Mostrando postagens com marcador MAKARA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MAKARA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PEIXES (1)

                  
CONSTELAÇÃO    DE   PEIXES

O peixe, em todas as tradições, sempre foi considerado como um símbolo da água. Seu corpo não se compõe de partes distintas, é um todo no qual tudo se une, ao contrário do ser humano e da maior parte de outros animais. Por essa razão, como a água, o peixe sempre foi visto como um símbolo da indiferenciação, uma totalidade indistinta. 

TALES
Já em virtude de sua excepcional prolificidade e da grande abundância de suas ovas, o peixe e a água se unem simbolicamente na medida em que têm relação com ideias de origem, de lugar de nascimento e de fecundidade.  O primeiro filósofo da primeira escola da filosofia grega, surgida na Jônia, séc. VII aC., Tales, considerava a água como o princípio de todas as coisas. Para ele, a água era


o que não tinha princípio, sendo uma força animada, ativa, dela tudo derivando. A multiplicidade das coisas, para ele, tinha sua profunda unidade neste princípio, animado e animador, eterno.  Anaximandro, outro filósofo grego desse período, registrou que alguns povos da Ásia Menor proibiam o consumo da carne de peixe, já que ele era considerado um ancestral da raça humana.

TIRÉSIAS
Oportuno também é lembrar que os peixes, em muitas culturas, sempre apareceram associados à sabedoria e à adivinhação. O mais famoso dos videntes gregos, o cego Tirésias, recorria muito à prática da ictiomancia, uma forma de adivinhação baseada no movimento dos peixes dentro da água. Famosos, no mundo grego, eram os peixes de um enorme tanque que havia no santuário de Apolo,
DELFOS
em Delfos, deus da mântica profética; segundo se afirmava, eles tinham o dom da profecia. Apuleio, “aquele que queria descobrir o segredo de todas as coisas”, do séc. II dC, escritor neoplatônico latino, dentre outras acusações que lhe foram feitas, estava a de ter consultado os peixes de Apolo para obter informações que o ajudassem a ficar com o dinheiro de uma rica viúva que com ele se engraçara.

Por viver no elemento líquido, símbolo do inconsciente, sempre se propagou desde a antiguidade,  que os peixes davam corpo aos conteúdos “vivos” das camadas mais profundas da personalidade do homem, conteúdos estes associados à ideia de fecundidade e de forças vitais interiores. É por isso que nos sonhos o peixe é também visto como um intermediário entre as camadas profundas do psiquismo e um aspecto do inconsciente tornado acessível. Os grandes peixes, como a baleia, podem ser vistos, nesta perspectiva, por outro lado, como possibilidade de risco de devoração das forças conscientes pelas energias profundamente introjetadas no inconsciente.

PIA  BATISMAL
O simbolismo do peixe é inseparável do da água, evocando a ideia de renascimento como um acontecimento cósmico (renovação anual da natureza, fim do inverno, início da primavera), cuja simbologia, por isso, foi estendida à vida religiosa e psicológica. Associado ao renascimento, o peixe é nas religiões um símbolo do batismo (palavra que, em grego, traduz uma ideia de mergulho). É por essa razão que os primeiros cristãos atribuíam às virtudes das águas das pias batismais à ação invisível de Cristo, fazendo-se do peixe, habitante das águas, o símbolo deste sacramento. Fizeram os primeiros cristãos também do peixe, gravando sua imagem nas pedras, o símbolo do Salvador oferecendo-se como alimento aos seus fiéis.


VARUNA
Na Índia, o peixe é montaria do deus Varuna, aquele que tudo envolve, deus das vastidões do céu noturno e dos oceanos. Varuna monta monstros marinhos como Makara, um claro indício de que seu poder se estende a todas as formas e estruturas. Makara, como monstro marinho, uma espécie de crocodilo, símbolo do signo de Capricórnio, simboliza a ambição, representada aqui pela voracidade da sua mordida. Predador, Makara é anfíbio, sendo monstro em dois elementos, na água e
MAKARA
na terra. Apesar de todo o seu poder, Makara tem que se submeter a Vishnu; é a  montaria (vahana) deste deus. Vishnu, como encarnação da própria lei divina (2ª pessoa da trindade hinduísta), nos lembra que tudo o que toma forma, por mais resistente que seja, está destinado, cedo ou tarde, à dissolução. Varuna é particularmente venerado no período das secas; usa uma armadura dourada e leva nas mãos uma rede, símbolo dos pescadores, no que se parece muito com o Poseidon dos gregos.


PEIXES ,  ILUSTRAÇÃO  INDIANA 

Na astrologia hindu, Mina (peixe, em sânscrito) é o nome do signo, cosmologicamente relacionado com o akasha (éter para os gregos), o quinto elemento na filosofia hindu. No início da criação só existe o akasha, a existência onipresente que tudo impregna. No início da criação só existe ele, ao final só ele também, o que nos lembra muito o signo zodiacal de Peixes, ao mesmo tempo fim do inverno e início da primavera. Tudo que tem uma forma, tudo que é produto de uma combinação provém dele, do éter, a substância indiferenciada. É o akasha que se torna ar, que se transforma em líquido, que se torna fogo e terra. O akasha e os outros quatro elementos que são formados a partir dele constituem os chamados mahabhutas, os cinco elementos. É o akasha que se torna Sol, planetas, estrelas, que se torna corpo humano, animal, vegetal, mineral, que se torna tudo que tem uma forma, perceptível ou não. No início da criação só existe ele; ao fim dos ciclos dos sólidos, líquidos e gases tudo volta a ele.

