro extremamente pacífico e cordato, muito diferente dos filhos de Ixion. Quando da realização do seu sétimo trabalho, o da captura do javali de Erimanto, Hércules, ao passar por Fóloe, foi recebido com muita hospitalidade por Folo. Há muito que Folo aguardava a visita do nosso herói, pois Dioniso lhe dera uma jarra de vinho, hermeticamente fechada, recomendando-lhe que só a abrisse quando o filho de Alcmena viesse à sua gruta. Preparada lauta refeição, servido o vinho, os outros centauros que viviam na região, sentido o perfume da divina bebida, invadiram a gruta, atacando Folo e seu hóspede. Hércules matou muitos
FOLO   
centauros, outros fugiram, sendo perseguidos tenazmente por nosso herói que, ao voltar, encontrou Folo muito triste, a dar diligentemente sepultura aos seus infelizes “irmãos” mortos. Para matar os centauros, Hércules usara flechas envenenadas. Ao retirá-las do corpo dos centauros para melhor inumá-los, Folo feriu-se acidentalmente na coxa, morrendo logo em seguida. Coube ao nosso herói, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrá-lo em magnífica sepultura que construiu para esse fim. 



GAIUS   JULIUS   HYGINUS 
Algumas das estrelas da constelação do Centauro do Sul, como é chamada também, com algumas de Lupus, eram conhecidas entre os árabes pelo nome de Al Kadb al Karm, O Ramo da Videira. Ptolomeu descreveu a constelação vendo numa das mãos do Centauro um lobo e na outra um tirso, que é, como sabemos, um dos emblemas do deus Dioniso. Todas as representações posteriores desta constelação sempre a associaram às constelações do Altar e do Lobo, como podemos constatar em Hyginus e, muito mais tarde, nas Tábuas Afonsinas. Em Roma, a constelação do Centauro era às vezes denominada pelos nomes de Semi Vir ou Semi Fer, isto é, Meio Homem ou Meia Besta, respectivamente.

Na astronomia medieval cristã, esta constelação foi visualizada de outro modo. Uns a chamaram de Noah (Noé), personagem bíblico que sobreviveu juntamente com a sua família ao dilúvio. A figura de Noé aparece na tradição medieval obviamente ligada ao tema do vinho. Ele foi, biblicamente, o primeiro personagem a descobrir os efeitos da bebida alcoólica que, uma vez ingerida descontroladamente, ao invés de levar ao céu, leva ao inferno, por libertar a besta (o centauro) que há em todo ser humano. Há na Bíblia algumas advertências contra o álcool apesar da declaração de que ele alegra o coração do homem, conforme está em Salomão. 

EMBRIAGUEZ   DE   NOÉ  ( GIOVANNI  BELLINI )

Outras versões do medievalismo cristão sobre esta constelação, menos difundidas, mas muito importantes para a compreensão do seu campo semântico, a ligam, uma, ao tema de Abraão e Isaac no que diz respeito ao tema do sacrifício (akedá)  e, outra, à figura de Nabucodonosor, rei da Babilônia, na medida em que este personagem aparece associado à rainha de Sabá e a Salomão, a primeira identificada por alguns como Lilith. Ainda com relação à

constelação do Centauro, seria interessante não esquecer, como a Astrologia o fez até agora, a descoberta, por  John Herschel, de uma das mais notáveis nebulosas do céu, nela presente. Filho do descobridor de Urano chamou esta nebulosa de Blue Planetary, cujas dimensões oscilam entre a metade e a totalidade do primeiro planeta transaturnino.



PTOLOMEU
A constelação do Centauro estende-se de 2º de Libra a 28º de Escorpião, ficando claro pelos seus limites as conotações decorrentes dos temas da hospitalidade (Libra) e do vinho (Escorpião). Ptolomeu viu nas estrelas desta constelação situadas na parte humana da figura influências venusianas e mercurianas. Às estrelas mais brilhantes, na região das patas do Centauro, ele atribuiu influências venusianas e jupiterianas. A estrela alfa, de 1ª magnitude, é Bungula, também conhecida pelo nome de Toliman, hoje a 28º51´ de Escorpião; a seguir, temos Agena, beta, também de 1ª magnitude, a 23º06´ de Escorpião. Há uma terceira estrela, Chort, inexpressiva astrologicamente.

