Mostrando postagens com marcador LILITH. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LILITH. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião. 

                            

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PERSEUS

                     



PERSEUS é no mito filho de Zeus e de Danae, filha do rei de Argos, sendo, como tal, um dos ancestrais de Hércules. O Senhor do Olimpo penetrou na inexpugnável câmara da princesa por uma fenda nela existente no teto sob a forma de uma chuva de ouro. Engravidou-a, tornando-a mãe do futuro grande herói Perseu. O
DANAE   E   SEU   FILHO
menino permaneceu escondido, mas, um dia, o avô tomou conhecimento de sua existência. Encerrou mãe e filho num cofre inviolável e ordenou que fossem lançados ao mar. A pequena arca foi dar às costas de uma das ilhas Cíclades. Um dos irmãos do rei da ilha recolheu o cofre, o abriu, dele retirando Danae e o filho. Cuidou de ambos. Perseu logo se tornou um jovem esbelto, destemido, vivendo com a mãe na corte. O rei da ilha, Polidectes, que havia notado Danae e por ela se apaixonado, não conseguia conquistá-la devido à presença do jovem, sempre ao lado da mãe.



DANAE   E   A   CHUVA   DE   OURO  ( TICIANO )

Polidectes, um dia, ofereceu uma grande festa no palácio, perguntando aos convidados, como era costume, o que lhe ofereceriam como presente. Todos responderam que lhe dariam cavalos, o melhor presente para um rei como ele. Perseu, também convidado, num arroubo juvenil, disse que poderia, ao invés de cavalos, lhe dar como presente a cabeça da Medusa, pavoroso monstro que andava pelo mundo a aterrorizar os mortais. Polidectes aceitou. Deixando a mãe, muito preocupada e chorosa, nosso herói partiu então para a sua grande aventura iniciática. 



 O   PRESENTE  DE  PERSEU  ( JEAN-MARC  NATTIER )


PERSEU   E   AS   GREIAS
( EDWARD BURNE-JONES , 1892
Por intervenção de Zeus, Perseu recebeu o auxílio de duas divindades, Hermes e Palas Athena. Instruído por elas, Perseu, antes de buscar a Medusa, foi procurar as Greias (As Velhas), três monstros que viviam no extremo ocidente. O caminho era difícil, a região não era alcançada por nenhum raio de Sol, raríssimos os que se atreveram a visitá-la, dos quais, aliás, nunca mais se teve qualquer notícia. Só as Greias conheciam o caminho que levava à Górgona Medusa. As Greias também conheciam determinadas ninfas que guardavam certos objetos indispensáveis a qualquer empreitada heroica que tivesse por finalidade a morte da Górgona.


PERSEU
Perseu obteve das ninfas tudo o que lhe era necessário para a sua vitória: umas  sandálias com asas, uma espécie de alforje denominado quibisis (para guardar a cabeça da Medusa) e o capacete do deus Hades, que tornava invisível quem o usasse. Hermes, além disso, lhe deu uma afiadíssima espada (harpe ou falx), Palas Athena lhe emprestou a sua égide, polida como um espelho. Chegando à
TRÊS   GÓRGONAS
caverna da Medusa, a mais importante dos três monstros, Perseu a encontrou; junto dela, as suas duas outras irmãs, Esteno e Euríale. Na cabeça das três, à guisa de cabelo, serpentes; na boca, presas de javali; mãos e asas de bronze. Quem as olhasse ficaria petrificado. Calçando as sandálias voadoras, Perseu sobrevoou as três irmãs, concentrando-se na Medusa; refletiu o seu rosto no escudo e  lhe cortou a cabeça. Do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso; o pai era
PALAS  ATHENA  E  SEU  ESCUDO
Poseidon, a única divindade que ousara se aproximar da Medusa. Posteriormente, como sabemos, a cabeça do monstro foi colocada no escudo de Palas Athena, que com ela conseguiu assim petrificar os inimigos que bem desejasse. Pondo o elmo do deus Hades na cabeça, Perseu tornou-se invisível, escapando das duas outras irmãs,  Esteno e Euríale. 

