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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU -- PLUTÃO (4)





A Mesopotâmia, a chamada “Terra Entre Rios” pelos historiadores gregos, que corresponde mais ou menos ao Iraque de hoje, era em sua maior parte uma desolada planície de aluvião. Ficava fora dessa paisagem apenas uma parte de pântanos e brejos, com sua vegetação de caniço, onde os rios Tigre e Eufrates desaguam no golfo pérsico. O clima, de um modo geral, era (é) quente e seco. Não há minérios nem madeira para as construções, sendo o solo, se não receber cuidados especiais, árido e improdutivo.

Mas foi nessa região, no quinto milênio aC, que o homem se tornou, ao que parece, realmente civilizado. Um povo conhecido como sumério ergueu os primeiros centros urbanos na região, com uma vida opulenta e complexa. Foi esse povo que resolveu por primeiro tentar regularizar as relações entre o poder tribal e as necessidades políticas de se unir os grupos humanos dispersos pelos desertos em centros políticos poderosos. 



A unificação política veio acompanhada de uma grande engenhosidade técnica (a construção dos famosos zigurates, os templos em forma de torre), de grande especialização industrial e
ESCRITA CUNEIFORME
comercial para a época, ao lado de um excepcional desenvolvimento artístico. Importante também, para esse progresso urbano, que superava o do próprio Egito, a invenção de uma escrita, um sistema prático, que operou uma revolução no campo das comunicações. 

As ideias práticas dos sumérios, suas técnicas e invenções foram depois cultivadas pelos demais povos da Mesopotâmia, os babilônios, assírios e outros, difundidas de leste a oeste, imprimindo a sua marca em todas as culturas da antiguidade. O Antigo Testamento está cheio de referências aos povos mesopotâmicos. Visitada por historiadores e viajantes gregos e romanos, a região só voltaria a ser notícia por volta do séc.XII,
TEMPLO   EM   NÍNIVE
quando europeus começaram a fazer seus relatos sobre as ruínas que encontraram na planície entre o Tigre e o Eufrates. No século XIX, porém, quando uma verdadeira paixão pelas antiguidades orientais dominou a Europa, pesquisadores começaram a investigar os misteriosos vestígios das antigas cidades da região. Revelaram-nos eles, então, os esplendores da antiga Babilônia, de Nínive e de outros importantes centros urbanos da “Terra Entre Rios”.


A religião da antiga Mesopotâmia é, pelo menos até agora, a mais velha dentre as que nos oferecem documentos escritos. As crenças sumérias, transformadas em religião, asseguravam uma orientação espiritual e ética para os negócios humanos e para os transcendentes mistérios da vida e da morte. Os babilônios e os assírios, sucessores dos sumérios, adotaram a maioria dos seus deuses e das suas práticas religiosas.


ANKI    

A Terra, para os sumérios, era um disco achatado que formava um todo com o céu, dando-se a esse todo o nome de Anki (céu+terra). O espaço entre o céu e a terra era preenchido por uma matéria chamada Lil. Ao redor da Terra agitava-se o mar, infinito, sem repouso, sustentando miraculosamente o universo. A onipresença das águas deixou claro para os sumérios que elas estavam na origem de todas as coisas. 

Apsu era o nome desse elemento aquático primordial,  dele fazendo parte a água doce, o Apsu propriamente dito, e a água salgada, oceânica, chamada Tiamat. Desse elemento primordial saíram todos os seres, deuses e humanos. Além do Apsu, ficava o mundo infernal, algo muito semelhante à elaboração mitológica grega. 

O Apsu era personificado como uma espécie de grande abismo
TIAMAT   E   MARDUK
cheio de água que cercava a Terra, concebida como um planalto, às vezes montanhoso, acima da qual repousava a abóbada celeste. Era do Apsu que provinham as fontes que brotavam na superfície da Terra. Tiamat e Apsu eram considerados como um par fêmea-macho, apesar de confundidas as suas águas. 


Mesmo com o auxílio dos deuses, inclusive de divindades intermediárias, as chamadas divindades pessoais, havia um guardião que velava pelo crente e por sua família. Quanto aos seres humanos, eles só podiam contar com uma certeza, a da morte e de sua descida ao submundo. Em geral, essa região era concebida como um vasto espaço cósmico que ficava sob a superfície da terra, correspondendo mais ou menos ao céu, acima da Terra. As almas dos mortos desciam às profundezas desse mundo subterrâneo, devendo para tanto atravessar de barco um grande rio, concepções muito semelhantes de onde os gregos retiraram talvez muitas das suas para construir o seu Hades. 

ENKI  OU  EA
Impossível escapar desse mundo protegido por sete muralhas, mesmo no caso de uma divindade. A grande deusa Ishtar, que imprudentemente se havia aventurado a descer a esse mundo, abandonando a cada etapa da descida, um peça de sua roupa, viu-se prisioneira dele. Se não fosse a intervenção de Ea ou Enki, grande divindade do Apsu, detentora de grande sabedoria e de poderes mágicos e encantatórios, Ishtar lá teria ficado até o fim dos tempos. 

A deusa Ishtar, personificação do planeta Vênus, também chamada
ISHTAR
Inana, era uma divindade muito mais ligada às tradições semíticas do que às suméricas. Ela aparecia associada tanto ao amor e à prostituição sagrada como à guerra. Para arrancar seu amante Tammuz, deus da vegetação, das colheitas especialmente, do mundo infernal, concebeu o audacioso projeto de descer ao Inferno. Chegando à presença de Ereshkigal, a soberana desse mundo, esta convocou seu auxiliar Namtaru e ordenou que ele encerrasse a deusa no seu palácio e liberasse, para que ela fosse atingida, sessenta doenças. Ea, contudo, intervindo, conseguiu libertar Ishtar e seu amante.



TAMUZ


GIGAMÉS

Às vezes, muito raramente, as divindades podiam conceder às almas que desciam ao Inferno o privilégio de, por uns momentos, subir à luz. Assim, Enkidu, o companheiro do herói Gilgamés foi autorizado a revelar a seu amigo o que se passava no reino das sombras. A descrição que ele nos deixou foi desoladora. No mundo infernal, de trevas absolutas, as almas que lá viviam tinham o nome de edimmu e usavam uma roupa alada para lá viver. Seus alimentos eram a poeira e a lama. Só alguns, por uma deferência especialíssima, tinham direito a um leito e um pouco de água pura. 


EDIMMU

Além das almas dos mortos, eram encontradas no Inferno, em cativeiro, divindades que haviam sido vencidas pelos deuses. A
ANU
principal destas divindades chamava-se Qingu, chefe dos exércitos de Tiamat e seu amante. Vencidos por Marduk, Tiamat e a sua monstruosa guarda pessoal foram exterminados e Qingu foi aprisionado no mundo infernal. Com essa vitória, como se sabe, Marduk se apoderou das Tábuas do Destino, das quais Tiamat se havia apossado, e as entregou a Anu (An), a grande divindade celeste. 

ERESHIKIGAL
Reinava sobre o mundo subterrânea a deusa Ereshkigal (etimologicamente, Rainha do Grande Mundo Subterrâneo), primitivamente a sua única e maior autoridade. Era ela mãe das deusas Nungal e Namtar, filhas, respectivamente, pelo lado paterno, de Birtum e de Enlil. Um dia, porém, o deus Nergal, “o senhor da grande residência”, divindade associada às guerras sob o nome de Erra, e ligado à destruição pelo fogo, às
ENLIL  E  NILIL
febres e às pragas, assaltou o mundo infernal com catorze demônios que ele postou nos seus diferentes portões. A fim de obter a paz, Ereshkigal consentiu em tomá-lo por esposo. Assim, Nergal, até então um deus ligado à destruição e às doenças, tornou-se baal (senhor) dos mortos. Ele tem por símbolo tanto uma espada como uma cabeça de leão. Assessora-o o deus Namtaru, como divindade das pestes.


Do seu palácio com sete portões sempre trancados, governavam o Inferno  o sombrio Nergal em companhia de Ereshhkigal, auxiliados por uma grande quantidade de divindades menores, inclusive os sete Anunnaki, que agiam como juízes. Além disso, havia tropas de demônios, chamados galla, com poder de polícia. O grupo inteiro, exceto os galla, recebia, para “viver” nesse mundo, tudo o que um ser humano precisava normalmente para viver na terra, comida, roupa, utensílios diversos etc.



ANNUNAKI

Os Anunnaki, etimologicamente, os nascidos antes, eram assim chamados porque faziam parte de um grupo de divindades primitivamente nascidas mas que não tinham se individualizado, diferenciado, não tendo por isso nomes. Prestavam serviços aos deuses. Seiscentos deles prestavam serviços a Nergal. Nos céus, atuavam apenas trezentos.

