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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VIRGEM (3)


CATEDRAL   DE   CHARTES
Dentro deste universo simbólico não nos surpreende o rito praticado, em tempos muito remotos, por sacerdotes gregos e romanos, que costumavam lançar grãos de trigo sobre as vítimas humanas imoladas para se garantir o renascimento dos vegetais, as próximas colheitas. Tal rito era, em suma,   uma prática que lembrava a imortalidade, a ressurreição. Além disso, explicava-se por esse rito também a razão  de se trazer espigas de
ESPIGAS   DE   TRIGO
trigo para o interior das casas com o objetivo de proteger tanto o edifício como os que nele viviam.  Presas à viga mestra das casas, quando de sua construção, as espigas de Deméter asseguravam não só solidez à construção como paz e prosperidade para os seus moradores.

É de se lembrar, quanto ao uso de espigas no interior das casas, como está acima, que os gregos antigos usavam também, com a mesma finalidade, mas na parte externa da construção, um elemento a que davam o nome de acrotério (de acro, ponta). Situados no mais elevado do frontão das construções, dentre os elementos mais usados como acrotérios (vasos, estatueta, bolas, imagens de animais etc.), encontramos a pinha, um símbolo do deus Dioniso. 

PINHA
A pinha, como se sabe, enquanto dionisíaca, é um  símbolo da vida sob a sua forma imperecível. Consagrada a várias divindades, mas principalmente a Dioniso, a pinha representa a permanência da vida vegetativa, a alternância das estações e a ressurreição da natureza. O longo bastão de Dioniso, o chamado tirso, atributo do deus e de suas sacerdotisas, era rodeado de hera, de flores da vinha e de cachos de uva. No topo, para a sua empunhadura, uma pinha encimava-o.  

Ao se apoderar da história de Deméter, a psicologia profunda vê no arquétipo por ela descrito um comportamento neurótico. As neuroses, como sabemos, constituem um conjunto de problemas de origem psíquica que, dentre outras características, costumam se manifestar por um comportamento compulsivo, de caráter obsessivo. Diferentemente da psicose (transtorno mental caracterizado por desintegração da personalidade, conflito com a realidade, alucinações, ilusões etc.) a neurose conserva uma referência à realidade, liga-se a situações circunscritas e gera intensas perturbações sensoriais, motoras, emocionais e ou vegetativas. 

O arquétipo materno liga-se, inconscientemente, no ser humano, aos elementos passivos, negativos, à água e à terra, entendidas estas como as matrizes que deram origem à vida. A primeira sempre foi divinizada por todas civilizações como o princípio de todas as coisas. A noção de águas primordiais existe em todas as culturas, simbolizando origem, purificação e regeneração. A terra é a
KNUM
substância universal, prima matéria, separada das águas, e é dela que sairá o homem. Este é o significado da argila como matéria que será utilizada, por exemplo, pelo deus Knum, entre os egípcios, para fabricar o homem. Ou, como está no Gênese, quando Elohim modelou uma estátua de argila vermelha, à sua semelhança, e nela insuflou uma alma. As palavras hebraicas adamah (terra) e adom (vermelho) têm relação com o primeiro homem criado, Adão, segundo esta tradição. 

Deméter tem a ver com as estações, com os trabalhos agrícolas, com a semeadura, com o crescimento das sementes, com os campos trabalhados, com as colheitas e com os celeiros. Sua função materna é importante, mas limitada, pois sofre uma violência, o rapto de sua filha, Koré. Esta violência é a causa da sua neurose, acima referida. Um detalhe muito importante desta história é que essa perda é apoiada e até incentivada pela própria Geia, avó de Koré, a Grande Mãe Universal, como está no hino homérico a Deméter. 


RAPTO   DE   KORÉ  ( ALESSANDRO  ALLORI , 1533 - 1607 )

Lembremos que Deméter é particularmente honrada na Sicília, pois é considerada como a sua divindade protetora. A deusa, na Sicília, representa um caso notável de associação de antigas crenças. Não só os antigos colonos gregos da ilha a ligaram a uma antiga deusa local da fertilidade como lá reconstruíram o mito. A jovem Koré estava em companhia de algumas ninfas oceânidas quando, ao colher narcisos, foi raptada por Hades, o Senhor dos Infernos, que estava à procura de alguém, uma deusa, que com ele pudesse compartilhar o poder sobre o seu reino.

Deus temido, soberano de um mundo invisível, lugar sem saída (salvo para os que acreditavam na reencarnação), mergulhado eternamente no frio e nas trevas, povoado de monstros, de
KORÉ    E    A   ROMÃ
espectros e de fantasmas, com os seus rios, antros e cavernas nos quais perambulavam as almas dos danados, Hades resolveu seu problema pelo sequestro. Sob o protesto de Ciane, uma das companheiras de Koré, transformada numa fonte por isso, arrastou a jovem para o seu reino, colocou nas suas mãos sementes de romã, símbolo da fidelidade conjugal, e fez com que ela as engolisse. Koré as experimentou e parece ter gostado.  Com isso, ficou “presa” definitivamente ao Hades. 


TRAPANI
Na versão siciliana do mito, consta que durante nove dias Deméter errou pelas terras da ilha à procura da filha desaparecida. Na sua passagem, ela foi deixando marcas por onde andou. Há um promontório foiciforme perto de Trapani que os sicilianos dizem ter sido originado pela perda de uma foice que Deméter, como deusa das colheitas, usava. Contam ainda que por causa de Deméter os tremoços, antes adocicados, amaldiçoados pela deusa, tornaram-se amargos e tóxicos. A deusa os amaldiçoou porque, ao perambular pela ilha à procura de Koré, interpretou como gozações, chacotas, os ruídos que as plantas da leguminosa emitiam quando de sua passagem. 

No seu desespero, não encontrando a filha, Deméter provocou uma seca terrível em todo o mundo. Homens e bestas começaram a morrer. Os deuses deixaram de receber sacrifícios. Zeus intercedeu e obrigou Hades a devolver Koré à mãe. Mas a jovem já havia experimentado as “sementes de romã”. Assim, ligara-se ao Senhor dos Infernos. Um acordo, então, é celebrado. Ela passaria uma
MINTHE
parte do ano com ele e outro tanto com a sua mãe. Uma prova de que Koré, já transformada em Perséfone, se afeiçoara bastante ao Senhor do Hades está na tenaz perseguição que ela moveu contra uma ninfa que mantinha relações com ele. Enciumada, Perséfone pôs-se a maltratá-la. Hades, contudo, não desejando perder a amante, a levou para as montanhas e a transformou numa planta, a hortelã perfumada e refrescante, com o nome de Minthe. 

