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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ÁRIES (1)

       
  
          

O signo de Áries ou do Carneiro tomou lugar como ponto de partida do Zodíaco no de 1.662 aC, sendo chamado desde então de Princeps Signorum Coelestium, a constelação que surgia com o Sol no primeiro dia da primavera, símbolo da ressurreição. Ela está situada a oriente de Pegasus, o cavalo alado, gerado por Poseidon e pela Medusa. Três estrelas formam o seu chifre e focinho, um triângulo, a ocidente das Plêiades. A parte superior do carneiro se liga à traseira da constelação do Touro. Nas gravuras, desde a antiguidade, Áries é representado de modo a que observe tanto a constelação que lhe segue, Touro, como todas as demais. Outras gravuras mostram o Carneiro com a sua cabeça voltada para o planeta Marte, ambos fortemente associados.

Os mesopotâmicos consideravam Áries como o signo-chefe do
ÁRIES
Zodíaco, chamando-o de Iku (herói, líder militar), nome retirado de sua principal estrela, Hamal, equivalente ao nome Rubu (príncipe). Os astrônomos do país também chamavam esta constelação de Gam, A Cimitarra, a espada de lâmina curva. Áries foi adotado pelos babilônicos quando assumiu a condição de ponto de partida do equinócio vernal, ocupando uma posição, como se disse, entre Pisces e Pegasus. 







TAMMUZ - RELEVO 1500 AC
Os povos que viviam entre os rios Tigre e Eufrates associavam ao signo de Áries o mito de Tammuz,  O Filho da Vida, aquele que retorna sempre trazendo a primavera. Contam os mitos que na juventude a deusa Ishtar amou Tammuz, o deus da energia vital que voltava a cada ano com a vegetação.  Segundo o poema de Gilgamés, este amor causou a morte do jovem deus. Tomada por imensa dor, apesar de suas lamentações, elaborou a deusa um audacioso plano para libertar seu amor da morte. Os gregos, como sabemos, retomariam esta história através do mito de Adônis, transferido da Fenícia para a mitologia grega.

Na sua origem mesopotâmica, a mito nos conta que, morto
ISHTAR
Tammuz, Ishtar resolveu descer aos infernos, “o lugar de onde não se volta”, para resgatá-lo. Conseguiu ela abrir os portões infernais e ultrapassar os seus sete patamares descendentes, deixando em cada um deles, à medida que descia, uma peça de sua roupa ou uma joia que usava: primeiro a sua grande coroa, depois seus brincos, seu colar, suas vestes, seu cinturão guarnecido de brilhantes, os braceletes e os cordões de pedras preciosas dos seus tornozelos. Por fim, na última etapa, se despiu inteiramente, como diz o mito, deixando no chão as “vestes do pudor de seu maravilhoso corpo”. 

ERESHKIGAL
Chegou então diante de Ereshkigal, a Senhora dos Infernos, atirando-se sobre ela. Chamando seu assessor, Namtaru, a rainha do mundo infernal deu-lhe ordens para prender a deusa, fechando-a num palácio, e mandando que liberasse para atacá-la os demônios das doenças. Aprisionada a deusa, logo a desolação se espalhou por toda a Terra e pelo Céu, tudo tomado por uma imensa tristeza. Os deuses, apavorados, se reuniram para decidir. Ea, uma espécie de Poseidon mesopotâmico, criou então Asushunamir, o efeminado, deu-lhe instruções mágicas e o mandou libertar Ishtar.
ASTARTE

Magia contra magia, a de Ea era a mais forte. A deusa e Tammuz foram libertados. A fertilidade voltou à Terra. Ishtar é, entre os assírios e babilônicos, a soberana inconteste das artes do amor. Popularíssima na Ásia Menor, tomou o nome de Astarte na Fenícia e forneceu muitos dos seus traços para a Afrodite grega. 

Tammuz (Mesopotâmia), Dummuzi (Suméria), Átis (Anatólia) e Adônis (Fenícia-Grécia) representam o mesmo modelo,  o de uma divindade ligada ao ciclo da vida vegetal, deus morto e ressuscitado anualmente, o mundo vegetal que renasce a cada ano na primavera. São todos deuses que, em várias religiões e culturas, representam o ciclo anual da vegetação; desaparecem no fim do verão, indo para o
CIBELE
mundo subterrâneo, de onde voltam, ressurgindo periodicamente. Dummuzi é o amante da deusa Inana, depois Ishtar. Átis é um deus anatólio da vegetação, companheiro, servidor e amante da deusa Cibele, Grande-Mãe da Ásia Menor, cujo culto chegou a se alastrar por quase todo o  mundo mediterrâneo, alcançando inclusive Roma. Os ritos de Cibele-Atis tinham caráter orgiástico, eram dominados por paixões violentas e estranhas, deles fazendo parte cerimônias de castração e sacrifícios sangrentos (taurobolium), que simbolizavam a fecundidade pela morte. 
 

Tammuz, como se disse, é o “Filho da Vida” e seu culto, oriundo primeiramente da Mesopotâmia e depois da Fenícia,  aparece na Grécia, onde o deus toma o nome de Adônis (adon quer dizer senhor).  Grande amor de Afrodite, Adônis, foi assassinado pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um monstruoso javali. Narram os mitos gregos que tudo começou quando Teias, rei da Síria, teve uma filha de nome Smyrna ou Smine (Esmirna), antigo nome da cidade de Éfeso, derivado por sua vez, segundo o mito, do nome de uma amazona que havia conquistado a região. 

Possuída por imensa hybris, julgou-se Smyrna mais bela que a deusa do amor. Foi punida terrivelmente por Afrodite, que a fez perde-se por incontrolável paixão carnal pelo próprio pai. Conseguiu a princesa se relacionar com Teias, insinuando-se no seu leito, sem que ele percebesse. Depois de certo tempo, o pai, contudo, tomou conhecimento de que a filha o enganava e tentou matá-la. Pedindo a proteção dos deuses, a princesa foi transformada numa árvore a que se deu nome Mirra. Meses depois, na casca da árvore desenvolveu-se um feto que, vindo a termo, foi recolhido
MIRRA
por Afrodite e confiado secretamente a Perséfone, rainha do Hades, para que dele cuidasse. A mirra, lembre-se, é o nome de um vegetal cuja casca exsuda uma resina aromática, rara e valiosa, muito usada na antiguidade pelos povos do Mediterrâneo na perfumaria, como incenso, e para fins medicinais. Entre os egípcios, a mirra era um componente muito importante, além de usada nas práticas da mumificação e nos cultos de Osíris, daquilo que os gregos chamavam de kyphi, o perfume dos deuses. 

