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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LIBRA (1)

                                              

LIBRA
Uma das mais antigas referências que temos sobre o signo de Libra (23 de setembro a 22 de outubro) nós a encontramos no antigo Egito, na balança como símbolo do julgamento. A balança era o centro de uma cerimônia religiosa muito importante. Esta cerimônia consistia na pesagem das almas quando, desprendendo-se do corpo, elas iniciavam a sua viagem para o Outro Lado (Duat). Esta pesagem se realizava na sala da deusa Maat, deusa da justiça e da verdade, por meio de uma balança na qual se depositava, no prato da esquerda, o coração (Ib) do morto e no outro prato, o da direita, uma pena branca de avestruz, símbolo da deusa. 


MAAT

Aparecendo sempre em oposição ao carneiro, símbolo do aspecto criador, animal portador da vida, da saúde e da força, a balança é um símbolo do poente, da morte, e abre caminho de para a ressurreição. Enquanto o carneiro transmuta o declínio solar em esplendor, em impulso luminoso, a balança marca os momentos inicias da sua extinção. A balança mantém as forças da luz e das trevas momentaneamente em equilíbrio. Logo, porém, a espada da justiça cortará sem qualquer outra influência o fio deste equilíbrio (equinócio). Este corte introduz os homens “naquilo que deve ser” queiram eles ou não. A matéria, a vida mundana, os corpos, tudo o que tomou forma, enfim, começa a caminhar para o seu fim. O sentido do “que deve ser” é inversamente proporcional ao “que quer (ou acredita) ser”. Pesa-se aqui, rigorosamente, um “tanto” de
AVESTRUZ
construção e um “tanto” de destruição, de modo que os pesos se anulem. Pesava-se, assim, no Egito, o hieróglifo da verdade, a pena que simbolizava a deusa, sendo o contrapeso o coração do morto. As penas do avestruz, porque exatamente iguais, eram símbolos da equidade, e, como tal, da deusa Maat, que personificava a verdade, a justiça e a norma.Ela representava o equilíbrio e a harmonia da criação com relação ao incriado, ao caótico.    

Ao lado dos cultos e de seus objetos, a religião egípcia sempre teve um caráter moral, a que era dado o nome de “maat”. É quase impossível traduzir com exatidão o significado desta palavra, nela se combinando conceitos de ordem, justiça, dever, retidão, responsabilidade, algo muito parecido com a palavra sânscrita dharma. Maat, como conceito, não tinha origem humana. Fora criado pelos deuses e desde o aparecimento do cosmos passou a fazer parte da criação. Antes de qualquer coisa, maat representava a lei divina, imutável e imprescritível, na qual deviam se inspirar as leis humanas, chamem-se elas ética, moral ou princípios de direito. Todos deveriam, desde o faraó ao camponês, se esforçar para viver de acordo com ela, cada um no seu nível social.

Concebida dessa maneira, como obra dos deuses, e não da consciência dos homens, maat sempre se revestiu para os egípcios de imutável perfeição. Isto excluía qualquer possibilidade de crítica ou de mudança da estrutura social. O mundo e o que havia nele tinha sido criado pelos deuses exatamente da forma como queriam. Tudo era, portanto, como deveria ser, fixo, eterno. As guerras, as pestes, as secas significavam simples perturbações temporárias da ordem cósmica estabelecida. Uma vez que o mundo tinha sido criado como deveria ser desde o momento da criação, não era possível por definição ter havido uma época anterior melhor. Na
VALE   DO   NILO
religião egípcia não havia ideias como Jardim do Éden, Idade de Ouro ou Apocalipse. A mesma atitude determinava a concepção que os egípcios tinham da morte e a importância que lhe atribuíam. As suas crenças sobre a vida do além-túmulo, como as que diziam respeito aos deuses, tinham velhas raízes no vale do rio Nilo. Sepulturas da era neolítica revelavam a existência, ao lado dos mortos, de instrumentos, de objetos e de víveres que só podiam mostrar a intenção de serem usados pelo falecido no além. 

No eixo da balança usada na psicostasia ficava sentado o deus Toth, o escriba divino, na sua forma cinocéfala ou com a cabeça de íbis. Ao fundo, sob a presidência do deus supremo, Osíris, quarenta e duas divindades, correspondentes aos quarenta e dois nomos, ou divisões administrativas do país, acompanhavam a cerimônia. Dela participava também o deus-chacal Anúbis, como senhor do mundo dos mortos. Aos pés de Osíris ficava o monstro Ammit, uma figura híbrida, meio crocodilo, meio hipopótamo, peitoral de leão, chamado de O Devorador; aguardava o resultado da pesagem. Este monstro era uma imagem das águas primordiais, lembrando o caos. Se o coração do morto fosse mais pesado que a pena da deusa Maat, ele era entregue ao monstro, que logo o devorava. Com isto, ele voltava à indeterminação para, um dia, quem sabe, passar pela metempsicose (passagem da alma de um corpo a outro). Se o coração fosse mais leve que a pena da deusa, a alma se encaminharia para o Outro Lado, reconstituindo-se o corpo, que então gozaria da imortalidade de Osíris. 


   LIVRO   DOS   MORTOS -  

A alma era pesada em função da sua maior ou menor proximidade com o divino. Quanto mais próxima dele, mais se elevava. Por isso, se ela tivesse se afastado do divino na sua caminhada terrena, perderia as suas asas, a sua leveza. Lembremos que a alma (ba), no Egito, era representada por um pássaro androcéfalo. Na psicostasia, a pena, por isso, simbolizava a elevação da alma. Segundo o prato da balança judicial que se eleve, ela será reconhecida como pura ou corrompida.


MORTE  DE  HÉRCULES , 1634  ( FRANCIS  ZURBARÁN )

A psicostasia é uma cerimônia que lembra elevação, e, portanto, o elemento ar. É, no fundo, um processo pelo qual uma substância
ELIAS  ( ÍCONE RUSSO )
inferior se traduz numa forma superior por um movimento ascendente. Um dos aspectos do simbolismo da ascensão é, como se sabe, o da translação para a eternidade. Exemplos deste aspecto estão no suicídio apoteótico de Hércules, suicídio que o levou para o Olimpo, e o da subida aos céus do profeta Elias, que a ele ascendeu vivo, num remoinho, transportado num carro puxado por cavalos de fogo. 

A origem do simbolismo da translação para os céus, isto é, para a eternidade, encontra, ao que parece, a sua primeira expressão na antiga religião egípcia. Esta forma de translação é chamada, alquimicamente, de sublimatio superior, descrita por várias religiões. Na sua existência temporal, contudo, o ser humano só pode experimentar a chamada sublimação inferior, aquela em que os anseios de altura, de voo ou de ascensão exigem sempre uma volta à terra porque ele não pode, enquanto coagulatio, abrir mão da alternância entre a elevação e a queda, isto é, da circulatio. A sublimatio superior propõe a eternidade, a inferior, traz de volta à terra, tendo um caráter ascendente num primeiro momento e descendente numa segunda fase.

ZIBANITU

Os antigos povos da Babilônia davam ao signo de Libra o nome de Zibanitu, a Balança, e nela viam duas estrelas importantes: Zuben do Sul e Zuben do Norte, os dois extremos polarizados que lembravam a pesagem das almas no julgamento depois da morte (a psicostasia para os egípcios e a querostasia para os gregos). 


