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sábado, 8 de março de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - A LUA (6)


    A associação da lebre à Lua se dá através de inúmeros traços que
ambas têm comum. Muitas histórias folclóricas, mitos, lendas e contos apontam para estas analogias. Uma primeira relação pode ser estabelecida através da renovação perpétua da vida, pelo simbolismo das águas fecundantes e da vegetação. A lebre é um animal extremamente fecundo, prolífico. Há sempre a cercá-la ideias de exuberância, de abundância,   de   multiplicação  e   também   de   desperdício,   de descontrole e de incontinência como as que temos quando pensamos na água. É neste sentido também que a grande disposição da lebre para o acasalamento faz dela um símbolo da luxúria. O cristianismo se apoderou deste traço para colocar uma lebre deitada aos pés da Virgem Maria a fim de simbolizar o controle da “tentação da carne”.

VIRGEM MARIA (MURILLO)

A lebre é um animal assustadiço, frágil, fugidio, razão pela qual, segundo as lendas, dorme de olhos abertos. O mesmo se pode dizer das pessoas lunares, sempre alerta, em guarda, observando tudo, defensivas, à espera de um ataque real ou imaginado, invariavelmente mais imaginado que real. O comportamento vigilante da lebre é tipicamente lunar, dizem-nos os contos folclóricos. A lebre gosta de dormir de dia e sair à noite, pois, como a Lua, aparece e desaparece em silêncio e eficazmente.

A lenda acima referida, a de que as lebres dormem de olhos abertos, foi submetida à análise por muitos médicos medievais, que, como atestado em muitas tradições, os levou a proibir o consumo exagerado de carne desse animal e do coelho, pois poderia provocar insônia. Por seu comportamento tímido, a lebre, no simbolismo da Idade  Média,
HÉCATE
representava a covardia (ignavia). É dentro desse universo que em muitas tradições nós  a encontramos  transformada num animal-tabu. Na tradição judaica, no Deuteronômio e no Levítico, o animal é considerado impuro. A feitiçaria também se apropriou da lebre, dando a ela como companheiros, no bestiário lunar, animais prolíficos como ela. No mito grego, vamos encontrá-los com a deusa Hécate nas encruzilhadas, nas noites de Lua nova.


Uma relação curiosa entre a lebre, a Lua e Mercúrio pode ser estabelecida, para fins astrológicos, quando constatamos que em muitas tradições, como as de algumas tribos indígenas do norte das Américas ela, a lebre, representa os heróis culturais desses povos. A explicação para o fato está na grande capacidade que a lebre
TRICHEUR (GEORGES DE LA TOUR)
demonstra para escapar de situações perigosas, de animais bem maiores que a atacam. Extremamente hábil, veloz e inteligente, a lebre, na maioria das vezes, consegue escapar deles. Essa esperteza a aproxima astrologicamente do Mercúrio-Hermes que, como se sabe, é a divindade que tutela o comportamento do  trickster, termo inglês que se adotou para designar uma forma mercuriana de viver. O trickster (tricheur, em francês) é aquele que por meio de artifícios fraudulentos, por esperteza, por estratagemas, por subterfúgios, criando ilusões, apresentando o falso como verdadeiro, consegue não só levar vantagens como se safar sempre de situações perigosas. A psicologia (Jung) nos diz que o trickster é um personagem no qual os apetites físicos dominam sua conduta, sendo no geral cruel, cínico e insensível.


A mitologia dos povos do norte da Europa, os escandinavos, compreende principalmente as crenças oriundas da própria península escandinava e da Islândia. Um ramo deste tronco é a mitologia germânica. Elas diferem em detalhes; conhecida a primeira, se conhecerá o caráter da segunda. 



EDDA

A mitologia escandinava está registrada numa obra chamada Edda, de origem islandesa, ao que parece do séc. XII, descoberta no séc. XVII, de autoria de Semudo Sigfusson, uma recompilação de
SNORRI STURLUSSON - SÉC. XIII
antiquíssimos poemas cosmogônicos mitológicos e históricos. Estes poemas eram divulgados oralmente, de castelo em em castelo e em feiras na Idade Média por poetas chamados escaldos, bardos, trovadores. Outro  importante texto, do séc. XIII, de autoria de Snorri Sturluson, que reapareceu no séc. XVII, também divulgado oralmente na sua origem, que continha comentários sobre a primeira obra, mais antiga, permitiu um melhor entendimento sobre ela.

 Embora  não  encontremos  referências  lunares  explícitas  na mitologia escandinava, podemos perceber na
sua cosmogonia fortes traços que apontam para o astro noturno, através de símbolos que a ele sempre foram relacionados. Refiro-me, por exemplo, à vaca, considerado um valor positivo com relação ao touro, cujo status simbólico é ambivalente. Com efeito, a vaca sempre representou a força maternal e nutritiva da Terra, sendo seus chifres vistos como imagens do mundo lunar. 

SURTUR

Na cosmogonia escandinava havia a princípio duas regiões, a do fogo e da luz, chamada Muspilheim, na qual reinava  um ser absoluto e eterno, Alfadir, e a região das trevas, domínio de Surtur, o Negro, chamada Nifflheim. Entre ambas se estendia o caos (Ginnungagap). As faíscas que se desprendiam da primeira região acabaram por fecundar os frios vapores dos gelados rios da
AUDUMBLA
segunda, provocando o nascimento de Imir, pai da raça dos gigantes. Mal nascido, Imir teve fome. Um raio da região luminosa fundiu o gelo dos rios tenebrosos, sendo formada a vaca Audumbla, de cujas tetas emanaram quatro fontes de leite, saciando-se assim a fome do gigante. Satisfeito, Imir dormiu e do suor de suas mãos nasceu um par de gigantes, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. 



