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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PERSEUS

                     



PERSEUS é no mito filho de Zeus e de Danae, filha do rei de Argos, sendo, como tal, um dos ancestrais de Hércules. O Senhor do Olimpo penetrou na inexpugnável câmara da princesa por uma fenda nela existente no teto sob a forma de uma chuva de ouro. Engravidou-a, tornando-a mãe do futuro grande herói Perseu. O
DANAE   E   SEU   FILHO
menino permaneceu escondido, mas, um dia, o avô tomou conhecimento de sua existência. Encerrou mãe e filho num cofre inviolável e ordenou que fossem lançados ao mar. A pequena arca foi dar às costas de uma das ilhas Cíclades. Um dos irmãos do rei da ilha recolheu o cofre, o abriu, dele retirando Danae e o filho. Cuidou de ambos. Perseu logo se tornou um jovem esbelto, destemido, vivendo com a mãe na corte. O rei da ilha, Polidectes, que havia notado Danae e por ela se apaixonado, não conseguia conquistá-la devido à presença do jovem, sempre ao lado da mãe.



DANAE   E   A   CHUVA   DE   OURO  ( TICIANO )

Polidectes, um dia, ofereceu uma grande festa no palácio, perguntando aos convidados, como era costume, o que lhe ofereceriam como presente. Todos responderam que lhe dariam cavalos, o melhor presente para um rei como ele. Perseu, também convidado, num arroubo juvenil, disse que poderia, ao invés de cavalos, lhe dar como presente a cabeça da Medusa, pavoroso monstro que andava pelo mundo a aterrorizar os mortais. Polidectes aceitou. Deixando a mãe, muito preocupada e chorosa, nosso herói partiu então para a sua grande aventura iniciática. 



 O   PRESENTE  DE  PERSEU  ( JEAN-MARC  NATTIER )


PERSEU   E   AS   GREIAS
( EDWARD BURNE-JONES , 1892
Por intervenção de Zeus, Perseu recebeu o auxílio de duas divindades, Hermes e Palas Athena. Instruído por elas, Perseu, antes de buscar a Medusa, foi procurar as Greias (As Velhas), três monstros que viviam no extremo ocidente. O caminho era difícil, a região não era alcançada por nenhum raio de Sol, raríssimos os que se atreveram a visitá-la, dos quais, aliás, nunca mais se teve qualquer notícia. Só as Greias conheciam o caminho que levava à Górgona Medusa. As Greias também conheciam determinadas ninfas que guardavam certos objetos indispensáveis a qualquer empreitada heroica que tivesse por finalidade a morte da Górgona.


PERSEU
Perseu obteve das ninfas tudo o que lhe era necessário para a sua vitória: umas  sandálias com asas, uma espécie de alforje denominado quibisis (para guardar a cabeça da Medusa) e o capacete do deus Hades, que tornava invisível quem o usasse. Hermes, além disso, lhe deu uma afiadíssima espada (harpe ou falx), Palas Athena lhe emprestou a sua égide, polida como um espelho. Chegando à
TRÊS   GÓRGONAS
caverna da Medusa, a mais importante dos três monstros, Perseu a encontrou; junto dela, as suas duas outras irmãs, Esteno e Euríale. Na cabeça das três, à guisa de cabelo, serpentes; na boca, presas de javali; mãos e asas de bronze. Quem as olhasse ficaria petrificado. Calçando as sandálias voadoras, Perseu sobrevoou as três irmãs, concentrando-se na Medusa; refletiu o seu rosto no escudo e  lhe cortou a cabeça. Do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso; o pai era
PALAS  ATHENA  E  SEU  ESCUDO
Poseidon, a única divindade que ousara se aproximar da Medusa. Posteriormente, como sabemos, a cabeça do monstro foi colocada no escudo de Palas Athena, que com ela conseguiu assim petrificar os inimigos que bem desejasse. Pondo o elmo do deus Hades na cabeça, Perseu tornou-se invisível, escapando das duas outras irmãs,  Esteno e Euríale. 

Na volta, ao passar pela Etiópia, envolveu-se nosso herói com os reis do país, conforme já narrado anteriormente (constelação de Andrômeda). Libertou a princesa do pavoroso monstro Ceto que, enviado por Poseidon, iria devorá-la como vítima expiatória por causa da hybris materna. Voltando à sua terra de origem, com a princesa Andrômeda, soube Perseu que Polidectes tentara violentar sua mãe. Destronou-o, pondo no seu lugar o irmão que dele e da mãe cuidara. Em seguida, em companhia da mãe e de Andrômeda, foi em busca do seu passado. Tomou o caminho de Argos para conhecer o avô materno, Acrísio, rei da grande cidade. Ao saber da presença do neto, voltou à lembrança de Acrísio uma profecia que um oráculo lhe fizera quando do nascimento do menino, a de que um filho de Danae o mataria. Acrísio revolveu então, enquanto o neto estivesse na cidade, ir para Larissa e lá permanecer, cidade onde reinava um amigo. 



PERSEU   SALVA   ANDRÔMEDA  ( VERONESE )

Em Larissa realizavam-se competições esportivas, jogos fúnebres (agones), em homenagem ao pai do rei, recentemente falecido. A cidade recebera a visita de muitos atletas, vindos de várias regiões da Grécia, como era comum quando da realização destes certames. A caminho de Argos, Perseu resolveu participar dos jogos anonimamente. Na prova do lançamento de disco, da qual participava, Perseu o lançou de tal modo que, escapando do seu controle, a peça de metal atingiu violentamente a cabeça de um espectador que estava na tribuna real, matando-o. Era Acrísio, que em companhia do rei de Larissa a tudo assistia entusiasmado. Cumprira-se assim a profecia do oráculo. 





Esclarecidos os fatos, cheio de dor por ter causado a morte do avô, Perseu, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrou-o em Larissa. Tomou a decisão de não se dirigir a Argos para reivindicar o trono que, por direito, lhe cabia. Foi para Tirinto, onde reinava um primo, propondo-lhe que, no seu lugar, assumisse o trono de Argos, enquanto ele, Perseu, ficaria com o de Tirinto. Assim aconteceu, vivendo nosso herói até o fim de sua vida em companhia de Andrômeda e dos muitos filhos que tiveram.



PERSEU   E   ANDRÔMEDA  ( LAMBERT  SUSTIUS , 1510 - 1560 )

Perseu é o herói que vence a Medusa, símbolo da mãe terrível, responsável pela imagem excessiva da culpa que filhos podem criar quando têm que resolver o problema da construção de uma individualidade própria. Cortar a cabeça do monstro é dominar de modo permanente este sentimento desproporcional, exagerado, paralisante e mórbido que sobrevém quando há necessidade de que sejam ultrapassados os limites lunares do mundo familiar, tendo-se em vista a necessidade, como se disse da aquisição de uma individualidade autônoma.

A culpa que Perseu procurou e conseguiu (?) expiar, ao matar a Medusa, está representada no mito por aquilo que na vida do jovem grego chamava-se o momento da separação ou da iniciação, correspondente ao rito da efebia na sociedade grega. O herói, o jovem grego, por volta dos seus 18 anos, tinha que se afastar da proteção familiar, sobretudo a materna, e ir sozinho pelo mundo, viver por certo tempo nas fronteiras mais distante do país, em busca da sua afirmação, da construção de uma personalidade independente que o habilitasse a ter o direito, ao voltar, de se inscrever no seu demo como cidadão. Desta habilitação fazia parte um exame ao qual o jovem, depois de cumprida a efebia, devia se submeter, exame ao qual se dava o nome de docimasia. Dokimos, em grego, quer dizer prova. Docimasia era, pois, verificação de aptidão ou de elegibilidade. A dignidade da cidadania só era concedida àqueles que fossem aprovados quando da sua docimasia.   

