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sábado, 15 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (2)




Os antigos persas constituíam um ramo do tronco ariano. Eran ou Iran era o nome do país dos árias (etimologicamente, nobres, leais, senhores), tribos que haviam emigrado da Rússia meridional, passando à Ásia pelos Dardanelos ou pelo Cáucaso. Estabelecidas no planalto iraniano, essas tribos traziam como culto principal o do fogo (atar), tanto o do céu como o que está encerrado na madeira. 


ZARATUSTRA

ZEND-AVESTA
As primitivas crenças dos persas consistiam na adoração dos elementos, do fogo em especial, e dos astros, Sol e Lua principalmente. Depois do reinado de Dario, um profeta de gênio, Zaratustra, Zoroastro para os gregos, deu a seu povo o Livro da Verdade, o Zend-Avesta, que, segundo ele, fora objeto de revelação divina. Este livro está na base do Mazdeísmo, a religião persa sistematizada, que dá corpo a uma doutrina dualista. 

Nesta concepção, há um ser eterno, supremo, sem princípio ou fim, anterior a toda a criação, origem de todas as coisas, Zervan Akarena. Como emanações deste ser eterno temos dois princípios, duas divindades superiores, Ormuz (Ahura Mazda), o bom, o sapientíssimo, e Ahriman (Ayra-Lanya), mau e inteligente.


ORMUZ   ( AHURA   MAZDA )

Do primeiro procede todo bem, toda luz, toda pureza; do outro, toda maldade e corrupção. Ambos compartilham a obra da criação, sendo chefes de duas falanges sobrenaturais em luta permanente, em ciclos de doze mil anos, divididos em quatro idades, que terminam com a vitória das forças da luz. 

Ormuz, o criador, gerou os céus, a luz, o fogo, os astros, os metais, a humanidade, o reino animal, as árvores, as águas. É conservador e sustentador. É o provedor do fogo que anima todos os seres e dá alento às retas intenções dos homens.

Sob as ordens de Ormuz, temos os seis Amshaspand, seres que das alturas velam por toda a criação. São gênios benéficos, formando o seu séquito. Abaixo destes seis auxiliares, há um grupo de vinte e oito seres, os Izeds, espíritos benfeitores e amigos dos homens, mediadores entre estes e as principais divindades, e que governam em sua esfera inferior os elementos da criação e o tempo.

O mais importante dos Izeds é Mitra, espírito luminoso e potente, gênio do Sol e do fogo. É um dos principais agentes de Ormuz, possuindo mil orelhas e dez mil olhos. É o mais ativo dos Izeds, cuidando de todas as criaturas. Exerce funções militares, marcianas, usando sempre uma fulgurante armadura, vigiando os povoados e caminhos. Exerce também funções judiciais, como sustentáculo dos vínculos morais; tem a seu cargo o julgamento das ações humanas quando finda a vida terrena e se dá a passagem dos que morreram pela ponte que leva à eternidade. O nome de Mitra era invocado três vezes ao dia: na aurora, ao meio-dia e ao crepúsculo.


AHRIMAN
Diante dos rutilantes espíritos do bem, temos as hostes de Ahriman, sombrias e maléficas, formando toda uma hierarquia dos poderes inferiores. Sete príncipes fazem parte do seu séquito, distribuindo-se entre um grande número de demônios todas as atividades maléficas. 


Fazem parte da falange do mal espíritos sombrios e maléficos, toda uma hierarquia de poderes infernais, graduada segundo as regras de Ahriman. Toda a Natureza aparece também dividida entre os dois princípios. Frente ao homem justo e piedoso vive o ímpio e o malvado. Os animais sagrados são atacados pela feras, as plantas se dividem entre úteis, nutritivas, e tóxicas ou simplesmente nocivas. 

A luta entre os dois princípios é constante, mas não eterna. Na primeira fase do ciclo de doze mil anos, Ormuz se dedica à criação enquanto seu inimigo, Ahriman, se prepara, ardiloso e falso, para combatê-lo, corrompendo a criação. Na segunda fase, Ahriman sai das trevas e ataca Ormuz. Cego, porém, pela brilhante luz das entidades celestes, precipita-se num abismo, impotente e raivoso. 

Passam-se seis mil anos e na terceira fase o Maléfico, recomposto, tenta novamente atacar as forças do bem à frente de um exército de Devas, tenazes e muito belicosos. Invadem Gorotman, a mansão de Ormuz. Mitra, chefe dos exércitos celestes, trava renhido combate com as forças de Ahriman. Vencido, despenca em direção da Terra. Rearticuladas depois de muito tempo, as forças de Ahriman tentam um assalto final.





AHRIMAN

Tomando a figura de uma serpente, Ahriman se dirigiu ao paraíso onde vivia o primeiro casal humano, Meskia e Meskianea. Disse-lhes que era o criador de todas coisas e que possuía poderes infinitos. Deu-lhes leite de cabra e frutos, submetendo-os. A partir desse momento, perdida a sua inocência original, Meskia e Meskianea morreram. Seus corpos se misturaram, suas almas foram para o céu e ali ficaram à espera do grande dia da ressurreição da carne.


Trava-se então uma batalha final entre Ormuz e Ahriman. As forças do mal haviam obtido algumas vitórias. As almas dos mortos vagavam perdidas. Os Izeds intervém, reunindo-as e as levando para atravessar a ponte Tchinevad, que separa a eternidade do mundo humano. É ali que Mitra, o campeão das forças do Bem, tem o seu tribunal, assessorado por Bahman, divindade do firmamento, da luz e da ordem. As almas boas atravessam a ponte. Não são atacadas pelo grande cão infernal Sura. As almas dos malvados serão o butim dos Devas, os membros do exército do Mal.

Durante grande parte da última fase do ciclo, as forças de Ahriman espalham a corrupção pelo mundo, considerando-se vitoriosas. Ormuz, no entanto, escolheu dentre os humanos um ser especial, Zaratustra, e lhe revelou a doutrina da salvação, o Zend-Avesta

 No final dos tempos, um cometa maléfico, símbolo de tudo o que foge à ordem cósmica, escapará da vigilância da Lua, que rege o seu curso, e, precipitando-se no espaço, chocar-se-á contra a Terra, abrasando-a em fogo. Chamas imensas destruirão toda a matéria, apagando completamente a criação, trazendo a confusão dos elementos e fazendo tudo voltar à indeterminação, reconciliando, assim, finalmente, Ormuz e Ahriman. Um  novo ciclo será então será criado...

MITRA
O nome que melhor representa as virtudes marcianas na antiga civilização persa é Mitra, que, dentre todos os campeões das forças do Bem, é o que ostenta de modo exemplar as virtude de uma autêntica pureza moral, conservada graças a uma atitude belicosa, como um verdadeiro soldado da fé. Daí, o grande prestígio de Mitra entre os generais e as legiões romanas. Com efeito, o mitraísmo propunha a veneração da luz, emblematizada pelo Sol Invictus, invencível, o grande inimigo das forças das trevas.



MITRA   DEGOLANDO   O   TOURO

Mitra é representado comumente como um herói degolando um touro, o primeiro ser vivo da mitologia persa, de cujo sangue nascerão os vegetais e os outros animais. Ormuz depositou no corpo desse  touro primordial, Abudab, os germes de todos os seres corpóreos. Como senhor do tempo, Mitra é também muito representado como um ser humano com cabeça de leão e o corpo envolto por uma serpente, representando esta imagem urobórica o curso do Sol no ciclo do tempo. Mitra nasceu de um rochedo num dia 25 de dezembro, dia em que se celebrava na antiga Pérsia o renascimento do Sol (Sol Natalis), isto é, a volta do Sol,  que  havia


AURELIANO
se deslocado para o hemisfério sul, ao hemisfério norte. Esta data, como se sabe, foi usada pelos cristãos, no séc. IV,  para estabelecer a festa da natividade de Cristo, com o objetivo de substituir a festa em honra ao deus Mitra, até então muito celebrada no mundo romano. O mitraísmo era tão popular em Roma que o imperador Aureliano, em 274, o declarou como religião do estado.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

IRÃ (PÉRSIA)



                                   
A antiga Pérsia chama-se hoje República Islâmica do Irã. País da Ásia ocidental, com 1.648.000 km2 e cerca de 60 milhões de habitantes, sendo a maioria xiita (80%). As primeiras referências

MEDEIA 
que temos sobre os habitantes da região mencionam dois grupos: nas montanhas, os persas, na planície os medos. Estes últimos, segundo a mitologia grega, descenderiam de Medo, filho de Medeia e de Egeu, pai de Teseu. Através do Elam, região situada a leste do rio Tigre inferior, as influências babilônicas se fizeram sentir desde o período proto-histórico do país. Por volta do segundo milênio antes de Cristo, invasores indo-europeus deram seu nome ao imenso platô onde se estabeleceram, chamando-o de Aryana-Vaejo (origem dos árias), ou seja, Eran ou Iran, o país dos árias (nobres, leais, senhores). Os árias vinham do sul da Rússia meridional, tendo chegado à Ásia através do estreito de Dardanelos e dos montes Cáucasos. É de se lembrar que o nome celta da Irlanda era Erin, o que nos permite estabelecer uma ligação de fundo indo-europeu entre todas as regiões mencionadas. 



