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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).


domingo, 30 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (5)



TRAVESSIA   DO   INFERNO   ( GUSTAVE   DORÉ )

Lugar lúgubre e tenebroso, o Inferno era, na mitologia grega, o refúgio das almas que, separadas de seus corpos, tinham terminado sua existência terrestre. Os gregos antigos desenvolveram duas concepções, que se sucederam, sobre a geografia do mundo infernal. O Inferno, dizia Circe, a maga a Ulisses, se encontra na extremidade do mundo, além do vasto Oceano. O mundo, com efeito, segundo essa concepção, era considerado como um disco de superfície plana, com algumas elevações, que fazia seus limites com um vasto rio circular, uma espécie de serpente líquida. Esta concepção será substituída pela que encontramos em Hesíodo (Teogonia), que define o panteão grego de uma forma ordenada e coerente.


Antes de Hesíodo, sabia-se que era preciso ultrapassar este imenso rio oceânico na direção do ocidente grego para atingir as desoladas regiões infernais. Terra infecunda, de solo ingrato, lugar inabitado, os raios do Sol nunca chegavam a este lugar. Os únicos vegetais que cresciam nesses confins eram os choupos (álamos) negros e salgueiros que jamais davam frutos. Sobre a superfície, aqui e acolá, cresciam asfódelos, flores fúnebres, depois incorporadas aos cemitérios e encontradas ainda hoje nas ruínas do mundo antigo.

A divindade tutelar do rio-serpente que envolvia a Terra era o deus
OCEANO
Oceano. A matéria oceânica, lembre-se, sempre foi considerada um elemento original que apareceu mesmo antes da criação do mundo material. Na mitologia grega, Oceano, palavra que dá ideia de algo circular, como deus, tem na mitologia grega um lugar importante. Filho de Urano e Geia, divindades da primeira dinastia divina, toda criação partia dele e ao final tudo a ele retornava. 

Ele era o pai de todos os rios que alimentam de água os seres humanos e fertilizam a Terra. Tethys, sua esposa, lhe deu uma multidão de filhas, as ninfas conhecidas pelo nome de oceânidas. Tardiamente, foi representado na arte como um velho robusto, com barbas verdes. Ao seu lado, sempre, um corno taurino a simbolizar a abundância poderosa e nutritiva das águas.


OCEÂNIDAS

FOLHAS   DE  CHOUPO
O choupo, acima mencionado, lembre-se, foi também consagrado a Hércules. Quando de seu retorno triunfal do mundo infernal (décimo trabalho), nosso herói ostentava em sua cabeça uma coroa feita com ramos do choupo; as folhas voltadas para a sua cabeça eram brancas e claras como o dia enquanto as que haviam ficado voltadas para o exterior, isto é, para o mundo infernal, eram escuras como a noite. Foi desde então que as folhas do choupo passaram a apresentar um tom diferente em cada um de seus lados. Anote-se, en passant, que, para fabricar os melhores palitos de fósforo, os grandes fabricantes desse produto sempre deram preferência à madeira dessa árvore. O salgueiro, por sua vez, chamado de chorão, por sua própria morfologia, lembrou desde sempre sentimentos de tristeza, sendo considerado como uma árvore típica de cemitérios. Já o asfódelo, igualmente, sempre, entre os povos do Mediterrâneo, ligou-se também aos cemitérios, por seu perfume entorpecedor.


ULISSES  E  TIRÉSIAS
Perto do Inferno concebido pelos gregos vivia um povo estranho, os cimérios (etimologicamente, os que habitam as trevas), cujo território jamais recebia a luz do Sol, segundo Homero, na Odisseia. Ao buscar contacto com Tirésias, para que ele lhe indicasse o melhor caminho para volta à sua pátria, Ítaca, Ulisses passou pela região onde esse misterioso povo vivia. 

