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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).


domingo, 8 de novembro de 2015

A TRAGÉDIA GREGA

         

O   TRIUNFO   DE   BACO   ( CORNELIS   DE   VOS )

As festas do vinho em homenagem ao deus Dioniso, na Ática, estão nas origens da tragédia. Dioniso, como Baco, em meio a cantos e danças, vinha com o seu cortejo barulhento de sátiros, silenos e mênades. Nessas festas representava-se o drama do menino-deus Zagreu, que fora devorado na forma de um bode, para tentar escapar da fúria dos titãs. Entoava-se então o canto do bode (oidé, canto+tragos, bode). Essa história, a do sacrifício de um bode, símbolo da força vital, encontrada em várias tradições, é praticamente universal; ela serviu de base para que o ser humano projetasse a sua culpa sobre um outro e acalmasse a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de um castigo e de um culpado. É o tema do bode expiatório.

Historicamente, por ocasião da vindima, celebrava-se nos campos a cada ano, na região de Atenas e em toda a Ática, a festa do vinho novo, em que os participantes bebiam muito, sempre cantando e dançando. Dessas festas, em homenagem ao deus, faziam parte certas representações dramáticas que acabaram por dar origem ao ditirambo, ao drama satírico, à tragédia e à comédia.


DITIRAMBO

A religião oficial da polis grega (Atenas) era aristocrática. Os deuses olímpicos atuavam para reprimir a hybris dos que tentassem ir além do seu métron. A meta da religião olímpica era a obtenção do conhecimento contemplativo (gnosis), a purificação da vontade para que o divino fosse recebido (khatarsis) e obtida a consequente libertação do ser para uma vida de imortalidade (athanasia). As principais divindades do mundo olímpico, inspirador da ordem aristocrática, eram Zeus, Apolo e Palas Athena.

Do outro lado, opostas, tínhamos as correntes religiosas voltadas para os mitos naturalistas, para os cultos agrários, do tempo cíclico, divindades da vegetação e da vida animal, que morriam e ressuscitavam. Dioniso era a principal delas. Ele era o deus da libertação, da orgia, do êxtase e do entusiasmo, que tinha na videira o seu maior símbolo. Seu culto logo se tornou popular, sendo considerado como o deus dos deserdados, dos que não tinham vez na polis aristocrática, as mulheres, os metecos, as crianças e os escravos. Ele fazia parte de um grupo de divindades que lembrava a morte, a catábase, a viagem infernal, e o renascimento. 

APOLO
O choque entre as duas concepções era violento. A aristocracia se sentiu ameaçada, com as suas divindades olímpicas. Apolo era a harmonia, a luz, o controle das pulsões. Dioniso era o contrário, propunha a libertação das interdições, era a transgressão, a supressão dos condicionamentos, a transformação, a grande divindade das metamorfoses. O ekstasis dionisíaco era uma espécie de superação da condição humana. O simples mortal tornava-se um aner, uma espécie de herói, ultrapassava os limites do seu metron, tornava-se um outro. Um exemplo disso eram as mênades, sacerdotisas do deus, as bacantes, as “possessas”, também chamadas de “furiosas” ou “impetuosas”, que chegavam ao delírio possuídas por Dioniso. 

Tudo isto era para a religião olímpica a hybris, uma desmedida, uma violência, uma ousadia, que provocava inevitavelmente uma reação divina, o ciúme divino, a nêmesis. O homem comum, como um herói, ultrapassado o metron preconizado pelos cultos apolíneos, tornava-se um êmulo dos deuses, rompia com a tutela olímpica e naturalmente com os controles sociais por ela impostos. A punição era imediata. Os deuses lançavam contra ele a anoia, a loucura, personificada muitas vezes pela deusa Até, o erro; tudo o que ele fizesse então nesse estado seria realizado contra si mesmo. A Ananke (conceito religioso-filosófico que lembra reposição de limites) intervinha através de várias divindades femininas, como as Moiras e sobretudo como as Erínias (Fúrias), deusas do remorso, da consciência culpada.