Há uma outra versão sobre o caso acima. Como Koré, já como Perséfone, se afeiçoara bastante com o Senhor do Inferno, Deméter resolveu intervir a favor da filha, condenando a planta (hortelã pimenta, mentha piperita) a não gerar frutos, advindo daí a dupla reputação que a menta tem para os povos mediterrâneos: um caráter funesto, considerada como uma planta que ao mesmo tempo que causa a esterilidade tem um caráter afrodisíaco. 

Hipócrates, Aristóteles e Plínio, o Velho, acreditavam que a menta atuava como anticoncepcional. Grande parte desta aura que cerca a menta pode ser atribuída a uma lenda cristã. Consta que quando o menino Jesus e sua mãe fugiam de Herodes a menta os denunciou (felizmente em sottovoce e não foi ouvida), razão pela qual Maria a amaldiçoou: Tu és menta e tu mentirás sempre; florirás, mas não darás frutos.

Do ponto de vista de Geia, a Grande-Mãe, os elementos e acontecimentos desta história, sedução, rapto, “ingestão” de sementes de romã por Koré, a presença de Minthe, a ninfa do Hades, a indiscrição de Ascálafo eram irrelevantes. Não tinham a grande importância que lhes foi dada por Deméter e, a princípio por
LAGO   DE   PERGUSA
Koré. A “perdição” da jovem, como ficou claro em Homero, foi apoiada pela própria Geia que, inclusive, dela participou indiretamente ao cultivar as flores que ajudaram Hades a raptar a jovem. O rapto, segundo a tradição mais confiável, ocorreu na Sicília, perto do lago de Pergusa, sob os protestos das companheiras, em especial de Ciano, transformada por Hades numa fonte. 

Para Geia, o rapto de Koré e a sua sedução eram fatos naturais, tão naturais como o nascimento e a morte, que ela sempre enfrentara com tranquilidade e resignação. Suas experiências com Urano, neste particular, ainda que violentas, ela bem o sabia, faziam parte da ordem natural do mundo, na qual as violações apareciam como necessárias, inevitáveis. 

Num primeiro momento, Deméter simboliza uma fase muito importante na história da humanidade na medida em que ela, na
ELÊUSIS  -  GRÉCIA
linha sucessória das Mães ligadas à terra, vindo depois de Geia e de Reia, representa o aparecimento da agricultura com o consequente processo de sedentarização, isto é, o abandono da vida selvagem, nômade, coletora pela vida social mais organizada. Num outro plano, a mensagem mais importante deusa, através de Elêusis, é a da imortalidade da alma e a da sua eterna ressurreição depois da morte. 

Como se não bastassem essas possibilidades significativas, lembremos que Deméter ensinou aos homens a arte de plantar e de colher, atividades que dependem sempre de uma elevada capacidade discriminatória. O agricultor tem que ter, numa ponta, para plantar, a clara noção do lugar em que o fará, do tipo de solo, da estação, das condições climáticas, da qualidade das sementes e dos demais cuidados necessários. Noutra ponta, clara noção do momento oportuno da colheita, dos meios disponíveis para tanto, do que e onde o colhido deverá ser armazenado e do fim a lhe ser dado. Entre as duas pontas, os cuidados permanentes para que tudo o que foi plantado venha à luz da melhor maneira possível. 


A   COLHEITA  ( BRUEGEL , 1521 - 1569 )

A capacidade discriminatória de Deméter, numa visão mais apressada, parece dizer apenas ao que ocorre na “superfície”, à percepção das diferenças nele constatáveis, visíveis. Entretanto,
PERSÉFONE   E   HADES 
lembremos que o “outro lado” de Deméter é  Perséfone, e que elas, no fundo, são a mesma coisa. Assim, enquanto uma atua em cima, a outra atua em baixo. Por isso, a percepção de Deméter deverá implicar  também, sempre, a percepção do que ocorre no mundo inferior, o mundo do “não-visto”, do invisível. Ou seja, notar as diferenças no mundo de cima e ter, ao mesmo tempo, uma percepção do que é  invisível, que está no mundo inferior. 

O que acontece, porém, com relação a Deméter, como o mito desenha o arquétipo, é que ela não tem esta percepção “inferior”.
HÉCATE
Quando perde a filha, ela se torna depressiva.  Decreta a seca universal, nega o futuro. É a velha máxima da psicologia: se não posso ter o que desejo, destruo tudo e/ou me autodestruo. Sob o disfarce de um animal (tema já abordado acima) e de uma velha, Deméter perambulou pela terra, desesperada; deixou de tomar banho, não se alimentou, até encontrar Hécate, a deusa lunar triforme que lhe disse também ter ouvido os gritos da jovem, mas que não lhe fora possível reconhecer o raptor. Sugere Hécate que ela vá ao deus Hélios, que tudo via, já experiente nessas questões (a revelação do affaire Ares-Afrodite). Assim foi feito, cientificando-se então Deméter das circunstâncias do rapto de Koré e de seu autor. 

O comportamento de Deméter é reconhecidamente neurótico, como se disse. Desespero e depressão quando perdida a filha. Contentamento, pulos, “esquecimento” do drama vivido, quando a recuperou. A história de Deméter nos revela também, por essa linha de raciocínio, que, acima de tudo, a vida adquire um significado em função do que sentimos. São eles, os sentimentos, os doadores da vida. De bem com a vida, Deméter é benevolente, dadivosa. Mal com a vida, quando tem que lidar com o “lado ruim da vida”, é depressiva, agressiva, negativa, destruidora. Esse jogo normalidade/anormalidade nos introduz numa questão importante dos arquétipos, a de que todos têm também a sua patologia. Ou seja, num único e mesmo arquétipo podemos ter a sua patologia e a sua terapia.  


DEMÉTER
Quando recebemos os dons de Deméter, precisamos ficar cientes das dificuldades que eles nos oferecem, das suas implicações inconscientes, na maioria das vezes. A única maneira de percebê-las será ir em direção do Hades. Uma  das formas que usamos para representar as nossas perdas é o luto, tanto uma autopunição como uma punição com relação àqueles que fazem parte do mundo em que vivemos.