Toda iniciação, e esta é uma das mais importantes, equivale no fundo a uma morte e um renascimento, fases aqui consideradas como uma saída, a transposição da  porta, para se ter acesso a um outro tipo de vida. Uma saída que significa uma entrada. A iniciação, neste sentido, operava uma metamorfose, a ultrapassagem de uma condição. Perseu abandonou o mundo materno, entrou num mundo difícil, escuro, foi ao extremo ocidente (morte da luz) onde viviam as Górgonas. Simbolicamente, no plano do psiquismo, temos aqui uma descida ao mundo subconsciente, a luta contra monstros e o retorno. A morte iniciática, a do antigo eu, prefigura a morte que deve ser considerada como a iniciação essencial para se ter acesso a uma vida nova. 


EFEBO   DOMANDO   SEU   CAVALO

O que se depreende desta história é que mesmo nas sociedades patriarcais a figura materna, embora submetida e subjugada, sempre guardou poderes que nunca deixaram de se manifestar, sub-repticiamente, de modo muitas vezes dissimulado, às ocultas.  Com efeito, quanto ao mundo grego, a experiência materna ocupava toda a infância de uma criança do sexo masculino, dominando ela toda a primeira parte da vida do jovem até a efebia. A criança grega passava esses anos iniciais de sua vida no gineceu (Esparta era exceção), o reduto feminino da casa. Para o grego, a criança e o adolescente até a efebia estavam presos de algum modo à  figura materna. Essa dependência, a rigor, nunca era rompida, mesmo que a casa materna fosse abandonada, persistindo a ligação por toda a vida como pressões inconscientes. Sempre presente a ameaça das origens, a tentação da vida regressiva. No arquétipo materno estão presentes de modo ambivalente a vida e a morte. Nascer é sair do ventre materno, morrer é voltar ao seio materno, a Mãe Terra. De um lado, segurança, abrigo, ternura, amor; de outro, risco de opressão, abafamento, castração e morte.

MEDUSA
A Medusa, no mito, é um dos aspectos da mãe que se recusa a ver rompido o cordão umbilical, a mãe devoradora que não quer perder a dependência do filho. Negativamente vivido, como se sabe, o arquétipo materno pode se projetar de variadas formas, de sentimentos inibidores, perturbadores, como saudade, nostalgia, culpa, remorso, lembranças, atavismos poderosos, hábitos, idiossincrasias,  materializando-se das mais variadas formas, como cidade natal, quintais, túmulos, jogos infantis, jazigos familiares, praias, alimentos, jardins, fontes, igrejas, salas de aula, brinquedos, objetos etc. Ou manifestando-se também sob a forma de pesadelo noturno, desde "visitas" de uma feiticeira, de uma serpente, de um monstro, a situações oníricas angustiantes geralmente ligadas a extravios, descaminhos, desorientação, impossibilidades ou limitações físicas, perda de algum sentido, surdez (falam conosco e não conseguimos ouvir), cegueira, permanência obrigatória em lugares desconhecidos etc. Na sua feição negativa, a figura materna aparece nos sonhos como uma força primitiva egoísta, exigindo sempre, não dando paz. A tarefa do herói consistirá, pois, em aprender a eliminar ou diminuir o poder dessas imagens e representações  sobre a sua personalidade. 

No seu aspecto destrutivo, quanto ao menino, ao adolescente, principalmente, a  fixação na figura materna apresenta geralmente uma tendência involutiva, uma regressão instintiva. Mesmo naqueles que conseguem se libertar fisicamente, a maioria continua a sofrer uma fascinação inconsciente que ameaça de paralisação o desenvolvimento do eu. Neste sentido, a mãe se torna para a criança um não-eu, sempre hostil, em razão do temor que inspira pela dominação inconsciente exercida. Num mapa astrológico, os bons astrólogos sabem que tudo isto pode ser explicado pela Lua, por sua posição e aspectos.

Alguns esclarecimentos adicionais, acredito, nos ajudarão a entender o papel dos homens e das mulheres na sociedade grega, papel que a mitologia, com seus heróis, nunca deixou de refletir. Evidentemente que quanto às meninas, às jovens do sexo feminino, nada do que está acima se aplica. Quanto à mulher, na sociedade grega, principalmente no período clássico de sua História, os papéis
ASPÁSIA   E   PÉRICLES  ( JOSÉ  GARNELO  Y  ALDA )
admitidos estavam assim distribuídos: em primeiro lugar, a cortesã, mulher livre, instruída, de família rica, que escolhia os seus homens e que pontificava em salões em que se discutiam filosofia e arte. Poucas, muito poucas, desempenharam este papel. A mais famosa foi Aspásia, bela e rica sofista, que viveu com Péricles, rei de Atenas. Em segundo lugar, temos as concubinas, para os prazeres da carne, pois as cortesãs eram sobretudo para os prazeres do espírito. Em terceiro lugar, a esposa, que vivia encerrada no gineceu, cuidando da administração da casa, das crianças, dos empregados domésticos e dos escravos. Fora deste cenário, que é o da aristocracia como classe social superior, a dos cidadãos, as mulheres distribuíam-se pela classe dos metecos (metoikoi), estrangeiros, e escravos (douloi), de todos os tipos. Só para se ter uma noção de números, lembremos que no século de Péricles, Atenas tinha cerca de 400.000 escravos para uma população de eupátridas ("bem nascidos", os aristocratas) situada entre 20 e 30.000 cidadãos.  

Dentro de casa, o marido, como chefe de família, tinha autoridade absoluta, dispondo inclusive do dote da esposa. A esposa, durante toda a sua vida, era, sob o ponto de vista legal, considerada como menor, já que dependia do seu senhor (kyrios) para tudo. Em qualquer circunstância, a mulher sempre dependia de uma autoridade masculina. Solteira, dependia do pai; casada, do marido; viúva, dependia do filho mais velho ou de um tutor por disposição testamentária do marido.    





A constelação de Perseu, por sua relação com a de Andrômeda, a princesa, é também conhecida como a do Príncipe. Príncipes, simbolicamente, representam a promessa de um poder autêntico, independente, qualquer que seja o domínio considerado, o contexto onde apareçam como personagens não só de mitos, mas de lendas ou histórias bem como no folclore.  O príncipe é o primus inter pares. Por isso, falamos em príncipe dos poetas, das artes, da ciência. O príncipe é também a imagem de um estado adolescente de vida, ainda não totalmente controlado. Esse estado, para ser ultrapassado, precisa de provas. O príncipe está mais para o herói que para o sábio, estado a que ele poderá ter acesso, ainda que isto seja muito difícil. A figura do príncipe sempre aponta para a metamorfose de um eu inferior num eu superior, entrando sempre a força do amor, nos mitos, como agente desta transformação. A grande vitória do príncipe é tanto a morte do monstro como a recompensa de um amor total. Outro, aliás,  não é o sentido da famosa história do Príncipe e da Bela Adormecida. Não podem ser esquecidas também todas as conotações cósmicas e sexuais embutidas neste tema. A libertação da princesa pelo príncipe pode significar a ação de deuses solares libertando ou acordando a adormecida alvorada. 

O mito de Perseu, como se disse, encerra a alegoria da passagem iniciática na qual um herói, depois de sua efebia (a vitória sobre a Medusa), une-se a uma princesa por ele libertada. Princesas são, como sabemos, simbolicamente, nos mitos, nas lendas e nos contos folclóricos aspectos do inconsciente masculino. Personificam, como anima, todas as tendências psicológicas femininas do psiquismo masculino que ele talvez não entenda bem ou mesmo que delas nada suspeite, mas que precisa resgatar, libertar, para poder dar à sua personalidade uma dimensão cósmica. Perseu é um herói que não segue o modelo mais comum de heróis da mitologia, no geral fracassados, inadaptados. Perseu se diferencia dos demais heróis porque não teve um pai mortal.