ERÍNIAS

O quadro do elemento trágico se configura: o anthropos, que, através da orgia, do êxtase e do entusiasmo, ia além do seu metron, renascia para uma nova vida, o que sempre era perigoso para o poder da polis. No sentido contrário, conceitos e divindades que obrigavam o ousado herói a voltar, com muito sofrimento, inclusive a morte, aos limites que a ordem olímpica fixava, dos quais ele nunca deveria ter saído. Nêmesis (a que curvava os orgulhosos), Até (Erro), Anoia (Irracionalidade), as Erínias (Fúrias), as Moiras (Fiandeiras) entravam então em ação, para punir o ousado, o herói trágico.


MOIRAS   ( JOHN   STRUDWICK  -  1885 )

O Estado logo percebeu as relações entre a religião e o trágico, apoderando-se deste elemento, patrocinando-o, tornando-o um apêndice da religião oficial. Aristóteles (384-322 AC) será o grande teórico do trágico. Para ele, a tragédia é imitação (mimesis), com linguagem própria, de uma ação por meio de atores. Graças ao temor e à piedade, ela produz a purificação das emoções, mimesis e khatarsis, pois. No epílogo, ela produz compaixão e temor. Evidencia-se, segundo o ponto de vista da religião oficial e da polis, o erro (hamartia) do herói ou o seu equívoco. A desgraça que o atinge poderia atingir também qualquer um que ousasse. A tragédia se fixa aos poucos como uma forma teatral que se caracteriza pela representação de acontecimentos tristes, deploráveis, violentos. Seu alcance social tornou-se enorme. Seus personagens vinham, socialmente, de posições elevadas, muitos membros da realeza, da elite do poder. Por sua ousadia, por sua falta de consciência, por sua insensibilidade para com o divino, acabavam colhendo sempre em suas vidas alguma forma se sofrimento, de desgraça. O trágico era então o elemento que os obrigava a assumir mais lucidamente a condição humana.

Dentre os autores trágicos gregos, destacamos três, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, considerados os pais da tragédia grega, aparecendo cada um deles em três períodos distintos da história de Atenas, o da sua afirmação como a principal polis grega, o do seu esplendor (século de Péricles) e o de sua decadência, já perto invasão macedônica. 


ÉSQUILO
Ésquilo (Elêusis, 525-Sicília, 456 AC) – Das suas 90 peças, só 7 nos chegaram: As Suplicantes, Os Persas, Os Sete contra Tebas, Prometeu Acorrentado, A Orestíada (Agamemnon, As Coéforas, As Eumênides). É o fundador do teatro grego. Nele, o coletivo sempre supera o individual, a polis e os deuses sempre vencem. A fatalidade infalivelmente esmaga o homem, ao ultrapassar o seu metron. Mais ainda: a falta de um recai sobre todos, que gemem. Famílias inteiras são punidas pela falta de um dos seus membros. Eis a lição: sofrer para compreender. A tragédia-símbolo de Ésquilo é Prometeu Acorrentado. Prometeu é um titã, chamado pelos homens de Filantropíssimo. Do ponto de vista destes, um herói. Do ponto de vista divino, um criminoso, ao entregar ao humanos o segredo do fogo. Descendo dos céus à terra, o fogo se corrompeu, passando a ser usado tão somente para a produção de bens materiais.

Sófocles (Colono, 496-Atenas,406) – Pertence ao período mais brilhante de Atenas. De família rica, foi militar, mantendo relações com Péricles, Fídias, Heródoto e outros importantes nomes da vida ateniense. Muito aberto às ideias novas, acolheu-as. Sua técnica teatral era perfeita. Das 126 peças que escreveu, 72 foram vencedoras de certames teatrais. Só nos chegaram 7 peças dele: Ajax, Antígona, Édipo-rei, Electra, As Traquínias, Filocteto e Édipo em Colono. 