O “luto” de Deméter é representado pela cor negra, que caracteriza, numa “leitura” apressada e superficial, as trevas, a tristeza, a morte, a negação absoluta, o silêncio sem vir a ser. Os gregos e os romanos faziam da cor negra um símbolo do luto, cor das penas e das angústias da alma. No simbolismo ocidental e cristão, principalmente, o negro sempre foi usado como cor funerária, o “luto sem esperança.” A tradição ocidental atribui ao negro uma significação nefasta conforme o atestam expressões como “ideias negras”, “humor negro”, “besta negra”, “filme noir” etc. O negro designa o sombrio, o triste, o que se opõe ao claro, ao alegre, ao luminoso. 


A   FESTA   DE   AFRODITE  ( P.P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os conflitos entre os cultos de Deméter e de Afrodite encontram aqui a sua explicação. Koré, lembremos, foi raptada quando colhia flores, que, no mito, “pertencem” a Afrodite, a deusa das forças incontidas da fecundidade enquanto símbolos do desejo apaixonado. Afrodite é o prazer dos sentidos, da sexualidade que independe da procriação. É a alegria de viver, a atração voluptuosa, a sensualidade, a sedução, a celebração das trocas, a comunhão afetiva, o encanto, a beleza, a graça. O seu poder fala de ternura, de
PAPOULA
carícias, de doçura, de tudo que signifique prazer e beleza. É por essa razão que nos cultos de Deméter as flores estavam proibidas (oposição Touro-Escorpião). Apenas uma flor era admitida nos cultos de Deméter, a papoula, pois a deusa, quando desesperada, por sugestão divina, para se acalmar, tomara uma infusão preparada com as pétalas da flor (mekhon) que, representava em Elêusis, o sono, o esquecimento, inclusive o sono que se apoderava dos humanos depois que morriam até um eventual renascimento. Certas correntes míticas vêem a papoula como um personagem, por ela amado, metamorfoseado em flor.


NIX  ,  THANATOS  E  HIPNOS

O efeitos narcóticos da papoula são conhecidos pelos gregos desde a mais remota antiguidade, um atributo, no mito, pertencente aos deuses Hipnos, Thanatos e Nix, todos usando coroas feitas com a flor. Por seu caráter alucinógeno (extrai-se ópio da papoula), a papoula era uma flor sagrada, pois permitia viagens  extracorporais, viagens que sem uma orientação adequada podiam levar a viagens sem volta. 

A história de Deméter ganha outra dimensão se lembrarmos que ela “nega” com todas as suas forças o mundo “inferior” (Hades) ao se apegar neuroticamente (destrutivamente) ao mundo “superior”. Sua visão é  completamente diferente da de Geia, que “sabia” que os dois mundos são uma coisa só". Deméter perde a sua escala de valores (o que vale é só o mundo de cima), não há discernimento, discriminação, só desdém. As coisas para ela só valem pelo seu aspecto “de superfície”. Daí, a sua mágoa, a sua violência, quando a privam delas. Uma visão unilateral do signo de Virgem?  


PIETÀ  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

A mensagem astrológica do que estamos colocando poderá ser melhor apreendida se lembrarmos que o signo de Virgem, ao “receber” o ego nascido em Leão, quinta casa, não deverá apenas se fixar nos seus aspectos de “superfície”. Deverá cuidar do “outro lado”, preparando-o para a jornada subterrânea que se inicia neste período do ciclo anual. Uma das grandes imagens desta passagem está, por exemplo, numa das mais belas obras da escultura de todos os tempos, a Pietá, de Michelangelo. Com efeito, o signo de Virgem trata das transformações de nossa personalidade que partem de estados infanto-juvenis para a conquista de uma individualidade mais sábia, mais madura, representada pela fruição da colheita. É a partir de Virgem que começa a nossa reorientação (mal nascido o ego) para interesses mais universais, que, numa primeira etapa, devem passar obrigatoriamente pela vida representada pelo signo de Libra e pela sétima casa astrológica. 

Em Virgem acaba a aventura individual do ser humano. As forças do dia ainda predominam, mas começam a perder o seu poder. Por ser um signo de terra, Virgem nos fala, efetivamente, de coisas práticas (o “prato cheio” de Deméter), mas não há que se perder de vista que o caminho para o universal se abre aqui.  

Deméter, ao decretar a seca, procura eliminar o úmido do universo. Nega as possibilidades de contacto, presa de uma “ira vã e
HOMERO  ( MUSEU  DO  LOUVRE )
insaciável”, como está em Homero. A deusa, ao assim agir, nega o futuro. O quadro, como disse, é depressivo, neurótico, parecendo retirado da psiquiatria moderna: ela não se banha, deixa de comer, realiza tarefas que estão claramente muito abaixo de suas habilidades, anula a sua beleza, disfarçando-se, nega a sua própria sensualidade, foge do seu ambiente natural, o campo, procura a polis. 

ÍRIS ( L.GIORDANO )
Segundo o mito, sabemos que Zeus despachou a deusa Íris para acalmar Deméter, que não se recusou a ouvi-la. Depois, vieram outros deuses. A mesma resposta: ela jamais poria os pés no Olimpo e não permitiria que nada mais brotasse na superfície da terra enquanto a filha não lhe fosse devolvida.  Zeus, então, enviou seu embaixador plenipotenciário, Hermes, para discutir com Hades a questão e resolvê-la, de modo que a jovem retornasse ao seio materno. Hermes explicou a Hades que se Koré não fosse devolvida à mãe, a “débil raça humana seria aniquilada” e, com isto, os deuses não mais seriam honrados. Explicou mais Hermes que como os deuses “vivem” dos cultos que lhes são prestados e de sacrifícios recebidos, a extinção da raça humana significaria também a extinção dos deuses. Nada mais lógico.

Não houve necessidade de maiores detalhes para que Hades logo se convencesse, sendo-lhe prometido que a jovem passaria uns tempos com a mãe na superfície e outro tanto com ele no mundo ctônico. Consentiu que a jovem retornasse, fazendo-a, porém, ingerir mais
HADES
sementes de romã, o que lhe bastou para deixá-lo tranquilo quanto à certeza de sua volta. Feito isto, Hades mandou atrelar os seus cavalos e a levou no se divino carro até Elêusis. À vista de sua filha, Deméter não conteve a sua alegria. Sua primeira pergunta foi a de que se no Hades havia comido alguma coisa. Conformada com o ocorrido, Deméter e a filha passaram muito tempo trocando afago e demonstrações de afeto. Consta que a deusa infernal Hécate, tia da jovem, participou efusivamente do encontro e que Zeus enviou sua mãe, Reia, (e de Deméter também) com a missão de confirmar tudo o que se estabelecera. 