AFRODITE  E  ADÔNIS
Tempos depois, indo buscar a criança, já um formoso jovem, Afrodite não conseguiu fazer com que Perséfone o devolvesse. A disputa foi arbitrada por Zeus. Ao final, ficou decidido que o jovem passaria uma parte do ano com Perséfone no reino dos infernos (quatro meses), no mundo subterrâneo, e o restante do ano com Afrodite, na superfície. 

Tudo corria bem até que num certo dia o lindíssimo jovem resolveu ir à caça, não conseguindo Afrodite demovê-lo de tão perigoso intento. Adônis foi atacado e ferido mortalmente pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um enorme javali, que não suportou vê-la com novo amor. Ao tentar socorrê-lo, a deusa pisou num espinho. De seus divinos pés caíram gotas de sangue que tingiram de vermelho uma branca e perfumada flor, que a partir de então passou a simbolizar o amor, a rosa vermelha. 


ADÔNIS  E  AFRODITE   ( CORNELIS  PIETERS  HOLSTEIJN )

A pedido de Afrodite, Adônis foi transformado por Zeus numa flor primaveril, a anêmona (palavra que significa vento, em grego) delicada e frágil, que fenece rapidamente. Esta história se liga
ANÊMONA
(ADÔNIS AESTIVALIS)
obviamente ao ciclo das estações, ilustrando a luta entre Afrodite e Perséfone o nascimento (primavera) e a morte (outono) do mundo vegetal. A morte desse deus oriental da vegetação era solenemente celebrada na Ásia Menor através dos famosos Jardins de Adônis, com grandes procissões e lamentações rituais (para maiores informações sobre o mito Afrodite-Adônis e os famosos jardins aqui mencionados, veja, neste blog, Mitologias do Céu - Vênus 3). 

Astrologicamente, a história de Afrodite-Adônis é uma ilustração do que acontece anualmente na natureza, através do eixo equinocial, quando a energia universal, sempre considerado o hemisfério norte, inicia em março a sua caminhada expansiva ao transitar o Sol pelo signo de Áries (início da primavera) e, seis meses depois, em setembro, esta energia  ao passar o Sol pelo signo de Libra (início do outono) começa a morrer.  

Entre os judeus, na antiguidade, Nissan é o nome do signo de Áries,
criado através da letra Heh. Dentre os atributos deste signo, entre os antigos judeus, está o do poder da palavra, do som primordial. No Talmud, estabelece-se que a letra Heh caracteriza o divino primeiro ato da criação, que corresponde ao elemento fogo. O signo de
PESSAC
Nissan, no corpo humano, relaciona-se com a cabeça, que deve controlar o corpo como o rei controla seu reino. O elemento fogo encontra expressão no sacrifício do cordeiro nas festas do Pessach. Era Nissan o signo que marcava o início do ano oficial, coroando-se nesse período os reis. 

O mês de Nissan sempre foi considerado como o mês que marca o início da formação da nação judaica. Este processo principiou na véspera do êxodo do Egito, culminando ele com o recebimento, no terceiro mês (Sivan – Gêmeos), da Torá (Ensinamento) na forma de
MOISÉS
mandamentos, no monte Sinai. Os judeus consideravam que a formação nacional judaica ocorrera nos três signos que constituem o primeiro quadrante zodiacal. Áries, o carneiro, simbolizava a unidade e a coletividade, considerando-se, além disso,  que num rebanho de carneiros cada um dos animais é (deve ser) idêntico ao outro. Assim como um rebanho de carneiros segue seu pastor, o povo judeu deve aceitar a autoridade de Moisés, o pastor. O segundo mês, Iyar (Touro) simboliza a individualidade; a ideia aqui é a de que, assim como o boi, que vive isolado, cada um dos judeus deve procurar voltar-se para o seu interior (introspecção), buscando auto-desenvolvimento, como uma preparação para o recebimento das leis.

Foi durante o mês de Nissan que o povo judaico se integrou numa comunidade, como os carneiros se integram num rebanho. Entretanto, foi também no mês seguinte que os judeus expressaram também a sua rebeldia, quando no deserto do Sinai se rebelaram contra Moisés e Aharon. As leis só foram dadas ao povo judeu no terceiro mês, Gêmeos, mês de um signo humano, pois os anteriores são signos animais. Para a Torá, Nissan é o mês da primavera (aviv), nele se encontrando ideias de desenvolvimento e de maturação. 

Para os antigos judeus, Nissan era também o signo que descrevia a nação egípcia, a mais poderosa de então. Na sua expressão negativa, o signo apontava, segundo os judeus, para tendências ditatoriais e atitudes agressivas, características, segundo eles, do faraó e dos egípcios em geral, que acreditavam só em si mesmos, egoístas e prepotentes. 

A saída do Egito é celebrada pelos judeus pela festa do Pessach
CALENDÁRIO  LUNAR  JUDAICO
(uma das etimologias desta palavra é “passar sobre”), relacionada com a liberdade e apontando para a redenção do mundo na idade do Messias. É também esta festa a da colheita da cevada e o fim da estação das chuvas. Lembre-se: sempre que necessário, o calendário lunar judaico deve ser ajustado com o acréscimo de um mês extra, para que o Pessach caia sempre na primavera. 


Durante toda esta festa não se come o pão levedado. Um dia antes do início da festa, a casa deve ser limpa de todo levedo, após uma busca de todas as migalhas que possam estar escondidas em qualquer canto ou fenda. A festa tem a duração de sete dias e começa no anoitecer da véspera de quinze de Nissan, a noite do Êxodo, com a refeição ritual da família. Nessa refeição se relata a historio do Êxodo; há tipos especiais de comida e bebida (vinho, pão ázimo, ervas amargas). A festa termina simbolicamente com o cruzamento do mar Vermelho pelos judeus, lendo-se então o Cântico dos Cânticos.


CÂNTICOS   DOS   CÂNTICOS   ( MARC  CHAGALL )

Durante o Pessach, os judeus proíbem, como dissemos, o consumo de qualquer comida que contenha fermento, pois este produto
MATSÁ
simboliza o orgulho. É durante este período que os judeus devem comer o matsá, pão não levedado ou pão ázimo, feito só de farinha e água. Este pão é chamado de “pão da aflição” porque foi comido por judeus, na condição de pobres e escravos, alimento também consumido durante todo o Êxodo. O matsá simboliza humildade e pureza, livrando do egoísmo e da agressividade.