SÓFOCLES
Em Sófocles, o tema central é o da luta do herói contra a fatalidade, suas pressões psicológicas, glória ou perdição. O herói é o autor do seu próprio destino. Sófocles é o teatro “existencial”, que nos fala da “situação humana” e não da “condição humana”. Teatro antropocêntrico, os deuses agem à distância através de oráculos ou adivinhos. A fé está no individual e não no coletivo. Era o logos socrático iluminando o homem. Nele temos a catástrofe, a hybris relacionada com os fatos. Só os atos contam, teatro de krisis, de escolhas e de um ethos. Teve o poeta uma vida sentimental muito complicada. Algumas versões biográficas nos dizem que morreu assassinado por garotos de programa, como Pasolini. Seu apelido, “A Abelha Ática”, por sua enorme capacidade de trabalho. Inovou ao introduzir o terceiro ator, flexibilizando bastante o texto teatral. São dele também os cenários pintados. Elevou o coro de 12 para 50 participantes e definiu as tetralogias. Seus personagens oscilam, indo de extremos de alegria, à angústia, ao arrependimento. Sempre uma confrontação com o sofrimento e a pergunta: como aceitá-lo? Do pathos ao ethos. 

Édipo-rei é a tragédia-símbolo de Sófocles. Édipo é, como sabemos, o herói trágico por excelência e está na base da psicanálise moderna. Para ele, a frase de Freud: O importante não é o que você sabe, mas o que você não sabe.


EURÍPEDES
Eurípedes (Salamina, 484 – Macedônia, 406 AC) – Grandes os seus contrastes com Sófocles. Fechado, controvertido, polêmico, homem de lutas interiores. De origem humilde, teve, contudo, boa educação. Atuou como dançarino e portador da chama nos ritos de Apolo Zóstero. Fez carreira como atleta, indo depois para a pintura e para a filosofia (aluno de Anaxágoras). Dois casamentos desastrosos, três filhos. Famoso, como autor, pelo modo de tratar os personagens femininos. Viveu grande parte de sua vida numa caverna, em Salamina. Ganhou alguns prêmios literários, mas era comum ficar em último lugar nos festivais de Dioniso. Em 408 AC, emigrou para a Macedônia, passando a viver na corte do rei Arquelau. 

Dos três trágicos é o menos bem sucedido, mas, talvez, o mais aclamado nos séculos seguintes. Das 92 peças que escreveu temos 18, das quais 12 com nomes femininos. É dele também a única peça satírica que sobrou da Antiguidade, Os Cíclopes. É o mais trágico dos três; narrava os acontecimentos como  eram    e não como deveriam ser (Sófocles). A vida como ela é..., é frase dele. O nosso Nelson Rodrigues certamente se apropriou do mote. Por tudo isso, Eurípedes é o menos religioso dos trágicos gregos, o mais humano. Aplaudido por Sócrates, tinha simpatia pelos humildes e oprimidos. Descreveu as fraquezas, a covardia, o ciúme, a fúria, os demônios interiores do ser humano, sobretudo. Acreditava no indivíduo e era contra as soluções militares. Defendia a tragédia como praxis, ação, atividade. O homem sempre em conflito: de um lado, a escolha deliberada (proairesis) e de outro as paixões (pathos) que o vitimam.


Para Eurípedes, o cosmos não estava mais no mito, mas, sim, no grande cenário da vida humana. Promoveu a dessacralização do mito, a proletarização da tragédia. A tragédia não estava no Olimpo (Ésquilo) ou em Elêusis (Sófocles), estava, antes, nas ruas de

Atenas, nos seus mercados e becos escuros. O Eros, em Eurípedes, andava solto na força das paixões. Antes de Pascal, afirmou que o coração tem razões que a razão desconhece, como se pode perceber nas suas tragédias, em duas, especialmente, Medeia e de Hipólito. Sem dúvida, Eurípedes é o campeão da amargura ao romper com as tradições e apresentar as ideias novas dos sofistas no seu teatro. Por isso, ninguém tão longe de Platão como ele. É o filósofo da cena (scenicus philosophus). Tirou dos personagens as roupagens suntuosas, diminuiu a importância do coro, em seu teatro apenas um porta-voz do poeta para a intensificação da ação dramática. 

