Mostrando postagens com marcador LUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LUA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).


sábado, 8 de março de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - A LUA (6)


    A associação da lebre à Lua se dá através de inúmeros traços que
ambas têm comum. Muitas histórias folclóricas, mitos, lendas e contos apontam para estas analogias. Uma primeira relação pode ser estabelecida através da renovação perpétua da vida, pelo simbolismo das águas fecundantes e da vegetação. A lebre é um animal extremamente fecundo, prolífico. Há sempre a cercá-la ideias de exuberância, de abundância,   de   multiplicação  e   também   de   desperdício,   de descontrole e de incontinência como as que temos quando pensamos na água. É neste sentido também que a grande disposição da lebre para o acasalamento faz dela um símbolo da luxúria. O cristianismo se apoderou deste traço para colocar uma lebre deitada aos pés da Virgem Maria a fim de simbolizar o controle da “tentação da carne”.

VIRGEM MARIA (MURILLO)

A lebre é um animal assustadiço, frágil, fugidio, razão pela qual, segundo as lendas, dorme de olhos abertos. O mesmo se pode dizer das pessoas lunares, sempre alerta, em guarda, observando tudo, defensivas, à espera de um ataque real ou imaginado, invariavelmente mais imaginado que real. O comportamento vigilante da lebre é tipicamente lunar, dizem-nos os contos folclóricos. A lebre gosta de dormir de dia e sair à noite, pois, como a Lua, aparece e desaparece em silêncio e eficazmente.

A lenda acima referida, a de que as lebres dormem de olhos abertos, foi submetida à análise por muitos médicos medievais, que, como atestado em muitas tradições, os levou a proibir o consumo exagerado de carne desse animal e do coelho, pois poderia provocar insônia. Por seu comportamento tímido, a lebre, no simbolismo da Idade  Média,
HÉCATE
representava a covardia (ignavia). É dentro desse universo que em muitas tradições nós  a encontramos  transformada num animal-tabu. Na tradição judaica, no Deuteronômio e no Levítico, o animal é considerado impuro. A feitiçaria também se apropriou da lebre, dando a ela como companheiros, no bestiário lunar, animais prolíficos como ela. No mito grego, vamos encontrá-los com a deusa Hécate nas encruzilhadas, nas noites de Lua nova.


Uma relação curiosa entre a lebre, a Lua e Mercúrio pode ser estabelecida, para fins astrológicos, quando constatamos que em muitas tradições, como as de algumas tribos indígenas do norte das Américas ela, a lebre, representa os heróis culturais desses povos. A explicação para o fato está na grande capacidade que a lebre
TRICHEUR (GEORGES DE LA TOUR)
demonstra para escapar de situações perigosas, de animais bem maiores que a atacam. Extremamente hábil, veloz e inteligente, a lebre, na maioria das vezes, consegue escapar deles. Essa esperteza a aproxima astrologicamente do Mercúrio-Hermes que, como se sabe, é a divindade que tutela o comportamento do  trickster, termo inglês que se adotou para designar uma forma mercuriana de viver. O trickster (tricheur, em francês) é aquele que por meio de artifícios fraudulentos, por esperteza, por estratagemas, por subterfúgios, criando ilusões, apresentando o falso como verdadeiro, consegue não só levar vantagens como se safar sempre de situações perigosas. A psicologia (Jung) nos diz que o trickster é um personagem no qual os apetites físicos dominam sua conduta, sendo no geral cruel, cínico e insensível.


A mitologia dos povos do norte da Europa, os escandinavos, compreende principalmente as crenças oriundas da própria península escandinava e da Islândia. Um ramo deste tronco é a mitologia germânica. Elas diferem em detalhes; conhecida a primeira, se conhecerá o caráter da segunda. 



EDDA

A mitologia escandinava está registrada numa obra chamada Edda, de origem islandesa, ao que parece do séc. XII, descoberta no séc. XVII, de autoria de Semudo Sigfusson, uma recompilação de
SNORRI STURLUSSON - SÉC. XIII
antiquíssimos poemas cosmogônicos mitológicos e históricos. Estes poemas eram divulgados oralmente, de castelo em em castelo e em feiras na Idade Média por poetas chamados escaldos, bardos, trovadores. Outro  importante texto, do séc. XIII, de autoria de Snorri Sturluson, que reapareceu no séc. XVII, também divulgado oralmente na sua origem, que continha comentários sobre a primeira obra, mais antiga, permitiu um melhor entendimento sobre ela.