Dentre as doze tribos de Israel, aquela que se associa à de Nissan é a de Yehuda (Judá), de David. Rei de Israel e descendente de Rute, a moabita, convertida ao judaísmo, David começou como pastor em
BETSABÁ  ( REMBRANDT )
Belém (a casa do pão) e o desvelo que demonstrava ao cuidar dos rebanhos de carneiros mostrou a Deus que ele poderia assumir o trono de Israel. David foi um rei guerreiro que ampliou as fronteiras do reino que herdou. A esposa favorita de David foi Betsabá, que lhe deu um filho, Salomão, seu sucessor. Na Cabala se explica que a principal característica de um rei deve ser a humildade, conceito que está implícito no nome de David. Etimologicamente, este nome significa o “Bem-Amado” e anuncia a vinda do Messias, que se dará pela linhagem de David.

David sempre apareceu ligado ao carneiro, cujas tripas ele utilizou para delas fazer as cordas de sua harpa. O nome David tem dentro
REI  DAVI  TOCA  HARPA
( GERARD VAN HONTHORST )
dele raízes indo-europeias que significam conduzir (vadh, ved) e dizer (wod). Para o judaísmo, aquele que comanda é aquele que fala, que brilha e arde. As consoantes dv geram um “calor doloroso”. Segundo a Nomancia, que faz a criptoanálise de nomes, David é nome que sugere força de trabalho colocada a serviço de projetos ambiciosos, aspirações elevadas, som a possibilidade de risco de perda do poder criador em projetos pouco significativos ou rotineiros. Há no nome David iniciativa e autoridade, grande necessidade de movimento, de encontros e de mudanças. É um nome contrário à obediência e à passividade, podendo por isso trazer infelicidade, caprichos e extravagância. Há que se ter, com o nome, cuidado com escolhas demasiadamente materialistas ou egoístas.

O carneiro à frente do rebanho é considerado pelos judeus como símbolo daquele que comanda. Esse carneiro, enquanto caminha, vai balindo e se ouve mehh, um som onomatopaico, que os hebreus traduzem pela expressão “quem somos nós?” É por essa razão que a tribo de Judá foi a primeira a iniciar a caminhada através do deserto quando do Êxodo. Coube às outras tribos segui-la, segundo a ordem zodiacal. Outro, aliás, não é o significado do Pessach (Peh+Sach), a boca fala, segundo a Cabala. O poder da palavra aparece aqui associado ao que comanda, ao chefe, o que tem voz e que está à cabeça. Antes porém do chefe proferir a palavra, a ordem, é preciso o julgamento, que está no signo oposto.


Segundo o Sefer Yetzirah, O Livro da Criação, o limite do corpo humano está associado ao signo de Nissan, sendo esse limite representado pela perna direita. A perna favorece contactos, suprime distâncias, tendo, por isso, importância social. É com a perna direita que devemos dar o primeiro passo (começar algo com a perna esquerda é ruim), sendo ela considerada por muitas tradições como o agente formador das sociedades. É a perna direita “obreira do social”, a que cria os laços sociais, sendo o pé, com todo o seu simbolismo, o “senhor da chave”. A cabeça, de Áries, deve trabalhar com o pé (símbolo do último signo zodiacal), sendo, nesse sentido, opostos e complementares. A perna e o pé tanto significam o início de alguma coisa como o seu fim. Partida e chegada.


Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como símbolo astrológico-religioso. O chofar, pequena trompa feita com chifre de carneiro, já era empregado em rituais religiosos e ainda é usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur (dia do perdão), antes e durante o Rosh ha-Shana (ano novo). 

No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa, comemorativa da ressurreição de Cristo. O concílio de Niceia (325) a fixou no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia seguinte
EASTRE
ao equinóxio da primavera. Esta festa sempre foi celebrada por todas as tradições, não só judaicas ou católicas. Entre os saxões, por exemplo, foi Eastre, deusa da primavera e do renascimento da natureza, que deu origem à palavra easter, páscoa, em inglês. Esta deusa tinha o coelho por atributo. As fogueiras da Páscoa simbolizam a vitória da luz sobre as trevas (o retorno do Sol). Os antigos germânicos acendiam suas fogueiras em homenagem a Thor, que lhes trazia de volta a primavera. Extintas as fogueiras, as cinzas eram recolhidas e lançadas sobre os campos, a fim de se torná-los férteis. Esta ideia de fertilidade se associa também ao costume da distribuição de ovos na Páscoa, símbolo do renascimento periódico da natureza.

Na Inglaterra, corre a crença, se a véspera do dia em que a festa da Páscoa coincide com o dia da Anunciação (25 de março), uma
NOSTRADAMUS
grande catástrofe se abaterá sobre o país. Aliás, segundo uma previsão de Nostradamus, quando o dia da Páscoa coincidir com o dia de São Marcos (25 de abril) e, por consequência, a Sexta-Feira Santa coincidir com o dia de São Jorge (23 de abril) e a festa de Corpus-Christi coincidir com o dia de São João Batista (24 de junho), teremos o fim do mundo. Estas datas coincidiram nos anos de 1.666 (ano do grande incêndio de Londres), em 1.734, em 1.886 e 1.943, anos de catástrofes.  

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( LASTMAN  PIETER , 1583 - 1633 )

Relacionada com o carneiro temos, entre os judeus, a história de Isaac, o filho primogênito do patriarca Abraão e de Sara, este submetido ao teste da obediência (akedá), também chamado de “amarração”. Tal teste consistiu numa ordem dada por Deus ao patriarca para que ele oferecesse seu filho em sacrifício no monte Moirá. Nos momentos finais da cerimônia, quando Isaac estava para ser morto, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão, colocando no seu lugar um carneiro. Após a traumática experiência da akedá, Isaac retirou-se da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu e visto Deus enquanto estava amarrado no altar de sacrifício. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte quando da cerimônia. 




domingo, 25 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (3)


ADÔNIS

O mito mais completo e conhecido das divindades fenícias do primeiro milênio antes de Cristo, ao qual já nos referimos, é o de Adônis. Por ele, ficamos conhecendo a Afrodite fenícia, de nome Astarte. Adônis entre os fenícios aparece como uma espécie de sucessor de Aleyin e Mot. Estes eram, nos poemas de Ras Sahmra, duas divindades da vegetação que lutavam entre si anualmente.