YMIR


De um dos pés de Ymir, surgiu um monstro de seis cabeças.
A vaca sustentadora desta raça de gigantes nascida do gelo lambeu
ODIN
então a neve. Apareceu primeiro uma cabeleira, depois um crânio e
um corpo. Era o deus Bure, fortíssimo e de formosas proporções, que, por sua vez, gerou sozinho uma outra divindade, Bor. Unindo-se a uma giganta, Bor tornou-se pai de três outras divindades, Odin, Vili e Ve, deuses destinados a criar e a se assenhorear do universo.

O primeiro na hierarquia divina é o poderoso Odin, criador e conservador do universo, terrível deus da guerra. Sua companheira é Freya, personificação da Terra, mãe da fecundidade e de todos os seres. No panteão escandinavo, que se define a partir desse casal divino, não encontramos uma divindade que represente a Lua. Das características lunares apenas duas podem ser notadas em divindades femininas e mesmo assim não muito claramente. Sif, uma das esposas do deus Thor, filho de Odin, deus tempestuoso, tem, por exemplo, alguma relação com a fertilidade dos campos. A outra é a deusa Gefione, protetora das virgens.

Os celtas da Gália (gauleses) praticavam, na origem, uma espécie de animismo que não comportava representações figuradas. Por outro lado, nunca tiveram uma religião nacional. As manifestações religiosas eram tribais, as divindades eram tópicas, ligadas a um lugar determinado, ou regionais. Outra dificuldade para o estudo das práticas religiosas desses povos é que elas tiveram inicialmente, por séculos, um caráter oral. 


FESTA DA LUA

Politeístas como todos os primitivos, os celtas continentais divinizaram principalmente as águas, os picos das montanhas e alguns animais. Quanto às primeiras, os cultos se fixaram sobretudo nos rios e nas fontes. Deva, Diva, Devona (divina) era um nome comum aplicado aos rios gauleses. Borvo, Bormo ou Bormanus (Fervente, deus das fontes termais) eram os apelidos mais comuns.


EPONA

Uma das divindades mais características desse mundo é a deusa Epona, que apresenta alguns traços lunares. Ela aparece sempre ao lado de um cavalo, muitas vezes montada; envolve-lhe o corpo uma espécie de véu; na cabeça, ostenta um diadema. Seus atributos são o chifre da abundância, uma patera e frutos. Tem muito a ver com a abundância agrícola. Mas antes de tudo Epona é uma divindade das águas, que lembra a fonte de Hipocrene (fonte do cavalo) entre os gregos. 

ARTIOS E ARTIO

Quanto aos animais, os mais ligados aos cultos eram o cavalo, o corvo, o touro, o urso e o javali. Sagrados, estes animais emprestaram seu nomes a muitas cidades. Lugdunum (Lyon), por exemplo, tem a ver com o corvo (lugus, em latim). Os helvécios veneravam especialmente uma divindade de nome Artio (ursa), parecida com a Ártemis grega. Um animal que teve o seu culto muito espalhado nesse mundo foi o touro, um símbolo da força e do poder gerador lunar.

GÁLIA ROMANA

Quando os romanos começaram a invadir (guerras de conquista) a Europa central, a mitologia romana passou a influenciar bastante as representações que os celtas faziam de suas divindades. É nesse período, chamado de galo-romano, que ocorre a antropomorfização das divindades celtas. Muitos deuses romanos emprestarão seus corpos às divindades celtas. Diana, a deusa lunar dos romanos, não encontrou, porém, lugar para se acomodar no panteão celta.

Quando falamos dos cultos solares entre os antigos chineses (Sol nº 6), anotamos que faziam parte deles apenas duas cerimônias anuais. Já quanto à Lua, os cultos também não eram muito numerosos, mas, ao que parece, eram bem mais importantes, inclusive se fazendo a ela, o que não acontecia com o Sol, um número bem maior de sacrifícios. Uma das cerimônias celebradas em homenagem ao astro lunar era uma das três grandes festas anuais dos chineses. Essa festa acontecia no equinócio de outono, no dia quinze do oitavo mês, numa Lua cheia, e se destinava sobretudo às
AMARANTO
mulheres e às crianças. Havia distribuição de frutas, as crianças ganhavam de seus pais uma estatueta, um pequeno coelho branco ou um guerreiro armado com focinho de lebre. Nessa noite, distribuíam-se bolos açucarados e eram estendidas, nas casas, enfeitadas com galhos de amaranto vermelho, flâmulas nas quais se representava o palácio da Lua, no qual vivia a Lebre, animal que fabricava a droga da imortalidade. Os homens não participavam dessa festa, pois a lebre era popularmente um símbolo dos invertidos, sua entidade tutelar. 


Entre os chineses, a Lua era ainda habitada por uma deusa, Hang-Chang, mulher de Yi, o Excelente Arqueiro, personagem
YI OU O EXCELENTE ARQUEIRO
mitológico que abateu, dos dez existentes, nove sóis que um dia se atreveram invadir o céu e ameaçar a terra de incendiá-la. O Excelente Arqueiro havia obtido como recompensa dos deuses a droga da imortalidade. Sua mulher, aproveitando-se de sua ausência, consumiu um pouco dela. Colérico, Yi resolveu puni-la; ela então fugiu para a Lua, pedindo que a Grande Lebre a protegesse . Esta intercedeu e fez com que Yi renunciasse à sua intenção de puni-la. Esta é a história que explica porque na Lua vive uma  mulher, muito citada em poemas e histórias, a bela Hang-Chang.   