VEDAS

Os árias, instalando-se na região acima descrita, foram se misturando e se impondo às tribos persas e medas. A língua que desenvolveram na terra conquistada apresentaria alguma semelhança com a que seria criada na Índia, também por eles invadida, para registro das suas crenças religiosas (Vedas). É desse tronco, o indo-europeu, que sairiam várias outras línguas, um idioma-tronco que encontramos na origem das línguas eslavas, germânicas, grega, latina e celta e que nos permite perceber entre os povos que as falam ou falavam um elemento comum entre os seus mitos.


ALEXANDRE MAGNO

As primeiras referências aos medos e aos persas nós as encontramos em textos assírios do séc. IX aC. Foi sob uma influência maior das tribos medas que, por volta dos sécs. VII e VI aC, se formou um primeiro reino iraniano, tendo por centro Ecbatana, capital da  Média, pilhada séculos mais tarde por Alexandre Magno. Este reino cairia sob o poder de uma dinastia persa, os Aquemênidas (Aquêmenes, Ciro, Cambises, Dario etc.), que formariam o império mais vasto da antiguidade, no qual se incluíam os territórios da Mesopotâmia, Síria,  Egito,  Ásia Menor, de cidades e ilhas gregas e de uma parte da Índia, extenso território dividido sob a forma de satrapias. Este império só teria fim com a invasão de Alexandre Magno, ocasião em que a sua magnífica capital, Persépolis, seria totalmente destruída pelo fogo. Depois da morte de Alexandre, negociações políticas levam ao poder a dinastia dos Parto-Arsácidas (250 aC-191 dC) e dos Sassânidas, que governam o país até a invasão árabe (633-642), impondo-se a partir de então o credo muçulmano a todo o país.   

 A RELIGIÃO 

 Duas grandes linhas de convergência estão presentes nas
formulações religiosas dos persas antigos: contribuições assírio-babilônicas e arianas. É sob a dinastia dos aquemênidas que os contactos entre as duas linhas religiosas se fazem, gerando-se um texto, o Avesta, cuja forma final só aparecerá mais tarde, na dinastia dos sassânidas. Pode-se perceber, contudo, que a construção religiosa dos persas antigos tinha por ideia central o fogo e seu simbolismo.  

Sabemos que as tribos arianas atribuíam a esse elemento e  ao seu simbolismo  muita  importância nas suas doutrinas religiosas, chamando-o de Agni (fogo terrestre), Indra (fogo intermediário) e Surya (o fogo celeste), isto é,  o fogo comum, preso à terra; a luz entre o céu e a terra e o Sol. No mundo persa, no Mazdeísmo, o fogo tornar-se-á o símbolo divino mais importante,
AGNI
sendo seus adeptos conhecidos como “adoradores do fogo”. Aquele que comandava o fogo era um título real (imperador, príncipes), às vezes conferido excepcionalmente a alguma pessoa de grande destaque. Os altares chamavam-se “lugares do fogo”. Tudo nesse mundo revelava a grande importância dada a dois temas ligados ao fogo, iluminação e purificação. Com efeito, o fogo na medida em que é agente da destruição, queimando, consumindo, é também um símbolo de purificação e regeneração, apontando-nos claramente o aspecto positivo da sua intervenção, que os alquimistas chamarão de calcinação (calcinatio).



AHURA MAZDA

Atar era o nome que davam ao fogo, tanto o que  se  manifestava  a partir  do  céu  como o  terrestre,  o  produzido  pela  combustão  da madeira. O fogo é a  personificação  do  próprio  Ahura-Mazda  que tudo concede aos humanos, sabedoria, conforto, subsistência e  que garante aos virtuosos o acesso ao paraíso.  É  a  própria  energia  do carro solar, afasta o mal, promove o bem.

Outra ligação que se enraíza no mundo ariano é a dos ritos ligados ao Soma védico. Este, como sabemos, é o suco extraído de uma planta do mesmo nome, que, na Índia védica, foi elevado à categoria de divindade, a bebida sagrada. No Rig-Veda, o primeiro dos livros sagrados dos hindus, mais de cem hinos são dedicados a Soma como divindade. Do mesmo modo, entre os antigos persas encontramos uma bebida semelhante, o Haoma, um licor fermentado, também divino. Essa bebida abre as portas da espiritualidade ao crente, afastando as entidades maléficas. Na mitologia, Haoma é o adversário natural da morte. O primeiro a prepará-la foi um certo Vivanhvat e todos os que a experimentaram atingiram a imortalidade. 

Outros traços  védicos  que  podemos  encontrar  na  antiga  religião persa, antes da reforma de Zoroastro, são as figuras  de  Mitra  e  de
ZOROASTRO
Indra.   Este   último,   entre   os   antigos   irano-pérsicos,   será transformado num demônio de pouca expressão.  Já  o  outro,   cujo nome quer dizer “contrato”, é  a  divindade  das  manadas  bovinas. Será ignorado quando da reforma zoroástrica, reaparecendo, porém, no  período  aquemênida,   como    um    deus    solar    e    salvador escatológico.  Seu  culto  se  espalhará  pelo  mundo  helenístico   e depois romano. Seu culto se transformará numa religião de mistério, com  sete  graus  de  iniciação,  tendo  como  principal  cerimônia o taurobolium ,  a  imolação  de  um  touro,  com   o   consequente batismo de sangue do crente, que se transformaria num renatus in aeternum, nascido para uma nova e eterna vida.  


Assimilado ao deus do  Tempo,  Mitra  é  o  distribuidor da energia vital, também designado como  o  Sol  Invicto.  Ora é representado sob a forma de um  herói  cortando  a  cabeça  de  um  touro,  cujo
MITRA
sangue, espalhado, dará origem ao  nascimento dos  animais  e das  plantas ;  ora  será representado por um homem com cabeça de leão, em cujo corpo se enrola  uma  serpente,  simbolizando  a  figura  o curso solar e o tempo. Sua grande festa era celebrada no dia 25 de dezembro, dia em que se celebrava, depois do solstício de inverno, o renascimento do sol invencível. Seu culto foi introduzido na bacia mediterrânea ,  atingindo  Roma e  a  Gália ,  por  pouco  não  se transformando  na  religião  oficial  do  império,  já  que  inúmeras legiões romanas, com suas principais figuras à frente, haviam a ele se convertido.


O culto de Mitra propunha uma regeneração tanto física quanto psíquica pelo batismo do sangue taurino. Com isto se exaltava a energia corporal do guerreiro, que ficava, assim, convocado a lutar com todas as suas forças contra os poderes do mal, para que a verdade e o bem triunfassem. É importante também mencionar que, sob a influência da astrologia caldaica, desenvolveu-se entre os antigos irano-pérsicos um culto especificamente voltado para os astros,  o Sol, a  Lua, Vênus e a estrela Sirius.

OS  MAGOS

    Na origem, os magos eram feiticeiros e necromantes da Média,
palavra que  vem do grego e, segundo Heródoto, mago é o “sacerdote que interpreta os sonhos”, profetizando através do sacrifício de cavalos brancos, ocasião em que então salmodiavam uma genealogia divina. Os magos formavam uma corporação que procurava preservar certos ritos muito antigos, de fundo ariano, que tinham o fogo como elemento principal. Ligados às tradições da Média, opuseram-se, a princípio, à hegemonia persa. Na dinastia dos sassânidas, tornaram-se os organizadores do mazdeísmo oficial, constituindo-se em missionários zoroastristas no Irã ocidental. 

Não se pode também perder de vista as relações que esses sacerdotes parecem ter estabelecido com os citas, povo que vivia nas estepes ao norte do mar Negro, os chamados iranianos do norte. Adoravam deuses celestes, Papaios (Urano), Mitra (Hélio-Apolo), uma Afrodite urânia e uma divindade semelhante ao Ares grego, deus da guerra. Segundo Heródoto, os citas não possuíam templos, altares ou estátuas. Sacrificavam todos os anos cavalos e carneiros ao deus da guerra, juntamente com um prisioneiro de cada cem que capturassem. A divindade guerreira era representada por eles por uma espada de ferro cravada num monte de terra. Quando do falecimento de um rei, faziam-se sacrifícios humanos de uma concubina e de servidores para acompanhá-lo na viagem ao outro lado da vida.