Na volta, ao passar pela Etiópia, envolveu-se nosso herói com os reis do país, conforme já narrado anteriormente (constelação de Andrômeda). Libertou a princesa do pavoroso monstro Ceto que, enviado por Poseidon, iria devorá-la como vítima expiatória por causa da hybris materna. Voltando à sua terra de origem, com a princesa Andrômeda, soube Perseu que Polidectes tentara violentar sua mãe. Destronou-o, pondo no seu lugar o irmão que dele e da mãe cuidara. Em seguida, em companhia da mãe e de Andrômeda, foi em busca do seu passado. Tomou o caminho de Argos para conhecer o avô materno, Acrísio, rei da grande cidade. Ao saber da presença do neto, voltou à lembrança de Acrísio uma profecia que um oráculo lhe fizera quando do nascimento do menino, a de que um filho de Danae o mataria. Acrísio revolveu então, enquanto o neto estivesse na cidade, ir para Larissa e lá permanecer, cidade onde reinava um amigo. 



PERSEU   SALVA   ANDRÔMEDA  ( VERONESE )

Em Larissa realizavam-se competições esportivas, jogos fúnebres (agones), em homenagem ao pai do rei, recentemente falecido. A cidade recebera a visita de muitos atletas, vindos de várias regiões da Grécia, como era comum quando da realização destes certames. A caminho de Argos, Perseu resolveu participar dos jogos anonimamente. Na prova do lançamento de disco, da qual participava, Perseu o lançou de tal modo que, escapando do seu controle, a peça de metal atingiu violentamente a cabeça de um espectador que estava na tribuna real, matando-o. Era Acrísio, que em companhia do rei de Larissa a tudo assistia entusiasmado. Cumprira-se assim a profecia do oráculo. 





Esclarecidos os fatos, cheio de dor por ter causado a morte do avô, Perseu, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrou-o em Larissa. Tomou a decisão de não se dirigir a Argos para reivindicar o trono que, por direito, lhe cabia. Foi para Tirinto, onde reinava um primo, propondo-lhe que, no seu lugar, assumisse o trono de Argos, enquanto ele, Perseu, ficaria com o de Tirinto. Assim aconteceu, vivendo nosso herói até o fim de sua vida em companhia de Andrômeda e dos muitos filhos que tiveram.



PERSEU   E   ANDRÔMEDA  ( LAMBERT  SUSTIUS , 1510 - 1560 )

Perseu é o herói que vence a Medusa, símbolo da mãe terrível, responsável pela imagem excessiva da culpa que filhos podem criar quando têm que resolver o problema da construção de uma individualidade própria. Cortar a cabeça do monstro é dominar de modo permanente este sentimento desproporcional, exagerado, paralisante e mórbido que sobrevém quando há necessidade de que sejam ultrapassados os limites lunares do mundo familiar, tendo-se em vista a necessidade, como se disse da aquisição de uma individualidade autônoma.

A culpa que Perseu procurou e conseguiu (?) expiar, ao matar a Medusa, está representada no mito por aquilo que na vida do jovem grego chamava-se o momento da separação ou da iniciação, correspondente ao rito da efebia na sociedade grega. O herói, o jovem grego, por volta dos seus 18 anos, tinha que se afastar da proteção familiar, sobretudo a materna, e ir sozinho pelo mundo, viver por certo tempo nas fronteiras mais distante do país, em busca da sua afirmação, da construção de uma personalidade independente que o habilitasse a ter o direito, ao voltar, de se inscrever no seu demo como cidadão. Desta habilitação fazia parte um exame ao qual o jovem, depois de cumprida a efebia, devia se submeter, exame ao qual se dava o nome de docimasia. Dokimos, em grego, quer dizer prova. Docimasia era, pois, verificação de aptidão ou de elegibilidade. A dignidade da cidadania só era concedida àqueles que fossem aprovados quando da sua docimasia.   

