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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (4)


HADES  ( GIOVANNI  DA  MODENA , 1379 - 1455 )

As três divindades sobre as quais discorremos  em Escorpião (3), conforme as culturas em que aparecem, “convivem”, cada uma a seu modo, com o Hades grego no signo de Escorpião. Sugerem todas, com as suas histórias, o inexorável e constante fluir das formas quando chegamos ao equinócio de outono, período em que, através da destruição, se prepara, no mundo natural, um futuro renascimento. É destas aproximações que decorrem  naturalmente as associações que podemos fazer entre o inferno (Hades) e o oitavo signo astrológico. Ligado à obscuridade, às trevas, à invisibilidade, o inferno, em todas as cosmogonias, sempre apareceu “em baixo”, ctônico, subterrâneo, lembrando o frio, as trevas, as sombras, a solidão.

As ligações do número oito com o renascimento estão presentes em várias tradições. Na astrologia, depois do sete, o número do repouso provisório, o oito indica uma possibilidade de ressurreição sob uma nova forma. Uma das mais conhecidas ilustrações do que aqui se diz, sob o ponto de vista astrológico, é a referência que podemos fazer aos signos de Libra (7), Escorpião (8) e Sagitário
CASULO
(9), aparecendo Escorpião como o casulo, invólucro no qual a crisálida (em grego, krysallis, dos), a larva do inseto, adormecida e entorpecida, se transforma, ocultamente, em borboleta. É por esta razão que a borboleta sempre foi considerada como um símbolo do renascimento. Na antiguidade grega, borboletas esculpidas em túmulos eram indicações de crenças reencarnacionistas.

Quanto ao número oito, é preciso lembrar também que ele aparece em muitas doutrinas orientais, como a budista, por exemplo, através da chamada via óctupla, como um símbolo de
PIA  BATISMAL
SÉ VELHA DE COIMBRA
renascimento. Na tradição ocidental, grega, não é por outra razão que o número oito sempre apareceu associado a Dioniso, o deus das metamorfoses. Não podemos esquecer ainda que as antigas pias batismais, por essa mesma razão, tinham a forma octogonal, na qual o oito se compunha do quatro (símbolo do corpo material), do três (símbolo da alma) e do um (símbolo do divino). Assim, era o número oito, para os primitivos cristãos, aquele que reunia as condições necessárias ao aparecimento de um novo ser pelas águas do batismo


DESCIDA  AOS  INFERNOS ( JEAN  LE  TAVERNIER , ? - 1462 )

A chamada “descida aos infernos” de que nos falam os mitos corresponde na vida cósmica aos primeiros dias outonais, prelúdio do inverno por oposição à ascensão, que ocorre em março no equinócio da primavera. Em todas as religiões de mistério, a descida aos infernos é imagem da morte alegórica, o abandono pelo iniciado (mystes) de sua natureza profana na obscura cela da reflexão, a passagem do negro (nigredo) ao branco (albedo) dos alquimistas. 


CORÃO
O Corão faz do inferno uma entidade devoradora, atribuindo-lhe características de fornalha, de incêndio, de tortura e de abismo sem fundo. As suas sete portas são reservadas aos que não adoraram o verdadeiro Deus e, que, portanto, viveram em pecado. Isto é, os cristãos, os judeus, os magos, os idólatras, os hipócritas e os sabeístas (seguidores do sabeísmo, seita judaico-crista, baseada na magia e na adoração dos astros, do antigo reino de Sabá, sudoeste da Arábia).

O fogo devorador do inferno, em todas as tradições, o fogo que consome e destrói simboliza, dentre outros sentimentos de natureza passional, o remorso, a culpa, o medo do sofrimento moral e a inveja. O inferno católico, como o Tártaro grego, tem um caráter definitivo ao representar o desespero e o endurecimento no pecado e no erro pela total e irremediável incapacidade de mudança. 


HADES  ( PIETER  BRUEGEL , O VELHO , 1525 - 1569 )

As modernas psicologias, fazendo coro a tudo isto, representam o inferno do inconsciente como um mar noturno que é preciso atravessar, isto é, partir de uma situação consciente, no geral muito limitada, mas dolorosa invariavelmente, para que uma outra margem, uma outra forma de vida seja atingida. Este processo se confunde com o próprio processo de individuação que tem início pela descida de uma pessoa à sua interioridade, ao mesmo tempo uma regressão e a busca de uma renovada forma. 

Algumas correntes da moderna psicologia ocidental, numa “leitura” evidentemente retirada da mitologia grega, consideram o inferno um símbolo do recalque, um mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. Se num primeiro momento Hades é a divindade  que tem a ver com essa operação, ele pode, num segundo momento, significar como Plutão a reconstituição radical da personalidade vitimada pelo recalque sobre novas bases, pela rejeição dos elementos deletérios ou supérfluos que nas suas profundezas se encontram. 

Esta reconstituição costuma muitas vezes ocorrer subitamente, de modo imprevisível, uraniano. Qualquer que seja este processo, porém, instantâneo ou demorado, Plutão, astrologicamente, ao comandá-lo, é comumente representado com a cornucópia nas mãos, a nos mostrar que é nesse mundo subterrâneo (inconsciente) que estão todos os valores de que necessitamos, porém mal repartidos ou mal distribuídos. Por isso, a cercá-lo imagens de germinação, de passagens da morte à vida, de metamorfoses. A maieutikê (maia, em grego, parteira) socrática, a arte de fazer com que os espíritos trouxessem à luz, ao consciente, verdades que guardavam desconhecidas ou esquecidas dentro de si, é astrologicamente um método escorpiano para se chegar à “verdade”. Por determinadas perguntas feitas ao seu interlocutor, Sócrates o fazia “descobrir” verdades que estavam dentro dele. O filósofo levava-o a essa descoberta pela reminiscência, anamnese, partindo de dados matemáticos elementares ou de verdades morais universais. A Psicanálise freudiana é, neste sentido, um método maiêutico.

Ainda que muitas tradições antigas tenham do inferno concepções muito variadas, a maior parte delas o imagina como um subterrâneo misterioso e terrível onde as almas dos defuntos suportam sofrimentos indescritíveis como punição por crimes e pecados cometidos sobre a terra. As penas e sofrimentos infernais são estabelecidos por um tribunal, imagem simbólica da consciência, de um eu superior, como o encontramos nas psicologias freudiana e jungiana. 

Além disso, o reino dos mortos sempre foi organizado em vários andares, etapas que deveriam ser superadas conforme o nível de evolução das almas. Os romanos chegaram a um refinamento tal da ideia infernal  que o organizaram em vários degraus, etapas diferentes, onde eram acolhidos os natimortos, os suicidas, os amantes infiéis, os matricidas etc.


DIS PATER
Antes das infiltrações gregas, antigos povos da península itálica, com base em mitos etruscos, davam o nome de Orco (esconder, ocultar) não só ao reino subterrâneo dos mortos, mas à divindade que o governava. Posteriormente, devido ao sincretismo greco-latino, tendo por modelo o Plutão grego, os romanos passaram a dar o nome de Dis ou Ditis à divindade regente desse reino (dis, em latim, rico, opulento, abundante).