ANQUISES  E  AFRODITE
( FRANÇOIS  BOUCHER )
Todos os heróis gregos, como regra geral, são filhos de um deus e de uma mortal ou, em bem poucos casos, de uma deusa e de um mortal. Exemplo do primeiro caso, Hércules. Seu pai divino era Zeus. Sua mãe era Alcmena, princesa, mortal, casada com Anfitrião, mortal. Do segundo caso, Eneias. Mãe divina, Afrodite; pai mortal, Anquises. Por essa razão, talvez, é que Perseu seja o mais "terreno" dos heróis, tendo terminado os seus dias, ao que parece, em paz com Andrômeda, cheio de filhos. 

Perseu, como todos os heróis das várias tradições míticas gregas, é um fecundador e, como tal, saturado de machismo, sendo um dos mais bem acabados representante do princípio masculino, enquanto Andrômeda é um  símbolo do princípio gerador da vida. A libertação e a união com a princesa significa neste caso a possibilidade que é oferecida ao herói para que possa entrar em contacto com o seu lado feminino, a sua anima, algo que parece não ter acontecido, segundo os registros do mito. Todos os heróis gregos parecem ter fracassado neste ponto, sendo exemplares, dentre outros, os casos de Hércules (6º trabalho, O Cinturão da rainha Hipólita, das amazonas), de Teseu (o seu procedimento com relação a Ariadne), de Ulisses (o seu melancólico retorno a Ítaca).  

ANDRÔMEDA
 ( DANILE  CHESTER  FRENCH ) 
Lembremos que o nome Andrômeda é formado por palavras gregas, aner, andros e medein, que significam, respectivamente, homem corajoso, viril, herói, e cuidar de, comandar, ou seja, ela é a que reina sobre o homem ou a que dá limites ao homem. A anima feminina, como se sabe, pode tomar uma feição muito destrutiva na personalidade masculina, destruindo-a, desvirilizando-o totalmente. Talvez seja por essa razão que a literatura psicológica (Jung e seus seguidores) apresente muito mais material sobre a anima do que sobre o animus, aquela  sempre considerada muito perigosa para o tradicional desempenho masculino na medida em que aponta para a vida subconsciente, para o mundo dos sentimentos e das emoções. 



HOMERO   ENSINA  DANTE , SHAKESPEARE  E GOETHE
( BELA  CIKOS  SUSIJA , 1864 - 1931 ) 

Por outro lado, não é a mulher emancipada ou masculinizada, fálica, que pode oferecer ao homem uma possibilidade de transcendência, mas, sim, aquela que, longe dos estereótipos, simbolize o eterno feminino (veja Dante e Goethe),  na medida em que ela sabe manter-se aberta para um contacto com as forças geradoras do universo. O feminino não se limita só à maternidade; é dele uma variedade e uma grandeza de sentimentos que o masculino jamais poderá experimentar, inclusive se considerarmos o corpo humano sob o ponto da sua química. A mulher sempre manteve um contacto muito maior que o homem com o mundo do irracional e das emoções. É só a partir deste entendimento, talvez, que a anima, os aspectos femininos do inconsciente masculino, deixarão de ser, como sempre o foram, representados por monstros. 


A constelação de Perseu vai de 12º de Touro a 11º de Gêmeos. A sua estrela mais brilhante é Algenib ou Mirfak, alfa, a 1º 23´ de Gêmeos; depois,  Algol, beta,  hoje a 25º28´ de Touro; e Capulus, um cluster, a 23º 30´ de  Touro. Segundo Ptolomeu, as influências de Perseu apontam para uma natureza aventureira, dão inteligência, mente poderosa, mas, às vezes, eticamente questionável. As estrelas, ainda segundo Ptolomeu, têm a natureza de Júpiter e de Saturno. Mirfak, porém, pelo que me foi possível observar, tem mais uma natureza marciana, que jupiteriana ou saturnina. Ela nos fala de ação física, de juventude, de vitalidade, de destemor, com inclinação para a imprudência e para a impulsividade, características tipicamente marcianas. 





A outra estrela de Perseus é Algol, considerada tradicionalmente como uma das mais maléficas do céu, que representa a Medusa. O nome nos veio dos árabes, Ras al Ghul, a Cabeça do Demônio, Caput Medusa para os latinos. Os astrólogos judeus a chamaram de Lilith, a primeira mulher de Adão, depois transformada numa espécie de vampiro noturno. Lilith é o feminino que diz não. Segundo os judeus, é aquele feminino que transgride a lei divina para poder viver o desejo absoluto. Não podendo satisfazê-lo, fecha-se na solidão gelada do seu refúgio. Lilith tem a ver com as trevas, com a noite, de onde tira o seu nome, laylah (noite). No mundo árabe, principalmente entre os persas, no período medieval, Leila era o nome de uma mulher ideal dos poetas.



A   CRIAÇÃO   DO   MUNDO

A Bíblia, no Gênesis, nos revela que Deus criou o macho e a fêmea em condições de igualdade. Quando esta fêmea criada reivindicou essa condição em relação ao macho, ela logo constatou que não poderia obtê-la porque Deus e Adão, o macho, não o consentiram. Voou ela então em direção do deserto, indo depois para o mar Vermelho. Adão queixou-se a Deus, que enviou três anjos numa fracassada tentativa de trazê-la de volta.


LILITH
( ERNEST  BARLACH )
Juntando-se aos "anjos caídos", tornou-se Lilith (assim passaram a denominá-la os judeus) mulher de Samael, o senhor das forças do mal, o Sitra Achra. Para os judeus, Lilth é uma figura sedutora, com longos cabelos, que voa à noite para atacar os homens que dormem sozinhos, que têm filhos demônios com eles, por meio de suas poluções noturnas, roubando inclusive crianças. Na véspera do Shabat (Lua Nova) quando uma criança sorri no berço é porque Lilith está brincando com ela. Na Idade Média, havia a crença de que era perigoso beber água nos equinócios e nos solstícios porque nesses períodos o sangue menstrual de Lilith pingava, poluindo todos os líquidos expostos. 

Ignorada pela Bíblia, Lilith aparece no Zohar, o Livro dos Esplendores da Cabala hebraica. Ali se revela que ela gerou o espírito de Adão ainda inanimado, depois uniu-se a ele como mãe e mulher ao mesmo tempo. Lilith é assim a primeira  mulher que precede aquela que assumirá o papel de esposa concebida a partir de Adão, sempre inferior a ele, portanto, e inteiramente conformada à lei conjugal por ele imposta.    


SALOMÃO   E  A  RAINHA  DE  SABÁ
( FRANS  FRANCKEN , 1581 - 1642 )

Lilith tornou-se para sempre a rainha da noite, o grande demônio feminino, a rainha de Sabá (apareceu a Salomão disfarçada como a rainha de Sabá), a grande prostituta da Babilônia, a futura feiticeira que, ao longo de milênios, arderá em todas as fogueiras do desejo coletivo, a vamp fatal de todos os filmes noirs. Lilth é uma das primeiras imagens que toma o arquétipo materno que não recua diante da morte da sua própria criação (Medeia) nem diante de seus amantes. É a chamada mãe terrível e castradora, a parte maldita da anima feminina. 

Segundo a tradição judaica, Lilith não podia ter filhos, era estéril, pois Deus, como está no Zohar, colocou-lhe o sexo no lugar do cérebro. Ela, contudo, encontrou um meio de criar uma progenitura. Ela passou a criar os filhos que os homens tinham com Naamah (etimologicamente, encantadora, complacente), uma mulher-demônio que lhes aparecia em sonho, sorria para eles e os excitava, aquecendo-os. Ela se esfregava nos homens, bastando o desejo deles para fecundá-la. Se o homem acorda e mantém relações com a esposa, o filho que nascer será de Naamah, pois o desejo dele era por ela, embora a relação sexual tivesse sido mantida com a esposa. Lilith, então, velará por esta criança, visitando-a a cada Lua Nova.