Toda iniciação, e esta é uma das mais importantes, equivale no fundo a uma morte e um renascimento, fases aqui consideradas como uma saída, a transposição da  porta, para se ter acesso a um outro tipo de vida. Uma saída que significa uma entrada. A iniciação, neste sentido, operava uma metamorfose, a ultrapassagem de uma condição. Perseu abandonou o mundo materno, entrou num mundo difícil, escuro, foi ao extremo ocidente (morte da luz) onde viviam as Górgonas. Simbolicamente, no plano do psiquismo, temos aqui uma descida ao mundo subconsciente, a luta contra monstros e o retorno. A morte iniciática, a do antigo eu, prefigura a morte que deve ser considerada como a iniciação essencial para se ter acesso a uma vida nova. 


EFEBO   DOMANDO   SEU   CAVALO

O que se depreende desta história é que mesmo nas sociedades patriarcais a figura materna, embora submetida e subjugada, sempre guardou poderes que nunca deixaram de se manifestar, sub-repticiamente, de modo muitas vezes dissimulado, às ocultas.  Com efeito, quanto ao mundo grego, a experiência materna ocupava toda a infância de uma criança do sexo masculino, dominando ela toda a primeira parte da vida do jovem até a efebia. A criança grega passava esses anos iniciais de sua vida no gineceu (Esparta era exceção), o reduto feminino da casa. Para o grego, a criança e o adolescente até a efebia estavam presos de algum modo à  figura materna. Essa dependência, a rigor, nunca era rompida, mesmo que a casa materna fosse abandonada, persistindo a ligação por toda a vida como pressões inconscientes. Sempre presente a ameaça das origens, a tentação da vida regressiva. No arquétipo materno estão presentes de modo ambivalente a vida e a morte. Nascer é sair do ventre materno, morrer é voltar ao seio materno, a Mãe Terra. De um lado, segurança, abrigo, ternura, amor; de outro, risco de opressão, abafamento, castração e morte.

MEDUSA
A Medusa, no mito, é um dos aspectos da mãe que se recusa a ver rompido o cordão umbilical, a mãe devoradora que não quer perder a dependência do filho. Negativamente vivido, como se sabe, o arquétipo materno pode se projetar de variadas formas, de sentimentos inibidores, perturbadores, como saudade, nostalgia, culpa, remorso, lembranças, atavismos poderosos, hábitos, idiossincrasias,  materializando-se das mais variadas formas, como cidade natal, quintais, túmulos, jogos infantis, jazigos familiares, praias, alimentos, jardins, fontes, igrejas, salas de aula, brinquedos, objetos etc. Ou manifestando-se também sob a forma de pesadelo noturno, desde "visitas" de uma feiticeira, de uma serpente, de um monstro, a situações oníricas angustiantes geralmente ligadas a extravios, descaminhos, desorientação, impossibilidades ou limitações físicas, perda de algum sentido, surdez (falam conosco e não conseguimos ouvir), cegueira, permanência obrigatória em lugares desconhecidos etc. Na sua feição negativa, a figura materna aparece nos sonhos como uma força primitiva egoísta, exigindo sempre, não dando paz. A tarefa do herói consistirá, pois, em aprender a eliminar ou diminuir o poder dessas imagens e representações  sobre a sua personalidade. 

No seu aspecto destrutivo, quanto ao menino, ao adolescente, principalmente, a  fixação na figura materna apresenta geralmente uma tendência involutiva, uma regressão instintiva. Mesmo naqueles que conseguem se libertar fisicamente, a maioria continua a sofrer uma fascinação inconsciente que ameaça de paralisação o desenvolvimento do eu. Neste sentido, a mãe se torna para a criança um não-eu, sempre hostil, em razão do temor que inspira pela dominação inconsciente exercida. Num mapa astrológico, os bons astrólogos sabem que tudo isto pode ser explicado pela Lua, por sua posição e aspectos.