A concepção infernal horizontalizada dos gregos não durou muito, alguns milênios talvez. Esta concepção, como se pode concluir, baseava-se em ideias míticas, e não resistiu aos avanços da geografia. Os navegadores antigos, o próprio Ulisses talvez, descobriram que nos confins do ocidente, no oceano longínquo, onde eles haviam localizado o Inferno, havia países. 

Crenças populares já vinham alimentando há muito uma concepção diferente. O Inferno, o mundo das sombras, se situaria na região subterrânea da Terra, uma região escura, trevosa. A associação do mundo infernal com a inumação dos mortos em covas era evidente. A via de acesso para esse mundo, chamado ctônico pelos gregos, não se daria pelo oceano, ou seja, o Inferno foi deslocado dos confins do ocidente para o interior da Terra. O acesso a esse mundo se dava, era a nova e vitoriosa concepção, por grutas, fendas, regiões pantanosas na superfície da Terra, lugares misteriosos, que todos procuravam evitar. 


TÁRTARO

No ponto mais profundo da Terra, na camada mais inferior do mundo subterrâneo, ficava o Tártaro, região tenebrosa jamais atingida pela luz. A distância dessa região à superfície terrestre era igual à da Terra ao Céu, Urano, para os gregos. Entre a Terra e o Tártaro ficava uma região intermediária, o Érebo, as chamadas
DEMÉTER   E   KORE
trevas inferiores, que fazia contraponto com Nix, as trevas superiores, que se situavam entre a Terra e o Céu. Quando o deus do Inferno, Hades, se uniu a uma filha da deusa Deméter, Kore, por ele raptada, foi acrescentada mais uma divisão na geografia infernal. À região situada entre a superfície da Terra e o Érebo foi dado o nome de Bosque ou Jardim de Perséfone, onde passaram a viver diversas divindades menores, mas nem por isso menos maléficas que as “grandes” do Hades. Estas divindades do Bosque de Perséfone, nome que tomou Kore, como rainha do Hades (também nome da região infernal) e esposa do seu rei, invadiam constantemente a superfície da Terra para, literalmente, infernizar a vida dos  pecadores escolhidos.

Com o tempo, criaram-se os demais departamentos infernais: um para sediar o tribunal encarregado de julgar as almas que para lá eram encaminhadas por  Hermes, na sua função de deus psicopompo (condutor de almas). Noutro departamento se colocaram os Campos Elísios, onde ficariam as almas a aguardar uma próxima encarnação, um retorno à vida, lá permanecendo sem  sofrimento algum.  No Érebo, um lugar de permanência provisória, ficariam as almas que deveriam passar por sofrimentos até uma próxima encarnação.


BARCA   DE   CARONTE   ( JOSÉ   BENLLIURE   Y   GIL )

O reino de Hades era cortado por cinco rios, o Aqueronte, palavra que em grego lembra aflição, o Cocito, nome que lembra lamentações, o Piriflegetonte, o das chamas sulfurosas, o Estige, o que provoca horror, e o Lethe, o do esquecimento. O principal era o rio Aqueronte, que devia ser atravessado pelas almas para o seu efetivo ingresso no mundo infernal. As almas, para atravessá-lo, subiam, depois de pago um óbolo, a um barco conduzido pelo barqueiro Caronte, que as maltratava muito. 

Assim organizado, o Inferno propriamente dito começava por uma
CÉRBERO   ( WILLIAM   BLAKE )
região vestibular, o Bosque de Perséfone. Nele eram encontrados os álamos (choupos), os salgueiros e os asfódelos já mencionados. Era preciso atravessá-lo para chegar aos portões do Hades, guardados por Cérbero, monstruoso cão tricéfalo, de latido de bronze, corpo coberto de serpentes, nascido dos amores de Tifon, o maior dos monstros, e de Équidna, horrível figura feminina, a própria imagem da libido insaciável. Cérbero, quando as almas desciam da barca de Caronte para ingressar no Hades, nada fazia, olhava-as com indiferença. Mostrava todavia uma imensa fúria quando alguma delas tentava escapar do reino que gradava.