GESTINANA
No Inferno mesopotâmico não havia a rigor nenhum julgamento ou avaliação das qualidades morais dos mortos. O morto simplesmente se apresentava a Ereshkigal, que pronunciava a sentença, enquanto seu nome era anotado na Tábua por Gestinana, escriba do mundo infernal. Nesse cenário, o deus Ningiszida funcionava como mestre-de-cerimônias. Pabilsag era o deus-administrador, Namtar seu ministro ou mensageiro e Netar era o porteiro. 


GILGAMÉS

Ao longo dos séculos, vários trabalhos literários refletiram as mudanças pelas quais o cerimonial do Inferno mesopotâmico passou. Os textos mais notáveis estão no conhecido poema de Gilgamés, A Descida de Inana ao Mundo Subterrâneo, e no épico babilônico sobre Gilgamés onde se inclui o sonho de Enkidu sobre a sua morte e outros.

 O mundo infernal era conhecido pela expressão “a terra da qual ninguém retornava”. Para nele penetrar era preciso passar sucessivamente por sete portões, abandonando em cada uma deles uma peça de roupa. Fechada a última porta, o morto, isto é, sua alma, ficaria aprisionado para sempre na “morada das trevas”. 

Acreditava-se na antiga Mesopotâmia que a imortalidade estava reservada aos deuses e que a morte era o inevitável quinhão dos homens. Na concepção suméria, o morto quando ia para o inferno ficava obrigado a consumir poeira e lama, como se disse. Já na concepção assiro-babilônica, ele ficava à mercê de temíveis demônios  e monstros. 

Estas concepções contrapunham-se, sem dúvida, de modo radical, às concepções egípcias e às práticas de embalsamamento e mumificação. Este “pessimismo” mesopotâmico é atribuído provavelmente às duríssimas condições de vida das primeiras tribos que se instalaram no sul da Mesopotâmia. Com efeito, vivendo na aluvial planície suméria, eles pouco mais tinham para subsistir do que argila, embora com o tempo tenham criado uma grandiosa civilização.


GIDIM

As primeiras crenças relacionadas com a vida depois da morte admitiam que muitos seres humanos podiam sobreviver na forma de espíritos ou de fantasmas, passando a viver no mundo ctônico. Esses espíritos ou fantasmas eram chamados de gidim e deveriam ser reverenciados mediante determinado culto. As “condições de vida” dos gidim não poderiam ser consideradas como agradáveis. Eles precisavam receber constantemente oferendas de comida e bebida, pois, do contrário, se tornavam agitados, intranquilos, voltando do mundo infernal para perturbar os vivos. Era comum que os espíritos dos que haviam tido morte violenta voltassem para “agarrar” o seu assassino ou seus familiares. Para isso, o gidim entrava no corpo de suas vítimas, principalmente através do ouvido, enlouquecendo-as.  Só a magia poderia sossegá-los e assim mesmo com grande dificuldade.

A necromancia, a evocação dos mortos, era muito praticada, ganhando destaque na Babilônia. Questões sobre situações futuras poderiam ser propostas pelos necromantes aos espíritos nas sessões, ainda que tal prática sempre oferecesse algum perigo, principalmente se tivessem como objetivo a reversão de situações ou influências negativas. Atribuía-se também aos espíritos o poder de causar doenças, principalmente perturbações mentais.

O conhecimento que temos da vida além-túmulo dos mesopotâmicos deve-se sobretudo, como se disse, ao texto do poema sumério Gilgamés, Enkidu e o Mundo Subterrâneo. Parece certo que a prática de enterrar os mortos tinha por objetivo tanto a manutenção de um contacto com eles através de determinado culto e ritos (dar-lhes de beber água através de libações) como evitar que eles ficassem a perambular pela terra depois de mortos como fantasmas (gidims).

Em todas as religiões, como se sabe, acredita-se que há vários níveis de divindades entre o céu e a terra. No primeiro, vivem aquelas que têm relação direta com as manifestações celestes, fenômenos atmosféricos etc. e com a ordem cósmica. Constituem o topo dos vários panteões. Muitos próximos da terra, habitando geralmente o mundo subterrâneo, vivem umas divindades que sob o nome de demônios, seres sobrenaturais, espíritos etc., renegaram a luz e preferiram viver nas trevas.

As palavras para designar esses seres entre os mesopotâmicos eram rabisu (Suméria) e maskim (Acádia). Os mais recentes estudos sobre a civilização mesopotâmica nos dizem que os mencionados nomes tanto poderiam usados positiva ou negativamente. Os mesopotâmicos usavam expressões como Fora, maus rabisu! como Socorre-me, bom rabisu!, conforme o caso. 

Geralmente, maus demônios sempre foram concebidos como agentes executores da vontade maléfica dos deuses. Eles eram os encarregados de punir os humanos que incorriam no erro e no pecado. Estes maus espíritos eram idealizados sobretudo como entidades que agiam através do mau tempo, de catástrofes, tempestades, ventanias etc. Outra forma de atacar os humanos era a de causar-lhes doenças.




LAMATSU

Lamatsu era um demônio feminino, filha do deus Anu, que se situava acima da faixa onde atuavam os demônios comuns, que agiam sob as ordens de algum deus. Com Lamatsu era diferente, ela praticava o mal por iniciativa própria. Suas principais vítimas eram os fetos e os recém-nascidos. A morte pelo aborto era dela. Recém-nascidos, se atacados por ela, podiam inclusive morrer enquanto dormiam. Mulheres grávidas, se tivessem seu estômago tocado por ela, perdiam a criança. Muitas vezes, ela simplesmente sumia com a criança adormecida no berço.

Para se proteger contra os ataques de Lamatsu, as mulheres assim

PAZUZU 
que engravidavam passavam a usar uma cabeça de bronze de Pazuzu, na forma de amuleto. Esta deusa-demônio era representada sob a forma canina, com olhos enormes, corpo escamado, com componentes ofídicos e asas. Era reconhecida como um demônio do mundo subterrâneo. Era uma entidade protetora contra ventos pestilenciais que traziam epidemias. Era Pazuzu quem forçava Lamatsu a voltar para o Inferno (lembro que Pazuzu “apareceu” no filme norte-americano O Exorcista).


Enquanto divindades como Enlil, Utu, Eki/Ea promoviam o bem e a justiça, protegendo o homem, os fracos, as viúvas e os órfãos, os fantasmas, os espíritos e as divindades do mal, demônios como Udug, Lama, Alad ou Galla faziam o mal. Os mesopotâmicos  tinham também um demônio, Mimma Limnu (etimologicamente, tudo o que é mau), encarregado levar o mal a qualquer canto do universo.



REPRESENTAÇÃO   CÓSMICA

Temos notícias de que por volta do ano 1.000 aC os babilônicos já tinha perfeitamente definido um zodíaco com dezoito constelações através das quais a Lua e os planetas se movimentavam. Por volta do séc. VII aC (reinado de Nabucodonosor II), redesenhou-se o céu, ficando reduzidas as constelações zodiacais a doze. No oitavo setor zodiacal, denominado Arashama, relacionado com o mês Apindua, representado por um escorpião (girtab), os deuses infernais eram mostrados como senhores dessa região. 



ASTRÓLOGOS   MESOPOTÂMICOS
Sabe-se que os antigos mesopotâmicos adotaram o ano lunar de 12 meses lunares. De três em três ou de quatro em quatro anos era intercalado um mês para ser mantida a sincronização do calendário com o ano solar. 

O legado mesopotâmico alcançou o ocidente pelas vias do helenismo, do judaísmo e do cristianismo. Esse legado incluía noções astronômicas e astrológicas, as do círculo dividido em graus e a hora em minutos e segundos. As suas observações astronômicas permitiram que fossem criados os eixos equinociais e solsticiais, definida a regularidade das fases da Lua e desenvolvidos os conhecimentos que permitiram entender como  o céu e seus astros afetavam a vida na Terra, a humana de modo especial,  além de terem fixado eles, os mesopotâmicos, as primeiras designações das constelações zodiacais, adotadas até hoje.   

domingo, 9 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (1)




Marte  é  um planeta relativamente pequeno em comparação com  o nosso. Seu giro inclinado em torno do Sol é muito semelhante ao da Terra.  Seu  diâmetro  (6720 km)  é  a  metade  do  nosso   diâmetro equatorial e seu dia tem  pouco mais de 24 horas;  possui ele quatro estações,   mais  longas  que   as nossas, pois seu  ano é de 687 dias. Dista do Sol, em média,  mais ou menos,   227  milhões de km. e da Terra  cerca de 56 milhões de km. Sua massa é de 11% da massa da Terra e sua densidade é de cerca de 70%.