HANG-CHANG

Os cultos lunares ao longo dos séculos sofreram no Japão muitas mudanças. Os textos mais antigos nos dizem que a Lua nasceu do olho direito de Izanagi. Seu nome japonês, Tsuki (Lua) e Yomi (contar), indicam claramente que ela era usada para a contagem dos meses. Divindade masculina, em antigas antologias poéticas é
SANTUÁRIO DE ISE
costume juntar ao seu nome a palavra Otoko (homem) para destacar este caráter masculino. Nos santuários desta divindade, principalmente em Ise e Kadono, se encontram espelhos (shintai) do deus, através dos quais ele se manifesta. Ofereciam-se a cada ano ao deus da Lua cavalos, que eram guardados em estrebarias contíguas aos templos. A imagem chinesa
PASTA DE ARROZ
da lebre preparando na Lua a droga da imortalidade passou ao Japão com algumas modificações: os japoneses fazem a lebre amassar
arroz numa espécie de almofariz para transformá-lo em pasta. Isto se deve a um jogo de palavras: fazer a pasta de arroz para preparar doces se diz Mochi-zuki, o mesmo nome da Lua cheia, ainda que seus ideogramas sejam completamente diferentes.


  
Em todas as tradições, como pudemos ver, a Lua sempre foi considerada como uma espécie de Mãe do Mundo. Impregnada dos princípios fecundantes do Sol, que ela semeia, foram atribuídos a ela por isso os poderes geracionais, essencialmente os mesmos nas várias culturas. O crescimento da Lua durante os catorze primeiros dias de cada mês foi analogicamente associado ao desenvolvimento dos seres vivos. Daí, o costume de se semear vegetais nesse período e de se fazer a colheita no minguante. Esta influência se estendeu aos empreendimentos humanos, sempre mais favorecidos no crescente lunar. 

O orvalho, como se sabe, é mais abundante nas noites claras. Ele é 
a condensação do vapor de água da atmosfera que se deposita em gotículas sobre superfícies horizontais e resfriadas (terra, telhados, folhagens) pela manhã e à noite. Metaforicamente, podemos dizer, por isso, como muitos poetas o fizeram, que palavras funcionam como o orvalho (“suas palavras foram como o orvalho para mim”), são um lenitivo, um refrigério, trazendo alívio, livrando das opressões. 

Segundo Plínio, o Velho, o orvalho era o “suor do céu”, a “saliva dos astros”. Na mitologia grega, Drosos, o Orvalho, era filha de
CELENE
Zeus e de Selene. O orvalho, segundo antigas crenças, dava às ervas os seus sucos benéficos e, por essa razão, também se associava a divindades que favoreciam a vida afetiva, Astarte, Afrodite e Dioniso, que personificavam, à sua maneira, o orvalho fecundante do céu.


Os povos mais dedicados à atividade agrícola concluíram que a umidade procedia do astro lunar, naturalmente frio e úmido. Isto explica porque nas regiões secas e quentes o culto da Lua sempre suplantou os cultos solares. Em razão do seu crescimento e
CYBELE
de seu curso rápido a Lua, em todas as tradições, simboliza a fertilidade, decorrendo desse fato o grande culto às Grandes Mães, sempre protetoras da vegetação. Por essa razão também é que os deuses e deusas lunares encontram um lugar de destaque nas sociedades de vocação agrícola.  


Outro traço comum importante da Lua, notável no mundo todo, é que ela é um símbolo da renovação em virtude do seu reaparecimento periódico. Por não ter luz própria, é símbolo da dependência e do conhecimento indireto, pois reflete a luz do Sol. Sua luz atenuada é intermediária entre o esplendor solar e a obscuridade, entre a consciência e o mundo inconsciente da noite. Por esse razão encarna a anima, o princípio feminino, passivo, os erros cometidos antes da chegada da luz do consciente, solar. 

ANIMA  (PENÉLOPE) - ANIMUS  (ULISSES) - MARC CHAGALL

Na caracterologia, a Lua rege os temperamentos linfáticos, digestivos, cuja tendência maior é a de permanecer em estados embrionários, protegidos, temperamentos fortemente marcados pelo instinto de conservação, pela prudência, pelo amor à calma,
pelo repouso, pela vida simples, familiar. Por isso, a Lua num mapa astrológico é símbolo da alma e sua posição revela formas de reação, de receptividade e de capacidade de adaptação às exigências da vida quotidiana. Dominando a Lua, na constelação dos astros de um nascimento, temos o destaque para a predominância da vida infantil, arcaica, vegetativa e animal no psiquismo do ser humano (infantilismo psíquico). 

Quanto às fases, a Lua nova, em várias tradições, é símbolo da infância. A Lua crescente, da juventude, da adolescência, da receptividade universal e indiferenciada que atrai tudo, das pulsões não conscientizadas, correspondendo à extroversão. A Lua cheia aponta para a maturidade, para a gestação, para o ato de dar à luz.

                                               A Lua minguante simboliza o declínio
GEORGES MELIÈS
da vida e representa os tipos introvertidos, orientados para a vida interior, para o sono, para o pressentimento, para a fantasia, para o inconsciente coletivo. É esta última fase que os alquimistas chamam de Lua balsâmica porque é o fim de um ciclo vital, onde a experiência espiritual do homem deve se elevar como o incenso (bálsamo), lembrando os sacrifícios que devem ser feitos em nome do reino do espírito.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MERCÚRIO (4)



Mercúrio, como vimos, é um corpo planetário pequeno e muito rápido; energeticamente, é mutável, bipolar, conversível, nervoso e estéril. Mercúrio absorve a polaridade e as características dos planetas que lhe enviam aspectos. Pela proximidade solar e por sua grande velocidade, sua energia está sempre sujeita a frequentes e irregulares flutuações. Aparece sempre associado à  atividade cerebral dinâmica e prática, à computação intelectual e à informação. É nesse sentido que Mercúrio tem a ver com os nossos contactos primários com o mundo, o impulso para obter informações e para trocá-las, emitindo-as e recebendo-as.
VÊNUS
LUA
 É por estas razões também que Mercúrio nada tem a ver com sentimentos e emoções, que são astrologicamente da alçada de Vênus e da Lua.