ÁGUAS   PRIMORDIAIS
Não será preciso muito esforço para perceber uma analogia entre o signo de Peixes e a imagem das águas primordiais como as encontramos em várias tradições míticas e religiosas. Nessas tradições, a egípcia e a hinduísta, por exemplo, o nascimento da vida e da terra era concebido como uma emersão que ocorria no elemento líquido, uma imagem muito rica nelas. A vida nascente, para os egípcios,  era representada por montículos de terra que afloravam à superfície das águas quando da vazante do rio Nilo. Os hindus nos falavam do aparecimento do lótus  como um símbolo da primeira manifestação de vida sobre a superfície das águas. 

Os hindus sempre associaram o peixe às renovações cíclicas. Foi por essa razão que o primeiro avatar do deus Vishnu, 2ª pessoa da trindade hinduísta, é Matsya, o peixe, que veio para salvar Manu, o homem mítico, do dilúvio. Manu é o progenitor da raça humana do presente ciclo (manvantara).  Foram o
MATSYA   E   MANU
s hindus, ao que parece, os primeiros a associar a imagem do peixe à ideia da salvação, pois segundo os Vedas, foi Matsya quem revelou também a Manu a ciência sagrada dos Vedas. Uma ideia semelhante à que aparece no cristianismo, onde Cristo é representado muitas vezes como um pescador, sendo os cristãos, os peixes, salvos da imensidão oceânica, e depois mergulhados nas águas santificadas do batismo, agora o seu elemento natural e instrumento de sua regeneração. A mesma ideia aparece, ainda no Budismo, quando o boddhisttava Avalokiteshvara diz ter obtido a revelação do Yoga depois de ter se transformado num peixe. 


TOHU-BOHU , C.1645
( ANTOINE SOMMAVILLE )
O signo de Peixes, como se sabe, situado antes do equinócio da primavera, é um signo mutável, lembrando características de inconsistência, de extrema receptividade, de dissolução, uma massa movente e anônima, onde tudo aparece misturado e nada tem forma. É neste sentido que o signo sempre apareceu associado às catástrofes renovadoras que ciclicamente trazem a renovação da vida. Estas catástrofes aparecem em todas as tradições. Dentre as mais notáveis temos o Apocalipse (tradição cristã), o Tohu-Bohu, o Dilúvio e o Dia do Juízo (tradição judaica), Ragnarok (tradição escandinavo-germânica), Saltstraumen (tradição escandinava), Pralaya (tradição hinduísta) etc.


JUÍZO  FINAL , C. 1435  ( STEFAN  LOCHMER )

O Apocalipse, palavra grega, quer dizer revelação, ou seja, ação inversa (apo) de esconder ou velar (kalyptein). Exegetas cristãos e protestantes atribuem sua autoria a João, o mesmo autor do Evangelho Segundo João. Ele teria recebido a mensagem divina quando, conforme narrou, numa gruta da ilha de Patmos, arrebatado em espírito, ouviu do Senhor as espantosas revelações sobre o final dos tempos (Juízo Final), interpretadas de diversas maneiras por vários segmentos cristãos. A humanidade seria dividida entre santos (aqueles que aceitaram Jesus Cristo como Messias) e pecadores, que se negaram a aceitá-lo. O Juízo Final trará o Céu para os santos e o Inferno para os pecadores. Satanás e seus anjos (demônios) seriam então lançados ao fogo. Algumas tradições
MAÇONARIA
esotéricas e místicas como a Gnose, o Rosacrucianismo e a Maçonaria trabalham com a ideia de que o Apocalipse deve ser considerado segundo a sua linguagem simbólica, apontando o seu texto para processos de transformação pelos quais os homens devem passar para atingir a plenitude do seu ser e a união com o divino. Na Maçonaria, há graus de transmissão do conhecimento desse simbolismo, de modo especial os graus 17 (graus capitulares – Cavaleiro do Oriente e do Ocidente), 19 (graus filosóficos – Grande Pontífice ou Sublime Escocês) e 22 (graus filosóficos – Cavaleiro do Real Machado ou Príncipe do Líbano).

O Tohu-Bohu (inculto e deserto, em hebraico, numa tradução, e desordem e vazio, noutra), segundo o Gênese, seria o estado caótico primordial da Terra quando ela estava deserta e vazia. Estes termos são encontrados em Jeremias e Isaías, em ambos significando destruição e desolação. Algumas tradições consideram que a expressão designa uma situação anárquica, que precede a manifestação de qualquer forma. Tomou depois o sentido de desordem e caos, inclusive no sentido psicológico, indicando regressão e loucura no processo de individuação. 


O   DILÚVIO  ( LÉON  COMERRE , 1859 - 1955 )

O Dilúvio (Mabul, em hebraico), como se sabe, ocorreu no tempo de Noé e causou a destruição da vida humana e animal, durando quarenta dias e quarenta noites. O modelo judaico é uma evidente transposição de tema semelhante encontrado na epopeia mesopotâmica de Gilgamés. O Dilúvio, entre os judeus, foi uma inundação cataclismática de toda a superfície terrestre. A palavra passou a significar chuva muito abundante, torrencial e demorada, que alaga vastas extensões de terra. Dilúvio vem do verbo latino diluo, desagregar, dissolver, dissipar. O Dia do Juízo (iom ha-din, em hebraico) ocorrerá no final dos dias, no tempo do Messias, quando tiver lugar a ressurreição dos mortos, todos, judeus ou não, chamados ao julgamento divino pelo som do grande shofar. O dia do juízo final será apavorante, escuro, com tempestades e grandes incêndios.


