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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (4)


HADES  ( GIOVANNI  DA  MODENA , 1379 - 1455 )

As três divindades sobre as quais discorremos  em Escorpião (3), conforme as culturas em que aparecem, “convivem”, cada uma a seu modo, com o Hades grego no signo de Escorpião. Sugerem todas, com as suas histórias, o inexorável e constante fluir das formas quando chegamos ao equinócio de outono, período em que, através da destruição, se prepara, no mundo natural, um futuro renascimento. É destas aproximações que decorrem  naturalmente as associações que podemos fazer entre o inferno (Hades) e o oitavo signo astrológico. Ligado à obscuridade, às trevas, à invisibilidade, o inferno, em todas as cosmogonias, sempre apareceu “em baixo”, ctônico, subterrâneo, lembrando o frio, as trevas, as sombras, a solidão.

As ligações do número oito com o renascimento estão presentes em várias tradições. Na astrologia, depois do sete, o número do repouso provisório, o oito indica uma possibilidade de ressurreição sob uma nova forma. Uma das mais conhecidas ilustrações do que aqui se diz, sob o ponto de vista astrológico, é a referência que podemos fazer aos signos de Libra (7), Escorpião (8) e Sagitário
CASULO
(9), aparecendo Escorpião como o casulo, invólucro no qual a crisálida (em grego, krysallis, dos), a larva do inseto, adormecida e entorpecida, se transforma, ocultamente, em borboleta. É por esta razão que a borboleta sempre foi considerada como um símbolo do renascimento. Na antiguidade grega, borboletas esculpidas em túmulos eram indicações de crenças reencarnacionistas.

Quanto ao número oito, é preciso lembrar também que ele aparece em muitas doutrinas orientais, como a budista, por exemplo, através da chamada via óctupla, como um símbolo de
PIA  BATISMAL
SÉ VELHA DE COIMBRA
renascimento. Na tradição ocidental, grega, não é por outra razão que o número oito sempre apareceu associado a Dioniso, o deus das metamorfoses. Não podemos esquecer ainda que as antigas pias batismais, por essa mesma razão, tinham a forma octogonal, na qual o oito se compunha do quatro (símbolo do corpo material), do três (símbolo da alma) e do um (símbolo do divino). Assim, era o número oito, para os primitivos cristãos, aquele que reunia as condições necessárias ao aparecimento de um novo ser pelas águas do batismo


DESCIDA  AOS  INFERNOS ( JEAN  LE  TAVERNIER , ? - 1462 )

A chamada “descida aos infernos” de que nos falam os mitos corresponde na vida cósmica aos primeiros dias outonais, prelúdio do inverno por oposição à ascensão, que ocorre em março no equinócio da primavera. Em todas as religiões de mistério, a descida aos infernos é imagem da morte alegórica, o abandono pelo iniciado (mystes) de sua natureza profana na obscura cela da reflexão, a passagem do negro (nigredo) ao branco (albedo) dos alquimistas. 


CORÃO
O Corão faz do inferno uma entidade devoradora, atribuindo-lhe características de fornalha, de incêndio, de tortura e de abismo sem fundo. As suas sete portas são reservadas aos que não adoraram o verdadeiro Deus e, que, portanto, viveram em pecado. Isto é, os cristãos, os judeus, os magos, os idólatras, os hipócritas e os sabeístas (seguidores do sabeísmo, seita judaico-crista, baseada na magia e na adoração dos astros, do antigo reino de Sabá, sudoeste da Arábia).

O fogo devorador do inferno, em todas as tradições, o fogo que consome e destrói simboliza, dentre outros sentimentos de natureza passional, o remorso, a culpa, o medo do sofrimento moral e a inveja. O inferno católico, como o Tártaro grego, tem um caráter definitivo ao representar o desespero e o endurecimento no pecado e no erro pela total e irremediável incapacidade de mudança. 


HADES  ( PIETER  BRUEGEL , O VELHO , 1525 - 1569 )

As modernas psicologias, fazendo coro a tudo isto, representam o inferno do inconsciente como um mar noturno que é preciso atravessar, isto é, partir de uma situação consciente, no geral muito limitada, mas dolorosa invariavelmente, para que uma outra margem, uma outra forma de vida seja atingida. Este processo se confunde com o próprio processo de individuação que tem início pela descida de uma pessoa à sua interioridade, ao mesmo tempo uma regressão e a busca de uma renovada forma. 

Algumas correntes da moderna psicologia ocidental, numa “leitura” evidentemente retirada da mitologia grega, consideram o inferno um símbolo do recalque, um mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. Se num primeiro momento Hades é a divindade  que tem a ver com essa operação, ele pode, num segundo momento, significar como Plutão a reconstituição radical da personalidade vitimada pelo recalque sobre novas bases, pela rejeição dos elementos deletérios ou supérfluos que nas suas profundezas se encontram. 

Esta reconstituição costuma muitas vezes ocorrer subitamente, de modo imprevisível, uraniano. Qualquer que seja este processo, porém, instantâneo ou demorado, Plutão, astrologicamente, ao comandá-lo, é comumente representado com a cornucópia nas mãos, a nos mostrar que é nesse mundo subterrâneo (inconsciente) que estão todos os valores de que necessitamos, porém mal repartidos ou mal distribuídos. Por isso, a cercá-lo imagens de germinação, de passagens da morte à vida, de metamorfoses. A maieutikê (maia, em grego, parteira) socrática, a arte de fazer com que os espíritos trouxessem à luz, ao consciente, verdades que guardavam desconhecidas ou esquecidas dentro de si, é astrologicamente um método escorpiano para se chegar à “verdade”. Por determinadas perguntas feitas ao seu interlocutor, Sócrates o fazia “descobrir” verdades que estavam dentro dele. O filósofo levava-o a essa descoberta pela reminiscência, anamnese, partindo de dados matemáticos elementares ou de verdades morais universais. A Psicanálise freudiana é, neste sentido, um método maiêutico.

Ainda que muitas tradições antigas tenham do inferno concepções muito variadas, a maior parte delas o imagina como um subterrâneo misterioso e terrível onde as almas dos defuntos suportam sofrimentos indescritíveis como punição por crimes e pecados cometidos sobre a terra. As penas e sofrimentos infernais são estabelecidos por um tribunal, imagem simbólica da consciência, de um eu superior, como o encontramos nas psicologias freudiana e jungiana. 