CHINNAMASTA
Encarna Lilith a Lua Negra dos astrólogos, representando a recusa da afetividade e da sexualidade guiada e orientada pela lei social e divina para gozá-la livremente, sem nenhuma interdição. Simbolicamente, ao longo dos séculos, a Lua Negra aparece, por exemplo, na Índia, através de personagens como as deusas Bhairavi e Chinnamasta do Tantrismo. Na Grécia, no mito, o arquétipo funciona com relação às mênades de Dioniso, a Hécate, a Electra, a Medeia, a Fedra e outras
LETTRES   D'AMOUR ,
DE  MARIANA   ALCOFORADO
personagens. Na vida real ou na literatura mundial, são exemplos do arquétipo Safo, Anna Karenina, George Sand, Carmen, Emma Bovary, a princesa de Clèves ou a religiosa portuguesa do texto de Mariana Alcoforado. Há sempre uma ideia de rompimento dos limites oficiais. Mulheres reais que procuraram viver o amor livremente no que ele pode ter de mais profundo e intenso, válidos todos os sacrifícios para se chegar a esse absoluto, sempre fugidio ou negado, porém. Lilith pode ser vista também, segundo o entendimento judaico, rabínico, como o arquétipo da primeira feminista, onde quer que ela tenha aparecido.

Uma das imagens mais bem delineadas desse arquétipo é a da Lâmia como a mitologia grega a elaborou. O nome vem de um radical grego (lem) que traduz a ideia de sugar, tragar, devorar, denotando sempre avidez, voracidade. É filha do deus Poseidon e de Líbia, uma das filhas do deus Oceano. Dotada de grande beleza, foi amada por Zeus. Muito perseguida e amaldiçoada por Hera, todos os filhos que teve com o Senhor do Olimpo morriam. Tomada por grande desespero e dor, Lâmia refugiou-se então numa caverna, onde vivia embriagada, passando a alimentar um enorme ódio por todas as mães e por seus seus filhos, que raptava e devorava.

Incansável e vingativa, Hera foi mais fundo na sua sanha persecutória. Tirou o sono de Lâmia, não a deixando dormir, impedindo que Hipnos, o deus do sono, a visitasse. Por isso, embriagava-se ela cada vez mais. Apiedando-se do destino da jovem, Zeus lhe concedeu o privilégio de tirar e recolocar seus olhos nas suas órbitas quando bem entendesse, o que fazia cada vez mais, nunca deixando de se embriagar, porém. Costumava Lâmia vagar pelas noites em busca de crianças para aplacar o seu ódio. Com o tempo, transformou-se numa figura enorme, gorda, imunda e sexualmente insaciável. Aos poucos, sua imagem se fixou numa forma vampiresca que raptava adolescentes.

Num primeiro nível de leitura, Lâmia representou na mitologia grega a mulher que não conseguiu ter filhos, a mulher estéril, cheia de inveja, de ciúme, rancorosa. A Lâmia poder ser aproximada das
LÂMIA  ( BRONZE )
Sereias, só que vivendo em cavernas ou nos desertos. A semelhança com a Lilith dos judeus não pode deixar de ser feita, especialmente quanto ao fato desta última ser também raptora de crianças e jovens, modelos ambas da mãe terrível e castradora. A Lâmia, como símbolo anímico, aponta para um nível primário, instintivo, biológico, sexual, ou seja, para a alma aprisionada por seus apetites inferiores, entregue às tentações. Tanto Lâmia como Lilith representam a mulher abandonada, suplantada, e que, por isso, odeia os quadros familiares tradicionais porque não pode neles se integrar. Odeiam ambas a união legalizada e abençoada pela religião oficial e os frutos por elas gerados. Frutos que devoram como se devoram a si mesmas.

A partir do século XX, a Sociologia e a Psicologia tentaram em algumas culturas, para desgosto e escândalo de muitos movimentos religiosos oficiais, aliviar um pouco esta imagem demoníaca da Lâmia e da Lilith. A recusa que ambas encarnavam passou aos poucos, nas culturas onde o arquétipo mais se desenvolveu, a tipificar a mulher rebelde, que recusava o casamento tradicional, sendo uma de suas bandeiras, justamente, o movimento feminista. Personagens míticas como a Lâmia aparecem em tempos muito remotos, em várias tradições e culturas, como no épico sumério de Gilgamés. Entre os antigos chineses seu nome é Chiang-Shih. Na Índia, além do que já se disse, são as vetalas. O arquétipo pode ser

encontrado em várias civilizações, na mesopotâmica (tradição sumério-acádica), com os nomes de Lilitu, Lilu, Lulu (vide ópera de Alban Berg e filme de Pabst), na tradição egípcia, fenícia e outras mais. Segundo o modelo vivido nos tempos modernos, Algol (Lua Negra), sob um outro ângulo, representa também tudo aquilo que o homem teme no feminino no seu papel de mãe e amante, ambos devoradores. É também o lado selvagem, bruto, dionisíaco e ameaçador da mulher, demonizado ao logo da história da humanidade, principalmente por todos movimentos religiosos.

A Lua Negra, na Astrologia, é um ponto fictício no céu, mas importante na  interpretação de temas astrológicos. Ela simboliza, de um modo geral, a sensualidade. Não podemos confundir este ponto com a sexualidade que Plutão representa, esta sempre ligada a um poder de criação. A Lua Negra é um ponto focal de natureza tamásica, como dizem os hindus. Este ponto tem relação com uma energia condensada, que precisa ser liberada. Há uma ideia de algo a vencer, de uma obscuridade a dissipar, de um karma a purgar, alguma coisa que é preciso liquidar. É no mapa um lugar de temor, de recusa, e ao mesmo tempo de fascinação, de atração e  de absorção. Transmutado, o ponto permite a purificação de paixões. É sempre um lugar perigoso que pode dar passagem de um modo abrupto ao centro mais luminoso do ser. A Lua Negra avança 3º por dia lunar e dá a volta completa no Zodíaco em oito anos e oito meses.

A estrela Algol se, por um lado, pode sugerir violência, obsessões e autodestruição, um ponto onde se acumulam sentimentos poderosos (raiva, ódio, estados compulsivos, vingança), ela pode, positivamente, por outro, liberar energias muito poderososas, como temos, por exemplo, nos mapas de Albert Einstein (Algol culminando) e de Mozart, que tinha Mercúrio ascendendo com Algol. Planetas em ligação com Algol carregam-se das energias desta estrela, uma das mais poderosas do céu.

Há também em Perseu um cluster, Capulus, a 23º30´ de Touro, tradicionalmente associada a sua influência a impulsos focados na
WILLIAM   BLAKE
ação, algo brutal às vezes, de natureza masculina, uma espécie de complemento das energias represadas por Algol, de natureza mais feminina. Alguns identificam Marte e Mercúrio por trás destas influências de Capulus. Um dos exemplos para estudo das influências deste cluster é o mapa de Wiliiam Blake, místico, poeta, pintor e gravador inglês do séc. XVIII.








quarta-feira, 15 de abril de 2015

O ÓDIO

A sinonímia deste sentimento que nos leva a querer mal a alguém e nos causa alegria com o mal que lhe acontece é vasta. Ele pode se manifestar de várias maneiras. Anda sempre na companhia de outros sentimentos, igualmente intensos, dominadores, como a inveja, o ciúme, o medo... Lá no fundo, todos sabemos, mais ou menos claramente, que o ser humano odeia o que lhe causa incômodo, desprazer, qualquer tipo de sofrimento. Como fenômeno da vida afetiva, o ódio é algo que se impõe. Por isso, é preciso reconhecer que não temos ódio, mas, ao contrário, é ele que nos tem, sempre uma paixão, como sobre ele falaram Santo Agostinho, Montaigne ou Descartes.