JUÍZO  FINAL, C.1535 ( MICHELANGELO  BUONARROTI )

Os escandinavo-germânicos não acreditavam na eternidade do mundo e muito menos na dos deuses e dos humanos. Como os humanos, os deuses tinham que lutar constantemente contra inimigos invejosos e astutos. Apesar de todas as virtudes que possuíam e da sua grande habilidade guerreira, os deuses tinham que
EDDAS
sucumbir ao ataque dos seus inimigos, os grandes monstros. O universo, que eles sustentavam e protegiam, seria destruído juntamente com eles. Esta gigantesca catástrofe é contada num grande poema, Voluspa, que faz parte de um conjunto chamado Eddas. O nome desta catástrofe é Ragnarok, ou seja, o destino fatal, o fim dos deuses. 

Segundo o mito, a serpente Midgard, identificada com o próprio oceano, mais antiga que os próprios deuses, é a dona das águas primordiais, rodeando toda a terra. Um dia, porque os deuses não cumprem o prometido de dar felicidade à humanidade, ela, enigmática e imprevisível, em cólera, sairá das profundezas
BALDER
oceânicas para, com toda a sua fúria, destruir tudo, inclusive os deuses. Conjugado com o fogo, o mar cobrirá tudo. Os monstros, o lobo Fenris, o cão Garm, os gigantes e os anões, até então contidos pelos deuses, se libertarão, mergulhando a Terra numa grande convulsão. Os deuses serão derrotados. Depois de tudo destruído, então, o mundo renascerá para uma nova idade do ouro, guiada pelo deus Balder (deus da luz, da justiça e da beleza), ressuscitado. 




Os escandinavos puseram em circulação o nome Saltstraument para designar um enorme remoinho de água de tremendo potencial destrutivo. Uma variante deste fenômeno, um pouco menos destrutiva, é o Maelstrom, palavra posta em circulação por Edgar Allan Poe no seu conto A Descida num Maelstrom (1841). Jules Verne foi outro que usou a palavra, em 20.000 Léguas Submarinas, contando-nos ele que o capitão Nemo entrou num Maelstrom com o seu submarino Nautilus. Os latinos, lembro, davam o nome de vertex (vortex) a um imenso turbilhão de água ou de ar, gerador de uma força violentíssima, irresistível. Na filosofia cartesiana, vertex é um rapidíssimo movimento rotatório de matéria cósmica em torno de um centro, para dentro do qual tudo é sugado.

ILUSTRAÇÃO
Indo mais ao passado, recordemos que Homero, na Odisseia, nos fala que Ulisses, ao atravessar o estreito de Messina, entre a Itália e a Sicília, se viu diante de dois monstros, Cila e Caribdes, a primeira filha do deus marinho Forcis e a segunda de Geia e de Poseidon. Cila era um dragão com seis cabeças, com cães furiosos em torno do corpo, e devorava tudo o que passasse pelo estreito. A outra, também voracíssima, cujo nome se liga à mesma etimologia do da parceira, absorvia e vomitava diariamente enormes quantidades de água.

Cila e Caribdes, na realidade, eram dois sorvedouros que todos os marinheiros do Mediterrâneo conheciam, circulando entre os homens do mar, como provérbio, a seguinte frase: Sair de Caribdes, cair em Cila.  Guardavam os dois monstros uma travessia estreita, fazendo ela parte do simbolismo dos lugares de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido. Cila e Caribdes, para o homem mediterrâneo, configuravam uma situação de escolha entre duas alternativas igualmente indesejáveis. 


POSEIDON
Astrologicamente, saliente-se, o planeta Netuno (deus Poseidon) rege todas as formas de implosão conhecidas. Implodir, como se sabe, é provocar ou sofrer colapso para dentro. Colapso, figuradamente, é derrocada, desmoronamento, prostração, ruína. Uma das melhores imagens da implosão é, por exemplo, o sorvedouro, o vertex, a que acima nos referimos. Sorvedouros são redemoinhos de água que se formam em mares ou rios e que levam tudo para o fundo. 

PLUTÃO
Na mitologia, o deus Plutão, rei dos infernos, tinha grande receio das implosões que seu irmão, Poseidon, sempre ameaçou provocar, pois seu reino poderia ser invadido por ele, isto é, pelas águas oceânicas. Tais implosões, como é fácil perceber, poderiam expor à luz as “trevas infernais”, destruindo-se assim as apavorantes imagens que a humanidade sempre construiu em torno dele devido à sua invisibilidade. Plutão temia que o seu reino, exposto à luz, talvez não fosse considerado tão terrível assim... Astronomicamente, como sabemos, vertex é o ponto de intersecção da eclíptica com o meridiano que liga o zênite ao nadir. Na astrologia, não há estudos confiáveis sobre a sua aplicação.