Além disso, o reino dos mortos sempre foi organizado em vários andares, etapas que deveriam ser superadas conforme o nível de evolução das almas. Os romanos chegaram a um refinamento tal da ideia infernal  que o organizaram em vários degraus, etapas diferentes, onde eram acolhidos os natimortos, os suicidas, os amantes infiéis, os matricidas etc.


DIS PATER
Antes das infiltrações gregas, antigos povos da península itálica, com base em mitos etruscos, davam o nome de Orco (esconder, ocultar) não só ao reino subterrâneo dos mortos, mas à divindade que o governava. Posteriormente, devido ao sincretismo greco-latino, tendo por modelo o Plutão grego, os romanos passaram a dar o nome de Dis ou Ditis à divindade regente desse reino (dis, em latim, rico, opulento, abundante).



Os povos nórdicos, que possuem talvez o mais “escorpiano” reino dos mortos, davam, como os gregos também o faziam, o nome de Hel ao seu mundo infernal, sendo esse também o nome da divindade que o governava (vide a propósito o nome do computador que “trabalha” no filme de Stanley Kubrick, 2.001 – Uma Odisseia no Espaço). Hel se ligava por uma ponte ao mundo dos vivos e era dividido em nove regiões.

MIDGARD
Ao que parece também por influência cristã, o antigo deus Loki, uma espécie de demônio superior, sempre trabalhando no sentido contrário ao das demais divindades, foi assumindo a tutela do mundo do mal, passando Hel, mudando de gênero, a ser visto como sua filha. Hel conviveu desde que “nasceu” com os gigantes, com monstros, como o lobo Fenrir, e com a grande serpente Midgard. Ela dava abrigo, no seu reino, ao monstro Nidhog, que roía dia e noite a árvore Ygdrasil, que fazia a ligação terra-céu nos dois sentidos. 

Foi Odin quem determinou que ela ocupasse esse mundo, também chamado de Niflheim. Sua aparência era terrível, e seu palácio, na região mais profunda do seu reino, era uma réplica infernal do palácio celeste de Odin, o Valhala. Desconsideradas as influências cristãs, a deusa Hel tinha por função, como uma espécie de gerente de um grande hotel, distribuir as almas que chegavam ao seu reino nas dependências que lhes cabiam, conforme a sentença decorrente do seu julgamento. Hel evoca, como se disse, o Valhala dos germânicos, paraíso dos guerreiros mortos nos campos de batalha, recolhidos e levados para lá pelas Valquírias, tão celebradas por Richard Wagner. O Valhala tinha mais de quinhentas portas, tão grandes que oitocentos guerreiros podiam sair por uma delas ao mesmo tempo, quando tivessem que combater os lobos.
CAVALGADA  DAS  VALQUÍRIAS ( PETER NICOLAI ARBO, 1831 - 1892 )

O herói germânico amava a vida, os seus bens e prazeres, não temia a morte porque ela não tinha  para ele o significado de aniquilação inesperada e fatal. A morte era para ele tão só a consumação final de um destino. Mesmo com a chegada do cristianismo, essa ideia não desapareceu. O destino, entidade criadora e transformadora por excelência, é cósmico e nele as individualidades se dissolvem no devir constante e inexorável do universo. Nem os deuses escapam dele, sempre em luta contra a morte e a decadência que constantemente os ameaçam. 


DESCIDA AOS INFERNOS
G. DA  MODENA , 1379 - 1455 )
Aos seres desvalorizados não era consentido sobreviver à morte para gozar as delícias do Valhala. Os que haviam morrido ignominiosamente iam sempre para o Niflheim, o País dos Mortos, do Gelo e das Trevas, cuja entrada era guardada pelo cão Garm. Ali viviam seres monstruosos, os anões, os gigantes e todos aqueles que haviam morrido de velhice ou de doença. Esta região era o domínio de Hel, que encarnava o princípio da doença, da decadência, da morte ignóbil, cujo poder o próprio Odin/Wotan era obrigado a aceitar. Neste reino, ausente qualquer esperança de ressurreição, tudo era sombrio, gelado, trevoso. 

Na mitologia germano-escandinava, os fantasmas e os duplos dos mortos se envolviam frequentemente com os vivos, assombrando-os, aparecendo em sonhos. Essas formas, chamadas de fylgjur, podiam também se manifestar como animais perigosos. Há espíritos dos mortos que se manifestavam, sempre sedentos de sangue e cruéis, chamados druckgeister (espíritos de opressão). Tradição semelhante é encontrada na Escócia, onde temos criaturas hermafroditas com asas de morcego, rosto de mulher, olhos e cabelos de fogo, habitantes dos pântanos, sempre uma séria ameaça a quem, à noite, se aventure por esses lugares.

Foram os escandinavos que criaram um dos melhores cenários relacionados com mitos que universalmente descrevem as catástrofes naturais que ameaçam a humanidade não só em razão dos seus pecados e faltas como também em virtude de ciclos de tempo que se fecham, destruindo tudo o que existe, inclusive
O ANEL DOS NIBELUNGOS
deuses, para que um novo mundo apareça. Este cenário, chamado de Ragnarok (em velho escandinavo, destino fatal dos deuses) ou  de Crepúsculo dos Deuses, descreve um combate final em que os deuses serão mortos por gigantes (Odin engolido pelo lobo Fenris; Freyr morta por Surt; Thor envenenado depois de sua luta contra a serpente Midgard). Depois da catástrofe geral, o mundo renascerá, uma nova idade do ouro, sob a tutela do deus Balder ressuscitado (vide a ópera de Richard Wagner O Anel dos Nibelungos).

Uma das mais “escorpianas” histórias da mitologia grega é aquela que tem Alceste (a defensora, a que afasta o perigo) como personagem principal. Alceste era uma das filhas de Pélias, rei de Iolco. Era a mais bela de todas, muito requestada, cercada de pretendentes. Para evitar complicações diplomáticas, o pai estabeleceu condições praticamente impossíveis de serem cumpridas por qualquer candidato à mão da jovem: ele daria sua filha àquele que conseguisse atrelar, ao mesmo jugo, um javali selvagem e um leão. Além do mais, as bestas assim atreladas deveriam dar uma volta completa numa pista de corridas. 