Alguns esclarecimentos adicionais, acredito, nos ajudarão a entender o papel dos homens e das mulheres na sociedade grega, papel que a mitologia, com seus heróis, nunca deixou de refletir. Evidentemente que quanto às meninas, às jovens do sexo feminino, nada do que está acima se aplica. Quanto à mulher, na sociedade grega, principalmente no período clássico de sua História, os papéis
ASPÁSIA   E   PÉRICLES  ( JOSÉ  GARNELO  Y  ALDA )
admitidos estavam assim distribuídos: em primeiro lugar, a cortesã, mulher livre, instruída, de família rica, que escolhia os seus homens e que pontificava em salões em que se discutiam filosofia e arte. Poucas, muito poucas, desempenharam este papel. A mais famosa foi Aspásia, bela e rica sofista, que viveu com Péricles, rei de Atenas. Em segundo lugar, temos as concubinas, para os prazeres da carne, pois as cortesãs eram sobretudo para os prazeres do espírito. Em terceiro lugar, a esposa, que vivia encerrada no gineceu, cuidando da administração da casa, das crianças, dos empregados domésticos e dos escravos. Fora deste cenário, que é o da aristocracia como classe social superior, a dos cidadãos, as mulheres distribuíam-se pela classe dos metecos (metoikoi), estrangeiros, e escravos (douloi), de todos os tipos. Só para se ter uma noção de números, lembremos que no século de Péricles, Atenas tinha cerca de 400.000 escravos para uma população de eupátridas ("bem nascidos", os aristocratas) situada entre 20 e 30.000 cidadãos.  

Dentro de casa, o marido, como chefe de família, tinha autoridade absoluta, dispondo inclusive do dote da esposa. A esposa, durante toda a sua vida, era, sob o ponto de vista legal, considerada como menor, já que dependia do seu senhor (kyrios) para tudo. Em qualquer circunstância, a mulher sempre dependia de uma autoridade masculina. Solteira, dependia do pai; casada, do marido; viúva, dependia do filho mais velho ou de um tutor por disposição testamentária do marido.    





A constelação de Perseu, por sua relação com a de Andrômeda, a princesa, é também conhecida como a do Príncipe. Príncipes, simbolicamente, representam a promessa de um poder autêntico, independente, qualquer que seja o domínio considerado, o contexto onde apareçam como personagens não só de mitos, mas de lendas ou histórias bem como no folclore.  O príncipe é o primus inter pares. Por isso, falamos em príncipe dos poetas, das artes, da ciência. O príncipe é também a imagem de um estado adolescente de vida, ainda não totalmente controlado. Esse estado, para ser ultrapassado, precisa de provas. O príncipe está mais para o herói que para o sábio, estado a que ele poderá ter acesso, ainda que isto seja muito difícil. A figura do príncipe sempre aponta para a metamorfose de um eu inferior num eu superior, entrando sempre a força do amor, nos mitos, como agente desta transformação. A grande vitória do príncipe é tanto a morte do monstro como a recompensa de um amor total. Outro, aliás,  não é o sentido da famosa história do Príncipe e da Bela Adormecida. Não podem ser esquecidas também todas as conotações cósmicas e sexuais embutidas neste tema. A libertação da princesa pelo príncipe pode significar a ação de deuses solares libertando ou acordando a adormecida alvorada. 