ASTARTE

Mot, filho de El, grande divindade solar, era o espírito da colheita. Seu tempo era o verão, período em que os grãos ficavam maduros e deviam ser colhidos. Num combate, ele será vencido por Aleyin,
BAAL
filho de Baal, o maior dos deuses depois de El, sendo sua atribuição a de alimentar os cursos de água. É o espírito das fontes, aquele que favorece o desenvolvimento da vegetação, que cresce e se desenvolve na estação das águas. Era honrado através de monumentos  chamados pelos gregos de memnonia, levantados na foz dos rios da Fenícia, lugar onde eram celebradas as cerimônias em homenagem aos mortos. Aleyin, aquele que “cavalgava as nuvens”, morrerá também, por intervenção da deusa Anat, já que o risco de catastróficas inundações precisava ser contido.



NASCIMENTO DE ADÔNIS

Nascido de uma árvore (mirra) na qual sua mãe havia se transformado, Adônis era de uma beleza sem igual. A história aqui narrada se passa na Síria, onde a filha do rei Teias, pretendendo-se mais bela que a deusa do amor (Astarte, Afrodite), foi por ela punida. A punição consistiu fazê-la alimentar uma paixão incestuosa pelo pai, o rei Teias. Unindo-se a ele, por noites sucessivas, na escuridão do seu quarto, a princesa acabou sendo descoberta e condenada à morte pelo pai. Rogando aos deuses, foi por eles atendida, sendo transformada na mirra. A criança, lindíssima, como se disse, saltou do caule da árvore no tempo devido, sendo recolhida por Astarte (Afrodite). 
  
A mirra é uma árvore espinhosa que pode atingir cinco metros de altura, com flores vermelho-amareladas, de cuja casca provém uma resina especialmente usada na medicina e na produção de incenso
MIRRA
desde a antiguidade, considerada rara e valiosa. Nas línguas semíticas, mirra vem do adjetivo amargo (mar, em hebraico). A mirra é muito conhecida por suas propriedades antissépticas, sendo muito usada pelos egípcios nos rituais de mumificação. Desde fins da Idade Média, vem sendo usada em missas, funerais e cremações como incenso, tanto como purificação como meio de ligação terra-céu. Na história cristã dos três reis magos que visitaram Jesus quando do seu nascimento, a mirra aparece como um dos presentes por eles levados. No caso, por sua relação com o embalsamamento, como os egípcios a usavam, a mirra simbolizou o renascimento. Consta que em exames do santo sudário nele foi constatada a presença de mirra. O sudário, como se sabe, é uma espécie de lençol que serve para envolver cadáveres, mortalha. O santo sudário aqui referido teria sido um pano usado para limpar o suor e o sangue que saía dos ferimentos de Cristo, quando da sua crucificação, pano no qual seu rosto ficou impresso.

Encerrada numa arca, a criança foi entregue por Afrodite a Perséfone. Mais tarde, ao tentar recuperá-la, Afrodite viu seu intento negado. A disputa acabou arbitrada por Zeus, sendo decidido que o agora belíssimo Adônis passaria um terço do ano com Perséfone, outro terço com Afrodite e outro terço conforme desejasse. O jovem não titubeou, optando logo pela companhia de Afrodite. 


AFRODITE  E  ADONIS

O mito nos conta que Adônis gostava da caça, paixão da qual Afrodite sempre procurara demovê-lo. Certo dia, porém, quando se entregava à sua paixão venatória, Adônis foi atacado por um imenso javali e ferido mortalmente. Esse javali não era outro senão o deus Ares, antigo amante da deusa, que inconformado por não mais ser admitido no seu divino leito, atacou furiosamente o belíssimo jovem. Ao correr para socorrê-lo, Afrodite pisou num espinho. Dos seus formosos pés, alguma gotas de sangue caíram sobre pétalas de algumas flores brancas que floresciam ao lado do corpo do infeliz jovem; de imediato, essas flores se tornaram inteiramente vermelhas, passando elas desde então a simbolizar o amor. Na linguagem das flores, como se sabe, as rosas de pétalas brancas têm a ver com o amor suspiroso, não correspondido. As vermelhas, desde então, passaram a representar o amor apaixonado.


AFRODITE SOCORRENDO ADÔNIS

A rosa sempre apareceu nos mitos da região mediterrânea e da Ásia Menor como símbolo do amor que vence a morte e do renascimento. No Egito, por exemplo, a rosa era muito usada nos Mistérios de Ísis como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal, tornando-se o Egito, como se disse, o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade. É de se registrar ainda que, no mundo inteiro, os grupos esotéricos que usam a rosa em seus ritos de iniciação cunharam a expressão “sub rosa” para designar a transmissão de conhecimentos que não podia ser divulgada exotericamente. 


SUB  ROSA

Divindade do mundo vegetal, espírito da vegetação que, como Aleyin se manifesta nos grãos dos cereais, Adônis, no mito grego, era conhecido como Adoni, meu senhor, meu mestre, nome que as mulheres fenícias repetiam sem cessar, como lamentação, nas festas em homenagem ao deus. Na Bíblia, Ezequiel chama Adônis de Tamuz, este divindade mesopotâmica da vegetação e do grão. 



ADÔNIS  MORTO

O culto de Adônis estava difundido por toda Fenícia, mas era em Biblos que acontecia a sua celebração mais pomposa. Perto de Biblos e de Baalbek, elevava-se um suntuoso santuário levantado em honra a Astarte, destruído mais tarde pelo imperador Constantino, quando definiu o cristianismo como a  única religião do império romano. As mulheres fenícias, a cada ano, celebravam a volta do deus a estes lugares no final da colheita. 




Os gregos davam o nome de Adonias a estas festas. Imagens do deus em cera ou em terracota eram colocadas na entrada ou nos terraços das casas; as mulheres iam para as ruas da cidade, proferindo as suas lamentações, cabelos desgrenhados, golpes de mão no peito, tudo para demonstrar a sua grande dor; dançavam e cantavam ao som das flautas curtas e estridentes (giggros), muitas usadas em cerimônias fúnebres. 