Um dos candidatos, Admeto (o indomável), graças à cumplicidade do deus Apolo, conseguiu fazer com que Hércules domasse os dois animais, cumprindo assim os requisitos impostos por Pélias. Consta que essa interferência de Apolo se deve ao fato de o deus solar, quando do seu exílio terrestre, ter sido tratado com extrema deferência pelo pai de Admeto, o rei Feres. Outros, mais “venenosos”, afirmam que Apolo, enquanto permaneceu na corte de Feres, havia se apaixonado pelo jovem príncipe. De qualquer maneira, vitorioso, Admeto conquistou a mão de Alceste. Esqueceu-se ele, porém, como era obrigatório em casos de favorecimentos desta natureza, de fazer o devido sacrifício a Ártemis, a deusa da vida selvagem. 

Muito ressentida, a deusa, no dia das bodas de Admeto e Alceste, encheu a câmara nupcial de serpentes. Intervindo mais uma vez, Apolo conseguiu resolver o problema e os noivos puderam ter a sua lua-de-mel. Tudo parecia correr  bem, quando Admeto foi sorteado pelas Moiras e decretada a sua morte (algumas versões nos dizem que por interferência de Ártemis).  Apolo, mais uma vez,  que tinha por Admeto toda a solicitude que se possa ter por alguém, embriagou Átropos, retardando assim a morte de seu protegido, para que se procurasse uma outra pessoa para morrer em seu lugar. Consultados, os pais do soberano, embora muito velhos, mal enxergando a luz do dia, não quiseram fazer o sacrifício pelo filho.

ALCESTE   MORRENDO ( J. F. P. PEYRON , 1744 - 1814 )

Tudo estava nesse pé, quando Alceste, corajosamente, se ofereceu para dar a vida pelo marido, não só por amor a ele mas por considerar que a presença do pai seria bem mais importante que a da mãe para a educação dos filhos do casal. Versões: a) Alceste teria se matado logo, sacrificando-se, ingerindo veneno; ao descer ao Hades, Perséfone, achando absurdo e injusto tal sacrifício, a incitara a voltar e tomar de novo o seu lugar entre os vivos. b) Admeto, diante de Thanatos, que viera buscá-lo, oferecera, covardemente,  ao deus da morte a sua própria esposa como substituta. Quando Thanatos estava para agarrar Alceste, eis que surge Hércules, que recebera hospitalidade de Admeto, depois de ter cumprido o seu primeiro trabalho (As Éguas de Diomedes). Ciente do que ocorria, Hércules travou um violento combate com o deus da morte, conseguindo arrancar de suas garras a jovem e bela esposa de Admeto. 


HÉRCULES   LEVA  ALCESTE  A  ADMETO
( ANTOINE  COYPEL , 1661 - 1722 )
Modelo de uma esposa amantíssima e exemplar e de uma inexcedível piedade filial, a esposa de Admeto e filha de Pélias, com justa razão, deu seu nome ao que chamo de complexo de Alceste, isto é, aquele comportamento, parcial ou totalmente inconsciente, vinculado ao terreno da afetividade, que leva algumas mulheres a agir como a esposa de Admeto o fez com relação à sua vida familiar, como filha, como esposa e como mãe, a mais perfeita encarnação do ideal feminino segundo o mundo patriarcal.   

A inclusão da piedade filial como elemento deste complexo se deve a uma história que envolve Medeia, sobrinha de Circe, feiticeira como a tia. Tudo começou quando Jasão retornou a Iolco, depois da conquista do Velocino de Ouro. Passou a arquitetar com a grande feiticeira, sua esposa, um estratagema para eliminar Pélias, seu tio, que havia usurpado o trono do país, que por direito caberia a seu pai, condenado à morte pelo irmão.  

MEDEIA  E  FILHAS  DE  PÉLIAS
Por amor ao marido, muito humilhado pelo tio desde que voltara da Cólquida, Medeia se aproximou enganosamente das filhas de Pélias, que não sabiam da sua união com Jasão, e as convenceu de que poderia, com a sua arte mágica, rejuvenescê-lo, já muito avançado em anos que estava. Bastaria que as filhas o fizessem em pedaços e que os lançassem num caldeirão de bronze com muita água. Medeia, então, adicionaria a essa mistura um preparado que só ela conhecia, um segredo de sua família, trazendo Pélias de volta à vida numa forma muito rejuvenescida. Para demonstrar do que era capaz, a sobrinha de Circe, usando o processo acima descrito, transformou um velho e trôpego carneiro num jovem e saltitante cordeirinho. 

As pelíades, como a história registra, se entusiasmaram e diante do que lhes fora demonstrado não hesitaram em matar o pai e destroçá-lo. Procurada para que fosse aplicada a sua receita, Medeia não foi encontrada. Jasão e sua família estavam vingados. Dentre as pelíades, Alceste foi a única a não aderir à proposta de Medeia, combateu-a mesmo, afirmando que as leis de Cronos deveriam ser respeitadas por todos, que nem mesmo os deuses poderiam revogá-las, e que amava o pai mesmo velhinho. Assim, além de exemplo de piedade e de respeito familiar, de grande amor ao marido e aos filhos, da aceitação do papel que lhe cabia nesse
ESTER   NUM   PURIM
( E. LONG , 1829 - 1891 )
contexto de superiores valores masculinos, Alceste ofereceu também inegáveis provas de inexcedíveis sentimentos religiosos, merecendo, por isso, dar nome ao complexo que descrevi, tornando-se assim um insuperável exemplo para todas as mulheres atreladas ao mundo patriarcal. Como ela, talvez, ainda que não de todo satisfatória a comparação, pela excepcionalidade de seu exemplo, algumas matriarcas judias como Ester e Léa.

Os habitantes da antiga Acádia, na Mesopotâmia, davam o nome de Girtab ao escorpião, isto é, “àquele que pica”. Era o símbolo das trevas, pois trazia consigo a diminuição da potência solar, depois do equinócio de outono. Há uma passagem da mitologia grega que traduz, com outras palavras, este poder que o escorpião tem de afetar o Sol. O deus Hélio, o Sol considerado fisicamente, depois de muita insistência por parte de seu filho Faetonte, emprestou a ele seu carro.