Há, em grego, uma série de palavras que nos descrevem atividades e procedimentos do deus (Hermes) que nos ajudam a entender
HERMA - HERMES
melhor o universo em que ele se movimenta e atua: herma, é todo objeto que serve de ponto de apoio, que serve para suportar alguma coisa, fundamento (de barcos ancorados numa praia, de uma cidade, de um Estado); hermaion, encontro feliz, descoberta favorável, proporcionada pelo deus (lembremo-nos de heureka, de Arquimedes); hermaios, proveitoso, vantajoso; hermeneia, expressão de um pensamento, faculdade expressiva, uma explicação; hermeneuma, significação, símbolo; hermeneutikos, aquilo que concerne à interpretação de alguma coisa, de um texto, no sentido de lhe abrir o sentido; hemetikos, onde o ar não entra, fechado, é o impenetrável ao sentido. Os
ARQUIMEDES
romanos, para fins artísticos (arte religiosa), sempre muito práticos, usarão o nome de Hermes para, associando-o ao de outras divindades ou heróis, criar imagens híbridas como Hemaracles (busto representando ao mesmo tempo Mercúrio e Hércules), Hermerotes (busto representando ao mesmo tempo Mercúrio e o Amor, Cupido), Hermathena (busto representando ao mesmo tempo Mercúrio e Minerva).   


Hermes não tem santuários grandiosos, não pertence, a rigor, a
ENCRUZILHADA
qualquer localidade; viaja pelos três mundos, não mora permanentemente em nenhum lugar, está sempre indo, caminhando. Hermes é, como vimos, honrado sobretudo nas encruzilhadas e nos ginásios, lugares de pouca dignidade se os compararmos com aqueles em que são reverenciados os seus colegas olímpicos, sempre em templos majestosos.



ZEUS TRANSFORMANDO LYCAON EM LOBO
  O mais antigo lugar de culto de Hermes ficava no monte Cilene, na Arcádia, onde ele nasceu; um pequeno templo levantado por Lycaon, filho de Pelasgo, atesta a grande antiguidade da presença do deus no Peloponeso. Os pelasgos foram os primeiros habitantes da Grécia, ali chegando bem antes dos aqueus. Dali, o culto teria passado à Ática e depois se irradiado pelo país. Uma peculiaridade: em muitos lugares (norte da África, Creta, Samos e na Magna Grécia), Hermes dividia esses primitivos lugares de culto com Afrodite, sendo comum neles se encontrar muitos ex-votos, na qualidade de Hermes como o iniciador dos jovens na vida adulta. Nestas representações, além de Afrodite (a vida social), Hermes vinha sempre acompanhado de sátiros e silenos, um indício de que dentre as iniciações que ele patrocinava estava a sexual.
 
GRÉCIA E MAGNA GRÉCIA

  Foi na qualidade de deus dos ginásios e da ginástica que a imagem de Hermes mais se fixou. Sua estátua estava entre as dos doze “grandes” em Olímpia, onde se celebravam os famosos agones. As Hermaias eram as festividades realizadas em homenagem ao deus nos ginásios. A participação nestas festividades só era permitida a jovens, aos meninos (paides) e às meninas (ageneioi).

Eram consagrados a Hermes a palmeira, a tartaruga, o galo, vários tipos de peixe e o número quatro, fazendo parte dos seus cultos, como matéria sacrificial, mel, incenso, porcos, cordeiros e bodes. A
MEDRONHEIRO
língua dos animais sacrificados lhe pertencia, pois era o deus da eloquência. Em alguns lugares onde Hermes era cultuado, uma planta ocupava lugar de destaque, o medronheiro, junto da qual ele fora criado no monte Cilene. O medronheiro é uma pequena árvore, com madeira dura, folhas coriáceas, flores brancas e pequenos frutos alaranjados, comestíveis, semelhantes ao morango.


 
SALGUEIRO
Assim que Hermes nasceu, Maia embrulhou-o num cueiro e o colocou no vão do tronco de um salgueiro, árvore-símbolo da fertilidade inconsequente. Um antigo ditado entre os povos do Mediterrâneo oriental dizia que jamais se deveria confiar um segredo ao salgueiro, pois, conhecido pela sua indiscrição, ele o espalharia aos quatro cantos.
 

O número quatro, sobretudo porque relacionado com os quatro pontos cardeais, é de Hermes, como deus dos deslocamentos e das viagens.  Sabemos  que  em   todas   as   culturas   os   sistemas   de
orientação e de representação do espaço foram baseados no número quatro, número que representa a realidade do mundo manifesto. Pitágoras, por exemplo, atribuía a estrutura fundamental do cosmos ao quatro. Na tradição religiosa, por essa razão, o quatro exprime a ideia do divino revelado por sua manifestação, por sua revelação, simbolizando assim o universo criado, formal, material, e sua relação com o mundo espiritual. 
Era por tudo isto também que as estátuas de Hermes
eram encontradas nas encruzilhadas e nas margens das estradas. Sua presença dava ânimo aos viajantes e à vida difícil dos vendedores ambulantes. Hermes ajudava-os, tanto afastando os perigos como fazendo-os evitar os encontros indesejáveis.