O teatro de Eurípedes se caracteriza sobretudo por nos mostrar personagens marcados por uma grande pathos, o que se deve acima de tudo á presença que nele tem  o Eros, ausente nos que o antecederam, como pulsão fundamental do ser humano, com toda a sua subjetividade. Eurípedes condenou a confusão mitológica, substituiu a Moira por Tyche (Acaso), a divindade do séc. IV, o período da decadência de Atenas. Uma de suas observações preferidas: Quem sabe se morrer não é viver e viver não é morrer? Para ele, o coração humano era o laboratório trágico por excelência. A mola da tragédia é, dizia, a hamartia, a expressão física da hybris. É, incontestavelmente, o poeta do declínio e da renovação da polis. O trágico, com ele, não vem de fora, está dentro, vem das regiões mal conhecidas do eu interior do ser humano. São dele Medeia, Hipólito, As Bacantes, Alceste, As Troianas, Ifigênia em Táuride, As Suplicantes, etc.


AS   BACANTES

Sua tragédia-símbolo é Medeia, grande personagem mítica, oriunda de uma família real da Cólquida, princesa, sobrinha da maga Circe. O nome, etimologicamente, lembra arquitetar, planejar (o mal). Como tragédia, Medeia é um dos maiores textos já escritos sobre o tema da paixão. Dentre os autores trágicos que vieram depois, só Racine chega perto dele. Ao fixar a imagem de Medeia para a posteridade, Eurípedes revolucionou não só a tragédia grega como o tratamento dado ao tema das heroínas gregas, algo cujo alcance parece nunca ter sensibilizado os estudiosos da psicologia feminina.

Os antigos gregos, no seu mundo aristocrático, apolíneo, como sabemos, faziam uma distinção entre a morte masculina e a morte feminina. A primeira era sempre gloriosa, pública, cheia de discursos, solene, heroica, viril. Já a da mulher era um reflexo do seu papel na sociedade grega. Sempre tutelada pelo pai ou pelo marido, vivia fechada no gineceu. Sua morte era sempre anônima, pois o papel que lhe cabia era o de levar uma “vida exemplar de esposa e mãe ao lado do marido”, este sempre voltado para os seus afazeres de cidadão, fora de casa. Péricles registrou a História e recomendava, como Ajax o fez a Tecmessa, sua companheira, que as mulheres de Atenas observassem sempre o silêncio como virtude máxima.

O que estás acima sobre o silêncio da mulher não deve nos espantar se conhecido o modo pelo qual a sociedade ateniense visualizava as mulheres no período clássico da história grega. Em primeiro lugar, estavam as cortesãs, depois as concubinas e por fim as esposas. Ricas, cultas, recebendo a elite política, intelectual e artística de Atenas em seus salões, as primeiras eram para os prazeres do
PÉRICLES   E   ASPÁSIA
espírito e da carne, estes, é evidente, só para muito poucos, pouquíssimos, como é o caso da relação Aspásia-Péricles. As concubinas eram belas, famosas, peritas nas artes de Afrodite, mas nada de intelecto com elas. Em terceiro lugar, ficavam as esposas, fechadas no recesso dos seus lares, com as crianças, os escravos e os cães. Viviam no gineceu, em torno da lareira (fogão), raramente tendo acesso ao androceu, espaço privilegiado masculino, pouco saindo de casa. Das instituições gregas, no geral, só duas eram acessíveis às mulheres, aristocratas ou não, o casamento e a maternidade. 