FAETONTE  ( JAN EYCK , 1390 - 1441 )

Muitas foram as recomendações e advertências, de modo especial quanto à fogosidade dos cavalos e quanto às zonas que, ao transitar pelo Zodíaco, ele iria atravessar. Em cada uma delas um perigo, animais bravios, traiçoeiros, carneiros, touros, caranguejos, leões etc. Bem ou mal, saindo às vezes da eclíptica, encostando na terra, provocando incêndios, Faetonte conseguiu chegar até a sétima constelação, Libra, que não teve problemas para atravessar. Contudo, ao ingressar na constelação seguinte, qual não foi o seu espanto e o seu desespero. Os quatro cavalos, sentindo-se certamente não conduzidos por mãos hábeis, desarvoraram-se, assustados, enlouquecidos, diante do monstruoso escorpião que lá vivia. Faetonte, como a história registrou, perdeu totalmente o controle do carro. Os desastres se sucederam de tal modo que Zeus, a pedido da Mãe Geia, não teve outra alternativa senão a de fulminar o tresloucado jovem, que pagou a sua vida, mergulhando com o carro nas águas do rio Erídano.

Um dos grandes mitos da antiguidade que devemos associar ao eixo Escorpião-Touro é o do deus Mithra, que tem relação com o deus de mesmo nome da religião védica. O nome mithra, na origem mihr, queria dizer Sol. Depois, passou a significar contrato, na época aquemênida, também nome de uma divindade conciliadora para representar a alternância entre a luz e as trevas, assumindo inclusive as funções de um deus de natureza escatológica. Seu culto se espalhou pelo mundo helenístico e depois romano sob a forma de uma religião de mistério (sete graus de iniciação).


MITHRA

A estatuária helenística popularizou a cena da imolação de um touro por Mithra numa gruta. Era o taurobolium, o batismo pelo sangue do touro. De grande penetração no mundo greco-romano, o culto foi muito difundido nos meios militares. Como ideias essenciais do mitraísmo destacamos um zelo ardente pela pureza moral, obtida e conservada graças a uma atitude belicosa, a do “soldado da fé”. Daí, o prestígio do culto entre as legiões romanas, traduzido pela veneração da luz, sendo o único princípio “invencível” o Sol (Sol Invictus). A grande festa do mitraísmo era celebrada no dia 25 de dezembro, uma das datas aproveitadas pelos primitivos cristãos para nela fixar a sua festa de Natal. 

Mithra era, entre os antigos persas, o deus da luz criada, da veracidade, da boa fé e da justiça, sempre invocado como garantia da palavra dada e dos contratos em geral; uma espécie de juiz clarividente das ações humanas. Neste sentido era um mediador entre dois mundos opostos, o mundo luminoso superior (nona casa astrológica) e o mundo da luz criada pelos homens (sétima casa astrológica). Seu culto também estava baseado na doutrina da ressurreição por uma regeneração física e psíquica. As cerimônias eram celebradas numa gruta, em torno de uma lanterna, com ritos especiais, chamados sacramentos: um batismo pelo sangue, pela água pura, por aspersões de água lustral (purificação), por unções de mel, pela distribuição comunitária do vinho e do pão). Os iniciados tratavam-se entre si pelo título de irmãos, sendo os superiores, instrutores, chamados de pais.

TAUROBOLIUM
No séc.II da era cristã, o rito do taurobolium foi introduzido no mundo romano, onde já era grande também a influência do culto de Cibele, Grande-Mãe, oriundo da Ásia Menor. O taurobolium era o batismo pelo sangue do animal, uma aspersão sanguinolenta que transformava o mystes num renatus in aeterneum, nascido para uma nova vida, eternamente. A vigorosa energia do animal regenerava o corpo e a alma do iniciado, pondo-o em comunicação com formas superiores da vida espiritual. Os exércitos romanos difundiram o culto de Mithra por todo o império, com grandes celebrações no dia 25 de dezembro, logo depois do solstício de inverno, quando os dias começavam de novo a aumentar, festejando-se o renascimento do Sol, o Natalis Solis

O taurobolium significava também o controle da natureza primitiva e instintiva do homem, representada em muitas tradições por animais. Há cerimônias específicas para o estabelecimento dessa relação, principalmente em ritos de iniciação para jovens do sexo masculino. O jovem, através deste rito, entra na posse de sua alma racional e sacrifica o seu o lado instintivo, animal, por meio de um outro rito, sendo o mais comum o da circuncisão. Só então o jovem poderá ser considerado um ser humano. É por isso que, em muitas tradições, africanas especialmente, que os animais são considerados como seres não circuncidados. Assim, o sacrifício do touro pelo deus Mithra (sacrifício também encontrado nos cultos dionisíacos) pode ser considerado como um símbolo da vitória da natureza espiritual do homem sobre sua animalidade, da qual o touro é um símbolo comum. 

O que está acima pode, explicar, por exemplo, a popularidade das touradas e de temas míticos como o do Minotauro, símbolo das indomáveis forças instintivas do homem. O culto de Mithra, acredito, também pode ser compreendido, sob o ponto de vista astrológico, como a passagem da era cósmica de Touro para a de Áries, que começa em 1.662 aC., lembrando-se que o planeta Marte rege tanto o signo de Escorpião como o de Áries.

Outra aproximação muito significativa que podemos fazer com relação ao signo de Escorpião é o cotejá-lo com as crenças celtas relacionadas com a morte, com o outro mundo e com as ideias de renascimento. É importante dizer de início que os celtas continentais tinham uma atitude muito  positiva com respeito à morte como está demonstrado tanto por evidências arqueológicas como por testemunhos literários. Julio Cesar, o imperador romano, como se sabe, escreveu uma obra sobre as guerras que os romanos travaram na Gália, contra os celtas. Ele nos informa, pois os conhecia muito bem, que eles honravam deuses muito semelhantes aos dos romanos, inclusive o seu Dispater, a divindade que governava o mundo infernal; informou-nos mais Cesar que os druidas, os sacerdotes celtas, atribuíam muita importância à crença da transmigração das almas. Comentando, porém, esta última informação, ele acrescenta uma venenosa observação: a de que os druidas propalavam essa ideia para que os guerreiros celtas não tivessem medo de morrer. 


LUCANO
O poeta latino Lucano, no primeiro século da era cristã, observou que os celtas encaravam a morte simplesmente como um estágio entre uma vida e outra. Outras fontes literárias (Diodorus Siculus) afirmam a mesma coisa. As tradições mitológicas celtas projetam uma imagem muito ambígua sobre o seu inferno. Fala-se mesmo de uma vida melhor no Outro Lado. Não há dor, sofrimento, decadência; há festas, música, beleza, embora encontremos registros de combates entre heróis que nele se encontram. Outro aspecto, muito contrastante com o que está acima, é o de que inferno pode se tornar um lugar muito perigoso, sombrio, se visitado por humanos antes da morte. 