Foi o maravilhoso poeta grego Teócrito (sécs. III-II aC) quem nos deixou uma descrição destas festas, celebradas com grande pompa
oriental, como ele as viu em Alexandria, no palácio de Arsinoé, esposa do imperador Ptolomeu-Philadelpho. O poeta nos descreveu os famosos Jardins de Adônis do palácio de Arsinoé, extensos terraços, onde em enormes caixas rasas eram cultivadas rosas, irrigadas com água quente para que florescessem mais depressa. Nesses jardins eram também cultivadas, em nome do deus, outros vegetais que também germinavam e cresciam  rapidamente, o funcho, o centeio, o trigo e sobretudo a alface, que tinha um papel importante no culto de Adônis. 

O mito nos informa que tendo recolhido o corpo inerte do seu infeliz amante, Afrodite o depositou num leito de prata recoberto com um manto púrpura e com folhas de alface. Ao lado do leito, vasos com perfumes raros, frutos, mel, bolos e inúmeras corbeilles de rosas. Os vegetais acima mencionados, morrendo logo, pelo fato de produzidos da maneira apontada, não tinham raízes, nada que os prendesse à Terra, sendo considerados como emblemas da efêmera existência de Adônis. Os Jardins de Adônis, assim artificialmente criados, eram expostos com imagens do deus, sendo depois jogados no mar ou nas fontes. A alface, usada em banquetes funerários, era considerada na antiguidade um alimento nefasto; ingerida em excesso, provocava a impotência, impedia a concepção ou, no caso de mulher grávida, tornava imbecil o filho. Era também usada para combater a concupiscência.

Entre os fenícios, Astarte era a mais importante deusa feminina como dona da fertilidade, da sexualidade e da guerra, adorada principalmente em Sidon, Tiro e Biblos. Do seu culto, muito diversificado, faziam parte ritos de natureza sexual e libações. Suas principais festas se realizavam no equinócio da primavera. Consta que o rei Salomão entregou-se ao seu culto, mandando inclusive levantar um templo em sua homenagem.

A história de Adônis foi introduzida na Grécia principalmente pela via poética, passando a fazer parte dos mitos ligados a Afrodite. 
O tema sempre inspirou poetas das mais diversas correntes. Do original mesopotâmico, passamos ao fenício e deste ao grego. Poetas como Bion de Esmirna e Ovídio, poeta latino, enriqueceram a histórico do jovem deus com variantes. O primeiro, do início do séc III dC, deixou-nos O Epitáfio de Adonis, inspirado por Teócrito (As Mulheres na Festa de Adônis). Ovídio, do início da era cristã, fala-nos de Adônis no décimo livro de suas Metamorfoses.

A história de Adônis chegou à Grécia pelo caminho das ilhas do Egeu. Quem pela primeira vez abordou o tema parece ter sido Safo,
SAFO
a grande poetisa de Lesbos. Apoderando-se dele, as mulheres gregas o difundiram, mas não escaparam do deboche dos comediógrafos machistas de então (séc. V aC). Foi por essa época que Plutarco, o historiador, escreveu sobre os Jardins de Adônis, ganhando o culto uma expressão espetacular em Alexandria. 


A história de Adônis, ao longo dos séculos, desde a antiguidade grega, sempre seduziu os poetas, principalmente. No Renascimento,
RONSARD
com a volta do mundo greco-romano, o lado caçador de Adônis é destacado, notando-se uma clara preferência pelo aspecto lunar de sua personalidade (da deusa Ártemis) e empobrecimento do seu aspecto venusiano, sendo esquecida inclusive a tragédia de Mirra. Franceses (Ronsard e La Fontaine), ingleses (John Milton e Spenser), espanhóis (Lope de Veja e Calderón de la Barca), ingleses (John Keats e Percy Shelley), italianos (G.B. Marino e Gabriel d´Annunzio) e franceses (Gustave Flaubert, Gérard de Nerval e Ernest Renan) se apoderão do tema, levando-o, alguns, para o teatro.


Os primitivos gregos, bem antes da “chegada” de Afrodite à região mediterrânea oriental, vinda da Ásia Menor, parecem ter tido uma divindade do amor, que não deixou traços. O que temos de mais certo quanto ao tema é que a irradiação dos cultos de Ishtar e de Astarte fez da deusa grega do amor uma divindade muito parecida com as duas deusas orientais. A mitologia grega, através de Homero (Ilíada), fez Afrodite filha de Dione e de Zeus, helenizando os traços da Astarte fenícia para representá-la, ficando ela conhecida pelo nome de Dioneia. Dione (brilhante, luminosa) era, numa versão, uma divindade da primeira dinastia, filha de Urano e Geia, e de Oceano e Tétis noutra variante.

Na ordem que introduziu na mitologia grega, Hesíodo (Teogonia), conservando no modelo grego muitos dos traços das deusas orientais, ligou o nascimento de Afrodite à castração de Urano por seu filho caçula Cronos. Este, como sabemos, instigado pela mãe, Geia, ao castrar o pai com a foi de silex que ela lhe dera, decretou o fim da primeira fase da mitologia grega (autogenia), representada pela dinastia cujos titulares eram os seus pais.

A castração (esquizogenia)  de  Urano,  segunda  fase  da  mitologia
grega, possibilitou o aparecimento da ordem cósmica ao pôr fim à indiscriminada fecundação celeste uraniana. O entrechoque das forças elementares, a desordem dos primeiros momentos da criação, representada pelos filhos que ele e Geia geravam, os titãs, chegou assim ao seu término. Gigantescos, estapafúrdios, descomunais, os titãs, que simbolizavam as forças elementares descontroladas, foram se acalmando, se acomodando, vencidas pela nova ordem, dando origem ao que os gregos chamaram de cosmos. 

Por oposição ao caos (indeterminação, indiferenciação), o cosmos significava para os gregos a ordenação do universo segundo
EROS
princípios e leis inteligíveis, sobretudo as irrevogáveis leis que haviam sido estabelecidas por Cronos. Na ordem cósmica não havia lugar para ideias de acaso ou destino. O cosmos não podia depender de uma vontade, de caprichos ou mesmo da arbitrariedade dos deuses, mas de regras que assegurassem o seu contínuo  desdobrar-se, o devenir universal, segundo uma ordem determinada. Com a castração de Urano, as coordenadas de espaço (1ª dinastia, Urano-Geia) e tempo (2ª dinastia, Cronos-Reia) se fixaram, passando as relações humanas, até então comandadas por Eros (satisfação unilateral), a se orientar por novas formas de convivência (reciprocidade) que a ordem cósmica pedia.