Conforme nos informaram Heródoto (séc. V aC) e outros historiadores modernos da cultura grega (o sempre lembrado Jean-Pierre Vernant, Marcel Detienne e Nicole Loraux), só na literatura, na tragédia grega de modo especial, a mulher grega tornou-se dona de sua morte através do suicídio, algo muito diferente daquele modelo de morte que o machismo lhe havia imposto na vida real. As histórias de Dejanira, Eurídice (mulher de Creonte), Jocasta, Leda, Antígona, Fedra são exemplares nesse sentido. Não
FEDRA   E   HIPÓLITO
suportando as pressões a que se sentiram submetidas, optaram pelo suicídio, cada uma delas com a sua razão. Entretanto, mesmo que considerado como um ato de liberdade, seu suicídio, aos olhos do mundo masculino, foi sempre uma “morte feminina”, “impura”, porque desprovida de coragem. Por maior que fosse o desespero (apelpismos), o suicídio era sempre uma fuga, uma morte covarde, sem andreia (coragem), palavra cuja etimologia nos remete ao vocábulo andrós (homem) e à partícula a, indicativa de privação, ou seja, uma virtude só acessível aos homens.

É interessante notar que a palavra suicídio, como a encontramos em francês, espanhol, português e mesmo em inglês, é formada com elementos latinos: sui, de si mesmo, e cidium, morte, do verbo cadere, matar. Eurípedes usava a palavra autocheiros, de auto, eu mesmo, e cheir, mão, para designar aquele que eliminava a sua própria vida ou a dos próprios pais. Os mesmos elementos gregos formaram, em português, palavra autoquiria, completamente esquecida, para designar o suicídio.  


PERSEU   E   ANDRÔMEDA
  
Pois bem: é aqui que entra Medeia, como Eurípedes a fixou para nós. A princesa da Cólquida, embora pressionada e humilhada pelo machismo grego como jamais outra figura feminina da tragédia o fora, ainda que desesperada, ao invés da fuga, do suicídio, partiu para o ataque, invadiu o mundo masculino, matando e destruindo. Segundo uma versão mítica, Medeia foi transportada para a ilha dos Bem-Aventurados, onde se teria unido a Aquiles, o maior dos guerreiros gregos. Nada tão distante de Medeia como as heroínas acima citadas, como Fedra, sua tia, como Antígona ou Jocasta, que, todas, entregando-se ao desespero, optaram pelo suicídio. Com

Medeia, estamos bem longe de heroínas como Evadne, Leda, Alceste ou Andrômeda. A primeira destas quatro citadas, Evadne, era mulher de Capaneu, que aparece na tragédia Os Sete Contra Tebas; ela se suicidou quando viu o corpo do marido sendo incinerado numa pira. Amada por Zeus, Leda era mãe de Helena, Clitemnestra e dos Dioscuros (Castor Polideuces). Conforme Eurípedes nos conta, ela teria se enforcado por causa da má reputação de Helena. As duas últimas sempre foram consideradas pelo machismo grego como modelos, a primeira, como “a melhor das mulheres”, porque aceitou morrer em lugar do marido quando a morte veio buscá-lo. Andômeda é tida como símbolo do amor filial por entregar-se, no lugar dos pais, à morte, como bode expiatório, quando os deuses resolveram destruir o país em que reinavam devido à hybris da rainha Cassiopeia.   


terça-feira, 14 de junho de 2011

PAI PATRÃO


O filme é de 1977, tendo em italiano o título Padre Padrone. No elenco, nos principais papéis, estão Omero Antonutti (o pai), Saverio Marconi, Marcella Michelangeli e Fabrizio Forte (Gavino). A Direção e o roteiro são dos irmãos Tavianni (Paolo & Vittorio). Música: de Egisto Macchi; fotografia: de Mario Masini. A base do filme é o livro Padre Padrone, l´educazione di um pastore, de Gavino Ledda.