Os povos nórdicos, que possuem talvez o mais “escorpiano” reino dos mortos, davam, como os gregos também o faziam, o nome de Hel ao seu mundo infernal, sendo esse também o nome da divindade que o governava (vide a propósito o nome do computador que “trabalha” no filme de Stanley Kubrick, 2.001 – Uma Odisseia no Espaço). Hel se ligava por uma ponte ao mundo dos vivos e era dividido em nove regiões.

MIDGARD
Ao que parece também por influência cristã, o antigo deus Loki, uma espécie de demônio superior, sempre trabalhando no sentido contrário ao das demais divindades, foi assumindo a tutela do mundo do mal, passando Hel, mudando de gênero, a ser visto como sua filha. Hel conviveu desde que “nasceu” com os gigantes, com monstros, como o lobo Fenrir, e com a grande serpente Midgard. Ela dava abrigo, no seu reino, ao monstro Nidhog, que roía dia e noite a árvore Ygdrasil, que fazia a ligação terra-céu nos dois sentidos. 

Foi Odin quem determinou que ela ocupasse esse mundo, também chamado de Niflheim. Sua aparência era terrível, e seu palácio, na região mais profunda do seu reino, era uma réplica infernal do palácio celeste de Odin, o Valhala. Desconsideradas as influências cristãs, a deusa Hel tinha por função, como uma espécie de gerente de um grande hotel, distribuir as almas que chegavam ao seu reino nas dependências que lhes cabiam, conforme a sentença decorrente do seu julgamento. Hel evoca, como se disse, o Valhala dos germânicos, paraíso dos guerreiros mortos nos campos de batalha, recolhidos e levados para lá pelas Valquírias, tão celebradas por Richard Wagner. O Valhala tinha mais de quinhentas portas, tão grandes que oitocentos guerreiros podiam sair por uma delas ao mesmo tempo, quando tivessem que combater os lobos.
CAVALGADA  DAS  VALQUÍRIAS ( PETER NICOLAI ARBO, 1831 - 1892 )

O herói germânico amava a vida, os seus bens e prazeres, não temia a morte porque ela não tinha  para ele o significado de aniquilação inesperada e fatal. A morte era para ele tão só a consumação final de um destino. Mesmo com a chegada do cristianismo, essa ideia não desapareceu. O destino, entidade criadora e transformadora por excelência, é cósmico e nele as individualidades se dissolvem no devir constante e inexorável do universo. Nem os deuses escapam dele, sempre em luta contra a morte e a decadência que constantemente os ameaçam. 


DESCIDA AOS INFERNOS
G. DA  MODENA , 1379 - 1455 )
Aos seres desvalorizados não era consentido sobreviver à morte para gozar as delícias do Valhala. Os que haviam morrido ignominiosamente iam sempre para o Niflheim, o País dos Mortos, do Gelo e das Trevas, cuja entrada era guardada pelo cão Garm. Ali viviam seres monstruosos, os anões, os gigantes e todos aqueles que haviam morrido de velhice ou de doença. Esta região era o domínio de Hel, que encarnava o princípio da doença, da decadência, da morte ignóbil, cujo poder o próprio Odin/Wotan era obrigado a aceitar. Neste reino, ausente qualquer esperança de ressurreição, tudo era sombrio, gelado, trevoso. 

Na mitologia germano-escandinava, os fantasmas e os duplos dos mortos se envolviam frequentemente com os vivos, assombrando-os, aparecendo em sonhos. Essas formas, chamadas de fylgjur, podiam também se manifestar como animais perigosos. Há espíritos dos mortos que se manifestavam, sempre sedentos de sangue e cruéis, chamados druckgeister (espíritos de opressão). Tradição semelhante é encontrada na Escócia, onde temos criaturas hermafroditas com asas de morcego, rosto de mulher, olhos e cabelos de fogo, habitantes dos pântanos, sempre uma séria ameaça a quem, à noite, se aventure por esses lugares.

Foram os escandinavos que criaram um dos melhores cenários relacionados com mitos que universalmente descrevem as catástrofes naturais que ameaçam a humanidade não só em razão dos seus pecados e faltas como também em virtude de ciclos de tempo que se fecham, destruindo tudo o que existe, inclusive
O ANEL DOS NIBELUNGOS
deuses, para que um novo mundo apareça. Este cenário, chamado de Ragnarok (em velho escandinavo, destino fatal dos deuses) ou  de Crepúsculo dos Deuses, descreve um combate final em que os deuses serão mortos por gigantes (Odin engolido pelo lobo Fenris; Freyr morta por Surt; Thor envenenado depois de sua luta contra a serpente Midgard). Depois da catástrofe geral, o mundo renascerá, uma nova idade do ouro, sob a tutela do deus Balder ressuscitado (vide a ópera de Richard Wagner O Anel dos Nibelungos).

Uma das mais “escorpianas” histórias da mitologia grega é aquela que tem Alceste (a defensora, a que afasta o perigo) como personagem principal. Alceste era uma das filhas de Pélias, rei de Iolco. Era a mais bela de todas, muito requestada, cercada de pretendentes. Para evitar complicações diplomáticas, o pai estabeleceu condições praticamente impossíveis de serem cumpridas por qualquer candidato à mão da jovem: ele daria sua filha àquele que conseguisse atrelar, ao mesmo jugo, um javali selvagem e um leão. Além do mais, as bestas assim atreladas deveriam dar uma volta completa numa pista de corridas. 

Um dos candidatos, Admeto (o indomável), graças à cumplicidade do deus Apolo, conseguiu fazer com que Hércules domasse os dois animais, cumprindo assim os requisitos impostos por Pélias. Consta que essa interferência de Apolo se deve ao fato de o deus solar, quando do seu exílio terrestre, ter sido tratado com extrema deferência pelo pai de Admeto, o rei Feres. Outros, mais “venenosos”, afirmam que Apolo, enquanto permaneceu na corte de Feres, havia se apaixonado pelo jovem príncipe. De qualquer maneira, vitorioso, Admeto conquistou a mão de Alceste. Esqueceu-se ele, porém, como era obrigatório em casos de favorecimentos desta natureza, de fazer o devido sacrifício a Ártemis, a deusa da vida selvagem. 

Muito ressentida, a deusa, no dia das bodas de Admeto e Alceste, encheu a câmara nupcial de serpentes. Intervindo mais uma vez, Apolo conseguiu resolver o problema e os noivos puderam ter a sua lua-de-mel. Tudo parecia correr  bem, quando Admeto foi sorteado pelas Moiras e decretada a sua morte (algumas versões nos dizem que por interferência de Ártemis).  Apolo, mais uma vez,  que tinha por Admeto toda a solicitude que se possa ter por alguém, embriagou Átropos, retardando assim a morte de seu protegido, para que se procurasse uma outra pessoa para morrer em seu lugar. Consultados, os pais do soberano, embora muito velhos, mal enxergando a luz do dia, não quiseram fazer o sacrifício pelo filho.