 Muitas das práticas dos citas tinham caráter xamânico: por meio de
PARACELSO
estados    extáticos  e  invocações    ritualísticas   manifestavam faculdades  mágicas ,  curativas  ou  divinatórias      (xamã, etimologicamente, vem da língua tungue, esconjurador, exorcista). Uma de suas práticas, que parece ter sido absorvida pelo zoroastrismo, é um rito xamâmico que consiste em lançar grãos de cânhamo em pedras quentes. Tal prática,

segundo Heródoto, “provocava neles tanta felicidade que chegavam até a uivar de prazer”. Toda esta prática xamânica ligada ao mundo dos magos será, de certa forma, revivida através de alguns representantes do Renascimento a partir do neoplatonismo florentino (Marsilio Ficino) e por figuras como um Paracelso ou um John Dee.


A  GRANDE  REFORMA


A grande divindade da dinastia aquemênida era Mazda, que triunfa sobre todas as demais divindades tribais. Senhor do céu, criador de todos os seres, é um reflexo do rei, aquele que se impõe a todos os povos. A raiz de Mazda parece vir de uma palavra sânscrita, medhâ, sabedoria. Outros, mais recentemente, propõem mada, embriaguez, e mastim, iluminação, Ahura Mazda era, qualquer que fosse o entendimento, uma divindade que propunha a transcendência. A arte iraniana deu a Mazda uma figura humana, venerável, de barba, como os assírios; o corpo alado, majestoso, postura hierática, solene. Uma divindade que a todas sobrepujava. A lei universal, “acha”, era de sua autoria. À sua volta, seus acompanhantes, parecidos com arcanjos (amesha spenta).

Zaratustra, chamado pelos gregos de Zoroastro, foi o grande profeta e reformador iraniano, que vai fazer a conciliação entre as divindades arcaicas e as exigências religiosas das dinastias reais, conciliação esta que só tomaria a sua forma definitiva alguns séculos mais tarde. Ele desenvolveu sua atividade entre os anos 1.000-600 aC. A tradição mazdeísta declara que ele teria vivido 258 anos antes de Alexandre. Aceita esta data, Zaratustra teria vivido entre 628-551 aC. Seu primeiro êxito foi a conversão do rei Vishtaspa às suas propostas religiosas, expressas nos chamados gathas, poesia sagrada, estrofes muito semelhantes às que encontramos nos Vedas.


SIDARTA GAUTAMA

A vida do profeta está imersa na lenda, no maravilhoso, registrando seus biógrafos que ele nasceu rindo. Sua trajetória, em certos pontos, se parece com a de Sidarta Gautama, já que com vinte anos abandona a casa paterna para procurar o seu caminho, permanecendo sete anos silencioso no fundo de uma gruta. Aos trinta anos recebe a revelação, entrando assim nos segredos do cosmos. A primeira luz que alcança lhe proporciona um êxtase em presença de Ahura Mazda, através do qual obtém o espírito da sabedoria. A partir desse momento, começa a sua vida de pregações, ao mesmo tempo em que vai, através de outras revelações, recebendo outros poderes, que lhe permitem tornar-se o guardião dos quatro elementos, dos animais domésticos, dos metais, das plantas. É tentado por Angra Mainyiu, isto é, Ahriman, o príncipe dos demônios, que lhe oferece todo o poder temporal, que rejeita. O poder de Zaratustra se estende ao campo de toda a ciência humana, ao conhecimento de todos os astros, de seus movimentos eternos, e de todo o reino mineral, em especial das pedras preciosas. A moral que prega fala da preservação da pureza  dos pensamentos, das palavras e das ações, tudo tendo em vista que depois da morte as almas serão julgadas.

Ao receber a revelação, Zaratustra deixa claro que a  sua reforma se baseia numa imitatio dei. A exigência é a de que os crentes sigam o exemplo de Ahura Mazda, mas permanecendo livres para as opções, não se tornando escravos da divindade como propõem, por exemplo, os cultos de Yahvé ou de Alá. Ahura Mazda é o pai de inúmeras outras entidades, potências muito semelhantes aos arcanjos bíblicos. Gerou também Ahura Mazda  dois espíritos gêmeos, um benfeitor (Spenta Mainyu) e outro destruidor (Angra Mainyu). A teologia  de Zaratustra deixa claro que o bem e o mal, o santo e o demônio, procedem de Ahura Mazda, que transcende assim toda a dualidade, todas as contradições, significando isto que a existência do mal acaba por se constituir na condição prévia da liberdade humana. 

O profeta não tem dúvida que os demônios serão vencidos e que os justos triunfarão. Zaratustra pede que Ahura Mazda dê uma indicação de quando o justo vencerá o malvado. O que se depreende da resposta que o profeta ouviu é que a vitória só será possível por uma transformação da própria existência do crente, sempre renovada. Esta transformação se assemelhava à própria renovação do mundo, como aquela que a cada ano novo devia ser celebrada, uma cosmogonia. Elegendo Ahura Mazda, o crente elegia o bem, opondo-o ao mal. Nenhuma tolerância diante das forças demoníacas. 

O culto proposto pelo profeta dá muita importância ao rito (yasna) para que o crente possa viver uma condição “maga”, uma experiência extática que lhe proporcione a iluminação (chisti). Esta iluminação permite que o crente viva uma separação entre o espiritual e o corpóreo, recuperando uma condição de inocência anterior à mistura das duas essências, causada por Ahriman. O sacerdote, ao realizar esta separação, dá o exemplo de uma “transfiguração do mundo”. Neste rito entra necessariamente o haoma, a bebida da imortalidade.





A tradição narra que o profeta morreu com a idade de setenta e sete anos, incinerado por assassinos mascarados (lobos), uma provável referência a membros de antigas tribos de tradição ariana, inimigas do profeta. Como mago exemplar, Zaratustra será evocado por muitas figuras da Renascença, mencionando-se, ainda, que alguns de seus reflexos podem ser encontrados em O Fausto, de Goethe.


COSMOGONIA

A cosmogonia proposta pelo profeta fala de dois princípios antagônicos, Ahriman, o mal, e Ormazd, o bem, da rivalidade entre eles e da vitória deste último. A duração do mundo é de doze mil anos, divididos em quatro períodos de três mil anos cada um. No primeiro, as duas  entidades referidas são criadas; no segundo, os seres aparecem, gerados tanto pelo bem quanto pelo mal. No terceiro período são descritas todas as ocorrências ligadas aos seres aparecidos até o nascimento do profeta. No quarto, a vitória de Ormazd, quando se dará o julgamento final de todos os seres.

As primeiras criaturas deste mundo foram um homem mítico, Gayomart, progenitor da raça humana, de cuja semente, conservada
por quarenta anos sob a terra, nasceu o primeiro casal. Outra criatura das origens é o touro, Goch, lembrando-nos a ligação da primitiva religião indo-ariana com a Índia védica (mitraísmo). A história da criação, com todos os seus episódios, está num texto, O Livro dos Reis, um poema de cerca de sessenta mil versos, composto no século X.

Evidentemente que a influência do mitraísmo védico recebeu muitas modificações ao se integrar ao mazdeísmo de Zaratustra. Contudo, tanto um como outro guardam muita semelhança em dois aspectos essenciais: ambos dão muita importância à pureza moral, preservada com muita luta, e uma grande veneração ao fogo no seu aspecto luminoso, o seu aspecto invencível como o Sol o representa. Estes traços permitem entender o grande prestígio que a religião indo-ariana tinha entre as legiões romanas, chegando mesmo alguns imperadores a adotá-la. 

O Zoroastrismo, como os gregos denominavam também o Mazdeísmo, impôs-se, como se viu, a antigos cultos e permaneceu majoritário no país até a conquista muçulmana. O mazdeísmo se caracteriza, como vimos também, por uma elevada consciência das noções do bem e do mal que reinam no mundo. Ahura Mazda, guia o homem para o bem (Ormazd)), e se opõe ao mal (Ahriman), espírito maléfico, chefe dos daeva (demônios). A humanidade não pode evitar esta luta. Um julgamento futuro  pelo fogo separará os bons dos maus. A vitória final caberá ao princípio do bem. Muitos consideram, por isso, o Mazdeísmo como um “monoteísmo imperfeito”. O culto é extremamente regulamentado. Os corpos não podem ser enterrados, queimados ou lançados às águas; serão expostos nas chamadas “torres do silêncio”, onde os abutres darão fim à carne, como as vemos ainda hoje em Mumbai. É nesta cidade da Índia que encontramos hoje os “parsis”, persas emigrados, de pela mais clara, que buscaram nela buscaram o seu santuário a partir do século X, fugindo da invasão muçulmana.  Os “parsis” são adoradores do fogo, creem nos poderes protetores dos espíritos (pitarah, o espírito guardião parsi, uma espécie de anjo custódio).