O aspecto tenebroso do mundo infernal é representado pelos celtas de modo especial nas festividades do Samain, realizada quando o Sol ingressa no sigo de Escorpião. Na Irlanda, era a maior festa, celebrada no início de novembro, marcando o fim de um ano e o início de outro. A festa era um ponto de transição cujos ritos procuravam garantir a renovação e a prosperidade terrena, os êxitos tribais, a germinação da boa sorte para a primavera e o verão seguintes.


SAMAIN  ( F. J. GOYA Y LUCIENTES , 1746 - 1828 )

LUPERCÁLIAS
O Samain corresponde ao Halloween anglo-saxão e equivale à festa de Todos-os-Santos e dos Mortos dos cristãos latinos. Marca, na segunda quinzena do mês de Samon (novembro), o começo da estação sombria, estabelecendo-se então uma comunicação temporária com os mortos. Em oposição a esta festa, no mês Imbolc (fevereiro), temos as celebrações associadas à deusa Brigit, equivalentes às Lupercálias romanas e ao Mardi Gras (terça-feira gorda, último dia do carnaval), festas que assinalavam o fim do período hibernal e o renascimento da vida e do mundo vegetal. A
SANTA  BRÍGIDA , 1280
deusa Brigit era, na origem, uma deusa ligada à terra, ao fogo e à poesia (esta última era considerada como uma expressão do fogo, tendo um caráter não material). Quando da chegada do cristianismo, muitas divindades celtas foram transformadas em santos, como foi o caso de Brigit, que virou Santa Brígida, chamada a Maria dos celtas, venerada tanto quanto São Patrício, o evangelizador dos irlandeses.



LUGNASAD  ( PIETER BRUEGEL, O VELHO , 1525 - 1529)

Em maio, tínhamos as festas chamadas Belteine, que marcavam o início da estação estival. Em agosto, realizavam-se as Lugnasad, em homenagem ao deus Lug, período das grandes assembleias. Estas festas, ao que parece, eram fixadas com base na observação de estrelas importantes. Samain e Belteine tinham início, respectivamente, quando da ascensão helíaca de Antares (Escorpião) e de Aldebarã (Touro). Assim, quando da ascensão helíaca de uma delas, o céu noturno era dominado pela outra. O ano era assim dividido em duas estações, uma sombria, de 179 dias, e outra luminosa, de 186 dias, em harmonia com o calendário climático e agrícola da Europa temperada. As datas das duas outras festas eram determinadas pela ascensão helíaca de Sirius (Lugnasad) e de Capella (Imbolc). 

CALDEIRÃO
O mais importante símbolo de regeneração do mundo celta era o caldeirão, nos seus três níveis: abundância, ressurreição e sacrifício. A maior parte dos caldeirões encontrados em várias tradições míticas deve a sua força mágica à capacidade que eles têm de transformar tudo o que neles é lançado numa massa confusa, equivalente à nigredo alquímica, para que a partir dela possa ser criada uma nova forma. O caldeirão celta lembra a cornucópia, tendo o alimento que nele se prepara um caráter inesgotável, símbolo de um conhecimento sem limites, no que se aproxima bastante de outro símbolo celta, cristianizado, o Santo Graal. O caldeirão celta podia restaurar a vida dos guerreiros, que renasciam mais fortes do que antes. A serpente era outro símbolo usado pelos celtas  para o renascimento, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o encadeamento do ser à cadeia indefinida dos renascimentos.

Ao falar do caldeirão, não podemos esquecer de Héstia, a deusa
HÉSTIA
grega da lareira. Um de seus atributos era justamente o caldeirão, identificando-o os gregos como uma representação do tesouro particular ou do tesouro público, ou seja, tanto das casas como da polis. Héstia “recebia” o que nelas entrasse. No primeiro caso, dinheiro e alimentos. No segundo, os tributos em geral. Em ambas as hipóteses, tudo era levado para o seu caldeirão, posto em comum, preparando-se uma grande “sopa”, distribuída para os da casa ou para os habitantes da polis, segundo as necessidades de cada um. 



sábado, 18 de março de 2017

GÊMEOS (3)

                   
GÊMEOS (ILUMINURA  MEDIEVAL)
Uma aproximação rica de possibilidades significativas que podemos fazer com relação ao signo de Gêmeos é a de trazer para o seu universo a figura de Peter Pan. Esta aproximação se justifica na medida em que Peter Pan é um personagem que recusa o crescimento, isto é, que não quer chegar à vida adulta, responsável, preferindo manter-se numa adolescência infantilizada. Nada de responsabilidades, de deveres. A Psicologia
PETER   PAN - KENSINGTON
deu o nome de síndrome de Peter Pan para descrever o comportamento do adulto que receia assumir responsabilidades e/ou se recusa a agir conforme a sua idade. Tudo isto pode ser percebido nos beijos de Wendy, no desejo de Peter Pan ter uma menina da sua idade que pudesse ser sua mãe, nos sentimentos conflituosos para com Wendy e Sininho (representações de diferentes arquétipos femininos), no simbolismo de sua luta com o capitão Hook, papel tradicionalmente protagonizado pelo mesmo ator que representa o pai de Wendy. 


Peter Pan  apareceu pela primeira vez em 1.902 num texto intitulado The Little White Bird, uma história das relações do seu autor (James M. Barrie) com as crianças de Sylvia Davies, de uma família amiga. Adaptada para o teatro, recebeu o título Peter Pan ou The Boy Who Wouldn´t Grow, que estreou em Londres em 1.904. Em 1.906, aparece um livro do mesmo autor com o título de Peter Pan in Kensington Gardens, ilustrado. Peter Pan foi adaptado para o cinema várias vezes, sendo o personagem representado invariavelmente por uma jovem atriz. O teatro também investiu em Peter Pan.


SYLVIA  DAVIES  E  FILHOS

Recusando-se a crescer, Peter Pan passa os seus dias de eterna juventude na pequena ilha de Neverland como líder de um grupo chamado Lost Boys, convivendo com fadas e piratas e encontrando
EDIÇÃO   DE   1906
de vez em quando crianças do “mundo de fora”. Incorporando muitos traços geminianos negativos, Peter Pan é principalmente um exagerado estereótipo de um exibido e descuidado jovem. Sua atitude diante da vida é displicente, descuidada,  inconsequente mesmo, inclusive diante do perigo. O autor da história nunca explicou aos seus leitores como Peter Pan conseguia permanecer jovem. O personagem, para alguns estudiosos, faz parte de uma antiga tradição anglo-germânica denominada Totenkindergeschichte (contos de morte de crianças).