Observado desde a antiguidade, sempre foi conhecido como o “planeta vermelho” por causa de sua coloração. Era chamado pelos babilônicos de Nergal, o “astro da morte”, nome do seu deus da guerra. Suas Luas,  Fobos e Deimos, têm seus nomes extraídos da mitologia grega.

Como todos os planetas, Marte é um dos princípios da vida cósmica, representando os conceitos masculinos caracterizados pelo dinamismo instintivo, pela vontade obstinada, pela coragem, pela brutalidade, pela violência, pela luta e pela oposição. Neste sentido, simbolicamente, é a força do ego em ação, revelando o grau da natureza animal que há no homem, podendo indicar, contudo, uma busca de superação dos desejos pessoais em direção a uma orientação mais universal. 


Os egípcios associavam a atividade guerreira ao Sol, como a imagem e as atribuições do deus Montu deixam claro. Por essa razão, os gregos quando chegaram ao Egito, ligaram essa divindade tebana ao seu Apolo. Montu foi particularmente venerado pelos reis da décima primeira dinastia, no começo do Médio Império (2133-1786 aC).

Foi nesse período que faraós poderosos suprimiram os privilégios feudais e deram início a grandes obras de irrigação, vitais para o país, unificado sob o comando do faraó tebano Mentuhotep II, que impôs Tebas como a capital do país. As minas de cobre da península do Sinai começaram então a ser exploradas ativamente e postos avançados foram construídos, atingindo-se a terceira catarata do rio Nilo. 


TEBAS

A política real tinha, externamente, a esse tempo, um caráter expansionista. Nesse período, de grande esplendor cultural, foi produzida uma literatura de nível superior, com destaque, nas artes figurativas, para o retrato. Construiriam-se templos e estátuas em escala colossal, base de uma centralização religiosa na figura do deus Amon.


AMON COM A CABEÇA DE CARNEIRO

Amon, o Escondido, antropomorfizado, era representado ora com a cabeça de um carneiro ora com a de um ganso, sobre a qual havia um disco solar, nele se fixando duas grandes penas. No Médio Império, a personalidade de Amon se enriqueceu,  ao incorporar traços de outras divindades, especialmente os de Ra, deus solar de Heliópolis. Dessa fusão, nasceu Amon-Ra, que recebeu as prerrogativas de Montu e de Konsu, O Navegador, aquele que atravessa o céu na sua barca, uma divindade lunar na sua origem. 

Amon-Ra, como se sabe, foi a grande divindade egípcia que serviu de inspiração para os judeus adotarem o monoteísmo como forma religiosa. A crença em um só deus é fixada pelos judeus na Bíblia e no Talmud. De acordo com a tradição, foi Abraão o primeiro, como fundador do judaísmo, a defender a unicidade de deus.  

Montu é conhecido também por imagens em que a sua cabeça é de falcão ou de touro. Aos poucos, pela relevância política dada a Amon-Ra, o culto de Montu se concentrou na sua imagem guerreira, divindade bélica, que usa a khopesh, espécie de cimitarra em forma de meia-lua, usada para cortar a cabeça dos inimigos do faraó.

Fazendo parte do mundo marcial entre os egípcios encontramos
SEKHMET
também Sekhmet, Sakhmis em grego, deusa da guerra e dos combates, representada comumente como uma leoa ou uma mulher com cabeça de leoa. Seu nome, que significa A Poderosa, é um epíteto dado à deusa Hathor, divindade associada pelos gregos à sua Afrodite, quando a deusa, tomando a forma de uma leoa, se lançou contra os humanos que não aceitavam Amon-Ra como divindade suprema. Sua violência foi tamanha que o próprio deus teve que lhe pedir calma,  que se contivesse um pouco, pois grande parte da humanidade corria o risco de ser exterminada. 


ROMÃ
Para conter A Poderosa, Amon-Ra recorreu a um estratagema: espalhou sobre o lugar da carnificina milhares de cântaros com uma bebida mágica (mistura de cerveja com suco de romã). A deusa, tomando a bebida por sangue humano, se pôs a bebê-la com tamanha avidez que, embriagada, não conseguiu levar adiante a matança. 

Salva assim a humanidade, Amon-Ra instituiu uma festividade para apaziguar Sekhmet. No calendário religioso egípcio, esta festa caía no décimo segundo dia do primeiro mês do inverno, data em que a deusa promovera o grande massacre. 

Na  Mesopotâmia, no mundo assiro-babilônico, é Ishtar quem assume as atribuições de deusa da guerra. Filha de Anu, deus dos espaços celestes, segundo uns ou, segundo outros, de Sin, deus-Lua, que ocupava o primeiro lugar na trindade astral (Shamash, o Sol, e a própria Ishtar eram os outros), Ishtar era uma divindade bastante complexa, sendo considerada tanto como deusa da guerra como do amor. 


ISHTAR

Como guerreira, Ishtar era venerada sobretudo em Hallab, aparecendo neste caso como filha de Sin e irmã de Shamash. Era a “dama das batalhas”, a mais valente entre as deusas. Ela conservou estes atributos quando foi adotada pelos assírios, tornando-se esposa de Ashur, deus nacional do país. Tomava parte em todas as expedições do marido, participando ativamente das batalhas. Era representada sempre de pé, conduzindo um carro puxado por sete leões, levando numa das mãos um arco, sendo particularmente adorada em Nínive e Arbeles, onde tomava às vezes o nome de Anunit, como ocorria em Agadé, capital do país de Akad. 

Como irmã de Ereshkigal, deusa dos infernos, Ishtar contribuiu
ERESHKIGAL
bastante para povoar o reino da irmã. Era conhecida então como a “estrela da lamentação” (planeta Vênus), ao provocar disputas de todo o gênero, brigas entre irmãos, entre pais e filhos,  separação de amigos, de casais, de colegas de trabalho etc. Embora apareça também como deusa do amor, o traço mais forte de sua personalidade é a voluptuosidade, o caráter obsessivo de seus desejos, lembrando muito, astrologicamente, o planeta Marte no signo de Escorpião. Ishtar mostra-se invariavelmente irritável, violenta, incapaz de suportar qualquer negativa aos seus desejos. 


Uma de suas atribuições mais importantes era a de  espalhar, por todo o mundo natural e humano (aqui unilateralmente) o desejo amoroso. A prostituição religiosa, como a hierodulia entre os gregos, fazia parte de seu culto, sendo Erech a sua cidade santa. Como primeira prostituta sagrada, seus amantes eram muitos. Inconstante, ela costumava tratá-los muito mal. Para os próprios deuses, o amor de Ishtar era funesto.





ASTARTE

Contudo, apesar de seu temperamento irritadiço, o coração de Ishtar era capaz de experimentar sentimentos generosos. Um de seus apelidos, quando assumia esse papel, era Benfeitora. Muitos reis deveram a sua ascensão ao trono à sua proteção. Soberana do mundo, foi a deusa mais popular da Assíria e da Babilônia, sendo imenso o seu prestígio. Sob o nome de Astarte, tornou-se uma das grandes divindades da Fenícia, tendo fornecido inclusive muitos de seus traços para a Afrodite grega.

Inicialmente, no mito, Ereshkigal era a divindade absoluta do mundo subterrâneo, infernal. Um dia, porém, o deus Nergal, divindade masculina da guerra (o planeta Marte como regente de Áries na Astrologia babilônica) resolveu atacar o reino dos mortos, assessorado por catorze demônios. Para uns, depôs a rainha e assumiu o poder. Para outros, porém, chegaram ambos a um acordo e o compartilharam. Nergal, além de deus das batalhas, era o Sol do meio-dia que secava a terra, que queimava e destruía, provocando incêndios e devastação. Associava-se assim tanto à luz (Sol do meio-dia) como à escuridão, o mundo subterrâneo. Esta elaboração mitológica dos babilônicos, sob o ângulo astrológico, é perfeita. Fala da exaltação do Sol em Áries e da regência noturna de Marte em Escorpião, apontando também para a grande “acomodação” que Plutão tem em Áries. 


NERGAL

A união entre Ereshkigal e Nergal está assim expressa num tabuinha de argila que desse mundo nos chegou: Tu serás meu esposo, disse-lhe ela, e eu serei tua mulher; farei com que possuas a realeza sobre a vastidão da terra, colocando-te na mão a tabuinha da sabedoria.” Foi assim que Nergal se transformou no baal dos mortos. Ele tinha por símbolo a espada e a cabeça de um leão. Dentre seus assessores, destaca-se Namtaru, seu primeiro ministro e comandante das tropas infernais, deus da peste. 