Há registros de que Cérbero se deixou “corromper” algumas vezes com bolos de farinha e mel, dos quais gostava muito. O deus Hermes conseguia acalmá-lo com o seu caduceu e Orfeu chegou a encantá-lo com a suas canções e a sua lira. Só Hércules ousou se medir com ele e, tendo-o vencido, o conduziu por  um momento à superfície da Terra. Quando de sua subida, com a sua baba pestilenta, Cérbero envenenou certas ervas, que só algumas feiticeiras conheciam para preparar seus maléficos filtros e poções.

Caronte, o barqueiro, que recebia as almas na forma de eidola (aspecto fantasmagórico tomado pelas almas – alma, em grego, é psikhe), era um velho duro e intratável; se não depositada uma moeda na sua mão, ele expulsava impiedosamente a alma, que ficaria condenada a ficar a meio caminho entre a vida e a morte, numa ilha que ficava no meio do rio Aqueronte, a Ilha dos Mortos. Nesta ilha, observe-se, ficavam também aqueles (as almas) que não tivessem passado pela chamada morte ritual (o cumprimento de vários itens, ritualizados para que fossem devidamente recebidos no Outro Lado). 



ILHA   DOS   MORTOS   ( ARNOLD   BÖCKLIN )

Referência especial merece o rio Lethe, cujas águas faziam esquecer o passado. Aquele que retornasse à vida, depois de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elísios, deviam obrigatoriamente beber da água do rio Lethe, para esquecer o que vira e havia vivido no Hades.


 ZEUS  ,  POSEIDON   E   HADES    

O soberano inconteste do Inferno era o deus Hades, irmão de Zeus e de Poseidon. Seu nome deriva de um radical grego que sugere a ideia de invisibilidade. Era chamado eufemisticamente de Plutão (o nome Hades era raramente pronunciado), o rico (ploutos, em grego, quer dizer rico), lembrando essa designação que ele era o “rico de hóspedes”, uma referência à infinita quantidade de mortos que acolhia em seu reino. O adjetivo “rico” referia-se também à enorme quantidade de tesouros que o interior da Terra guardava. Se quisermos mais ainda, numa aproximação psicanalítica, não há como se deixar de relacionar esta concepção do Hades grego com o subconsciente, o mundo subterrâneo do psiquismo humano, lugar ao qual temos de descer para descobrir os tesouros que nele estão encerrados, lugar sempre associado  à escuridão, às trevas.

Foi a partir de todos estes sentimentos, incorporados à vida psíquica do ser humano, que o Inferno passou a simbolizar também o mar noturno do inconsciente que é preciso atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, mas cada vez mais angustiante e restrita, para se chegar a um outro lado qualquer. É nessa perspectiva que o Inferno se liga ao nosso processo de individuação, que começa por uma descida à nossa interioridade, às vezes identificada como uma regressão.

Mais ainda: como reino de Hades-Plutão, o Inferno passou a ser considerado tanto como símbolo do recalque como da fertilidade. Nesta condição, é que entendemos o deus como o pai das riquezas, sendo uma de suas representações mais notáveis a que o apresenta com um corno da abundância nas mãos. O reino de Plutão contém todos os valores criativos de que necessitamos para harmonizar a nossa vida, embora eles sempre estejam mal distribuídos e repartidos. Será preciso trazê-los do inconsciente, fazê-los subir à luz do dia. Para tanto, isto só será possível se descermos aos bas-fonds do nosso eu e dali, depois de o vasculharmos e enfrentar os monstros que nele se escondem, procurarmos voltar à luz. Se em tempos passados esta descida fazia parte do comportamento heroico, hoje ela é raramente empreendida. Não há mais candidatos a heróis solitários. Os que se atrevem a realizá-la, na maior parte dos casos, entregam-se a guias totalmente despreparados para conduzi-los. Acho que não há necessidades de discorrer sobre esta assertiva; basta tão só olhar à nossa volta...