HERMES   PSICOPOMPO

A balança, entre os persas, foi colocada nos céus sob a tutela do anjo Rashu, postado junto de Mitra, também com a finalidade da pesagem das almas sobre a ponte do destino. Lembremos que a mesma ideia aparece na Grécia. Num famoso vaso grego, Hermes, na função de deus psicopompo, procede à pesagem das almas de Aquiles e de Pátroclo. Entre os muçulmanos, a balança do julgamento é mencionada no Corão. Num sentido figurado, no Islã, a balança é um grande livro aberto sobre o qual se inscrevem diretamente as boas e as más ações do crente. Na vida cotidiana, ela simboliza o bom julgamento, a apreciação justa, o sentido da discriminação. Há entre os árabes do Magrebe (ocidente, lugar onde o Sol se põe) a expressão que revela a sua importância: Teu olho é a tua balança.


A ILÍADA
Entre os gregos, já em Homero (A Ilíada) a balança era usada para simbolizar o destino como se mostra no episódio em que se narra o combate entre Aquiles e Heitor: Quando, porém, chegaram pela quarta vez, às fontes,  o Pai dos deuses ergueu então a balança de ouro e nela colocou as duas sortes da morte, em um dos pratos a morte de Aquiles e em outro a de Heitor, o domador de cavalos; depois elevou-a, segurando-a pelo meio. O dia fatal de Heitor havia chegado e ele desceu ao Hades. Apolo Febo o havia abandonado.


 MIGUEL  E  JACÓ ( EUGÈNE  DELACROIX , 1798 - 1863 )

No cristianismo, o signo de Libra costuma aparecer associado a São Miguel, o arcanjo do julgamento. Este arcanjo, entre os judeus, é o de mais alta hierarquia, sendo conhecido como o Príncipe da Água e o Anjo de Prata. No período bíblico, Miguel anunciou a Sara que ela daria à luz Isaac; foi ele mesmo que no teste da akedá interveio para que o mesmo Isaac não fosse sacrificado, Miguel lutou com Jacó, ferindo-o; foi Miguel quem disse que ele, Jacó, receberia um novo nome, Israel. Como advogado do povo judaico, Miguel senta-se à direita do Trono da Glória. É Miguel que acompanha os devotos ao céu após a morte e faz a oferenda das suas almas no altar celestial. Assinalemos que no pensamento judaico, os demônios são privados de seu poder diante de tudo o que é equilibrado. 

Na Idade Média, havia a chamada prova da balança ou bibliomancia, que servia para condenar os feiticeiros. Colocava-se o acusado sobre um dos pratos de uma balança e no outro se depositava uma Bíblia. Se o acusado pesasse mais, seria condenado. Consta que muitas feiticeiras, bem mais leves que seus comparsas masculinos, conseguiram escapar da condenação. De um modo geral, porém, a bibliomancia consistia na adivinhação do futuro através da interpretação de uma passagem de um livro aberto ao acaso.


HOKSENWAAG
A cidade holandesa de Oudewater é famosa porque desde o final da alta Idade Média gozava de um privilégio incomum, não possuído por nenhuma outra na Europa. Milhares de pessoas acusadas de feitiçaria a procuravam na esperança de obter um livramento de tal acusação ou suspeita. É que nessa cidade havia um edifício público, conhecido como Hoksenwaag (Casa de Pesagem de Feiticeiros) que expedia certificados para esse fim. Um magistrado verificava primeiramente se o interessado não escondia nada sob suas vestes. Com vestes sumárias, quase nu, descalço, na presença de um conselho da cidade, a pesagem era realizada em público. O certificado expedido, no caso inocência, era muito detalhado, selado, com diversas assinaturas das autoridades, libertando o acusado de qualquer suspeita. Lembremos que na Bíblia (Provérbios) encontramos: A balança enganosa é abominação diante do Senhor; o peso justo é a sua vontade. O objetivo maior da pesagem realizada em Oudewater era o de se constatar se o incriminado havia sido colocado ou não em estado de levitação pelo Diabo. 

JABIR  IBN  HAYYAN
A simbologia da balança foi muito utilizada pela Alquimia. É do mundo árabe que nos vem o Livro das Balanças, de autoria de Jabir Ibn Hayyan (sécs. VIII-IX), chamado de Geber pelos latinos, que viveu perto de Bagdá. Para ele, por exemplo, o ouro representava o equilíbrio perfeito entre os dois princípios opostos e complementares, o enxofre e o mercúrio. Os outros metais seriam manifestações destes mesmos dois princípios, mas através de uniões imperfeitas. 

Os gregos, antes de definir melhor a área zodiacal de Libra, entendiam que ela pertencia às pinças da constelação de Escorpião, as Chelae Arum, segundo os romanos. Os sumérios já conheciam a região como separada de Escorpião, chamando-a de Zibba Anna, a Balança do Céu. Os árabes, apoiando-se nos babilônicos, davam o nome de Zuben el Genubi e Zuben Eschamali às duas principais estrelas de Libra, e também uma tradução dos nomes gregos dados por Ptolomeu. Para o ocidente, a “independência” de Libra só ocorreu por volta de 1.100 aC, quando a constelação começou a marcar o equinócio do outono. Sosígenes, um astrólogo alexandrino, provavelmente ciente das elaborações sumérias e egípcias, deu subsídios para que no calendário Juliano a constelação de Libra ficasse posicionada entre Virgem e Escorpião. Tudo isto explica porque o signo de Libra foi o último a ser introduzido e fixado no Zodíaco. Em sânscrito, Libra é Thula e em grego Zygos.


 LIBRA   E   ESCORPIÃO   

A balança, em todas as tradições, sempre apareceu associada à espada (Áries), unindo os dois símbolos a função administrativa e a função militar. É por essa razão que os celtas viam a espada tanto como um emblema da bravura e do poder guerreiro, sinônimo de
KSHATRIA , RAJPUT
destruição, como símbolo da justiça e da paz, na medida em que a destruição deve ser aplicada à injustiça, à ignorância, àquilo que é malefício, tornando-se por esse fato positiva. É por isso que a espada evoca também a guerra santa. Na Índia, é a casta dos Kshatrias, a segunda, a do poder político e a dos guerreiros, que une os dois símbolos, a balança e a espada, deixando-nos claro esta associação que a espada deve se colocar a serviço da justiça, o que nem sempre, porém, acontece. 

Entre os gregos, a primeira divindade associada ao signo de Libra foi Têmis. Filha de Urano e de Geia, Têmis (etimologicamente, estabelecer como norma) é a deusa das leis imprescritíveis, irrevogáveis e universais de origem divina. Estas leis opõem-se àquelas estabelecidas pelos homens (nomos) e às regras morais, o chamado direito consuetudinário. A ideia de uma lei divina já tinha sido aventada por Heráclito, na filosofia pré-socrática na medida em que o filósofo  vinculou as leis humanas à lei cósmica. 


TÊMIS , ZEUS  E  PALAS
A titânida Têmis foi a segunda esposa de Zeus Todo-Poderoso. Unindo-se a ele, tornou-se mãe das Horas  e das ninfas do rio Erídano (o rio Pó, da Itália), as mesmas que ensinaram a Hércules o caminho que levava ao Jardim das Hespérides (3º trabalho, referente ao signo de Gêmeos). Devido à sua união com Têmis, Zeus assumiu a condição de divindade máxima da qual derivam todas as leis, os ordenamentos e o direito em geral. Em nome de Zeus, os reis da terra deviam exercitar o seu poder, fazendo justiça e defendendo a ordem. É por essa razão que, já em Homero, Têmis é sempre invocada com Zeus para estender a sua proteção ao justo.