Diante do que expus acima sobre Ishtar, julgo interessante
IANSÃ
aproximar a grande deusa mesopotâmica de um dos mais conhecidos orixás, Yansã, do Candomblé, religião animista, original dos atuais Nigéria e Benin; trazida para o Brasil por africanos escravizados e aqui estabelecida. Nessa religião, como se sabe, sacerdote e adeptos encenam, em cerimônias públicas e privadas, uma convivência com forças ancestrais da natureza. 

Orixá é designação genérica das divindades cultuadas pelos iorubás do sudeste da Nigéria, do Benin e do Togo que fazem a intermediação entre as referidas forças naturais e sobrenaturais e os seres humanos.

Divindade dos ventos e das tempestades, Yansã tem um temperamento ardente e impetuoso. Foi a primeira mulher de Xangô, grande orixá, viril, violento e atrevido, justiceiro, que castiga os mentirosos, ladrões e malfeitores. Seus atributos são o trovão, o relâmpago e o raio, os mesmos de Zeus, na mitologia grega, que Yansã foi buscá-los no Inferno e os deu a seu “homem”. É por essa razão que acidentes ou mortes provocados pelo raio são sempre considerados no Candomblé como infamantes.  O carneiro, cuja chifrada tem a rapidez do raio, é o animal do seu sacrifício.


DANÇA DE YANSÃ

As danças de Yansã são guerreiras, nelas se evocando sempre, através de movimentos sinuosos e rápidos, as tempestades e os ventos enfurecidos. No Brasil, no catolicismo, Yansã é sincretizada contra o perigo dos raios. Por sua ligação com esse fenômeno atmosférico, passou a ser reverenciada como santa padroeira por mineradores e artilheiros de um modo geral, sendo a torre um de seus emblemas. Na tradição cristã, as torres vieram simbolicamente através de construções militares e feudais, passando elas a representar vigilância e ascensão, lembrando também, no que tange a esta última, escadas. 


YANSÃ   E   SANTA   BÁRBARA

Yansã  tipifica o comportamento de mulheres audaciosas, poderosas e autoritárias. Mulheres que podem se entregar totalmente a um projeto existencial, mas que, se contrariadas, explodem com incontida cólera. De temperamento sensual e voluptuoso, a mulher Yansã, se casada, costuma se entregar livremente a muitas aventuras amorosas extraconjugais, sem reserva nenhuma, conservando-se, porém, contraditoriamente, muito ciumenta de seu marido.

INDRA

Na Índia, muito antes da fixação do Vedismo como religião oficial dos povos indo-arianos que ali se estabeleceram por volta do início do segundo milênio aC, o que tínhamos era uma mitologia típica de uma casta guerreira, de uma aristocracia de conquistadores; Indra, Varuna, Mitra, Nasatyas e outros são os nomes dos deuses desse período.   


KARTIKEYA

Com a fixação da grande trindade hinduísta (Brahma, Vishnu e Shiva), os papéis divinos ganharam uma demarcação mais precisa. Nesse contexto, aparece Kartikeya ou Skanda como deus da guerra. É essa divindade uma criatura de Shiva e irmão do deus-elefante Ganesha. Seu nascimento decorreu de um pedido dos demais deuses, que precisavam de alguém que pudesse dar combate aos demônios, às forças do mal. Dirigindo o fogo do seu terceiro olho para um lago, Shiva fez surgir das águas, ao mesmo tempo, seis crianças, que foram amamentadas pelas esposas dos Rishis (profetas, seres espirituais que receberam a revelação dos Vedas). 


SHIVA

Um dia, porém, a esposa de Shiva, Parvati, tomou as seis crianças nos seus braços e acariciou-as tão fortemente que elas acabaram fundindo-se num só corpo. Como deus da guerra, Skanda é o generalíssimo do exército divino. As histórias sobre o nascimento de Kartikeya nos são narradas em vários textos (Ramayana, Mahabharata e Puranas), nos quais o deus da guerra ora passa por um filho que Shiva teve sem o concurso de deusa alguma; ora é considerado  como seu pai o deus Agni e como sua mãe a deusa do rio Ganges; ora a sua paternidade é atribuída ao deus Rudra.

Kartyikeya é representado normalmente com seis cabeças, doze orelhas e um igual número de olhos, braços e pés, um pescoço e um só ventre. Sua imagem é a de um adolescente (Kumara), sempre vestido de vermelho, carregando arco e flechas, espada, o raio (vajra) e o machado. O seu dardo curto, disparado, jamais deixa de atingir o alvo escolhido, voltando sempre às suas mãos depois de ter morto o oponente, como o martelo de Thor. O deus tem por montaria o pavão (paravani), sendo seu emblema o galo. A bandeirola que usa no seu carro, presente do deus Agni, sempre trepidando ao vento, é vermelha como o fogo da destruição.

KSHATRYA
O culto de Skanda parece muito antigo, centralizado inicialmente no norte da Índia. Grande importância a ele foi dada pela militarizada dinastia dos Gupta, que reinou no país, no séc. IV dC. As mulheres estavam excluídas de seu culto, privilégio da casta guerreira, a dos kshatryas. 


Antigas divindades do sul da Índia, dos povos pré-arianos,
MURAGAN
Muragan, Velan e Sheyan, foram incorporadas a Kartikeya. O primeiro era o deus da guerra dos dravdas. Venerado com flores e danças orgiásticas, atualmente o culto de Skanda se fixa mais no sul da Índia, onde temos explicações sobre seu vários epítetos: Kumara (Adolescente, isto é, energia sempre jovem, a sugerir uma ideia primaveril, lembrando o puer aeternus do mundo greco-romano); Kartikeya, o seu primeiro nome, é conservado como uma homenagem às Plêiades, esposas dos sete Rishis, que o criaram; Rudra Sanu (filho de Rudra, divindade das tempestades); Maha-Sena (Grande Capitão); Sena-Pati (Chefe dos Exércitos); Shakti-Data (o que leva o dardo), Ganga-Putra (Filho do Ganges); Taraka-Jit (Vencedor do Demônio); Shadana (o de seis rostos); Pavaka (Filho do Fogo).



No Yoga, lembre-se, Skanda é nome dado ao poder de abstinência sexual. Nos textos da doutrina, encontramos: A energia da semente viril, preservada pela ascese e pela castidade absoluta, é chamada Skanda (o jato do esperma) ou Kumara (adolescente). Na prática do Yoga, quando um controle absoluto não é conseguido, Kumara não “nasce” e o esforço mental é sempre ameaçado pelas tentações. Para o iogue, isto significa que entre os humanos os deuses são sempre atormentados pelos anti-deuses. Somente quando a semente viril é sublimada e ascende pelo canal central (sushumna) do corpo sutil, que acompanha a coluna vertebral, que o iogue se torna mestre de sua vida instintiva. É nesse momento que Skanda nasce.

As Plêiades, nesse contexto, são divindades associadas ao fogo,

consideradas sob um aspecto benéfico. São elas as amas de Kumara, tendo relação com os seis centros sutis através dos quais Kumara progride. Estes centros sutis, como se sabe, são os chakras (rodas), que fazem parte de um total de sete, que se dispõem no corpo humano da região sacro-coccígeo ao topo da cabeça, na seguinte ordem: muladhara (centro do suporte da raiz, no períneo), svadhisthana (região genital), manipura (na área do estômago), anahata (no centro do peito), vishuddha (na região da garganta), ajña (entre os olhos, no meio da testa) e sahasrara (na coroa da cabeça). Cada um destes centros corresponde a uma função, na ordem acima: coesão, contração, expansão, movimento, espaço, consciência do eu e realidade transcendente. Cada um deles, na mesma ordem, corresponde aos seguintes elementos: terra, água, fogo, ar, éter, até o quinto centro. 


Kumara Skanda cavalga um pavão, ave que é grande inimiga das serpentes, e, como tal, destruidora dos mais sutis instintos que submetem o ser humano. É neste sentido, dizem os hindus, que Kumara muda o veneno em ambrósia. A serpente, por outro lado, como uróboro, representa o ciclo anual. O pavão aparece assim como o destruidor do Tempo. Na cosmologia, Kumara identifica-se à energia solar presente nas mais altas esferas, acima do ar, na região etérica.