Hermes não é continente nem conteúdo, ele é processo, movimento, é consciente e inconsciente, é físico e não-físico, é simultaneamente input e output, emissor e receptor. Por outro lado, não encontramos outra divindade que tenha como ele relações tão amistosas com os seus pares, olímpicos ou não, com heróis e mesmo com mortais. É, saliente-se, dentre os olímpicos, o único que tem livre trânsito no Inferno (Hades), com o nome de Kthonios.

Para os mortais, Hermes, já ao tempo dos mais antigos núcleos urbanos, era um amigo no desespero da solidão humana, pois eram dele os ginásios, as ruas, as vielas e becos, as praças, os parques, os mercados, as galerias, os museus, os recintos de espetáculos de um modo geral, os teatros, as salas de música,  as bibliotecas, a  flânerie, os encontros fortuitos, os chamados encontros ombro a ombro, o bate-papo inconsequente e descompromissado, a conversa “jogada fora” na ágora. Na praça do mercado de muitas cidades gregas havia uma espécie de culto oracular ao deus. Uma estátua de Hermes, chamado de Agoraios, ficava no centro da praça; diante dela, um coração esculpido em pedra, com duas lamparinas de óleo. 


Um outro aspecto importante a destacar na biografia de Hermes é o do seu relacionamento com Apolo. Este, como sabemos, sempre tentou contê-lo, enquadrá-lo, segundo a hierarquia olímpica (Apolo era o grande operador do sistema religioso-social implantado por Zeus). Como interpretar o diálogo entre as duas divindades? Apolo é a divindade que centralizava, no mundo olímpico e na sua expressão terrestre, patriarcal, a consciência do homem. Apolo era, como tal, o símbolo maior da ascensão humana, falando-nos de comando, ordem, harmonia, vida superior, qualidades que o mesmo mundo patriarcal de que falamos traduz hoje, banalizando-as, sem ter conseguido jamais vivê-las, como beleza física estereotipada, arrivismo social, vida aristocrática caricata, conquistas materiais ridículas, poder político etc. Esse modelo apolíneo aviltado, por este enfoque, cria uma espécie de patologia que só o deus Hermes pode ajudar a resolver. Esta patologia é geralmente vivida, como se sabe, com muita prepotência, violência, inquietação, ansiedade, decepção, desilusão, depressão e somatizações perigosas. 

APOLO E AS NINFAS
  Apolo é majestático, luminoso, encaracolado, aloirado, fulgurante, grandioso como Sol. Sempre que pensamos nele somos remetidos a uma ideia de absoluto, de discurso conceitual, convencional, características que nunca estiveram presentes na vida de Hermes. Pelo hino homérico de Hermes, ficamos sabendo que o filho de Maia nada coloca em termos de absoluto nem tem ciúmes de que Apolo se aproprie de sua lira; ele é generoso e amistoso para com o irmão. Hermes, aliás, é o mais generoso e amistoso dos deuses.

 Numa passagem, Hermes diz a Apolo que não terá ciúme ou inveja do que Apolo vier a fazer com a lira que inventou. Arremata,
APOLO E A LIRA
dizendo que a inveja não faz parte de sua natureza. Apolo, como a sua biografia nos dá a entender, é, diante de Hermes, sempre paranoico e teme ser roubado por ele (lembremo-nos de que Apolo é um formidável construtor de muralhas). Traduzindo: o despotismo e a rigidez dos reis, a sua postura imponente, como Apolo representa tudo isso tão bem, são expressões de  bloqueios e de cristalizações que sempre foram ao longo da História prejudiciais às negociações.


Se trouxermos as ideias acima para a nossa vida psíquica, o que vemos é que toda vez que Hermes é reprimido em nós, os relacionamentos ficam prejudicados, há fixações, não podemos perceber a beleza da variedade e da multiplicidade do mundo. Hermes é sempre o responsável, seja histórica ou psiquicamente, pelas aproximações, pela união, ainda que momentaneamente, de princípios antagônicos. O medo do roubo, o temor de negociar, de ser enganado, leva as pessoas a se fecharem, impedindo trocas.

É pelo que aqui se expõe que podemos compreender porque Hermes, como está no seu hino, é o único dos olímpicos a poder entrar em contacto diretamente com o Hades, com as profundezas do reino dos mortos, ou, de outra forma, com o mundo ctônico, subterrâneo, com o psiquismo dos mortais, nos quais o material onírico é a expressão mais próxima desse mundo. É uma compreensão atilada de Hermes também que vai nos permitir corrigir uma grave distorção que o mundo judaico-cristão vem impondo há milênios ao homem ocidental, a rejeição do seu corpo emocional em nome de propostas ascensionais de natureza religiosas inibidoras.

Apesar de sua malícia e de sua esperteza, ou por causa delas, Hermes conquistou a simpatia de todos os olímpicos. Até a vingativa Hera, que sempre perseguiu os filhos espúrios de Zeus, demonstrava muita simpatia pelo filho de Maia, chegando inclusive, como se disse, a oferecer os seus divinos seios para o aleitamento do menino Hermes. Aos poucos, Hermes se tornou um precioso e indispensável auxiliar dos deuses, salvando-os inclusive de muitas dificuldades. Foi, por exemplo, no episódio da gigantomaquia que, usando o elmo da invisibilidade de Hades, matou o gigante Hipólito. Famosa é a passagem em que ele, em companhia de seu filho Pan, salvou Zeus, recompondo-o devidamente para o embate final pela posse do universo com o monstruoso Tifon, impedindo assim a irremediável derrocada da ordem olímpica e a consequente destruição do mundo criado.