REIA   E   CRONOS   
Hades, também chamado Aidoneus, era um crônida, filho de Cronos e de Reia. Ele reinava sobre o seu domínio de modo absoluto, dele saindo muito raramente. Uma vez, com o assentimento de Zeus e auxiliado pela Grande-Mãe Geia, subiu às terras da Sicília para raptar sua jovem sobrinha Kore, filha de Deméter, que lá colhia flores (narcisos) com as suas amiguinhas. Outra
NARCISOS
vez, foi à procura do deus-médico Paeon para ser tratado de um ferimento no seu ombro causado por Hércules. No mais, se em outras oportunidades resolveu sair de seu reino, nada se pode saber, pois ele, ao usar um elmo que recebera de presente dos Cíclopes, gozava do dom de uma total invisibilidade. 


RAPTO    DE   KORE

Hades-Plutão foi um marido nada infiel. Sabe-se apenas que quando Kore chegou ao Hades, sua adaptação foi muito fácil. Ela assumiu logo, muito consciente para a sua pouca idade, o papel de primeira-dama do mundo infernal. A presteza com que expulsou do Hades uma velha amante do marido que lá vivia, Minthe, ninfa do rio Cocito, é uma prova de sua perfeita adaptação. 


NINFAS   DO   RIO   COCITO

É de se destacar, quanto a este episódio, aliás, que Minthe só foi expulsa porque não se conformou com a chegada de Kore. Aguardou por uns tempos a transformação da jovem em Perséfone e pôs-se sorrateiramente a tentar reconquistar um lugar no leito de Hades-Plutão. Expulsa, ou assassinada por Perséfone, segundo algumas versões, Minthe foi transformada pelo deus numa planta de forte odor, a menta. Outros comentam, numa versão mais aceita, que, já conformada com a perda da filha e até orgulhosa da sua posição real, Deméter interveio. Condenou a menta, como vegetal, a assumir uma dupla reputação. A planta, como se sabe, tem tanto um caráter funerário como aparece em muitas tradições como causadora de esterilidade feminina.

Registre-se mais que Hades-Plutão, muito antes do rapto de Kore, relacionara-se, de modo muito passageiro e inconsequente, com outra jovem, Leuce (Branca), uma oceânida, por ele raptada também. Como ela não era imortal, e expirado o prazo fixado pelas Moiras, ela faleceu tranquilamente no Hades. Para imortalizá-la, o deus a transformou num choupo ou álamo muito branco. Esta árvore passou a enfeitar os Campos Elísios. Foi com as suas folhas que Hércules se coroou ao retornar do mundo dos mortos. 

Antigas tradições mitológicas gregas nos falam  que Leuce se transformou na divindade tutelar da famosa Ilha Branca, situada no delta do rio Danúbio, no Ponto Euxino. É nesta ilha paradisíaca, uma espécie de extensão dos Campos Elísios, que vivem eternamente vários heróis gregos. O mais famoso é, sem dúvida, Aquiles que, com o seu grupo, desfruta de uma vida de prazeres, praticando esportes ligados à arte guerreira e amando nos seus momento de lazer Helena, Ifigênia e Medeia.

Nesse contexto, enquanto Hades era pouquíssimo venerado, Plutão
HOMERO
recebia muito mais homenagens. O primeiro, ao representar uma forma divina destrutiva, sempre apareceu associado ao terror, ao mistério, ao inexorável. Já os cultos plutônicos, por suas grandes ligações com a fertilidade, apareciam muito ligados à deusa Deméter. Para honrá-lo, Homero nos informa que a ele eram sacrificados animais negros, carneiros ou ovelhas. 