AFRODITE ANADIÔMENE 
 Da castração de Urano, da sua genitália lançada ao mar, em meio a secreções, sangue e abundante espuma, nos conta Hesíodo, nasceu Afrodite (aphros, espuma), conservando ela, sob uma aparência grega, muitos dos traços da Ishtar assiro-babilônica e da Astarte siro-fenícia. Um dos nomes pelos quais Afrodite será conhecida é derivado da sua origem marinha, Anadiômene. A ilha de Cithera, ao sul do Peloponeso, foi a primeira etapa da penetração do culto das deusas orientais do amor na Grécia. Quem “conduziu” Afrodite a Cithera foi o Zéfiro, deus do vento que sopra na direção oeste-leste, ao entardecer. 


Do sangue que da ferida de Urano caiu sobre a Terra, fecundando Geia ou Titaia novamente, nasceram, ao mesmo tempo que Afrodite, outros seres, as Erínias ou Fúrias, os Gigantes e as ninfas Melíades ou dos Freixos, as deusas da vingança, além dos descomunais inimigos do vida espiritual e as ninfas do sangue e da
FREIXO
guerra, respectivamente. As primeiras, como sabemos, ligar-se-ão muito à ação de Afrodite, pois terão a função fazer com que sejam respeitadas as leis da natureza e os limites físicos e morais na convivência humana. Todos aqueles que ultrapassassem os limites dos seus direitos em detrimento dos direitos dos outros seriam por elas punidos. Já os Gigantes, encarnação dos pavores que atormentavam o homem arcaico, personificavam os elementos irracionais que na vida psíquica fazem oposição aos impulsos evolutivos do homem, opondo-se à sua transcendência, prendendo-o à terra, como filhos de Geia que eram. As ninfas Melíades (melia, freixo) estão ligadas à raça que viveu na Idade do Bronze, gente violenta e belicosa, sempre guerreando. Tinham eles, como símbolo, a lança, cujo cabo era confeccionado com a madeira do freixo. O cabo da garrocha de Aquiles era de freixo, assim como o arco de Eros. Para os germânicos, o freixo era a primeira árvore da criação, chamada por eles de Yggdrasil.


Em virtude de seu nascimento marinho, Afrodite passou a governar o princípio da reciprocidade nos relacionamento humanos, equilibrando assim o seu oposto, o quente, como promessa do desenvolvimento de formas, mas, também, como ameaça de absorção. Por sua ligação com o elemento líquido, Afrodite foi chamada desde então de Anadiômene, a nascida das ondas do mar, fixada nessa forma pelo pintor grego Apeles.





De Cithera, Afrodite foi levada a Chipre, a Ilha do Cobre (em grego chalkos e em latim cuprum). Desde a antiguidade grega, conforme o simbolismo dos metais, o cobre correspondia a Afrodite, sendo mais tarde associados a ambos o planeta Vênus. O cobre, na medida em que no jogo das polaridades exerce a função magnética, por oposição à elétrica (Marte), é um excepcional condutor de energia. Sempre representou o cobre também a água como princípio gerador da vida. Em virtude de sua passagem por Chitera e Chipre, Afrodite era chamada pelos nomes de Citeréia e Cípria, conforme Homero registrou. 

Para uma melhor visualização deste período da vida de Afrodite, será sempre interessante uma visita à obra de alguns artistas para uma adequada compreensão do significado e do alcance do seu mito. Grande fonte de inspiração da poesia de Safo, Afrodite foi
AFRODITE (PRAXÍTELES)
sobretudo tema escultórico e pictórico de muitos artistas, destacando-se as estátuas que dela fizeram Calímaco (Venus Genitrix, assim chamada pelos latinos), Lisipo (bronzes de Afrodite) e Praxíteles (suas famosas Afrodites, orientalizadas, tiveram como modelo sua amante Frineia, a cortesã mais rica e célebre de Atenas). Na pintura, menção especial para a famosa obra de Sandro Botticelli O Nascimento de Vênus, de 1485, destinada a embelezar o palácio de um dos membros da família Médici. Essa tela, como se sabe, impregnada dos ideais neoplatônicos que então circulavam nos meios cultos da época, é uma representação dos valores materiais subordinados aos espirituais. A beleza corporal de Vênus (Afrodite) se vê sublimada pela pureza das linhas fluídas e leves. 


Boticelli, nesta sua tela, procurou, sem dúvida, seguir as ideias de Platão, que no seu diálogo O Banquete fez uma distinção entre duas das várias “faces” da deusa. De um lado a Afrodite Urânia, que não teve mãe, que é celeste, inspiradora de amores etéreos, imateriais, sublimes, que não é carnal; de outro, a Afrodite Pandêmia, popular, a dos amores vulgares, a que se dá com (para) todos, promíscua. Não será necessário muito esforço para se perceber onde hoje a Afrodite Pandêmia pontifica...

Ao surgir das águas, Afrodite se mostrou tão bela que as nereidas, os tritões e todos os demais habitantes do mundo líquido acorreram apressados para contemplá-la, rodeando sua concha nacarada, seu meio de transporte em direção das referidas ilhas. As ondas, ativadas pelo sopro de Zéfiro, começaram antão a empurrá-la docemente, o ar se tornou mais leve, uma luz suave cobria a terra e toda a natureza se regozijava.  

Ao chegar a Chipre, recebida pelas Horas,  seu  primeiro cuidado,                                                                                          
relatam antigos textos, se voltou para os seus cabelos. Secos e ajeitados, com o auxílio de suas atenciosas preceptoras, logo emolduraram o seu maravilhoso rosto em resplandecentes ondas acobreadas. A seguir, sempre com colaboração das Horas, Afrodite cuidou de seu corpo, cobrindo-o com muita naturalidade, primeiro com o chiton, como veste de baixo; depois o péplos e o himation, a túnica e o manto. Um cinto (zone), onde guardava todos os artifícios da arte da sedução (enkrateia), apertava a túnica à cintura. Nos formosos pés, as sandálias (krepis), muito elegantes. No mais, as jóias, os brincos (enonon), os colares (hormos), os anéis (daktylos), as pulseiras (amphidai) e as argolas para as pernas (periskelis).

A seguir, as Horas lhe ofereceram as primícias dos frutos que cada estação proporciona e com elas a deusa trocou ideias sobre a boa prática de comover os corações, de neles infundir prudência, de entender claramente os deveres da amizade, da vida conjugal, das obrigações familiares, de incorporar à vida social os necessários e cuidadosos cerimoniais das refeições, dos divertimentos, das festas e, por fim, da sábia arte do repouso.