A Têmis cabia também o poder sobre os oráculos e os ritos em geral, além de supervisionar as assembleias. Os oráculos são locais onde a divindade pode falar diretamente por meio de um médium que caia em estado de entusiasmos. Os gregos chamavam tal local, onde se buscava um bom conselho (chresmos) de chresterion ou manteion. Os romanos o chamavam de oraculum, de onde veio a palavra para a nossa língua. O mundo oracular é, por excelência, feminino. Mesmo depois que o oráculo de Delfos, de Geia e de Têmis, passou para o mundo patriarcal (conquistado por Apolo), a transmissão das sentenças oraculares não pode deixar de prescindir do feminino, reveladas que eram por mulheres, as pitonisas ou sibilas. Foi Têmis quem passou a Apolo o domínio da mântica usada no referido oráculo. A mântica de Geia e de Têmis era a chamada mântica por incubação, transformada pelo deus em profética.   


GIGANTOMAQUIA  -  PARTENON

Como grande divindade das leis eternas, era Têmis também a dona do bom conselho sob o nome de Euphrone, atributo que dividia com Nix, a deusa da Noite. Têmis aconselhou a Zeus, na Gigantomaquia, a cobrir o seu escudo, que por isso recebeu o nome de égide. Esta palavra vem do grego aigis, cabra, pois foi com a pele da cabra Amalteia que tal escudo foi coberto e depois passado
JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
( E. BURNE - JONES , 1833 - 1898 )
para as mãos de Palas Atena. Consta que foi também por conselho de Têmis que a guerra de Troia foi deflagradas como uma forma de equilibrar melhor, ao tempo, o excesso de população da terra. Deve-se também a Têmis, como antiga titular do oráculo délfico, o conselho dado a Zeus e a Poseidon para que não se unissem à nereida Tétis, pois, se o fizessem, ela daria à luz um filho mais poderoso que o pai. Previu ainda Têmis que um dia um filho de Zeus (Hércules) retiraria do Jardim das Hespérides os pomos de ouro, guardados no referido jardim, pelo gigante Atlas.

DIONISO  E  AS  HORAS

Assim como Têmis tem a ver com a constelação de Libra, as suas filhas as Horas também a ele se ligam, integrando-se ao séquito da deusa Afrodite, que assumiria a tutela da referida área zodiacal como o planeta Vênus. As Horas eram filhas de Têmis e de Zeus e eram consideradas as divindades das estações do ano. Eram três, correspondendo à primavera, ao verão e ao outono, pois o inverno não era considerado como uma estação, já que era um período em que a natureza morria. Por isso, o número das Horas se fixou em três, cada uma delas com um atributo: flores (primavera), grãos (verão) e uvas e frutos (outono). Havia uma quarta Hora, a do inverno, representada com despojos de caçadas, mas que nunca teve o realce das irmãs. 

Como divindades das estações, promoviam as Horas o desenvolvimento da natureza, colocando-se porém sob a tutela de divindades maiores. Ligadas à vida da natureza, exerciam elas o controle sobre as mudanças do tempo, abrindo ou fechando os portões do céu, provocando a alternância entre os períodos chuvosos e os ensolarados, tudo para o melhor crescimento da vida vegetal. Gentis e simpáticas, movendo através da dança, usando coroas de ouro enfeitadas com flores, eram sempre benevolentes e protetoras da humanidade. Apesar de às vezes provocarem a impaciência em principalmente em razão de atrasos, sempre acabavam por aparecer, trazendo doçura e beleza, jamais decepcionando.


IRENE ,  EUNOMIA  ,  DIKE 

De divindades do mundo vegetal passaram depois a representar as horas do dia. Seus nomes: Eunômia (disciplina), Dike (justiça) e Irene (paz). Eram chamadas pelos atenienses por outros nomes, respectivamente: Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). Aos poucos, a ação das Horas se estendeu ao mundo dos humanos, como divindades que asseguravam o equilíbrio e o ajuste da vida social. Participavam elas também de modo especial da paideia, na medida em que cuidavam da educação das crianças, “umedecendo-as” (no mundo natural, eram as Horas encarregadas de distribuir a umidade) corretamente para que brotassem no tempo certo, crescessem adequadamente e florescem no tempo devido. 

Assim como tinham a ver com a ordem das estações, as Horas participavam da moralidade da vida social, nos seus aspectos quanto à virtude, à honestidade, ao bem, à manutenção da palavra dada etc., o que se tornava ainda mais evidente por serem filhas de Têmis. Assim, neste domínio, Eunômia personificava a legislação de um modo geral; Dike, a justiça; e Irene a paz. Os serviços da primeira voltavam-se sobretudo para a vida política, sendo o resultado de suas intervenções muito celebrados por poetas e pelo Estado de um modo geral. Dike atuava mais na área do chamado Direito Civil, na esfera das relações individuais, passando informações ao Pai de todas as injustiças cometidas. 

IRENE   E   PLUTO
Irene, a mais álacre das irmãs, era muito reverenciada em festivais em que se celebravam a convivência humana. Irene tornou-se mais tarde, segundo algumas versões, mãe de Pluto, a personificação da riqueza, um robusto menino que passou a acompanhar Dioniso e Perséfone, carregando uma cornucópia. As imagens de Pluto o descrevem como cego porque favorecia tanto os justos quanto os injustos. Segundo consta, foi o próprio Zeus quem o cegou, para impedir que socorresse só os bons. Irene era reverenciada também sob o nome de Chloris (em Roma, a deusa Flora), como divindade dos brotos, dos botões e das flores, muito cortejada por Bóreas, o vento do norte, e por Zéfiro, o vendo do oeste. Como dissemos, uniu-se a este último, tornando-se sua fiel esposa. 


ZÉFIRO   E   FLORA
( W. A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (6)


HERÁCLITO
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc. VI aC.que diz o seguinte: O Sol não sairá de seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. O filósofo estava se referido ao maior dos pecados gregos, a Hybris, a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é perante o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existia no universo tinha um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a respeitar esta ordem. Esta ordem fora instaurada por Moros, o Destino. Divindade grega, cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, quinhão que cabe a cada ser humano que entra na vida; é também usada no sentido de infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, sortear, o mesmo que deu origem ao nome das Moiras, as três irmãs que eram donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisas, eram, por parte de mãe, irmãs de Moros. Todos irmãos, pois, de Hipnos e Thanatos.



MOIRAS


Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e o mundo infernal (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava tudo segundo uma lei que nem o próprio Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual só os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o Livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito.

Como não possuía templos ou culto, Moros era reverenciado por poucos. Representavam-no como uma figura antropomorfizada, tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, uma coroa de estrelas. Às vezes, ele era representado por uma roda à qual se prendia uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar
AQUILES   MATA   HEITOR
de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico do que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano Heitor (canto XXII). 

A obrigação que temos todos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke, conceito que nunca deixou de ter características infernais. Ananke significa coação, necessidade, com o sentido de fatalidade. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica que vai além das causas puramente físicas. Desrespeitada a ordem universal, Ananke se manifestará, cedo ou tarde. 

ANANKE
Tudo no universo parece respeitar Ananke. Olhem os corpos celestes, diziam os gregos, como eles respeitam Ananke. Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem, no universo, que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que deve ser respeitada por todos. Rita é a força das forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Estas mesmas ideias podem ser encontradas também, por exemplo, no conceito de Maat, dos egípcios.