TSUNAMI
Recentemente entrou em circulação a palavra tsunami (onda que atinge o cais, onda de porto, em japonês). O termo é muitas vezes aplicado para designar maremotos, sismos que ocorrem no fundo do mar, muito semelhantes aos sismos que só afetam a crosta terrestre, os primeiros, sim, tidos como causadores de tsunamis. Ao contrário do saltstraument ou do maelstrom dos escandinavos, o tsunami movimenta as águas para cima, o que nos leva a associá-lo também, astrologicamente, à ação de Urano (o epicentro dos abalos sísmicos de onde partem os tsunamis). É de se lembrar que quando Urano transitou pelo signo de Peixes, no início do séc. XXI (2003-2010), os tsunamis entraram na ordem do dia, ganhando muito destaque nos meios de comunicação.  Explosões vulcânicas, deslizamentos de terra subaquáticos ou mesmo quedas de meteoros podem também causar tsunamis

Grandes quantidades de água são assim deslocadas pelos tsunamis, atingindo o litoral, através de ondas enormes, causando devastação e morte. Um dos mais famosos maremotos (hoje tsunamis) conhecidos ocorreu no mar Mediterrâneo (eles são muitos mais comuns no oceano Pacífico) entre os anos de 1650 e 1600 aC, devido a uma violenta erupção vulcânica na ilha de Santorini. Esse violento fenômeno provocou a formação de ondas cuja altura máxima, segundo a tradição narra, teria oscilado entre 100 e 150 metros de altura. Toda a costa norte da ilha de Creta foi destruída. O início do fim da civilização minóica foi principalmente atribuído a este acontecimento. Quando da explosão da ilha-vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, ondas devastadoras se elevaram a cerca de 40 metros de altura. Segundo os antigos gregos, tudo isto sempre foi causado pela ação do deus Poseidon, que, por insondáveis desígnios, tanto pode, com o seu tridente, agitar ou acalmar os mares...

NETUNO
É de se lembrar, quando associamos Poseidon às implosões, que que o planeta Netuno, astrologicamente, é o arquétipo da dissolução (solutio) universal. Como tal, onde o temos num mapa astrológico ali a terra pode nos fugir dos pés devido à sua ação assolapadora, uma das várias formas de dissolução. Solapar é destruir as bases de alguma coisa, aluir, minar, abalar os fundamentos. Assim, onde temos Poseidon (Netuno), há esse risco. Aliás, as patologias de Netuno podem nos lançar em sorvedouros semelhantes, como é, por
PROSPER  MÉNIÈRE
1799 - 1862
exemplo, o caso da chamada síndrome de Ménière (distúrbio de equilíbrio muito semelhantes aos que ocorrem em viagens marítimas, mas que podem também ocorrer em terra), confundida às vezes com avcs. A síndrome a que nos referimos aparece relacionada com “ataques” a Vênus (planeta que se exalta em Peixes e que tanto tem a ver com a audição e o equilíbrio), com Netuno (regente do signo, que nos fala de vertigens, de sorvedouros) e com Mercúrio, que juntamente com Vênus, governa o labirinto, sistema de canais semicirculares e cavidades comunicantes no interior do ouvido, responsável pelo equilíbrio do corpo humano.


domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



sábado, 9 de abril de 2016

URANO (3)

              
                                      

De um modo geral, as divindades celestes de natureza uraniana mostram a sua cólera através de trovões, relâmpagos ou raios. Oniscientes, onipotentes, sábias, essas divindades são sempre as
ÁFRICA   OCIDENTAL
primeiras legisladoras dos grupos humanos na sua vida nômade (guerreiros, coletores, predadores) antes de assumirem uma vida sedentária. Um dos melhores exemplos de uma divindade dessa natureza é Olorum (literalmente, proprietário do céu); nós a encontramos entre Yorubás africanos, povo da África ocidental, ao sul do Benin e a sudoeste da Nigéria. Olorum, depois de ter iniciado a criação do mundo, delegou a divindades inferiores o trabalho de acabá-la e de governar o mundo criado. Retirou-se dos assuntos celestes e terrestres, não se encontrando mais colégios sacerdotais que cuidassem da sua imagem, de seu culto e de seus ritos. É, entretanto, sempre invocado, como último recurso, quando as grandes calamidades se abatem. Olorun reinava sobre os céus com o nome de Olofin Orum, Senhor do Céu, enquanto, abaixo, Olokun, princípio feminino, reinava sobre as águas.  

Os homens só se lembram dos céus em casos excepcionais, quando perigos vindos dessas regiões, os ameaçam diretamente. Na maior parte do tempo, a religiosidade humana se dispersa, volta-se para inúmeras outras solicitações de natureza cotidiana, terrestre, mais prementes. Com relativa certeza, porém, parece ser possível afirmar que a devoção às divindades uranianas foi a primeira forma que tomou a religiosidade dos homens primitivos,  fortemente marcada por sentimentos, pela afetividade. 

Se do céu, isto é, das divindades que se manifestavam através de fenômenos atmosféricos vinham coisas boas, favoráveis, tempo bom, chuva e Sol na medida certa, era preciso agradecer. Se, pelo contrário, os deuses se manifestassem com violência, isto é, se do céu só viessem tempestades, frio intenso ou calor abrasador, geradores de várias catástrofes, enchentes, seca, desmoronamentos etc., era preciso fazer sacrifícios para que tais tendências fossem revertidas.  



DYAUS
    
Quando nos voltamos para a Índia, por exemplo, encontramos algo semelhante. É opinião geral que as duas mais antigas divindades dos povos árias que invadiram a Índia no início da era de Áries (2.000 aC) eram Dyaus, o Céu, e Prithivi, a Terra. Nos hinos do Rig-Veda se faz menção a eles como sendo os pais dos demais deuses. Eles são sempre descritos como grandes, vigorosos e sábios, como aqueles que promovem a virtude e prodigalizam favores aos que os honram. Deles se fala também que geraram todas as criaturas e que são bondosos.