Vencedor da Palma de Ouro e do Prêmio de Crítica Internacional do Festival de Cannes, em 1977, Pai Patrão é um dos filmes mais aclamados de todos os tempos, pelo que há de melhor na crítica cinematográfica mundial. Unanimemente, uma obra-prima. A direção é dos irmãos Taviani, os mesmos que nos deram outras importantes obras do cinema italiano: Sob o Signo do Escorpião, Um Grito de Revolta, Bom Dia, Babilônia, A Noite de São Lourenço, Kaos, Aconteceu na Primavera e outros mais.

A história é real, descrevendo-nos a trajetória de um menino, Gavino Ledda, que é obrigado pelo pai a abandonar os estudos para trabalhar nas montanhas, cuidando de ovelhas. As suas tentativas de mudar de vida foram sempre frustradas pelo pai, ignorante e prepotente. Com o tempo, porém, Gavino descobre que a sua única saída estava no estudo, que passa a buscar desesperadamente.

Gavino Ledda nasceu em Siligo, província de Sassari, na Sardenha, a 30 de dezembro de 1938 (Sol em Capricórnio, Lua e Saturno conjuntos em Áries, Mercúrio em Sagitário, Vênus e Marte em Escorpião, Júpiter em Peixes, Urano em Touro, Netuno em Virgem e Plutão em Leão), numa família pobre de pastores. Aos seis anos, é retirado da escola pelo pai, quando cursava o primeiro ano. O pai precisava dele, como filho mais velho que era, para auxiliá-lo no trabalho agrícola e pastoril. A escola, afirmou o pai, era um luxo que os pobres pastores não podiam pagar e, por isso, verberava as autoridades que haviam tornado a escola obrigatória. Uma frase que está no filme sintetiza este seu modo de ver: La povertà, obbligatòria è quella (A pobreza, essa é que é obrigatória).

Condenando o filho ao analfabetismo, ele fazia com Gavino o que o pai fizera com ele. A brutalidade e os espancamentos eram comuns na vida do menino e depois do jovem, enchendo-o de marcas, que chegaram mesmo a deformar o seu rosto. O fato é que Gavino passou a sua vida, da infância à adolescência, num verdadeiro estado de escravidão, submetido a trabalhos demasiadamente penosos.

No final de sua adolescência, conseguiu com muita obstinação se livrar da vida que o pai lhe impusera. Pensou em emigrar para a Holanda, mas acabou ingressando no exército. Não sabia o que responder quando era interpelado pelos seus superiores; respondia como sempre respondera ao pai: Signorsì (Sim, Senhor). Distinguia muito mal a língua italiana. Logo, porém, com o auxílio de um oficial e de um companheiro que por ele se interessaram, com uma espantosa determinação, foi superando as suas grandes deficiências. Acabou alfabetizado, com um vocabulário bem acima da média, como sargento radioperador numa escola de comunicações do exército. Em 1962, deixou o exército e voltou à Sardenha para continuar os seus estudos.

O pai e a gente de Siligo acharam-no muito pretensioso por ter abandonado a carreira militar, já que se a seguisse sua sobrevivência estaria assegurada. Gavino, porém, queria mais. Pensava então em fazer exames de conclusão do nível secundário e depois em ingressar numa faculdade. Insistiu, enfrentou o pai e a gente do lugar. A essa altura, ele já fazia parte de um outro mundo: seu patrimônio linguístico e cultural já não era o mesmo da gente de Siligo. Amava aquela gente, mas precisava ir além, interessar-se pelo mundo.