CAUDA   PAVONIS
Taos em grego, pavus em latim, o pavão é originário da Índia, sempre considerado como montaria (vahana) divina, inimigo natural das serpentes, como se disse. Às suas penas atribuía-se o poder de transformar os venenos em energia solar. Na Alquimia, sua cauda (cauda pavonis) constitui em muitos textos e imagens o signo da transformação visível de substâncias inferiores em superiores.


Na astrologia védica (Jyotish), Kartikeya é um dos nomes do planeta Marte, também apelidado de Angaraka (brasa) e Kuja (nascido da terra), sempre associado ao guna rajas e à segunda casta (varna), à dos guerreiros.


KUNDALINI

A serpente é um dos mais importantes arquétipos da vida humana. Ela se confunde com a própria energia cósmica, localizada no ser humano no chamado chakra básico (Muladhara), inconsciente, ali aninhada. Tem a ver com a vida instintiva, que precisa ser controlada, disciplinada. Os hindus a chamam de kundalini, força que nos anima e mantém. Seu agente é o planeta Marte, Kumara Skanda, que na Astrologia passa por nefasto, já que é seco, quente, áspero e feroz. 

sábado, 24 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (2)


Há mais de 5000 anos, o culto às Grandes Mães, ligados à vida vegetal e à agricultura, se estabeleceu praticamente em todas as tradições religiosas, no mundo todo. Como divindades,
GRANDE MÃE
simbolizavam tanto a vida como a morte. Nascer era sair da matriz, morrer era retornar a ela, à terra-mãe. O arquétipo maternal foi sendo construído, dele fazendo parte ideias de origem, natureza, criação passiva, corpo físico com os seus os aspectos instintivos, impulsivos e fisiológicos. Esse modelo maternal tinha (tem)  a ver também com o inconsciente, com a obscuridade noturna e angustiante, ao mesmo tempo protetora e nutricional, lembrando saciedade, segurança, carinho, amor, calor, compreensão. Sendo proteção e refúgio, a mãe foi elevada à condição de primeiro objeto de amor da criança e também o seu primeiro ideal,  fundamento inconsciente de todas as imagens de felicidade, verdade, beleza, perfeição, como as Virgens com o Menino (Madonas), em momentos históricos como o Renascimento, passaram a simbolizar.



MADONA  (GEROLAMO D. POMPEO)

Ao se desligar do ambiente familiar, no qual  a experiência materna normalmente é preponderante, ou mesmo antes desse desligamento, o ser humano tinha, porém, que enfrentar certos problemas, englobados sob o nome de processo de socialização, aprender a se relacionar com outras pessoas, constituir com elas uniões mais ou menos formais, nas quais o diálogo entre o racional, o afetivo e o emocional era sempre difícil. Um diálogo muitas vezes dificultado porque, embora destacado da influência materna fisicamente, o ser humano continuou dela dependente psicologicamente, a se alimentar dela, de valores herdados de seu mundo familiar. 

No panteão de todas as tradições mitológicas há uma divindade feminina que tutela esse processo. É conhecida como deusa do amor, da vida afetiva, da sedução, personificação do princípio passivo da geração, que age sob diversas formas. A água é a sua essência. Neste sentido, ela será a dispensadora da voluptuosidade que atrai pela perspectiva de uma existência langorosa, sensual, terna, prazerosa, que rejeita o bruto, o rude, o violento. De um modo geral, a Grande-Mãe, agindo através desses princípios, é proposta de união, feminilidade, doçura, harmonia, sentido interno de equilíbrio, que se manifesta como encanto e viva intimidade.  


ISHTAR

Uma das mais antigas representações desse modelo é a deusa Ishtar, da mitologia assiro-babilônica, filha de Sin, segundo uns, ou de Anu, segundo outros. Sin era o deus da Lua, ocupando o primeiro lugar na trindade astral, dela fazendo parte os seus filhos Shamash, o Sol, e Ishtar, o planeta Vênus. Os assiro-babilônicos, muito logicamente, faziam a luz provir da noite, daí a razão da proeminência de Sin. Sua esposa era Ningal, a Grande Dama, a Lua fisicamente considerada.


ANU

Anu, nome que significa céu, reinava sobre os espaços celestes, nele residindo, nas regiões mais elevadas. Era, por excelência, a divindade suprema. Todas as demais o honravam como pai, e era junto dele que todas vinham se refugiar quando algum perigo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Vivia em companhia da deusa Antu.

Ishtar, nos textos poéticos, era de deusa das manhãs e do entardecer e personificava, como tal, o planeta Vênus. Era um modelo muito complexo, que chegava a reunir, como acontecia em Suse, por exemplo, uma dupla natureza, feminina e masculina. No geral, porém, Isthar representa a polaridade feminina. Os povos árabes farão dela, todavia, uma divindade masculina, o deus Atthar. 

A mesma complexidade está presente nos atributos da deusa, segundo a consideremos filha de Sin ou de Anu, podendo ser tanto deusa do amor como da guerra. A Ishtar guerreira, venerada sobretudo em Hallab, é filha de Sin e irmã de Shamash. Será neste caso a dama das batalhas, a mais intrépida entre os deuses. Ela conservou estas características quando foi adotada pelos assírios. Tendo se tornado esposa de Ashur, ela o seguia nas expedições, tomava destacadamente parte nas batalhas. Era representada sempre de pé, ereta, conduzindo um carro puxado por sete leões e tendo um arco preso ao corpo.  Sob este aspecto guerreiro recebia também o nome de Anunit em Agadé, capital da Acádia. Irmã de Ereshkigal, a soberana dos infernos, ela contribuiu bastante para povoar o mundo de sua irmã, conhecida como o “astro das lamentações”.




Em outras regiões (Erech), ela era conhecida como a deusa do amor e da volúpia, dos prazeres sensuais. Nesta condição, contudo, podia se mostrar muito irritada, violenta mesmo, incapaz de aceitar qualquer recusa à sua vontade. Chegava  a ameaçar os outros deuses, inclusive seu pai, Anu, de mandar todos para o inferno se suas vontades não fossem satisfeitas. Afirmava, inclusive, que, se as portas do inferno não se abrissem prontamente quando resolvesse visitá-lo, as destruiria, libertando os mortos, que assim poderiam atacar os vivos. É esta deusa, entretanto, que espalha por todo o mundo humano e animal o desejo amoroso, provocando as uniões. 


PROSTITUIÇÃO SAGRADA

A prostituição sagrada fazia parte de seu culto; ao visitar a terra, vinha sempre acompanha de um ruidoso séquito de cortesãs, de prostitutas e de “mulheres alegres”. Ishtar, nesta condição, ostentava o título de cortesã dos deuses, sempre ávida de explorar a  sua sensualidade e sexualidade ao máximo. Seus amantes são incontáveis e ela os escolhe ao seu bel prazer, em todos os níveis, divinos e humanos. Infelizes, porém, aqueles que ela distinguia com a sua escolha. Inconstante, Ishtar tratava seus amantes cruelmente, amando-os sofregamente num dia para, no dia seguinte, abandoná-los sem nenhum explicação. E ai daqueles que ousassem pedir alguma explicação. Maltratava-os, torturava-os, chegando mesmo a matar alguns. Afirmava a deusa que os humanos que se submetiam ao amor perdiam o seu vigor natural, pois neste caso o seu desejo se esvaziava de todo elã. Assemelhavam-se assim os humanos a animais que se deixavam domesticar. Se sob a influência funesta da paixão e do ciúme, não passavam, por outro lado, de bestas selvagens. 

Mesmo para os deuses, os favores amorosos de Ishtar eram perigosos. Em sua juventude a deusa havia amado Tamuz, o deus da vegetação e das colheitas, um amor que causara a perdição da jovem divindade. Tamuz, também chamado de Dumuzid, era filho
NIN GISHZIDA
de Nin Gishzida, divindade subterrânea, patrono da medicina e ligado à fertilidade. Nin Gishzida etimologicamente significa “o da boa árvore”, isto é, “aquele que favorece o crescimento correto das árvores”. É conhecido também como o senhor do Mercúrio, representado muitas vezes como uma serpente com dois chifres na cabeça. O grande símbolo de Nin Gishzida era, contudo, uma espécie de bastão no qual, copulando, se enrolavam duas serpentes. Este símbolo é, sem dúvida, o modelo do qual saíram o caduceu de Hermes e os bastões maravilhosos de Asclépio, de Moisés e de seu irmão Aaron.


