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segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.






segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

ASTROLOGIA HINDU (JYOTISH) - II


KARMA, DHARMA E REENCARNAÇÃO

O Destino


AUM
Em sânscrito, Daiva quer dizer destino. A palavra é do gênero neutro. Indica um poder transcendente que vem do passado, anterior aos próprios deuses e às personificações míticas. É um poder nunca representado, jamais tocado por orações, sacrifícios ou encantamentos. Embora possamos nos servir destes recursos mencionados, iludindo-nos, Daiva é sempre o que temos de enfrentar inevitavelmente. Os antigos gregos tinham um entendimento semelhante a este. Era o que eles chamavam de Moros, o destino, também jamais personificado. Dizia-se que essa entidade possuía um livro onde tudo o que acontecia, uma trama imensa de acontecimentos, estava escrito; os deuses nada podiam mudar quanto ao que estava registrado; quando muito, podiam, apenas, consultar o livro de Moros e revelar, através de alguns oráculos, muito pouco do que nele havia.

Jyotish propõe uma forma, um método (upaya) para enfrentar as combinações astrológicas adversas, de modo a se poder definir, com possível exatidão, não só os bons e maus momentos como a aproveitar melhor os primeiros e a mitigar os outros. Esse método (upaya) afasta a ideia de determinismo, de fatalismo, que muitos, ignorantes e desinformados, veem na Arte, dizem os astrólogos hindus. Evidentemente, para usar upaya precisamos de informações corretas, além de muita determinação, firmeza e motivação, pois o karma costuma interferir, provocando muitas vezes pensamentos derrotistas, trazendo desestímulos, sempre debilitadores de nossa vontade.

O método admitido pela astrologia hindu abrange diversas técnicas, além daquilo que o próprio mapa pode oferecer. São usados normalmente mantras (sílabas sagradas), hinos,  recitações diversas; gemas, pedras ou outros objetos e substâncias que tenham caráter fortemente simbólico; acima de tudo, porém, atos ou ações específicos, trabalho desinteressado, comunitário etc., tudo conforme o tipo de Yoga adequado à personalidade do dono do mapa. Assim, por exemplo, sob a orientação do astrólogo, uma pessoa que tenha a dominante fogo praticará a karma yoga (yoga da ação desinteressada), alguém com pendores intelectuais será encaminhado para a jnana yoga (yoga da mente), o que tenha a dominante água, com inclinações místicas, poderá praticar a bhakti yoga (yoga devocional) e assim por diante. Entenda-se: yoga quer dizer aqui conexão, isto é, o meio mais adequado para que alguém possa, de acordo com o seu mapa, se pôr em contacto com o Brahman, a energia universal. 


OM   MANI   PADME  OM

Muito importantes, de modo complementar, neste particular, são os chamados Bija Mantras (mantras que funcionam como semente). Cada planeta na Astrologia hindu tem o seu Bija Mantra, que é usado para “fortalecer” planetas que estejam enfraquecidos, debilitados. Os Bija Mantras são transmitidos através de certos e determinados processos de iniciação.

Os  Planetas                                                           

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que traduz uma ideia de captura. Através deles, conforme o nosso mapa (Jataka, a astrologia natal), somos capturados por determinadas forças astrais que atuam em nós, exercendo maior ou menor poder, de várias maneiras. Os grahas nos inclinam nesta ou naquela direção, empurrando-nos para a realização de atos que, muitas vezes, nada têm a ver com os nossos deveres pessoais (dharma pessoal). Os planetas, como agentes da Lei do Karma, dirigem-nos para experimentar num determinado momento certas reações (consequências) em função de ações que realizamos anteriormente. Neste sentido, todo mapa astral é um mapa do nosso karma, desenhado pelos nove grahas de JyotishÉ a própria natureza do karma que determina o quanto um planeta nos captura. Se temos o caso do karma fixo (dridha), os planetas não permitem que nos libertemos, constrangem-nos poderosamente.

No caso do karma fixo-não fixo já temos possibilidade de algum trabalho libertador. Em certos casos, o método (upaya) adequado poderá nos orientar para um trabalho na direção de planetas que estejam favorecidos ou dignificados de algum modo. Jyotish recomenda como de grande valia, sempre,  que procuremos uma ligação com o nosso eu interior (o Brahman em nós), procurando controlar as pressões dos nossos corpos físico, afetivo-emocional e mental inferior, sobretudo as deste último.