Muitas vezes, ouvimos: tenho ódio. Mas ódio de quê, de quem? Embora tenhamos aprendido, desde a infância, a distinguir os sentimentos positivos e elogiáveis dos socialmente negativos e reprováveis, quanto mal já não fizemos e continuamos a fazer por causa das várias formas de ódio que alimentamos inconscientemente, de um modo disfarçado, escondido ou recalcado. Todos os que escreveram sobre o ódio, filósofos, sociólogos, teólogos, psicólogos, religiosos, escritores, ou simplesmente os que o vivem e sobre ele falam, são unânimes na afirmação de que a energia desse sentimento é tão poderosa que pode transformar inteiramente a vida de quem é possuído por ele. Ele vive dentro das casas, está em todos os relacionamentos humanos, paira nas ruas, invisível, veloz, e é contagiante como um vírus. 

ÓDIO NA LITERATURA

Na literatura, encontramos exemplos bem claros do ódio contra o indivíduo que tem coragem de ser diferente dos demais. Cito aqui um romance francês famoso, O Estrangeiro, de Albert Camus, escrito em 1942, que Luchino Visconti transformou em filme, com Marcello Mastroianni no papel principal. O personagem-título, Meursault, acusado de ter matado um árabe, é condenado, não pelo assassinato em si, mas por ter agido sempre de maneira inusitada, isto é, ao longo de sua vida não agiu como a sociedade esperava que agisse segundo os papéis que desempenhava, inclusive o de assassino. Por exemplo, no enterro da mãe, não chorou, não demonstrou aparentemente nenhuma emoção, a emoção que um filho, em circunstâncias como essa, deveria demonstrar. Interrogado, quando da morte do árabe, declarou não ter sentido nenhum remorso, nenhum arrependimento. Sua justificativa: talvez o calor e a luz forte do Sol o tenham levado a matá-lo. Primeiro um tiro e depois mais quatro, no corpo já morto. Por estes exemplos e, principalmente, por sua indiferença, a acusação o considerou um misantropo perigoso, um ser antissocial, que deveria ser executado para que não voltasse a dar semelhantes exemplos à humanidade. No final da história, o capelão da prisão tentou convencê-lo, antes de sua execução, de que ele deveria se reconciliar com Deus. Nada conseguiu.     

ÓDIO NA FAMÍLIA

Irmão é aquele que com relação a alguém é filho do mesmo pai e da mesma mãe. Neste caso, temos os chamados irmãos bilaterais ou germanos. Irmãos consanguíneos serão os irmãos só por parte de pai, sendo as mães diferentes. Irmãos uterinos têm a mesma mãe e pais diferentes. Gêmeos são os irmãos que nascem do mesmo parto. Irmão de criação é aquele que convive com um que descende diretamente dos genitores e ele não, sendo com ele criado. Colaços são os irmãos de leite, sendo filhos de genitores diferentes.


Siameses são os que nascem ligados fisicamente. Quaisquer que sejam as situações, a História registra casos de irmãos que se agrediram, que se mataram. Ódio, muito ódio entre eles. Temos, por exemplo, o caso de José e seus irmãos. Filho de Jacob, patriarca bíblico, e de Raquel, José, sendo preferido pelo pai, os irmãos, dez ao todo, tentaram matá-lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e escorpiões. Acabou sendo vendido como escravo a Putifar, no Egito, tendo conseguido resistir ao assédio da mulher dele, Zuleika. No cinema, um dos melhores filmes sobre o tema é Rocco e seus Irmãos, de Luchino Visconti.

O ódio entre os gêmeos, entretanto, parece ser o mais perturbador. Em todas as culturas e mitologias encontramos histórias sobre os gêmeos e o ódio que sentem um pelo outro. O fenômeno dos gêmeos sempre colocou, desde a antiguidade, o problema da ambivalência, exprimindo uma oposição entre forças da luz e forças das trevas. Simbolizam eles, no fundo, a própria dualidade do ser humano, as suas oposições internas e o conflito que devem enfrentar para superá-las. Caim e Abel, Rômulo e Remo, Esaú e Jacob são exemplos clássicos destas oposições. Inúmeras histórias apresentam os gêmeos como antagonistas, um bom e outro mau, este último sempre criando obstáculos para perturbar a ação do outro. 


CAIM  E  ABEL

ÓDIO PARA CRIANÇAS

Branca de Neve, muitos se esquecem, não é de Walt Disney. Ela nos vem de um conto de fadas europeu, aproveitado pelos Irmãos Grimm. Jovem princesa, a mais bela de todas, inocente, vê os males do mundo. Por isso, é maltratada por sua madrasta ciumenta, que deseja ser a mais bela das mulheres na terra. Por sua bondade natural, por sua pureza, Branca de Neve é protegida pelos animais da floresta e pelos Sete Anões.

A madrasta: 


- Gênio do espelho meu, vinde do espaço profundo, e dizei se há no mundo mulher mais bela que eu.
- Você é bela, mas Branca de Neve é mais bela, respondeu o espelho mágico que só falava a verdade. 
- Maldita. Eu me vingarei, conclui a madrasta.

Um conflito piegas entre a Maldade e a Bondade? Ou, simplesmente, por mais que teorizem os psicólogos, ideologicamente uma concessão disfarçada do poder patriarcal ao matriarcado?   

ÓDIO NA FILOSOFIA

Empédocles foi um filósofo grego que viveu lá pelos 450 anos aC. Figura excêntrica, orgulhoso, andava com a cabeça coroada de flores, arrastando multidões atrás de si que o procuravam para ouvir os seus discursos. Diz a história, ou lenda, que, para conferir as explicações sobre a origem do universo que propunha, a chamada teoria dos quatro elementos, atirou-se na cratera do vulcão Etna. Para ele, os quatro elementos estavam na origem de todas as coisas. Quando misturados, tínhamos os nascimentos, com a separação
EMPÉDOCLES
tínhamos a morte. Para Empédocles, a mistura e a separação dos elementos provinham de duas atividades; o Amor (Filotes) e o Ódio (Neikos). A primeira unia os elementos e a segunda os separava. A vida universal transcorria entre essas uniões e separações no decorrer do tempo, umas uniões durando mais, outras menos. A multiplicidade da vida cósmica se compunha num todo, sempre eternamente igual, a que ela chamava Esfera. Na Esfera divina todos os elementos estavam unidos pelo Amor, permanecendo o Ódio fora, circundando a Esfera. Em determinados pontos da Esfera, devido à ação do Ódio, os elementos se separavam, dando origem à diversidade dos seres. O Amor, por seu lado, procurava reconstituir o todo perdido, conciliando os elementos. Isto explicaria porque tantas e sempre novas criações aparecem no universo. Para Empédocles, a existência individual dos seres é sempre obra do Ódio. Assim, se temos na composição de um ser, por exemplo, Fogo e Terra, podemos buscar no outro, para um melhor equilíbrio, os elementos que faltam, Ar e Água. Um será assim o mestre do outro. Um aprendendo com o outro e deixando de se ver, como normalmente acontece, como antagonistas, irritando-se e agredindo-se constantemente. 

ÓDIO NA POESIA

Charles Baudelaire (1882-1867) – Desde cedo, como ele mesmo o reconheceu, sempre se sentiu um solitário. Além disso, um revoltado com relação à humanidade e, em especial, com relação à sua família (a mãe casara-se em segundas núpcias), que escandaliza por causa de sua vida desregrada, boêmia. Inadaptado, sempre alimentou um profundo spleen, agravado por uma angústia mórbida, mesclada por um ódio difuso contra o mundo. Traduziu tudo isso em versos. Numa série que publicou (1865) na famosa revista literária Revue des Deux Mondes, sob o título de As Flores do Mal, o primeiro poema tem o título de Prefácio, que traduzimos: 

A idiotice, o erro, o pecado, a avareza, 
Ocupam nossos espíritos e agem em nossos corpos, 
E nós alimentamos nossos amáveis remorsos, 
Como os mendigos alimentam a sua vermina. 

Nossos pecados são persistentes, 
nossos arrependimentos são fracos, 
A todos os nossos desejos atendemos fartamente, 
E retornamos alegremente ao caminho enlameado, 
Acreditando com lágrimas mentirosas 
lavar todas as nossas manchas. 