TAMUZ-DUMAZID
Tamuz, na Suméria, tinha o nome de Dumazid, sendo Ishtar chamada de Inana (na Suméria, Astarte). As cerimônias fúnebres em homenagem a Tamuz-Dumazid alcançaram todo o Oriente Próximo, chegando mesmo a Israel, celebradas inclusive em Jerusalém, para desgosto do profeta Ezequiel, conforme mencionado na Bíblia hebraica. Pesquisas arqueológicas confirmaram que a Igreja da Natividade, em Belém, foi construída pelos cristãos num local (caverna) em que anteriormente se celebravam cultos a Tamuz.



IGREJA DA NATIVIDADE

Amado por Ishtar, Tamuz, por uma razão misteriosa e involuntária, teve que morrer. Tal como a espiga, que a foice do camponês ceifa em seu maduro e dourado esplendor, Tamuz foi constrangido a descer às profundezas infernais. Desolada pela morte de seu amante, Ishtar cantou a sua dor em dolorosas lamentações, entoada em meio a coros rituais de mulheres que choravam e se martirizavam. Esta tradição se perpetuou por todo o mundo semítico da Ásia Menor e, a cada ano, quando das colheitas, nos ardores do verão, a terra perdia o revestimento de suas plantações, deplorava-se a morte de Tamuz. 

Estas festas fúnebres foram levadas para o mundo mediterrâneo e dali para a Grécia por viajantes, peregrinos, comerciantes e marinheiros, onde, com algumas adaptações, passaram a ser celebradas através de Afrodite (Ishtar), Adônis (Tamuz) e Ereshkigal (Perséfone). Adônis, lembre-se, é nome que vem de um título semita, “Adon” (Senhor).


ERESHKIGAL

Descendo ao mundo infernal, o “lugar de onde ninguém volta”, para retirar de lá o seu grande amor, Ishtar, depois de ter forçado com sucesso os portões da mansão dos mortos, percorreu os sete níveis que a separavam da terra. Em cada uma destas etapas, foi largando uma peça de sua roupa e adereços: primeiro a grande coroa que ostentava, depois, sucessivamente, os seus maravilhosos brincos, seus colares, o boustier que lhe cobria os seios perfeitos, seus braceletes, pulseiras, o cinturão onde cintilavam pedras preciosas, até que, finalmente, já na presença de Ereshkigal, retirou última peça, a “veste do pudor”, ficando completamente nua.

A soberana do mundo infernal ordenou que seus auxiliares a prendessem numa dependência do palácio, soltando, para atacá-la os sessenta gênios das doenças. Ausente Ishtar, a superfície da Terra se cobria de tristeza e de desolação. Os deuses começaram a se movimentar para libertá-la. Ea (etimologicamente Casa da Água, uma espécie de Poseidon), divindade das águas (o chamado reino de Apsu) que envolviam e davam suporte à Terra, criou o efeminado Asushunamir e o enviou ao inferno, fornecendo-lhe palavras mágicas para vencer Ereshkigal. 

Ishtar pode assim fazer o seu caminho de volta, recuperando toda a sua roupa e as suas jóias. Acompanhava-a Tamuz, que, vestido cerimonialmente, tocava a sua maravilhosa flauta de lápis lazúli com braçadeiras de azeviche, proporcionando momentaneamente alguma alegria às almas sofredoras que viviam no reino infernal.


SARGÃO 

Apesar de seu temperamento agressivo, o coração de Ishtar podia ser generoso. Quando agia com bondade, fazendo jus ao significado
ASTARTE
de outro nome seu, a “Benevolente”, inúmeros mortais foram por ela favorecidos. Muitos reis, por exemplo, deviam-lhe a conquista do trono, sendo um dos mais significativos exemplos nesse sentido o do rei Sargão, de Agadé. Aqueles a quem a deusa amava recebiam dela também um carinhoso tratamento filial. Soberana do mundo pela via amorosa, Ishtar foi a deusa mais popular da Assíria e da Babilônia. Seu prestígio era imenso. Sob o nome de Astarte, reinou na Fenícia e muitos dos traços de sua personalidade podem ser encontrados na Ísis egípcia e na Afrodite grega.





Ísis (transcrição grega de Iset), deusa egípcia, foi associada pelos gregos a Selene, Deméter, Hera e Afrodite, conforme o ângulo que de sua personalidade tenha sido salientado. O que se sabe é que essa deusa, que aos poucos absorveu todas as características das
ÍSIS
mencionadas deusas, era, na sua origem,  uma divindade modesta do delta do Nilo, sendo seu culto celebrado num lugar chamado Per Hebet (literalmente, lugar do festival da deusa). O templo de Ísis neste lugar passou a ser conhecido, no tempo dos romanos, pelo nome de Isísdis Oppidum. No norte, Ísis possuía um templo famoso em Busíris, centro de um fervoroso culto prestado a Osíris, seu irmão e esposo. Desde cedo, Ísis aparece ligada a Osíris, com o qual ela formará uma tríade, dela fazendo parte Hórus, filho de ambos. Esta tríade logo se tornou extremamente popular, conforme nos conta Plutarco, o grande historiador grego.     


Primeira filha de Geb e de Nut, aquele identificado por Plutarco como Cronos e a esta como Reia (o segundo casal da Enéada
OSIRIS E ISIS
egípcia), Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos nos pântanos do delta do Nilo (dia epagômeno era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil que compreendia 12 meses de trinta dias cada um). Escolhida como esposa por seu irmão mais velho Osíris, prestou-lhe grande auxílio na obra civilizadora do país, ensinando às mulheres a moer os grãos, a arte da tecelagem, transmitindo inclusive aos homens as artes da cura, e dando a ambos, homens e mulheres, a base da convivência social através da vida em família, sendo a responsável pela instituição do matrimônio.


SETH
Regente do Egito durante a ausência de seu marido que partira para a conquista pacífica do mundo, governou sabiamente o país, aguardando o seu retorno. Imensa, porém, foi a sua dor quando recebeu a notícia da morte de Osíris, assassinado pelo seu irmão Seth, o violento. Cortou então os seus divinos cabelos, rasgou as suas vestes e partiu em busca do seu amado esposo, cujo corpo havia sido encerrado numa arca lançada às águas do Nilo. Levada para o grande oceano, foi a arca, empurrada pelas ondas até as costas da Fenícia, encalhando num grande arbusto (tamarisco), que cresceu rapidamente. Com tempo, a arca acabou sendo absorvida pelo tronco da árvore e por suas raízes, fundindo-se com o lenho do grande vegetal.

Abatido por ordem de Malcandre, rei de Biblos, o tronco do tamarisco foi transformado em coluna, usada na reparação dos telhados do palácio real. Aos poucos, começou a se espalhar a notícia de que um penetrante perfume exalava do tronco. Ísis tomou conhecimento da história, e, compreendendo o seu significado, sem perda de tempo, dirigiu-se ao palácio do rei de Biblos. Sem revelar sua condição, foi recebida pela rainha Astarte, que acaba de dar à luz uma bela criança. Ísis logo se afeiçoou ao pequeno príncipe, cuidando dele como aia, com o assentimento e reconhecimento da mãe. Certo dia, atraída pelo choro da criança, Astarte entrou no quarto do menino e surpreendeu Ísis a banhar seu filho nas chamas purificadoras de uma lareira. Para tranquilizá-la, declarou que pretendia imortalizá-lo, revelando seu nome e o motivo de sua presença em Biblos. Reverenciada então, Ísis recebeu a coluna de tamarisco, dela se retirando a arca onde o corpo de Osíris se encontrava. Levando a arca para o Egito, Ísis a escondeu nos pântanos de Buto, para evitar que o monstruoso Seth a encontrasse. Este, contudo, não se sabe como, conseguiu se apoderar da arca e, para aniquilar completamente o que restava de Osíris, resolveu despedaçar seu corpo em catorze pedaços, que foram dispersados por várias partes do país.


TAMARISCO

Sem desanimar, Ísis pôs-se então a procurar os pedaços do corpo de Osíris. Encontrou-os todos, com exceção de seu membro fálico, que um peixe do Nilo, o oxirrinco, maldito para sempre por este crime, havia devorado. Ísis, então, reconstituiu o corpo de seu marido, juntando os pedaços cuidadosamente. Ajudada por sua irmã Nephthys, por seu sobrinho Anúbis, divindade que atuava na psicostasia, por Toth, o vizir do defunto, por Hórus, seu filho póstumo, ela praticou pela primeira vez os ritos de embalsamamento, pelos quais Osíris ganhou a vida eterna. A seguir, Ísis se retirou, escondendo-se na região pantanosa de Buto, para escapar da fúria de Seth e para cuidar da educação de seu filho, preparando-o para vingar a morte do pai. Graças às artes mágicas da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos até se tornar adulto.