CHANDRA

A atividade de manas é grandemente afetada por Chandra (Lua) e   por Shukra (Vênus). É sobre esta atividade, em última instância, que devemos nos concentrar para libertar o que do Brahman há em nós com o nome de atman, também chamada de narayana, literalmente aquele que fez a sua morada no homem. As propostas para esta
JIDDU  KRISHNAMURTI
libertação, de um modo geral, são encontradas em estudos filosófico-religiosos (inseparáveis na Índia) de natureza superior, a escolha de um mestre espiritual, um iniciador (guru) e na firme disposição de aumentar o controle sobre o corpo físico. Um dos melhores caminhos oferecidos para o que temos acima está na Yoga, como escola filosófica (darshana), nos seus oito anga (etapa, degrau) que é preciso galgar para ir em direção da independência (kaivalya). 






Todo este trabalho se enquadra sempre, sob o ponto de vista astrológico,  numa das três categorias, criação, conservação e destruição, três atividades, na prática, absolutamente inseparáveis. Esta prática tem por objetivo restringir as flutuações do pensamento pelas constantes trocas entre as gunas. Com isto, dizem os astrólogos hindus, será possível chegar ao que denominam de Ishta Bala (poder da divindade), uma espécie de faísca a que alguns dão o nome de intuição.

Evidentemente, para os astrólogos ocidentais não familiarizados com a cultura oriental, esta proposta pode parecer algo escandalosa, desligada da nossa realidade. Para outros, os que procuram ligações com a cultura oriental de modo superficial ou emocional, a proposta poderá se tornar sempre perigosa. O que temos de entender por trás do que aqui se coloca é que no politeísmo hinduísta as divindades, inclusive as pessoais, representam as múltiplas e infinitas possibilidades de expressão do Uno, o Brahman, o indiferenciado, o insondável, o inescrutável. A “nossa” divindade pessoal, que os hindus chamam de Ishvara, coloca a nossa relação com o Todo numa perspectiva bastante prática, possibilitando-nos formular melhor as questões e as respostas provenientes dessa relação. Ishvara para o homem comum é o seu deus pessoal. Para aquele que vai um pouco além, Ishvara é a noção de espiritualidade que cada um deve construir dentro de si considerados os seus infinitos aspectos. Ao longo da vida, a noção que um verdadeiro hinduísta tem de Ishvara pode inclusive mudar. Se sua compreensão do mundo muda, nada a estranhar se a sua visão de espiritualidade mudar. Para o hinduísta, sua relação com a vida espiritual nada tem de dogmático, como no caso das religiões transcendentalistas, isto é, as que colocam a divindade fora da criação. Estas religiões, como sabemos, satanizam a destruição. Para o hinduísmo (como para a astrologia, evidentemente) a destruição é tão sagrada quanto a manutenção e a destruição.   

Não podemos, contudo, confiar ou buscar só a intuição, dizem os astrólogos. Nem todos conseguirão obtê-la. Por outro lado, também não é possível termos um Jyotish-guru à nossa disposição o dia todo nem a nossa divindade pessoal poderá estar "disponível", ocupada muitas vezes talvez com assuntos mais urgentes que os nossos. É por isso, concluem, que os sábios do passado sistematizaram Jyotish para seres racionais, para as pessoas comuns, como nós, uma arte do conhecimento da qual devemos nos aproximar como a Vidya por excelência.

O karma no mapa 

Segundo Jyotish, ao entrar na existência (ahamkara, ascendente) somos o resultado de ações (karmas) do passado, conforme a quarta casa nos mostra, onde se encontra o nosso karma acumulado (sanchita); o futuro que temos que construir está indicado na décima casa, Meio do Céu, setor do mapa revelador de nossas possibilidades quanto à nossa posição no mundo. Na décima casa, temos o que de sanchita vamos “colher” na nossa encarnação presente.

O ascendente, a casa do eu visível, como sabemos, tem relação com a nossa ideia de personalidade (o que mostramos ao mundo); descreve as nossas características físicas, polarizando-se com a sétima casa, a do não-eu, como, aliás, a quarta se polariza com a décima através dos princípios materno/paterno ou raízes/altura.