ALCESTE   MORRENDO ( J. F. P. PEYRON , 1744 - 1814 )

Tudo estava nesse pé, quando Alceste, corajosamente, se ofereceu para dar a vida pelo marido, não só por amor a ele mas por considerar que a presença do pai seria bem mais importante que a da mãe para a educação dos filhos do casal. Versões: a) Alceste teria se matado logo, sacrificando-se, ingerindo veneno; ao descer ao Hades, Perséfone, achando absurdo e injusto tal sacrifício, a incitara a voltar e tomar de novo o seu lugar entre os vivos. b) Admeto, diante de Thanatos, que viera buscá-lo, oferecera, covardemente,  ao deus da morte a sua própria esposa como substituta. Quando Thanatos estava para agarrar Alceste, eis que surge Hércules, que recebera hospitalidade de Admeto, depois de ter cumprido o seu primeiro trabalho (As Éguas de Diomedes). Ciente do que ocorria, Hércules travou um violento combate com o deus da morte, conseguindo arrancar de suas garras a jovem e bela esposa de Admeto. 


HÉRCULES   LEVA  ALCESTE  A  ADMETO
( ANTOINE  COYPEL , 1661 - 1722 )
Modelo de uma esposa amantíssima e exemplar e de uma inexcedível piedade filial, a esposa de Admeto e filha de Pélias, com justa razão, deu seu nome ao que chamo de complexo de Alceste, isto é, aquele comportamento, parcial ou totalmente inconsciente, vinculado ao terreno da afetividade, que leva algumas mulheres a agir como a esposa de Admeto o fez com relação à sua vida familiar, como filha, como esposa e como mãe, a mais perfeita encarnação do ideal feminino segundo o mundo patriarcal.   

A inclusão da piedade filial como elemento deste complexo se deve a uma história que envolve Medeia, sobrinha de Circe, feiticeira como a tia. Tudo começou quando Jasão retornou a Iolco, depois da conquista do Velocino de Ouro. Passou a arquitetar com a grande feiticeira, sua esposa, um estratagema para eliminar Pélias, seu tio, que havia usurpado o trono do país, que por direito caberia a seu pai, condenado à morte pelo irmão.  

MEDEIA  E  FILHAS  DE  PÉLIAS
Por amor ao marido, muito humilhado pelo tio desde que voltara da Cólquida, Medeia se aproximou enganosamente das filhas de Pélias, que não sabiam da sua união com Jasão, e as convenceu de que poderia, com a sua arte mágica, rejuvenescê-lo, já muito avançado em anos que estava. Bastaria que as filhas o fizessem em pedaços e que os lançassem num caldeirão de bronze com muita água. Medeia, então, adicionaria a essa mistura um preparado que só ela conhecia, um segredo de sua família, trazendo Pélias de volta à vida numa forma muito rejuvenescida. Para demonstrar do que era capaz, a sobrinha de Circe, usando o processo acima descrito, transformou um velho e trôpego carneiro num jovem e saltitante cordeirinho. 

As pelíades, como a história registra, se entusiasmaram e diante do que lhes fora demonstrado não hesitaram em matar o pai e destroçá-lo. Procurada para que fosse aplicada a sua receita, Medeia não foi encontrada. Jasão e sua família estavam vingados. Dentre as pelíades, Alceste foi a única a não aderir à proposta de Medeia, combateu-a mesmo, afirmando que as leis de Cronos deveriam ser respeitadas por todos, que nem mesmo os deuses poderiam revogá-las, e que amava o pai mesmo velhinho. Assim, além de exemplo de piedade e de respeito familiar, de grande amor ao marido e aos filhos, da aceitação do papel que lhe cabia nesse
ESTER   NUM   PURIM
( E. LONG , 1829 - 1891 )
contexto de superiores valores masculinos, Alceste ofereceu também inegáveis provas de inexcedíveis sentimentos religiosos, merecendo, por isso, dar nome ao complexo que descrevi, tornando-se assim um insuperável exemplo para todas as mulheres atreladas ao mundo patriarcal. Como ela, talvez, ainda que não de todo satisfatória a comparação, pela excepcionalidade de seu exemplo, algumas matriarcas judias como Ester e Léa.

Os habitantes da antiga Acádia, na Mesopotâmia, davam o nome de Girtab ao escorpião, isto é, “àquele que pica”. Era o símbolo das trevas, pois trazia consigo a diminuição da potência solar, depois do equinócio de outono. Há uma passagem da mitologia grega que traduz, com outras palavras, este poder que o escorpião tem de afetar o Sol. O deus Hélio, o Sol considerado fisicamente, depois de muita insistência por parte de seu filho Faetonte, emprestou a ele seu carro.

FAETONTE  ( JAN EYCK , 1390 - 1441 )

Muitas foram as recomendações e advertências, de modo especial quanto à fogosidade dos cavalos e quanto às zonas que, ao transitar pelo Zodíaco, ele iria atravessar. Em cada uma delas um perigo, animais bravios, traiçoeiros, carneiros, touros, caranguejos, leões etc. Bem ou mal, saindo às vezes da eclíptica, encostando na terra, provocando incêndios, Faetonte conseguiu chegar até a sétima constelação, Libra, que não teve problemas para atravessar. Contudo, ao ingressar na constelação seguinte, qual não foi o seu espanto e o seu desespero. Os quatro cavalos, sentindo-se certamente não conduzidos por mãos hábeis, desarvoraram-se, assustados, enlouquecidos, diante do monstruoso escorpião que lá vivia. Faetonte, como a história registrou, perdeu totalmente o controle do carro. Os desastres se sucederam de tal modo que Zeus, a pedido da Mãe Geia, não teve outra alternativa senão a de fulminar o tresloucado jovem, que pagou a sua vida, mergulhando com o carro nas águas do rio Erídano.

Um dos grandes mitos da antiguidade que devemos associar ao eixo Escorpião-Touro é o do deus Mithra, que tem relação com o deus de mesmo nome da religião védica. O nome mithra, na origem mihr, queria dizer Sol. Depois, passou a significar contrato, na época aquemênida, também nome de uma divindade conciliadora para representar a alternância entre a luz e as trevas, assumindo inclusive as funções de um deus de natureza escatológica. Seu culto se espalhou pelo mundo helenístico e depois romano sob a forma de uma religião de mistério (sete graus de iniciação).


MITHRA

A estatuária helenística popularizou a cena da imolação de um touro por Mithra numa gruta. Era o taurobolium, o batismo pelo sangue do touro. De grande penetração no mundo greco-romano, o culto foi muito difundido nos meios militares. Como ideias essenciais do mitraísmo destacamos um zelo ardente pela pureza moral, obtida e conservada graças a uma atitude belicosa, a do “soldado da fé”. Daí, o prestígio do culto entre as legiões romanas, traduzido pela veneração da luz, sendo o único princípio “invencível” o Sol (Sol Invictus). A grande festa do mitraísmo era celebrada no dia 25 de dezembro, uma das datas aproveitadas pelos primitivos cristãos para nela fixar a sua festa de Natal. 

Mithra era, entre os antigos persas, o deus da luz criada, da veracidade, da boa fé e da justiça, sempre invocado como garantia da palavra dada e dos contratos em geral; uma espécie de juiz clarividente das ações humanas. Neste sentido era um mediador entre dois mundos opostos, o mundo luminoso superior (nona casa astrológica) e o mundo da luz criada pelos homens (sétima casa astrológica). Seu culto também estava baseado na doutrina da ressurreição por uma regeneração física e psíquica. As cerimônias eram celebradas numa gruta, em torno de uma lanterna, com ritos especiais, chamados sacramentos: um batismo pelo sangue, pela água pura, por aspersões de água lustral (purificação), por unções de mel, pela distribuição comunitária do vinho e do pão). Os iniciados tratavam-se entre si pelo título de irmãos, sendo os superiores, instrutores, chamados de pais.