Hybris é o mais mortal dos pecados, uma insolência, um arrebatamento, que leva o homem a tentar se igualar ou mesmo a querer ultrapassar os deuses. É uma disposição contrária ao que os gregos chamavam de Sophrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Com a Hybris e a sua expressão física, a Hamartia (violência) a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico.
HADES   RAPTA   KORE  
Nem, por outro lado, falamos aqui de pecados como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, “pecados sexuais”; Hades-Plutão era, aliás, um estuprador; Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão,  a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isso, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

O que se pode depreender do que expusemos até aqui é que a morte entre os gregos antigos nunca era experimentada apenas como desaparecimento do corpo físico, como uma simples cessação das funções fisiológicas. A morte para eles deixava implícitas muito mais coisas, tinha muitas outras implicações. É evidente que a morte tem um caráter irreversível. Quando ela chega ninguém pode revertê-la, algo é cortado inapelavelmente.

Foi tendo em vista esta inexorabilidade que os gregos criaram as Moiras, nome grego que significa lote, parte, pedaço, quinhão, ou seja, o naco de vida que nos coube a partir do momento em que somos expelidos do ventre materno. A representação desse pedaço de vida, situado entre duas datas, era feita por um fio. Daí serem elas chamadas de Fiandeiras. 


NIX
( W. A. BOUGUEREAU )
As Moiras eram divindades ligadas à primeira dinastia divina, sendo elas filhas de Nix, uma das cinco entidades primordiais nascidas do Caos. A palavra Moira, ao nos apontar para uma atividade feminina, nos diz que a vida é algo tecido, que temos de ir entrelaçando, manipulando fios pela urdidura, criando tramas, nós, arrematando aqui e acolá, evitando esgarçamentos. As Moiras são assim as tecelãs do nosso destino. Neste sentido, são divindades que pairam acima dos deuses e dos humanos. Elas velam pelo desenrolar da vida de cada ser humano.


MOIRAS

As Moiras são três: a primeira é Cloto (etimologicamente, a que tece, a que fia); o giro da sua roca de fiar simboliza o curso das existências humanas. Láquesis (etimologicamente, a que sorteia), define a sorte (o pedaço de fio) que coube a cada um; Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás) corta o fio no lugar determinado pela segunda. 

O fio, lembremos, simbolicamente une dois mundos, dois estados, pondo em relação o seu princípio, a sua origem, e o seu desenvolvimento condicionado temporal. O fio, a rigor, é o hífen
FASES   DA   LUA
que une as duas datas que cabem ao ser humano quando ele entra na existência. As Moiras são, por isso, essencialmente, deusas lunares, abrindo e fechando indefinidamente os ciclos individuais da existência humana. Como a Lua, elas nos falam do tempo,  com as suas fases, apontando para o devenir cíclico do universo. É neste sentido que Cloto significa o presente, Láquesis o passado e Átropos o futuro. 

A existência humana, nessa linha de abordagem, é um continuum no tempo, uma continuidade permanente. Ao morrer alguém, algo se rompe na malha de relações que cada um criou. Estávamos enlaçados e, com a morte, o fio se rompeu. Por isso, falamos da morte como desenlace fatal. Com a nossa morte, o tecido que nós e outros fomos tricotando, se rompe, apesar  de todos os nós que demos. Nós são lugares de condensação, de agregados, como dizem os budistas, lugares onde nós mesmos nos amarramos com a intenção de ficar mais fortes, embora na realidade, nesses lugares, muitos fiquem constrangidos, imobilizados, complicados, enredados. 

Com a morte, todos os fios e nós são cortados. A morte desarticula
KRONOS
os tecidos, aquilo que estava unido se separa, anulando-se totalmente as forças de coesão. A morte é assim solutio, como nos dizem os alquimistas. O simbolismo das Moiras aponta para o caráter irredutível do destino. Impiedosamente, elas fiam e desfazem o que teceram o tempo todo. Por isso, muitos as representaram ao lado de Kronos. Elas são indiferentes e nos dizem claramente que a vida se alimenta da morte.  

O mito das Moiras ajuda-nos bastante a entender a razão pela qual os antigos  astrólogos consideraram a quarta casa de uma carta
ESCORPIÃO
astral como princípio e fim da existência, extraindo dessa visão a sua íntima e direta relação com a oitava casa, que tem analogia com o signo de Escorpião, governado por Plutão (regente diurno) e Marte (regente noturno). A quarta casa astrológica como se sabe é da Lua, cuja atividade no céu é em tudo semelhante à ação das Moiras, como o mito a descreve. 




ÁRTEMIS   ( VASO  GREGO )
Viver é seguir o curso da Lua, aparecer, mudar, minguar, desaparecer, retornar. Ou seja, a vida está sempre nos propondo uma série de desapegos, apesar do nosso esforço para construir alguma coisa. É neste sentido que a quarta casa astrológica pode dificultar enormemente as muitas “mortes” pelas quais teremos de passar enquanto vivermos. Quanto mais uma pessoa é chegada à sua família, ao seu abrigo, à sua gruta, à sua origem e fonte de nutrição, às tradições e atavismos familiares, mais ela estará influenciada por tudo o que estiver indicado pela sua quarta casa, astrologicamente falando.

A quarta casa astrológica nos revela onde e como uma pessoa vive, como ela é influenciada por aquilo que a cerca mais de perto, de que modo os seus sentimentos e os seus estados de ânimo lunares a prendem às suas origens. Apesar de termos caminhado em direção da sétima casa e de termos conseguido o nosso reconhecimento público pelas conquistas da casa dez, a quarta casa sempre nos afetará. A quarta casa é tão importante quanto o ascendente, embora seus efeitos sejam menos visíveis, sendo muitas vezes difícil perceber o quanto ela atua em nós. A quarta e a oitava casas são subterrâneas. Na primeira estão as nossas raízes, que, se saudáveis, nos ajudarão a manter a árvore de pé, ereta, frondosa. Na oitava casa, a quinta da quarta, está a nossa vida subconsciente. Que frutos colheremos na nossa oitava casa se a considerarmos, por derivação, como a quinta da quarta casa? A oitava é a casa onde uma união encontra a sua expressão mais profunda. Isto tem evidentemente a ver com o sexo, ou melhor, com o encontro do esperma com o óvulo. Nove meses mais tarde, na parte final da quarta casa (útero materno, fecundo ou não), já tocada a cúspide da quinta casa nascerá alguém...

Lembro que a astrologia praticada na Índia sempre põe em relação a sexta e a oitava casas astrológicas, já que os astrólogos hindus veem em ambas, dentre outras coisas, problemas relacionados com males físicos, destacando que na oitava encontramos a possibilidade da ocorrência de males mais duráveis, mais virulentos, inclusive males terminais. Já a sexta casa indicará males mais agudos, passageiros, que poderão se transformar em males crônicos se a casa doze estiver envolvida.

ÁTROPOS
Quando Átropos corta o nosso fio de vida (final da casa quatro), está sempre presente nesse momento, conforme a mitologia grega nos revela, Thanatos, o deus da morte. Filho de Nix, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, tido como profundamente sinistro, seu nome lembra extinção, dissipação, transformação, escuridão. Hesíodo nos diz que Thanatos possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte, marcando sua presença sempre ao lado de Átropos.

O nome Thanatos toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se dissipando, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto, (alma) se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente o contorno da sua forma física. Os gregos usavam também a palavra skia, sombra, para designar o morto. 

THANATOS
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviado sua alma ao Hades. Para Homero, a alma, ao se retirar do corpo físico, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo físico, em soma, um cadáver sem movimento.

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte poderia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas de um mundo diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também, para a maioria, talvez, a libertação dos sofrimentos e das preocupações.