Como sobreviventes do Mazdeísmo, os “parsis”, julgamos, merecem uma referência especial. A comunidade “parsi” é hoje da ordem de 600.000 pessoas e está distribuida pela costa oeste do país (a maior parte em Mumbai) e adotou a língua gujarate, mantendo-se rigorosamente fiéis à fé dos seus ancestrais. Em seus agiários (templos do fogo), a chama sagrada é mantida permanentemente acesa. Constituem um grupo bastante fechado, conforme tivemos oportunidade de constatar em algumas visitas. Não permitem a entrada de estranhos nos seus templos. O sacerdócio (dastur) tem caráter hereditário; seus membros vestem-se sempre de branco e são tidos por todos em alta estima. Uma peculiaridade: os “parsis”, apesar de muito conservadores sob o ponto de vista religioso, nos negócios atuam na vanguarda, ligando-se ao que de mais moderno há em tecnologia (indústria aeronáutica, computadores etc.).

O MANIQUEISMO



MANI
No século III, fundada por Mani, apareceu no Irã uma seita religiosa que logo se difundiu através de um corpo religioso que favoreceu sua rápida expansão pela Ásia, atingindo a China, onde subsistiu até o séc. XIV. No norte da África, o Maniqueismo foi pressionado pelo Cristianismo. Lembremos que Santo Agostinho, conforme está em suas “Confissões”, antes de se converter ao Cristianismo, foi maniqueísta. 

O fundador desta seita é Mani, Manès em grego, persa, que viveu entre 216 e 277 dC. Pregou sua doutrina a partir de 240. A tradição registra que ele foi um pintor e calígrafo, inventor de uma escrita, chamada maniqueísta, autor de livros religiosos dos quais restam algumas textos. A doutrina de Mani nos propõe um dualismo estrito que apresenta alguma semelhança com as teses gnósticas, ou seja, uma radical oposição entre o bem e o mal. Deus e matéria, luz e sombra, duas partes entre as quais há uma separação irredutível. O homem é radicalmente dividido em duas partes e deverá procurar sempre manter a separação entre alma e corpo. Aos poucos, o nome maniqueísmo começou a ser aplicado pejorativamente a todas as doutrinas que opõem os dois princípios de uma maneira muito simplificada, o que não havia no maniqueísmo original, complexo e sutil. Por essa via mais trabalhada, o maniqueísmo pode ser aproximado do platonismo e do Cristianismo. Na Idade Média, algumas seitas (bogomilismo e catarismo) que se proclamavam maniqueístas apareceram na Europa, embora sua filiação não possa ser corretamente estabelecida. O Cristianismo e o Maniqueísmo, no plano da prática religiosa, apresentaram muitos conflitos, já que este último a fundamentava num ascetismo rigoroso a ser observado depois dos ritos de iniciação, para que o princípio da luz vencesse o princípio do mal.  


MORTE  E  RESSURREIÇÃO


O rito funerário de expor os mortos ao tempo (ar) era um antigo costume das estepes da Ásia central, costume este que, em algumas regiões do Irã zoroastrista, foi substituído pela cremação do corpo e inumação das cinzas numa urna. No Irã oriental era comum a prática de lamentações rituais funerárias, com autoflagelação que podia inclusive levar ao suicídio. 

A alma do morto, segundo a melhor tradição, passava por uma ponte, fazia a sua ascensão e submetia-se a um julgamento para, ao final, encontrar-se com o seu próprio eu. Este eu é o resultado de
suas ações na  terra. A alma (daena) se apresenta sob uma forma feminina arquetípica, mas sem uma aparência concreta. Antes da apresentação das almas a Ahura Mazda e aos Amesha Spenta, ocorre o seu julgamento para a separação dos bons e dos maus. O julgamento é conduzido por Mitra com os seus assistentes, feita a devida pesagem das ações humanas e da alma. Aliás, desde a travessia acima referida já se apresentava a ideia de um julgamento, pois a ponte se alagava para o justo e se estreitava para o ímpio, reduzindo-se no final ao fio de uma navalha. 

A ressurreição dos corpos aponta para uma renovação final através de um juízo universal. O mundo é radicalmente renovado, sendo essa nova criação isenta de qualquer ataque demoníaco. A ressurreição dos corpos equivale a uma cosmogonia (macrocosmo-microcosmo), representada pelos ritos do Ano Novo. É neste período que se concentram os acontecimentos mais importantes do drama cósmico e humano. Fim de ano e renovação escatológica. No final dos tempos, Ormazd dará aos ressuscitados uma “roupa de glória”.

O ANTAGONISMO ENTRE ORMAZD E AHRIMAN


Os dois personagens divinos, Ormazd e Ahriman, marcam os dois polos da existência. O primeiro tem relação com a vida o outro com a morte ou luz e verdade de um lado e, de outro, trevas e mentira. Eles se definem por seu antagonismo, o anti-demoníaco e o anti-divino, sendo a realidade resultante de uma luta corpo-a-corpo entre eles. Ahura-Mazda, de quem ambos procedem, assim falou a Zaratustra: Criei o universo a partir da não-existência. Opondo-se a este mundo criado, que é todo vida, Angra Mainyu criou um
outro, que é todo morte, onde o verão tem apenas dois meses e o inverno dez meses, durante os quais a terra fica tão fria que mesmo os meses de verão são gelados, sendo, assim, o frio o princípio de todo mal. Prosseguindo, ele fala: Depois criei Gahon, o lugar mais encantador da terra, semeado de roseiras, onde nascem os pássaros com a plumagem de rubi. Angra Mainyu criou então os insetos daninhos que atacam as plantas e os animais. A grande divindade continua descrevendo a sua criação, as maravilhas que concedia aos humanos e os males que, em oposição, Angra Mainyu gerava. 

Antes de se tornar um espírito do mal, Ahriman talvez tenha sido uma divindade ctônica. Parece confirmar esta suposição o fato de que no Mitraísmo os templos eram edificados em grutas e cavernas, entradas   infernais ,  nelas   se   encontrando  a  inscrição  "Deo Arimanio". Ao se integrar ao Mazdeísmo, Ahura Mazda era tido como o criador de dois gênios antagônicos, Spenta Mainyu e Angra Mainyu, um benfazejo e o outro maléfico. 

Ormazd comanda seis espíritos, "imortais benfeitores" como ele, podendo ser comparados aos arcanjos bíblicos (Gabriel, Miguel, Rafael etc.). Semelhança maior poderá ser notada, contudo, entre estes espíritos e determinadas elaborações védico-bramânicas como, por exemplo, Acha-Vahichta, o espírito da justiça suprema, que corresponderá à primeira forma do Dharma, "rita", a lei moral e cósmica; Vohu-Mano, o espírito do bem, que corresponderá ao Brahma  dos hindus e assim por diante. Cada uma destas criações no Mazdeísmo tutelará um aspecto da realidade, uma delas os animais úteis (Vohu Mano), outra (Khchathra-Vairya) fará com o que o céu e os astros se movam...

Toda a natureza é povoada de gênios (Yazatas), aos quais são devidos sacrifícios. Ormazd é considerado o primeiro dos Yazatas celestes, enquanto Zaratustra é o primeiro dos terrestres. Alguns Yazatas tutelam os astros, outros os elementos, as forças cósmicas e morais. Os bons gênios recebem o nome de Fravachis, assemelhando-se aos anjos da guarda. Estes seres etéreos coexistem com alma humana, dela fazendo parte; as almas, criadas por Ormazd, têm existência eterna, sobrevivem ao corpo, fazendo parte de um grupo de seres que têm existência imaterial. 


O principal demônio é Angra Mainyu, Ahriman, o príncipe das trevas. Os demônios, Devas, são seres voltados para a mentira, para o engano, para o logro, e sua vocação é a se opor permanentemente
ASMODEUS
ao bem. Alguns deles se consagram à degradação da existência, destruindo o bem e provocando o envelhecimento. Um dos principais demônios é Aeshma, que encarna o furor e a devastação, assemelhando-se ao Tifon grego, ao monstruoso Apophis dos egípcios,o eterno inimigo do Sol, de Osíris e de Isis. Aeshma identifica-se sobretudo com Asmodeus, o turbulento rei dos demônios, como ele aparece entre os judeus Livro de Tobit.