Perséfone era a esposa de Hades-Plutão. A etimologia (discutível) admite que seu nome lembra algo que se eleva, evocando uma caminhada, como a dos vegetais depois de rompido o hímen da semente, em direção da luz, embora se reconheça que o nome também aponte para uma ideia de destruição. Isto pode nos sugerir que a deusa não tem características puramente infernais, destrutivas, se levarmos em conta que anualmente ela “subia” em direção da luz para se encontrar com sua mãe, Deméter, a deusa da agricultura e dos grãos. Do trigo em especial.



DEMÉTER

Já se levantou a hipótese que mãe e filha não passavam de uma divindade única, em tempos muitos remotos da mitologia grega. Nessa mesma entidade se concentravam os dois aspectos da vida vegetal, um voltado para a superfície terrestre e outro para o seu interior. A história de Deméter nos conta que ela, não podendo obter de Zeus a posse integral da filha, obteve dele a permissão para que ela permanecesse com ela uma parte do ano (primavera-verão). No outono-inverno, a filha vivia no mundo ctônico, uma ilustração, como fica fácil perceber, da morte da semente.

A este episódio se refere a lenda que as seitas órficas procuraram
PERSÉFONE   E   ZAGREUS
enriquecer, tornando Perséfone mãe de Zagreus-Dioniso. Encerrada no reino do marido, Perséfone se tornou imune às paixões que costumam atingir as outras divindades. Isto porém não impediu que ela viesse a disputar com Afrodite a posse do belo Adônis, divindade da vegetação que morre e renasce anualmente, cujo modelo é o deus Tammuz dos povos semíticos.  

Como divindade infernal, Perséfone tinha por atributos o morcego, a granada (romã) e o narciso. Ela era honrada na Arcádia sob os nomes de Perséfone Soteira e Despoina. Era igualmente honrada na ilha da Sicília. De um modo geral, seu culto nunca se dissociou do de sua mãe Deméter. 

Perséfone, encerrada no mundo infernal, não é senão a imagem dos grãos de trigo, mergulhados no interior da terra na estação outono-
MISTÉRIOS   DE   ELEUSIS
hibernal. Com o retorno da primavera e durante o verão, a germinação das plantas corresponde à volta da deusa para junto de sua mãe. Para celebrar esta volta, Deméter instituiu os chamados Mistérios de Elêusis, que transcorriam entre as festas das flores, as Antestérias, no início da primavera, e o outono. No fundo, uma proposta de morte e de
DIONISO
renascimento simbólicos para aqueles que deles participassem. As principais ideias que fazem parte dessa proposta mistérica, da qual participam como divindades tutelares Deméter (pão) e Dioniso (vinho), são a mulher, o feminino, os ritmos lunares, a semente, o interior da terra, a morte, a escuridão, o retorno e o renascimento. 

Por trás desse pensamento mítico-religioso, como fato inspirador, está a atividade agrícola, que no final do período peleolítico substituiu as relações entre os homens e o mundo animal. Ao ingressar no chamado período neolítico, o eixo da vida social passou a se concentrar muito mais no mundo agrícola que na caça e na atividade predadora dos grupos humanos. Aos poucos, foi se estabelecendo uma solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo da agricultura se carregaram de sacralidade.

As mulheres, a esse tempo, passaram a ocupar um lugar de relevo na vida social, fixando-se um nexo entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Essa mudança ocorreu provavelmente entre 9.000 e 7.000 aC. Ao contrário do que ocorrera no período paleolítico, com a agricultura, o ser humano teve que mudar bastante o seu comportamento. As mulheres tornaram-se responsáveis pela abundância das colheitas, pois tanto conheciam o “mistério” da morte como o do renascimento.

A analogia era inevitável. Destruído o corpo humano (soma, corpo
PSIQUÊ
( EDWARD  JOHN  POYNTER)
físico), desprendendo-se a alma (psiquê), fixou-se em varias civilizações, com base no mundo vegetal, a ideia de morte e renascimento. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí, a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, quando da ocorrência da morte e a destruição do corpo físico, tomava a forma de um fantasma (eidolon) que guardava uma “consciência” latente, podendo ser ativada por certas cerimônias. Era a nekyia, a invocação da alma dos mortos (vide Odisseia).