No antigo Egito, Bungula, ligava-se ao equinócio de outono, e serviu de orientação para a construção de templos no norte e no sul do país entre os anos de 4.000 e 2.000 aC. Recebeu, entre os egípcios, o nome de Serkt. Para Ptolomeu, Bungula favorece as
MAO TSE-TUNG
amizades, dá refinamento e pode levar a posições honrosas. Há, por outras tradições, indicações de que Bungula pode influenciar no 
sentido de ligar quem a tem com algum destaque a causas, projetos, mas que sempre exigirão correções e revisões no futuro. Agena, para Ptolomeu, também proporciona influências semelhantes e dando também posições elevadas, honras, projeção. O mapa de Mao Tse-Tung poderá servir para o estudo das influências destas duas estrelas.





CETUS, a Baleia, é o monstro que aparece na história de Andrômeda, enviado por Poseidon para devorá-la, conforme já visto quando esta constelação foi estudada. Foram os gregos que fixaram para a Astrologia a constelação da Baleia, dando-lhe uma origem mítica. Cetus é um monstro marinho, uma figura híbrida, constituída por traços de baleia, de crocodilo e de hipopótamo. É
AS   GREIAS  ( H. FUSELI )
uma figura feminina, filha de Pontos e de sua mãe Geia. O primeiro, cujo pai é o Éter, como sabemos, é a primeira personificação masculina do mar, representado pela onda, pelo movimento marinho. Nereu, Taumas, Fórcis e Euríbia são irmãos de Cetus, todos entidades marinhas monstruosas, ligadas às forças primordiais, fazendo parte das primeiras elaborações cosmogônicas e genealogias teogônicas. Cetus, ligada a Fórcis, gerou as Greias (As Velhas), também chamadas Fórcidas, que aparecem no mito de Perseu.



JONAS
A Baleia é um cetáceo (Ketos, para os gregos) que, como vimos, foi morto por Teseu, que o petrificou com a cabeça da Medusa, para libertar a princesa Andrômeda, filha de Cepheus e de Cassiopeia. A baleia faz parte de um grupo de animais que aparecem na mitologia, na religião e no folclore de vários povos como devoradores. Caracterizam-se por bocarras ou por goelas enormes, muitas vezes desproporcionais ao corpo, que tudo devoram e engolem. Da galeria fazem parte, como é o caso, além da baleia, o crocodilo, o hipopótamo, o lobo, a hiena, as grandes serpentes e outros. 



Não foi por acaso, aliás,  que monstros como Cetus foram parar na filosofia. O filósofo inglês Thomas Hobbes publicou em 1.651 um livro, Leviathan, para defender a tese de que seria necessário que os homens estabelecessem um contrato social a fim de que a paz fosse garantida. Os homens, afirma ele, são egoístas por natureza. A lei que prevalece nas relações entre eles é a da guerra entre todos (bellum omnia omnes). Esta afirmação se baseava numa máxima de Plauto: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem). Assim, para que não se exterminassem uns aos outros, era necessário, através de um contrato social, que se garantisse a paz. A proposta de Hobbes, para que isto se concretizasse, era a do estabelecimento de um governo totalitário, de tipo monárquico, que "engolisse" tudo (inclusive as liberdades individuais), evidentemente sem a presença de outros poderes como parlamentos, congressos, câmaras etc. que só servem para enfraquecer o Leviathan e gerar o caos. 


JONAS  E  A  BALEIA
Entre os judeus, temos, a história de Jonas, que foi devorado pela baleia. Profeta bíblico, Jonas fugiu do chamamento de Deus e recusou-se a pregar o arrependimento (teshuvá). Durante a sua fuga, foi atirado ao mar e engolido por um grande peixe que, segundo o texto bíblico, tinha olhos do tamanho de janelas e cujo estômago era iluminado por uma pedra preciosa. Esse peixe, tido pela tradição por uma baleia, corria o risco de ser engolido pelo maior dos monstros marinhos, o Leviathan (símbolo de Samael, o príncipe do mal entre os judeus). 