O livro de Gavino Ledda nos põe em contacto com dois mundos em contradição irredutível, o do pai e o do filho. Ao lê-lo não podemos deixar de nos lembrar de Isaac, personagem bíblico, filho de Abraão e de Sara. Os pais o tiveram já velhos. Deus testou a fidelidade de Abraão, exigindo que o filho fosse sacrificado (o teste de obediência, chamado pelos judeus de akedá). No último momento, como se sabe, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão. Este episódio bíblico dá origem ao chamado complexo de Isaac, assim configurado: filhos aos quais os pais transferem os seus problemas para que estes paguem por eles. Ou, ainda: o filho que passivamente se coloca à mercê do pai, que lhe impõe um destino, tornando-o muitas vezes seu herdeiro profissional. É o caso do descendente que assume o que o pai determina sem se revoltar. O patriarca Abraão representa nesta perspectiva o julgamento severo de Deus, o chamado julgamento divino pelo lado esquerdo. Cruel, orgulhoso, dominador, Abraão é um ser da separação, um ser que rejeita o amor à posteridade.

No ano de 1969, Gavino Ledda concluiu seu curso superior de Glotologia (gloss, glott, língua, linguagem; no caso de Gavino, o estudo dos dialetos da Sardenha e dos povos de ilhas do Mediterrâneo) na Universidade “La Sapienza”, de Roma. Em 1971, é designado para assistente de Filologia (estudo rigoroso dos documentos escritos antigos e de sua transmissão, para estabelecer, interpretar e editar esses textos) e de Linguística (estudo da linguagem humana sob o ponto de vista fonético, morfológico, sintático, semântico, social e psicológico) na Universidade de Cagliari. Ao mesmo tempo em que fazia os seus estudos superiores, escrevia Padre Padrone, publicado em 1975 (editora Feltrinelli), ganhador de um dos mais importantes prêmios literários da Itália, o “Viareggio”, logo traduzido em quarenta línguas.

O filme Padre Padrone foi lançado pelos distribuidores americanos no circuito internacional com um título meio idiota, My Father, my Master. Em 1984, Gavino Ledda dirigiu um estranho filme chamado Hybris. Nos anos seguintes, publicou romances e poemas. Em 2004, esteve em São Paulo, quando da realização da 18ª Bienal do Livro, mostrando-se muito avesso a badalações literárias dessa natureza.

A história de Hybris (1984) é curiosa. Ao voltar à vila dos seus ancestrais, o personagem (Gavino) possuía um título universitário, o que o afastava completamente das pessoas do lugar, de uns poucos amigos de infância. Sofria de uma úlcera, que conseguiu curar com a ajuda de Leonardo da Vinci, seu mentor imaginário. Refugiando-se numa pequena cabana de pastores nas montanhas, seu lar por uns tempos, é visitado tanto por deusas gregas (luz) como por demônios (trevas) que ele tem que subjugar se quiser prosseguir na sua vida de estudos. Seu orgulho (Hybris) deriva da vontade que demonstra no sentido de vencer todas essas pressões e da consequente resignação que assume diante da inevitável punição que virá por ousar enfrentar essas forças negras e luminosas, a fim de procurar por si mesmo o seu próprio caminho.

Hybris, lembremos, é palavra grega que pode ser traduzida como desmedida, excesso, uma disposição interior que leva o homem a ultrapassar limites de onde nunca deveria ter saído. Por isso, os deuses gregos punem toda hybris. Ciúme?




O filme Pai Patrão é um drama contundente ao descrever a opressão patriarcal como a encontramos em muitas sociedades humanas, fortemente marcadas pelo patriarcado, nelas aparecendo a figura paterna como um verdadeiro senhor da vida e da morte dos seus filhos. A primeira parte da vida de Gavino é uma grande ilustração dos complexos de Isaac e de Cronos, ambos de certa forma parecidos. No filme, o pai oprime o filho para transformá-lo apenas em força de trabalho servil na atividade agrícola e pastoril.


Os irmãos Taviani narram a opressão paterna através de belíssimas imagens da paisagem sarda. O pai e a própria natureza do lugar, inculta e bela, acabarão sendo superados por ele mas não eliminados de sua vida, como sugere a cena final. Eles permanecerão inscritos no psiquismo de Gavino como memória-hábito e exteriorizados na postura da vigília balanceada do gesto no pasto.