TAUROBOLIUM
No séc.II da era cristã, o rito do taurobolium foi introduzido no mundo romano, onde já era grande também a influência do culto de Cibele, Grande-Mãe, oriundo da Ásia Menor. O taurobolium era o batismo pelo sangue do animal, uma aspersão sanguinolenta que transformava o mystes num renatus in aeterneum, nascido para uma nova vida, eternamente. A vigorosa energia do animal regenerava o corpo e a alma do iniciado, pondo-o em comunicação com formas superiores da vida espiritual. Os exércitos romanos difundiram o culto de Mithra por todo o império, com grandes celebrações no dia 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começavam de novo a aumentar, festejando-se o renascimento do Sol, o Natalis Solis

O taurobolium significava também o controle da natureza primitiva e instintiva do homem, representada em muitas tradições por animais. Há cerimônias específicas para o estabelecimento dessa relação, principalmente em ritos de iniciação para jovens do sexo masculino. O jovem, através deste rito, entra na posse de sua alma racional e sacrifica o seu o lado instintivo, animal, por meio de um outro rito, sendo o mais comum o da circuncisão. Só então o jovem poderá ser considerado um ser humano. É por isso que, em muitas tradições, africanas especialmente, que os animais são considerados como seres não circuncidados. Assim, o sacrifício do touro pelo deus Mithra (sacrifício também encontrado nos cultos dionisíacos) pode ser considerado como um símbolo da vitória da natureza espiritual do homem sobre sua animalidade, da qual o touro é um símbolo comum. 

O que está acima pode, explicar, por exemplo, a popularidade das touradas e de temas míticos como o do Minotauro, símbolo das indomáveis forças instintivas do homem. O culto de Mithra, acredito, também pode ser compreendido, sob o ponto de vista astrológico, como a passagem da era cósmica de Touro para a de Áries, que começa em 1.662 aC., lembrando-se que o planeta Marte rege tanto o signo de Escorpião como o de Áries.

Outra aproximação muito significativa que podemos fazer com relação ao signo de Escorpião é o cotejá-lo com as crenças celtas relacionadas com a morte, com o outro mundo e com as ideias de renascimento. É importante dizer de início que os celtas continentais tinham uma atitude muito  positiva com respeito à morte como está demonstrado tanto por evidências arqueológicas como por testemunhos literários. Julio Cesar, o imperador romano, como se sabe, escreveu uma obra sobre as guerras que os romanos travaram na Gália, contra os celtas. Ele nos informa, pois os conhecia muito bem, que eles honravam deuses muito semelhantes aos dos romanos, inclusive o seu Dispater, a divindade que governava o mundo infernal; informou-nos mais Cesar que os druidas, os sacerdotes celtas, atribuíam muita importância à crença da transmigração das almas. Comentando, porém, esta última informação, ele acrescenta uma venenosa observação: a de que os druidas propalavam essa ideia para que os guerreiros celtas não tivessem medo de morrer. 


LUCANO
O poeta latino Lucano, no primeiro século da era cristã, observou que os celtas encaravam a morte simplesmente como um estágio entre uma vida e outra. Outras fontes literárias (Diodorus Siculus) afirmam a mesma coisa. As tradições mitológicas celtas projetam uma imagem muito ambígua sobre o seu inferno. Fala-se mesmo de uma vida melhor no Outro Lado. Não há dor, sofrimento, decadência; há festas, música, beleza, embora encontremos registros de combates entre heróis que nele se encontram. Outro aspecto, muito contrastante com o que está acima, é o de que inferno pode se tornar um lugar muito perigoso, sombrio, se visitado por humanos antes da morte. 

O aspecto tenebroso do mundo infernal é representado pelos celtas de modo especial nas festividades do Samain, realizada quando o Sol ingressa no sigo de Escorpião. Na Irlanda, era a maior festa, celebrada no início de novembro, marcando o fim de um ano e o início de outro. A festa era um ponto de transição cujos ritos procuravam garantir a renovação e a prosperidade terrena, os êxitos tribais, a germinação da boa sorte para a primavera e o verão seguintes.


SAMAIN  ( F. J. GOYA Y LUCIENTES , 1746 - 1828 )

LUPERCÁLIAS
O Samain corresponde ao Halloween anglo-saxão e equivale à festa de Todos-os-Santos e dos Mortos dos cristãos latinos. Marca, na segunda quinzena do mês de Samon (novembro), o começo da estação sombria, estabelecendo-se então uma comunicação temporária com os mortos. Em oposição a esta festa, no mês Imbolc (fevereiro), temos as celebrações associadas à deusa Brigit, equivalentes às Lupercálias romanas e ao Mardi Gras (terça-feira gorda, último dia do carnaval), festas que assinalavam o fim do período hibernal e o renascimento da vida e do mundo vegetal. A
SANTA  BRÍGIDA , 1280
deusa Brigit era, na origem, uma deusa ligada à terra, ao fogo e à poesia (esta última era considerada como uma expressão do fogo, tendo um caráter não material). Quando da chegada do cristianismo, muitas divindades celtas foram transformadas em santos, como foi o caso de Brigit, que virou Santa Brígida, chamada a Maria dos celtas, venerada tanto quanto São Patrício, o evangelizador dos irlandeses.



LUGNASAD  ( PIETER BRUEGEL, O VELHO , 1525 - 1529)

Em maio, tínhamos as festas chamadas Belteine, que marcavam o início da estação estival. Em agosto, realizavam-se as Lugnasad, em homenagem ao deus Lug, período das grandes assembleias. Estas festas, ao que parece, eram fixadas com base na observação de estrelas importantes. Samain e Belteine tinham início, respectivamente, quando da ascensão helíaca de Antares (Escorpião) e de Aldebarã (Touro). Assim, quando da ascensão helíaca de uma delas, o céu noturno era dominado pela outra. O ano era assim dividido em duas estações, uma sombria, de 179 dias, e outra luminosa, de 186 dias, em harmonia com o calendário climático e agrícola da Europa temperada. As datas das duas outras festas eram determinadas pela ascensão helíaca de Sirius (Lugnasad) e de Capella (Imbolc). 

CALDEIRÃO
O mais importante símbolo de regeneração do mundo celta era o caldeirão, nos seus três níveis: abundância, ressurreição e sacrifício. A maior parte dos caldeirões encontrados em várias tradições míticas deve a sua força mágica à capacidade que eles têm de transformar tudo o que neles é lançado numa massa confusa, equivalente à nigredo alquímica, para que a partir dela possa ser criada uma nova forma. O caldeirão celta lembra a cornucópia, tendo o alimento que nele se prepara um caráter inesgotável, símbolo de um conhecimento sem limites, no que se aproxima bastante de outro símbolo celta, cristianizado, o Santo Graal. O caldeirão celta podia restaurar a vida dos guerreiros, que renasciam mais fortes do que antes. A serpente era outro símbolo usado pelos celtas  para o renascimento, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o encadeamento do ser à cadeia indefinida dos renascimentos.