É na sétima casa, por exemplo, que encontramos, sob o ponto de

vista físico e/ou psíquico, certas limitações que encontraremos na nossa vida atual. Uma ilustração disto está na Bhagavad Gita, quando Krishna explica ao angustiado Arjuna (simbolicamente o nosso eu, o ascendente) o que é o Campo (Kurukshetra, o não-eu, a sétima casa) onde ele terá que lutar. Kurukshetra (literalmente, o campo dos Kurus) é uma extensa planície ao norte de Delhi onde se travou a grande batalha entre os Kurus e os Pandavas, conforme se descreve na Bhagavad Gita. 



KRISHNA   E   ARJUNA

As relações ascendente-casa sete e casa quatro-Meio do Céu, casa dez, descrevem as principais dualidades a serem vividas, o universal princípio de polarização. Estas quatro casas formam uma cruz na qual o ser humano, Kala Purusha, o ser manifesto, o ser no tempo, como parte do Todo, terá que assumir um papel no reino da duração, na temporalidade. 

A astrologia hindu considera que é no Meio do Céu, a casa em que o Sol está na sua maior glória; é nela que obtemos informações sobre o Prarabdha karma, isto é, aquilo que temos de colher, aquilo que o destino reservou para nós numa presente encarnação. Já a quarta casa, o ambiente em que nascemos, o nosso palco familiar, revela o Sanchita karma. Nela estão todos os karmas gerados anteriormente por nós. Na décima, está a parte que deles é atuante na nossa vida atual. As casas quatro e dez estão sempre ligadas. Uma parte do nosso passado (quarta casa) está assim reservada, como dissemos, pelo tempo de vida que nos couber, a fim de ser cumprido como destino.

Os hindus entendem que os princípios materno/paterno formam uma unidade que se expressa dualmente e que da força da quarta casa depende a estamina de que disporemos para enfrentar os problemas que a vida nos apresentar na encarnação atual. Esta palavra que trazemos aqui, estamina, significa comumente a nossa capacidade de resistência, de modo especial a capacidade que temos de resistir por longo tempo, de nos mantermos ativos, de empreendermos esforços prolongados. Etimologicamente, lembremos, a palavra estamina vem da nossa língua-mãe, o Latim, stamen, mis, significando fio de roca, filamento. Nenhuma imagem
AS   MOIRAS
mais apropriada do que esta para tornar mais clara a ideia que antigos textos astrológicos registraram sobre a quarta casa, a do início e do fim da vida, a da infância e a da velhice, a do começo e a do fim da existência. Fazendo a ligação entre a mitologia grega e a astrologia, é nesta casa que “vivem” as Moiras, as Fiandeiras, Cloto, Láquesis e Átropos, as donas do nosso fio de vida, a casa, portanto, do início e do fim da vida. 


Alguns dos nomes que o ascendente recebe entre os hindus têm relação direta como que acabamos de expor: adi (começo), udyat (o que aparece), rupa (forma). É através do nosso ascendente que a energia em operação no Cosmos entra no mundo fenomênico da expressão. O raio que parte do ascendente procura seguir uma direção triangular em termos criativos da individualidade. O triângulo, como sabemos, é a figura-chave da geometria, pois encerra o que os antigos chamavam de proportio divina. É na casa cinco que encontramos propostas para este anseio criativo que parte do ascendente. O número cinco é a soma do quatro, número da matéria, da condensação, mais o um, este o número da energia universal, o número que representa o Brahman em ação. O cinco é o número daquele que se determina (Leão), o número da matéria penetrada pelo espírito. É por esta razão que a quinta casa a partir de qualquer uma revelará sempre uma possibilidade criativa com relação a ela. Nesta nossa linha de raciocínio, o vértice do triângulo que estamos construindo estará na ponta da quinta casa. A outra ponta do triângulo estará na nona casa. O ascendente terá assim que ser entendido como potência, como possibilidade daquilo que do grande Todo (Brahman) entrou na existência através de nós. Por isso, diz Jyotish, que a nossa reação com relação ao karma acumulado que nos foi destinado, nossos esforços para alterá-lo, estão na quinta casa.

A quinta casa é a oitava casa da décima. Já as dificuldades para a nossa atuação com base na quinta casa, nossos esforços para alterar o karma que nos toca (Prarabdha), serão encontradas na sexta casa a partir da oitava, isto é, no nosso ascendente, pois nós mesmos poderemos ser a dificuldade com relação à nossa ação transformadora. A sexta casa a partir de qualquer uma indicará sempre as dificuldades que temos de enfrentar quanto à realização que a casa considerada propuser. Além disto, temos que considerar também como dificuldades a enfrentar para usar o que a nossa quinta casa propuser aquilo que temos na oitava casa a partir dela, já que nesta casa, isto é, na décima segunda, poderemos encontrar inibições aos nossos impulsos transformadores.