Representado muitas vezes por uma nuvem escura, por uma bruma que envolvia o morto, a cabeça principalmente, Thanatos sempre deixou evidente para os gregos que morrer era cobrir-se de trevas, sendo o negro indiscutivelmente a sua cor. Como privação da luz, era, em última instância, o aspecto perecível e destrutivo da existência.

Embora raras, sempre podiam ser encontradas na antiguidade algumas representações do deus, uma carpideira vestida de negro
HYPNOS
com o rosto velado ou um ser humano carregando nas mãos um tocheiro voltado para o chão (a vida que se extingue) e junto dessas imagens algumas sementes de papoula a lembrar o sono eterno (Hypnos). Aliás, é de se lembrar que a palavra psiche, entre os gregos, era também usada para designar tanto a borboleta como os grãos da papoula.

A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores o viram como um anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs representariam a morte violenta.

ASFÓDELO
Não é possível a este altura deixar de lembrar que este aspecto amoroso de Thanatos foi captado magistralmente, como talvez ninguém o tenha feito antes, por Robert Altman em seu filme A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma famosa flor do Hades) ao anjo da morte (Virginia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, o sentido deste personagem, vendo-a apenas como uma “mulher má e perigosa”, não lhe dando a mínima importância.  Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o tom tanático que Altman imprimiu ao seu filme.



ROBERT   ALTMAN

O aspecto “amoroso” de Thanatos foi explorado principalmente
EROS
pela escultura do período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a imagem de Thanatos, transformando-o num belo efebo, numa espécie de Eros alado. 




CAMPOS   ELÍSEOS

Ao que parece, em tempos muito remotos as imagens de Eros e de
HERMES
Thanatos se confundiram. Psicopompo, literalmente o “transportador de almas”, como já se disse, Hermes conduzia as almas, na forma de eidola, ao Hades. Separando-se depois as duas imagens, a residência de Thanatos foi fixada no Hades. Desde então, seu nome, como aliás o de todas as divindades infernais, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, carregava uma foice nas mãos para lembrar aos humanos que eles poderiam ser ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.

As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muito estreitas como se sabe. As histórias de Eros e de Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço também, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem as suas raízes fincadas no mundo mítico. 

É a partir destas aproximações que desejamos destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, para a nossa chamada civilização ocidental, principalmente para a construída a partir dos fins do séc. XVIII. É dentro desse enfoque que podemos afirmar que Thanatos representa as forças da destruição nas suas mais variadas formas, presentes na dialética amor-ódio, criação-destruição, produção-consumo, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. Na máxima alquímica solve et coagula, Thanatos se confunde com a primeira operação, a solutio (dissolução).

A morte está sempre presente na constante luta entre tendências opostas na dinâmica universal. Thanatos se apresenta como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção, violência social, droga, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes são somente os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda a espécie, mas sobretudo o ser humano que atua na política, no tráfico de armas e de pessoas, na promoção de guerras, na produção industrial que envenena o meio ambiente, nos deletérios meios de comunicação, no mundo do dinheiro...

Uma das mais escandalosas e contundentes formas pela qual Thanatos se manifesta é a da autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente às forças internas (que estão dentro dele) e às externas (do mundo à sua volta), no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico. 

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de preservar e prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura jurídica para confirmar essa crença. Todavia, não é isto o que acontece quando se observa esta questão mais de perto. 

Descobrimos espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz da sua vida um
FREUD
inferno (onde temos Plutão no mapa), que se mata lenta ou rapidamente pela comida, pelo álcool, pelo trabalho, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece. Freud chamou esta tendência de “instinto da morte”. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo o ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o ser humano só muito temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como se sabe, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas, como instintivas que são, pela razão e pelo espírito. Para controlá-las, temos que ir além da razão, submetendo-as à desejável dimensão espiritual que precisamos desenvolver.

Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma importante
KIRON
figura mítica, o centauro Kiron, mestre dos heróis gregos: o instinto submetido ao racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só nos dois primeiros níveis (onde vive a maior parte da humanidade), as forças tanáticas acabarão sempre por prevalecer. Só teremos conflitos egoicos, disputas, guerras, destruição. Se nos concentrarmos no terceiro nível, o espiritual, trabalharemos muito mais em função do Todo, do mundo natural, da humanidade, do que procurando egoisticamente só as nossas vantagens.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será pois a de controlar na medida do possível o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam em nós destrutivamente. Uns matam-se mais rapidamente, alguns conseguem bem ou mal manter o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem.

Quanto ao que está acima, muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro para viver um pouco mais; outros retiram-no, mutilam-se (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros  aceitam a responsabilidade pela sua própria destruição, vivendo-a como destino; outros nunca pensaram em Thanatos; outros colaboraram com ele... Qualquer que seja a hipótese, o certo é que ele sempre estará nos esperando; nesse momento então será acrescentada ao nosso hyphen a outra data para que se feche a nossa vida na presença de Átropos, a Inflexível, e de Thanatos.  

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua hoje é a
COMPRAS
do consumismo, uma verdadeira praga, flagelo que a maioria confunde com felicidade (quanto mais consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), na programação do lazer, nas viagens, nos feriados e nos fins-de-semana. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, é mínima. 


Grande parte da humanidade não aceita a sua responsabilidade por se deixar envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre os outros, inventam desculpas (“afinal, a gente precisa se divertir”). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe, de um pai, de um chefe, de relações que “não deram certo porque ninguém me entende”.

O que se constata cada vez mais é que as formas de autodestruuição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode
DROGAS
ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno? As tendências autodestrutivas escondem e se manifestam muitas vezes sutilmente. Seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento antissocial provocativo, acintoso, por

automutilação em nome da moda, por certos tratamentos de beleza (dismorfismo), pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidente propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar constantemente sobre médicos, doenças, tratamentos, terapias, operações etc.).


domingo, 4 de janeiro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (1)



SISTEMA    SOLAR


Júpiter  é o maior planeta do sistema solar. Sua distância da Terra varia entre mais ou menos 600 milhões de km e cerca de 970 milhões de km. Apesar dessa grande distância, pode ser visto sem o auxílio de instrumentos óticos. Seu diâmetro é de aproximadamente 142 mil km (o do Sol é de 1.390.000 km e o da Terra cerca de 12.200 km).

Apesar de gigantesco, a densidade de Júpiter  é de apenas 24% da densidade da Terra, por ser constituído em grande parte de material gasoso. O ano de Júpiter equivale a doze anos nossos, ou seja, ele leva doze anos para fazer uma revolução em torno do Sol. Seu dia, porém, é o mais curto do que o de qualquer planeta, menos de doze horas terrestres. Imenso, gira em torno de seu eixo com uma velocidade de 47.100 km por hora.  

Júpiter dá início à série dos grandes planetas pesados, constituída por ele, Saturno, Urano e Netuno, todos se distinguindo por seu volume, por sua massa e por sua densidade. É o mais volumoso dos planetas do  sistema solar; de Mercúrio a Plutão todos caberiam dentro dele e ainda sobraria algum espaço. É o primeiro dos chamados planetas pesados, isto é, de marcha lenta se o compararmos com os mais rápidos, Mercúrio, Vênus e Marte. Do ponto de vista astrológico, estes três últimos, mais os luminares, são astros que dizem respeito à vida pessoal do ser humano enquanto Júpiter e Saturno relacionam-se com a sua vida social e os transaturninos (Urano, Netuno e Plutão), também chamados transpessoais, invisíveis a olho nu, têm a ver com fatores psíquicos, com a vida inconsciente.