Ao falar do caldeirão, não podemos esquecer de Héstia, a deusa
HÉSTIA
grega da lareira. Um de seus atributos era justamente o caldeirão, identificando-o os gregos como uma representação do tesouro particular ou do tesouro público, ou seja, tanto das casas como da polis. Héstia “recebia” o que nelas entrasse. No primeiro caso, dinheiro e alimentos. No segundo, os tributos em geral. Em ambas as hipóteses, tudo era levado para o seu caldeirão, posto em comum, preparando-se uma grande “sopa”, distribuída para os da casa ou para os habitantes da polis, segundo as necessidades de cada um. 



sábado, 21 de novembro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (7)

             
         

Dá-se o nome de celtas a vários grupos humanos, organizados em tribos, de família linguística indo-europeia, que se espalharam pela Europa mais ou menos a partir de 2000 aC. Grande parte da população da Europa ocidental pode ser considerada celta, já que as diversas tribos ocuparam territórios que se estendiam do norte da Grécia (próximo ao mar Negro) à península ibérica e às atuais Inglaterra e Irlanda. Dentre essas tribos, destacavam-se os bretões, os gauleses, os escotos, os batavos, os belgas, os gálatas e outros. 

A religião dos celtas, de um modo geral, tem como base as formulações dos druidas, os sacerdotes que detinham um saber considerado como absoluto, transmitido oralmente. Perseguidos pelos romanos, boa parte deles se refugiou na Irlanda, onde encontrando o seu fim, por volta do séc. VI dC, devido às pressões do cristianismo vitorioso. 

Apesar disso, a cultura celta manteve traços originais até o séc. XVII principalmente na Irlanda, no País de Gales, na Gália (França),  no  norte  da  Itália  e  no  norte  de Portugal e na Galícia,
TRISTÃO E ISOLDA  (WATERHOUSE)
noroeste da Espanha. Nestas regiões, ainda hoje, encontramos alguma inspiração celta na toponímia, na música, no folclore, nas artes e em alguns usos e costumes das populações. A presença da tradição religiosa céltica pode ser notada também num bom número de fábulas que, no decorrer dos séculos, foram sendo absorvidas pelo mundo cristão e nele se integrando. A legenda arturiana e a história de Tristão e de Isolda são bons exemplos nesse sentido.

Quando nos voltamos para a mitologia do mundo celta, em que pese a constatação de alguns casos isolados, as suas fontes só podem ser apreendidas de modo indireto. O que se dispõe quanto a essas fontes é de um conjunto de crônicas de comentaristas romanos e de alguns documentos vernaculares, de épocas posteriores, como textos em irlandês e gaulês. Destaque-se que os comentaristas romanos que se interessaram pelo mundo mítico celta demonstraram, de um modo geral, uma atitude muito compreensiva no que diz respeito a possíveis semelhanças entre as divindades celtas e as romanas. A religião dos celtas se apoiava sobretudo numa prática animista, cada tribo localizando-a no mundo geográfico. Cada região, cada tribo, em consequência desse fato, possuía uma divindade própria, local. Não havia, digamos, uma divindade “nacional”,  um deus ou deuses superiores, que constituíssem um panteão supra-tribal.

Para efeito do nosso trabalho, dividiremos os celtas em dois grandes grupos, os insulares e os continentais. Animistas
CRUZ CELTA
e politeístas, como praticamente aconteceu com todos os povos com as suas primeiras elaborações religiosas, inclusive com relação aos que caminharam para o monoteísmo, os celtas, tanto os continentais como os insulares, veneraram sobretudo divindades tópicas, regionais, ligadas a um lugar determinado, sempre associadas ao mundo natural. Os dois grandes grupos dos celtas insulares foram os irlandeses ou goidélicos e os bretões, termo que tanto designava os habitantes do país de Gales como os da Bretanha armoricana.





Outro ponto a destacar é que os gauleses nunca tiveram uma religião nacional. Cada tribo tinha as suas divindades, embora fosse possível encontrar certas divindades com características que se assemelhavam. É preciso também acrescentar outra dificuldade às já apontadas: a tradição religiosa dos celtas sempre se fez oralmente. Os inumeráveis versos que os druidas (os daru-vid, os muito sábios, os videntes), no dizer de Júlio Cesar, transmitiam aos seus discípulos, os cantos de vitória mencionados por Tito Lívio, se perderam para sempre. O que subsiste desse mundo são apenas algumas inscrições votivas sobre pedras, em estelas, em baixo-relevo. Já se disse que a mitologia dos celtas é uma mitologia sem mitos. Poucas informações existem desse mundo anteriormente aos registros de Júlio César (Commentarii de Bello Gallico)


COMMENTARII   DE   BELLO   GALLICO

Em 390 aC, os celtas invadiram o norte da Itália (Gália Cisalpina) e saquearam Roma. Por volta de 272 aC, fizeram o mesmo em Delfos, na Grécia. Chegaram até a Ásia Menor, passando pelos Balcãs. A partir do séc. II aC, os celtas começaram a perder seus

territórios para os povos de língua germânica. Aos poucos, com muita dificuldade, os romanos conseguiram dominá-los. Em 182 aC, os romanos anexaram a Gália Cisalpina ao seu império. O golpe final veio com Julio Cesar, que conquistou toda a Gália, e com Cláudio, que dominou a Bretanha. Somente a Irlanda e o norte da Escócia, onde viviam os escotos, ficaram fora da influência direta do império romano.

Não há como se estabelecer, com o que sobrou do mundo celta, traços de uma cosmogonia, uma história sobre as origens do mundo, como a que os gregos, por exemplo, elaboraram. A rigor, só na Irlanda é possível encontrar alguma coisa e mesmo assim textos de uma tradição bem mais tardia, do séc. XVI, onde encontramos referências cosmogônicas misturadas a elementos retirados da Bíblia. 

Menciona-se nessa tradição um dilúvio depois do qual levas sucessivas invadiram a Irlanda. Ainda no terreno da mitologia, os primeiros invasores da Irlanda, chamada pelos gregos de Ierne e, depois, pelos romanos de Hibernia, foi a tribo dos Tuatha De Dannann (os Filhos de Danu), originária da união entre a deusa Danu, a grande benfeitora, e Bile, deus da Morte. Essa tribo e seus descendentes desempenharão posteriormente um papel importante na constituição dos reinos irlandeses. Foram os membros dessa tribo que venceram os monstruosos e disformes gigantes que lá viviam em terríveis batalhas.


PARTHOLONOS

A ocupação da Irlanda está relatada no chamado Livro das Invasões, sendo difícil separar o que é mítico e o que é histórico. Tal ocupação teria começado sob as ordens de um certo Partholon, de origem grega, que viera com a sua família e um  séquito do qual faziam parte sacerdotes (futuros druidas?). O ciclo das invasões só terminaria com a chegada dos gaélicos. Há registros de que Partholon e seu grupo foram vitimados por uma peste. A história deste primeiro invasor sobrevive, contudo, até hoje, no folclore irlandês, no qual ele aparece como um demônio da fertilidade. Os últimos invasores, os gaélicos ou goedélicos, que falavam uma língua de mesmo nome, eram descendentes de dos Filhos de Mil, originários, ao que parece, da Espanha.

Quando os gaélicos chegaram à Irlanda, impondo-se aos descendentes da tribo de Tuatha De Danann, foi-lhes prometido sucesso, pelas divindades locais, se eles escolhessem o nome de uma delas para a terra que estavam conquistando. Um vidente (fili), em nome dos gaélicos, assegurou que a terra conquistada passaria a se chamar Eriu. A deusa, por seu turno, através do vidente, garantiu que a terra conquistada jamais deixaria de pertencer aos gaélicos. 