Deméter, como Mater Dolorosa, e sua filha sempre suscitaram nos gregos uma forte religiosidade. O mito grego segue de perto o modelo egípcio, de caráter osiriano, alterando-o, porém, no sentido
SACERDOTISA E INICIADO
de sua “persefonização”. O iniciado nos Mistérios era chamado também de Demetrios, sendo a filha uma forma regenerada, rejuvenescida, da mãe, quando de seu regresso do Hades. Os Mistérios falavam, pois, de um novo nascimento. A passagem de Koré, jovem rapariga núbil, a Perséfone, deusa dos Infernos, significa uma mudança de estado. Durante muito tempo, lembremos, desde tempos muito remotos, o rapto sempre foi considerado como um ritual matrimonial, um equivalente do estupro, um sequestro da alma. Temos o rapto da jovem pelo seu tio paterno e materno, o consentimento do pai (Zeus), a colaboração de Gaia, a grande ancestral, cujas entranhas se abriram para receber a bisneta. A testemunha de tudo isto é Euboleus (Bom Conselheiro), um porcariço que guardava os animais de Hades na Sicília, no local da cena. No momento em que a terra se abriu, alguns porcos desceram, caíram com Koré no Hades, razão pela qual se instituiu um rito de sacrifício de porcos quando das Tesmofórias, grandes festas anuais que se realizavam em homenagem a Deméter. Nessas festas, de caráter exclusivamente feminino, o mito de Deméter era inteiramente dramatizado, fechando-se o ciclo entre a semeadura e a colheita. 



TESMOFORIANTES  ( FRANCIS  DAVIS  MILLET ,  1848 - 1912 )

Numa outra perspectiva (psicológica), o mito nos fala de um animus infernal (Hades), irmão do animus olímpico (Zeus) que encontra a sua anima (Koré), seu complemento. Hades, ao liberar Koré para voltar a Deméter, profere, segundo o poeta, as seguintes palavras: Vai, Perséfone, volta à tua mãe velada de negro; mas guarda em teu peito um humor e um coração serenos. Não te desesperes. É inútil e em vão. O esposo que terás em mim não é indigno de ti entre os imortais; sou o próprio irmão de Zeus Pai. Quando estiveres aqui, reinarás sobre todos os seres que aqui vivem e se movem; terás os maiores privilégios entre os imortais, e serão castigados todos aqueles que te injuriarem no sentido de não se conciliarem com o teu coração através de piedosos sacrifícios e das oferendas que te cabem.” 


DEMÉTER  E  PERSÉFONE
Esta história de Deméter-Koré-Perséfone-Hades é também, numa outra leitura, uma ilustração que os gregos elaboraram, pela via mítica, para nos falar sobre o aparecimento dessa imagem interior no mundo masculino, a personificação feminina do seu inconsciente a que a psicologia profunda dá o nome de anima. Na anima se reúnem todas as tendência psicológicas femininas do psiquismo masculino, os sentimentos vagos, os estados de humor oscilantes, as suspeitas, as inferências, as emoções, a intuição, a sensibilidade para o mundo natural, tudo aquilo enfim que não pode ser objeto de quantificações,  de medições, de valorização objetiva. Neste sentido, Perséfone é, em suma, tudo aquilo que é irracional e ilógico. É neste sentido um poder invisível, distinto da nossa parte consciente. 

Ao se manifestar, esse lado feminino pode tomar diversas formas. Muito comuns as expressões deprimidas, violentas, irritadas, inseguras da anima, quando tomam então um caráter acabrunhante, opressivo, demoníaco, uma ilusão destrutiva muitas vezes. Estas formas sempre  fizeram parte dos mitos, das lendas, da literatura em geral, de contos folclóricos e populares; hoje, estão nos meios de comunicação, em filmes, na ópera, em canções populares, na publicidade, sendo matéria privilegiada de muitos estudos no campo da psicologia. A anima pode tomar aspectos positivos ou negativos. As Sereias da mitologia grega são exemplo da anima  funcionando destrutivamente ao atrair os homens para a perdição ou para a morte. 

EMILY   BRÖNTE
(BRANWELL BRÖNTE)
Esta mesma ideia está presente na mulher com relação ao seu animus, detentor do seu modelo masculino, do seu “homem interior”. O animus é, assim, a personificação masculina no inconsciente da mulher, podendo apresentar aspectos positivos ou negativos, como ocorre com a anima do homem. A influência básica do animus numa mulher tem muito a ver com a figura paterna, uma influência que inclusive pode se chocar a sua própria realidade pessoal. Um exemplo do que aqui se coloca está na figura de Heathcliff, personagem central da

novela de Emily Brönte, Morro dos Ventos Uivantes, transformada num excepcional filme, em 1.939, dirigido por William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon nos principais papéis. Heathcliff é uma figura torturada, demoníaca do animus da autora, espelhada nas figuras do irmão ou do próprio pai.

domingo, 30 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (5)



TRAVESSIA   DO   INFERNO   ( GUSTAVE   DORÉ )

Lugar lúgubre e tenebroso, o Inferno era, na mitologia grega, o refúgio das almas que, separadas de seus corpos, tinham terminado sua existência terrestre. Os gregos antigos desenvolveram duas concepções, que se sucederam, sobre a geografia do mundo infernal. O Inferno, dizia Circe, a maga a Ulisses, se encontra na extremidade do mundo, além do vasto Oceano. O mundo, com efeito, segundo essa concepção, era considerado como um disco de superfície plana, com algumas elevações, que fazia seus limites com um vasto rio circular, uma espécie de serpente líquida. Esta concepção será substituída pela que encontramos em Hesíodo (Teogonia), que define o panteão grego de uma forma ordenada e coerente.


Antes de Hesíodo, sabia-se que era preciso ultrapassar este imenso rio oceânico na direção do ocidente grego para atingir as desoladas regiões infernais. Terra infecunda, de solo ingrato, lugar inabitado, os raios do Sol nunca chegavam a este lugar. Os únicos vegetais que cresciam nesses confins eram os choupos (álamos) negros e salgueiros que jamais davam frutos. Sobre a superfície, aqui e acolá, cresciam asfódelos, flores fúnebres, depois incorporadas aos cemitérios e encontradas ainda hoje nas ruínas do mundo antigo.