Os devas levam as pessoas à incerteza moral, atuando sempre no sentido contrário dos Fravachis. Outros demônios, como as Drujs, do sexo feminino, monstruosas como Keres gregas, adversárias da lei universal (acha), são seres da mentira. Ao lado delas atuam as Pairikas, sempre dissimuladas, encantadoras, perturbando também a ordem do universo, desviando os seres humanos do seu caminho reto e interferindo na ação dos astros e na combinação dos elementos que constituem a base material do cosmos. Outros grupos demoníacos, os Kavis e os Karapans, agem para corromper a ordem religiosa, tomando a forma de profetas, obviamente de falsas religiões. 

Dentre as Drujs, é preciso salientar duas, em especial, Nasu e Azhi Dahaka. A primeira aparece como um inseto que pousa sobre os cadáveres, levando a corrupção da carne e a podridão para todo o universo; a outra tem a forma de um dragão-serpente como os da Mitologia grega, com três cabeças, seis olhos e três goelas. Um personagem histórico, figadal inimigo da Pérsia, o rei Zohak, da Babilônia, acabou, pelo fenômeno do evemerismo, por se identificar com este monstro. O que chama a atenção, quanto ao mundo demoníaco da religião persa, é que, como em outras tradições, esse mundo é em grande parte feminino. Os vícios, os
perigos da sedução, a perda da luz a ele se associam sempre. Há, por exemplo, uma Druj, Jahi, que é a responsável pela origem da menstruação (impureza), devido a um beijo que Ahriman lhe deu. O poeta e ensaísta inglês John Milton (1608-1674), gênio da Literatura mundial, retirou destes modelos demoníacos persas algumas de suas idéias anti-feministas, idéias que estão tanto em alguns de seus ensaios como na antecipação do satanismo romântico (séculos XVIII-XIX), presente em sua maior obra, O Paraíso Perdido. Uma das figuras mais curiosas que sai desse mundo do mal é Zohak, um ambicioso rei do deserto, que Ahriman, o espírito do mal, converte numa criatura sua. Depois de ter induzido Zohak a matar o próprio pai, Ahriman, se instala no palácio real como cozinheiro, tornando-o carnívoro, um sacrilégio.


A PÉRSIA MUÇULMANA 

As civilizações de origem ariana subjugadas, na Ásia, pelo Islã, a Pérsia e a Índia, procuraram conservar sua mitologia  tradicional. Na Pérsia, o Islã procurou converter a totalidade da população. Aqueles que se mantiveram fiéis ao Mazdeísmo tiveram que emigrar, como os chamados “parsis”, que se refugiaram na Índia, na região de Mumbai, como se disse. Os que permaneceram na Pérsia, a quase totalidade da população, afastou-se da ortodoxia sunita, aderindo à heresia xiita. Estes, como sabemos, são os muçulmanos que reverenciam Ali e sustentam que os três primeiros califas (Abu Bekr, Omar e Othoman) cometeram um crime ao se apossar da linha sucessória do profeta. A linhagem que parte de Ali cria na Pérsia uma corrente mitológica nova, sob inspiração islâmica.

Onze descendentes de Ali e de sua esposa Fátima, filha do Profeta, constituem com aquele o grupo dos doze imãs ou diretores, todos semi-divinizados, investidos inclusive de atribuições morais. Eles regem as doze horas do dia, sendo assim constantemente reverenciados. Ali é chamado de O Leão de Deus, cabendo-lhe a purificação das almas. Fátima, a esposa, é, dentre todas as mulheres, a Pureza; Hasan, filho deles, protege e vinga os fiéis; Hosein, outro filho, é o protetor dos pobres e assim por diante.

Destaque especial tem a Astrologia na Pérsia islamizada, como, aliás, em todo o Islã e na antiga Caldeia. O Sol, o centro do sistema planetário, é o princípio da luz e do calor; A Lua, da umidade; Júpiter e Vênus exercem influências favoráveis; Saturno e Marte atuam ao contrário; Mercúrio é ambíguo, sendo o patrono dos escritores, enquanto Marte é dos sanguinários e Júpiter o é dos sábios. O Sol protege os poderosos do mundo, Saturno tem relação com o íngreme e montanhoso e Vênus é o astro das cortesãs. A arte astrológica sempre foi praticada pelos povos da Ásia. Com a chegada do Islã, essa prática se desenvolveria bastante, como na Pérsia. Lembremos que os árabes foram os depositários do antigo conhecimento grego e hindu, desenvolvendo muito inclusive estudos astronômicos com relação, especialmente, ao movimento dos astros  e à cartografia do céu.


RUMI

Aos poucos, estabeleceu-se um sincretismo que acabou por conciliar a demonologia mazdeana e os gênios do Islã. Estes são os djins, cujo pai, Djan, foi criado antes de Adão. Divinos, os djins se corrompem, decaindo, pelo pecado do orgulho. Na Pérsia muçulmana, uma corrente mística de grande importância aparece, o Sufismo, formada por religiosos que procuram a intuição absoluta pela santidade e pela dança, um processo do qual faz parte a inteligência gradualmente realizada. Uma das expressões mais interessantes da Pérsia muçulmana está também na produção poética que vai se alimentar sobretudo da sabedoria dos místicos. No século XII, Atar é o grande nome da poesia. Descreve ele o destino das almas como o voo dos pássaros através de sete vales: Procura, Amor, Conhecimento, Independência, Unidade, Estupefação e Aniquilamento. No século XIII, temos o maior nome da mística, Jelal ed-Din Rumi, com textos de fundo filosófico que lembram muito aquilo que Jean de La Fontaine iria produzir na França séculos depois. Rumi é fundador da ordem Sufi dos Mawlawi, mais conhecidos sob o nome de derviches rodopiantes. Além das produções poéticas, merecem referência ainda a histórias oriundas de temas bíblicos, histórias de alta carga simbólica, que estão por trás de muitos mitos persas. 


                                 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

SEGUNDO TRABALHO DE HÉRCULES

            


O Touro enlouquecido de Creta -  Homero, na Odisseia, nos fala de Creta, uma ilha fértil e formosa que ficava no meio do mar azul escuro, densamente povoada. Uma de suas grandes cidades era
PALÁCIO DE CNOSSOS
Cnossos, de onde o rei Minos a governava, desfrutando da amizade de Zeus todo-poderoso. Historicamente, sabe-se que a ilha era habitada desde o período Neolítico. Por volta de 3.000 aC, foi invadida por um povo oriundo da Anatólia que trouxe as técnicas dos trabalhos em bronze  e uma arquitetura bastante evoluída. A esse período histórico e aos seguintes se dá o nome de Minoico ou do Bronze, assim dividido: a) minoico histórico (2.800-2.100 aC); b) minoico médio (2.100-1.580 aC); c) minoico recente (1.580-1.100 aC).



Conforme pesquisas arqueológicas realizadas por A.J. Evans no início do século XX, o suporte histórico das narrações míticas foi confirmado, encontrando-se referências a personagens como Minos, Dédalo, Ícaro, Hércules, Minotauro, Ariadne, Teseu e outros. Os primeiros palácios da ilha, construídos em Cnossos, sua capital, e em Phaistos, Mallia, Tylissos e Kato Zakros, foram destruídos no séc.XVIII aC por invasores vindos do continente. Reconstruídos depois, foram definitivamente arrasados por volta do séc. XV aC pelos aqueus, que passaram a dominar a ilha, instaurando-se, então, a chamada civilização creto-micênica. A decadência de sua esplendorosa civilização se precipitou por volta de 1.400 aC quando um terremoto devastador se abateu sobre o noroeste da ilha, destruindo os palácios que haviam sido reconstruídos. Com a chegada das tribos dóricas, mais tarde, por volta de 1.100 aC, a civilização creto-micênica desapareceu, ficando desde então Creta submetida à Grécia continental, como um território ultramarino.

Creta foi durante séculos uma talassocracia, um grande império marítimo e comercial que dominou o Mediterrâneo oriental.  Com uma civilização rica, requintada, com grandes palácios, um intenso
movimento artístico e uma vida social muito animada por festas, touradas, banhos, termas, jogos públicos, praças de esportes, e com fábricas de jóias, perfumes e cerâmica, Creta impunha-se comercialmente às ilhas Cíclades, à Grécia aqueia, ao Egeu, à Síria e a Chipre.

              Sob o ponto de vista religioso, cultuava-se na ilha uma
A GRANDE MÃE
divindade feminina, uma espécie de Grande Mãe, que representava a fecundidade. Este modelo, que incorporava no seu simbolismo traços que lembravam as águas do mar e o elemento terrestre, tem certamente origem no período Neolítico, quando a mulher, devido à valorização da agricultura, adquiriu grande prestígio social. A fertilidade da terra e das águas ligava-se solidariamente no modelo, tornando-se a mulher, porque é dela que vem a vida, símbolo da abundância. Embora governada por um imperador, Creta era o que chamamos de ginecocracia, desempenhando as sacerdotisas, nos cultos, um papel muito relevante. Não havia templos, celebrando-se os rituais em plena natureza, em lugares elevados, montanhosos, e em cavernas.