BEEMOT  E  O  LEVIATÃ
Leviathan tem dimensões enormes, sendo a maior das criaturas do mar. Diz a Bíblia que Deus matou a sua fêmea para impedir que, procriando, a criação fosse destruída. Da pele da fêmea é que foram feitas as roupas que cobriram as vergonhas de Adão e de Eva. No fim dos tempos, na idade do Messias, Deus fará o arcanjo Gabriel matar o macho. Noutra versão, será Beemot, o maior dos monstros terrestres, que enfrentará o Leviathan, morrendo ambos numa luta final. 

O que a história de Jonas simboliza é a morte iniciática. Entrar no ventre do monstro é morrer, dele sair é renascer. O monstro, a baleia, neste caso, aparece, pela sua forma ovoide, com um encontro de opostos, que podem representar o nascimento ou a ressurreição. Os dois arcos da figura ovoide significam aqui a conjunção do mundo inferior com o mundo superior, ou do céu com a terra, a totalidade. 

Jonas passou no ventre da baleia três dias e três noites. Atendidas as suas preces, Deus fez com que o monstro o vomitasse, voltando ele à vida de uma outra maneira, um novo ser. Esta mesma imagem, aliás, será repetida no Novo Testamento, em Mateus, quando ele registra a previsão de Cristo: Pois assim como Jonas passou no ventre do
TIAMAT
monstro três e três noites, assim o Filho do homem também o passará. As tradições mesopotâmicas aproximaram esta constelação do monstro Tiamat, que nos seus mitos cosmogônicos representava a água salgada, a personificação do  mar como elemento feminino que dava origem à própria vida. Tiamat simbolizava também as forças cegas do caos primordial, contra o qual tiveram que lutar os deuses inteligentes e organizadores. 



PAUSÂNIAS
Referências à história do monstro vencido por Perseu são encontradas em Plínio, o grande naturalista romano, em São Jerônimo, o grande latinista do Cristianismo, e em Pausânias, viajante e geógrafo do II séc. DC Os romanos designarão Cetus pelo nome de Pristis (grande cetáceo, em latim), a ele juntando adjetivos como nereia e auster.  Os árabes conheceram a constelação através dos gregos e lhe deram o nome de Al Ketus.

CETUS
A constelação da Baleia, embora não muito investigada astrologicamente, apresenta certas peculiaridades. Uma é a sua relação com o sul da Via Láctea, como que querendo devorá-lo; a outra é porque possui estrela Mira, a chamada “Estrela Maravilha”, a primeira estrela que mudava de magnitude, estudada por astrônomos. Cetus se estende de 17º de Peixes a 13º de Touro. Para Ptolomeu as suas influências são semelhantes às de Saturno, podendo causar ociosidade, preguiça. As estrelas de Cetus, pela ordem de importância, são: Menkar, alfa, a 13º37´Touro, entre a 2ª e a 3ª magnitudes; esta estrela está situada entre os olhos e a boca de Cetus, numa região chamada de O Nariz, Al Minhar, em árabe; tem também, segundo a tradição, natureza saturnina, atraindo desgraças e infortúnios. A seguir, temos Deneb Kaitos, Baten Kaitos, Deneb Schemali e Mira. 

No meu entender, parece ter ficado de fora, quanto a Cetus e Menkar, o mais importante quanto às suas possibilidades significativas. Em muitas tradições, a passagem pelo ventre de monstros, os marinhos de modo especial, é expressamente considerada como uma descida ao mundo infernal, ao mundo subconsciente. Equivale a entrar na noite, símbolo das gestações, das germinações que vão se revelar à luz do dia. A noite é rica de todas as virtualidades. Entrar no ventre da baleia é entrar na noite, é voltar à indeterminação. É nas trevas do ventre da noite como no da baleia que se fermenta o futuro, a preparação do dia, a volta à vida. 


Entrar no ventre da baleia sempre significou uma volta a um estado pré-formal, embrionário, equivalendo o monstro à noite cósmica, ao caos antes da criação. A passagem pelo ventre da baleia era simbolicamente o caminho de todo processo iniciático. Uma imagem desta luta está, por exemplo, no romance de Herman Melville, escritor americano do século XIX, Moby Dick ou a Baleia Branca, um avatar do Leviathan judaico.