HESÍODO
Com Hesíodo, séc. VIII aC, passamos a ter uma ideia mais exata do mundo infernal. Abaixo de Geia, a Grande-Mãe, no mais distante dela, ficava o Tártaro, lugar sem volta, para onde iam os grandes criminosos, como se disse. Entre o Tártaro e a Terra, ficava o Érebo, lugar de permanência provisória dos maus. Nos Campos Elísios, ficavam os bons, sem sofrimento algum. 

No Tártaro, havia um compartimento denominado “O Inferno dos Maus”, lugar terrível, para onde iam aqueles que haviam cometido os piores crimes: contra os deuses, a família, a hospitalidade e contra a pátria. Era um lugar de torturas e lamentações. Era nele que as almas ficavam submetidas a castigos eternos, mergulhadas alternativamente em situações de calor e frio extremos. Nenhuma esperança de retorno, de fuga ou consolação. Tudo era triste, mecânico, repetitivo.

O Tártaro era na realidade uma prisão horrível onde eram lançados
CÍCLOPES
( CORNELIS   CORT )  
aqueles que cometiam sobretudo o pecado da hybris, da desmedida, do excesso, que, personificada, passa por filha da Koros, o Desdém. À expressão física da hybris os gregos davam o nome de Hamartia. Os primeiros a visitar o Tártaro foram os Cíclopes (Brontes, Estéropes e Arges), para lá enviados por Urano. Libertados por Cronos, que venceu o pai, logo foram devolvidos ao Inferno pelo seu libertador em companhia dos seus outros irmãos, os gigantescos Hecatônquiros, os gigantes de cem mãos.

Lembremos que para vencer os Titãs, chefiados por Cronos, Zeus teve que se unir aos Cíclopes, dos quais recebeu as armas com as quais conquistaria o universo: o trovão, o relâmpago e o raio. Ao longo dos milênios, para o Tártaro foram enviados os grandes criminosos, lá se encontrando Tântalo, Sísifo, Ixion, as Danaides, Titio, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros. 

Tântalo, filho do próprio Zeus e de Pluto, uma ninfa, era rei da Frígia. Ao trair a confiança dos deuses (para testar a onisciência dos deuses serviu-lhes num banquete o próprio filho, Pelops), foi, depois de muitos outros crimes antes cometidos, condenado a sofrer o suplício da fome e da sede eternamente. Sísifo, rei de Corinto, o mais astuto dos mortais, um dos pais de Ulisses, além de outros muitos crimes, tentou enganar Thanatos, a Morte. Foi condenado a rolar eternamente montanha acima uma enorme pedra, na vã esperança de um dia empurrá-la para o outro lado. Ixion, neto de Zeus, cometeu um dos crimes mais hediondos que um ser humano ou mítico poderia praticar: não respeitou a hospitalidade que Zeus lhe ofereceu e tentou investir sexualmente contra Hera, a Senhora do Olimpo. Ixion tornou-se o pai dos centauros, uma raça maldita. Está no Hades, preso a uma roda de fogo a girar eternamente. 