AS  HORAS

Hora (divisão de tempo) era palavra grega que servia para designar as estações do ano (Primavera, Verão e Inverno). Depois, aos poucos, a palavra passou a dar nome às divisões do dia e da noite, estendendo-se seu número a doze,  reduzido, em seguida, a apenas quatro. No mito, eram filhas de Zeus e de Têmis, esta a deusa das leis imprescritíveis. Eram três a princípio: Eunômia, a Disciplina, Dikê, a Justiça, e Irene, a Paz. Popularmente, recebiam o nome, respectivamente, de Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). 

Homero considerava as Horas como porteiras dos céus, cabendo a elas abrí-los e  fechá-los. Gozavam de um privilégio especialíssimo: todo ano desciam ao Hades para trazer Adônis de volta a Afrodite. Eram encarregadas de distribuir a umidade necessária à vida vegetal, dosando-a convenientemente. Por isso, assumiram também a tutela da educação das crianças, para que elas “brotassem”, “florescessem” e “frutificassem” no tempo certo. Como reguladoras de toda a vida social, cujo equilíbrio mantinham, as Horas eram presença obrigatória em todas as cerimônias nupciais celebradas no mito. 


CÁRITES

Os gregos as reverenciavam oferecendo-lhes as primícias dos frutos de cada estação. Sempre acompanhadas por Têmis, eram representas por três graciosas jovens com asas de borboletas; levavam nas mãos quadrantes, relógios e outros símbolos da veloz fuga do tempo. Gostavam as Horas da companhia das Cárites e integravam ambas, sempre, o cortejo de Afrodite e ocasionalmente os de Apolo e de Dioniso.

A fama das excelências de Afrodite chegou ao Olimpo, manifestando os Imortais um vivo desejo de conhecê-la. As Horas, alvoroçadíssimas, a prepararam então, ataviando-a devidamente, perfumando-a, coroando sua cabeça com uma maravilhosa grinalda de rosas e pedrarias e cingindo sua cintura com o famoso cinturão que continha todos os truques e combinações possíveis das artes que faziam parte do jogo amoroso. Subiu então Afrodite à Mansão dos Deuses, acompanhando-a Eros e Hímeros, o Amor e o Desejo. 


HÍMEROS

No anverso do cinturão de Afrodite estavam fórmulas que favoreciam a vida afetiva; no verso, as que a envenenavam. No primeiro caso, por exemplo, se indicava como Eros e Hímeros, devidamente guiados pela Esperança (Elpis) e acompanhados pelo Pudor (Aidós), pelos suspiros, por débeis acentos amorosos, por carinhosas fórmulas hipocorísticas, por juramentos e pela disposição conciliadora, podiam favorecer a vida afetiva. No verso, estavam, ainda exemplificando, fórmulas através das quais Eros e Hímeros podiam ser inteiramente liberados, dando-se assim oportunidade a que as Erínias pudessem ser convocadas, pois sempre se estaria diante de casos de perfídia, de ciúmes, de inveja, de hipocrisia e de traição, tudo isto contribuindo para que a vida afetiva se tornasse um verdadeiro inferno. Usado adequadamente, porém, o cinto sempre proporcionaria graça, beleza e juventude, superando-se com eles quaisquer obstáculos na vida afetiva. 

Não foi por outra razão, por exemplo, que Hera, a Senhora do Olimpo, tentando reconquistar seu amado esposo, depois de grave entrevero por causa dos seus amores extraconjugais, pediu que Afrodite lhe emprestasse o seu famoso cinturão. A deusa do amor enviou-o com um bilhete: “Recebe-o, ocultando-o junto do teu corpo. O quanto puderes desejar nele se encontra e, por um encanto secreto que não se pode explicar, ele fará com que te saias bem em todos os teus empreendimentos.” Sabe-se que Afrodite usou o seu famoso cinturão em várias oportunidades, para se sair bem nos seus inúmeros affaires amorosos. Com muita facilidade, por exemplo, como se verá, obteve o perdão de Hefesto, seu marido, depois do seu rumoroso caso com Ares, o deus da guerra. 

Assim que pôs os pés no Olimpo, Afrodite arrancou grandes exclamações de admiração dos deuses, suscitando grande apreensão e mesmo cenas de ciúme explícitas por parte de várias deusas. Foi cercada por vários deuses, inclusive por Zeus que, contudo, teve que se conter, pois Hera exercia grande controle sobre ele, não o largando um minuto sequer a sós com a deusa recém-chegada. Todos disputavam a honra de a ela se unir, seja tomando-a como esposa ou como amante.


AFRODITE  E  HEFESTO  ( VÊNUS  E  VULCANO )

Zeus resolveu então casá-la com seu filho Hefesto, um prêmio por sua incansável atividade como ferreiro divino e fabricante de maravilhas técnicas e armas que tanto encantavam os olímpicos. Foi assim que o mais feio dos deuses se transformou no marido da mais bela das deusas. Rainha de Pafos (cidade de Chipre, muito famosa pelos cultos que nela se celebravam em honra a Afrodite) e Deusa do Amor, como Homero a chamou na Ilíada, soberana do prazer, da formosura, a deusa uniu-se, por razões de Estado, digamos, com um marido rico, “industrial”, muito chegado ao poder olímpico, mas coxo e feio, que andava coberto de fuligem e que vivia muito mais para as suas indústrias que para a convivência amorosa. Realmente, Afrodite não poderia amá-lo. Por isso, incontáveis foram os seus casos...


HEFESTO, O DE PÉS TORTOS

Muitos acreditam, todavia, que o primeiro amor de Afrodite foi Zeus, nascendo dessa relação as Cárites, as Graças. Para evitar problemas com Hera, sempre foi divulgado que a mãe das três belas jovens seria Eurínome, uma oceânida. Seja como for, as Cárites logo se integraram ao cortejo de Afrodite e, às vezes, ao de Apolo, atribuindo-se a elas as influências benéficas sobre a atividade intelectual e as obras de arte em geral. 

A maior parte dos habitantes do Olimpo e mesmo os seus frequentadores, divindades de nível inferior que lá não tinham moradia, eram de opinião que Afrodite consumou seu primeiro adultério com o deus Ares, o Senhor da Guerra. Todos são unânimes em afirmar que tal fato se deveu ao descaso de Hefesto para com a sua bela esposa. Metido sempre nas suas forjas, situadas em longínquas ilhas vulcânicas, Hefesto abandonava Afrodite, deixando de vê-la por longos períodos. 