 Embora  não  encontremos  referências  lunares  explícitas  na mitologia escandinava, podemos perceber na
sua cosmogonia fortes traços que apontam para o astro noturno, através de símbolos que a ele sempre foram relacionados. Refiro-me, por exemplo, à vaca, considerado um valor positivo com relação ao touro, cujo status simbólico é ambivalente. Com efeito, a vaca sempre representou a força maternal e nutritiva da Terra, sendo seus chifres vistos como imagens do mundo lunar. 

SURTUR

Na cosmogonia escandinava havia a princípio duas regiões, a do fogo e da luz, chamada Muspilheim, na qual reinava  um ser absoluto e eterno, Alfadir, e a região das trevas, domínio de Surtur, o Negro, chamada Nifflheim. Entre ambas se estendia o caos (Ginnungagap). As faíscas que se desprendiam da primeira região acabaram por fecundar os frios vapores dos gelados rios da
AUDUMBLA
segunda, provocando o nascimento de Imir, pai da raça dos gigantes. Mal nascido, Imir teve fome. Um raio da região luminosa fundiu o gelo dos rios tenebrosos, sendo formada a vaca Audumbla, de cujas tetas emanaram quatro fontes de leite, saciando-se assim a fome do gigante. Satisfeito, Imir dormiu e do suor de suas mãos nasceu um par de gigantes, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. 



YMIR


De um dos pés de Ymir, surgiu um monstro de seis cabeças.
A vaca sustentadora desta raça de gigantes nascida do gelo lambeu
ODIN
então a neve. Apareceu primeiro uma cabeleira, depois um crânio e
um corpo. Era o deus Bure, fortíssimo e de formosas proporções, que, por sua vez, gerou sozinho uma outra divindade, Bor. Unindo-se a uma giganta, Bor tornou-se pai de três outras divindades, Odin, Vili e Ve, deuses destinados a criar e a se assenhorear do universo.

O primeiro na hierarquia divina é o poderoso Odin, criador e conservador do universo, terrível deus da guerra. Sua companheira é Freya, personificação da Terra, mãe da fecundidade e de todos os seres. No panteão escandinavo, que se define a partir desse casal divino, não encontramos uma divindade que represente a Lua. Das características lunares apenas duas podem ser notadas em divindades femininas e mesmo assim não muito claramente. Sif, uma das esposas do deus Thor, filho de Odin, deus tempestuoso, tem, por exemplo, alguma relação com a fertilidade dos campos. A outra é a deusa Gefione, protetora das virgens.

Os celtas da Gália (gauleses) praticavam, na origem, uma espécie de animismo que não comportava representações figuradas. Por outro lado, nunca tiveram uma religião nacional. As manifestações religiosas eram tribais, as divindades eram tópicas, ligadas a um lugar determinado, ou regionais. Outra dificuldade para o estudo das práticas religiosas desses povos é que elas tiveram inicialmente, por séculos, um caráter oral. 


FESTA DA LUA

Politeístas como todos os primitivos, os celtas continentais divinizaram principalmente as águas, os picos das montanhas e alguns animais. Quanto às primeiras, os cultos se fixaram sobretudo nos rios e nas fontes. Deva, Diva, Devona (divina) era um nome comum aplicado aos rios gauleses. Borvo, Bormo ou Bormanus (Fervente, deus das fontes termais) eram os apelidos mais comuns.


EPONA

Uma das divindades mais características desse mundo é a deusa Epona, que apresenta alguns traços lunares. Ela aparece sempre ao lado de um cavalo, muitas vezes montada; envolve-lhe o corpo uma espécie de véu; na cabeça, ostenta um diadema. Seus atributos são o chifre da abundância, uma patera e frutos. Tem muito a ver com a abundância agrícola. Mas antes de tudo Epona é uma divindade das águas, que lembra a fonte de Hipocrene (fonte do cavalo) entre os gregos. 