A divindade tutelar do rio-serpente que envolvia a Terra era o deus
OCEANO
Oceano. A matéria oceânica, lembre-se, sempre foi considerada um elemento original que apareceu mesmo antes da criação do mundo material. Na mitologia grega, Oceano, palavra que dá ideia de algo circular, como deus, tem na mitologia grega um lugar importante. Filho de Urano e Geia, divindades da primeira dinastia divina, toda criação partia dele e ao final tudo a ele retornava. 

Ele era o pai de todos os rios que alimentam de água os seres humanos e fertilizam a Terra. Tethys, sua esposa, lhe deu uma multidão de filhas, as ninfas conhecidas pelo nome de oceânidas. Tardiamente, foi representado na arte como um velho robusto, com barbas verdes. Ao seu lado, sempre, um corno taurino a simbolizar a abundância poderosa e nutritiva das águas.


OCEÂNIDAS

FOLHAS   DE  CHOUPO
O choupo, acima mencionado, lembre-se, foi também consagrado a Hércules. Quando de seu retorno triunfal do mundo infernal (décimo trabalho), nosso herói ostentava em sua cabeça uma coroa feita com ramos do choupo; as folhas voltadas para a sua cabeça eram brancas e claras como o dia enquanto as que haviam ficado voltadas para o exterior, isto é, para o mundo infernal, eram escuras como a noite. Foi desde então que as folhas do choupo passaram a apresentar um tom diferente em cada um de seus lados. Anote-se, en passant, que, para fabricar os melhores palitos de fósforo, os grandes fabricantes desse produto sempre deram preferência à madeira dessa árvore. O salgueiro, por sua vez, chamado de chorão, por sua própria morfologia, lembrou desde sempre sentimentos de tristeza, sendo considerado como uma árvore típica de cemitérios. Já o asfódelo, igualmente, sempre, entre os povos do Mediterrâneo, ligou-se também aos cemitérios, por seu perfume entorpecedor.


ULISSES  E  TIRÉSIAS
Perto do Inferno concebido pelos gregos vivia um povo estranho, os cimérios (etimologicamente, os que habitam as trevas), cujo território jamais recebia a luz do Sol, segundo Homero, na Odisseia. Ao buscar contacto com Tirésias, para que ele lhe indicasse o melhor caminho para volta à sua pátria, Ítaca, Ulisses passou pela região onde esse misterioso povo vivia. 

A concepção infernal horizontalizada dos gregos não durou muito, alguns milênios talvez. Esta concepção, como se pode concluir, baseava-se em ideias míticas, e não resistiu aos avanços da geografia. Os navegadores antigos, o próprio Ulisses talvez, descobriram que nos confins do ocidente, no oceano longínquo, onde eles haviam localizado o Inferno, havia países. 

Crenças populares já vinham alimentando há muito uma concepção diferente. O Inferno, o mundo das sombras, se situaria na região subterrânea da Terra, uma região escura, trevosa. A associação do mundo infernal com a inumação dos mortos em covas era evidente. A via de acesso para esse mundo, chamado ctônico pelos gregos, não se daria pelo oceano, ou seja, o Inferno foi deslocado dos confins do ocidente para o interior da Terra. O acesso a esse mundo se dava, era a nova e vitoriosa concepção, por grutas, fendas, regiões pantanosas na superfície da Terra, lugares misteriosos, que todos procuravam evitar. 


TÁRTARO

No ponto mais profundo da Terra, na camada mais inferior do mundo subterrâneo, ficava o Tártaro, região tenebrosa jamais atingida pela luz. A distância dessa região à superfície terrestre era igual à da Terra ao Céu, Urano, para os gregos. Entre a Terra e o Tártaro ficava uma região intermediária, o Érebo, as chamadas
DEMÉTER   E   KORE
trevas inferiores, que fazia contraponto com Nix, as trevas superiores, que se situavam entre a Terra e o Céu. Quando o deus do Inferno, Hades, se uniu a uma filha da deusa Deméter, Kore, por ele raptada, foi acrescentada mais uma divisão na geografia infernal. À região situada entre a superfície da Terra e o Érebo foi dado o nome de Bosque ou Jardim de Perséfone, onde passaram a viver diversas divindades menores, mas nem por isso menos maléficas que as “grandes” do Hades. Estas divindades do Bosque de Perséfone, nome que tomou Kore, como rainha do Hades (também nome da região infernal) e esposa do seu rei, invadiam constantemente a superfície da Terra para, literalmente, infernizar a vida dos  pecadores escolhidos.

Com o tempo, criaram-se os demais departamentos infernais: um para sediar o tribunal encarregado de julgar as almas que para lá eram encaminhadas por  Hermes, na sua função de deus psicopompo (condutor de almas). Noutro departamento se colocaram os Campos Elísios, onde ficariam as almas a aguardar uma próxima encarnação, um retorno à vida, lá permanecendo sem  sofrimento algum.  No Érebo, um lugar de permanência provisória, ficariam as almas que deveriam passar por sofrimentos até uma próxima encarnação.


BARCA   DE   CARONTE   ( JOSÉ   BENLLIURE   Y   GIL )

O reino de Hades era cortado por cinco rios, o Aqueronte, palavra que em grego lembra aflição, o Cocito, nome que lembra lamentações, o Piriflegetonte, o das chamas sulfurosas, o Estige, o que provoca horror, e o Lethe, o do esquecimento. O principal era o rio Aqueronte, que devia ser atravessado pelas almas para o seu efetivo ingresso no mundo infernal. As almas, para atravessá-lo, subiam, depois de pago um óbolo, a um barco conduzido pelo barqueiro Caronte, que as maltratava muito. 

Assim organizado, o Inferno propriamente dito começava por uma
CÉRBERO   ( WILLIAM   BLAKE )
região vestibular, o Bosque de Perséfone. Nele eram encontrados os álamos (choupos), os salgueiros e os asfódelos já mencionados. Era preciso atravessá-lo para chegar aos portões do Hades, guardados por Cérbero, monstruoso cão tricéfalo, de latido de bronze, corpo coberto de serpentes, nascido dos amores de Tifon, o maior dos monstros, e de Équidna, horrível figura feminina, a própria imagem da libido insaciável. Cérbero, quando as almas desciam da barca de Caronte para ingressar no Hades, nada fazia, olhava-as com indiferença. Mostrava todavia uma imensa fúria quando alguma delas tentava escapar do reino que gradava.