Se considerarmos o inconsciente do ser humano, pessoal ou coletivo, como um imenso oceano, monstros como Cetus podem emergir subitamente, adquirindo um caráter destrutivo. Cetus aponta, nos temas astrológicos, para uma área de águas profundas, muito abaixo da superfície, onde monstros podem se esconder. Ao subir à superfície, podem trazer muito perigo, destruição, inclusive coletivamente. Menkar, no grau em que estiver, pode ser um ponto onde temos possibilidades de contacto com o inconsciente coletivo,
NAPOLEÃO
não esquecidas evidentemente as informações que possam ser obtidas por quadrante, signo, casa e aspectos. No meu entender, tanto a Cetus como a Menkar podemos atribuir influências plutonianas, lembrando que Plutão se exalta em Áries e se exila em Touro. Mapas para estudo os de Freud e de Napoleão. No primeiro, influências positivas de Cetus-Menkar; no segundo, negativas. 






CORONA AUSTRALIS, a Coroa do Sul, embora muito modesta, foi reconhecida por Ptolomeu.  Os latinos a chamavam de Corona Sine Honore. A tradição astronômica, incorporada por muitos astrólogos, chamou esta constelação de A Coroa do Centauro. Isto se deve ao fato de que em muitas representações os artistas punham uma coroa na cabeça dos centauros. Esta ideia tem provavelmente origem na figura dos Gandharvas, que, na Índia, são representados com um torso humano e um corpo ora de cavalo, ora de pássaro, coroados. 


GANDHARVA   VOADOR
Atribui-se aos Gandharvas na mitologia hindu grande potência sexual. Envolvidos sempre com mulheres, são músicos, usam o vinho, conhecem ervas afrodisíacas. Segundo alguns textos, representam a força primordial e a energia universal, incorporando o Eros grego muito de seus traços. Participando da energia solar, são representados frequentemente com uma coroa de raios sobre a cabeça, decorrendo dessas características, talvez, a ligação que os gregos fizeram entre a coroa e o centauro. Outra tradição grega não vê uma coroa, mas, sim, um punhado de flechas na mão do centauro, que irradiam luz como os raios do Sol.  

Ainda dentro do campo das possibilidades significativas da figura do centauro, outra tradição deu a esta constelação o nome de A Roda de Ixion (Rota Ixionis), uma alusão ao desditoso pai dos centauros, conforme relatado no texto sobre a constelação do Centauro, acima. 


CENTAURO
Da união de Ixion com Nephele, como narramos, nasceram os Centauros, os nubigenae,  os filhos da nuvem. A palavra centauro parece admitir uma etimologia que tem origem no verbo kentein, ferir, picar, mais a palavra aura, ar. Ou seja, aqueles que são apenas feridos, picados pelo elemento ar, que não tem nenhum lampejo racional, somente pura vida instintiva. O elemento ar não participa da vida do centauro, ou só o faz muito precariamente. Por isso, passaram os filhos de Ixion a representar desde o seu nascimento, no ser humano, a ameaça permanente da vida instintiva sobre o seu lado racional.


HADES  ( ANÔNIMO )
Para punir exemplarmente seu petulante neto, Zeus o enviou para o Tártaro, região mais profunda do Hades (Inferno) onde as punições não têm por objetivo a destruição da forma do pecador de modo a lhe proporcionar um renascimento. O Tártaro é o lugar das punições eternas. Os pouquíssimos que desceram ao Hades e de lá retornaram, contam que ouvem, vinda lá dos lados dessa tétrica região, perto do rio Piriflegetonte, uma voz, que aos gritos, adverte: honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão. Sem dúvida, uma vã tentativa de Ixion no sentido de fazer com que o seu triste lamento chegue ao ouvido dos mortais. 

Uma outra versão sobre a origem desta constelação tem relação com Dioniso. Sêmele, filha de Cadmo e de Harmonia, era uma uma princesa tebana. Foi amada por Zeus e concebeu Dioniso. Ao ter conhecimento da aventura amorosa do marido com ela, Hera, a protetora dos amores legítimos, resolveu intervir. Concebeu um plano para destruir a jovem e lindíssima rival. Tomando a forma humana, de uma velha e sábia mulher, insinuou-se no palácio onde
ZEUS   E   SÊMELE  ( G. MOREAU )
vivia a princesa, conseguindo um lugar de ama. Logo ganhou a confiança de Sêmele, que lhe fez confidências sobre o seu divino amante. Hera resolveu então aconselhá-la, aguçando-lhe a curiosidade: pedir a Zeus que ele se apresentasse em seu divino esplendor. Zeus ponderou a Sêmele que o atendimento do pedido, de sua parte, lhe causaria dano, lhe seria muito funesto, já que humanos não têm como suportar a epifania de uma divindade. Ela insistiu, lembrando-lhe que, quando haviam começado a se relacionar, Zeus lhe prometera, sob juramento, em nome do rio Estige, que qualquer pedido que ela  fizesse por ele seria atendido. 