ILUSTRAÇÃO DE 1906
Outros encontram a explicação para a eterna juventude de nosso herói porque ele foi atingido pela poeira de estrelas que um dia caíram sobre a terra. Não há também explicação convincente sobre a sua capacidade de voar. Peter Pan alega que com bons pensamentos e “poeira das fadas”, esta última igual àquela que as estrelas deixam no seu rastro. Em temas folclóricos europeus, aliás, temos a figura do Dustman, um gênio do sono que lançava poeira nos olhos das crianças para que elas dormissem. 


EDIÇÃO  DE  1915
Peter Pan é hábil na luta de espadas, na imitação de vozes e gestos, sendo acuradíssimas sua visão e audição. Peter Pan nunca conviveu com os seus pais. Numa passagem da sua obra, o autor nos revela que ele, um dia, muito criança, saiu de casa e que quando retornou, ao olhar pela janela, viu que os pais haviam encontrado um substituto para ele e que não mais o queriam. O grande oponente de Peter Pan é o capitão Hook (Gancho), cuja mão ele decepou num duelo. De tempos em tempos, Peter Pan visita o mundo real, de modo especial os jardins do bairro londrino de Kensington, relacionando-se com as crianças que ali brincam. 

A história de Peter Pan pode ser colocada em relação com a dos mitos heroicos. O nascimento do herói é geralmente milagroso (pai divino, mãe mortal); ele dá desde cedo, ainda na infância, demonstrações de seu poder, de sua habilidade, de sua força; costuma também se libertar do meio em que foi gerado, encontrando um deus ou um mestre que o orienta; passa por provas públicas (ameaças externas), lutando para adquirir o controle da sua vida interior, o mais difícil, já que sempre o ameaça a tendência ao descomedimento (hybris), ao descontrole interno, à passionalidade, que podem provocar a sua perdição e finalmente a sua morte. 

Sabemos que nos mitos o herói simboliza uma proposta de elã evolutivo, proposta que se traduz, para o homem comum, numa tomada de consciência de seu ego individual, sempre uma busca de autoconhecimento. Esta busca termina quando o homem alcança a sua idade madura. Há, contudo, nos mitos, um tipo de herói que se recusa a se submeter às provas públicas para assumir aquilo que deve lhe caber essencialmente, o desempenho da função guerreira (matador de monstros e de inimigos), o que na cultura ocidental representa a base de seu valor pessoal. 

Essa recusa significa a permanência em estágios de vida primitivos, uma renúncia à vida afetiva, um desenvolvimento precário sob o ponto de vista psíquico. Dá-se, em inglês, o nome de trickster a esse tipo de herói, muito comum em várias culturas (Jung usa essa grafia). Devo lembrar, contudo, que a palavra inglesa trickster e o seu correspondente francês triche (engano, trapaça) vêm do verbo latino tricari, com o sentido de trapacear, dissimular, enganar. O Trapaceiro é um tipo cujos apetites físicos se impõem na sua conduta, tem mentalidade infantil, vive apenas para satisfazer as suas necessidades mais imediatas e primárias, costumando ser cruel, insensível, cínico. Uma das formas sob a qual esse herói se esconde é a da raposa, animal que simboliza a esperteza. Esse herói pode às vezes participar de provas, demonstrando até valores superiores. Suas vitórias dependem sobretudo de sua habilidade, da sua astúcia, de sua rapidez, podendo inclusive vencer gigantes (Ulisses, vencedor de gigantes, é um trickster). O que estas ideias nos revelam é que a psique individual se desenvolve a partir de uma fase pueril. Por isso, é comum que  adultos psicologicamente imaturos sonhem muitas vezes  com imagens dessa primeira etapa. 

ILUSTRAÇÃO DE 1906
Lembremos que a expressão “síndrome de Peter Pan" foi popularizada a partir de 1.983 pela Psicologia para designar adultos de pouca ou nenhuma maturidade. Em Neverland, nos jardins de Kensignton, Peter Pan nunca fica triste: Eu sou a juventude, a alegria, eu sou o pássaro que rompeu a casca do ovo. Ele quer permanecer sempre uma criança para poder se divertir, um símbolo, enfim, da infância da qual o homem adulto conserva uma nostálgica lembrança.

Os mitos dos heróis, como sabemos, embora variem muito, têm estruturas semelhantes. Há invariavelmente um nascimento milagroso (pai divino, mãe mortal), as demonstrações logo na infância de seu poder, de sua força, a libertação do meio em que surge, o deus ou o mestre que o orienta, as provas públicas (ameaças externas), a conquista do poder, a luta contra o seu descomedimento (ameaças internas, a hybris), as suas tendências passionais, as traições que podem provocar a sua perdição e finalmente a morte

No mundo latino, a constelação de Gêmeos recebeu nomes que derivavam tanto de Leda como de Tíndaro (o pai mortal): Ledaei Fratres, Ledaei Juvenes, Ledaeum Sidus, Pueri Tyndarii, Tyndarides, Tyndaridae Sidae. Marcus Manilius a chamou de Phoebi Sidus, considerando-a como protegida pelo deus Febo (Apolo). Dante Aleghieri chamou a constelação de Nido di Leda. O poeta inglês John Milton a chamou de Spartan Twins. Os árabes lhe deram o nome de Al Tauaman, os Gêmeos. Os persas, Du Paikar.
RÔMULO  E  REMO ( P.P.RUBENS )
Os caldeus, Tammech. Astrônomos latinos associavam a constelação de Gêmeos à história de Remo e Rômulo, os gêmeos, filhos da vestal Reia Silva e do deus Marte. Conta o mito que o avô (Numitor) lhes deu uma área no monte Palatino para que nela fundassem uma cidade. Cada um deles levantou edificações, recebendo a constelação por isso o nome Pilares de Tijolos. Na antiguidade romana, a constelação também foi representada por duas estrelas posicionadas acima de uma embarcação, emblema protetor de Roma por determinação de Júpiter. Os dois gêmeos aparecem em muitas moedas cunhadas em Roma, ora como duas estrelas sobre a referida embarcação, ora como dois jovens cavaleiros, ora como recém-saídos de um ovo partido. 