Há registros de que Cérbero se deixou “corromper” algumas vezes com bolos de farinha e mel, dos quais gostava muito. O deus Hermes conseguia acalmá-lo com o seu caduceu e Orfeu chegou a encantá-lo com a suas canções e a sua lira. Só Hércules ousou se medir com ele e, tendo-o vencido, o conduziu por  um momento à superfície da Terra. Quando de sua subida, com a sua baba pestilenta, Cérbero envenenou certas ervas, que só algumas feiticeiras conheciam para preparar seus maléficos filtros e poções.

Caronte, o barqueiro, que recebia as almas na forma de eidola (aspecto fantasmagórico tomado pelas almas – alma, em grego, é psikhe), era um velho duro e intratável; se não depositada uma moeda na sua mão, ele expulsava impiedosamente a alma, que ficaria condenada a ficar a meio caminho entre a vida e a morte, numa ilha que ficava no meio do rio Aqueronte, a Ilha dos Mortos. Nesta ilha, observe-se, ficavam também aqueles (as almas) que não tivessem passado pela chamada morte ritual (o cumprimento de vários itens, ritualizados para que fossem devidamente recebidos no Outro Lado). 



ILHA   DOS   MORTOS   ( ARNOLD   BÖCKLIN )

Referência especial merece o rio Lethe, cujas águas faziam esquecer o passado. Aquele que retornasse à vida, depois de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elísios, deviam obrigatoriamente beber da água do rio Lethe, para esquecer o que vira e havia vivido no Hades.


 ZEUS  ,  POSEIDON   E   HADES    

O soberano inconteste do Inferno era o deus Hades, irmão de Zeus e de Poseidon. Seu nome deriva de um radical grego que sugere a ideia de invisibilidade. Era chamado eufemisticamente de Plutão (o nome Hades era raramente pronunciado), o rico (ploutos, em grego, quer dizer rico), lembrando essa designação que ele era o “rico de hóspedes”, uma referência à infinita quantidade de mortos que acolhia em seu reino. O adjetivo “rico” referia-se também à enorme quantidade de tesouros que o interior da Terra guardava. Se quisermos mais ainda, numa aproximação psicanalítica, não há como se deixar de relacionar esta concepção do Hades grego com o subconsciente, o mundo subterrâneo do psiquismo humano, lugar ao qual temos de descer para descobrir os tesouros que nele estão encerrados, lugar sempre associado  à escuridão, às trevas.

Foi a partir de todos estes sentimentos, incorporados à vida psíquica do ser humano, que o Inferno passou a simbolizar também o mar noturno do inconsciente que é preciso atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, mas cada vez mais angustiante e restrita, para se chegar a um outro lado qualquer. É nessa perspectiva que o Inferno se liga ao nosso processo de individuação, que começa por uma descida à nossa interioridade, às vezes identificada como uma regressão.

Mais ainda: como reino de Hades-Plutão, o Inferno passou a ser considerado tanto como símbolo do recalque como da fertilidade. Nesta condição, é que entendemos o deus como o pai das riquezas, sendo uma de suas representações mais notáveis a que o apresenta com um corno da abundância nas mãos. O reino de Plutão contém todos os valores criativos de que necessitamos para harmonizar a nossa vida, embora eles sempre estejam mal distribuídos e repartidos. Será preciso trazê-los do inconsciente, fazê-los subir à luz do dia. Para tanto, isto só será possível se descermos aos bas-fonds do nosso eu e dali, depois de o vasculharmos e enfrentar os monstros que nele se escondem, procurarmos voltar à luz. Se em tempos passados esta descida fazia parte do comportamento heroico, hoje ela é raramente empreendida. Não há mais candidatos a heróis solitários. Os que se atrevem a realizá-la, na maior parte dos casos, entregam-se a guias totalmente despreparados para conduzi-los. Acho que não há necessidades de discorrer sobre esta assertiva; basta tão só olhar à nossa volta...

REIA   E   CRONOS   
Hades, também chamado Aidoneus, era um crônida, filho de Cronos e de Reia. Ele reinava sobre o seu domínio de modo absoluto, dele saindo muito raramente. Uma vez, com o assentimento de Zeus e auxiliado pela Grande-Mãe Geia, subiu às terras da Sicília para raptar sua jovem sobrinha Kore, filha de Deméter, que lá colhia flores (narcisos) com as suas amiguinhas. Outra
NARCISOS
vez, foi à procura do deus-médico Paeon para ser tratado de um ferimento no seu ombro causado por Hércules. No mais, se em outras oportunidades resolveu sair de seu reino, nada se pode saber, pois ele, ao usar um elmo que recebera de presente dos Cíclopes, gozava do dom de uma total invisibilidade. 


RAPTO    DE   KORE

Hades-Plutão foi um marido nada infiel. Sabe-se apenas que quando Kore chegou ao Hades, sua adaptação foi muito fácil. Ela assumiu logo, muito consciente para a sua pouca idade, o papel de primeira-dama do mundo infernal. A presteza com que expulsou do Hades uma velha amante do marido que lá vivia, Minthe, ninfa do rio Cocito, é uma prova de sua perfeita adaptação. 


NINFAS   DO   RIO   COCITO

É de se destacar, quanto a este episódio, aliás, que Minthe só foi expulsa porque não se conformou com a chegada de Kore. Aguardou por uns tempos a transformação da jovem em Perséfone e pôs-se sorrateiramente a tentar reconquistar um lugar no leito de Hades-Plutão. Expulsa, ou assassinada por Perséfone, segundo algumas versões, Minthe foi transformada pelo deus numa planta de forte odor, a menta. Outros comentam, numa versão mais aceita, que, já conformada com a perda da filha e até orgulhosa da sua posição real, Deméter interveio. Condenou a menta, como vegetal, a assumir uma dupla reputação. A planta, como se sabe, tem tanto um caráter funerário como aparece em muitas tradições como causadora de esterilidade feminina.

Registre-se mais que Hades-Plutão, muito antes do rapto de Kore, relacionara-se, de modo muito passageiro e inconsequente, com outra jovem, Leuce (Branca), uma oceânida, por ele raptada também. Como ela não era imortal, e expirado o prazo fixado pelas Moiras, ela faleceu tranquilamente no Hades. Para imortalizá-la, o deus a transformou num choupo ou álamo muito branco. Esta árvore passou a enfeitar os Campos Elísios. Foi com as suas folhas que Hércules se coroou ao retornar do mundo dos mortos. 