DAGDA

De um modo geral, quando falamos de religião na Irlanda, menciona-se o nome da deusa Danu, uma espécie de Grande Mãe, cujo culto revelava a presença de antigas tradições matriarcais. Mas, posteriormente, quem aparece no centro de panteão dos gaélicos é Dagda, onipotente e sábio, o Pai Supremo, lembrando ele, em muitos aspectos, Zeus e Júpiter. Seu nome traduz uma ideia de bondade. Seus principais atributos são uma grande clava, arma que, na sua mão, o torna sempre no mais temível dos contendores, e um caldeirão, inexaurível, que representa a abundância e a hospitalidade. Glutão, com uma sexualidade incontida, ele tem como esposa Morrigane, deusa da guerra. Protetor dos Filhos de Danu, assumiu um papel importante na luta entre estes e os gigantes. 


TARANIS
Dagda, como o Júpiter dos gaélicos, foi chamado pelos romanos de Taranis ou Taran, nome equivalente a trovejante, ao latino tonans e ao grego brontaios, sob o qual eram conhecidos, respectivamente, Júpiter e Zeus. Taranis personifica também o Sol. Seu caldeirão (gundestrup) aparece sempre ao lado de uma roda que tanto simboliza a irradiação do astro como a força das tempestades, como Lucano (poeta latino, séc. I dC, sobrinho de Sêneca, e companheiro do imperador Nero) o descreveu, tudo com a finalidade de que o seu duplo aspecto, o temível e o benevolente, fosse devidamente representado.



GUNDESTRUP

No continente, fixemo-nos nos gauleses, as tribos mais importantes da Europa continental, que ocupavam o que é hoje, mais ou menos, o território francês. Antes, porém, é preciso salientar que o estudo da religião dessas tribos gaulesas sempre ofereceu muitas dificuldades porque eles, como todo os demais povos celtas, professavam, como dissemos, uma espécie de animismo que não se preocupava com as representações figuradas, imagens, estátuas etc.

As melhores informações sobre a religião dos celtas gauleses são encontradas nos registros de Júlio César, embora ele nunca tivesse se preocupado com informações mais exatas sobre essa tribo. Escreveu Júlio Cesar: Os gauleses reconhecem a Mercúrio, Apolo, Júpiter, Marte e Minerva, mas professam a Mercúrio uma veneração particular. Sua crença a respeito das divindades é quase a mesma que a crença dos outros povos. Consideram a Mercúrio como o inventor de todas as artes; pensam que ele preside aos caminhos e que exerce uma grande influência no comércio e sobre as riquezas; que Apolo evita as enfermidades, que se devem a Minerva os elementos da indústria e das artes mecânicas, que Júpiter governa com poder soberano o céu e que Marte é o deus da guerra.

Adoravam os celtas gauleses sobretudo as montanhas, os bosques,
BORMOS

as fontes e os rios. O rio Reno, divinizado, era considerado como o nume da fidelidade conjugal. As crianças, mergulhadas no rio, se filhos legítimos, eram salvas, devolvidas pelas águas aos seus pais. Se adulterinas, o rio as levava. Nas águas termais pontificava Bormos, gênio da saúde, auxiliar do deus médico Apolo. 




AGÁRICO
Era nos bosques sagrados, que exerciam também a função de templos, que os celtas se reuniam, junto de determinadas árvores, respeitadas mais que todas. Entre os vegetais, a verbena e o agárico eram os mais sagrados. A primeira era recolhida pelos sacerdotes, os druidas, no primeiro dia da canícula, antes da saída do Sol. Para se recolher o agárico ou visco se esperava a Lua de dezembro. 

O catálogo dos deuses dos celtas gauleses não era muito extenso. Dentre os mencionados com maior frequência pelos poetas latinos,
BELENO
destacamos: Bel ou Beleno: senhor do céu, personificação do Sol. Divindade benéfica que fomentava a germinação dos vegetais e que atuava através de plantas curativas. Belisana: deusa considerada como inventora das artes e identificada pelos romanos como a sua Minerva. Era representada com uma espécie de capacete adornado com um penacho; vestia uma túnica sem mangas, usando por cima dela um peplo. Aparecia com os pés cruzados e com a cabeça apoiada em sua mão direita, em atitude de meditação. 


Taut ou Tautates tinha poder sobre as obras ditadas pela inteligência, o comércio e as medidas. Era também o deus da guerra e adorado sob a forma de um dardo, aparecendo então como protetor nas batalhas. Sob a forma de um carvalho, era invocado para proporcionar a iluminação da inteligência. Taran ou Taranis, associado ao Júpiter romano, era o deus do fogo e das tempestades, manifestando-se através do trovão, do relâmpago e do raio. Ogmios: deus da eloquência, de cujos lábios pendiam correntes de ouro que sujeitavam seus adoradores pelas orelhas. Kirk:
TARVOS-TRIGARANOS
personificação do furacão. Tarvos-Trigaranos: deus conciliador invocado por litigantes. Sua imagem era a de um touro de bronze. Onuava: deusa que representava a terra. Esterela: deusa que proporcionava fecundidade às mulheres. Kermo: deus da caça. Dis e Pikolo: divindades infernais. Irmim ou Irminsul: terrível deus da guerra, semelhante a Marte. Goibiniu: deus da cerveja. Lug, deus cultuado pelos descendentes da tribo de Tuatha De Danann como pelos fomorianos, era uma divindade da luz. Os gauleses faziam seu nome derivar de lugos (corvo), ave solar entre os gregos, consagrada a Apolo. O antigo nome dado à cidade de Lyon, na França, Lugdunun, tem relação com os nomes do deus e da ave, sagrada entre os gauleses. Lembremos que o corvo,  entre escandinavos e germânicos, aparece sempre associado Odin-Wottan.


ODIN  -  WOTTAN

  O corpo sacerdotal dos gauleses era formado pelos druidas, divididos em três classes: os ovatos, aspirantes à dignidade sacerdotal; os bardos, cantores das louvações aos deuses; os darvidins, ministros do culto, que ademais exerciam as funções judiciais, médicas e pedagógicas (instrutores da juventude); vestiam-se de branco, adornavam-se com braceletes e amuletos de pedras na forma de serpentes. Ao que parece, eram os darvidins celibatários, viviam nos bosques, reunidos em comunidades.

DRUIDAS
É de se lembrar que os druidas, como poder religioso, implantaram no mundo celta gaulês uma verdadeira teocracia. Legisladores e juízes, exerciam uma autoridade incontestável, faziam a paz e a guerra, interferiam no poder real, estabeleciam penas e castigos. Estavam isentos do serviço militar, tinham o monopólio da realização dos sacrifícios, tanto públicos como privados, podiam excomungar os que desacatavam suas sentenças, excluindo-os das cerimônias religiosas.