SANTELMO
Nos Atos dos Apóstolos, lemos que os gêmeos aparecem ligados à história do navio que São Paulo e seus companheiros tomaram quando do naufrágio que os levou à ilha de Malta. Os Dioscuros são citados como protetores da navegação com o nome de Santelmo ou Fogo-de-Santelmo, pequena chama, causada pela eletricidade atmosférica, que aparece ocasionalmente na extremidade dos mastros e das vergas dos navios ou nos filamentos dos cabos, durante as tempestades.


COSME  E  DAMIÃO
No mundo católico, relacionada com o signo de Gêmeos, encontramos também a história dos irmãos Cosme e Damião. Para os autores católicos que a relataram, os nomes significam, respectivamente, pureza (Cosme) e timidez, mansidão (Damião), retirado estes sentidos, quanto ao segundo, da palavra damo, corça, gamo. Nascidos na Ásia Menor (antiga cidade de Egeia), foram instruídos nas artes médicas e se dedicaram à cura de seres humanos e de animais, gratuitamente. Eram conhecidos pelo nome grego de anargiras, avessos ao dinheiro. Pouco se sabe deles, mencionando-se apenas que teriam morrido como mártires na Síria, no ano de 300 dC.

Aos poucos, a história dos dois irmãos se espalhou pelo Egeu oriental, passando eles, a partir do séc. V dC, a ser venerados como médicos dos pobres, escolhidos desde então como patronos dos profissionais da área (confrarias), celebrando-se em 26 de setembro as festas em sua homenagem. Alguns estudiosos defendem a tese de que Cosme e Damião nunca existiram, sendo sua história, no mundo católico, tão somente uma versão do mito grego dos Dioscuros.  

ASCLÉPIO
Segundo a lenda propagada, Cosme e Damião teriam empregado, adaptando-a, uma técnica de cura, a incubatio, muito utilizada no centro médico de Epidauro, pelos sacerdotes-médicos do santuário do deus Asclépio. Esta técnica consistia em fazer com que os pacientes pernoitassem numa igreja para que, induzidos ao sono, recebessem, através de sonhos, mensagens do santo tutelar da igreja que os orientaria no sentido da obtenção de sua cura.


IBEJIS
Nas religiões afro-brasileiras, Cosme e Damião são sincretizados como entidades infantis, os Ibejis, gêmeos amigos das crianças. Divindades dos iorubás, os Ibejis (ibi, nascimento, e eji, dois), são os protetores naturais de todos os
MACACO  COLOBO
gêmeos. No complexo e riquíssimo simbolismo dos cultos afro-brasileiros, os Ibejis são representados de diversos modos. Uma das suas mais fabulosas associações simbólicas é feita com o macaco colobo, cujo comportamento o transforma numa figura emblemática mística dos referidos cultos dos Ibejis. 


COROA   BOREAL
Entre os celtas, a constelação de Gêmeos era visualizada nos céus através dos irmãos Dylan e Lleu, filhos da deusa Arianrod (círculo de prata). Faziam parte do panteão celta insular (Irlanda e Grã-Bretanha), cuja mãe era a deusa Danu, que tinha por marido o deus Bile, uma espécie de Dis Pater dos latinos.  Um dos filhos do casal era Gwydion, deus civilizador, dispensador das artes e benfeitor. Unindo-se à sua irmã Arianrod, divindade tutelar da constelação da Coroa Boreal, ele a fez, a contragosto, mãe dos gêmeos Lleu ou Lug e Dylan, representantes dos poderes da luz e das trevas. 

AHURA  -  MAZDA
Os povos da antiga Pérsia projetavam nos céus o conflito entre a luz e as trevas através dos deuses Ahura-Mazda e Ahriman. A história começa quando, antes de Zaratustra (reformador religioso), a principal divindade do país era Mithra, que aparecia também como Ahura, divindade guerreira sem rival. Com as conquistas dos aquemênidas, poderosa tribo, a figura da divindade suprema toma o
MITHRA
nome de Mazda (sabedoria, um misto de mada, entusiasmo orgiástico, bebedeira, mais mastim, iluminação). Mazda se tornou uma divindade dispensadora de poderes transcendentais. Aos poucos, cunha-se a expressão Ahura-Mazda para designar essa divindade suprema. 


ZARATUSTRA
( R. DE SANZIO , 1483 - 1520 )
Com a reforma religiosa de Zaratustra (séc. VI aC), implanta-se o Mazdeísmo. Pela fusão de seus dois nomes, Ahura-Mazda se transforma em Ormazd. Como polo oposto, seu irmão gêmeo, temos Ahriman. Ambos são filhos de Zurvan, deus do tempo. O primeiro representa a vida, a verdade, a luz; o segundo, a morte, as trevas, a mentira. Eles se definem pelo seu antagonismo. O primeiro é um anti-demônio; o segundo, um anti-deus. O mundo real é produto da luta entre os dois. 

O ego sempre luta para tomar o caminho da luz, seja por iniciativa própria (vontade) como por pressões sociais por questões de sobrevivência da sociedade. Já a sombra, o nosso lado oculto, representa os valores que reprimimos ou que recusamos a admitir. O lado sombrio em Gêmeos está sempre procurando interferir no lado luminoso, penetrando na luz, razão esta que nos leva muitas vezes a considerar o geminiano como volúvel, inconsistente e potencialmente traiçoeiro, pouco confiável. 


HELENA
(MORGAN , 1898)
Não é possível também deixar de considerar, quando nos aproximamos de Gêmeos, os componentes femininos do signo. Esta influência encontra explicação no fato mitológico de fazerem parte os Dioscuros, na realidade, de um todo quádruplo, pois são irmãos de Helena e de Clitemnestra. A primeira é filha de Zeus e de Leda, é bela, belíssima, é o que os gregos denominavam symbolon por integrar na sua personalidade a totalidade das forças geradoras do feminino. Ela sintetiza vários arquétipos femininos que estão presentes nas mulheres de todas as épocas. Helena é rainha, mulher fecunda, esposa, adúltera, ardilosa, consciente, bela, apaixonada, vítima de sequestro, dominadora de homens, prostituta. Helena é a mulher atemporal do mundo ocidental na sua caminhada de quase três mil anos desde Homero.   Por sua beleza e por sua
CLITEMNESTRA
( J. COLLIER, 1882 )
origem divina, Helena tornou-se, em várias correntes místicas da antiguidade, a personificação de um feminino espiritualizado que desceu dos céus, passando a viver no plano terrestre, mas conservando os traços do seu esplendor original. Clitemnestra, por outro lado, é uma figura  sombria, uxoricida,  violenta, voluntariosa, mais “humana”, mais forte, diante da outra. A dualidade entre ambas é notável. Helena é divina, Clitemnestra é conduzida apenas por seus desejos e paixões. Consideradas, porém, individualmente, ambas produzem destruição, catástrofes, morte.

