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domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.