Júpiter ocupa um lugar central com relação aos planetas que orbitam em torno do Sol. Antes dele, temos Mercúrio, Vênus (chamados planetas interiores), mais Terra e Marte; depois de Júpiter, o mesmo número de corpos celestes, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. É devido a esta posição central que Júpiter representa o princípio do equilíbrio, da autoridade, da ordem, da estabilidade e do progresso. É pela mesma razão que Júpiter representa os preliminares da iniciação e que, na antiguidade, imperava sobre sobre as leis, a medicina e a religião, que se nutriam da Tradição.


CONSTELAÇÃO    DE    SAGITÁRIO

Simbolicamente, Júpiter sempre significou legalidade social, abundância, riqueza, otimismo, expansão, confiança. Como planeta regente das constelações de Sagitário e de Peixes, tem, respectivamente, ligação com ideias de justiça e de compaixão ativa. No organismo humano, se mostra através da circulação (a química do sangue, especialmente), os quadris, o coxo-femural e o fígado.  


CONSTELAÇÃO    DE    PEIXES

No mundo mesopotâmico, quem reinava absoluto sobre todos os planetas  era o deus  Marduk, cuja descrição pode ser encontrada na
quinta tablita da Epopeia de Gilgamés: Ele construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


MESOPOTÂMIA     -     BABILÔNIA

APSU
Quando a Babilônia se tornou a cidade principal da Mesopotâmia, submetendo todas as demais, Marduk, de uma divindade local, menor, foi levado à condição de divindade superior. Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa Casa da Água, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza.


MARDUK

Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da Terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


TIAMAT

Da união dos dois princípios, nasceram os grandes deuses: Anu, Bel e Ea, além de outras divindades menores. Instigadas por Tiamat, algumas divindades começaram a perturbar a vida cósmica, especialmente a Terra. Anshar convocou então Marduk, seu filho querido, e o exortou a combater Tiamat. Marduk aceitou, mas exigiu, numa assembleia divina, que lhe fosse dada a autoridade suprema, absoluta. 

Anu, o poderoso, reinava nos espaços celestes e jamais os abandonava. Quando saía de sua imobilidade majestosa, dava apenas um passeio por uma parte do céu, que lhe era exclusiva. Apesar de sua supremacia, não se misturava com as coisas terrestres. Não se envolvia na luta contra Tiamat, deixando nas mãos de Marduk a solução do problema. Vivia majestosamente em companhia da deusa Antu, interessando-se só pelas questões universais.

Bel era diferente, envolvia-se muito com as questões terrestres. Quando a Babilônia se impôs às demais cidades do país, Bel assumiu as atribuições do deus Enlil, então senhor da atmosfera, divindade das tempestades, cuja principal arma era o amaru, o dilúvio. Tornou-se Bel o grande dispensador dos bens e dos males. Podia tudo, destruir os homens ou salvá-los, inclusive intervir na terra para libertá-la dos monstros que a atacavam. 

POSEIDON
Ea é nome que significa casa da água, sendo possível associá-lo ao Poseidon dos gregos. Seu domínio era o Apsu, e sua forma a de uma espécie de serpente líquida que envolvia a terra, no que lembrava o deus grego Oceano. As fontes e os rios eram dele. Governava os oráculos. Envolvia-se nos trabalhos humanos, sendo o patrono dos carpinteiros, dos construtores que trabalhavam pedras e dos metalúrgicos.

Marduk era o filho mais velho de Ea, saído diretamente do Apsu, personificando na origem a ação fecundante das águas, fazendo crescer as plantações, tendo o caráter de uma divindade agrária. Seu emblema era a enxada. Tornando-se a Babilônia, sua cidade de eleição, o centro da vida política da Mesopotâmia, assumiu o lugar mais elevado no panteão do país. 

A plenitude divina era dele e nela se incluíam, além de suas atribuições originais, mais as seguintes características e  funções: 1) a luz do pai que o engendrou; 2) a renovação da ordem divina; 3) o poder dos encantamentos, sendo-lhe possível trazer os mortos à vida; 4) o conhecimento do coração dos deuses; 5) a guarda da Justiça e do Direito; 6) a criação de todas coisas; 7) o poder sobre todos os reis; 8) a ascendência sobre todos os deuses.

Assim, Marduk absorveu todas as atribuições dos demais deuses, fixando-os nos seus domínios, reorganizou o universo e estabeleceu o curso dos astros. Além disso, criou o ser humano a partir do seu sangue, tornando-se o dono das artes da cura, uma espécie de grande-xamã, e patrono de todos os encantamentos mágicos. 


SHAMASH
As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukkus, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor e da guerra) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukkus chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga e enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz.


ISHTAR


SARPANIT
Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit.  



MARDUK    E    TIAMAT


NERGAL

Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, Fortuna Maior

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

AMON - RÁ
Para os egípcios, Júpiter era Amon-Rá, grande divindade, conhecida como o rei dos deuses, muito semelhante ao Zeus grego. Praticamente desconhecido no período do antigo império, antes de 2000 aC, Amon assume uma proeminente posição a partir dos primeiros séculos do médio império. Seu nome provém de uma raiz que significa o escondido. Sua promoção ocorre dentro do sistema cosmogônico de Hermópolis, que tinha em Toth a sua principal divindade. 

AMON
Amon tornou-se aos poucos a divindade suprema do país, já unificado, sendo Tebas a cidade de onde se irradiava todo o seu culto. Aparecia comumente antropomorfizado, com uma cabeça de bronze, coberta com uma espécie de gorro alto em forma de torre, no qual se fixavam duas penas, a simbolizar a união do alto Egito com o baixo Egito. Majestoso no seu trono ou em pé, carregava nas mãos quase sempre um chicote. Muito comum também era a sua representação  com uma cabeça de carneiro, viva encarnação do deus, à qual se juntava simbolicamente um  ganso, seu animal sagrado. 




GANSOS  -  PINTURA   TUMULAR  EGÍPCIA
Quanto ao ganso, registre-se que ele, ao lado do pato e do cisne, faz parte, em antigas tradições mitológicas, de um grupo de aves aquáticas inimigas das trevas. No antigo Egito, a alma do faraó defunto era representada por uma gansa enquanto a designação do novo era anunciada por quatro dessas aves, soltas, lançadas na direção dos quatro cantos do horizonte.   


AMON   ITIFÁLICO

A associação do carneiro a Amon revelava que era dele a força genésica que punha em movimento os ciclos vitais como também o comando de todos os exércitos e das operações militares. Força produtora e geradora, Amon, numa forma itifálica e vegetal, era considerado como o marido de sua mãe (natureza) e, como tal, aquele que mantinha a vida no seu processo criativo. 

A partir do médio império, entre 2133 aC e 1786 aC, Amon tornou-se o grande protetor de todos os faraós do período, durante o qual a centralização do poder político coincidiu com a instauração do monoteísmo religioso, modelo que serviria mais tarde de inspiração para o monoteísmo judaico. 

Tornando-se a grande divindade nacional, Amon começou a ser chamado de Amon-Rá. A classe sacerdotal, como sempre afinada com o poder político do país, manobrou sutilmente para que Amon absorvesse as atribuições de uma antiga divindade solar, Rá, que tinha o título de criador, mestre do céu, cujo santuário ficava na cidade que os gregos chamaram de Heliópolis. Assim, foi sob o nome de Amon-Rá que a nova divindade, nas imagens das tumbas reais, apossou-se da barca do Sol e passou a iluminar o mundo inferior durante as doze horas da noite. 