Escritores gregos nos deixaram relatos de que as mulheres também atuavam no druidismo, dele participando através de três classes: na primeira ficavam as que deveriam, num santuário, guardar a virgindade por toda a vida;  na segunda, ficavam as mulheres que poderiam se casar, mas somente podendo sair do santuário uma vez por ano, quando então visitavam a família; na terceira classe ficavam mulheres como servidoras das duas primeiras classes. As druidesas das duas primeiras classes praticavam a astrologia e trabalhavam como adivinhas através da hepatoscopia em vítimas humanas.  Em Estrabão, o grande geógrafo grego, encontram-se registros de sacrifícios humanos conduzidos pelas druidesas. Os vaticínios de algumas dessas mulheres se tornaram muito conhecidos no período galo-romano, chegando mesmo alguns imperadores romanos a consultá-las. Era na ilha de Saina que se encontravam as druidesas de maior prestígio na arte do vaticínio.

Com o avanço crescente da religião cristã a partir do início da era cristã, o druidismo feminino foi perdendo o seu prestígio até desaparecer, o que deu lugar ao aparecimento de muitas lendas pelas quais tomamos conhecimento que as druidesas, perseguidas, transformaram-se em fadas, passando a viver escondidas, propagando-se desde então muitas histórias sobre elas, sempre consideradas como um inapagável vestígio do druidismo.

Como criaturas maravilhosas, senhoras da magia, as fadas e suas histórias fazem parte hoje de uma literatura, a dos contos de fadas,
REINO  DAS  FADAS  DE  BROCELIANDE , BRETANHA 
na qual elas aparecem, de um modo geral, como protetoras, embora algumas possam se dedicar ao Mal. Nesse sentido, são consideradas como feiticeiras, bruxas, agentes das forças negativas que operam no universo. No leste da França, em lugares da Bretanha, e da Normandia, bem como na Irlanda e na Escócia, o mundo das fadas sobrevive não só através de grandes festas celebradas todos os anos em datas especiais e da literatura que sobre elas continua a ser editada, mas, sobretudo, da toponímia de vários lugares.


Quanto à mitologia dos povos do norte da Europa esclareça-se desde logo que ela compreende principalmente os mitos
EDDA  DE  STURLUSON 
propagados a partir da península escandinava e Islândia. Um ramo deste tronco é a mitologia germânica, que difere da outra só em detalhes. Ambas têm um fundo comum e praticamente os mesmos deuses. O texto clássico da mitologia escandinava chama-se Edda, nome de duas obras do séc. XIII, provenientes da Islândia. A primeira, descoberta em 1643, é chamada de Edda Poética ou Edda Antiga, e teria sido composta por Semudo Gigfusson; a segunda tem o nome de Edda em Prosa ou Edda de Snorri Sturluson (seu autor).


Estas obras são uma compilação de poemas mitológicos, cosmogônicos e históricos, produto de uma longa e antiquíssima tradição oral, recitados na Idade Média, de castelo em castelo, pelos escaldos, bardos ou trovadores dos países setentrionais. Os poemas que tratam da matéria histórica chamam-se sagas. O segundo grupo de poemas, de Snorri Sturluson, é uma espécie de comentário dos primeiros poemas.

Os mais importantes poemas da Edda celebram a vitória de Odin ou Wottan. Um deles, a Voluspa (profecia da adivinha), é posto na voz de uma profetisa e oferece uma exposição bastante completa da mitologia escandinava. Em termos muito resumidos, a visão cosmogônica começa pela descrição de duas regiões, uma do fogo e da luz, Muspilheim, onde reinava um ser absoluto e eterno, Alfadir; outra, das trevas, era dominada por Sotur, o Negro, chamada Nifflheim. Entre ambas existia o caos. As chispas que saltavam da primeira região acabaram por fecundar a outra, dando origem aos rios e vapores fumegantes da outra, nascendo desta fecundação Imir, o pai da raça dos gigantes. Tão logo nascido, o gigante sentiu fome. Um raio da região luminosa fundiu o gelo de Nifflheim, aparecendo a vaca Audumbla, de cujos quatro úberes nasceram quatro rios, quatro fontes de leite que saciaram a fome do gigante, que, logo depois, pôs-se a dormir. Da transpiração de suas mãos nasceu um par de gigantes, um macho e uma fêmea. De um dos pés de Imir nasceu um monstro com seis cabeças.

A vaca sustentadora dos gigantes, para se alimentar, lambia a neve na fenda das rochas. Um dia, sob a neve, surgiu uma cabeleira; no dia seguinte, um crânio; no terceiro, um corpo. Era o deus Bure, forte e de formosas proporções. Sozinho ele gerou Bor, que, unindo-se a uma giganta, deu existência a Odin, Vili e Ve, deuses destinados a criar o mundo e a dele se assenhorear.

Estas três divindades e seus trinta e dois descendentes, chamados Ases, tiveram que sustentar um grande combate contra os gigantes, que foram vencidos. Morto Imir, o sangue que saiu de suas feridas afogou, com exceção de um, chamado Bergelmer, todos os demais gigantes de sua raça. Com o corpo de Imir os deuses vitoriosos formaram o cosmos; de sua carne foi feita a terra; de seu sangue, o mar; de seus ossos, as montanhas; de seus cabelos, as árvores. Suspenso sobre a terra, o crânio de Imir se converteu na abóbada celeste. Para iluminá-la, os poderosos Ases nela fixaram as faíscas que se desprendiam da região luminosa. Os restos não aproveitados do enorme corpo de Imir foram roídos por inumeráveis vermes (gusanos), deles nascendo a raça dos anões que passaram a se ocultar nas cavernas, pelas quais tinham acesso ao interior da terra, assumindo a condição de guardiões dos tesouros nela escondidos.

O tema dos anões na mitologia germânica é um dos mais importantes, ao lado daqueles referentes ao elfos, aos trolls  e aos gigantes, sobrevivendo mesmo depois da cristianização dos povos do norte da Europa. Snorri, por exemplo, nos revela que os anões sempre apareceram associados à arte da metalurgia, como os nomes que muitos deles ostentam sugere. Vivendo em baixo da terra, no mundo subterrâneo, foram os anões que produziram muitos tesouros, armas e joias dos deuses, como Durandal, a espada maravilhosa, ou como o martelo de Thor etc. 
  
Para completar a obra iniciada, os deuses resolveram criar um primeiro casal. De um freixo formaram o homem, Askur; de um amieiro formaram a mulher, Embla. Odin lhes deu uma alma, Vili o entendimento e Ve a beleza e os sentidos. Satisfeitos com o que haviam feito, os deuses retiraram-se para a sua mansão, Asgard, no centro do universo, rodeada de várias cidades e refulgentes palácios, moradas dos demais deuses.

YGGDRASIL
O freixo, na tradição escandinava, era um símbolo da imortalidade e de uma ligação entre os três níveis dos cosmos. Como primeira árvore criada, aparece como o Yggdrasil, que sustentava o teto do mundo e sob o qual os deuses realizavam as suas assembleias. Os freixos afastam os maus espíritos e suas folhas distribuídas pelos cômodos de uma casa são extremamente protetoras contra o mal. Consta que o freixo curava, dentre outros males a hidropisia e lepra (as suas cinzas). 

Já o amieiro é o outro vegetal e dele a humanidade também procede. Era muito usado na magia para a fabricação de varas mágicas e em sessões espíritas, já que sua fumaça era muito propícia a contactos com o “Outro Lado”. Sua essência sempre foi muito usada expulsar insetos daninhos de quaisquer espécies. 