Jyotish entende que a nona casa, além de significar, religião, filosofia, viagens distantes, buscas idealistas, é também a reveladora do karma positivo, auspicioso (punya), que nos é transmitido. Nela encontramos as possibilidades do discipulado (adhikarin, sadhaka) e também, sobretudo, os meios de trabalhar com Agami. Um exemplo disto está no fato de que um aspecto favorável entre os regentes das casas três e nove poderá levar a pessoa a evoluir, deixando o mundo da informação pelo do
MAYA
conhecimento superior, indo do particular para o universal, isto é, sair da multiplicidade para se aproximar da sabedoria, de caráter sempre unitário. As propostas superiores da casa nove significarão uma libertação daquilo que o hinduísmo chama de Maya, ilusão, fascinação pelo mundo da multiplicidade. Maya é magia, nome dado a um poder divino, nos Vedas, poder de Varuna. No hinduísmo, este poder é atribuído

VISHNU
 a Vishnu e está relacionado com a criação de fenômenos. É o poder de Maya que gera no ser humano o sentimento de ego, que o leva a ficar inelutavelmente preso a desejos de posse, de fruição, de gozo e de dominação. Um dos grandes aspectos de Maya, talvez o maior, dizem os astrólogos hindus, é a luxúria.
   
Para o hinduísmo, a libertação da cadeia de renascimentos só se tornará possível se as influências do passado forem totalmente aniquiladas. O esforço para a libertação terá que ser feito sempre no sentido de que as nossas ações não mais gerem frutos, isto é, que nossa consciência se concentre na Fonte Original, no Brahman, de onde ela veio. É o que o hinduísmo chama de caminho de retorno, isto é, sair da multiplicidade para buscar a unidade, ir do multiplicidade à unidade, voltar ao Brahman. Nada de paraísos depois da morte, pois, coisa de mentes capitalistas, dizem os hindus. Os investimentos que fazemos numa busca espiritual não podem ficar condicionados a expectativas de polpudas e eternas  aposentadorias douradas em lugares paradisíacos. 

O hinduísmo deixa claro que as ações do passado determinam as condições de vida do presente. As ações praticadas numa encarnação presente, contudo, podem agregar novas quantidades de karma ao seu total (Sanchita). Este último jamais se esvaziará a não ser que uma reorientação seja procurada no sentido de serem evitadas novas ações de caráter pessoal, mesmo que positivamente. A quinta casa mostra, por isso, também, o Kriyamana karma, o karma em formação que determinará a nossa vida futura.

Astrologicamente, a força vital está no ascendente; é nele que estão as nossas potencialidades, o nosso elã, inclusive as primeiras indicações sobre a nossa longevidade. A quantidade e a qualidade desta força, o Prana, com a qual vivemos e nos movimentamos é sempre resultante de ações do passado. É dentro desse raciocínio que a segunda casa é vista por Jyotish como a primeira das casas da “morte” de uma carta astrológica.

As Metas da Vida Humana

No hinduísmo, Jyotish tem também por objetivo fazer com que aqueles que dela se aproximem entendam e vivam melhor as chamadas quatro metas da vida humana. A primeira meta chama-se Artha, tendo relação com os bens e posses materiais. As artes praticadas no mundo de Artha são inúmeras. As mais importantes, a Política e a Economia, além de todas as técnicas que permitam
MATSYA - NYAYA
enfrentar a inveja, a competição, a violência, a tirania dos déspotas, a chantagem, a calúnia, a falta de escrúpulos etc.             Artha é tudo o que

pode ser apropriado pelos sentidos e que, por isso, pode ser perdido. A palavra lembra também vantagem, prosperidade, lucro, fortuna, reunindo significados de objeto da busca humana sob o ponto de vista material. No realista mundo de Artha a lei máxima é a do peixe, matsya-nyaya, isto é, peixe grande come peixe pequeno. 


A segunda meta é Kama, isto é, o prazer, o amor. Kama é também o nome do deus do amor, o deus que envia desejos, mestre e senhor da Terra e das esferas celestiais inferiores. Neste nível, a ideia é a de que temos de aproveitar a vida, colher dela as coisas boas e agradáveis. Este conceito lembra algo semelhante à filosofia hedonista dos antigos gregos.