INDRA
Numa outra passagem do Rig Veda, temos informações que nos revelam que o Céu e a Terra foram criados por Indra, que os transcendia em grandeza. Às vezes, se menciona que o Céu e a Terra foram criados por Soma, o deus que vive na planta de mesmo nome, uma das divindades mais citadas no Rig-Veda. Como entender tudo isto? A opinião mais aceitável é a de que Indra ocupou aos poucos, gradualmente, o lugar de Dyaus. Indra, como se sabe, faz parte da principal trindade da religião védica, ligada ao elemento ígneo, que se completa com com Surya, o Sol, e Agni, o fogo terrestre.   

Dyaus-pitri (Deus Pai ou Pai do Céu) era nome mais comum pelo qual Dyaus era invocado. Quando o Céu e a Terra eram invocados juntamente usava-se a expressão Dyava-prithivi. Dyaus personificava a abóbada celeste, o firmamento supremo. Todos os deuses, o Sol, a Lua, o Vento, a Chuva, o Relâmpago, a Aurora são filhos dele. Ele tem o poder de abrir a Terra e de fertilizá-la com o seu sêmen, a chuva. A palavra Dyaus (do radical indo-europeu div, depois deiwo, brilhante, celeste), no antigo mundo védico, representava o lugar onde brilhavam os deuses. O Akasha, Éter, era uma manifestação física sua.  

Os principais nomes de Dyaus são: Abhram ou Maghaveshma (O Lugar das Nuvens), Ambara (Véu), Ananga (Indivisível), Vyoma (O que Recobre), Maha-vela (Grande Véu), Pushkara (Reservatório das Águas), Trivishtapa (Morada dos Três Mundos), Antaroksha (Espaço), Murudvatma (Caminho dos Ventos), Viyat (Separador), Vihayah (Caminhos dos Pássaros), Gagana (Móvil).



NAKASHATRA

Nas concepções védicas, a existência possui oito esferas: 1) Prithivi, onde reside (2) Agni, o Fogo; 3) Antariksha, o Espaço, onde reside (4) Vayu, o Vento, princípio da Vida; 5) Dyaus, o Céu, onde reside (6) Surya, o Sol, princípio do intelecto superior; 7) Nakshatra, as Constelações, onde reside (8) Soma (a Lua), princípio da imortalidade. As esferas da existência e as potências que nela residem são os princípios a partir dos quais o mundo físico dos elementos (adhibhautika) se desenvolveu. Eles são para o ser humano o aspecto mais imediato do divino, os deuses mais imediatamente perceptíveis. Enquanto primeiro grau do aparecimento das coisas, eles representam a juventude do mundo. 

Oposta a Dyaus, a primeira das oito esferas é a Terra, suporte (Dhara) de todas as criaturas, como a Geia dos gregos, nutriz de qualquer forma vital. Ela é mãe de todos os seres viventes, a substância de tudo. Narram os mitos que Prithu, o primeiro rei, inventor da agricultura, obrigou a Terra, contra a sua vontade, a abrir os seus tesouros e a alimentar os homens. Daí o primeiro nome da Terra, Prithivi, o domínio de Prithu.

Nas mais antigas invocações, a Terra era identificada pelo nome de Aditi, a Ampla, A Infinita, a extensão primordial, a primeira das deusas e mãe dos deuses.  Todos os aspectos da natureza e da vida eram formas suas. As montanhas, as árvores, os rios, os animais, tudo era dela. 

A primeira das esferas da existência é Prithivi, a Terra, suporte (dhara) de todas as criaturas, a que nutre todas as formas de existência. Prithivi é representada como uma deusa ou como uma vaca que alimenta com o seu leite todos os seres. Ela é também a substância universal, prima materia, separada das águas. Dela foi feito o homem, sendo ao mesmo tempo mãe e mulher, oposta simbolicamente ao céu, entendidos ambos como o princípio ativo, o primeiro, e princípio passivo a segunda. Prithivi é a virgem penetrada pela enxada ou pela charrua, fecundada pela chuva.



DYAUS   PRITHIVI


Unida ao Céu, a Terra forma, pois, com ele o primeiro casal divino, Dyaus-Prithivi, muito semelhante ao par que na mitologia grega forma a primeira dinastia divina, Urano-Geia. Nas invocações, Prithivi é identificada geralmente como Aditi, inesgotável fonte de abundância.

Em Prithivi reside Agni, o fogo capturado e do qual os homens se apropriaram para utilizá-lo como instrumento de poder e progresso. Qualquer forma do fogo é venerada como um ser divino. A  sua mais honrada forma é a sagrada, nascida da fricção de dois pedaços de madeira, em cerimônias religiosas, nas quais são pronunciadas fórmulas rituais. 

Agni, o fogo doméstico, é a principal divindade dos Vedas, a ele sendo dedicados o maior número de hinos. Ele é o mediador entre a Terra e o Céu, o protetor dos homens e de suas moradas, testemunho de suas ações, sempre invocado em todas as ocasiões solenes. Ele preside todos os sacrifícios e todos os acontecimentos da vida humana.  