Sobre o travesseiro do mal está Satã Trimegisto 
Que acalenta longamente nosso espírito encantado, 
E o rico metal de nossa vontade 
Se evapora todo por obra deste sábio alquimista. 

É o Diabo que detém os fios que nos movimentam! 
Nos objetos repugnantes encontramos atrativos; 
A cada dia em direção do Inferno descemos um passo, 
Sem horror, através das trevas que fedem. 

Mas entre os chacais, as panteras, as cadelas, 
Os macacos, os escorpiões, os abutres, as serpentes, 
Os monstros vociferantes, uivantes, guinchantes, rastejantes 
Na morada infame dos nossos vícios, 

Há um, mais feio, mais maligno, mais imundo! 
Embora ele não faça grandes gestos nem dê grandes gritos, 
Ele faria da terra, de bom grado, um monturo 
E, num bocejo, engoliria o mundo: 

É o Tédio! O olho pesado de um choro involuntário, 
Ele sonha com cadafalsos enquanto fuma seu huka. 
Tu o conheces, leitor, este monstro delicado 
-Hipócrita leitor,- meu semelhante, - meu irmão!

ÓDIO NA MITOLOGIA 

O ódio pode ser provocado pelos mais diversos sentimentos, inveja, insegurança, ciúme etc. Sob este último aspecto, a história de Fedra é exemplar. Princesa cretense, por razões políticas, uniu-se a Teseu, rei de Atenas, que tinha um filho, Hipólito, de uma união anterior. Assim que o viu, Fedra foi tomada pela paixão. Hipólito, belíssimo jovem, entretanto, consagrara-se a Ártemis, deusa virgem, e evitava qualquer contacto com sua madrasta, apesar de sua insistência. Repudiada e temendo que Hipólito revelasse algo a seu marido, Fedra resolveu se vingar. Rasgando as suas vestes, simulou que fora atacada sexualmente pelo jovem. Teseu, temendo cometer alguma violência contra o filho, pediu que seu pai divino, o deus Poseidon, resolvesse a questão. Ao se afastar de Atenas, numa estrada, os cavalos do carro que Hipólito conduzia, assustados pelo ataque de um monstro marinho enviado por Poseidon, se precipitaram no mar, matando o jovem príncipe. Cheia de remorso, Fedra se suicidou, deixando, porém, uma carta ao marido, na qual incriminava Hipólito, insistindo na mentira de que tentara violentá-la.          

ÓDIO COMO VIOLÊNCIA COLETIVA


Um dos principais ingredientes da psicologia das multidões no capítulo da violência coletiva é o ódio. E ele o responsável tanto pelo arrebatamento como pelo sentimento de agressividade que se apossa em determinadas ocasiões dos grandes grupos humanos como as multidões, O linchamento é um dos aspectos deste ódio. O ódio acionado coletivamente provoca o dogmatismo, a intolerância e traz também a ideia de irresponsabilidade, pois todos o sentem. O ódio dá unanimidade; como todos são culpados, ninguém é culpado. O ódio, nesta perspectiva, é um sentimento simples, extremado, intenso. Ademais, opera por contágio. No linchamento, é um gatilho que, quando disparado não há como voltar atrás.


Linchar é executar sumariamente, sem julgamento regular e por decisão coletiva, um criminoso ou alguém suspeito de sê-lo. É a chamada lei de Lynch, que apareceu nos USA como um instrumento de justiça dos brancos racistas. Quase todas as vítimas de linchamento eram negras. Quem a instituiu, ao final do séc. XVIII, foi um fazendeiro da Virgínia, William Lynch. Criminosos apanhados em flagrante, muitas vezes forjado, eram sumariamente liquidados. Existe uma copiosa literatura sobre o linchamento, tanto histórica como sociológica e jurídica. Distinguem-se dois tipos de linchamento. Um é bem ordenado, limpo como o chamavam os especialistas, praticado por gente rica, limitado o castigo apenas ao criminoso, O outro é o chamado coletivo, praticado por grupos, no qual podem tomar parte várias pessoas; é desordenado, difuso, e pode gerar outras formas de violência muitas vezes incontroláveis, como incêndios, quebra-quebras etc. 

ÓDIO EM FREUD 

Segundo Freud, o ódio é uma paixão que visa à destruição do seu objeto. Ódio e destruição caminham juntos. Quando odiamos, queremos, no fundo, destruir. Essa vontade de destruição está associada a objetos ou seres que sejam fonte de uma sensação de desprazer, de dor, de sofrimento para nós. Pessoas próximas ou distantes, familiares, podem merecer todo o nosso ódio. O ódio não admitido por um parente volta-se geralmente contra a própria pessoa, muitas vezes na forma de uma culpa autopunitiva, somatizações. O masoquismo, nesse caso, é outro companheiro do ódio. Masoquismo, como sabemos, é um comportamento, inclusive sexual, através do qual uma pessoa tem necessidade de sentir dor e humilhação para obter alguma coisa, algum prazer. Chega esse comportamento às vezes ao sadomasoquismo, fazer sofrer e sofrer ao mesmo tempo. Como exemplo, Freud cita casos de ódio entre mãe e filha, na luta mais ou menos explícita que ambas podem travar para serem amadas pelo pai, de forma exclusiva; o ódio entre irmãos ou irmãs, na luta pelo amor parental, etc. 

Freud insiste na tendência inata à maldade, à agressão, à destruição, à crueldade. Socialmente, isso, para ele, é desastroso, já que o homem satisfaz sua aspiração ao gozo, a viver bem, segundo esse entendimento, à custa do seu próximo. Para viver em sociedade, É necessário renunciar a toda essa agressividade, o que nem sempre se consegue. Procura-se então um derivativo que receba a carga destrutiva que acumulamos. Este derivativo pode ser buscado fora da comunidade, do país, da classe social, exportado etc. “Criam-se” inimigos para receber toda a agressividade recalcada. Isto pode acontecer internamente, também. “Alguém precisa ser satanizado”. 

Um exemplo disto é o tema universal do bode expiatório, que nos vem desde a mais remota antiguidade. Elegemos um bode expiatório, que passa a receber todo o nosso ódio. Projetamos nele toda nossa culpa a fim de tranquilizar a nossa consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima. Sacrificado o bode expiatório, nos aquietamos, ficamos tranquilos, pelo menos por uns tempos. Um dos melhores exemplos do que aqui se fala está nas touradas. Como não sabemos lidar com a nossa besta interior (a nossa vida instintiva), mas, para mantê-la intocada, montamos um espetáculo de sangue, violência e morte para que alguém, o toureiro, no qual nos projetamos, se encarregue, em nosso nome, de matá-la simbolicamente numa arena através do sacrifício de um touro. 

Lembramos que a tradição do bode expiatório é universal e funciona em ambientes familiares, em locais de trabalho, na vida escolar, nos meios de comunicação de massa, na política, onde quer que pessoas se agrupem para fazer alguma coisa. É muito usada por pessoas, grupos sociais ou pela própria sociedade como um todo, que nada faz, para projetar a sua culpa (a sua inércia, o seu comodismo, o apego aos seus privilégios, a sua hipocrisia e a sua má-fé etc.) e aquietar a sua consciência que sempre tem necessidade, como se disse, de um culpado, de um castigo e de uma vítima.

ÓDIO NO TEATRO

Do Misantropo, de Molière: 

Filinto: Você deseja um mal tão grande à natureza humana?
Alceste: Sim, tenho por ela um ódio terrível.

Este estranho ódio a todos os homens fará com que Alceste decida se retirar do mundo. Fugir para um deserto. O misantropo é um atrabiliário. Um certo tipo de biles  negra o torna melancólico, mal humorado, resmungão, queixoso e chato. Dir-se-ia, talvez, em francês, um emmerdeur. Sua missão é reformar o mundo, pois, para ele, os homens são falsos, patifes, hipócritas, bajuladores. Alceste é uma espécie do pai da virtude, que, com razão em muitas coisas, só abre a boca para pregar moral, para criticar, denunciar, e sempre com ódio.