ÍSIS E HÓRUS

Efetivamente, Isis era perita nas artes mágicas e os próprios deuses poderiam ser por ela atingidos. Durante o tempo em que esteve a serviço de Ra, grande divindade solar, ela conseguiu obter dele subrepticiamente seu nome secreto, que ninguém conhecia. Aproveitando-se da decrepitude do velho deus, ela criou, com uma mistura de terra e de saliva divina, uma serpente venenosa que poderia matar tudo o que existisse com a sua picada, inclusive os deuses. Colocando-a no caminho do trôpego Ra, a serpente o atacou-o mortalmente. Foi nesse momento que Ísis, segundo o mito, obteve dele o seu nome mágico, resignado-se então o deus solar, curado por ela, a abdicar em nome da tríade osiriana.


CHEIA DO NILO

Ísis, nos cultos osirianos, representa as cheias do rio Nilo e, como tal, é identificada com as terras férteis do Egito. Uma mistura de terra e água, portanto, elementos passivos. Osíris intervém como a fecundação solar, separando-se assim Ísis de Seth, símbolo do deserto árido. O culto de Ísis se espalhou rapidamente por todo o Egito, suplantando todos os das demais deusas. Alcançou inclusive as terras estrangeiras, levado por mercadores e viajantes do mundo greco-romano, chegando às margens do rio Reno, na Europa germânica, como estrela do mar e guia dos viajantes.

No vale do Nilo, seus cultos se estenderam até os primeiros séculos
APULEIO
da era cristã. Somente no séc. VI, sob o reinado do imperador Justiniano, é que seu santuário de Philae, no extremo sul do país foi fechado, transformando-se o templo em igreja. As festas em homenagem a Ísis eram celebradas sobretudo na primavera e no outono. Quem nos deixou registros sobre elas, as esplêndidas procissões que então se realizavam, foi Apuleio, um iniciado nos Mistérios Isíacos, falando-nos ele inclusive das cerimônias secretas de iniciação. 


As representações mais comuns de Ísis no-la mostram como uma mulher que ostenta na sua cabeça, uma espécie de coifa na forma de um sólio, um ideograma de seu nome. Noutras vezes, ostenta na sua cabeça um disco cercado por duas plumas, entre aspas taurinas.
HATOR
A terceira forma a apresenta como uma mulher com uma cabeça de vaca. É por este componente animal de sua imagem que Ísis é associada à deusa Hathor, deusa do amor e da alegria, na qual os gregos viam a sua Afrodite. Outras versões do mito nos dizem que a cabeça de vaca que Ísis ostenta se deve a uma disputa que teve com seu filho, Hórus. Ísis teria intercedido a favor de Seth, também seu irmão, quando de seu julgamento pelo assassinato de Osíris. Hórus, num acesso de raiva, teria decepado a cabeça de sua mãe. O deus Toth, com as suas artes médicas, teria lhe dado por isso uma cabeça de vaca.


Qualquer que seja a versão, o certo é que a vaca sempre foi o animal sagrado de Ísis, o que astrologicamente a ligava ao signo de Touro. Como fetiches, fazem parte do mundo de Ísis o nó mágico chamado “Tat” (bem-estar, vida) e o sistro, emblema de Hathor. Aos nós, como se sabe, desde a mais recuada antiguidade, sempre foi atribuído um poder mágico, uma grande força, que permitia fixar o imaterial e de ligar não só o corpo, mas a alma, sendo esta ação benéfica ou maléfica segundo a sua ligação, ou seja, benéfica se a ligação se fizesse com algo bom e maléfica com algo mau. Na medida, porém, em que  significa uma coagulação, o nó é um
NÓ DE ISIS
obstáculo, um constrangimento. Não ter nós significa liberdade, nenhum entrave. Entre os egípcios, o nó aparecia sempre associado à vida: nos hieróglifos, uma corda com um nó designava o nome de um homem ou a existência distinta do indivíduo. O nó de Ísis era muitas feito com o cordão de sapatos, mas podia ser feito com tiras de tecidos, simbolizando sempre a imortalidade. Para impedir que a vida escapasse do corpo, os egípcios levavam, como talismãs, no pescoço, nos pulsos ou nos tornozelos, braceletes, colares, cordões com laços. A estes cordões, em sua maioria, eram dados sete nós para que neles ficassem presos para sempre os sete maus gênios da semana. O sentido maior do nó de Ísis era o da ligação com a eternidade. Já o sistro era uma trombeta aguda usada nos sacrifícios à deusa.  


 Invariavelmente, Ísis era representada ao lado de Osíris, a quem sempre dava assistência. Com seus braços, como asas, protegia também as almas dos mortos ou era vista em imagens chorando ao lado de sarcófagos ou de vasos canopos. Como já se disse, seu culto ultrapassou as fronteiras do Egito. No mundo greco-romano, muitos se converteram à sua fé e mesmo durante os primeiros séculos do cristianismo muitos a ela aderiram. Na Grécia, a essa altura dependente do império romano, na própria Itália, em vários países europeus (Gália, Germânia, península ibérica, ilhas britânicas) Ísis era uma força poderosa.   


CONSTELAÇÃO DA VIRGEM

A estrela Spica (alpha Virginis, 23º 09´ de Libra, hoje) e a constelação que por volta de 4000 aC tinha para os egípcios, mais ou menos, os limites atuais da constelação de Virgo, associavam-se a Ísis, enquanto tal astro se fazia notar nos céus no período da colheita dos grãos. Ísis também aparecia ligada à estrela Sirius (Sothis para os gregos, é a estrela alpha Canis Major, a 13º24´ de Câncer, hoje), enquanto este astro ascendendo no horizonte anunciava as cheias do Nilo e o advento do novo ano. Sothis, entre os egípcios tinha o nome de Sepedet, palavra que lembra algo acerado, em ponta, tomando também o sentido de acuidade, de vivacidade de espírito.   

A flor de Ísis era a rosa, muito usada nos seus Mistérios como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal. Noutras vezes, Ísis aparecia com o lótus (nynphaea
A ROSA (MATISSE)
caerulea) e com o sicomoro (fycus sicomorus). Como protetora dos mortos, a deusa era considerada como divindade do renascimento. Além de tudo isto, lembre-se que a magia sempre se constituiu num elemento central nos seus cultos, arte na qual ela superava todas as demais divindades egípcias. Ao final do período histórico do país, Ísis assumia, de modo especial, como a sua maior divindade, quatro funções, curadora, protetora dos vasos canopos e do casamento e senhora da magia. 


A difusão do culto de Ísis ganhou grande impulso quando o país foi conquistado pelos macedônicos (Alexandre Magno), tornando-se ela, no período helenístico, a grande divindade do mundo mediterrâneo. A deusa era a grande protetora dos Ptolomeus que
CALÍGULA
governaram o Egito desde Alexandre. Cleópatra, a última dessa família, considerava-se uma reencarnação da deusa. No mundo romano, a presença de Ísis sempre foi marcante. Com exceção do imperador Augusto, que preferiu os cultos de divindades voltados para o Estado, os demais sempre tiveram grande predileção, como se dizia” pelo “orientalismo” da deusa.  Calígula, por exemplo, assumiu vestes femininas para se iniciar nos seus Mistérios. Vespasiano, Tito e Trajano foram imperadores que promoveram os seus cultos por todo o império, mandando inclusive levantar templos em sua homenagem. A Ísis do período romano tinha títulos como “Rainha do Céu” e “Stella Maris”, dos quais os cristãos se apossaram para dá-lo à Virgem Maria. A imagem de Maria com Jesus criança nos seus braços é uma cópia da de Ísis com Horus na mesma condição   

Os hinos cantados ou recitados nos cultos de Ísis sempre proclamaram o seu poder universal, fazendo dela uma soberana dos três mundos, uma espécie de poder que se irradia por todo o cosmos, alcançando inclusive os elementos e os astros. É por essa razão que alguns estudiosos chegaram a considerar que os cultos de Ísis seriam uma espécie de monoteísmo mitigado, apesar de vários sinais de panteísmo nele encontrados.

Um dos grande divulgadores do culto de Ísis foi, como se disse, Lucius Apuleius Theseus, escritor latino (125-170) que, além de vários tratados filosóficos, fragmentos de discursos e outros textos, nos deixou um romance, As Metamorfoses, chamado às vezes de O Asno de Ouro, no qual nos dá uma imagem muito interessante de
ASNO DE APULEIO
seu misticismo, de sua imaginação, de sua sensibilidade e de gosto pela paródia. Resumidamente, a história nos diz que o herói (Lucius) por ter pretendido obter de uma feiticeira os seus segredos foi transformado num asno. Ele então invocou Ísis como a Lua, sempre ligada à feitiçaria, que lhe prometeu devolver a forma humana se ele comesse umas rosas que alguém estivesse levando para uma festa em sua homenagem. Lucius, para retribuir, deveria se consagrar inteiramente ao seu culto, obtendo inclusive, com isso, até à velhice, uma vida isenta de problemas e depois, na ocorrência, uma feliz estada nos Campos Elíseos. Recuperando a forma humana, Lucius, isto é, Apuleio, nos revela que “o ato de iniciação nos mistérios de Ísis pode ser visto tanto como uma morte voluntariamente assumida como garantia de salvação obtida pela graça.”