A capital da ilha era Cnossos, construída em meio a olivais e ciprestes, tomando o nome de Labirinto o palácio real. A cidade ficava a 5 km. do litoral. A atual capital, Heraklion, foi fundada pelos árabes no séc.IX dC; foram eles que deram o nome de Cândia tanto à ilha quanto à sua capital. O palácio real era uma extensa construção, com muitos corredores, salas e subterrâneos. O rei Minos, que descendia de Zeus, governava a ilha. 




Miticamente, tudo começou quando Zeus pôs os olhos na linda Europa, filha do rei Agenor, a colher flores numa praia em Sidon, reino do pai, na costa fenícia. Tomou então a forma de um touro maravilhoso, aproximou-se da jovem que, seduzida pela beleza do animal, nele montou. O touro divino entrou no mar e levou a princesa para Creta. Chegando à ilha, num local futuramente chamado pelo nome de Górtina, perto do monte Ida, Zeus, na sua forma divina, possuiu Europa num bosque de plátanos. Dessa relação, nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sarpedon. Era rei da ilha o mortal Asterion, com o qual Europa, por arranjos de Zeus, se casou depois, levando os seus três filhos, adotados por ele.

O plátano, como o carvalho, o cipreste, a oliveira e o pinheiro, era uma árvore sagrada, objeto de um culto do qual fazia parte o rito das dendroforias (procissão em que os troncos dessas árvores eram exibidos). Por terem presenciado o conúbio amoroso entre Zeus e Europa, os plátanos de Górtina receberam o privilégio de se manterem eternamente verdes. 

Para celebrar a sua união com a princesa Europa e o nascimento da nação cretense, Zeus colocou nos céus a forma taurina que tomara, como a constelação de Touro, a segunda na ordem zodiacal. Dessa constelação passaram a fazer parte a estrela de Aldebarã (alfa), considerada uma das quatro estrelas reais pelos persas (as demais são Antares, Fomalhaut e Regulus) e dois asterismos, as Plêiades e as Híades, muito importantes. 

Morrendo Asterion, Minos assumiu o poder. Casou-se com Pasífae, filha do deus Hélio e de Perseida, irmã de Perses, Eetes, rei da Cólquida, e de Circe, a maga. Minos e Pasífae tiveram muitos filhos. Minos logo começou a se envolver em muitas aventuras amorosas e a ele se atribui, no mito, a "invenção" da pederastia, motivada por sua paixão por Mileto, um filho do deus Apolo. Quanto a Pasífae, eram famosos os ciúmes que demonstrava diante das aventuras do marido. Por pertencer a uma família de feiticeiras (irmã de Circe e tia de Medeia, filha de Eetes), Pasífae lançou uma maldição contra o marido: todos os relacionamentos que o rei tivesse fora do casamento causariam a destruição das mulheres que com ele se relacionassem, pois do seu corpo sairiam serpentes e escorpiões que matariam as suas parceiras amorosas.
 
Minos, a cada nove anos, se dirigia a uma caverna do monte Ida a fim de fazer consultas e obter orientação de Zeus, seu pai divino. Por isso, seu governo, assim inspirado, era considerado excelente por todos, suas leis justas e magnânimas. Isto não impediu, entretanto, que seus irmãos viessem a disputar o trono com ele. Minos pediu, então, um sinal aos deuses para que se confirmasse o direito que tinha de ocupar sozinho o trono. Poseidon fez com que um touro branco de grande beleza saísse das águas, atendendo assim o que Minos pedira. Uma condição: o touro deveria logo ser sacrificado aos deuses. Minos, entretanto, que possuía um enorme rebanho e diante da beleza do animal, pensando na riqueza que poderia obter se o usasse como reprodutor, não o sacrificou. No lugar do touro divino, levou ao sacrifício um animal inferior, velho e doente.

PASÍFAE, DÉDALO E O SIMULACRO
 A punição divina não tardou. Os deuses fizeram com que Pasífae passasse a nutrir pelo animal divino uma alucinada paixão. A rainha, tomada por um furor erótico incontrolável, pediu a Dédalo, inventor e artista grego que vivia exilado na ilha, que resolvesse o seu problema. Dédalo fabricou um simulacro de um animal, fêmea, para que a rainha nele entrando pudesse se relacionar sexualmente com o touro divino. Dessa relação nascerá o famigerado Minotauro e, como se isso não bastasse, os deuses enlouqueceram o touro divino, pai do monstro, metade homem, metade touro. 




O touro divino, enlouquecido, que ninguém conseguia capturar, começou a atacar pessoas, matando muitas, e a destruir plantações e propriedades. Quanto ao Minotauro, depois de ingentes esforços, Minos conseguiu escondê-lo nos subterrâneos do enorme palácio, que, como sabemos, recebeu o nome de Labirinto, um emaranhado de corredores e de salas, em diversos níveis; quem nele penetrasse jamais encontraria o caminho de volta para a luz. Este palácio, segundo algumas tradições, Minos o mandara construir para que o monstro não fosse visto por ninguém, tamanho o seu horror e vergonha com relação ao que ele e Pasífae haviam gerado.

Com cabeça de touro e corpo humano, o Minotauro se alimentava de carne humana. Eram os gregos atenienses que forneciam o seu alimento. A cada ano, conforme um pesadíssimo tributo que Minos impusera à polis grega, deveria ser enviado a Creta um determinado número de jovens para que o Minotauro os devorasse. O pretexto para a imposição deste tributo fora a morte de Androgeu, príncipe cretense, assassinado numa emboscada, quando participava de jogos esportivos em Atenas. 

HÉRCULES CONDUZINDO O TOURO
  
Teseu, o grande herói ateniense, como sabemos, encarregar-se-á
mais tarde de matar o Minotauro. A captura do touro enlouquecido

de Creta ficou por conta de Hércules como o seu  segundo trabalho. Conforme determinação de Euristeu, o animal deveria ser capturado e entregue aos Cíclopes. Hércules localizou o touro nas escuras florestas da ilha, primeiro pelo seu mugido e depois pelo reconhecimento de um sinal que o animal possuía na cabeça, entre os chifres, uma estrela. A luta foi tremenda, mas o nosso herói conseguiu subjugá-lo, levando-o para o continente, onde o entregou aos gigantescos Cíclopes.

CÍCLOPES
 O incontido desejo de lucro por parte de Minos e os arrebatamentos sensuais de Pasífae, que estão na origem de sua sexualidade degenerada, uma verdadeira zoofilia erótica, acabaram por gerar um monstro que precisava ser escondido Não podia ele ficar exposto à luz do dia, isto é, ser admitido pela consciência. Foi levado para a escuridão do labirinto, obra de Dédalo, o artista corrupto. É neste sentido que o labirinto e o Minotauro se tornam, respectivamente, símbolos do subconsciente e do recalque, este último um mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que atitudes e condutas julgadas incompatíveis com a personalidade oferecida ao mundo, mas de impossível controle, passem do campo da consciência para o subconsciente.


   
É desse contexto que sai a palavra labirinto (etimologicamente, de labrys,  duplo  machado  ou  bipene,  símbolo  de  Creta)  para
alegorizar, sob o ponto de vista religioso, o mundo como labirinto, a queda e a perdição do espírito no plano da matéria, a dispersão do homem na perplexidade do mundo fenomênico. Os artistas medievais, inspirados pelos alquimistas, esculpiram no chão de muitas catedrais, como na de Chartres, por exemplo, labirintos, para representar essa dispersão. Esses labirintos eram também chamados de “caminhos de Jerusalém” e, como tal, considerados substitutos da verdadeira peregrinação.
 
LABIRINTO DA CATEDRAL DE CHARTRES
O touro é o símbolo da segunda constelação zodiacal, associada ao elemento terra, sendo, como signo astrológico, considerado fixo (2°mês da primavera). Áries, relacionado com o trabalho anterior, como se viu, tem relação com o elemento fogo, sendo considerado, por ser o início de uma estação (equinócio de Primavera), um signo cardinal. O elemento terra, no seu aspecto fixo, diz respeito basicamente ao que é tangível, sólido, palpável, concreto. Como tal, temos aqui ideias de quantificação, limite, valor, densidade, permanência, cálculo, remuneração, soma, aplicação, lucro material, acumulação, segurança, firmeza, investimento, riqueza, talento construtivo. Nas expressões inferiores, Touro se relacionará com avareza, conservadorismo, obstinação, possessividade, sovinice, egoísmo, inércia.