O mito de Perseu, como se disse, encerra a alegoria da passagem iniciática na qual um herói, depois de sua efebia (a vitória sobre a Medusa), une-se a uma princesa por ele libertada. Princesas são, como sabemos, simbolicamente, nos mitos, nas lendas e nos contos folclóricos aspectos do inconsciente masculino. Personificam, como anima, todas as tendências psicológicas femininas do psiquismo masculino que ele talvez não entenda bem ou mesmo que delas nada suspeite, mas que precisa resgatar, libertar, para poder dar à sua personalidade uma dimensão cósmica. Perseu é um herói que não segue o modelo mais comum de heróis da mitologia, no geral fracassados, inadaptados. Perseu se diferencia dos demais heróis porque não teve um pai mortal.


ANQUISES  E  AFRODITE
( FRANÇOIS  BOUCHER )
Todos os heróis gregos, como regra geral, são filhos de um deus e de uma mortal ou, em bem poucos casos, de uma deusa e de um mortal. Exemplo do primeiro caso, Hércules. Seu pai divino era Zeus. Sua mãe era Alcmena, princesa, mortal, casada com Anfitrião, mortal. Do segundo caso, Eneias. Mãe divina, Afrodite; pai mortal, Anquises. Por essa razão, talvez, é que Perseu seja o mais "terreno" dos heróis, tendo terminado os seus dias, ao que parece, em paz com Andrômeda, cheio de filhos. 

Perseu, como todos os heróis das várias tradições míticas gregas, é um fecundador e, como tal, saturado de machismo, sendo um dos mais bem acabados representante do princípio masculino, enquanto Andrômeda é um  símbolo do princípio gerador da vida. A libertação e a união com a princesa significa neste caso a possibilidade que é oferecida ao herói para que possa entrar em contacto com o seu lado feminino, a sua anima, algo que parece não ter acontecido, segundo os registros do mito. Todos os heróis gregos parecem ter fracassado neste ponto, sendo exemplares, dentre outros, os casos de Hércules (6º trabalho, O Cinturão da rainha Hipólita, das amazonas), de Teseu (o seu procedimento com relação a Ariadne), de Ulisses (o seu melancólico retorno a Ítaca).  

ANDRÔMEDA
 ( DANILE  CHESTER  FRENCH ) 
Lembremos que o nome Andrômeda é formado por palavras gregas, aner, andros e medein, que significam, respectivamente, homem corajoso, viril, herói, e cuidar de, comandar, ou seja, ela é a que reina sobre o homem ou a que dá limites ao homem. A anima feminina, como se sabe, pode tomar uma feição muito destrutiva na personalidade masculina, destruindo-a, desvirilizando-o totalmente. Talvez seja por essa razão que a literatura psicológica (Jung e seus seguidores) apresente muito mais material sobre a anima do que sobre o animus, aquela  sempre considerada muito perigosa para o tradicional desempenho masculino na medida em que aponta para a vida subconsciente, para o mundo dos sentimentos e das emoções. 



HOMERO   ENSINA  DANTE , SHAKESPEARE  E GOETHE
( BELA  CIKOS  SUSIJA , 1864 - 1931 ) 

Por outro lado, não é a mulher emancipada ou masculinizada, fálica, que pode oferecer ao homem uma possibilidade de transcendência, mas, sim, aquela que, longe dos estereótipos, simbolize o eterno feminino (veja Dante e Goethe),  na medida em que ela sabe manter-se aberta para um contacto com as forças geradoras do universo. O feminino não se limita só à maternidade; é dele uma variedade e uma grandeza de sentimentos que o masculino jamais poderá experimentar, inclusive se considerarmos o corpo humano sob o ponto da sua química. A mulher sempre manteve um contacto muito maior que o homem com o mundo do irracional e das emoções. É só a partir deste entendimento, talvez, que a anima, os aspectos femininos do inconsciente masculino, deixarão de ser, como sempre o foram, representados por monstros. 