RIO   ESTIGE
Estige era filha de Oceano e Tétis, uma oceânida. Como fonte, Estige alimentava um dos rios infernais, do mesmo nome. Suas águas eram gélidas e tinham propriedades mágicas. Quando da Titanomaquia, Estige, com seus filhos, cooperou para a vitória dos futuros olímpicos. Por seu gesto, recebeu o privilégio do horkos, isto é, o de que, a partir da concessão, os deuses profeririam seus juramentos em seu nome, juramentos irrevogáveis. Quando uma divindade resolvia jurar, a deusa Iris ia rio Estige para buscar uma jarra com a sua água, para servir de testemunha ao horkos. A inobservância do juramente por uma divindade, além de outras penalidades, afastava-a do convívio dos mortais por nove anos, além de lhe ser proibido o consumo do néctar divino.


NASCIMENTO   DE   DIONISO
Não tendo como recuar, Zeus se apresentou a Sêmele na sua esplêndida forma divina, uma epifania que ela não suportou. O palácio em que vivia foi inteiramente destruído e ela carbonizada. O mito nos revela que Palas Atena retirou do ventre de Sêmele o fruto inacabado de seus amores o e levou a Zeus. O pai dos deuses resolveu, então, alojar o feto numa de suas coxas. No tempo devido, completada a gestação femural, nasce Dioniso da coxa de Zeus.


MORTE   DE   SÊMELE  ( PETER  PAUL  RUBENS )

Mais tarde, já tendo assumido os seus deveres divinos, como um dos imortais, Dioniso, de volta de uma viagem que fizera à Ásia para difundir o seu culto, desceu ao Hades e de lá retirou o eidolon (forma que a alma toma para descer ao Hades) de sua mãe. Ressuscitada, Sêmele foi devidamente coroada por Dioniso sob o nome de Tione, como a primeira das mênades, suas sacerdotisas. Depois, resolveu Dioniso levar Tione apoteoticamente para viver entre os olímpicos, colocando antes, porém, a coroa que lhe dera entre as estrelas como uma constelação, chamada pelos gregos de Coroa Austral.


MÊNADES

Outra versão grega sobre a origem desta constelação pode ser encontrada nas biografias de Píndaro e de Karinna de Tanagra, ambos poetas do século V aC.,esta professora daquele, que ficou
KARINNA  ( WILLIAM  BLAKE )
famoso pelos seus Epinícios. Em cinco concursos, ela o venceu, tendo recebido várias e justificadas homenagens. Um pouco de sua obra (lírica coral), em dialeto beócio, foi preservado. Influenciou Ovídio e William Blake, na sua série The Visionary Heads, deixou-nos um retrato dela. Recebeu Karinna os títulos de Musa Lírica e de Musa Viva Foi homenageada pelos astrônomos da época que "colocaram" nos céus a coroa que recebeu por suas vitórias poéticas.  


A constelação da Coroa Austral aparece ainda em algumas outras tradições com o nome de Uraniscus, diminutivo de céu (Urano), em grego. Uranisco é a abóbada palatina ou palato, divisão óssea e muscular entre as cavidades oral e nasal. É o chamado palato ósseo, placa óssea que forma o céu da boca. 



Esta constelação estende-se de 2º a 12º de Capricórnio, tendo apenas uma estrela digna de registro, Alpheca meridional (veja Corona Borealis). As estrelas desta constelação  não apresentam nenhum interesse sob o ponto de vista astrológico. Ptolomeu, entretanto, atribui a elas influências da natureza de Saturno e de Júpiter (favorecem a conquista de posições elevadas, mas podem trazer obstáculos não previstos).