AMENOPHIS III
Glorioso e onipotente durante alguns séculos, Amon-Rá começou a perder prestígio lá pelo fim do reinado de Amenophis III, ao final do séc. XV aC, quando uma nova divindade começou a se impor, Aton (o disco solar que dá origem ao dia), filho de Amon-Rá e da rainha-mãe, mulher de Thutemosis IV. Quem deu grande impulso ao novo culto foi Amenophis III (etimologicamente, Amon está satisfeito), que adotou um novo nome, Akhenaton (a glória de Aton). 

O reinado do deus Aton durou pouco, entretanto, restaurando-se o poder de Amon pelos faraós da décima nona dinastia. Incorporado
ATON
definitivamente o nome de Rá ao seu, Amon teve o seu prestígio ainda mais aumentado. Durante o império de Ramsés III, um inventário dos bens do deus nos informa que ele possuía, dentre outros itens de riqueza, mais de oitenta mil escravos e mais de quatrocentas mil cabeças de gado. Os sacerdotes de Amon eram escolhidos entre os mais poderosos senhores do país, que logo estabeleceram um sistema hereditário com relação ao poder religioso e à administração dos bens do deus. Com isso, se formou uma espécie de estado teocrático, exercendo o deus o seu poder por oráculos e por uma extensa rede burocrática de caráter administrativo-religioso que tinha como figura principal o faraó. O poder do renovado Amon se estendeu às tribos do deserto, os beduínos, criando-se inclusive muitos centros religiosos para o atendimento do grande número de peregrinos que continuamente afluíam ao país para reverenciar o deus. 


No médio império, toda a vida do país estava impregnada fortemente de religião. Não havia uma separação entre a esfera do religioso e do político, do Estado. Deificado o governante, os assuntos civis e religiosos se processavam em conjunto. Nesse mundo, porém, era possível distinguir algumas subdivisões do poder, uma administração civil, centralizada na figura de um vizir, uma administração dos templos, nas mãos dos sumos sacerdotes, e um exército profissional, que se tornou progressivamente forte em períodos em que o Egito expandiu o seu império, como aconteceu no médio império.

A proeminência de Amon coincidiu com a supressão dos privilégios feudais, com a realização de grandes obras de irrigação, com a ativa exploração das minas de cobre do Sinai e a construção de postos avançados no sul, até a terceira catarata do Nilo. Culturalmente, o chamado período Amon foi de esplendor, dando-se muita ênfase à arte do retrato, à literatura clássica e à construção de templos e de esculturas em escala colossal.

Não podemos esquecer, quando tentamos buscar no Egito as relações entre a religião (mitologia) e a astrologia, que o calendário egípcio foi estabelecido por e para agricultores. Fato importantíssimo nesse cenário era o da inundação do rio Nilo, que se estendia por cerca de um terço do ano. As outras duas partes, sensivelmente iguais, eram a germinação dos vegetais (cereais) e a sua colheita. Tínhamos assim no Egito três estações de quatro meses cada, muito bem demarcadas, de 120 dias cada uma. Akhit era o nome do período da cheia do Nilo; perit, o da germinação dos vegetais; e chemu, a colheita. Muito antes do início da quarta dinastia, o ano egípcio já contava com 365 dias. 


CANIS   MAJOR

Como o início da cheia do Nilo não tinha uma data fixada para começar, foi procurado um ponto de observação o mais estável possível. Esse ponto de observação foi o aparecimento da estrela Sírius (Sothis em grego e Sepedet, em egípcio), que passou a marcar o início do ano. Sírius, como se sabe, é a estrela alfa da constelação do Canis Major, atualmente a 13º24´ de Câncer. Lembro que Ptolomeu afirmava que as influências dessa estrela se assemelhavam às de Júpiter, com um leve toque marciano. Sírius é a estrela mais brilhante do céu depois do Sol; era chamada pelo egípcios de a que seca e queima, a brilhante ou a estrela do Nilo. O Nilo e a sua cheia sempre foram associados a Osíris e Ísis em sua eterna luta contra a desertificação, representada por Seth ou Apófis.


ÍSIS   E   OSÍRIS

Os egípcios sempre observaram os céus com muito interesse. Já distinguiam perfeitamente as estrelas que faziam parte das constelações circumpolares, chamando-as de indestrutíveis porque sempre visíveis. Davam o nome de infatigáveis aos planetas e às estrelas que nem sempre eram permanentemente visíveis. Escolheram 36 estrelas que passaram a presidir as 36 partes do ciclo anual celeste, de dez graus cada uma. No Médio Império foram estabelecidos quadros divididos em 36 colunas verticais e 12 registros horizontais, sendo-lhes possível trabalhar assim com os decanatos.


ASCLÉPIO
A tradição fala de Imhotep, um arquiteto, vizir do faraó Djoser, grande sacerdote de Heliópolis, construtor em Saqqara da primeira pirâmide em degraus, como o pai do calendário egípcio, por ele fixado em 2780 aC. Médico e sábio também, depois de sua morte Imhotep passou a ser venerado como um filho do deus Ptah. Os gregos o associaram à imagem de Asclépio, filho de Apolo, deus médico de Epidauro. 

Parêntese: o cinema americano, num filme, classificado como de terror, intitulado A Múmia, realizado em 1932, dirigido por Karl Freund, com Boris Karloff no papel título, trouxe de volta para nós  a história de Imhotep, cuja múmia, no filme, volta acidentalmente à vida depois de 3.700 anos. O sacerdote-arquiteto fora embalsamado vivo por haver tentado reviver a mulher que amava, após ela ter sido sacrificada. No século XX, o cinema promoveu o encontro deles.

Foi certamente com base no calendário de Imhotep que se procedeu, para fins astrológicos, à fusão da nova divindade do Médio Império, o todo-poderoso Amon, simbolizado nos céus pelo planeta Júpiter, com Rá, antiga divindade, cujo símbolo era o Sol. Na cidade de Denderah, no alto-Egito, perto de Luksor, às margens do Nilo, hoje um sítio arqueológico, descobriu-se há muito uma das mais antigas representações do zodíaco, pintada no teto do templo de Hathor  


HATHOR
Hathor era uma grande divindade celeste, representada por uma vaca, seu animal sagrado, sendo considerada como filha de Ra. A deusa gostava de tomar a forma de um sistro, instrumento de percussão, usado para afastar os maus espíritos. A forma desse instrumento musical foi usada pelos arquitetos para a construção do templo da deusa em Denderah. Protetora das mulheres, deusa do amor, da alegria de viver, soberana da dança, quando os gregos chegaram ao Egito associaram a deusa à sua Afrodite. 

Através do seu animal sagrado, ela saciava a fome da humanidade. Era Hathor conhecida também como a Senhora do Sicomoro; esta árvore, sagrada, muito encontrada nas zonas que faziam a transição dos terrenos férteis para os desérticos, servia de proteção para as almas dos mortos que, tomando a forma de pássaros, vinham se acomodar nos seus galhos. A sombra de sua copa e o macio de sua ramagem eram garantia de acolhimento seguro no Outro Lado. Hathor pontificava no santuário de Denderah em companhia de seu marido, o grande Hórus, que aqui lhe dava precedência; junto deles estava sempre, a agitar o sistro, o filho de ambos, Ehi, na forma de uma criança.  


SANTUÁRIO   DE   DENDERAH

Produzido pela divisão dos céus em doze partes de 30º cada uma, e cada uma delas entregue a uma divindade, o zodíaco de Denderah tem seu ponto de partida no signo de Rá, ou melhor, de Amon-Rá, que se estende de 16 de julho a 15 de agosto no nosso calendário, sendo seu regente o Sol (jupiterizado). Características mais ou menos semelhantes às do signo de Leão do nosso zodíaco, com algumas contribuições arianas e jupiterianas. Presentes sempre ideias de determinação, criatividade, habilidade para a superação de dificuldades, renascimento, combatividade, além de atitudes impositivas e dificuldades para lidar com rejeições.