KAMA

A terceira meta tem o nome de Dharma. Neste nível, introduz-se a ideia de dever, de obrigação, de vida moral. É nele que começa com clareza a vida social, isto é, astrologicamente, o terceiro quadrante, por oposição ao primeiro, que é de Artha. Neste nível, encontramos verdades atemporais traduzidas em regras e rituais através das quais a sociedade pode se organizar melhor. As mais altas honras neste nível são devidas ao homem sábio, que transcendeu as duas primeiras, de caráter pessoal-familiar. É no terceiro quadrante, o do Dharma, que começa por Libra, onde se define o conjunto dos deveres e dos direitos de cada indivíduo numa sociedade moral. 

A quarta meta, Moksha, oposta diretamente à segunda (Kama), propõe a libertação espiritual, tendo um caráter transpessoal, coletivo. É o quarto quadrante, que começa por Capricórnio. É considerada como a finalidade última do ser humano. As três primeiras metas têm caráter mundano. Moksha (o radical muc quer dizer desatar, soltar, largar) é a finalidade última do ser humano. Não é a metafísica dos livros, dos tratados de filosofia, mas a metafísica posta em prática. Seu objeto é o de criar os chamados libertos em vida. Moksha aponta para as estrelas, dizem os astrólogos hindus. Esta última fase corresponde ao nosso quarto quadrante astrológico, sendo a casa doze a mais importante dentre as doze de qualquer tema.

Astrologia e Dharma

A Astrologia hindu procura sempre fazer com que compreendamos claramente o que significam as quatro metas acima descritas e como poderemos vivê-las. Para o homem comum, de nível mental superior, o foco se concentra sobretudo no terceiro quadrante, o do Dharma, uma preparação para o último, Moksha, o mais importante. Sem entender bem o terceiro nível, sem vivê-lo conscientemente jamais chegaremos ao quarto.

A palavra dharma deriva da raiz dhr, que denota uma ideia de segurar, manter, constranger, suportar. Dharma é aquilo que sustenta o universo, as pessoas, a criação como um todo, desde o microcosmo ao macrocosrno. Dharma também significa dever, obrigação. Neste sentido, o conceito de dharma é inseparável do conceito de karma. Temos assim que sustentar, que assumir o resultado de nossas ações. O dharma é aquilo que é certo, que é correto. Qualquer coisa que crie conflitos, desarmonia, discórdia, é adharma. Dharma, ao contrário, será o sustentáculo da vida social. Se agirmos contra o dharma, estaremos agindo contra nós mesmos. Este conceito é o núcleo central da ética hinduísta, aplicado obrigatoriamente à vida cotidiana, que é o dharma na sua forma suprema.




Assim como um médico prescreve diferentes remédios para pessoas diferentes, conforme a sua constituição e a natureza da doença, assim o hinduísmo prescreve diferentes deveres para pessoas diferentes. Há, pois, deveres segundo a casta (varna) e o estágio de vida (ashrama) de cada pessoa, não se devendo esquecer que determinados deveres e abstinências são comuns a todas as castas e ashramas, como a não-violência (ahimsa), a adesão à verdade (satyagraha), controle dos sentidos, aquilo que faz parte dos dois primeiros degraus do Yoga, Niyamas e Yamas. O dharma depende, pois, do tempo, das circunstâncias, da idade, do grau de evolução da pessoa, da comunidade a que pertença. O dharma de um período histórico, por exemplo, é diferente do de um outro. O dharma de uma pessoa instruída será diferente do dharma de um analfabeto. No hinduísmo há ocasiões em que o dharma de uma pessoa pode mudar, se desviar de sua prática habitual.

Para o hinduísmo, o conceito de dharma pode ser encontrado em todas as religiões, inclusive em muitas propostas da Filosofia ocidental. Gandhi chamou a atenção para este tipo de Dharma, que muito poderia contribuir para a união dos povos e das nações. Só dentro do conceito de dharma há vida digna. Qualquer que seja o ângulo pelo qual o observemos (científico, legal, moral, psicológico, religioso etc.),o dharma é sempre Justiça e, sobretudo, Dever. É o dharma que fornece interiormente o critério para o discernimento entre o bem e o mal. Sem dharma, como está na Bhagavad Gita, a vida é caos, desordem. Quando não há Dharma não há Estado.