A constelação de Perseu vai de 12º de Touro a 11º de Gêmeos. A sua estrela mais brilhante é Algenib ou Mirfak, alfa, a 1º 23´ de Gêmeos; depois,  Algol, beta,  hoje a 25º28´ de Touro; e Capulus, um cluster, a 23º 30´ de  Touro. Segundo Ptolomeu, as influências de Perseu apontam para uma natureza aventureira, dão inteligência, mente poderosa, mas, às vezes, eticamente questionável. As estrelas, ainda segundo Ptolomeu, têm a natureza de Júpiter e de Saturno. Mirfak, porém, pelo que me foi possível observar, tem mais uma natureza marciana, que jupiteriana ou saturnina. Ela nos fala de ação física, de juventude, de vitalidade, de destemor, com inclinação para a imprudência e para a impulsividade, características tipicamente marcianas. 





A outra estrela de Perseus é Algol, considerada tradicionalmente como uma das mais maléficas do céu, que representa a Medusa. O nome nos veio dos árabes, Ras al Ghul, a Cabeça do Demônio, Caput Medusa para os latinos. Os astrólogos judeus a chamaram de Lilith, a primeira mulher de Adão, depois transformada numa espécie de vampiro noturno. Lilith é o feminino que diz não. Segundo os judeus, é aquele feminino que transgride a lei divina para poder viver o desejo absoluto. Não podendo satisfazê-lo, fecha-se na solidão gelada do seu refúgio. Lilith tem a ver com as trevas, com a noite, de onde tira o seu nome, laylah (noite). No mundo árabe, principalmente entre os persas, no período medieval, Leila era o nome de uma mulher ideal dos poetas.



A   CRIAÇÃO   DO   MUNDO

A Bíblia, no Gênesis, nos revela que Deus criou o macho e a fêmea em condições de igualdade. Quando esta fêmea criada reivindicou essa condição em relação ao macho, ela logo constatou que não poderia obtê-la porque Deus e Adão, o macho, não o consentiram. Voou ela então em direção do deserto, indo depois para o mar Vermelho. Adão queixou-se a Deus, que enviou três anjos numa fracassada tentativa de trazê-la de volta.


LILITH
( ERNEST  BARLACH )
Juntando-se aos "anjos caídos", tornou-se Lilith (assim passaram a denominá-la os judeus) mulher de Samael, o senhor das forças do mal, o Sitra Achra. Para os judeus, Lilth é uma figura sedutora, com longos cabelos, que voa à noite para atacar os homens que dormem sozinhos, que têm filhos demônios com eles, por meio de suas poluções noturnas, roubando inclusive crianças. Na véspera do Shabat (Lua Nova) quando uma criança sorri no berço é porque Lilith está brincando com ela. Na Idade Média, havia a crença de que era perigoso beber água nos equinócios e nos solstícios porque nesses períodos o sangue menstrual de Lilith pingava, poluindo todos os líquidos expostos. 

Ignorada pela Bíblia, Lilith aparece no Zohar, o Livro dos Esplendores da Cabala hebraica. Ali se revela que ela gerou o espírito de Adão ainda inanimado, depois uniu-se a ele como mãe e mulher ao mesmo tempo. Lilith é assim a primeira  mulher que precede aquela que assumirá o papel de esposa concebida a partir de Adão, sempre inferior a ele, portanto, e inteiramente conformada à lei conjugal por ele imposta.    


SALOMÃO   E  A  RAINHA  DE  SABÁ
( FRANS  FRANCKEN , 1581 - 1642 )

Lilith tornou-se para sempre a rainha da noite, o grande demônio feminino, a rainha de Sabá (apareceu a Salomão disfarçada como a rainha de Sabá), a grande prostituta da Babilônia, a futura feiticeira que, ao longo de milênios, arderá em todas as fogueiras do desejo coletivo, a vamp fatal de todos os filmes noirs. Lilth é uma das primeiras imagens que toma o arquétipo materno que não recua diante da morte da sua própria criação (Medeia) nem diante de seus amantes. É a chamada mãe terrível e castradora, a parte maldita da anima feminina. 