Em toda a Idade Média, Ísis aparece em muitos romances que têm por tema a iniciação. Em dois, especialmente, podemos perceber a presença da deusa, no da busca do Graal, mais veladamente, e no Roman de la Rose, mais explicitamente. Em ambos, temos a busca do feminino, que a deusa representa. O Graal, como se sabe, é um
SANTO GRAAL
vaso sagrado que, depois de ter servido a Jesus Cristo na Última Ceia, teria na crucificação recolhido o sangue que jorrava de seus ferimentos. A lenda do Graal, que se integra no imaginário arturiano e o tema dos cavaleiros da Távola Redonda, conhece o seu apogeu com as figuras de Parsifal (Perceval) e Galahad, este último o cavaleiro santo e perfeito. A lenda do Graal é, sem dúvida, uma das grandes ilustrações da busca do feminino, símbolo daquele que recebe uma espécie de mãe espiritual (Ísis) para todos aqueles que se interessam pelos mistérios. É por essa razão que o signo astrológico de Virgem tem estreitas relações com a lenda do Graal. O ego que nasceu no signo anterior, Leão, é recebido em Virgo e preparado para um caminho evolutivo que se abre a partir do signo de Libra. Esta idéias ficam mais claras se lembrarmos que tanto Deméter como Ísis exerceram funções típicas do signo de Virgo (sexta casa), como amas de pequenos príncipes, quando andavam, a primeira, à procura de Kore e, a segunda, à procura do corpo de Osíris.  



PÁGINA DO ROMAN DE LA ROSE

O Roman de la Rose é um romance alegórico francês do séc. XIII, composto de duas partes. A primeira é inspirada em Ovídio e apresenta uma “arte do amor” cortês. Nela, a rosa é o grande elemento da conquista amorosa, pois é dela o “doce falar”. Na segunda, o tom é antifeminista e nele se privilegiam a “razão” e a “natureza”, saberes científicos que ajudem a viver racionalmente, opostos ao amor, que é irracional. A obra teve grande sucesso da Idade Média ao pôr em conflito duas correntes de pensamento, um cortês e refinado e, outro, racionalista e satírico. O Roman de la Rose é, acima de tudo, uma obra didática (seu objetivo é ensinar). A primeira parte é de Guillaume de Lorris e a segunda de Jean de Meung. Este último retoma o poema que o primeiro havia deixado (código do amor cortês) e a ele acrescenta ideias morais, sociais e filosóficas. 

A rosa, como atributo de Ísis, fez do Egito o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade, enquanto símbolo do amor que vence a morte e símbolo religioso enquanto lembrava o renascimento na forma proposta pelos mistérios da deusa, uma espécie de movimento religioso que exigia iniciação (mystes, em grego, de onde vem mistério, é o nome do iniciado). A rosa sempre
esteve, por isso, no Egito, de onde passou às outras tradições, ligada a ritos funerários. Lembre-se que os romanos, como herança egípcia e grega, celebravam as famosas festas, as Rosálias, em muitos lugares da Itália, entre 11 e 15 de maio. No mundo cristão, o domingo de Páscoa era chamado por essa razão de domenica rosata. O uso da rosa nos ritos iniciáticos e funerários deu origem à expressão latina sub rosa, muito empregada em diversos meios esotéricos, podendo ser traduzida como “sob o signo do silêncio”, condição exigida para a transmissão de conhecimentos. Foi por razão semelhante também (a rosa como símbolo da discreção) que os gregos, nos cultos dionisíacos, iam coroados com rosas, já que elas tinham, segundo afirmavam os sacerdotes, o poder de diminuir a excitação provocada pelo vinho. As rosas acalmavam os participantes, tornando-os menos falastrões, mais calmos.  

No início do Renascimento, Ísis será vista como divindade fértil, deusa da vegetação, sendo representada por uma majestosa mulher enxertando um galho novo numa árvore morta, uma metáfora para

sugerir o nascimento de um filho, o que poderá ser visto como um anúncio dos novos ideais humanistas que viriam. Registre-se que no final do séc. XVIII (1791), Mozart apresentava A Flauta Mágica, ópera em dois atos, de inspiração maçônica, em que narra a iniciação de Tamino e de Pamina no culto de Ísis. Ameaçados pelas potências das trevas, eles enfrentarão diversas provas, vencidas pelo herói com o auxílio da sua flauta. Terminada a iniciação, os sacerdotes cantarão: “Glória aos iniciados! Penetrastes nos mistérios sombrios da Noite. Ísis e Osíris aceitai o tributo de nosso reconhecimento. A virtude triunfou. O vício foi vencido.”


No Romantismo, Ísis será vista como a própria natureza, mãe universal, mas que precisa ser desvelada. Esse desvelamento nos fala das chamadas interpretações “noturnas” do mito de Ísis, para que todos os mistérios sejam revelados, isto é, revelar o  que a natureza oculta por trás da sua multiplicidade fenomênica. O herói
romântico, o poeta, ousará, procurará “ver” a verdade, correndo o risco de ser punido, de morrer inclusive. Não é por acaso que Gérard de Nerval (1808-1855) fará do mito de Ísis um dos tema centrais de sua obra. Durante toda a sua vida, Nerval perseguiu a ideia do feminino. Procurou nas mulheres de sua vida a “encarnação” da Santa, da Fada, o eterno feminino que para ele nada mais era do que a alma da própria natureza, chame-se ela Ísis, Cibele, Virgem Maria, Octavie, Aurélia ou  a sua própria mãe. Este sincretismo religioso na obra de Nerval tem a ver com as suas pesquisas sobre a mitologia e cultos antigos. Com base nesses estudos, publicou Voyage en Orient e Les Iluminés. 

Nerval suicidou-se (enforcamento). Em sua obra faz referência às buscas de Apuleio, Dante e Swedenborg (outros que como ele procuraram o “eterno feminino”), convencido que estava de que o sonho ajudava a atravessar as portas que separavam o homem do mundo invisível. Sua experiência literária, em prosa ou poesia, é uma das mais fantásticas aventuras de alguém que procurou encontrar as misteriosas correspondências entre o sonho e a vida. No fundo, um grande desejo de transcendência através do amor pelo “eterno feminino”, que a Grande Mãe personifica, um mergulho em correntes vitais mais vastas que levassem a um enriquecimento cada vez mais amplo. Esse feminino está personificado em várias tradições religiosas como sonho de amor, de felicidade, de generosidade, um absoluto tão poderoso que incita muitas vezes o homem a voltar as costas à realidade.

          Ao final, quanto ao mito de Ísis, não podemos deixar de fazer
referência às ideias de Helena Petrovna Blavatski, uma das fundadoras da Sociedade Teosófica, como expostas em seu livro Ísis sem Véu, publicado em 1877. Nele se descreve a história e desenvolvimento das ciências ocultas, a natureza e a origem da magia. Desvelando Ísis, HB expõe nas mais de mil páginas do livro as suas principais ideias sobre o tema, desenvolvidas mais tarde em A Doutrina Secreta. 

Em todas as tradições esotéricas, a deusa é considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e da ressurreição. Os seus Mistérios, no Egito, serviram de modelo para os de Elêusis, na Grécia, tutelados pelos deuses Deméter e Dioniso. Quaisquer que sejam, porém, as interpretações, religiosas, filosóficas ou literárias, não podemos esquecer que, em última instância, o mito de Ísis e de todos os demais que nele se inspiram, direta ou indiretamente, são também representações do arquétipo da busca que nos falam sempre da destruição de uma forma (o desmembramento de Osíris) e a reunião dos seus pedaços numa forma diferente e superior com relação à antiga. Esta leitura, a meu ver, está perfeitamente justificada se lembrarmos que, astrologicamente, o planeta Vênus opera no sentido contrário da dispersão como princípio passivo da geração que é, atuando alquimicamente como agente da coagulatio, criação de formas (uniões, sociedades, casamentos, obras de arte etc.).


NASCIMENTO DE VÊNUS   (BOTTICELLI)