DANAIDES  ( FRANS  DE  BOEVER )

As Danaides estão no Tártaro para toda a eternidade, a encher com água,  tonéis sem fundo. Seu crime: assassinaram os seus maridos. Titio, um gigantesco filho de Zeus, que, sob instigação de Hera, pôs-se a perseguir Leto com quem Zeus se unira para torná-la mãe dos luminares, Ártemis e Apolo. Salmoneu, filho de Éolo, extremamente descomedido, tentou ser, entre os mortais, o que Zeus era entre os imortais. Foi fulminado e lançado no Tártaro. Os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon, possuídos pela hybris tentaram assaltar o Olimpo. Foram mortos por Zeus e lançados no Tártaro, onde se encontram até hoje, amarrados com serpentes a
OS   TITÃS
uma coluna, tendo junto aos ouvidos uma coruja que lugubremente pia sem cessar, dia e noite. Por fim, os Titãs, divindades da segunda dinastia, filhos de Urano e Geia, chefiados por Cronos, foram vencidos por Zeus e seus irmãos, os futuros olímpicos, na famosa batalha denominada de Titanomaquia;  Zeus os lançou no Tártaro. Mais tarde, como se sabe, Zeus libertou seu pai, Cronos, que emigrou para a Itália.

O Tártaro sustentava os fundamentos da Terra e dos mares e nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. Era um lugar onde a luz jamais poderia chegar. Era um lugar de torturas e lamentos. Aridez, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Mergulhadas alternativamente nesses tanques, para sofrer o frio e o calor extremos, as almas, quando não estavam nessa situação, permaneciam presas às chamadas “cadeiras do esquecimento”. Nenhuma esperança de retorno, de fuga e muito menos de consolação. 

O Érebo  (obscuridade) era a camada intermediária, como vimos, constituindo as trevas inferiores por oposição e complementares às de cima, representadas por Nix, a grande deusa da Noite.  Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, onde ela vivia em companhia de dois de seus numerosos filhos, Thanatos e Hipnos, a Morte e o Sono. O Érebo era um lugar de permanência provisória (100 anos, segundo algumas tradições), onde as almas, por crimes menos graves, depois de julgadas e condenadas, ali ficavam em meio a grande sofrimento aguardando seu retorno ao mundo dos vivos.


HESPÉRIDES  ( HOWARD  DAVIE )

O território preambular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através de entradas na superfície da Terra era, como vimos, o Bosque de Perséfone (uma zona de transição entre o consciente e o inconsciente, numa leitura psicanalítica). Nesse lugar, logo nos seus limites mais próximos da Terra, numa advertência muda aos que desciam, havia três grandes árvores, o cipreste, o salgueiro e o álamo. Associavam-se essas árvores, na Terra, às três ninfas do poente, as Hespérides, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo). Isto é, a Brilhante, a Vermelha e a do Poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar, significando, respectivamente, Amor (Doação), Desapego (Sabedoria) e Compaixão (Serviço).

O Bosque de Perséfone era lúgubre, iluminado muito precariamente, nada se distinguindo nele, a rigor. Situado entre a
HÉRCULES  E  GERAS
superfície da Terra e o Érebo, ali viviam espectros. Fantasmas, seres que se haviam fixado num estado entre a vida e a morte. Dentre esses espectros, representados por divindades alegóricas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Koros (Desdém, Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia), sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Até (Erro); Penia (Pobreza), Strofe (Chicana), cujo templo ficava no Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. 

Compartilhando o território com as entidades acima, com a mesma importância ou até maior, perambulavam por ele divindades e
ERÍNIAS
monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équina. No centro do Bosque, havia uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte. De sua madeira eram feitas as varas de punição, tudo o que as referidas entidades, usavam para açoitar e vergastar a triste raça dos mortais.

HÉCATE
Junto do palácio de Hades-Plutão vivia Hécate, a que “fere de longe”, deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da Terra, para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, ela tinha correspondência com a Lua Nova. Presidia as aparições de fantasmas e espectros, sendo tanto a senhora dos benefícios como dos malefícios. Devidamente reverenciada, sempre aparecia ligada aos cultos lunares de fertilidade. A aparição da deusa nas noites de Lua nova lembra que as encruzilhadas são tanto lugares de parada e de reflexão como da escolha que se deve fazer de direções que mudam destinos. Nesse sentido, a encruzilhada é também o lugar onde é possível a alguém desfazer-se do passado para assumir uma nova personalidade.