Ao que já foi dito sobre o complexo de Cronos, dentre os grandes símbolos ligados a esse deus e à sua versão romana, Saturno, não podemos deixar de incluir, retiradas do filme, referências à figura devoradora e brutal do pai, à aridez da Sardenha, às montanhas, às pedras e às ovelhas. É interessante destacar que, na origem, Saturno, o Cronos dos romanos, o dono do complexo que estudamos, foi uma divindade rústica, representada com o podão dos vinhateiros. Aos poucos, passou a representar psicologicamente o despojamento, a fatalidade, o rigor, o princípio de conservação do qual decorrem a seriedade, a vontade, a reflexão, a previdência e também a inibição e o retardamento dos reflexos.

Nos seus aspectos mais negativos, Saturno simboliza também o chamado complexo do desmame (separação da figura materna) e suas consequências: o medo da vida, a inadaptação, a solidão, a tristeza, a fixação no passado. O regime de Saturno é, como se sabe, o da inibição e o seu clima afetivo é o da falta, da privação, da frustração e finalmente o da renúncia. Os acontecimentos mais representativos de Saturno são os atrasos, os entraves, as freadas, as limitações, os abandonos, as separações, as perdas e os sacrifícios, que aparecem muitas vezes associados à pobreza, à penúria e à miséria.

No plano das correspondências, lembremos que Cronos (Saturno) admite as seguintes: a) corporais: dentes, tendões, cartilagens, pele, joelhos, ossos, unhas, cabelos, baço, resfriados em geral, paralisias, calosidades, entraves na locomoção, fraqueza das pernas, surdez; b) morais: ambição, avareza, desconfiança, misantropia, depressão e todas as provas relacionadas com as sucessivas separações pelas quais o ser humano deve passar depois do rompimento do cordão umbilical, as renúncias, abandonos e sacrifícios que a vida impõe; c) gerais: lugares ermos e desolados, desertos, ruínas, frio, nevoeiros, inverno, geada, neve, charnecas, maquis, chaparrais; d) animais: crocodilo, cabra montanhesa, camelo, urso, asno, toupeira, porco-espinho, tartaruga, sapo, licorne e todos os animais de patas fendidas; e) vegetais: cipreste, olmeiro, pinheiro, teixo, cânhamo e todas as plantas xerófitas; f) minerais: chumbo, enxofre, magnésio, rochas duras, pedras e terras negras; g) alquímicas: coagulatio, fixatio, crucifixio, mortificatio e conjunctio; h) astrológicas: Lua, ou seja, só podemos encarnar através de um útero feminino; toda forma, manifestação ou estrutura específicas que solidifiquem nossas energias vitais numa expressão particular e concreta dependem, em última instância, do princípio feminino, lunar.

Finalmente, uma palavra sobre o complexo de Cronos. Do ponto de vista paterno, esse complexo é imposto pelo princípio da autoridade paterna, isto é, no mito, o soberano que se nega a reconhecer mudanças, que não aceita que o que entra na existência passe por transformações. Fixado nas suas prerrogativas, dono das archai, ele rejeita toda a ideia de sucessão, não admitindo outra ordem que a sua, a por ele estabelecida.


Muitos que são tomados pelo complexo de Cronos não querem abandoná-lo. Apegam-se a ele porque não terão que decidir nada. Terão apenas que viver imóveis, submetidos, não reivindicando, já que tudo (um mínimo para a sobrevivência) lhes será dado. Uma espécie de perfeição estagnante, mas sempre uma contradição inelutável porque a vida não para.


Ao representar também tudo aquilo que simboliza a interdição à figura materna (complexo de desmame) e a ordenação de acesso ao mundo real, Cronos, mesmo nas suas versões mais “protetoras e bondosas” é também um modelo para o nosso vir-a-ser. Uma identificação desta natureza implica sempre uma morte (a do Pai) e um nascimento (o do nosso ego). É por essa razão que já se disse que o complexo de Cronos é o complexo de Édipo às avessas.