Segundo a tradição judaica, Lilith não podia ter filhos, era estéril, pois Deus, como está no Zohar, colocou-lhe o sexo no lugar do cérebro. Ela, contudo, encontrou um meio de criar uma progenitura. Ela passou a criar os filhos que os homens tinham com Naamah (etimologicamente, encantadora, complacente), uma mulher-demônio que lhes aparecia em sonho, sorria para eles e os excitava, aquecendo-os. Ela se esfregava nos homens, bastando o desejo deles para fecundá-la. Se o homem acorda e mantém relações com a esposa, o filho que nascer será de Naamah, pois o desejo dele era por ela, embora a relação sexual tivesse sido mantida com a esposa. Lilith, então, velará por esta criança, visitando-a a cada Lua Nova.


CHINNAMASTA
Encarna Lilith a Lua Negra dos astrólogos, representando a recusa da afetividade e da sexualidade guiada e orientada pela lei social e divina para gozá-la livremente, sem nenhuma interdição. Simbolicamente, ao longo dos séculos, a Lua Negra aparece, por exemplo, na Índia, através de personagens como as deusas Bhairavi e Chinnamasta do Tantrismo. Na Grécia, no mito, o arquétipo funciona com relação às mênades de Dioniso, a Hécate, a Electra, a Medeia, a Fedra e outras
LETTRES   D'AMOUR ,
DE  MARIANA   ALCOFORADO
personagens. Na vida real ou na literatura mundial, são exemplos do arquétipo Safo, Anna Karenina, George Sand, Carmen, Emma Bovary, a princesa de Clèves ou a religiosa portuguesa do texto de Mariana Alcoforado. Há sempre uma ideia de rompimento dos limites oficiais. Mulheres reais que procuraram viver o amor livremente no que ele pode ter de mais profundo e intenso, válidos todos os sacrifícios para se chegar a esse absoluto, sempre fugidio ou negado, porém. Lilith pode ser vista também, segundo o entendimento judaico, rabínico, como o arquétipo da primeira feminista, onde quer que ela tenha aparecido.

Uma das imagens mais bem delineadas desse arquétipo é a da Lâmia como a mitologia grega a elaborou. O nome vem de um radical grego (lem) que traduz a ideia de sugar, tragar, devorar, denotando sempre avidez, voracidade. É filha do deus Poseidon e de Líbia, uma das filhas do deus Oceano. Dotada de grande beleza, foi amada por Zeus. Muito perseguida e amaldiçoada por Hera, todos os filhos que teve com o Senhor do Olimpo morriam. Tomada por grande desespero e dor, Lâmia refugiou-se então numa caverna, onde vivia embriagada, passando a alimentar um enorme ódio por todas as mães e por seus seus filhos, que raptava e devorava.

Incansável e vingativa, Hera foi mais fundo na sua sanha persecutória. Tirou o sono de Lâmia, não a deixando dormir, impedindo que Hipnos, o deus do sono, a visitasse. Por isso, embriagava-se ela cada vez mais. Apiedando-se do destino da jovem, Zeus lhe concedeu o privilégio de tirar e recolocar seus olhos nas suas órbitas quando bem entendesse, o que fazia cada vez mais, nunca deixando de se embriagar, porém. Costumava Lâmia vagar pelas noites em busca de crianças para aplacar o seu ódio. Com o tempo, transformou-se numa figura enorme, gorda, imunda e sexualmente insaciável. Aos poucos, sua imagem se fixou numa forma vampiresca que raptava adolescentes.