O nome Helena parece se originar do grego hellé, esplendor luminoso, solar. A esse nome se juntam nomes como Nephele, Helle (deusa marinha) e Selene (a Lua) para formar o campo semântico de Helena. Nephele é nuvem, neblina, neblina matinal, cujo correspondente latino é nebula, névoa. Há que considerar
HELLE ,  FRIXO  E CARNEIRO
ainda o verbo hedzesthai, sentar, pousar, como a neblina matinal se deposita sobre a terra. Nephele é o nome da mãe de Helle, irmã de Frixo, personagens que participam do mitologema do Velocino de Ouro. Ao ser transportada com o irmão pelo Carneiro divino para a Cólquida, Helle caiu no mar, um estreito entre a Europa e a Ásia. O lugar recebeu o nome de Mar de Helle (Helesponto). Helle foi salva pelo deus Poseidon, que a fez sua mulher e com ela teve três filhos. Divinizada como uma deusa do amor, Helena deu nome a uma corbeille na qual se colocavam, à guisa de oferendas a Selene “objetos que não se deviam mencionar” (símbolos fálicos).  

ELECTRA, ORESTES, CLITEMNESTRA
( CERÂMICA  ANTIGA )
Já Clitemnestra vem de duas palavras (klytos, célebre, e mnestor, recordar, não esquecer) que juntas significam “a que é famosa por não esquecer.” É a filha mortal de Tíndaro. Personalidade altamente problemática, tendo uma relação marital complicadíssima com Agamêmnon, rei dos aqueus, a quem assassinou, auxiliada pelo amante, Clitemnestra foi assassinada pelo filho Orestes, encorajado pela irmã Electra. O assassinato de Clitemnestra foi executado por Orestes por determinação de Apolo, o deus patriarcal por excelência. 

A polaridade geminiana é invariavelmente considerada só sob o ponto de vista masculino. Deve-se isto provavelmente ao fato do signo ser masculino, ativo, aéreo, ligado ao arquétipo do pensador de Jung. O complexo do puer aeternus conforme a psicologia profunda o encara, de “eterna juventude”, é masculino. O feminino de puer (menino, jovem) é puella (menina adolescente, moçoila). A manifestação deste complexo (masculino ou feminino) é muito comum em alguns signos astrológicos, sendo inegavelmente mais forte a sua presença nos tipos geminianos. Há muitos casos no mundo feminino de geminianas atacadas por este complexo (puella aeterna), casos esquecidos, que a Astrologia não pode esquecer. 



A constelação de Gemini vai hoje de 1º a 23º de Câncer. Segundo Ptolomeu, as estrelas que estão nos pés da figura têm características mercurianas e venusianas (moderadamente). As brilhantes estrelas na coxa  são saturninas. A estrela alfa de Gemini é Castor, a 19º 33´ de Câncer. Ovídio chamava esta estrela de Eques, isto é, o mortal gêmeo cavaleiro, filho de Tíndaro. É oportuno lembrar que até o início da era cristã, do período helenístico para o período romano da história grega, esta estrela recebia o nome de Apolo, uma divindade diurna. No Egito, como já se disse, Castor, como estrela da manhã era chamada de Horus, sendo Seth o seu nome vespertino, noturno (Polideuces). 


OVÍDIO
Na Índia, os nomes eram Buddha e Rauhinya. Os babilônicos usavam Castor para marcar a sua décima primeira constelação eclíptica. Polideuces (Pólux), estrela beta, está a 4º 05´ de Castor, isto é, na longitude 23º 38´ de Câncer.  É chamada por Ovídio de Pugil, isto é, O Pugilista, o gêmeo imortal, filho de Zeus. Ptolomeu afirmou que a estrela chamada Apolo (Castor) era como Mercúrio, enquanto Polideuces, por ele chamada de Hércules, era semelhante ao planeta Marte. 

O que devemos reter hoje sobre estas duas estrelas é que elas são produtoras de alternância, de polaridades, sendo encontradas muito ativas no mapa de muitos escritores (James Joyce, John Lennon,
JEAN   COCTEAU ( 1889 - 1963 )
Lewis Carrol, Charles Dickens e outros) que “misturam” o bem e o mal em sua vida e seus  textos tendo em vista uma proposta de integração, de busca de uma totalidade, sempre difícil, para não dizer impossível. Se Castor prepondera, o lado luminoso costuma ser mais enfatizado, trazendo mais agitação (Jean Cocteau é um exemplo). Se Polideuces se impõe, há consciência do conflito entre os dois, há mais angústia, questões filosóficas. Um geminiano deste último tipo é, por exemplo, Jean-Paul Sartre.


Alhena, a 8º 24´ de Câncer, é a estrela gama de Gêmeos. Está situada no pé do irmão que está ao sul. O nome vem do árabe Al Hanah, palavra que sugere uma ideia de ferimento, sendo
PTOLOMEU
conhecida pela expressão “O tendão de Aquiles”. A sua natureza para Ptolomeu é de Mercúrio e Vênus (moderada). Os árabes a designavam por uma palavra que significava “marca”. “cicatriz“ (ferro quente). Esta estrela, entre os egípcios, representava uma marca divina deixada na terra, algo como a pegada de um deus. Um toque sagrado, pois, que pode significar orgulho, excesso de determinação. Entre os judeus, era a marca divina imposta a Caim, marca que o livrou de ataques e agressões, mas, por outro lado, tornou-o símbolo de uma eterna peregrinação até o final dos tempos. Alhena pressupõe a ligação a uma causa, a um destino, uma ideia de algo a ser seguido apesar de todas as adversidades (um ferimento, por exemplo). As metas podem ter uma tradução física (nomadismo, significado acidental pelo signo oposto) ou intelectual, segundo as relações da estrela com os planetas do mapa. Wasat (O Meio, em árabe) é a estrela delta, hoje a 17º 48´ de Câncer, de natureza saturnina. Pode expor a violências e a perigos (produtos químicos, gases e venenos). As demais estrelas de Gêmeos não têm importância astrológica.