A primeira divindade no panteão escandinavo é Odin, de nome Wottan entre os germânicos, assemelhando-se muito ao Zeus dos gregos e ao Júpiter dos romanos. Ele é o recriador e o conservador do universo, além de poderoso deus da guerra. Dispõe de três palácios em Asgard: um para receber os demais deuses, para a sua vida social: outro de onde domina todo o universo, para as suas funções executivas; e um terceiro, o Valhala, no qual instala os heróis mortos nas batalhas, para que lá passem a viver eternamente
uma vida de prazeres, cobertos de glória. Seu cavalo chama-se Sleipnir, maravilhoso, que alcança uma grande velocidade devido às suas oito patas. Ao seu lado, sempre, dois lobos, Geri e Ferki, que o seguem por todo o lado. Dois corvos, Hugin (Espírito) e Munin (Memória), vivem nos seus ombros e têm a missão de recolher todas as informações que circulam no universo, inclusive os pensamentos dos mortais. 

É preciso esclarecer que Odin-Wottan, antes de se tornar uma divindade todo-poderosa, tinha sido uma espécie de demônio das tempestades. Nos países germânicos, principalmente, era crença unânime que em noites de tormenta os espaços celestes eram atravessados pelos fantasmas de guerreiros mortos, em galope tumultuoso com os seus cavalos. Esta tropa furiosa era chefiada por um guerreiro cujo nome na antiga língua alemã era retirado de uma palavra que significava frenesi, furor. Seu nome era Wode, depois Wodan, Wottan, que muitos alemães consideram seu ancestral, Odin para os escandinavos. 

Esta divindade das tempestades noturnas foi aos poucos perdendo o seu aspecto negro para se tornar uma divindade inspiradora de coragem, dispensadora de heroísmo e de vitória e que das alturas decidia os destinos humanos. Sabe-se mais que Odin-Wottan exercia funções médicas, tendo sido encontradas pela arqueologia fórmulas para os mortais invocá-lo no caso de problemas de articulação dos membros (luxações e entorses).  

Odin entre os escandinavos é tanto divindade da guerra como da inteligência superior. Ele é belo e fala tão bem que tudo o que vem dos seus lábios se torna verdade indiscutível. Quando fala, Odin se expressa em língua poética, como os escaldos, Por outro lado, pode tomar todas formas que desejar, touro, serpente, pássaro ou monstro. Quando ele chega ao campo de batalha. Os seus inimigos se tornam subitamente surdos, cegos, impotentes. 


SLEIPNIR
Foi Odin quem fixou as leis que regem as sociedades humanas. Aparece sempre com uma brilhante couraça revestindo o seu peito, tendo na cabeça uma capacete de ouro. Leva sempre nas mãos a lança Gungnir, forjada pelos anões, e que nada pode desviar do objetivo colimado. Nenhum cavalo pode se igualar a Sleipnir, sua montaria. Não há obstáculo que ele não possa superar. 

Odin tem o seu trono numa vasta e resplandecente sala de ouro no Valhala. É lá que ele chama para que fiquem próximos a ele os que mais se distinguiram nos campos de batalha. O telhado de seu palácio, no lugar de telhas, tem escudos brilhantes. Ao invés de bancos, os convivas se sentam em couraças. À noite, o palácio de Odin-Wottan parece um imenso navio iluminado; quando os heróis sacam de suas espadas para celebrar, seu brilho faiscante, enche mais os salões de luz. O palácio tem ao todo 540 portões, podendo passar por eles, ao mesmo tempo, sem atropelo, 800 guerreiros.

ODIN, COMO ÁGUIA, SORVE O HIDROMEL
Neste palácio, os heróis passam o seu tempo se divertindo. Em jogos guerreiros e festins, algo muito semelhante ao que os gregos tinham no seu País dos Bem-Aventurados. No palácio, vivem ao lado de Odin-Wottan as Valquírias, que exercem as funções de guardiãs e de servidoras. São elas que servem o hidromel e a cerveja e que mantêm os pratos permanentemente cheios. 

As Valquírias exercem também uma função militar (têm uma aparência de guerreiras) muito importante. Quando os guerreiros
VALQUÍRIAS
participam de alguma batalha, são elas que designam os que devem morrer e são elas ainda que fazem a vitória pender para este ou para aquele chefe, desde que merecedor da sua graça. Elas percorrem constantemente os céus montadas nos seus cavalos. São invisíveis para todos, salvo para os guerreiros que elas escolheram para subir ao Valhala a fim de se tornarem companheiros de Odin-Wottan. 


Odin-Wottan costuma participar dos negócios humanos. É raro que ele o faça na sua forma divina. Comumente, aparece sob o disfarce de um viajante. Ele é inconstante nos seus favores, muitos de seus desígnios são inexplicáveis, acontecendo às vezes que ele cause a morte de um herói que protegeu por longo tempo. 

Odin-Wottan tem uma vida amorosa muito intensa e diversificada. Sabe-se de muitos casos que teve com deusas, com mortais e mesmo com gigantas. O lado guerreiro de Odin-Wottan ou a sua
RUNAS
atividade erótica nunca abafaram outras características suas como a divindade da sabedoria e da poesia, da medicina, da magia e sobretudo como mestre das runas, que, como se sabe, têm poder mágico, constituindo-se num sistema simbólico de grande riqueza. Runa vem de run, palavra que em antigas línguas nórdicas significa segredo.


A ciência das runas Odin-Wottan a conquistou (não a tinha infusa) ao interrogar todos os seres que viviam no universo. Quem o ajudou nessa conquista foi Mimir, seu tio materno, um demônio das águas, reverenciado por todos os germânicos. Foi numa fonte, onde eram guardadas a sabedoria e a inteligência, perto do Yggdrasil, que Mimir, “o que pensa”, ajudou Odin-Wottan a obter a ciência das runas. 

Um dos episódios mais curiosos da crônica de Odin-Wottan é o do seu sacrifício voluntário e da sua ressurreição. Um velho poema conta que durante nove noites, ferindo-se com a sua própria lança, ele, na forma humana, permaneceu preso aos galhos do freixo divino, seu corpo balançado aos ventos. Esse acontecimento sempre foi considerado como um rito mágico que tinha o objetivo de provocar o seu rejuvenescimento, pois, segundo a mitologia escandinavo-germânica, os deuses, como os humanos, são destinados à degeneração.

Transcorridos os nove dias, os galhos da árvore se quebraram e Odin-Wottan caiu no chão, revigorado, como se tivesse passado por um segundo nascimento. Mimir o fez beber o hidromel divino e, desde então, suas palavras se tornaram cada vez mais sábias e suas obras cada vez mais úteis para os deuses e para a humanidade.  
  
 A história de Wottan-Odin não pode deixar de ser considerada juntamente com a de uma outra divindade chamada Tiuz ou Tyr, que era bem mais antiga que Odin-Wottan e que Thor-Donar. Era também chamado de Ziu por muitas tribos do norte da Alemanha. Os escandinavos o chamavam de Tyr e o anglo-saxões de Tiw. Admite-se que tais designações têm a ver com o Dyaus sânscrito, com o Zeus grego e com o Deus dos latinos. Este nome, como sabemos, passou a designar uma divindade tanto celeste quanto da guerra. Aos poucos, porém, esta divindade passou a representar somente o espírito militar das tribos, tomando o nome latinizado de Thincsus, adotado por exércitos romanos que atuavam no mundo germânico. O nome Thincsus foi inclusive agregado ao do Marte romano.