AGNI
Antes de os brâmanes terem assumido a posição mais elevada no sistema de castas da Índia, a casta guerreira já possuía divindades que, embora ainda não bem organizadas num panteão, atendiam às suas necessidades, as de uma aristocracia conquistadora. Eram as divindades chamadas de reais, e velavam sobre a ordem social, bem diferentes de divindades como Agni, muito reverenciada ritualisticamente pelos brâmanes, a classe sacerdotal.

ASHVINS
As divindades reais, como o seu próprio nome indica, veneradas por conquistadores, pela elite dirigente, não eram populares. O ariano guerreiro tinha os seus olhos voltados para Indra, para Mitra, Varuna, para os Nasatyas ou Ashvins e para os Ribhus, poderosas divindades que apontavam para uma soberania universal.

O ariano que invadiu o norte da Índia, submetendo as populações de pele escura, os dravdas, venerava Indra, um deus que possuía as mesmas qualidades e defeitos que um kshatrya (casta dos guerreiros). Um destes deuses dos invasores era Varuna, que aparece geralmente muito associado ao deus Urano dos gregos.

VARUNA
Mitra e Varuna formam uma díade e são tidos como Adityas, filhos de Aditi. Como rajas, reis, são detentores daquilo que os védicos chamavam de kachatram, soberania, a essência da casta guerreira. Assim como os asuras (aqui no sentido de seres espirituais), eles têm um poder mágico, maya, uma eficácia misteriosa, um grande poder de encantamento, que, nos demônios, se volta para os malefícios. 

Os princípios soberanos atribuídos aos Adityas são personificações dos princípios intelectuais, morais e das virtudes sociais que regulam o funcionamento harmônico do universo e da sociedade humana. Esses princípios residem nos céus, nas esferas mais altas, dominando a vida e os seus elementos constitutivos. 

Do ponto de vista humano, estes princípios se referem aos aspectos principais de sua existência, orientando as relações dos homens entre si e deles com as forças naturais em operação no cosmos. Os pensadores védicos separaram estes princípios soberanos em dois grupos: uns referindo-se ao mundo dos humanos e outros à ordem cósmica.

Os princípios soberanos do mundo dos humanos são: 1) Mitra (Amizade) – representa a solidariedade, o respeito à palavra dada, as ligações dos homens entre si; 2) Aryaman (Honra) – representa os princípios cavalheirescos, a magnanimidade, as regras da sociedade; 3)Bhaga (Partilha) – representa os bens do clã como propriedade legítima e também o tributo devido como participação no bem coletivo.

Os princípios soberanos do mundo divino (ordem cósmica) são: 1) Varuna (o que tudo cobre ou liga) – representa o destino, as leis misteriosas que guiam os humanos em direção do desconhecido, do inesperado; 2) Daksha (Habilidade) – representa a arte dos rituais, as regras do sacrifício e a capacidade de cumpri-las sem falta; 3) Amsha (Partícula) – representa a parte da essência supramundana que  cabe a cada um dos humanos, sem que isto a diminua; é vivida como acaso, sorte, dom divino, tesouro encontrado, a exigir sempre um “imposto” maior de quem recebe mais. 

MITHRA
Mitra e Varuna são mantenedores da ordem universal, rita. Não a instituíram, mas a mantêm. Rita é o caminhar universal, o eterno fluir de tudo. Esse conceito equivale ao Panta Rei de Heráclito, que nos afirma que tudo é móvel, transitório e passageiro. Mitra governa a amizade, cuida da solidariedade, sanciona os contratos, Varuna garante os juramentos, pune os inadimplentes.  

Os antigos povos védicos representavam através de mitra, palavra que como substantivo quer dizer amigo, o mais importante princípio do mundo dos árias como seres humanos. Mitra, como vimos, quer dizer também solidariedade, respeito à palavra dada, aos tratados, revestindo de sacralidade tudo o que liga o homem a outro homem. A importância de Mitra, porém, com o tempo, foi diminuindo; quando do registro dos hinos védicos, os valores da magia, da manipulação política, já prevaleciam sobre a moral social, sobre as regras que comandavam as uniões.

O principal papel de Mitra era o de forçar os homens a manter as suas promessas. Mitra sempre lhes mostrou os benefícios da camaradagem, da sinceridade, da comensalidade na constituição das associações humanas, das tribos, das nações. Inimigo das disputas e da violência, Mitra tinha como companheira Revati (Prosperidade), que lhe deu três filhos: Dom (Utsarga), Felicidade (Arishta) e Prazer (Pingala).

A esta altura, parece-me oportuno aproximar o Mitra védico, da
AVESTA
Índia, daquilo que na antiga Pérsia tomou o nome de mitraísmo. Na origem, o Mithra dos antigos persas tem muito em comum com o das tribos que invadiram a Índia. Na língua persa da época, Mithra adquiriu características solares (mihr, Sol). No Avesta, conjunto de textos sagrados, escrito em língua avéstica, havia uma díade muito semelhante à da Índia, Mithra e Ahura, fazendo o primeiro um papel de divindade conciliadora. 