O taurino como tipo astrológico, na ânsia de obter segurança, de possuir e acumular, pode exagerar, como Minos o fez, não dando aos deuses um testemunho de sua obediência, isto é, deixar-se dominar pelo seu "touro interior’, pela sua avidez. O touro é símbolo do desejo material, carnal, nas suas mais diversas formas. Por isso, sempre presentes quando a ele nos referimos nesse aspecto ideias de esforços significativos no sentido  de se abordar o mundo com os pés no chão, a segurança na frente de qualquer coisa. O fruto desse desejo pode se tornar um monstro que se alimenta de "carne humana". Geramos monstruosidades com os nossos desejos materiais se não os soubermos orientar corretamente. Essas monstruosidades, geralmente, nós as escondemos dos outros. O labirinto é um dos símbolos desse enredamento, um afastamento cada vez maior da luz.

Hércules terá neste trabalho que aprender a separar a matéria do espírito, diferenciar, discernir. A vitória sobre o touro é a vitória sobre a materialidade, a ganância, o desejo de lucro de qualquer maneira, uma vitória da inteligência sobre o instinto. Na Índia, é o
SHIVA E NANDI
domínio da energia (Áries) que se materializa (Touro), como Shiva o representa quando vem montado sobre o touro Nandi, sua montaria. Outra lição deste trabalho é que o touro como símbolo do suporte material do universo não pode ser suprimido, destruído. Ou seja, temos que evitar a supressão do físico em nós, sempre perigosa, como propõem muitas seitas religiosas, diante dos inúmeros e enormes problemas fisiológicos e psicológicos que esta proposta acarreta.

Os excessos de limpeza corporal, de castidade, de pureza etc. geram mentes doentes. Tradicionalmente, um exemplo do que estamos aqui a abordar é a Suíça; acima, na superfície, ela é "branca", "séria" ,  "honesta" ,  "religiosa" ,  "imaculada ",  temente  de Deus, certamente.

Abaixo, nos cofres de seus bancos, é a imagem do labirinto cretense, ou seja, é ali que grande parte do dinheiro do mundo obtido criminosamente é guardado. Mais: determina-se neste trabalho que Hércules domine o animal e o conduza para a terra firme (o continente). No mito, como se sabe, as ilhas são de Poseidon, lugares paradisíacos, ilusórios, onde o material predomina sobre o espiritual. Não é por acaso que muitos “paraísos fiscais” no mundo moderno se situam em ilhas. Trazer o touro para o continente e entregá-lo aos Cíclopes (gênios construtores), é colocar a riqueza material acumulada para circular a fim de que se produzam bens e serviços que favoreçam a humanidade como um todo, inclusive culturalmente, espiritualmente. A vida material que perde essa perspectiva transforma-se em vida infernal, o estado do psiquismo de quem sucumbe ao monstro. Os "sacrifícios" que a ele fazemos (os jovens devorados) não são mais que os subterfúgios e as ilusões que criamos para nós mesmos para mantê-lo quieto.  

Já a paixão de Pasífae está relacionada com a luxúria, a sensualidade, a exacerbação do prazer dos sentidos na sua forma máxima, a sexualidade, e, atualmente, com todas as formas de consumismo. Dédalo, por seu lado, é o símbolo do artista corrupto, a serviço dos poderosos, é a perversão do poder criador. Tudo isto caminha junto com a decadência dos costumes, com a prostituição da arte diante da riqueza. Todo este apego e poder material que Creta representa nos apontam para um mundo que substituiu a vida superior pelo gozo material (Minos-Pasífae) e pela ciência com seu subproduto, a tecnologia (Dédalo, o inventor e artista). As touradas, como as tínhamos em Creta e as temos até hoje, são uma expressão do que aqui se coloca: ao invés de questionarmos a nossa besta interior, nós a matamos exteriormente. Sacrificamos um animal através de um mediador (toureiro), no qual nos projetamos, e com isto nos sentimos dispensados de fazer qualquer sacrifício interior.

Nos taurinos, de um modo geral, encontramos uma grande propensão para o trabalho, para a produção de bens materiais. Por isso, são grandes neles o apelo da sensualidade e o instinto de
EROS E VÊNUS  (LORENZO LOTTO)
conservação. O signo é governado pelo planeta Vênus, como criador de formas. Touro simboliza na natureza a condensação da energia representada por Áries, o signo anterior. No geral, em Touro predomina a paz, o prazer dos sentidos, os valores de uma Vênus carnal, vibrante de emanações terrestres. Muito ligado ao verde, sua cor, o taurino, no geral, gosta da natureza, dos campos, dos pomares, dos parques, das praias, que servem para abastecer a sua sensorialidade.

Se Áries é signo dominado por astros masculinos (Marte e Sol), em Touro predominam astros femininos, Vênus e Lua. Daí a grande
tendência do taurino de buscar, nas suas expressões mais concretas, a horizontalidade, a largura, a ocupação do espaço (muitos taurinos têm “horror” ao vazio). Os móveis taurinos têm sempre uma boa base ou pés fortes que os sustentem. O simbolismo da mesa, como fica fácil entender, faz parte do mundo taurino, pois nela comemos, nela trabalhamos, nela calculamos, nela expomos coisas. É desse cenário tudo o que serve para guardar: arcas, baús, armários, guarda-comida, cofres, malas, gavetas com muitas divisões etc.

Na estrutura psíquica dos taurinos se destaca a secundariedade; os impactos das impressões recebidas tendem a permanecer, a durar, o que os transforma muitas vezes em verdadeiros “ruminantes psíquicos”. Daí, a fidelidade, a constância, a paciência, a perseverança, a teimosia, o rancor e as explosões. A secundariedade faz com que o taurino conserve por muito tempo as impressões recebidas. Os acontecimentos deixam nele marcas, sulcos, que o tornam muito dependente do passado (Lua). Por isso, o taurino persevera tanto na dedicação como no ressentimento. As impressões acumuladas, é muito comum, podem explodir repentinamente, o que às vezes o torna um enigma para as pessoas à sua volta. A secundariedade será mais notável se no mapa houver outros planetas em terra, os pessoais principalmente, ou um Saturno dominante.

Os instintos taurinos estão ligados essencialmente à captação, à absorção (daí a importância da boca da região do pescoço, esta a primeira e mais importante das articulações do corpo humano). Pode-se dizer que o taurino é um instintivo oral, cheio de cobiças digestivas que podem levá-lo a adquirir, a conservar e a aproveitar o mais intensamente possível tudo o que foi absorvido. Nos tipos taurinos, mesmo nos mais bem logrados, encontramos uma espécie de sensorialidade pré-racional voltada no geral para todos os apelos terrestres, para os encantamentos da vida dos sentidos, desenvolvida através de verbos como tocar, apalpar, reter, acumular, uma paixão sensual enfim que tanto dá segurança como subjuga

Em Touro, começa a necessidade. Ideias de quantificação, de limite, de valor, de densidade, de cálculo, de remuneração. As
operações numéricas taurinas estão representadas pela soma, pela   acumulação, pelo investimento seguro (terras, imóveis), operações sempre orientadas pelo seu talento construtivo. Nas expressões inferiores, os taurinos se relacionarão com a avareza, com o conservadorismo, com a possessividades, com a usura, a sovinice, com a inércia, com a inveja.

Diz-se que há três tipos de taurinos: vaca, boi e touro. O primeiro é plácido, maternal, lento, linfático, liga-se muito à comida, gosta de viver sob a proteção de alguém que lhe garanta a subsistência, sendo muito fiel por isso. Sua dominante é fria (Lua-Saturno). O tipo boi é trabalhador, rotineiro, conservador, prefere sempre a segurança a qualquer tipo de risco. Estes dois tipos são propensos à taciturnidade, à melancolia e mesmo ao pessimismo. O terceiro tipo tem uma dominante quente (Marte, Júpiter, Sol, Urano). Seus verbos são construir, levantar, dar forma, conservar, manter, preservar para transmitir às gerações futuras. É hiperemotivo, otimista, excitável, de cóleras temíveis, propenso aos excessos e às explosões.

A constelação de Touro estende-se no zodíaco de 17º Touro – 23º
ALDEBARAN E O SOL
Gêmeos. Ptolomeu atribuiu às estrelas próximas da cabeça (exceto Aldebarã), influências saturninas e parcialmente mercurianas; as que estão nas pontas dos chifres, influências marcianas; as demais, as de Vênus e Saturno. O astrônomo-poeta Marcus Manilius (séc. I dC) apelidava a constelação de Dives Puellis (Rica em Donzelas), uma clara referência às Plêiades e às Híades, grupos de estrelas (asterismos) que dela fazem parte.