Particularizado, individualizado, o Dharma chama-se Svadharma. Cada um de nós tem o seu. Temos, dentro do nosso mundo de relações, de obrigações e de deveres, que encontrar os preceitos dhármicos que deveremos aplicar a cada situação. O hinduísmo deixa claro que ninguém é livre para escolher. Nossas escolhas se referem sempre a uma situação. O que a vida nos traz tem que se ser assumido e transformado em algo nosso. Cabe-nos dar um sentido ao que nos chega, ao que vem, dentro de uma gama maior ou menor de escolhas possíveis. 

A Reencarnação

Tudo isto que estamos colocando aqui terá que ser considerado obviamente segundo a doutrina da reencarnação ou da transmigração das almas, um dos princípios fundamentais do hinduísmo. Reencarnação aqui quer dizer que a alma volta a ocupar um novo corpo físico depois da morte. Todo este movimento contínuo das almas indo de um corpo para outro tem o nome de Samsara. A raiz sr significa passar, ir de um lugar para outro; o prefixo sam quer dizer intensamente. 

Para o hinduísmo não deixamos de existir quando morremos. Antes de nascermos, devemos ter passado por incontáveis nascimentos.
KRISHNA  E  ARJUNA
Diz Krishna na Bhagavad Gita a Arjuna: Você e eu tivemos muitos nascimentos antes deste; só eu os conheço todos, você não. Todo nascimento é seguido inevitavelmente pela morte e toda morte por um renascimento. A doutrina do renascimento é o corolário natural da Lei do Karma. As diferenças que encontramos entre as pessoas decorrem das suas respectivas ações passadas. 


Ações corretas, isto é, bom karma, leva a encarnações em níveis cada vez mais elevados. Más ações, ao contrário. Da sabedoria, ações sábias, resulta, pois, bem-estar, vida justa. Servidão e infelicidade resultarão de más ações. Assim, enquanto os karmas bons ou maus não forem esgotados não chegaremos a moksha, à emancipação, à libertação. Bom e mau karma ligam a jivatman (alma encarnada) às suas correntes. Uma é de ouro, outra é de chumbo. Nunca chegamos ao mundo em total estado de ignorância, em completa escuridão, diz o hinduísmo. Nascemos com certas memórias e hábitos adquiridos em vidas passadas. Nossos desejos de hoje têm origem em experiências prévias. Cada ser, ao contrário do que comumente julgamos, nasce com certos desejos que estão associados ao que experimentou em vidas passadas. A alma migra com o chamado corpo astral (Sukshuma Sarira, a contraparte sutil do corpo físico, que carrega consigo impressões (samskaras) e tendências (vasanas) da alma individual.

Para o hinduísmo, o corpo é uma habitação provisória da alma com o qual ela erroneamente se identifica. Os hindus não falam em entregar a alma a Deus quando da ocorrência da morte. Ao contrário, falam em abandonar o corpo. Na sua longa série de vidas
sucessivas, a jivatman pode passar pelos reinos mineral, vegetal, animal e humano. O plano mental só se manifesta quando das encarnações em seres deste último dos reinos. A rigor, só podemos falar de consciência e evolução no plano humano. Para caracterizar o estado de encarnações no reino animal, os Upanishads falam da chamada alma-grupo. Ou seja, a alma dos seres que se encontram num estado tão elementar que alguma manifestação só será notada se um grande número de unidades se reunir. Não precisamos fazer grande esforço para perceber a verdade desta conceituação com o fenômeno da massificação no mundo moderno. 


RODA   DA   VIDA

O corpo sempre será um meio de que a alma esclarecida poderá se valer para atingir a libertação, escapar do Samsara. É bom lembrar, segundo a doutrina, que as encarnações podem não se suceder ininterruptamente. Poderá haver um intervalo entre uma e outra, caso em que a alma permanecerá estacionada em determinados lugares parecidos com o Hades grego. Na sua caminhada, a alma poderá passar por certos estados que signifiquem avanços ou recuos. A opinião é unânime entre os mestres hinduístas: aquele que cometer certos crimes e não os tiver expirado em vida está condenado a renascer em estados muito deploráveis sob o ponto de vista moral e humano. 

A questão ética decorrente do que acabamos de expor está na definição de formas de ação, com base no mapa astrológico, que nos permitam enfrentar a relação karma-dharma. Uma das formas superiores que o hinduísmo nos oferece para isso parte do entendimento, conforme o próprio mapa revela, de que o que é justo para uma pessoa pode ser errado para outra. Contudo, todos nós estamos ligados por obrigações, todos somos interdependentes e, por isso, todos devemos contribuir para a ordem global. 