TAUROBOLIUM

A estatuária helenística tornou muito conhecida a imagem de Mithra, fazendo-o usar um barrete frígio na cabeça, sacrificando um touro (final da era de Touro), numa gruta, onde se reuniam os iniciados. Era o taurobolium. O rito era de fecundação da natureza, associado a um novo nascimento, tendo portanto relação com o equinócio da primavera. O adepto que se submetia ao batismo pelo sangue do touro tornava-se um renatus in aeternum

Este culto foi introduzido na Itália com o nome de mitraísmo no
CIBELE
segundo século da era cristã, enriquecido com contribuições do culto de Cibele, Grande-Mãe da Ásia menor, pelas legiões romanas. Este culto foi trazido para a Itália pelas legiões romanas quando andaram no Oriente à conquista de terras e fundando colônias, dando elas a Mithra o nome de Deus Salvador, Deus Vencedor, invencível. Segundo o mito, Mithra teria nascido num rochedo, a 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começam a aumentar. Nessa data se celebrava o renascimento do Sol, data a que os romanos deram o nome de Natalis Solis e que os cristãos utilizaram para fixar a sua festa do Natal. 

A ação maior de Mithra foi a degola do touro, símbolo do sacrifício da matéria, apesar de todas as tentativas contrárias da serpente e do escorpião que queriam impedi-lo. Desde então, esta cena, muito representada por imagens e esculturas, passou a simbolizar a luta das potências do bem contra as potências do mal. 



SÍMBOLOS   DO   MITRAÍSMO    ( OSTIA  ANTIGA ,  ITÁLIA )

O mitraísmo manteve com a antiga religião da Pérsia duas ligações importantes: a ideia de um zelo ardente pela pureza moral, obtida e mantida graças a uma atitude belicosa, tornando-se o seu adepto um soldado da fé. Decorre desse entendimento o grande sucesso que o mitraísmo teve entre os exércitos romanos. A segunda ligação é a veneração pela luz, o único princípio realmente invencível, absoluto para os adeptos da religião. A vida religiosa para os mitraístas era ascética, disciplinada e muito árdua, daí o seu sucesso entre as legiões romanas.

O mitraísmo, que só desapareceu de Roma por volta do séc. V dC, propunha sete graus de iniciação, cada um deles sob a proteção de um planeta: Perses (Persa), sob a tutela da Lua; Corvus (Corvo), sob a tutela de Mercúrio; Nymphus (Noivo), protegido por Vênus; Miles (Soldado), protegido por Marte; Leo (Leão), sob a tutela de Júpiter; Pater (Pai), sob a proteção de Saturno; e Heliodromus (Mensageiro do Sol), tutelado pelo Sol. O progresso de grau em grau correspondia à ascensão da alma através das esferas planetárias.

Sobre Varuna é preciso mencionar antes que, como outros deuses de caráter uraniano, ele possuía a soberania e a onisciência,
VARUNA
atribuições que eram de Dyaus e que ele foi assumindo. Este processo ocorreu dentro do próprio mundo védico, talvez por volta do início do segundo milênio aC. Varuna, “o que tudo abarca”, “o que tudo envolve”, chamado então de Uruvana, conforme inscrições do séc. XIV aC, foi absorvendo também as manifestações de caráter misterioso, lunar, pluviosas, além de se tornar uma divindade oceânica (dominando as duas últimas regiões do zodíaco).

Como divindade onisciente e infalível, era por sua iniciativa que desciam dos céus vários emissários seus que, com os seus milhares de olhos, vinham espionar a Terra. Varuna era a divindade que via tudo, que conhecia tudo, todos os segredos, todas as intenções. Jamais fechando os olhos, ele e Mitra tinham seus espiões no mundo vegetal, dentro das casas, nas praças e nas ruas. Aliás, um dos apelidos de Varuna era Sahasraksha (O de Mil Olhos). 

Como soberano universal, Varuna era o guardião das normas e da ordem cósmica. Como ele via tudo, como nenhum pecado lhe escapava, por mais escondido que estivesse, os fiéis se prostravam diante dele numa posição de grande humildade. Ao garantir os contratos, ao se posicionar como deus dos juramentos, Varuna era a divindade que ligava, que unia, razão pela qual a imagem das malhas de uma rede era um de seus grandes símbolos. Os homens, diziam os textos sagrados, temem a rede de Varuna, pois ela pode paralisá-los, exauri-los. Esta faculdade que Varuna tinha de ligar punha em evidência o caráter mágico de sua soberania. Por isso, Varuna era considerado o mestre da maya, do jogo fenomênico que encantava e prendia. Os atributos de Varuna eram dabda e pasha (bastão e rede). Pelo que se pode ver, Varuna não era uma divindade exclusivamente uraniana. Suas epifanias não se
WORLD   WIDE   WEB
limitavam apenas aos fenômenos atmosféricos. Sem muito esforço, fica fácil perceber que a rede de Varuna é hoje representada pela sigla WWW (Rede de Alcance Mundial – World Wide Web), conhecida simplesmente como Web, um sistema de documentos em hipermídia, interligados e executado na Internet. O caráter aquático dessa rede pode ser constatado pelos termos que usamos para seguir as ligações, navegar ou surfar na Web. 

A rede, como se sabe, em inúmeras tradições mitológicas, é considerada um objeto sagrado. Ela imobiliza o adversário. Ela serve também para, como símbolo religioso, capturar a força espiritual, como a empregaram os místicos iranianos, por exemplo. Como atributo de divindades supremas, a rede serve para submeter os homens ao divino. O cristianismo a usou neste sentido, como
CRISTO   PESCADOR   DE   HOMENS
símbolo da ação divina: Cristo era um pescador de homens. É por esta razão também que a rede foi parar na análise psicológica. Na psicanálise, por exemplo, esta ideia aparece ligada à livre associação, método terapêutico que consiste em se exprimir todos os pensamentos que vêm à mente, a partir de um elemento dado (palavra, fragmento de sonhos etc.) ou espontaneamente. O terapeuta, lançando a sua “rede”, colherá no “cardume” de palavras, imagens afloradas do inconsciente do analisando, segundo a sua técnica, o que julgar mais importante.  