ÓDIO E A LÍNGUA GREGA

Os antigos gregos possuíam dois radicais (morfemas) para formar palavras que encerrassem a ideia de ódio, temor, repugnância, raiva ou aversão intensa. São eles phob e mis/miso. O primeiro tem relação com phobos, nome que encerra ideias de espanto, temor, ódio, medo, exasperação, inquietação, pânico, de pôr em fuga. O radical grego phob (fob) aparece em palavras terminadas em fobia, que se distribuem em três grupos: a) palavras indicando hostilidade sofrida por um grupo humano: xenofobia (aversão, ódio ao estrangeiro (xenos, estrangeiro, em grego); b) palavras indicando uma aversão natural com relação a um outro ser ou matéria, elemento: homofobia, aversão à homossexualidade (homo, o mesmo, semelhante, em grego); hidrofobia, aversão à água (hidr+o, água, em grego); c) palavras indicando uma aversão, uma angústia doentia, experimentada em certas situações: claustrofobia, medo, aversão, horror a lugares fechados (claustra, do latim, fechamento); gefirofobia, medo de atravessar pontes e viadutos (gephyra, ponte, em grego).


ARES

 Uma ligação mitológica: Ares, deus da guerra, era, entre os antigos gregos, o mais odioso dos imortais. Seus apelidos: bebedor de sangue, flagelo dos homens, deus das lágrimas, belicoso. Como toda divindade, possuía um séquito barulhento, ruidoso, que sempre o acompanhava. Dele faziam parte várias figuras sinistras e violentas como as Keres, divindades infernais, cruéis e sanguinárias, que viviam nos campos de batalha; Eris, a deusa da discórdia, muito presente nos tribunais; Enio, a devastadora, cujos gritos eram aterrorizantes; Deimos e Fobos, gêmeos, filhos que tivera com Afrodite, o primeiro representando o Terror e o outro o Horror. Ambos não têm representação no mito, não há histórias sobre eles. Sempre acompanharam o pai, bastando a sua simples presença para provocar os sentimentos que personificavam. 

O radical mis/miso vêm do verbo misein, odiar. Em português, esse radical nos deu, por exemplo, misogamia (miso + gamos, união, casamento), aversão ao casamento; misoginia (miso + gyné, mulher), aversão a mulheres; misologia (miso + logos, palavra, lógica), aversão à lógica, à arte do raciocínio; misoneismo (miso + neos, novo + ismo, qualidade, doutrina, sistema), aversão ou desconfiança com relação a mudanças, a inovações; misopedia (miso + paidos, criança, filho) aversão a crianças, filhos; misosofia (miso + sophos, conhecimento), aversão, ódio ou desprezo pelo saber, pela ciência; misodemia (miso + demos, povo), ódio ao povo, aversão às coisas populares; misoponia (miso + ponos, fadiga proveniente do trabalho), aversão, ódio ao trabalho.

ÓDIO À MULHER

Qualquer pessoa medianamente informada sabe que o Judaísmo e duas dissidências suas, o Cristianismo e o Islamismo, satanizaram e continuam satanizando a mulher, cada uma à sua maneira. As três são consideradas religiões patriarcais porque defendem o poder do pai e a ideologia que ele representa, quer em termos religiosos, políticos, econômicos, sociais ou familiares, mesmo que formalmente esse poder possa ser exercido por mulheres, como encontramos alguns exemplos no mundo atual.

Entre os judeus, um dos mais significativos exemplos dessa atitude com relação à mulher está na Bíblia. No Gênese, registra-se que Deus criou o macho e a fêmea em condições de igualdade. Contudo, o macho, com o beneplácito divino, não deu à fêmea tal condição. Rebelando-se, ela fugiu para o deserto e dali passou ao mar Vermelho. Os judeus deram a esta primeira mulher de Adão o nome de Lilith, considerando-a como um demônio e rainha da noite, e a consideram como mulher de Samael, o senhor das trevas do Sitra Achra (o Reino do Mal). Belíssima, sedutora, além de raptora de crianças, ela ataca aqueles (homens) que dormem sozinhos para ter com eles filhos-demônios através das suas poluções noturnas. Eva só aparece mencionada no capítulo seguinte, como um produto masculino, inteiramente submissa a Adão, seu senhor e mestre. Samael, esposo de Lilith, na forma de uma serpente-demônio, seduziu Eva, o que provocou a expulsão dela e de seu esposo Adão do paraíso. Lilith reina nas sextas-feiras e é representada comumente sob os traços de uma mulher nua com a parte inferior do corpo pisciforme, numa evocação direta da imagem das primeiras sereias.    


ADÃO  ,  EVA  E  LILITH

Entre os judeus, apesar de todos os avanços (mulheres disputando o rabinato, seu acesso aos textos religiosos etc.), na liturgia tradicional, nos chamados agradecimentos matinais feitos a Deus, ainda têm muito valor frases como esta: Bendito sejas Tu, Rei do Universo, que não me fizestes mulher. Quanto ao Islã, basta citar apenas, em que pesem diferenças entre alguns países, para caracterizar a profunda desigualdade entre homens e mulheres, que a poligamia continua como uma prerrogativa masculina, que a mulher para trabalhar e se educar fora de casa precisa de autorização do poder masculino ao qual estiver subordinada, que a estética feminina continua como uma imposição masculina etc. etc. etc.

Ainda recentemente, na Arábia Saudita, foi noticiado pela imprensa que cobre o oriente e pelas redes sociais (Internet, Twitter etc.) que o Mufti (jurisconsulto, erudito, imã) da Arábia saudita, o sheikh Abdul Aziz Al-Sheikh, expediu uma nova fatwa (aviso religioso que tem a força de orientação legal, sem ser propriamente uma lei. É geralmente baixado pela figura religiosa mais elevada) na qual se declara que o homem pode comer a sua mulher no caso de estar submetido a situações de fome severa. Homens podem, assim, de acordo com a Sharia, a lei islâmica, comer partes do corpo de sua mulher até que a sua fome seja satisfeita. O Mufti disse, para justificar a sua proclamação, que ela é uma evidência do sacrifício que as mulheres devem fazer com relação aos seus maridos e que, com isto, elas estarão dando uma demonstração suprema de união com a carne de seus maridos. Esclareceram mais os meios religiosos sauditas que a fatwa do Grande Mufti, a principal figura da lei islâmica (Sharia), deve ser seguida pelos muçulmanos de todo o mundo. 

No Cristianismo, os exemplos abundam. Lembremos inicialmente de Tertuliano (155-222), o primeiro dos escritores cristãos, que exerceu na África do Norte um verdadeiro magistério doutoral, sendo muito grande a sua influência na formação da linguagem teológica do cristianismo latino. São dele as seguintes palavras (De Cultu Feminarum) sobre a mulher: Mulher, tu és a porta do Diabo.
SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
Foste tu que tocaste a árvore de Satã e a primeira a violar a lei divina. Com efeito, sempre responsabilizada pela queda do gênero humano, excluída, em inúmeras religiões cristãs ou não, do sacerdócio, a mulher sempre recebeu qualificativos muito depreciativos. Aristóteles, o sábio estagirita, adotado pelo tomismo, a chamou de macho mutilado. São João Crisóstomo, um pouco mais suave, disse: a mulher é uma ferida da natureza sob a máscara da beleza.


O nosso espanto será maior, contudo, se saindo do terreno religioso, formos, na cultura ocidental, ao que falaram da mulher filósofos e escritores muito reverenciados. Mesmo admitindo com boa vontade que as afirmações que fizeram corresponderiam ao esprit du temps, que eles não poderiam escrever de modo diferente porque era assim que a sociedade a via etc. etc. etc., não dá para admitir que tenham falado da maneira como o fizeram. E note-se que dentre os detratores das mulheres encontramos nomes de grande relevo na história do pensamento ocidental e de escritores antológicos.