Antigas tradições mitológicas gregas nos falam  que Leuce se transformou na divindade tutelar da famosa Ilha Branca, situada no delta do rio Danúbio, no Ponto Euxino. É nesta ilha paradisíaca, uma espécie de extensão dos Campos Elísios, que vivem eternamente vários heróis gregos. O mais famoso é, sem dúvida, Aquiles que, com o seu grupo, desfruta de uma vida de prazeres, praticando esportes ligados à arte guerreira e amando nos seus momento de lazer Helena, Ifigênia e Medeia.

Nesse contexto, enquanto Hades era pouquíssimo venerado, Plutão
HOMERO
recebia muito mais homenagens. O primeiro, ao representar uma forma divina destrutiva, sempre apareceu associado ao terror, ao mistério, ao inexorável. Já os cultos plutônicos, por suas grandes ligações com a fertilidade, apareciam muito ligados à deusa Deméter. Para honrá-lo, Homero nos informa que a ele eram sacrificados animais negros, carneiros ou ovelhas. 

Perséfone era a esposa de Hades-Plutão. A etimologia (discutível) admite que seu nome lembra algo que se eleva, evocando uma caminhada, como a dos vegetais depois de rompido o hímen da semente, em direção da luz, embora se reconheça que o nome também aponte para uma ideia de destruição. Isto pode nos sugerir que a deusa não tem características puramente infernais, destrutivas, se levarmos em conta que anualmente ela “subia” em direção da luz para se encontrar com sua mãe, Deméter, a deusa da agricultura e dos grãos. Do trigo em especial.



DEMÉTER

Já se levantou a hipótese que mãe e filha não passavam de uma divindade única, em tempos muitos remotos da mitologia grega. Nessa mesma entidade se concentravam os dois aspectos da vida vegetal, um voltado para a superfície terrestre e outro para o seu interior. A história de Deméter nos conta que ela, não podendo obter de Zeus a posse integral da filha, obteve dele a permissão para que ela permanecesse com ela uma parte do ano (primavera-verão). No outono-inverno, a filha vivia no mundo ctônico, uma ilustração, como fica fácil perceber, da morte da semente.

A este episódio se refere a lenda que as seitas órficas procuraram
PERSÉFONE   E   ZAGREUS
enriquecer, tornando Perséfone mãe de Zagreus-Dioniso. Encerrada no reino do marido, Perséfone se tornou imune às paixões que costumam atingir as outras divindades. Isto porém não impediu que ela viesse a disputar com Afrodite a posse do belo Adônis, divindade da vegetação que morre e renasce anualmente, cujo modelo é o deus Tammuz dos povos semíticos.  

Como divindade infernal, Perséfone tinha por atributos o morcego, a granada (romã) e o narciso. Ela era honrada na Arcádia sob os nomes de Perséfone Soteira e Despoina. Era igualmente honrada na ilha da Sicília. De um modo geral, seu culto nunca se dissociou do de sua mãe Deméter. 

Perséfone, encerrada no mundo infernal, não é senão a imagem dos grãos de trigo, mergulhados no interior da terra na estação outono-
MISTÉRIOS   DE   ELEUSIS
hibernal. Com o retorno da primavera e durante o verão, a germinação das plantas corresponde à volta da deusa para junto de sua mãe. Para celebrar esta volta, Deméter instituiu os chamados Mistérios de Elêusis, que transcorriam entre as festas das flores, as Antestérias, no início da primavera, e o outono. No fundo, uma proposta de morte e de
DIONISO
renascimento simbólicos para aqueles que deles participassem. As principais ideias que fazem parte dessa proposta mistérica, da qual participam como divindades tutelares Deméter (pão) e Dioniso (vinho), são a mulher, o feminino, os ritmos lunares, a semente, o interior da terra, a morte, a escuridão, o retorno e o renascimento. 

Por trás desse pensamento mítico-religioso, como fato inspirador, está a atividade agrícola, que no final do período peleolítico substituiu as relações entre os homens e o mundo animal. Ao ingressar no chamado período neolítico, o eixo da vida social passou a se concentrar muito mais no mundo agrícola que na caça e na atividade predadora dos grupos humanos. Aos poucos, foi se estabelecendo uma solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo da agricultura se carregaram de sacralidade.

As mulheres, a esse tempo, passaram a ocupar um lugar de relevo na vida social, fixando-se um nexo entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Essa mudança ocorreu provavelmente entre 9.000 e 7.000 aC. Ao contrário do que ocorrera no período paleolítico, com a agricultura, o ser humano teve que mudar bastante o seu comportamento. As mulheres tornaram-se responsáveis pela abundância das colheitas, pois tanto conheciam o “mistério” da morte como o do renascimento.

A analogia era inevitável. Destruído o corpo humano (soma, corpo
PSIQUÊ
( EDWARD  JOHN  POYNTER)
físico), desprendendo-se a alma (psiquê), fixou-se em varias civilizações, com base no mundo vegetal, a ideia de morte e renascimento. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí, a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, quando da ocorrência da morte e a destruição do corpo físico, tomava a forma de um fantasma (eidolon) que guardava uma “consciência” latente, podendo ser ativada por certas cerimônias. Era a nekyia, a invocação da alma dos mortos (vide Odisseia).


HESÍODO
Com Hesíodo, séc. VIII aC, passamos a ter uma ideia mais exata do mundo infernal. Abaixo de Geia, a Grande-Mãe, no mais distante dela, ficava o Tártaro, lugar sem volta, para onde iam os grandes criminosos, como se disse. Entre o Tártaro e a Terra, ficava o Érebo, lugar de permanência provisória dos maus. Nos Campos Elísios, ficavam os bons, sem sofrimento algum. 

No Tártaro, havia um compartimento denominado “O Inferno dos Maus”, lugar terrível, para onde iam aqueles que haviam cometido os piores crimes: contra os deuses, a família, a hospitalidade e contra a pátria. Era um lugar de torturas e lamentações. Era nele que as almas ficavam submetidas a castigos eternos, mergulhadas alternativamente em situações de calor e frio extremos. Nenhuma esperança de retorno, de fuga ou consolação. Tudo era triste, mecânico, repetitivo.