Além do mais, lembre-se que Varuna, ao presidir as relações dos homens com os deuses, tem uma conduta imprevisível, seus favores súbitos, sua inexplicável crueldade, nada pode ser previsto, no que lembra muito o Urano da aAtrologia. Ele possui um poder mágico (Maya) com a ajuda do qual cria todas as formas do mundo visível. Por isso, parece muitas vezes um déspota, um mestre poderoso e insensível. É neste sentido que ele representa a realidade interior das coisas, a verdade absoluta (rita) e a ordem que transcende a compreensão humana. Seu grande poder é noturno, misterioso, enquanto o de Mitra é diurno, ligado à luz, à claridade.

O nome de Varuna vem provavelmente da raiz var, que quer dizer envolver, cobrir e, deste modo, tem relação com tudo o que é misterioso, críptico, secreto. É incontestavelmente também o senhor das águas superiores que rodeiam o mundo. Esta ideia é muito interessante para a Astrologia ocidental se levarmos em conta que a constelação de Aquário, governada por Urano, por volta de 4000 aC sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno. Essa constelação era visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, derramando água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanis, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas mais ou menos com o elemento líquido. Não é por outra razão que os babilônicos davam o nome de “Assento das Águas Moventes” às estrelas da constelação de Aquário, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam formado o dilúvio que se abateu sobre a Terra. 



CALENDÁRIO   HEVELIUS


Não é por acaso também que o símbolo da constelação de Aquário produz duas vezes o hieróglifo egípcio da água, duas linhas sinuosas em forma de onda que seguem paralelamente. Isto explica ainda o caráter imaterial do signo, uma espécie de oceano aéreo primordial que banha toda a Terra. É por essa razão ainda que o signo tem relação com as afinidades eletivas que devem dar origem à humanidade através da fraternidade universal. Os védicos propunham, segundo essa ideia, uma outra etimologia para Varuna: var,   raiz que significa ligar, unir; Varuna une todas as coisas, fazendo do múltiplo o uno (vari+unam).

MAKARA
Com o tempo, Varuna se transformou no mais importante dos Adityas e assumiu características que muito o aproximaram também do Poseidon grego. Nessa forma, ele se tornou senhor também dos mares e dos rios, tendo como montaria (vahana) o crocodilo (Saturno) Makara, animal monstruoso que tem a cabeça e as patas de um antílope e o corpo e a cauda de um peixe. 

Embora Varuna tenha muita semelhança com o Urano grego, as diferenças entre eles são bastante significativas como se pode perceber. Não há, por exemplo, na mitologia védica, uma relação matrimonial entre Varuna (Céu) e Prithivi (Terra) como há, na grega, entre Urano e Geia, nem Urano assumiu, como Varuna, qualquer poder sobre o elemento líquido. Alguma relação sempre poderia ser estabelecida, contudo, se pensarmos nas grandes influências aquarianas que nestes últimos séculos da era de Peixes, a terminar matematicamente em 2658, já se fazem sentir. 

Varuna é descrito como uma divindade sorridente; sua cor é a da neve, do lótus ou da Lua; aparece sempre munido de todos os seus
GANGA
ornamentos e atributos. Na mão direita leva uma rede. Postura ereta, rodeado por um halo luminoso; tem como residência favorita a Montanha Florida (Pushpa-giri). Seu palácio é de ouro e fica no lugar mais bonito do universo, chamado Noite Estrelada (Vibhavari). Ao seu lado, senta-se a rainha Varuni, em um trono de diamantes. Samudra (Mar), Ganga (Ganges), além de divindades de diversos rios, lagos e mananciais sentam-se também ao seu lado. 

Dentre os apelidos de Varuna, destacam-se: Sábio (Vidvan), Inteligente (Dhira), Discriminador (Pracetas), Sutil (Gritsa), Hábil (Sukratuh), Inspirado (Vipra), Poeta (Kavi), Grande (Mahan), Vasto (Brihat), Poderoso (Bhuri). Depois que assumiu o poder sobre as águas, recebeu nomes como Senhor das Águas (Apampati), Senhor dos Animais Aquáticos (Yadasampati), Senhor dos Rios (Nadipati), Senhor do que Flui (Sarvasam-saritam-pati).

Varuna é assim a imensidão do universo, o mestre da rita, energia que mantém a ordem universal, a realidade profunda sem a qual nada pode existir. A palavra rita, lembre-se, significa também o conjunto de sacrifícios indispensáveis à boa marcha do universo, no que lembra o conceito de maat entre os antigos egípcios. Varuna vela por tudo, inclusive pelo consumo de soma, produto lunar, a bebida dos deuses. Nos céus, as estrelas estão a seu serviço, espionando o que acontece na Terra e contando-lhe tudo. Ele reina sobre o ritmo das esferas celestes, cujo movimento regula. Varuna é o lado “negro” do Sol quando este faz a sua viagem em direção do oeste. É complementar a Mitra, que representa o Sol matinal. Nada a estranhar que os védicos tenham feito de soma uma divindade, dando-lhe inclusive o nome de Amrita, imortal.