Num primeiro nível de leitura, Lâmia representou na mitologia grega a mulher que não conseguiu ter filhos, a mulher estéril, cheia de inveja, de ciúme, rancorosa. A Lâmia poder ser aproximada das
LÂMIA  ( BRONZE )
Sereias, só que vivendo em cavernas ou nos desertos. A semelhança com a Lilith dos judeus não pode deixar de ser feita, especialmente quanto ao fato desta última ser também raptora de crianças e jovens, modelos ambas da mãe terrível e castradora. A Lâmia, como símbolo anímico, aponta para um nível primário, instintivo, biológico, sexual, ou seja, para a alma aprisionada por seus apetites inferiores, entregue às tentações. Tanto Lâmia como Lilith representam a mulher abandonada, suplantada, e que, por isso, odeia os quadros familiares tradicionais porque não pode neles se integrar. Odeiam ambas a união legalizada e abençoada pela religião oficial e os frutos por elas gerados. Frutos que devoram como se devoram a si mesmas.

A partir do século XX, a Sociologia e a Psicologia tentaram em algumas culturas, para desgosto e escândalo de muitos movimentos religiosos oficiais, aliviar um pouco esta imagem demoníaca da Lâmia e da Lilith. A recusa que ambas encarnavam passou aos poucos, nas culturas onde o arquétipo mais se desenvolveu, a tipificar a mulher rebelde, que recusava o casamento tradicional, sendo uma de suas bandeiras, justamente, o movimento feminista. Personagens míticas como a Lâmia aparecem em tempos muito remotos, em várias tradições e culturas, como no épico sumério de Gilgamés. Entre os antigos chineses seu nome é Chiang-Shih. Na Índia, além do que já se disse, são as vetalas. O arquétipo pode ser

encontrado em várias civilizações, na mesopotâmica (tradição sumério-acádica), com os nomes de Lilitu, Lilu, Lulu (vide ópera de Alban Berg e filme de Pabst), na tradição egípcia, fenícia e outras mais. Segundo o modelo vivido nos tempos modernos, Algol (Lua Negra), sob um outro ângulo, representa também tudo aquilo que o homem teme no feminino no seu papel de mãe e amante, ambos devoradores. É também o lado selvagem, bruto, dionisíaco e ameaçador da mulher, demonizado ao logo da história da humanidade, principalmente por todos movimentos religiosos.

A Lua Negra, na Astrologia, é um ponto fictício no céu, mas importante na  interpretação de temas astrológicos. Ela simboliza, de um modo geral, a sensualidade. Não podemos confundir este ponto com a sexualidade que Plutão representa, esta sempre ligada a um poder de criação. A Lua Negra é um ponto focal de natureza tamásica, como dizem os hindus. Este ponto tem relação com uma energia condensada, que precisa ser liberada. Há uma ideia de algo a vencer, de uma obscuridade a dissipar, de um karma a purgar, alguma coisa que é preciso liquidar. É no mapa um lugar de temor, de recusa, e ao mesmo tempo de fascinação, de atração e  de absorção. Transmutado, o ponto permite a purificação de paixões. É sempre um lugar perigoso que pode dar passagem de um modo abrupto ao centro mais luminoso do ser. A Lua Negra avança 3º por dia lunar e dá a volta completa no Zodíaco em oito anos e oito meses.

A estrela Algol se, por um lado, pode sugerir violência, obsessões e autodestruição, um ponto onde se acumulam sentimentos poderosos (raiva, ódio, estados compulsivos, vingança), ela pode, positivamente, por outro, liberar energias muito poderososas, como temos, por exemplo, nos mapas de Albert Einstein (Algol culminando) e de Mozart, que tinha Mercúrio ascendendo com Algol. Planetas em ligação com Algol carregam-se das energias desta estrela, uma das mais poderosas do céu.

Há também em Perseu um cluster, Capulus, a 23º30´ de Touro, tradicionalmente associada a sua influência a impulsos focados na
WILLIAM   BLAKE
ação, algo brutal às vezes, de natureza masculina, uma espécie de complemento das energias represadas por Algol, de natureza mais feminina. Alguns identificam Marte e Mercúrio por trás destas influências de Capulus. Um dos exemplos para estudo das influências deste cluster é o mapa de Wiliiam Blake, místico, poeta, pintor e gravador inglês do séc. XVIII.