Fiel e prestimoso auxiliar do pai, foi Hermes quem adormeceu o dragão Argos ao som de sua flauta e o matou em seguida para
MOLI - A PLANTA MÁGICA
libertar a maravilhosa Io, amante de Zeus. Quando do nascimento de Dioniso, foi ele quem o levou a Ino, irmã da falecida Sêmele. Quando Ares caiu prisioneiro dos Alóadas, foi Hermes que descobriu onde o haviam prendido e o libertou. A proteção de Hermes estendia-se também aos heróis, como aconteceu com Perseu, no caso da morte da pavorosa Medusa. Deu a Ulisses uma planta mágica que o tornava imune à sedução da maga Circe. Cansou-se de prestar auxílio a Hércules.


Benfeitor dos homens, Hermes estendida sua proteção também às manadas, aos viajantes, aos negócios, à vida diplomática, inspirando aos homens discursos eloquentes e palavras harmoniosas. Homero nos fala das almas dos pretendentes de Penélope que Ulisses matou se dirigindo para Hades, para as pradarias cheias de asfódelos, em companhia do deus. Esta a sua função de deus psicopompo. Assim como conduzia as almas ao lugar habitado por “aqueles que não são mais”, Hermes também podia trazê-las de volta à vida, como aconteceu com com a alma de Pelops, o filho de Tântalo. Foi Hermes também que entregou Eurídice a Orfeu quando este desceu ao Hades para trazê-la de volta à vida.

HERMES, ORFEU E EURÍDICE
   Hermes, como aconteceu com as demais divindades, envolveu-se em muitas ligações e aventuras amorosas. Dentre as deusas, consta que manteve relações com Hécate, Perséfone e Afrodite, esta o seu caso mais conhecido, com a qual teve um filho, Hermafrodito. Hermes, lembremos, sempre teve uma grande predileção por ligações rápidas, com parceiras sem grande evidência no Olimpo. Preferia contactos com as divindades subolímpicas, como as ninfas, mas não menos belas e qualificadas que as de nível superior. Seu comércio amoroso se realizava de preferência nos bosques profundos. Com a ninfa Phene, foi pai de Saon, colonizador da Samotrácia. Com Polymele, ninfa da Tessália, foi pai de Eudoro, companheiro de Aquiles e de Pátroclo na guerra de Tróia.

Um filho de Hermes com uma ninfa náiade, que deixou uma história muito conhecida e divulgada, foi Dáfnis (nome que lembra o loureiro (daphne, em grego). Por ele ter nascido na Sicília, junto de um bosque de loureiros, é  considerado como um semideus. Passa esse filho de Hermes por ter sido o inventor da poesia bucólica. Belíssimo, foi amado por mortais e imortais, sobretudo por um seu irmão, o deus Pan, que lhe ensinou música. Morreu muito jovem, assassinado por Nômia, a quem havia jurado fidelidade. A jovem o assassinou, cegando-o antes, quando descobriu que ele andava de amores com outra. Outra versão nos conta que Nômia apenas o cegou quando o encontrou embriagado. Desde então, desesperado, só entoando cantos fúnebres, Dáfnis se suicidou, atirando-se de um penhasco.

Públio Vergílio Marão (séc. I aC), nas suas Éclogas, transformou Dáfnis num tema poético, base de um gênero, de cantos fúnebres, mágicos, cheios de dor e saudade, através dos quais se procura
DÁPHNIS E CHLOÉ
trazer de volta à vida um amor que a morte levou. Ao que parece, o mito de Dáphnis foi aproveitado por um poeta grego do séc. II dC, Longus, que o usou para escrever uma história, Dáphnis e Chloé, sobre amores de dois adolescentes em Lesbos. Aproveitada por alguns escritores posteriormente, a história, no séc. XX, foi usada por Michel Fokine para servir de base a um bailado (um ato e três quadros), com música de Maurice Ravel, criado pelos Balês Russos de Diaghilev, em Paris, em 1912, constituindo-se, desde então, num marco da dança moderna.


O mais famoso filho de Hermes, como já se disse, é Pan (Todo,
PENÉLOPE
Tudo, em grego), nome que lhe foi dado pelos imortais; a mãe, segundo várias versões, pode ser uma ninfa, uma mortal ou até, absurdamente, Penélope, esposa de Ulisses, como se espalhou maldosamente.  O que se sabe é que o  menino chegou ao mundo sob uma forma zoomorfa, com patas ao invés de pés e chifres, com uma aparência caprina, o que escandalizou a todos. Foi levado pelo pai, envolvido na pele de lebre, ao Olimpo, sendo adotado por todos os deuses.


Turbulento, alegre, Pan logo se tornou o deus dos pastores das montanhas da Arcádia. Sua aparição, aos gritos, provocava o pânico, um terror inexplicável que se apossava dos que o encontravam. Pan vivia nos bosques e nos campos, nos territórios da deusa Ártemis, sendo, além de deus-pastor, uma espécie de guardião das passagens, das extensas áreas se situam entre as grutas (o conhecido, lugares de nascimento) e o grande Todo (o desconhecido, o grande mundo). Aos poucos, Pan acabou por representar a Natureza universal. Pan gostava de acompanhar Dioniso, fazer parte do seu cortejo como tocador de syrinx, a flauta dos pastores da Arcádia.

Como princípio da ordem universal, encarnando a energia que a percorria, Pan era muito invocado nas litanias órficas como símbolo da incorporação desta energia à matéria universal, formando assim a base para a constituição do cosmos. Fonte de todas as coisas, era Pan uma síntese dos quatro elementos, sendo os seus chifres a imagem da penetração da energia divina na matéria. É de Pan que derivam as criaturas mistas, entre o animal e o humano, também participantes do séquito dionisíaco, sátiros, silenos, faunos  etc. Um órgão sexual desproporcional ao tamanho da figura, em imagens do deus, indicava o poder criativo da energia universal. 