A deusa que governa o segundo signo, correspondente ao de Virgem (16/8 a 15/9), é Neith, divindade que os gregos associavam
NEITH
a Palas Athena. Neith era protetora da cidade de Sais, no delta do Nilo, com o seu emblema de duas flechas cruzadas sobre a pele de um animal, sendo por isso considerada uma divindade ligada à caça. A arte de tecer bem como as atividades domésticas estavam sob a sua tutela. Era também divindade protetora dos mortos que chegavam ao Outro Mundo, recebendo-os com pão e água. Neith pontificava num famoso templo em Sais (capital do Egito sob o reinado de Psamético I, fundador da XXVI dinastia, em meados do séc. VII aC) junto do qual havia uma escola de medicina, Casa da Vida, que recebia alunos de várias partes do mundo antigo. 



MAAT

A deusa que governava o signo que corresponde ao de Libra (16/9 a 15/10) no nosso zodíaco era Maat, deusa da justiça e da verdade. Seu símbolo eram as penas do avestruz (absolutamente iguais), emblema da equidade. Era filha querida e confidente de Rá, mulher de Thot. Fazia parte do cortejo de Osíris e atuava na psicostasia, juntamente com Osíris, Thot, Anúbis, Amamet, o monstro devorador, e os quarenta e dois juízes. Tolerância, convivência harmoniosa e aconselhamento fazem parte da vida dos nascidos sob a proteção de Maat. Sempre presentes, porém,  riscos de indecisão e de insegurança. 


OSÍRIS
Osiris governava o signo que corresponde ao de Escorpião (16/10 a 15/11) no nosso zodíaco. Foi em vida o primeiro faraó do Egito. Ao levar a sua proposta político-religiosa para o mundo, tendo deixado o poder interinamente nas mãos de sua mulher, Ísis, foi assassinado por seu irmão, o monstruoso Seth. Despedaçado, seu corpo foi depois recomposto pelas artes de sua mulher e do deus Toth. Deixando então o mundo dos vivos, Osíris desceu aos Infernos para se tornar o deus da ressurreição dos mortos, no que lembra muito os deuses Shiva e Dioniso. Os do signo são de temperamento forte, extremistas muitas vezes, principalmente quando contrariados. Sensualidade e persistência são comuns, juntamente com atitudes destrutivas.   
   
Hathor dominava o signo (16/11 a 15/12) que corresponde no nosso zodíaco a Sagitário. Além do que já se disse sobre a deusa, acrescente-se que ela, na astrologia, atuava nos domínios da arte, do conhecimento superior e das viagens. As pessoas protegidas por ela são exuberantes, mas podem se perder devido a exageros e à sua excessiva boa-fé e otimismo. 

ANUBIS
Anúbis, o guardião dos mortos, dominava o signo correspondente a Capricórnio no nosso zodíaco, entre 16/12 a 15/1. Os gregos o identificavam como Hermes psicopompo. Era representado sob a forma de um chacal negro; sua cidade era chamada pelos gregos de Cynopolis. Tinha a ver com os embalsamamentos e com as preces funerárias. Sua atividade dependia muito da balança da verdade. Pessoas tocadas pelo deus são perseverantes, buscam a realização sob o ponto de vista material, no geral, porém, demorada. Gostam muitas vezes de assumir o papel de juízes, tornando-se muitas vezes implacáveis neste papel.


BASTET
A deusa-gata Bastet dominava o signo correspondente a Aquário no nosso zodíaco, entre 16/1 a 15/2. Personificava o calor fecundante do Sol, era considerada como esposa e irmã de Rá. Suas festas envolviam multidões, sempre com muita música e dança, nelas se consumindo muito vinho. Era protetora natural das grandes causas. As pessoas tocadas por ela costumam apresentar um comportamento às vezes inexplicável, como o do felino símbolo do signo.

O signo que corresponde ao de Peixes no nosso zodíaco é dominado pela deusa Taueret (16/2 a 15/3), deusa da fertilidade,
TAUERET
também chamada de Thueris, A Grande, muito popular, relacionada com a maternidade e o aleitamento. Era representada por uma mulher-hipopótamo, com seios pendentes, ereta, apoiada sobre as patas traseiras, e tendo diante dela o hieróglifo da proteção. Adorada especialmente em Tebas, pelas classes média e baixa da sociedade, que costumavam dar seu nome às crianças do sexo feminino e ornar as suas casas com imagens da deusa. Além de muito protetora, compassiva, generosa; algumas pessoas tocadas por ela podiam apresentar dons mediúnicos. Às vezes, Thueris, a par de suas tendências protetoras, mostrava-se, quando não honrada devidamente, muito irritada, até vingativa, afetando desta maneira aqueles atingidos por seus raios.



SEKHMET
Sekhmet era a deusa da guerra. Seu céu correspondia ao do signo de Áries (16/3 a 15/4) no nosso zodíaco. Representada normalmente por uma leoa ou por uma mulher com a cabeça do animal. Seu nome significa A Poderosa. Lançou-se furiosamente contra todos aqueles que se opuseram a Rá, a ponto deste, temendo um extermínio catastrófico, ter que intervir, pedindo-lhe mais calma. Para contê-la, por sugestão do próprio Rá, os humanos instituíram uma festa, sendo a ela oferecidos milhares de tonéis de cerveja, à qual se adicionava suco de romã para torná-la avermelhada, lembrando o sangue, sorvida a bebida com muita avidez pela deusa. A seu culto se ligavam os especialistas em todos os tipos de fraturas.As pessoas tocadas pela deusa são naturalmente enérgicas, autoritárias e intolerantes.

PTAH
Cabia a Ptah o céu de Touro no nosso zodíaco (16/4 a 15/5). Protetor dos artesãos e dos artistas, os gregos o identificaram como o seu Hefesto. Inventor das artes, metalúrgico, grande construtor, Ptah era honrado num dos mais antigos templos egípcios, em Mênfis. Algumas vezes era representado por um anão de pernas tortas, como agente transformador dos recursos naturais. Perseverante, paciente, Ptah protegia os que buscavam segurança e conforto sob o ponto de vista material. 


TOTH
Toth era o dono do signo que correspondia ao de Gêmeos no nosso zodíaco (16/5 a 15/6). Escriba divino, deus da inteligência, como o Hermes grego, era conhecido como deus Djeuthi (Djeuth era o nome do baixo-Egito), divindade lunar, inventor dos hieróglifos. Sua cidade era Hermópolis Parva, depois transferida para o alto-Egito com o nome de Hermópolis Magna. Era comumente representado por um ibis ou às vezes na forma de um macaco. Patrono da história, anunciava o nome dos futuros faraós. Protegia os que viviam da atividade mental e aqueles que se valiam das mãos para a execução de trabalhos. 

ÍSIS

A mais importante das divindades egípcias, Isis, era dona do espaço celeste que correspondia ao nosso signo de Câncer. Identificada pelos gregos ora como Hera, como Deméter, como Selene e até como Afrodite. Seu culto e sua religião de mistério (morte e renascimento) não cessou de se desenvolver ao longo da história do Egito. Grande mãe, maga, protetora, sua adoração estendeu-se até os primeiros séculos do cristianismo. Os tocados por ela são tranquilos, gostam do conforto familiar, possuindo naturalmente o instinto maternal.