Estão em textos como o Dharmashastra, um misto de ciência e arte, iluminados por Jyotish, os princípios que nos ensinam a aplicar aquilo que é geral em situações particulares. Procurar escapar dessa interdependência em nome da liberdade pessoal é pôr em risco o todo. Isto só será possível se o fizermos em nome de um dever mais elevado, que exija mais de nós. Temos, por isso, nessa perspectiva, que realizar as nossas ações sempre de uma forma impessoal, desprendendo-nos de seus resultados, nem, por outro lado, deveremos agir só para nos desembaraçarmos, nos livrarmos, de nossas responsabilidades.   Mesmo   as   ações   que   muitas  vezes empreendemos para buscar a nossa libertação exigem muita atenção, pois pode nelas se ocultar, sem que o percebamos, por exemplo, a cobiça (kama).

O complemento do que expomos está, conforme o hinduísmo afirma, no fato de que, quando do nosso nascimento, contraímos uma dívida tripla: l) para com os deuses, isto é, com relação à Totalidade, o Brahman, para com as forças cósmicas que nos deram um ambiente natural, a Terra, as águas, o ar, o vento, o céu, a luz; 2) para com os nossos ancestrais, próximos ou distantes; 3) para com os verdadeiros sábios, pois são eles que nos permitem, pelo seu legado, que entremos em contacto com os valores e criações superiores do espírito humano. Antes de procurar algo para nós temos que satisfazer estas dívidas. 

É através das várias formas de Yoga (darshana) que podemos, por exemplo, encontrar meios para tanto. Dentre as principais formas de Yoga temos: Karma Yoga, Bhakti Yoga, Jnana Yoga e Raja Yoga. A Bhakti tem, como se disse, caráter devocional; a terceira tem caráter mental; a quarta tem um pouco de todas, incluindo-se nela aspectos físicos (Hatha). A primeira, como o nome indica, é o Yoga da ação desinteressada. Propõe uma intensa participação na vida. Para este tipo de Yoga, toda a ação deve ser transformada num sacrifício. É o Yoga da renúncia aos frutos das nossas ações.

Segundo o entendimento acima, cada ação nossa terá que ser realizada com uma disposição diferente daquela que comumente está presente em nossos atos. As nossas ações deixam de se concentrar apenas em nós, voltando-se, ao contrário, para o todo, para a sociedade, para a humanidade. Este tipo de ação nos leva além do simples cumprimento do nosso dever, vai muito mais longe do que a Moral convencional. A ação é praticada segundo um espírito de renúncia do ego. Com isto, escapamos da relação de causa e efeito (Karma-Dharma), tornamo-nos não só melhores sob o ponto de vista de nossa individualidade como nos transformamos

em “trabalhadores” para o bem do mundo, ao procurar melhorar o ambiente em que vivemos. Ao contribuir desta maneira para a sociedade não só a melhoramos de algum modo como, melhorando-a, crescemos sempre de alguma forma com ela. É como está na Bhagavad Gita: Quem encara suas ações como obra dos sentidos, executando-as sem apego, não é maculado pelo egoísmo, tal qual a flor de lótus, que não é poluída pelas águas que a rodeiam. 


O fim último da astrologia hindu é o de revelar o nosso karma, expresso em termos daquilo que é chamado de influências planetárias. Astrologia e karma ligam-se intimamente. Dizem os astrólogos hindus que o resultado das nossas ações passadas é chamado de Destino (Adrishtra) quando ignoramos a lei do karma. O conhecimento da lei do karma através de Jyotish afasta qualquer ideia de fatalismo ou predestinação e indica que sempre poderá haver uma margem maior ou menor, segundo o grau de nossa compreensão, para o nosso desenvolvimento pessoal. 


GANESHA,   SHIVA   E   PARVATI

À maneira da conclusão de trabalhos astrológicos como o apresentado acima, na Índia, cabe-me agradecer a atenção de todos que o ouviram (leram), paciente  ou impacientemente, e invocar as bênçãos do incomparável Ganesha, o deus elefante, o grande filho de Shiva e de Parvati, o Removedor de Obstáculos, Patrono dos Escribas e Senhor de Jyotish.


B.V. RAMAN

* In memoriam do Prof. Bangalore Venkata Raman (1912-1998) mestre de Jyotish, autor de vários livros e editor do The Astrological Magazine.