A principal estrela de Touro é Aldebarã, alfa, hoje a 9º05´ Gêmeos. Gigantesca, alaranjada, é quarenta vezes maior que o nosso Sol. Era esta estrela chamada pelos para os árabes de A Seguinte, uma das quatro grandes estrelas reais dos persas desde 3.000 aC. Ela está no olho direito  (sul) de Touro e tem características marcianas. Era também chamada de A Guardiã do Leste, marcando o início da primavera quando Touro assumiu a condição de equinocial. Esta estrela aparece citada no segundo trabalho do nosso herói: ele conseguiu localizar o animal enlouquecido na escuridão das florestas por uma estrela semelhante que havia em sua fronte.

Com Aldebarã destacada no mapa, temos propostas de sucesso, de benefícios materiais, mas, ao mesmo tempo, de dilemas morais, de desafios sob o ponto de vista ético, que poderão pôr tudo a perder. Outra estrela (beta) de Touro é El Nath, a 21º53´Gêmeos, situada no chifre norte. A palavra quer dizer, em árabe, o que fere, o que mata. É a ponta do chifre voltada para o ataque. É muito destrutiva. O mapa de Henry Kissinger, um dos maiores assassinos na história da humanidade, permite um bom estudo das influências nefastas desta estrela.

As Plêiades estão situadas nos “ombros” do animal; situam-se no final do signo, podendo ser tomada como longitude média a de sua
principal estrela, Alcyone, a 29º18´ Touro. Além de Alcyone, temos mais seis estrelas: Maia, Electra, Mérope, Taigete, Celeno e Estérope, personagens importantes do mito grego. Desde a pré-história, este grupo de estrelas alimentou a criação de várias histórias míticas nas mais diversas civilizações, em todos os continentes. As Plêiades, com Alcyone (A Paz) à frente, a mais importante, sempre foram vistas como uma espécie de Sol central da Via Láctea.      

A título de curiosidade, lembro que a palavra plêiade passou do mundo greco-alexandrino para o francês medieval e deste para o nosso léxico com o sentido de uma reunião de pessoas ilustres. Na literatura, o nome foi dado a grupos de sete poetas considerados como uma constelação poética. Esta designação foi aplicada pela primeira vez a sete poetas alexandrinos na época de Ptolomeu Philadelpho (séc. III aC). No ano de 1.328, o nome foi aplicado a sete poetas e sete poetisas da região de Toulouse, França. No séc. XVI, o nome voltou a ser usado, designando um grupo do qual faziam parte os poetas Ronsard, Joachim du Bellay e outros.

As Híades, filhas do titã Atlas no mito, formam um pequeno grupo de estrelas situado na testa do animal, onde está Aldebarã, cuja longitude é usada para determiná-las. Nunca tiveram muita importância. Entretanto, seu aspecto nebuloso sempre teve destaque na mitologia, principalmente a grega. Homero já as mencionava. Desde a antiguidade sempre apareceram ligadas à chuva, ao elemento líquido, a tempestades, o que se devia ao fato de seu nascimento heliacal, naqueles tempos.

Entre os gregos, a palavra Híade admite duas etimologias: a) do verbo hyen, chover. b) do substantivo hys, porca, pois a principal estrela vizinha ao grupo é Aldebarã, que vive cercada de estrelas menores e de pouco brilho, o que dá uma ideia de uma porca alimentando os seus filhotes. As Híades são estrelas de nona magnitude, distando da Terra cerca de 150 anos-luz. Já as Plêiades estão a 50 anos-luz. 

A era cósmica de Touro se estendeu mais ou menos de 4.000 a 2.000 aC (matematicamente, entre 3.822-1.662 aC), Foi durante esse período que na história da humanidade se evidenciou, como jamais acontecera, o simbolismo do touro para representar as forças fecundantes do mundo natural e cristalizadoras de formas,
APIS
ocorrendo nessa era a unificação do Alto e do Baixo-Egito. Quando Menés, o primeiro faraó egípcio historicamente determinado, promoveu essa unificação, ele a fez em nome do culto ao deus Hapi ou Apis (transcrição grega), deus representado por um de touro. Este culto estava centralizado em Mênfis, onde aparecia associado ao deus Ptah, deus dos artesãos e dos artistas, identificado pelos gregos com o seu Hefesto.

Numa grande síntese religiosa, os egípcios ligaram o touro, ao mesmo tempo, a ideias de fertilidade, de morte e de renascimento. É sob esta perspectiva que aparece entre os gregos o deus Dioniso, ligado ao signo de Touro. Animais como o touro e o bode, como se sabe, faziam parte do bestiário do deus, aparecendo ambos como vítimas propiciatórias no seu culto. Deus das forças incontidas do mundo natural, da vinha, da exuberância da vida vegetal e animal, Dioniso era, por excelência, o deus renovador, o deus das metamorfoses. Seu culto significou, com base nestas ideias, uma das maiores tentativas feitas pelo homem grego no sentido de destruir as prisões materiais nas quais ele mesmo se encerrava (Mistérios de Eleusis). “Sacrificar o touro” era a expressão que então se usava para designar a busca de uma vida na qual as paixões materiais não pesassem tanto ou fossem contidas.

Foi durante a era de Touro, em toda a antiguidade, que o touro, como grande totem, apareceu muitas vezes unido ao da vaca sagrada, no Egito, na Índia, na Pérsia, entre os assírios, babilônicos, caldeus, nórdicos, e muitos outros, inclusive para os povos que vivem na região equatorial da Terra. É bom lembrar que o mais importante objeto celeste para os indígenas do norte do Brasil estava localizado na constelação de Touro, o asterismo das Plêiades. Por ele se anunciava a chegada da primavera e tudo começava a se renovar.

Está hoje comprovado, por exemplo, que foram as três estrelas do chamado cinturão da constelação de Orion/Osíris, Mintaka, Alnilan e Alnitaka, que serviram de base para que os construtores reais alinhassem e definissem a posição das pirâmides de Keops, Kefren e Mikerinos. Por volta de 6.500 aC, a constelação de Orion/Osíris
ORION
marcava o início do equinócio da primavera; era, como tal, uma constelação heliacal, que vinha com o Sol, precedendo-o. Pelo fenômeno da precessão dos equinócios, cerca de dois milênios depois Orion/Osíris começou a perder esse status. Essa perda, como se sabe, significou uma profunda mudança na religião egípcia. No mito, Osíris foi “assassinado” por seu irmão Seth, mas tendo ressuscitado por artes de Ísis, sua irmã e esposa, desceu ao mundo dos mortos, onde pontifica como deus dos renascimentos.

O lugar de Osíris foi assumido por Hórus, seu filho; com ele, a constelação de Touro se transformou, por volta de 4.000 aC, no marco inicial do equinócio da primavera. Durante este novo período equinocial, a passagem de Orion para Touro, apareceram no mundo antigo muitas divindades sob a encarnação taurina. Urano, Zeus e Poseidon, na mitologia grega, aparecem em muitas histórias sob a forma taurina. O deus fenício chamado “pai dos
TAUROBOLIUM
homens” tinha o título de El, palavra que quer dizer touro. É neste contexto que, mais tarde, a cerimônia do taurobolium (sacrifício do touro, batismo com o seu sangue), com Mitra, herói solar e militar (muito sedutor para as legiões romanas), nos sinalizará que uma nova era estava se aproximando (era de Áries: 1.662 aC – 498 dC). Com esses novos tempos, uma polaridade sexual, psíquica e religiosa logo se instalou entre o feminino (touro) e o masculino (cavalo), enquanto a figura do primeiro evocava tanto o aspecto maternal da natureza (grandes-mães) como as suas temíveis manifestações.

Não será possível encerrar esta nossa digressão sobre o segundo trabalho de Hércules e a constelação de Touro sem uma referência explícita a uma constelação que deve ser sempre citada quando se fala do segundo signo zodiacal. Refiro-me à constelação de Perseu
CAPUT MEDUSAE
(8º Touro – 8º Gêmeos), principalmente por causa de sua estrela beta, Algol (25º28´ Touro), chamada pelos árabes de Ras-al-Ghul (Caput Medusae), cujas influências, atestadas desde a mais remota antiguidade, falam de paixões devoradoras, violentas, intensas. Essa estrela pressupõe a liberação de formas de energia, que podem tomar um caminho altamente destrutivo ou construtivo. Lembro, por exemplo, numa expressão positiva, que Albert Einstein tinha Algol culminando com o seu Júpiter. Foi através de seus trabalhos que o homem aprendeu a liberar o tremendo poder contido nos átomos. Adolf Hitler, outro exemplo, tinha esta estrela se pondo, juntamente com o seu Sol.