CAPRICÓRNIO
   Muitos astrólogos da antiguidade usaram a imagem de Pan para representar o signo de Capricórnio, entendendo (corretamente) que este signo é o que nos abre as portas para o grande Todo, como o primeiro do quarto quadrante zodiacal. Além do mais, lembre-se que como Pan sempre representou a penetração da energia universal na matéria, nos longos e obscuros períodos  outonais e hibernais, quando a luz solar desaparecia, era comum que o terror se instalasse entre os homens (fato este constatável desde a pré-história), que clamavam perdidos e desorientados, pedindo a volta da luz, isto é de Pan. Foi este terror que deu origem aos cultos solares e às religiões que nos falam do Sol agonizante e desaparecido.
  

O historiador Plutarco (46-120) narra que, à época do imperador Tibério, a tripulação de um barco que passava diante da ilha de
Naxos ouviu uma voz soturna, vinda do continente, acompanhada de um pranto que parecia sair da vegetação, dos rochedos e dos animais, que dizia: Anunciai a grande nova: o deus Pan está morto. Esta história foi interpretada como um sinal da morte das divindades do mundo antigo e o anúncio de um nova era, a da era cristã, que decretou o silêncio dos oráculos e a destruição das imagens divinas.

Registre-se ainda que é o deus Pan que dá origem ao pantáculo ou pentalfa, simbolicamente uma das formas simbólicas mais evoluídas do macrocosmo, um emissor fluídico da essência universal, usado por diversos povos. O pantáculo funciona ao mesmo tempo como amuleto, protegendo; como talismã, irradiando uma força mágica, dando poder a quem o usa. O pentáculo, construído sob orientação astrológica, conjura os terrores coletivos, afasta os maus espíritos e demônios responsáveis por epidemias e catástrofes coletivas. 

Quanto a Hermafrodito, acrescente-se que, como filho de Afrodite e de Hermes, temos, com ele, uma proposta mítica de reconciliação dos contrários. Nascido totalmente masculino, belíssimo, ao encontrar-se com a ninfa Sálmacis e com ela fundir-se num abraço que ela lhe deu, o jovem desceu ao fundo das águas da fonte onde se banhava, formando ambos um só e inseparável corpo. Quem nos conta a história de Hermafrodito é Ovídio (Metamorfoses).

A criação do mito é, obviamente, uma tentativa de se resolver o eterno jogo dos princípios masculino e feminino através de uma figura estática e simétrica. Se ficarmos ao nível de uma leitura biológica do mito, estaremos certamente diante de um absurdo, de uma aberração. Não é por acaso, aliás, que entre os antigos gregos a conformação anormal dos órgãos sexuais de uma criança era sempre uma monstruosidade, um mau presságio, que punha em risco a ordem social, chamando uma punição divina.

O que nos interessa mais, sem dúvida, é a tradução psicológica desse mito, na medida em que, neste plano, ele revela uma tentativa de se neutralizar a incessante e necessária atividade hermesiana, trazendo consequentemente um enfraquecimento do jogo alternante das polaridades masculina e feminina, muito mais da primeira (o forte componente machista da sociedade grega), se considerarmos o contexto em que o mito vicejou. Ou seja, enquanto vida houver, impossível estabilizar esse jogo. A não ser que o tiremos da terra, do concreto e do múltiplo onde vivemos, e o desloquemos para a teologia e passemos a admitir a ideia da conjunctio oppositorum (Deus).

A figura de Hermafrodito supõe ideias de impotência e de
HERMAFRODITO E SÁLMACIS
esterilidade, tem caráter regressivo. Não é por outra razão que ele e Sálmacis descem ao fundo das águas, enlaçados, uma volta à indeterminação, ao líquido amniótico. É com  base nesta colocação que entendo, sob o ponto de vista político, o mito de Hermafrodito como uma tentativa (infrutífera) de se neutralizar o grande realce que foi dado ao deus Hermes pelos sofistas na sociedade ateniense do séc. V aC. O que os sofistas propuseram foi o abandono do universal e do eterno para que a atenção do homem se concentrasse, como devia, no individual, no múltiplo e no contingente. Por isso, Platão tanto os combateu


Podemos usar a figura do Hermafrodito, isto, sim, para representar, com relação ao mundo masculino, as várias figuras de estados depressivos de que hoje é vítima grande parte de seus membros. Isto acontece quando os acomete uma sensação de enfraquecimento diante da vida, de perda do seu potencial machista, obviamente com as devidas repercussões somáticas,  alterações hormonais, desequilíbrios de temperamento etc. Quando Hermafrodito aparece na vida de um homem poderíamos talvez, em alguns casos, considerar positivamente essa manifestação, como uma presença a ser usada para um impulso em direção de uma nova dimensão da vida consciente. Uma atenuação do componente machista e de todo o culto que o envolve. O que o mito de Hermafrodito nos permite entender é que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. O homem comporta um elemento feminino e a mulher um masculino, papéis que devem se alternar, conforme as circunstâncias. Quem faz as passagens de um papel a outro é Hermes, divindade que governa as trocas entre as todas polaridades.
    

Entre as mortais amadas por Hermes destacamos Acacallis (nome que lembra o tamarindo), filha de Minos; ele a fez mãe de Kydon, fundador da cidade cretense de Kydonia. Amada por Hermes, Kíone (nome que lembra mau tempo, frio, gelo) tornou-se mãe de Autólico e de Filamon. O primeiro recebeu do pai o dom de tornar invisível o que tocasse; ele pode assim cometer vários furtos, até o dia em que foi confundido por Sísifo, de quem havia roubado vários animais (bois).