PANDORA

Alguns, como Hesíodo, por exemplo, atribuem este estranho comportamento de Hefesto à sua origem. Filho de Zeus e de Hera, ele teria vindo ao mundo “sem amor”, isto é, conforme o poeta, teria sido gerado apenas pela deusa num momento de cólera, por causa do nascimento de Palas Athena. Suas relações com o mundo feminino sempre foram lamentáveis. Sua suprema vingança, entretanto, veio com Pandora, sua genial “criação”, a primeira mulher, fascinante e irresistível, que instaurou definitivamente a divisão entre os sexos. 

Afrodite e Ares encontraram-se numa das famosas reuniões do Olimpo. Marcado um encontro no palácio de Hefesto, este ausente como sempre, Ares apresentou-se a Afrodite todo armado, como se fosse participar de uma batalha. Deixando de lado os circunlóquios, Ares foi diretamente ao assunto. Afrodite, relatam as crônicas, sentiu-se um pouco atemorizada a princípio. Mas ele logo, sofregamente, retirando a sua couraça e depondo as suas armas, as suas perneiras, exibiu à deusa a sua excepcional forma física. Foi o necessário para que ela se entregasse a ele totalmente. Hélio, o Sol, já havia despontado no horizonte quando acordaram.

Segundo o poeta abaixo mencionado, estas foram as únicas palavras de Ares, quando do seu encontro amoroso com a divina Citereia: “Ó deusa que adoro, vem a meus braços, entreguemos nossos corações ao encanto do amor; Hefesto está ausente, foi a Lemnos e te abandona por seus bárbaros companheiros.” Consta que a única palavra de Afrodite foi: “Abrasa-me!” 


AFRODITE   E   ARES

Muitos cronistas nos relatam esse episódio, mas quem o fez melhor foi, sem dúvida,  Demodokos, um poeta cego que frequentava muito a corte do rei Alcinoo, dos feácios. No palácio real, perante o rei, convivas e Ulisses, ainda incógnito, o poeta contou histórias sobre este último. No mercado da cidade, perante grande público, o poeta, depois de ter contado muitas histórias sobre as façanhas do marido de Penélope, foi à praça da cidade e, com acompanhamento musical, narrou a história do encontro amoroso de Afrodite e Ares, a todos dando prazer e divertindo-os muito.



O poeta relata que o deus Hélio, que tudo via, pôs à mostra a cena dos dois amantes enlaçados no leito nupcial do palácio de Hefesto. Todo o Olimpo tomou imediatamente conhecimento do que ocorria,
HEFESTO
inclusive Hefesto, na distante ilha de Lemnos onde tinha as suas forjas. Os deuses accorrem pressurosos para ver a cena, o mesmo fazendo Hefesto, que, apesar de coxo, deslocou-se com espantosa velocidade. Todos chegam a tempo de encontrar ainda enlaçados os dois amantes. As deusas, ouvindo as recomendações de Aidos, o Pudor, eximiram-se de ir ao palácio. Assim que entrou no quarto nupcial do seu palácio, sem dizer uma palavra, Hefesto lançou uma rede sobre Afrodite e Ares, envolvendo-os de tal modo que, apesar dos esforços do deus da guerra, não conseguiram eles se libertar. A velha máxima hefestiana mais uma vez prevaleceu: aquilo que o deus das forjas, das ligas, dos metais incandescentes e dos nós unia, ninguém desatava.  



A  REDE  DE  HEFESTO

Ao ver a rede lançada por Hefesto, uma risada tomou conta do grupo de imortais que havia acorrido para presenciar a inusitada cena. Ouviam-se frases como estas: “as tramas crimonosas têm cedo ou tarde sua consequência fatal”, “Ora, ora, eis que a lentidão triunfa sobre a rapidez” e outras mais... Assim, o coxo Hefesto, com a sua arte e astúcia, surpreendeu a sua esposa e Ares, o mais veloz dos deuses do Olimpo, chamado de Gravidus por isso mesmo, “o de passos largos”.


PODEIDON

Dentre os deuses presentes, Apolo, dirigindo-se a Hermes, disse-lhe: “Mensageiro dos deuses e benfeitor dos humanos, aprisionado por estas indestrutíveis malhas, suportarias esta vergonha para passar a noite nos braços da ruiva Afrodite?” A resposta de Hermes veio prontamente: “Ó vergonha digna de inveja! Multiplicai essas inumeráveis ligaduras e que venham todos os deuses do Olimpo presenciar a cena, tudo valeria a pena para passar uma noite nos braços da deliciosa Afrodite.” Ouvidas estas palavras, renovaram-se as gargalhadas por todo lado. Só Poseidon permaneceu sério, logo pedindo a Hefesto que libertasse os dois amantes, livrando-os de tanto opróbrio, comprometendo-se inclusive a pagar o preço do resgate que Hefesto pedisse por tal libertação. Hefesto cedeu e, com as suas poderosas mãos, rompeu a rede maravilhosa. 

Quem nos conta o final desta história é Homero: livres dos laços que pareciam indestrutíveis, os amantes correm para longe do Olimpo, fugindo de todos os olhares. Ares se precipitou em direção da Trácia enquanto Afrodite se retirou para Chipre, indo para Pafos, onde, em um pequeno bosque, havia um templo levantado em sua homenagem. Recebida pelas Cárites, Afrodite foi por elas conduzida ao banho; depois, todo o corpo da deusa foi massageado levemente com perfumadíssimos óleos pelas três jovens, que a vestiram com maravilhosos e transparentes véus, preparando-a assim para voltar ao convívio dos seus pares. 

Antes de partir para a Trácia, a fim de, em longa temporada, visitar as suas estrebarias e casas de armas, Ares transformou num galo (obrigado a cantar três vezes antes do nascimento do Sol) o seu escudeiro Alectrion (galo, em grego), que se esquecera de avisá-lo, como fora determinado, para que Hélio não o surpreendesse com Afrodite. Consta que em virtude dessa união com Ares, Afrodite gerou Harmonia e os gêmeos Fobos e Deimos, este último personificação do Terror e o outro, do Pavor, que tomaram feição demoníaca e passaram a acompanhar o pai onde houvesse batalhas e derramamento de sangue.