Schopenhauer deixou-nos esta pérola, muito conhecida: A mulher é um animal de cabelos longos e ideias curtas.         Apesar de muitos
comentadores acharem que o que Nietzsche (um dos pilares da filosofia ocidental) escreveu sobre as mulheres tem que ser interpretado de outro modo (nunca chegaram a explicar direito o que seria esse outro modo), o que temos dele é que as mulheres devem ser propriedade dos homens e que devem ser “enjauladas” para que não voem. Totalmente contra a emancipação feminina, Nietzsche recomendava que elas deveriam ser mantidas sob controle e medo. Livres, tornam-se intoleráveis. A cada manhã, deveriam se ajoelhar diante dos maridos, colocando-se à sua inteira disposição, como está no Zaratustra.  

Outras pérolas: Dois galos viviam em paz: uma galinha chegou. Eis que começa a guerra (La Fontaine). Vais às mulheres? Não esqueças o chicote! (Nietzsche, no citado Assim Falava Zaratustra). Como um homem pode amar um ser que, a despeito dele, também quer pensar? Uma mulher que pensa é tão repugnante quanto um homem que se pinta (G.E. Lessing). Deixemos as belas mulheres aos homens sem imaginação (Marcel Proust). Para finalizar, extraído do Dicionário de Psicanálise de Elizabeth Roudinesco e Michel Plon: Pouco preocupado com o feminismo, Freud mostrou-se misógino em algumas ocasiões e, em muitas, conservador. A nos atermos às aparências, podemos ver nele um cientista estreito, um bom burguês, um marido ciumento e um pai incestuoso; em suma, um representante da autoridade patriarcal tradicional. 

(Veja, neste blog, matéria sobre assunto no artigo Édipo, Jocasta, Antígone, Freud e Ana). 

ÓDIO E RELIGIÃO

Poucos admitem o ódio que sentem por si mesmos porque gostariam de ser diferentes e não conseguem.  Mas esse ódio é um fenômeno universal, como podemos constatar. Na história das religiões, temos o exemplo de pessoas que, embora o desejem, encontram muita dificuldade para se afirmar na vida, por razões diversas: tomadas por um grande idealismo, por uma incontida ânsia de espiritualidade, alegando muitas vezes desprezar as coisas mundanas, costumam desenvolver uma pulsão tão agressiva contra o seu próprio corpo físico que se entregam a certas práticas que podem ser consideradas como formas disfarçadas de um suicídio lento. Fazem parte dessas práticas o abandono do mundo, a renúncia a um nome, ao ambiente familiar e a entrega a formas severas de mortificação. Este último aspecto aparece muitas vezes nas religiões sob o nome de ascetismo (askeo, em grego, exercitar-se), que se caracteriza sobretudo pela renúncia ao prazer sexual e muitas vezes pela recusa à satisfação de outras necessidades básicas. 

Daí, quanto a este item, os vários motivos, no mais das vezes inconscientes. Muitas vocações religiosas como refúgio, como medo do sexo, como saída para desilusões sentimentais, como forma de evitar a angústia das escolhas diante das exigências da vida, como ego disfarçado (complexo de Moisés, querer guiar e/ou influenciar pessoas), como meio de resolver os problemas materiais da existência, ficando asseguradas casa, comida e, dependendo da personalidade de cada um, maior ou menor possibilidade de ascensão na carreira religiosa (o romance O Vermelho e O Negro,
de Stendhal, dentre os vários aspectos de sua grandeza, é um dos melhores exemplos do que se expõe aqui), como capitulação diante da filosofia de um tempo (leia A Religiosa, romance de Diderot, e veja o belíssimo filme que dele fez Jacques Rivetti). Aliás, a visão que Diderot tinha das mulheres e do feminino é uma clara contestação das envergonhadas razões dos que tentam encontrar desculpas para o machismo de filósofos. Em pleno século XVIII, lá está em Sobre as Mulheres: Mulheres, como eu vos lastimo! Não havia senão uma compensação para vossos males; e se eu fosse legislador, talvez a tivésseis obtido. Libertas de toda servidão, vós seríeis sagradas em qualquer lugar em que tivésseis aparecido.

ÓDIO NO SAMBA

Escorpiano assumido, conhecido como o autor dos sambas que tratam da dor-de-cotovelo (cornitude), sempre envolvido em grandes paixões, Lupicínio Rodrigues deixou-nos estes versos, em Caixa de Ódio : Matar um amor/que já tem tantos anos/Criar um inferno/dentro do seu lar. Fazer de meu peito/uma caixa de ódio/com um coração que não quer perdoar. Vingança, Nervos de aço, Fuga e outros são sambas em que temos toda a ambivalência do velho Lupe com relação ao seu sadomasoquismo, onde se misturam ódio e amor, desejos mórbidos e gozo agônico.




A vida e a obra de Lupicínio ilustram aquela forma de amor instintivo que jamais admite qualquer lampejo racional. Por isso, o ser amado, em Lupicínio, assume sempre um lugar exclusivo, único, definitivo (enquanto durar a paixão) e, também, destrutivo e, por essa razão, odiado. Para ele, mais do que para qualquer outro, as palavras de Catulo no seu verso magistral: odi et amo. Este verso, que sintetiza o conflito sempre presente em toda relação amorosa, raramente conscientizado, Lupicínio o traduziu excepcionalmente em samba.    

VALMONT, UM PERSONAGEM PARA SE ODIAR?

O maior expoente da Libertinagem no século XVIII é Choderlos de Laclos (1741-1823). Oficial do exército, estrategista, questionou toda autoridade em proveito do prazer. Sua obra mais conhecida, As Ligações Perigosas, é um verdadeiro tratado do Mal. Seus personagens são inesquecíveis, Valmont, Mme. de Merteuil, Mme. de Tourvel.

Para Valmont, o executor da arte de Laclos, a máxima virtude no jogo da Libertinagem, na síntese feita por Roger Vailland (Laclos par lui-même), era: Sempre em ação, sempre seduzindo, nunca seduzido. A seguir, as demais regras: 1) a escolha deve ser sempre meritória; 2) a sedução-ação, como na caça com cães, deve dar todas as chances à mulher a ser perseguida; 3) quanto à queda, executar esta etapa com muita clareza e sem muitas fioriture, floreios, variações; 4) na ruptura, o mérito está no éclatant (brilhante). Ou seja, romper em grande estilo. Esta etapa é sempre um grande desafio para o libertino, nada de ternuras, romper de tal modo que a vítima deva procurar a morte, real ou simbólica. 

Como corolários, a Libertinagem: 1) deve ser o contrário do amor-paixão. O contrário, por exemplo, de La Princesse de Clèves ou de Manon Lescaut. No entender do libertino, o amante apaixonado não escolhe. O deus Eros lança a sua flecha e ele capitula. Esse coup de foudre para um verdadeiro libertino é sempre muito vulgar. 2) O libertino não deve ser um coureur, isto é, não deve viver de um lado para outro, excitando-se por qualquer mulher. O alvo precisa ter muito valor, sua conquista deve ser meritória (mulheres que são monumentos de virtude, por exemplo). Há, por isso, que se escolher o alvo livremente, com muita calma, com a devida apreciação e avaliação. 3) A Libertinagem caminha no sentido contrário do amor erótico, que é coisa para brutos e ignorantes. Sexo é termo da biologia (não foi por acaso que uma sociedade tão imatura e primária como a norte-americana inventou essa idiota palavra, sexy, algo impensável para um verdadeiro libertino). O libertino jamais usa a palavra sexo. 4) A Libertinagem exige longa formação, exercício permanente, aperfeiçoamento constante. 5) A execução deve ser magistral, nada de pedantismo, orgulho, ufanismo. A arte pode admitir a cumplicidade, a mais terna das ligações para um verdadeiro libertino.