O Tártaro era na realidade uma prisão horrível onde eram lançados
CÍCLOPES
( CORNELIS   CORT )  
aqueles que cometiam sobretudo o pecado da hybris, da desmedida, do excesso, que, personificada, passa por filha da Koros, o Desdém. À expressão física da hybris os gregos davam o nome de Hamartia. Os primeiros a visitar o Tártaro foram os Cíclopes (Brontes, Estéropes e Arges), para lá enviados por Urano. Libertados por Cronos, que venceu o pai, logo foram devolvidos ao Inferno pelo seu libertador em companhia dos seus outros irmãos, os gigantescos Hecatônquiros, os gigantes de cem mãos.

Lembremos que para vencer os Titãs, chefiados por Cronos, Zeus teve que se unir aos Cíclopes, dos quais recebeu as armas com as quais conquistaria o universo: o trovão, o relâmpago e o raio. Ao longo dos milênios, para o Tártaro foram enviados os grandes criminosos, lá se encontrando Tântalo, Sísifo, Ixion, as Danaides, Titio, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros. 

Tântalo, filho do próprio Zeus e de Pluto, uma ninfa, era rei da Frígia. Ao trair a confiança dos deuses (para testar a onisciência dos deuses serviu-lhes num banquete o próprio filho, Pelops), foi, depois de muitos outros crimes antes cometidos, condenado a sofrer o suplício da fome e da sede eternamente. Sísifo, rei de Corinto, o mais astuto dos mortais, um dos pais de Ulisses, além de outros muitos crimes, tentou enganar Thanatos, a Morte. Foi condenado a rolar eternamente montanha acima uma enorme pedra, na vã esperança de um dia empurrá-la para o outro lado. Ixion, neto de Zeus, cometeu um dos crimes mais hediondos que um ser humano ou mítico poderia praticar: não respeitou a hospitalidade que Zeus lhe ofereceu e tentou investir sexualmente contra Hera, a Senhora do Olimpo. Ixion tornou-se o pai dos centauros, uma raça maldita. Está no Hades, preso a uma roda de fogo a girar eternamente. 


DANAIDES  ( FRANS  DE  BOEVER )

As Danaides estão no Tártaro para toda a eternidade, a encher com água,  tonéis sem fundo. Seu crime: assassinaram os seus maridos. Titio, um gigantesco filho de Zeus, que, sob instigação de Hera, pôs-se a perseguir Leto com quem Zeus se unira para torná-la mãe dos luminares, Ártemis e Apolo. Salmoneu, filho de Éolo, extremamente descomedido, tentou ser, entre os mortais, o que Zeus era entre os imortais. Foi fulminado e lançado no Tártaro. Os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon, possuídos pela hybris tentaram assaltar o Olimpo. Foram mortos por Zeus e lançados no Tártaro, onde se encontram até hoje, amarrados com serpentes a
OS   TITÃS
uma coluna, tendo junto aos ouvidos uma coruja que lugubremente pia sem cessar, dia e noite. Por fim, os Titãs, divindades da segunda dinastia, filhos de Urano e Geia, chefiados por Cronos, foram vencidos por Zeus e seus irmãos, os futuros olímpicos, na famosa batalha denominada de Titanomaquia;  Zeus os lançou no Tártaro. Mais tarde, como se sabe, Zeus libertou seu pai, Cronos, que emigrou para a Itália.

O Tártaro sustentava os fundamentos da Terra e dos mares e nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. Era um lugar onde a luz jamais poderia chegar. Era um lugar de torturas e lamentos. Aridez, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Mergulhadas alternativamente nesses tanques, para sofrer o frio e o calor extremos, as almas, quando não estavam nessa situação, permaneciam presas às chamadas “cadeiras do esquecimento”. Nenhuma esperança de retorno, de fuga e muito menos de consolação. 

O Érebo  (obscuridade) era a camada intermediária, como vimos, constituindo as trevas inferiores por oposição e complementares às de cima, representadas por Nix, a grande deusa da Noite.  Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, onde ela vivia em companhia de dois de seus numerosos filhos, Thanatos e Hipnos, a Morte e o Sono. O Érebo era um lugar de permanência provisória (100 anos, segundo algumas tradições), onde as almas, por crimes menos graves, depois de julgadas e condenadas, ali ficavam em meio a grande sofrimento aguardando seu retorno ao mundo dos vivos.


HESPÉRIDES  ( HOWARD  DAVIE )

O território preambular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através de entradas na superfície da Terra era, como vimos, o Bosque de Perséfone (uma zona de transição entre o consciente e o inconsciente, numa leitura psicanalítica). Nesse lugar, logo nos seus limites mais próximos da Terra, numa advertência muda aos que desciam, havia três grandes árvores, o cipreste, o salgueiro e o álamo. Associavam-se essas árvores, na Terra, às três ninfas do poente, as Hespérides, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo). Isto é, a Brilhante, a Vermelha e a do Poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar, significando, respectivamente, Amor (Doação), Desapego (Sabedoria) e Compaixão (Serviço).

O Bosque de Perséfone era lúgubre, iluminado muito precariamente, nada se distinguindo nele, a rigor. Situado entre a
HÉRCULES  E  GERAS
superfície da Terra e o Érebo, ali viviam espectros. Fantasmas, seres que se haviam fixado num estado entre a vida e a morte. Dentre esses espectros, representados por divindades alegóricas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Koros (Desdém, Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia), sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Até (Erro); Penia (Pobreza), Strofe (Chicana), cujo templo ficava no Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. 

Compartilhando o território com as entidades acima, com a mesma importância ou até maior, perambulavam por ele divindades e
ERÍNIAS
monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équina. No centro do Bosque, havia uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte. De sua madeira eram feitas as varas de punição, tudo o que as referidas entidades, usavam para açoitar e vergastar a triste raça dos mortais.

HÉCATE
Junto do palácio de Hades-Plutão vivia Hécate, a que “fere de longe”, deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da Terra, para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, ela tinha correspondência com a Lua Nova. Presidia as aparições de fantasmas e espectros, sendo tanto a senhora dos benefícios como dos malefícios. Devidamente reverenciada, sempre aparecia ligada aos cultos lunares de fertilidade. A aparição da deusa nas noites de Lua nova lembra que as encruzilhadas são tanto lugares de parada e de reflexão como da escolha que se deve fazer de direções que mudam destinos. Nesse sentido, a encruzilhada é também o lugar onde é possível a alguém desfazer-se do passado para assumir uma nova personalidade.