Filamon foi poeta e adivinho e passa também por filho de Apolo porque no mesmo dia em que se uniu a Hermes Kíone manteve relações com o deus solar. Por isso, Autólico e Filamon são gêmeos, sendo o primeiro, porém, filho de Hermes e o segundo de Apolo.  Autólico aprendeu com Hermes tudo sobre as artes do furto e do perjúrio, compondo-se este último de vários itens. Tanto pode ser falso testemunho ou falsa acusação como quebra de juramentos ou renúncia a opinião e crenças. Quanto aos furtos, seria muito longa aqui a enumeração de todos eles. Autólico, quando da permanência de Sísifo, o mais astuto dos mortais, em seu palácio, fez com que ele, antes de Laerte, o futuro marido de sua filha Anticleia, se unisse a seu ilustríssimo hóspede. Dessa união, nascerá o grande herói Ulisses, como já se disse. Há que se mencionar ainda um outro filho de Hermes, Mírtilo, assassinado por Pélops. Vingando a morte do filho, Hermes infernizou toda a descendência de Pélops, filho de Tântalo, um dos grandes criminosos do mito.

As variadas e múltiplas funções de Hermes estão fixadas, além daquelas já mencionadas, em outros numerosos epítetos a seguir relacionados: Akakesios (o que não poderá ser ferido), Kataibates (o condutor de almas para o outro mundo; equivalente a psicopompo), Agetor (o que conduz à frente, guia), Agoraios (o das praças e mercados), Ktesios (protetor das propriedades), Eriounios Dator Eaon (o que propicia a boa sorte), Nomios, Epimelios (protetor dos rebanhos), Promakos (o que luta na frente), Propylaios (protetor das entradas), Pronaos (o das entradas dos templos), Trikephalos (protetor das encruzilhadas), Enagonios (o que preside as competições esportivas), Hermeneutes (o tradutor, o que esclarece as mensagens), Diaktoros (servidor público), Aggelos (mensageiro, núncio), Pheletes (ladrão), Arkhos Pheleteon (rei dos ladroões), Klepsiphron (enganador), Mekhaniotes (cheio de astúcia), Polytropos (onipresente), Poplymetis (o de juízo avisado) Poneomenos (o muito ocupado), Dais Hetairos (companheiro de festins), Khandotes (distribuidor de alegria), Akaketa (leve, gracioso), Kydimos (glorioso), Aglaios (resplandecente, brilhante), Kratos (poderoso), Mastenos (mestre das buscas), Pompaios (guia, condutor), Enounios (o sempre últil), Psykhopompos (condutor das almas).

Deuses, quaisquer que sejam eles, como sabemos, são criados pelos humanos, à medida de suas necessidades. Hermes, neste sentido foi um modelo de comportamento de grupos humanos, ainda muito influenciados por valores matriarcais, que viveram por muitos séculos como predadores e nômades. Essa vida, em grande parte
TRICKSTER
era baseada no roubo, no banditismo, na depredação, no oportunismo, na esperteza (trickster). Aos poucos, com a crescente afirmação de valores masculinos e a consequente sedentarização e logo em seguida com o aparecimento de núcleos urbanos, Hermes mudou o seu comportamento, para ser um dos grandes operadores desse processo civilizador, como deus da comunicação, das vias públicas, das praças e mercados, dos ginásios, das artes, do comércio, como vimos. Nesse sentido, é que Hermes vai representar a passagem do neolítico para o chamado período arcaico da história da Grécia e deste para o período clássico. Ele será o responsável por todas as mudanças culturais nessa caminhada, falando-nos de flexibilidade, adaptação, articulação, trocas, criação de uma linguagem, conscientização, interpretação, uma grande passagem de um mundo primitivo, bruto, para um mundo de valores e de significados.


HERMES ALQUÍMICO
   No ocidente, com o desmoronamento da mundo greco-romano, Hermes se refugiou nos conventos e nas primeiras universidades que se formaram, sempre prestando grandes serviços, embora um pouco apagado. No Renascimento, porém, revigorado, com o estudo dos mitos e das artes greco-romanas, Hermes voltou, mas, ainda assim, para viver à sombra de Apolo, o arquétipo dominador da cultura ocidental até o século XVIII, toda baseada em propostas patriarcais, imperialistas e colonialistas. Ao final deste século, com o Iluminismo, com o rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia, Hermes parecia ter saído da sombra apolínea. Falou-se de democratização, de igualdade, de ideais coletivos, de ciência, mas nada disto aconteceu.   

SALA DE COMANDO
   Neste início do século XXI estamos ainda vivendo sob o modelo de três grandes arquétipos formulados pela mitologia grega, Zeus, Hefesto e Ares, os senhores da guerra e da tecnologia, esta, em grande, como instrumento de dominação e de idiotização . O que estas divindades representam vem se tornando cada vez mais insatisfatório e mesmo perigoso. Por outro lado, há uma certa movimentação hermesiana, ativada pela tecnologia, que quer algo diferente, acreditando que por esta via será possível se fazer alguma coisa. O que temos então é o seguinte: enquanto a tecnologia parece melhorar dia-a-dia, a qualidade de vida piora na mesma proporção. Os fracassos e as desilusões se acumulam.  Os valores mudam diariamente, nada é estável, a moral social se dissolve, tudo é manipulado, nada é confiável, tudo é falso. Temos um excesso de mobilidade; violência (consumismo) e velocidade são as tônicas dominantes. Nossos ritmos se descontrolam. Fala-se muito em desenvolvimento sustentável, mas essa ideia parece cada vez mais difícil de ser concretizada. Zeus, Hefesto e Ares ainda mantêm Hermes a seu serviço. Até quando?