ARTIOS E ARTIO

Quanto aos animais, os mais ligados aos cultos eram o cavalo, o corvo, o touro, o urso e o javali. Sagrados, estes animais emprestaram seu nomes a muitas cidades. Lugdunum (Lyon), por exemplo, tem a ver com o corvo (lugus, em latim). Os helvécios veneravam especialmente uma divindade de nome Artio (ursa), parecida com a Ártemis grega. Um animal que teve o seu culto muito espalhado nesse mundo foi o touro, um símbolo da força e do poder gerador lunar.

GÁLIA ROMANA

Quando os romanos começaram a invadir (guerras de conquista) a Europa central, a mitologia romana passou a influenciar bastante as representações que os celtas faziam de suas divindades. É nesse período, chamado de galo-romano, que ocorre a antropomorfização das divindades celtas. Muitos deuses romanos emprestarão seus corpos às divindades celtas. Diana, a deusa lunar dos romanos, não encontrou, porém, lugar para se acomodar no panteão celta.

Quando falamos dos cultos solares entre os antigos chineses (Sol nº 6), anotamos que faziam parte deles apenas duas cerimônias anuais. Já quanto à Lua, os cultos também não eram muito numerosos, mas, ao que parece, eram bem mais importantes, inclusive se fazendo a ela, o que não acontecia com o Sol, um número bem maior de sacrifícios. Uma das cerimônias celebradas em homenagem ao astro lunar era uma das três grandes festas anuais dos chineses. Essa festa acontecia no equinócio de outono, no dia quinze do oitavo mês, numa Lua cheia, e se destinava sobretudo às
AMARANTO
mulheres e às crianças. Havia distribuição de frutas, as crianças ganhavam de seus pais uma estatueta, um pequeno coelho branco ou um guerreiro armado com focinho de lebre. Nessa noite, distribuíam-se bolos açucarados e eram estendidas, nas casas, enfeitadas com galhos de amaranto vermelho, flâmulas nas quais se representava o palácio da Lua, no qual vivia a Lebre, animal que fabricava a droga da imortalidade. Os homens não participavam dessa festa, pois a lebre era popularmente um símbolo dos invertidos, sua entidade tutelar. 


Entre os chineses, a Lua era ainda habitada por uma deusa, Hang-Chang, mulher de Yi, o Excelente Arqueiro, personagem
YI OU O EXCELENTE ARQUEIRO
mitológico que abateu, dos dez existentes, nove sóis que um dia se atreveram invadir o céu e ameaçar a terra de incendiá-la. O Excelente Arqueiro havia obtido como recompensa dos deuses a droga da imortalidade. Sua mulher, aproveitando-se de sua ausência, consumiu um pouco dela. Colérico, Yi resolveu puni-la; ela então fugiu para a Lua, pedindo que a Grande Lebre a protegesse . Esta intercedeu e fez com que Yi renunciasse à sua intenção de puni-la. Esta é a história que explica porque na Lua vive uma  mulher, muito citada em poemas e histórias, a bela Hang-Chang.   


HANG-CHANG

Os cultos lunares ao longo dos séculos sofreram no Japão muitas mudanças. Os textos mais antigos nos dizem que a Lua nasceu do olho direito de Izanagi. Seu nome japonês, Tsuki (Lua) e Yomi (contar), indicam claramente que ela era usada para a contagem dos meses. Divindade masculina, em antigas antologias poéticas é
SANTUÁRIO DE ISE
costume juntar ao seu nome a palavra Otoko (homem) para destacar este caráter masculino. Nos santuários desta divindade, principalmente em Ise e Kadono, se encontram espelhos (shintai) do deus, através dos quais ele se manifesta. Ofereciam-se a cada ano ao deus da Lua cavalos, que eram guardados em estrebarias contíguas aos templos. A imagem chinesa
PASTA DE ARROZ
da lebre preparando na Lua a droga da imortalidade passou ao Japão com algumas modificações: os japoneses fazem a lebre amassar
arroz numa espécie de almofariz para transformá-lo em pasta. Isto se deve a um jogo de palavras: fazer a pasta de arroz para preparar doces se diz Mochi-zuki, o mesmo nome da Lua cheia, ainda que seus ideogramas sejam completamente diferentes.


  
Em todas as tradições, como pudemos ver, a Lua sempre foi considerada como uma espécie de Mãe do Mundo. Impregnada dos princípios fecundantes do Sol, que ela semeia, foram atribuídos a ela por isso os poderes geracionais, essencialmente os mesmos nas várias culturas. O crescimento da Lua durante os catorze primeiros dias de cada mês foi analogicamente associado ao desenvolvimento dos seres vivos. Daí, o costume de se semear vegetais nesse período e de se fazer a colheita no minguante. Esta influência se estendeu aos empreendimentos humanos, sempre mais favorecidos no crescente lunar. 

O orvalho, como se sabe, é mais abundante nas noites claras. Ele é 
a condensação do vapor de água da atmosfera que se deposita em gotículas sobre superfícies horizontais e resfriadas (terra, telhados, folhagens) pela manhã e à noite. Metaforicamente, podemos dizer, por isso, como muitos poetas o fizeram, que palavras funcionam como o orvalho (“suas palavras foram como o orvalho para mim”), são um lenitivo, um refrigério, trazendo alívio, livrando das opressões. 

Segundo Plínio, o Velho, o orvalho era o “suor do céu”, a “saliva dos astros”. Na mitologia grega, Drosos, o Orvalho, era filha de
CELENE
Zeus e de Selene. O orvalho, segundo antigas crenças, dava às ervas os seus sucos benéficos e, por essa razão, também se associava a divindades que favoreciam a vida afetiva, Astarte, Afrodite e Dioniso, que personificavam, à sua maneira, o orvalho fecundante do céu.


Os povos mais dedicados à atividade agrícola concluíram que a umidade procedia do astro lunar, naturalmente frio e úmido. Isto explica porque nas regiões secas e quentes o culto da Lua sempre suplantou os cultos solares. Em razão do seu crescimento e
CYBELE
de seu curso rápido a Lua, em todas as tradições, simboliza a fertilidade, decorrendo desse fato o grande culto às Grandes Mães, sempre protetoras da vegetação. Por essa razão também é que os deuses e deusas lunares encontram um lugar de destaque nas sociedades de vocação agrícola.  


Outro traço comum importante da Lua, notável no mundo todo, é que ela é um símbolo da renovação em virtude do seu reaparecimento periódico. Por não ter luz própria, é símbolo da dependência e do conhecimento indireto, pois reflete a luz do Sol. Sua luz atenuada é intermediária entre o esplendor solar e a obscuridade, entre a consciência e o mundo inconsciente da noite. Por esse razão encarna a anima, o princípio feminino, passivo, os erros cometidos antes da chegada da luz do consciente, solar. 

ANIMA  (PENÉLOPE) - ANIMUS  (ULISSES) - MARC CHAGALL

Na caracterologia, a Lua rege os temperamentos linfáticos, digestivos, cuja tendência maior é a de permanecer em estados embrionários, protegidos, temperamentos fortemente marcados pelo instinto de conservação, pela prudência, pelo amor à calma,
pelo repouso, pela vida simples, familiar. Por isso, a Lua num mapa astrológico é símbolo da alma e sua posição revela formas de reação, de receptividade e de capacidade de adaptação às exigências da vida quotidiana. Dominando a Lua, na constelação dos astros de um nascimento, temos o destaque para a predominância da vida infantil, arcaica, vegetativa e animal no psiquismo do ser humano (infantilismo psíquico). 

Quanto às fases, a Lua nova, em várias tradições, é símbolo da infância. A Lua crescente, da juventude, da adolescência, da receptividade universal e indiferenciada que atrai tudo, das pulsões não conscientizadas, correspondendo à extroversão. A Lua cheia aponta para a maturidade, para a gestação, para o ato de dar à luz.

                                               A Lua minguante simboliza o declínio
GEORGES MELIÈS
da vida e representa os tipos introvertidos, orientados para a vida interior, para o sono, para o pressentimento, para a fantasia, para o inconsciente coletivo. É esta última fase que os alquimistas chamam de Lua balsâmica porque é o fim de um ciclo vital, onde a experiência espiritual do homem deve se elevar como o incenso (bálsamo), lembrando os sacrifícios que devem ser feitos em nome do reino do espírito.